quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

No carnaval de São João del-Rei 2016, mais uma vez. "o samba agoniza mas não morre".

Será o samba como um pássaro mitológico, que quase sempre voa alto e gorjeia soberano, mas de vez em quando murcha as asas, perde as penas, apaga o brilho, engole em seco, cai o bico e cochila sem ânimo nos recantos mais sombrios? Em São João del-Rei, cada vez mais tem sido assim.

Antigamente, carnaval era magia, alegria, fantasia. Subverter a ordem e a rotina com um reino imaginário de beleza, realeza, cor, soberania de três dias em que esquecia a monotonia cinzenta do dia a dia. Mal acabava a festa de São Sebastião, no dia 20 de janeiro, carnavalescos, compositores, desenhistas, figurinistas, costureiras, artesãos - todos davam asas à imaginação e, em pensamento e ação, já começavam a gestação do que alegraria os são-joanenses na semana que antecedia a famosa Terça-feira Gorda. Durante muito tempo foi assim.

Há mais de cem anos, corsos, cordões, Zés-Pereiras, desfiles de automóveis enfeitados, Club XPTO, Bloco do Boi, Lua Nova, Príncipe da Lua, Custa Mas Vae, Bate Paus - muitos de nós ouvimos de nossos pais e avós lembranças dos velhos carnavais do início do século passado, inclusive com pitorescas fotografias da de nossos antepassados, fantasiados como mandava a tradição: ciganas, pierrôs, palhaços, colombinas, índios, sultões, presidiários, baianas, odaliscas, havaianas, negas malucas, enfim, tudo o que desse na telha do desejo, do sonho e da imaginação.

Na cadência do samba vieram agremiações carnavalescas e escolas de Samba  de nomes muito inusitados e pitorescos: Depois Eu Digo, Qualquer Nome Serve, Irmãos Metralhas, São Caetano, Milionários do Ritmo, Acadêmicos do Rítmo, Largo da Cruz, São Caetano, entre outros de vida mais curta. Isto sem esquecer dos irreverentes Bloco da Alvorada, Pão Molhado e os Caveiras.

No embalo, surgiram blocos espontâneos, estilo vai quem quer, como o Lesma Lerda, Vamos a la Playa, Domésticas, As Piranhas, Deixe o Mundo Girar e outros inspirados nas torcidas de futebol, grupos de amigos de bairro, repúblicas de estudantes e por aí segue. Por várias qualidades destacados, deixaram suas marcas, na última década, os blocos Carnaval de Antigamente e Recordar é Viver.

É sempre um espetáculo maravilhoso e sem par, que invade alma a dentro e faz tremer o coração, quando as escolas de samba são-joanenses se concentram e iniciam seus desfiles no Largo do Rosário e no Largo do Carmo, enchendo as ruas estreitas de carros alegóricos, passistas, baianas, capoeiristas, ritmistas, cabrochas e todo tipo de maciez e brilho, plumas, veludos, lamês, lantejoulas, vidrilhos, paetês, ao som de baterias estonteantes.

Pelo que se ouve, em 2016 os são-joanenses serão privados desta emoção e deste espetáculo de alegria, arte e, por que não?, de felicidade. Uma pena. Em tempos tão difíceis, restritivos, desesperançosos e até mesmo indesejáveis, o que não pode faltar é alegria.Como cantam os Titãs

               "A gente não quer só comida
                 A gente quer comida                 Diversão e arte                 
           A gente não quer só comida                 A gente quer saída                 Para qualquer parte...
                 A gente não quer só comida                 A gente quer bebida                 Diversão, balé                 A gente não quer só comida                 A gente quer a vida                 Como a vida quer...
                 A gente não quer só comer                 A gente quer comer                 E quer fazer amor                 A gente não quer só comer                 A gente quer prazer                 Prá aliviar a dor...
                 A gente não quer                 Só dinheiro                 A gente quer dinheiro                 E felicidade                 A gente não quer                 Só dinheiro                 A gente quer inteiro                 E não pela metade..."


terça-feira, 24 de novembro de 2015

São João del-Rei. Dentro do tempo tem Tempo. Do colonial ao barroco digital


Não é raro, aqui, ali e acolá, encontrar são-joanenses chorando pelo leite derramado. Desqualificando gratuitamente a cidade como patrimônio da cultura brasileira, pelo que se perdeu de sua paisagem urbana colonial e imperial. Mas também tem gente séria, sábia e comprometida refletindo produtivamente sobre esta situação.

É verdade, muito se perdeu, e a responsabilidade começa com o Estado, que não foi competente o bastante para agir, tanto com medidas protetoras quanto com ações convictas e enérgicas para impedir - e no que fosse possível e adequado reparar - demolições e descaracterizações. Mas a comunidade também tem grande parcela de culpa. Ignorante do valor da tão vasta riqueza histórico-patrimonial que era de sua propriedade, deixou-se enganar pelo canto da sereia da então modernidade do século XX, não zelou e destruiu muitas edificações que eram tão valiosas.

O mundo evolui, as cidades crescem, surgem novas necessidades urbanas e humanas e, se de lado nenhum vier inteligência, diretriz, conhecimento técnico e sensibilidade, é natural que muito do que é retrato do passado escorra pelos bueiros, Córrego do Lenheiro embora. Foi isto o que aconteceu. É isto o que, hoje, se tenta evitar. Mas em menor escala ainda acontece.

Simplesmente lamentar o que se foi, sem nenhuma contribuição a oferecer não leva a nada. Pelo contrário, acaba sendo uma atitude derrotista leviana, que fragiliza ainda mais o esforço para preservação do que ainda existe. As perdas, as agressões e os prejuízos à memória não podem ser esquecidos, mas precisam transformar-se em consciência em favor da proteção do que sobreviveu e do que ainda pode melhorar. E até em projetos voluntários concretos, como foi, por exemplo, a construção da capela do Divino Espírito Santo.

Uma ajuda poderosa tem vindo mediada por alguns recursos de comunicação e compartilhamento de informações, ideias, preocupações  e sentimentos muito atuais: a tecnologia digital e as redes sociais. Isto porque são-joanenses das mais diferentes idades e níveis social, econômico e cultural, simplesmente tendo à mão um smartphone, estão instrumentalizados e empoderados para fotografar e publicar no Facebook as belezas culturais de nossa cidade.

E fazem isto tanto em comunidades e grupos específicos quanto em perfis pessoais, utilizando o ambiente digital para divulgar também, às vezes até comparativamente, os dois momentos de São João del-Rei. De um lado paisagens, edificações e cenários que desapareceram, por força do tempo e pela inércia ou inadequada ação humana e de outro lado o que ainda hoje é motivo de orgulho de quem gosta de nossa cidade. Incluindo nisto tudo o patrimônio imaterial - das procissões e concertos eruditos até expressões populares, como personagens comuns e manifestações da cultura de nosso povo.

Alguns são-joanenses também utilizam os blogs pessoais ou institucionais como veículo útil para o registro, resgate e divulgação da história são-joanense. Artigos, fotos, vídeos, comentários, depoimentos, transcrição de documentos - tudo isto pode ser encontrado nos canais criados para valorizar e difundir a cultura de São João del-Rei.

Levantamento e catalogação deste universo, seus canais, protagonistas, estratégias, interesses e objetivos, merecem atenção e realização conjunta da Secretaria Municipal de Cultura com o Departamento de Comunicação da Universidade Federal de São João del-Rei. Os registros contemporâneos do tempo presente, à luz de um diálogo com velhas imagens, lembranças, crenças e documentos do passado são referências importantes para atuar no presente, com vistas no futuro.

Foto e texto: Antonio Emilio da Costa



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O enigmático, misterioso e encantador aniversário dos cemitérios de São João del-Rei


Alguém já ouviu falar que cemitério faz e celebra aniversário? Pois é, em São João del-Rei isto acontece.

O que é popularmente conhecido pelos são-joanenses mais ligados às tradições litúrgicas coloniais como aniversário do cemitério é a cerimônia que a igreja local denomina Missas Aniversárias dos Cemitérios.

Esta celebração, que se repete sete vezes em diferentes dias, consiste em uma Missa de Réquiem, ofício de responsórios e marchas fúnebres, executados pelas bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense ou Ribeiro Bastos. O repertório é composto por obras de compositores são-joanenses dos séculos XIX e XX, destacadamente o padre José Maria Xavier, Luiz Baptista Lopes, Emídio Machado, João Feliciano de Souza, Pedro de Souza, Benigno Parreira e Geraldo Barbosa de Souza.

Após esta missa, na igreja que é sede da Irmandade homenageada, os "irmãos" saem em procissão até o cemitério da referida Irmandade, onde o padre faz orações fúnebres, abençoa os presentes e pede a Deus pela alma dos "irmãos" falecidos.

Interessante observar que nestes dias é feita uma ambientação especial, fúnebre, nas igrejas onde começará a celebração. No corpo da igreja, pouco antes do arco-cruzeiro que é a grande porta da capela-mor, é disposto um tapete retangular preto de veludo ou tecido adamascado, engalanado ou com franjas douradas, tendo ao centro, vistosamente bordada, uma grande cruz dourada ou amarela. Cada ponta do tapete  é guarnecida por um castiçal alto, de vela acesa, como se fosse receber um caixão para missa de corpo presente ou encomendação.

A ordem destes "aniversários" tem como referência o dia 2 de novembro, que é o Dia de Finados, e, a contar desta data, é a seguinte:

1a segunda-feira - Irmandade de São Miguel e Almas
1a quarta-feira - Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte
1a quinta-feira - Irmandade do Santíssimo Sacramento
1a sexta-feira - Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos

12 de novembro - Ordem Terceira de São Francisco de Assis

15 de novembro - Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e Irmandade de São Gonçalo Garcia

16 de novembro -Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos

17 de novembro - Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês

Veja, no vídeo abaixo, a bela cantata fúnebre BWV 198: Laß, Fürstin, laß noch einen Strahl "Trauerode" (composta em 17 de outubro de 1727, por J.S. Bach)


Texto e foto: Antonio Emilio da Costa



sábado, 31 de outubro de 2015

Um rosário de flores, graças e favores para o povo de São João del-Rei


Em São João del-Rei, o mês de outubro não poderia terminar de um modo que não fosse celestial. Com uma majestosa procissão, que nos remonta a 1708, quando nesta terra foi fundada a primeira Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Minas Gerais. Entre os historiadores que se debruçam sobre o culto a Nossa Senhora do Rosário no Brasil, no século XVIII, existe uma dúvida se a irmandade são-joanense é a segunda ou a terceira mais antiga do país.

Como é tradição na cidade, desde o cedo o sino do Rosário de tempos em tempos dobra festivo, anunciando que é um dia especial. Na missa cantada, a música fica por conta da Orquestra Lira Sanjoanense - a mais antiga das Américas em ininterrupta atividade desde a sua fundação, em 1776.

Barroquíssima ao extremo, a imagem da madona encanta. Generosa, sublime, materna, acolhedora, terna, solidária, complacente, cordiosa, divina, diáfana, humana e até mesmo idílica. Tudo isto, olho a olho, ela transmite aos devotos que vão visitá-la.

A igreja do Rosário, erigida em 1719, é tão simples quanto graciosa, e tudo isto sem nenhum douramento. Apenas suaves tons de azul e rosa, na roupa dos anjos e arcanjos que em adoração voam em volta da virgem no altar-mor. Se na igreja do Rosário alguma coisa realmente brilha, é o olhar. O olhar de Nossa Senhora, o olhar dos santos, o olhar dos anjos adoradores e, sobretudo de fé e deslumbramento, o olhar dos fiéis.

A ornamentação do templo é magnífica. Nuvens de flores suaves, harmônicas e bem compostas, são como os favores e as graças que Nossa Senhora do Rosário e seu Menino Jesus destacam do imenso e sem fim rosário e distribuem de coração a todos que a eles recorrem.

E são muitas contas, e são muitas flores, e são muitas lágrimas, e são muitas dores, e são muitas graças, e são muitos favores...

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Danilo Gallo (cortesia)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Ora iê iê ô, Oxum! Ora iê iê ô, São João del-Rei!

São João del-Rei nasceu do ouro. Foi este metal dourado que - assim como a Estrela Guia levou os Reis Magos até a gruta de Belém - atraiu os bandeirantes, os aventureiros, os forasteiros e o poder português, fazendo brotar aqui o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Aqui o ouro foi esplendor que reluz até hoje...

Se o ouro foi a semente fértil do velho Arraial, São João del-Rei é, também, filha de Oxum - yabá das mais belas e nobres das religiões brasileiras de matriz africana. Oxum é a essência feminina em sua forma mais delicada, encantadora, amorosa, maternal. Rainha, é dona do ouro e de tudo o que é dourado. Mulher, é mãe da infância e da doçura. Natureza, vive na água doce que cai em cascatas e cachoeiras. Etérea, é senhora do dia e da noite de astros brilhantes.

Talvez por desconhecimento deste laço original e pelos rumos que historicamente tomou a presença negra nesta região, em São João del-Rei não se realizam homenagens coletivas a Oxum. Seu culto acontece no interior dos barracões, terreiros e tendas que praticam a religiosidade afro-brasileira em suas diversas vertentes, cada qual com seu ritual próprio, composto por toques, cantos, movimentos, flores, perfumes e comidas peculiares.

Como por exemplo o que acontecerá no próximo sábado, dia 31, às 19 horas, na Associação Afro-brasileira Casa do Tesouro – Egbe Ile Omidewa Ase Igbolayo, no alto do bairro Guarda-Mor, à Rua Vereador Vicente Cantelmo, 875.

Por todas as suas energias e características suaves, férteis, afetuosas, generosas, belas, pródigas, estéticas, harmoniosas, inspiradoras e benfazejas, Oxum é um dos orixás que mais prestígio, admiração e carinho recebe dos brasileiros. Assim como ela se alegra com flores, perfumes, espelhos e outras coisas que evidenciam bondade, requinte, suavidade, bom gosto e conforto, seu ritmo preferido é o Ijexá, dançado inclusive fora do contexto religioso, em festas populares onde se celebra a alegria de viver e se reverencia a grandiosidade da alma negra.

Se você quer saber um pouco mais sobre o Ijexá e até se arriscar a tocar o ritmo, preste a atenção nesta oficina.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Novos tempos, novas mulas sem cabeça assombram São João del-Rei


Uma rua estreita, sinuosa, com subida e descida, no centro da cidade, tendo na metade uma pedreira angulosa e no alto dela um cruzeiro bicentenário, erguido no tempo em que mulas sem cabeça corriam noturnas a horas ermas e mortas, aterrorizando a todos com suas línguas de fogo.

Talvez, superando interrupções, uma continuidade da Rua Santo Antônio – caminho dos bandeirantes, escravos, libertos e aventureiros, no alvorecer do século XVIII, atravessando a Vila de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes rumo à Rua do Fogo e à Rua do Barro Vermelho.

Paralelo a uma ponta da avenida principal, o lugar foi batizado com um nome estranho, que os índios tupis falavam para referir-se a uma árvore de grandes e polpudas vagens. No seu começo, tem um alto muro de arrimo de pedras aparentes que em certas épocas do ano mais parece uma cascata de samambaias, musgos e liquens. No seu final, uma cruz alta, fina e simples, fincada em uma pequena pedra, sem os estigmas mas com a tabuleta J.N.R.J., permanentemente enfeitada com flores de plástico coloridas. Ao seu pé, ora às segundas-feiras, ora às sextas-feiras, às três da tarde as mulheres rezam o terço. Ali também para e canta, na Quaresma, a Encomendação de Almas que sobe do Quicumbi.

De lá se ouve bem o toque dos sinos, o  apito da maria fumaça, a sirene da fábrica, e até se vê, bem escuras, as nuvens de fumaça e cheiro de óleo queimado que o trem de ferro suspira. Nas duas cruzes daquele caminho param, rezam e cantam, na meia-noite de uma sexta-feira da Quaresma, a Encomendação de Almas que sobe do Quicumbi.

- Que lugar é este; ele existe de verdade?
- Existe, é o Pau d’angá!

Hoje nem sempre o chamam assim. Sem a natural espontaneidade, foi denominado Rua Carvalho de Resende. Mulas sem cabeça, não tem mais. Ali, noite e dia, o medo agora é outro. Caminhante daquela via, o professor, escritor e poeta Hélio da Conceição Silva, assim o manifesta, especialmente para este Almanaque Eletrônico:

“ Modesto de Paiva escreveu
sobre as assombrações
que rondavam o Pau D’Angá.
Mas hoje o que de fato assombra
Quem passa por lá
Rua Carvalho de Resende
Que é o nome do lugar
É a velocidade excessiva
Dos muitos automotores
Que trafegam por lá!”

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Parodiando Carlos Drummond, São João del-Rei é apenas um retrato na parede?

Há décadas atrás era comum em São João del-Rei pensar que o moderno era inimigo do antigo. Que as novidades tinham vindo e se alastravam para apagar todas as marcas do passado. Mesmo falso, este pensamento refletia uma visão simplista da evolução da história local, no caso específico da arquitetura são-joanense, que das casas de pau-a-pique, cobertas com capim, do Arraial Velho de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, até os sobradões imperiais e os edifícios art noveau, não foram poucas as vezes em que a mais nova custava o sacrifício da mais velha. Se por um lado isto deu à cidade uma face bastante heterogênea e diversificada na paisagem de sua arquitetura, por outro é como se fosse uma história contada em capítulos, cada um falando de seu tempo, por meio de fachadas, sacadas, volumes, ferragens, estuques, cancelas e aldabras. Pena que cada novo capítulo era escrito apagando partes dos capítulos anteriores

Hoje sabe-se que o moderno pode, deve e quase sempre é amigo do antigo. Que o carrasco do antigo, antes de ser o estilo arquitetônico que lhe substitui ou sobrepõe, é a mentalidade antiga que, para a perda do patrimônio nacional, ainda existe, resiste e persiste, em São João del-Rei e em quase toda parte onde existem riquezas culturais legadas pelo tempo passado.

Em toda terra que é rica de patrimônio cultural, notadamente o arquitetônico, onde a educação patrimonial é débil, onde o poder econômico descomprometido, sedioso e ignorante, desconhece, desvaloriza e destrói a riqueza do passado e o Estado é desinteressado e frouxo no seu papel de garantir a preservação e a perpetuação de todas as formas de patrimônio material e imaterial que constituem a história do lugar.

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Valei-nos Nossa Senhora do Rosário! Sorri com bondade para os congadeiros de São João del-Rei



Mesmo ficando meio à margem da cultura oficial são-joanense, algo como o primo pobre das nobres tradições coloniais, o congado, ou congada, como alguns preferem, é uma manifestação cultural forte em nossa região, principalmente nos bairros mais afastados e nos distritos de São João del-Rei.

Não se precisa de nenhum esforço para entender porque isto acontece: basta relembrar a condição social do povo que introduziu este produto cultural na região: negros africanos, escravizados, que viviam à margem do sistema político-social. Na economia eram apenas a força bruta; para a religião vigente, no começo havia dúvida se sequer tinham alma. Ainda hoje ainda não são os negros são-joanenses que possuem visibilidade destacada na sociedade local que compõem os grupos de congado. Congado exige alma negra, exige fé autêntica e natural, exige crença, convicção e coragem. Se não for assim é folclore, folguedo, espetáculo e diversão.

Mesmo que não se dimensione, a região de São João del-Rei tem muitos grupos de congado - que nos diga o Superintendente de Cultura e congadeiro Ulisses Passarelli - nos bairros mais afastados, na periferia e nos distritos, principalmente no de Caburu, que depois rebatizaram São Gonçalo do Amarante, e no do Rio das Mortes.

O congado do Rio das Mortes, inclusive, se orgulha de ostentar uma idade e um título: foi criado no fím do século XVI, e portanto tem quase 350 anos, e é um dos mais antigos, se não for o mais antigo, de Minas Gerais. Isto, inclusive, foi reconhecido pela imprensa regional no canal G1, em uma matéria veiculada neste fim-de-semana.

Mas o congado do Rio das Mortes tem ainda mais coisa do que se orgulhar. Os pais cultivam no coração dos filhos, desde a pouca idade, o amor congadeiro, e lhes transmitem como herança esta cultura ancestral. No Caburu, em São Dimas e em outros lugares onde o congado sempre revigora quando é tempo de Nossa Senhora do Rosário isto também acontece: lutando contra a modernidade da televisão, da cultura de massa e da internet, os pais tentam manter acesa no coração dos filhos a chama do amor congadeiro, que é a seiva do passado e a estrela da ancestralidade.

Sem a fé, sem a crença, sem a convicção e sem a coragem dos antepassados, que são os amuletos do Congado, a chama se apaga. A seiva, que é sangue e água, seca. A estrela perde o lume. O negro de hoje fica desnorteado de sua cultura original e genuína, equivocado e iludido pelo canto da sereia escrito na pauta dos códigos de barras.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Ilustração: Foto G1

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nossa Senhora do Pilar e seu coração de ouro, batendo dourado no peito de São João del-Rei


São João del-Rei, 12 de outubro.  Em 2015, pouco depois das seis da manhã, todos os sinos já dobram em conjunto. Começam, em matinada, o concerto sonoro da alvorada de Nossa Senhora do Pilar - padroeira e madrinha da cidade, irmã da espanhola Zaragoza, onde a Virgem apareceu ao apóstolo São Tiago.

Toques de sino o dia inteiro, alfaias, velas, cortinas vaporosas, chuvas de flores, aromas, tapetes de pétalas e areia colorida, música da Orquestra Lira Sanjoanense, foguetes, banda de música, fogos de artifício. São João del-Rei é vida, fé e festa no dia 12 de outubro.

Hoje menos do que antes, antigamente São João del-Rei era ainda mais festiva no dia 12 de outubro. Em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, ao meio dia todas as casas - principalmente as mais humildes, dos recantos, bairros periféricos, dos altos e encostas - soltavam uma artilharia de foguetes, em meio a velas acesas, incenso em brasa e a voz da Rádio Aparecida do Norte, bradando a imaculada consagração.

A indústria cultural, tecnológica e digitalizada, povoou o mundo de simulacros, desterrou a simplicidade da alma, desalmou sentimentos puros. Secou o orvalho da esperança, ofuscou o brilho do olhar, condensou a brisa dos pulmões, transformou em neon a luz dos arco-íris, criou vácuos de existência.

Mas os sinos insistem e dobram. Tapetes coloridos de areia e serragem se estendem dos dedos dos jovens, de homens de vida bruta e alma pura. Das rendilhadas sacadas de ferro a primavera chove flores e exala perfume. Velas se acendem na luz das estrelas. A banda toca e a orquestra de anjos canta antífonas de antigamente.

Nossa Senhora do Pilar sai às ruas com sua coroa e cetro de ouro, catado na Serra do Lenheiro; o menino Jesus, desnudo, sorri pureza em seus braços. O céu se espalha colorido e feliz no chão de São João del-Rei. Todo dia 12 de outubro...


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

As coisas boas de São João del-Rei 10 - Barteliê: o que você não espera, ali espera por você!



Em São João del-Rei tem uma via que começa no século XVIII e leva gente, jovem e sorridente, do século presente,  aos anos setenta do século que ficou para trás. Tudo atravessando as três portas do Barteliê. Assim como o nome é uma mistura inusitada das palavras Bar e Ateliê, a proposta artístico-etílico-gastronômico-musical também é ousada: um bar fundido com uma galeria de arte e artesanato, onde se ouve a música que ninguém espera. Jazz, blues, mpb, chorinho, samba, clássicos, grandes nomes, inéditos, desconhecidos, alternativos, música autoral. Tudo cabe no Barteliê.

Bob Dylan, Janis Joplin, James Taylor, Joan Baez, Beatles, Egberto Gismonti, Sivuca, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Tropicália, Clube da Esquina, Samba, Forró: Tudo a seu dia se ouve no Barteliê. Melhor dizendo, tudo à sua noite, pois o bar sempre abre quando o sol se esconde.

Aquela rua, outrora, foi mal-afamada, mal-dita, de tanto que nela moravam o prazer, a alegria e a diversão, amamentados por mulheres risonhas, morenas de cabelos longos, largos, fartos e fundos decotes nos vestidos estampados de colorido forte como o perfume que usavam no cair da noite. Mulheres e perfumes damas da noite...

O tempo passou, as mulheres se foram, a rua caiu em decadência, quase virou ruína. Mas aos poucos está recuperando seu vigor e gosto; a alegria, a diversão e o espírito de festa de novo nela estão fazendo morada, nutridos pelo sereno da noite e pela seiva da arte. Principalmente da música.

Aquela que antes se chamou Rua da Cachaça ainda hoje guarda o antigo nome, mas agora é também a rua do vinho e da cerveja. Entretanto, a aguardente ali ainda reina soberana. afinal, quem foi rei sempre será majestade...

O Barteliê é lugar de todos, território para todos, menos para gente metida a besta. Tudo ali é tão espontâneo, jovial e viçoso que não há lugar para não-me-toques, você sabe com quem está falando e tais. Mas todo mundo sabe com quem está falando e, por isto, educação e respeito é o que não faltam. Por favor, obrigado, pois não, com licença o tempo todo se ouve, inclusive entre os passos e os bailados que movimentam os jovens na rua de paralelepípedos, quando é impossível resistir à sedução que vem da música tocada ao vivo.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Barteliê


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Setembro: um mês inteiro de festa, fé e flor em São João del-Rei


Mesmo que não se explicite, setembro é um dos meses mais ricos da cultura religiosa barroca de São João del-Rei. Desde o dia primeiro até o dia 30, são 44 atividades, entre novenas, ofícios, tríduos e procissões, divididas em oito grandes grupos:  Bom Jesus dos Montes, Bom Jesus de Matosinhos, Bom Jesus do Perdão, Santa Cruz e Nossa Senhora das Dores, as Chagas de São Francisco, Nossa Senhora das Mercês, São Miguel Arcanjo e morte de São Francisco.

Programação tão vasta envolve as paróquias do Pilar (Matriz e Mercês), de São Francisco, do Senhor dos Montes e de Matosinhos, o que possibilita que muitas vezes dois ou três eventos sejam realizados no mesmo dia,

O espírito barroco é tão presente na alma do povo são-joanense que, vencendo os desafios de uma modernidade pasteurizadora e sufocante, as celebrações não perdem força nem desbotam sua importância. Pelo contrário, cada ano mais elas reluzem esplendor, resgatando em tradição a grandeza, o brilho e a fé de tempos passados.

Em 2015, por exemplo, foi assim com as comemorações relativas à Santa Cruz e a Nossa Senhora das Dores, promovidas na matriz do Pilar pela Irmandade de Bom Jesus dos Passos. Para as missas e ofícios próprios para a ocasião, as imagens foram enfeitadas com orquídeas doadas pelos devotos e, pela primeira vez, o Passinho da Piedade, no Largo do Rosário, ficou aberto durante todo o dia 15 deste mês, para visitação dos fiéis.

Costumeiramente, os únicos dias do ano em que o passinho ficava aberto era Sexta-Feira das Lágrimas, Quinta-Feira Santa e Sexta-Feira da Paixão.


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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa




terça-feira, 1 de setembro de 2015

São Raimundo Nonato. O santo que nasceu depois da morte em São João del-Rei



Se depender dos santos que são cultuados na cidade, os são-joanenses já moram no céu. Por todo lado se vê santos e anjos, alguns ostentando símbolos e insígnias, outros orando, cantando ou voando - todos sentenciando que o destino e a morada do homem é a felicidade.

Sem dúvida, é um número sem fim de devoções e seu culto ocupa praticamente todos os dias do ano, mas com o passar do tempo, muito está se perdendo. É mais fácil dizer que isto é culpa da televisão, da internet e de outras modernidades, mas a verdade é que este esgarçamento da memória muito se deve a um certo comodismo e desmazelo cultural e religioso dos pais, que não transmitem tanto aos filhos a força, a beleza, o significado, a importância e a riqueza destas tradições que são singulares, únicas mesmo de nossa cidade.

Uma destas devoções hoje bastante fragilizadas é a de São Raimundo Nonato, cuja data celebrativa de suas virtudes é 31 de agosto. Um dos escudeiros de Nossa Senhora das Mercês, é protetor dos aflitos, principalmente das que estão em perigo na hora do parto, pois ele nasceu após a morte de sua mãe, pouco antes de lhe dar à luz. Daí seu sobrenome Nonato, que significa não nascido como todos os homens.

Com sua capa vermelha, carregando na mão direita a palma com três coroas de ouro e na mão esquerda uma custódia, ele é um dos escudeiros de Nossa Senhora das Mercês e sai com ela em procissão no dia 24 de setembro, juntamente com São Pedro Nolasco.

Os devotos de São Raimundo Nonato o invocam com este responsório:

              Se desejas no perigo
              um auxílio poderoso
              acha-lo-ás invocando
              a São Raimundo glorioso.

              Sempre benigno socorre
              nos momentos dolorosos.
              Às senhoras presta alívio
              em seus partos perigosos.          
           
               Quem seu patrocínio implora
               nunca será desprezado.
               Seja Ele nosso Guia
               que nos livre do pecado.

               Rogai por nós, São Raimundo!
             
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Responsório e foto - https://www.facebook.com/arquiconfraria.dasmerces?fref=ts

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Em São João del-Rei, a cultura popular vai para o bar. E não quer mais sair de lá!

Diferentemente da cultura erudita, que se pratica e se conserva em espaços consagrados, a cultura popular vive na rua, é do mundo. Mesmo quando não está a céu aberto, sua proteção pode ser o telhado de uma igreja humilde, de uma casa de gente simples, da lona de um circo ou de uma barraquinha de quermesse. Até o mercado e o bar servem de teto para a cultura popular.

Em São João del-Rei, apesar da modernidade que tomou conta dos espaços de convivência mais desfrutados pelos homens, em alguns bares, antigamente chamados botequins,  ainda se encontra o ambiente simples, mas culturalmente muito rico, de outros tempos. Tudo autêntico: uma imagem ou um quadro do santo protetor daquela casa, mais comumente os guerreiros São Jorge e São Miguel, ou das muitas invocações de Nossa Senhora, principalmente a de Aparecida, a das Mercês e a do Carmo, resgatando as almas que queimam em chamas ardentes. Santo católico não bebe, não come, mas em compensação sua presença não ocupa espaço nem faz mal a ninguém.

Em alguns dos muito antigos e mais afastados do centro, é possível que ainda se encontre, entre portas, o cofre das Almas, que acolhe a moeda de troco de quem vai ali tomar uma. A boa tradição manda jogar num canto um gole pro santo e destinar uma esmola para as Almas, pois com elas não se brinca. De tempos em tempos um mensageiro da Irmandade das Almas vinha recolher o que haviam posto no cofre ou o dono do bar usava para mandar celebrar missas.

Como proteção nunca é demais, era comum encontrar em um canto dos bares, perto da porta, algumas plantas poderosas contra inveja e mau olhado. Pés Arruda, Guiné e Espada de São Jorge eram infalíveis.

Não é preciso sair muito do centro histórico para encontrar alguns botequins populares típicos da metade do século passado. No Bar Mineirão, que fica ao lado da Matriz do Pilar, ainda se come doce arroxeado de batata doce e se bebe cachaça com diversas ervas, especiarias e o que mais se puder imaginar: carqueja, coco, cravo e canela, losna, mel. Mas também cerveja gelada e geralmente no final da manhã, bolinho de feijão, saído a pouco da panela com óleo fervendo. Quem der sorte, pode ser que encontre ali, como trilha sonora música clássica ou italiana.

Outros botequins, mas bem botequins mesmo, ficam no Largo do Carmo, em frente à igreja projetada por Aleijadinho e uma curiosidade sem igual é que eles são vizinhos do majestoso cemitério. Por isto, aos sábados e domingos, quando o sol está alto ou à noite, eles não hesitam em colocar mesas na calçada daquele campo santo. Melhor para quem já se foi deste mundo: se quiser molhar a goela não precisa nem atravessar a rua.

Mas um botequinzinho muito inusitado fica na Rua das Fábricas (Avenida Leite de Castro), em frente ao Grupo Escolar Aureliano Pimentel. De uma porta só, ele tem uma parede coberta de alto abaixo com garrafas de pimenta vermelha, o que combina com uma curiosa estátua de um muito estranho e até assustador “humanurubu” (foto), que fica no alto de outra parede. Mas em compensação tudo contrasta com os quadros de santo que tem no local.

Neste mês de agosto, celebrando o folclore brasileiro, um bar-ateliê recém-inaugurado na Rua da Cachaça cometeu uma saudável ousadia: expôs em seu interior peças de arte popular emprestadas pelo folclorista Ulisses Passarelli. Deste modo, literalmente, a cultura popular foi para o bar...

Foto: Antonio Emilio da Costa

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Letras de amor e dor, em bico de beija-flor. O coração do navegante negro em São João del-Rei


Letras do tempo, escritas com lágrima e dor nas páginas obscuras, sombrias e esquecidas da história do Brasil cochilam sossegadas, longe dos olhos e da memória, guardadas em algum lugar de São João del-Rei.

Uma fita ondulante, erguida no bico de dois beija-flores,  mais parece uma pauta musical. Nela, as notas são quatro letras que escrevem, acentuada, a palavra Amôr.

Logo abaixo, um coração flamejante, apunhalado e sangrante, tem ao lado ramos de flores humildes, um passarinho triste e uma borboleta quase sem vontade de voar. Tudo no centro de uma pequena toalha de algodão branco, hoje amarelado pelo passar dos longos dias e dos anos lentos e distantes.

- Mas o que é que esse pano, esse bordado, tem de tão importante para almejar estar guardado em museu?

- Ora, esta toalha é uma página da história. Aqui anda meio jogada, desprezada, mas se outros lugares soubessem dela, certamente seria muito disputada...

- Quem bordou isto, com linhas tortas tão sem vida e pontos tão desalinhados e ordinários?

- João Cândido, o Navegante Negro. Não conhece aquele samba sobre navio negreiro, dragão do mar e coisa e tal, não? Garanto que você já cantou em muita roda de samba. Pois é. Os pontos sem brilho e embaraçados como a própria vida contam a história da Revolta da Chibata! Mas quase ninguém sabe disto. Nem em São João del-Rei...


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Em São João del-Rei, Mãe do Ouro fez estrela virar pepita e dragão virar serpente no fundo Rio Jordão



Este mês, do dia 15 ao dia 22, o Museu Regional de São João del-Rei realizará a Semana do Folclore, cujo tema tem grande identificação com a história local: a Mãe do Ouro. Palestras, teatro de rua, e exposição literária sobre o tema acontecerão no centro histórico colonial e na sede do Museu.

O Almanaque Eletrônico Tencões e terentenas se candidatou para participar da exposição com este texto:

Nossa Mãe do Ouro fez estrela virar pepita, 
dragão virar serpente e subiu ao Céu numa lua de prata

- Mãe do Ouro em São João del-Rei? Nâo, seu moço, nunca ouvi falar disto não...

- Hã?! Aquela que para uns mostrava, e para outros embaraçava e escondia os caminhos que levam onde muito ouro estava dormindo, e ainda hoje dorme feito pedra desde que Deus criou o mundo? Não! Desconheço esta estória...

- Quem? Aquela que ainda hoje guarda, de dia e  de noite toma conta da entrada das betas. A mesma que antigamente botava pintas de ouro no cristal branco que descia no Córrego do Lenheiro e nas enxurradas, e da água saíam como areia dourada para o fundo das bateias dos garimpeiros? Sei não...

- Como? Aquela que ajudou os emboabas a escorraçarem os paulistas na guerra medonha que aconteceu aqui em 1709, quando foi queimado todo o Arraial do Rio das Mortes, até a capelinha de Nossa Senhora do Pilar? Ora moço, como é que eu vou saber? Ainda não tinha nascido. Só sei que correu muito sangue...

- Cá entre nós, tudo o que eu sei, ouvi na Festa da Boa Morte. Nos sermões do dia 15 de agosto, nas músicas muito antigas que a Orquestra Lira Sanjoanense toca na missa das 10, quando o altar dourado da Matriz do Pilar abre, para Nossa Senhora da Assunção subir aos Céus em nuvens de incenso cheiroso. Uma beleza!

- Neste dia, o padre sempre conta de um tal de Apocalipse. Parece que ele escreveu um livro, falando de um dragão que existia no céu e que ficou furioso, quando viu uma mulher formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em campo de batalha.  Tão brabo ele ficou que cuspiu brasa, soprou fogo, quis devorar crianças e derrubou com o rabo metade das estrelas, que do céu caíram na terra. Mas não adiantou nada...

- Dizem que aqui em São João as estrelas viraram ouro , amarelinho-amarelinho, na Serra do Lenheiro. Por castigo, a mulher luminosa transformou o dragão em uma serpente, e prendeu no fundo do Rio Jordão, que passa debaixo da igreja do Carmo. O Rio Jordão, o senhor sabe, nasce lá pelos lados do Oriente e foi nas águas dele que São João Batista batizou Jesus Cristo, não é mesmo?

- Olha, só se a mulher que transformou as estrelas em pepitas de outro e fez o dragão virar a serpente que dormindo e presa no fundo do nosso Rio Jordão, for essa tal Mãe do Ouro.

- Quem sabe ela não é também aquela mulher bonita, pisando descalça sobre a lua crescente de prata e com um diadema de estrelas, que sai em procissão e atravessa os becos e as pontes de pedra no entardecer do dia 15 de agosto? Ela mesma, a que misteriosamente também vai num outro andor logo atrás e é coroada por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo...

- Mas não conta pra ninguém isto não, moço! Nesse dia os sinos tocam muito. Muitos foguetes coloridos estouram no céu. É muito barulho. Se a serpente que dorme há séculos acordar, o mundo acaba...


Texto e foto: Antonio Emilio da Costa



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Salve a coroa do "Rei do Mundo" em São João del-Rei! Atotô, Obaluaiê!


Agosto, em São João del-Rei era um mês de grande apreensão. Céu de tempo revolto, de neblina ainda pela manhã, de nuvens em agitado movimento, o vento correndo frio e raivoso, varrendo em redemoinho folhas no chão, sacudindo com força as roupas nos varais, espalhando viroses...

Para muitos, agosto é mês de cachorro “zangado”, como se dizia antigamente dos cães contaminados pela raiva. Em uma era em que tudo era tranquilo e o mundo girava devagar, o oitavo mês do ano era também temido pela quantidade de acidentes que aconteciam naquele período, marcado pelo dia de São Bartolomeu, festejado em 24 de agosto. São Bartolomeu é  “santo bravo”; tão bravo que na noite de São Bartolomeu, no ano de 1572, praticou-se canibalismo nas cidades francesas de Lyon e Auxerre,  inclusive com venda de gordura, fígado e coração humanos. As vísceras eram assadas em braseiros, no meio das praças, conta Frei Beto, citando Jean de Léry. O sincretismo religioso afrobrasileiro associou São Bartolomeu ao orixá Oxumaré, a cobra do arco-íris, filho dos orixás Obaluaiê e Nanã.

Antes do dia de São Bartolomeu, também em agosto, o dia 16 é consagrado a São Roque, quando o sincretismo afrobrasileiro celebra Obaluaiê  ou Omulu – orixá da terra, que emerge do chão e domina várias doenças, entre elas a “peste bexiguenta”. Era assim que, antigamente, conheciam a varíola, temida pela capacidade de marcar a pele e até de matar, pela precariedade dos recursos de saúde daquele tempo. Coberto com um capuz comprido de finas fitas de palha da Costa que, soltas, lhe escondem todo o corpo, o constrangimento  e a vergonha pelas chagas e cicatrizes, em sua dança Obaluaiê manca, pula e gira, espalhando como em redemoinho a peste para os inimigos. Aos devotos ele cura, assim como os cachorros, lambendo, curaram as muitas chagas de São Roque.

A crença em Obaluaiê é tão grande que em agosto os terreiros realizam o Olubajé - um ritual, com cânticos sagrados, toques como o Opanijé (Deus que dança), comidas rituais africanas, chuva de pipoca, simbolizando a peste bexiguenta, cujas pústulas estouram como pipoca, e outros mistérios que só quem conhece Obaluaiê sabe.

Pelo umbigo negro desta terra vertente, desde o tempo do ouro os terreiros tradicionais de São João del-Rei  celebram o Olubajé, ou Tabuleiro de Obaluaiê ou de Omulu, nome que em yorubá, segundo alguns significa "Rei do Mundo" e para outros quer dizer "Fogo que vem da Terra". Sua saudação é Atotô.

A Associação Cultural Casa do Tesouro / Egbe Ile Onidewa Ase Igbolayo (Rua Vicente Cantelmo, 875, Bairro Guarda-Mor), por exemplo, abrirá os trabalhos do mês de agosto realizando, às 15 horas do dia primeiro, o Tabuleiro de Omulu.

Atotô, meu pai!, Atotô Obaluaê! Atotô Omulu! saúdarão os devotos daquela divindade africana, que atravessou o Oceano Atlântico trazida para o Brasil nos porões dos navios negreiros no século XVI. Poucas décadas depois, o "Rei do Mundo" chegou a São João del-Rei com os primeiros negros africanos, no raiar do século XVIII, mal surgira o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes.

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

Clique abaixo e conheça o toque do Opanijé.

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terça-feira, 21 de julho de 2015

Tesouros vivos de São João del-Rei - Ulisses Passarelli: garimpeiro de congadas e folias!


Na história de São João del-Rei, ouro é o que não falta. Ouro, do mais puro e mais reluzente, outrora catado em meio a raízes de capim, colhido em bateias, faiscado em veios de profundas betas e subterrâneas galerias. Dele brotaram altares de ouro, anjos de ouro, amuletos de ouro, alianças de ouro, corações de ouro, crucifixos de ouro, correntes de ouro... Metal cobiçado, há muito tempo este ouro esgotou-se das encostas são-joanenses.

Mas daqueles tempos distantes e para sempre, existe outra riqueza viva e inesgotável nesta terra em que os sinos falam, mais brilhante e valiosa do que o ouro de outrora, que alimentou violências, ganâncias e castigos e emoldurou barrocos ideais. Esta outra riqueza é tão grande, tão vibrante e tão intensa que não pode ser congelada em templos nem em museus. Ela pulsa, corre no sangue, anima a fé e várias crenças, impulsiona, dá ritmo, resgata, recria e perpetua cantos, danças, ritos, rezas, orações, preces, mandingas, festejos. Em termos humanos mais valiosa do que o ouro, sem dúvida ela é o sal da terra, a doçura da cana e do mel, o calor do sol e do corpo,  a luz da lua e do mundo. Que maravilha é esta? Ora, é a cultura popular!

Pouca gente sabe, mas em São João del-Rei existe um garimpeiro que, encantado por esta riqueza, já há mais de uma década vem se dedicando a descobrí-la, resgatá-la, revelá-la, vivificá-la e, no que pode, alimentá-la, seja com a própria participação, seja com estímulo, incentivo e apoio, seja com sua capacidade cognitiva de registrá-la, gerando documentos que, além de fontes para estudos, são também referências para tempos futuros. Seu nome é Ulisses Passarelli.

Dentista por formação, umbandista de religião, folclorista por vocação, humanista com dedicação, membro da Academia de Letras de São João del-Rei e com atuação relevante em outras instituições culturais da cidade, o currículo de Ulisses Passarelli é vasto, mas modesto como ele é, certamente se incomodará bastante até com este pouco que é dito aqui. Porém, a vida que Ulisses dedica à cultura popular de São João del-Rei e região fala por si e bem mais do que qualquer explanação. Basta assistir suas palestras e conferências, ler os artigos que ele escreve, acessar seus blogs Tradições Populares das Vertentes; Matosinhos: história & festas e Festa do Divino SJDR, assim como assistir os vídeos que ele produz e divulga no Youtube.

Entretanto, seria uma grande injustiça, e ao mesmo tempo um erro grosseiro e imperdoável, falar de Ulisses Passarelli e não mencionar sua importância no resgate da Festa do Divino de Matosinhos e sua participação direta nas Folias de Reis, onde eventualmente incorpora o enigmático Bastião, e no incentivo aos grupos são-joanenses de Congada - ele participa do grupo Embaixada Santa.

Mais do que as ruas estreitas, ingremes, sinuosas  e de pedras de São João del-Rei, mesmo sem transpor as muralhas de pedra e séculos da Serra do Lenheiro, é o mundo o que Ulisses percorre e atravessa em sua bicicleta. Nesta travessia, seguindo sempre o coração e a estrela guia, ele vai conhecendo o joio e o trigo cultural, valorizando cada qual por seu papel e por sua importância. Afinal, tudo serve e tem função.

Diferentemente do herói grego que em mar bravio se amarrou ao mastro do barco e tapou com cera os ouvidos para não ouvir e ser seduzido pelo canto das sereias, nosso garimpeiro são-joanense é livre. Vai sem medo a toda parte, ouve todos os cantos e rezas, vê o que a alma do povo sente e, tal qual o cigano-mágico Melquíades - transculturador de Macondo, apresentado por Gabriel Garcia Marquez em Cem Anos de Solidão - traz para o universo urbano e barroco de São João del-Rei a riqueza do telúrico universo simbólico do Campo das Vertentes, criada e mantida por séculos no alto dos morros, atrás das serras, nas ruas sem placa, nos becos sem saída, do outro lado das porteiras, em volta dos cruzeiros, em todos os cantos que cheiram a alecrim do campo, a arruda e guiné, a rosmaninho, a manjericão; que têm gosto de gabiroba, de goiabada, de taioba, de torresmo, de tudo o que brota ou que se faz a esmo, e mais, de tudo o que nasce no coração.

Texto: Antonio Emilio da Costa




domingo, 19 de julho de 2015

Dia do Sineiro fará bater ainda mais sonoro e feliz o coração de São João del-Rei


Ninguém duvida: os sinos são um dos mais importantes, consagrados, conhecidos e reconhecidos símbolos de São João del-Rei. Não precisa nem olhar para o alto nem estar perto de alguma igreja do centro histórico para perceber. Eles falam por si.Todo dia - uns mais outros menos - toda hora, sua metade e quartos, eles estão ali, marcando o tempo e as eras, tocando, dobrando, mandando mensagens, quase todas falando de Deus. Alguns, toques alegres, entusiasmados, festivos, outros, dobres dolentes, reflexivos, pungentes, tristes, fúnebres.

Chamadas para missas, momento do glória e da consagração, aviso de novena, saída, passagem e chegada de procissão, Te Deum, ofícios e funções litúrgicas especiais. Falecimentos. Enterros. Em São João del-Rei nada acontece sem a presença e a voz do sino. Até o Carnaval, quando várias vezes ele chama para as Quarenta Horas de Adoração ao Santíssimo Sacramento e avisa, às nove da noite da Terça-Feira Gorda, que dentro de três horas a Quarta-Feira de Cinzas trará a Quaresma, que é tempo de jejum, penitência e oração.

Mas o que é o sino sem o sineiro? Apenas um objeto de madeira, bronze e ferro, suspenso em um campanário, contemplativo a mirar dia e noite o céu e o horizonte. Sendo assim, tanto quanto os sinos, e junto deles, os sineiros também devem ser consagrados, conhecidos e reconhecidos como um dos mais importantes símbolos vivos de São João del-Rei.

É certo que sobretudo na última década e meia, e com absoluta justiça, cada dia mais os sineiros ocupam posição relevante na cultura de São João del-Rei. O ofício foi reconhecido como profissão; pesquisadores, estudiosos, acadêmicos e produtores culturais têm se dedicado a registrar suas histórias, inventariar os toques e dobres, gravar e filmar o corajoso míster que é "catar" o sino, colocá-lo "a pino" e "dobrá-lo" até exaurir as forças, repetidamente.

Entretanto, isto ainda é pouco, tendo em vista que a admiração que os são-joanenses nutrem por estes personagens - que são a um só tempo protagonistas e coadjuvantes das tradições barrocas de nossa cidade - é sempre individualizada no sineiro-instrumentista, que é o homem feito ou "em fazimento", dotado de habilidade, coragem e vocação para vibrar o metal, e não voltada para a "entidade", ou se preferirem para o "instituto", que é o sineiro. Aquilo de que se investe o instrumentista, homem ou menino, dotado de habilidade, coragem e vocação, quando sobe até as sineiras e toca, dobra, repica tencões, terentenas, floreados, tens-tolins, clens, batucadas, batucadinhas, canjica queimou, pé-de-galinha, Ângelus e tantos outros toques e dobres.

É pensando assim que este Almanaque Eletrônico Tencões & terentenas sugere a criação do Dia do Sineiro. Para ser legitimado pela representatividade coletiva, este ato poderia resultar de uma ação conjunta reunindo o Poder Público Municipal, a Diocese de São Joao del-Rei / Paróquia do Pilar e a comunidade cultural e acadêmica são-joanense.

Para tanto, há de se pensar em uma data muito digna e significativa e neste sentido esta sugestão ousa apresentar o dia 12 de novembro, data que, evocando o distante ano 1746, leva-nos ao Batismo de Tiradentes, e indiretamente ao altar da Capela da Fazenda do Pombal, patrimônio de inestimável valor pertencente ao Museu de Arte Sacra de São João del-Rei.

A criação da data ocasionará comemoração anual dos dois fatos, sem qualquer prejuízo para outras programações intermunicipais já existentes. Além disto, enriquecerá o calendário cívico-cultural são-joanense, renderá tributos de reverência a importantes personagens-símbolo de São João del-Rei de ontem e de hoje e contribuirá ainda mais para a valorização e perpetuação de um ofício que faz bater ainda mais sonoro e feliz o coração de nossa terra!
Texto: Antonio Emilio da Costa


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OBS - Foto colhida do Facebook, sem identificação. Por isto está sem crédito de autoria. Tão logo se identifique, será mencionado

terça-feira, 9 de junho de 2015

Padre Pedro Teixeira se foi. Ficou na estrela vespertina, no céu de São João del-Rei



Sem nenhuma alegria, desde ontem os sinos de São João del-Rei estão dobrando contrariados. Dobram para dentro de si mesmos, no intuito de desmentir a triste notícia que são fadados a espalhar: Padre Pedro Teixeira foi-se embora deste mundo.

Triste junho. Do Coração de Jesus traspassado pela lança do centurião hoje não escorre um fio de água e sangue. Escorre uma única lágrima. Discreta, humilde e silenciosa. Jesus é piedoso e complascente e sente a saudade que os são-joanenses sentirão de Padre Pedro: o mensageiro da Eucaristia, que, durante muitas décadas, toda manhã, com sua batina preta, ia a pé de casa em casa visitar os enfermos, levando conforto e esperança na forma de hóstia consagrada. Além de Cristo, no bolso esquerdo e interno do paletó, levava consigo um castiçal, um crucificado, uma pequena toalha branca, fósforo, uma vela e algumas estampas de Nossa Senhora Auxiliadora, tendo no verso a oração.

Findo o ofício e dada ao doente a comunhão, em geral pedia que ele soprasse a vela, para estimular o pulmão. - Ê Padre Pedro, o senhor vai fazer muita falta!

Com sua simples presença ele exorcizava, dos doentes crepusculares, a dor da desesperança, a friagem da solidão, a fraqueza do abandono, a treva que sem pausa rondava o coração de quem, já no adiantado da vida, via o sol cada vez mais se afastar e se apagar.

Agora, face a face, Jesus e Padre Pedro se contemplam e o Senhor, sempre generoso, mais uma vez se condoi dos são-joanenses em sua dor. E então o brilho manso, doce e luminoso do olhar que sempre mirou a cidade vira estrela vespertina no céu azul de São João del-Rei.

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Foto: Marcinho Lima


sábado, 18 de abril de 2015

Orvalho e neblina matutina em São João del-Rei


                                          Em São João del-Rei
                                          nas manhãs frias
                                          de orvalho reticente
                                          o sol inconfidente
                                          sonha outros dias
                                          outras Minas...

Antonio Emilio da Costa                         

sábado, 11 de abril de 2015

São João del-Rei é mais bela e mais misteriosa do que se imagina...


Uma joia preciosa da arte barroca em São João del-Rei está desde sempre - e permanentemente - à vista de todos, mas é conhecida por poucos. Inegavelmente tem muito do mestre Aleijadinho e integra a portada de uma das mais importantes obras que ele projetou: a nossa igreja de São Francisco de Assis. De tão bonito e delicado, o templo parece uma sinfonia celeste, composta em nuvens de pedra.

Muita gente, tanto são-joanenses quanto turistas, já entrou na igreja mas não percebeu tão surpreendente joia, o que é tão fácil. Basta olhar para o alto quando se cruza o portal da igreja franciscana de nossa terra. Do que se trata?

De um sublime medalhão com a face de Cristo brotando entre ramos de cravos. Seus olhos, de imaginárias pupilas, e a expressão hipnótica da boca dão a ela a impressão do Cristo Transfigurado no encontro com os profetas Moisés e Elias, na presença dos apóstolos João, Tiago e Pedro, em dias próximos à sua morte. A iluminação do Messias, realçada neste episódio que ficou conhecido como "milagre da montanha", irradia em doze curtos, retos e absolutos raios resplandecentes.

Em São João del-Rei, da próxima vez que você estiver atravessando a portada da igreja de São Francisco de Assis, olhe para o alto. Você vai ver que ela é ainda mais bela e mais misteriosa do que você imagina...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

São João del-Rei, templo do tempo, precisa pulsar no ritmo do coração


As cidades históricas são templos do tempo, são arcas da memória, são vertentes dos sonhos. Lugares sagrados, são testemunhas vivas de feitos e fatos, são o território da história, ou melhor são territórios onde a história habita.

Quem vive em uma cidade histórica precisa ter consciência do privilégio que é viver em terras que por si só são espaços de memória, lembranças e recordações, constituídos por suas ruas e avenidas, seus becos, seus largos e suas praças. Neles, igrejas, casarões e monumentos estão o tempo todo a silenciosamente contar o que viram ao longo de tantos séculos.

Quem administra uma cidade histórica precisa ter compromissos verdadeiros com a cultura e com a memória local, pois a saúde destes patrimônios depende muito de atitudes e decisões que só do poder público podem emanar. Principalmente os homens públicos têm na história a vitrine e o porta-retrato de sua competência, de seu comprometimento, de seus valores, da sua trajetória, do seu fazer.

Quem visita uma cidade historica precisa ter consciência de que está transitando em um santuário do tempo e da delicadeza, onde o ontem, ainda vivo, clama por respeito e aspira chegar à eternidade. Onde o ontem, ainda vivo e materializado, depende da sabedoria, da sensibilidade e das atitudes do homem de hoje para manter acesa sua memória, sempre pronta para resgatar personagens e revelar fatos do passado.

O trânsito urbano é hoje um problema que incomoda e preocupa cidadãos de vários países e a questão dos estacionamentos, então, é tão grave que chega a ser considerada alarmante. Mas esta é uma situação que não pode ser realidade nas cidades históricas, sob pena de danificar seus monumentos e quebrar toda a auréola de encanto que o tempo lhes coroou.

Mesmo nos tempos modernos, as cidades históricas continuam tendo vielas do paraíso, nas quais o bom senso pede não se transitar de carro, com pressa, mecanicamente. Estas vias foram feitas para se atravessar a pé, com a alma e o coração de mãos dadas com a bondade e com a lembrança de que os sonhos devem ser todos de felicidade.

As cidades históricas são lugares raros, não são lugares comuns. E precisam de amor, compromisso, responsabilidade, competência, racionalidade, zelo e soluções eficazes para continuarem sendo lugares raros. Inclusive, e principalmente, quando a ameaça é o trânsito...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Arte Sagrada. Os santos desceram dos altares e se juntaram ao povo em São João del-Rei.


Em 2015, as cortinas cor de sangue que durante a Quaresma cobriram os altares da Matriz do Pilar de São João del-Rei, mais do que ocultar, revelaram. Isto mesmo. Revelaram a beleza e a riqueza de detalhes que quem visita o mais dourado templo barroco são-joanense não consegue ver de perto.

É que desta Quinta Feira Santa até o Domingo da Ressurreição, todas as imagens de seis altares e dos oito nichos da matriz estão expostas ao público no Museu de Arte Sacra, na mostra temporária Arte Sagrada - Imagens da Catedral. Da padroeira, Nossa Senhora do Pilar, até a beata Nhá Chica. De São Miguel e São Sebastião a Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Assunção. E também os recém-restaurados Santana Mestra e São Joaquim, além de São José, Santa Bárbara, São João Menino, os Anjos Custódios e tantas outras imagens barrocas, setecentistas e oitocentistas. Em uma das salas do Museu, o visitante pode admirar um requintado tapete processional, confeccionado com areia colorida e serragem pelo artista plástico e restaurador Carlos Magno.

Como trilha sonora e ambientação, está sendo exibido no local o vídeo Semana Santa Cultural, produzido pela ONG Atitude Cultural, que você pode ver abaixo.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Procissão das Lágrimas. Tradição ímpar da Quaresma em São João del-Rei

Às nove da noite de ontem, o sino dos Passos fez dobres incomuns para uma quinta feira. Incomuns não fosse para informar à população são-joanense que naquele momento estava se encerrando a celebração do último dia do Setenário das Dores. E também para lembrar que o dia seguinte (sexta sexta-feira da Quaresma), em São João del-Rei é Sexta Feira das Lágrimas, ou da Soledade. E que haverá procissão, de Nossa Senhora das Dores, realizada pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos.

Mal o sino tocou o último dobre e na Matriz do Pilar - fechadas todas as portas - já se iniciaram providências e preparativos para a procissão desta noite. A imagem foi retirada do altar e arrumada no andor, conferindo-se com desmedido zelo o vestido roxo, a capa cor da noite, as joias, espadas e o diadema de estrelas. Em seguida, a colocada a arnica que, colhida na Serra do Lenheiro, será muito disputada ao final da procissão, tanto devido à força devocional da fé curativa quando ao poder de suas propriedades terapêutico-medicinais.  

Depois, foi montado o setecentista pálio vermelho, no qual reluzem, bordados a fio de ouro, um céu estrelado, suplícios e estigmas da Paixão do Senhor do Passos. E, por fim, revisadas as lanternas e tochas, verificando se as velas estavam no tamanho exato para durar as luminosas horas de todo o trajeto. Seguiu-se a isto o desfolhar de rosmaninho no chão da Matriz do Pilar, espalhando pela nave perfume tão próprio da Quaresma de São João del-Rei. 

Tudo pronto, logo no começo desta manhã as portas da Matriz se abriram, para os são-joanenses, durante todo o dia, fazerem visitas, orações e reverências a Nossa Senhora das Dores. Desde cedo e por várias vezes hoje o sino dos Passos dobra compassos lentos, longos, demorados e pungentes. Repetindo linguagem antiga, lança pelos ares avisos sonoros de que à noite haverá procissão, motetos, lembranças, saudades, lágrimas e bênção com a relíquia do Santo Lenho.

Logo depois que o sol se por, novamente o espírito de São João del-Rei, religiosamente, se perturbará, em silêncio, para dentro da própria alma. Será a noite da Soledade de Nossa Senhora, marcada pela Procissão das Lágrimas, nome hoje em desuso, mas muito adequado para o que se rememora: a volta da mãe de Jesus do local de sepultamento de Cristo para casa, relembrando todo o sofrimento do filho e vivendo, resignada e na plenitude, a própria dor.

O andor de Nossa Senhora das Dores que percorrerá as ruas do centro histórico de São João del-Rei é absolutamente austero, quase árido, desprovido de qualquer enfeite ou adereço. Sua sanefa é de saudade e suas palmas são de suspiro, ausência e desolação.

Nesta procissão Nossa Senhora vai envolta apenas em solidão e dor, parando contemplativa nas cinco capelas-passo da Paixão. Em cada uma, a Orquestra Ribeiro Bastos cantará  motetos longínquos, vários deles inspirados nas lamentações do profeta Jeremias. O mistério é tamanho que, quem se compenetrar, terá a impressão que o canto não quer transpassar o silêncio nem se espalhar pela noite. 

Muito envolvimento, respeito e fé. As celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Setenário das Dores e a Semana Santa de São João del-Rei ainda se fundamentam emoção e sentimento.

Antes de recolher-se por mais um ano na catedral basílica de Nossa Senhora do Pilar, Senhora das Dores para diante do grande oratório da Piedade e, como a mirar-se a si própria em espelho imaginário, contempla a outra imagem, que está no alto do altar, ao pé da cruz, com Cristo morto em seu colo. Esta, portuguesa, veio para São João del-Rei no século XVIII.


Até alguns anos atrás, somente na Sexta Feira das Lágrimas o Passinho da Piedade era aberto. Agora, ele fica aberto para contemplação de fiéis e turistas também na Quinta Feira Santa e na Sexta Feira da Paixão. Mas não é a mesma coisa, pois nestes dois dias o oratório é, como certamente diria Carlos Drummond de Andrade, um belo e grande retrato na parede da paisagem do Largo do Rosário. Não tem a função de espaço sagrado que tão fortemente desempenha na Procissão da Soledade...


terça-feira, 10 de março de 2015

Territórios de memória, lembrança, fé, sofrimento e divindade no coração de São João del-Rei


Andando a pé pelo centro histórico de São João del-Rei, e adjacências,  é impossível não percebê-los. Eles estão sempre ao alto, no centro, em posição de destaque. São os antigos Cruzeiros da Penitência, plantados na paisagem colonial são-joanense nos séculos XVIII e XIX.

Os mais antigos, imponentes, iconograficamente ricos e completos, têm todos os estigmas da Paixão: coroa de espinhos, cálice de amargura, cravos, chicote, túnica, corda, lança, lençol, dados, escada e até o galo que condenou São Pedro pela negação do Salvador.

Estão no lado direito da igreja das Mercês, no Morro da Forca, no Largo da igreja do Senhor dos Montes, na pedreira do Pau D'Angá e no alto da Rua do Ouro, territórios da Serra do Lenheiro. Cinco. Um para cada chaga de Cristo.

O do Largo da Cruz, na fachada de uma casa residencial, é singular em todo o país. Fica no ponto exato entre o público e o privado, entre a casa e a rua.

Na lateral direita da Matriz do Pilar tem uma cruz em relevo, encimando uma peanha de pedra, assim como na esquina da entrada da Rua Padre Faustino, uma cruz incrustada em uma pedra pede calma e orações a quem passa. Os moradores do local a conservam sempre enfeitada de flores, menos na Quaresma, que é tempo de sacrifício e penitência.

O tempo que passa tem trazido para São João del-Rei novas cruzes e novos cruzeiros e os melhores exemplos são o de cimento, há alguns anos edificado na gruta que fica à direita do Corrego do Lenheiro, na altura da Praça Raul Soares, e uma grande cruz de ferro, que agora habita o jardim lateral externo da Casa Episcopal.

Todos marcam territórios da fé, da memória, do sofrimento e da divindade, nos quatro cantos, aurículas e ventrículos do coração de São João del-Rei.





Foto: São João del-Rei Transparente (http://saojoaodelreitransparente.com.br/works/view/249)

sábado, 7 de março de 2015

Anjos del-Rei - O espelho do céu nas procissões de São João del-Rei


Ser anjinho nas procissões de São João del-Rei é um momento especial e mágico na vida das crianças. A túnica, a coroa de flores, as asas, caminharem legião entre as alas das irmandades, à frente dos andores incensados, ao som da banda, da orquestra e dos sinos. Tudo isto cria uma emoção
que é lembrada para sempre como um momento feliz, por toda a vida.

Além disto, vestir-se de anjinho faz parte de um processo evangelizador, que aproxima a criança da Igreja e da religiosidade, por meio da beleza, da pureza e da inocência, que são estrelas brilhantes na alma infantil.

Sair de anjinho nas procissões é um presente valioso que pais, padrinhos e avós podem oferecer às crianças, como momentos de sublime recordação; a  São João del-Rei, com o embelezamento das tradicionais procissões, e a Deus, pela louvação de Seu Reino, que é feito de amor e paz.

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O projeto Anjos del-Rei prevê a formação de um banco de imagens com fotografias antigas e recentes de anjinhos das procissões de São João del-Rei, para futura montagem de exposição. Participe e apoie, enviando fotos antigas  e atuais para os seguintes e-mails:

Atitude Cultural / SJDR Transparente – alzirah@gmail.com
Tencões e terentenas / Vertentes & Conexões Culturais de SJDR - emiliosjdelrei@gmail.com
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As roupas de anjo, coroas e asas podem ser doadas através do professor Anthony, do Conservatório de Música Padre José Maria Xavier (32-33718781), e de Kátia, do Museu de Arte Sacra (32-33717005), lembrando que as procissões da Festa de Passos começam no próximo dia 13 e a Procissão do Encontro será no domingo, dia 15.

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Esta campanha é uma realização da Associação dos Amigos de São João del-Rei e do Museu de Arte Sacra, com o apoio da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, da ONG Atitude Cultural, do Almanaque Eletrônico Tencões e terentenas, da Vertentes & Conexões Culturais de SJDR, do Grupo de Jovens da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e do SESI/DN.

Foto gentilmente cedida por Ulisses Passarelli

sexta-feira, 6 de março de 2015

Em São João del-Rei, roxo não é uma cor. É um sentimento!

Nesta época do ano, cada dia mais São João del-Rei se veste de roxo. Nos quintais, as orquídeas na sombra apontam flor. Nos jardins e nos campos, quaresmeiras com singeleza explodem a cor. Nas igrejas, altares cobertos de roxo atenuam a dor.

Nesta época do ano, roxo em São João del-Rei não é uma cor; é um sentimento presente em tudo. E isto faz com que o coração dos são-joaneses, a cada dia que se aproxima da Sexta Feira das Dores, do Sábado dos Passos e do Domingo do Encontro fiquem mais suspensos em um tipo de expectativa que aperta o peito, chega a tirar o fôlego. Os sinos que dobram giram penachos de papel crepom, desprendendo fitas roxas que voam pelos ares e se espalham pelos telhados, pelas árvores, pelos jardins, pelas pedras do chão, espalhadas pelo som e pelo vento. Roxo no céu, na terra, no ar. Roxo em toda parte.

O alívio só vai voltando à alma lentamente, o coração só acalma seus batimentos aos poucos, quando o Senhor dos Passos, com cruz e buquê de orquídeas roxas, sai vespertino e crepuscular da igreja de São Francisco. Calmo, triste e pensativo, para no passinho da Rua da Prata, atravessa a ponte de arcos e pedra, para novamente no passinho do Largo do Rosário, e sobe o beco da Matriz para se encontrar, no Largo das Mercês, com sua Mãe das Dores.

Tudo de frente e em frente ao pelourinho de pedra, onde antigamente eram castigados publicamente os negros escravos e os condenados pela sociedade colonial. Tudo ao som de motetos barrocos, coloniais, que a Orquestra tira de partituras antigas, para deixar mais denso e sublime o ambiente.

Sequentes, mãe e filho seguem pela Rua da Graça, ele na frente e ela atrás. Dobram a esquina, descem para o passinho do Largo da Cruz, passam por uma rua sinuosa até o passinho da Rua Direita e de lá sobem a escadaria da Matriz do Pilar. Lá do alto se miram resignados, complascentes olham o povo apinhado escada abaixo, do lado de fora do gradil. Depois entram no templo e de lá para a sacristia, de onde o Cristo condenado, de cruz às costas, só vai sair na quaresma do ano que vem.

Quando tudo estiver roxo outra vez...


Celebração dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário
São João del-Rei, de 13 a 15 de março de 2015 - Matriz do Pilar

Foto e vídeo - Marcos Luan (https://www.youtube.com/watch?v=GE4tiWFxcRg)