terça-feira, 29 de julho de 2014

Jardim Cerâmico do Éden brotou no centro historico de São João del-Rei

Do barro, Deus criou o homem, e da costela de barro do homem Deus criou a mulher. Conta o livro do Gênesis que  era o sexto dia da criação do mundo. Em São João del-Rei, um grupo de artistas repetiu o gesto divino e do barro criou um Jardim Cerâmico - várias flores, de várias especies e formatos, em elevados caules de ferro, entre as cordas vegetais da lira, que é o magnífico jardim do Largo de São Francisco. Talvez mais bonito e sedutor do que o próprio Jardim do Éden.

Eram 300 flores - anturios fálicos, genitalicos gerânios, veludosos copos de leite, cúbicas rosas, dolentes trombeteiras, ensolaradas margaridas, sorridentes girassois, florais frades franciscanos, brilhantes brincos da rainha, flores de maio em julho, esbugalhadas buganvilias, juvenis jasmins.

E as mais belas, atrevidas, sedutoras, surpreendentementeroticas meia-mulheres. Invertidas sereias vegetais, flores vulvovaginais, grossas coxas à mostra, graciosamente de cabeça para baixo, com inocência colocando o mundo, nossa imaginação e desejo à flor da pele, de ponta cabeça.

300 flores. Uma para cada ano que desde 1713 se passa na Vila de São João del-Rei, nos seus três séculos de história. Uma para cada cambalhota de 365 dias que a Terra deu em volta do Sol. Tudo nas pernas florais daquelas ingênuas mulheres criadas por Deus da costela de barro de Adão. Recriadas  em forma de flor neste mes de julho, num Jardim Cerâmico, no Largo de São Francisco, na tricentenaria São João del-Rei.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

São João del-Rei. Pedacinho do céu de onde nascem todos os santos.


São João del-Rei mantém, e dia a dia até fortalece, um ofício antigo, natural na cidade desde as primeiras décadas do século XVIII: os escultores santeiros, que precisam apenas de cinzel e martelo, troncos de madeira ou blocos de pedra, para fazerem nascer cristos, anjos, virgens, santos, querubins, mártires e toda a falange sagrada que, desde os tempos do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, faz esta cidade mais parecer um espelho do céu.

De 1704 até hoje muita coisa mudou, o mundo deu muitas voltas. Muitas águas passaram debaixo das pontes do Rosário e da Cadeia, mudaram-se as crenças, as esperanças, os costumes, os desejos, as tecnologias, mas o fazer sagrado continua aceso entre o povo que vive à sombra da Serra do Lenheiro. Muito mais do que em qualquer outro lugar. Aqui, volta e meia se vê voar um novo anjo, chorar sangue um novo Cristo, acenar e sorrir uma nova santa - tudo brotando das mãos dos escultores santeiros de São João del-Rei.

Hoje, são bem mais que dez, muitos dos quais bastante jovens. Alguns da mesma família, aprendizes do pai. Outros, autodidatas. Há os acadêmicos, os especialistas, os intuitivos e os inventivos - todos criativos e grandes artistas. Uns já conquistaram reconhecimento nacional e internacional e há aqueles que ansiosamente aguardam por esta hora. E para isto calejam as mãos trabalhando divinamente, de sol a sol, todo santo dia...

terça-feira, 22 de julho de 2014

O dia em que os sinos de São João del-Rei chamaram para um programa de televisão




Para quem nasceu, viveu ou vive em São João del-Rei, o toque de um sino é sempre um chamado: para uma missa, para uma novena, para uma procissão, para um enterro, para uma bênção, para uma Via Sacra, para um Te Deum.

Mesmo quando não se está na cidade é assim. Assistindo a qualquer filme ou vídeo lá gravado no centro histórico, é possível saber a que horas ocorreu aquela cena simplesmente ficando atento às pancadas que de vez em quando bate o sino-relógio da Matriz do Pilar.

Na quarta-feira da semana passada, dia 16 - coincidentemente dia festivo na cidade, consagrado a Nossa Senhora do Carmo - os são-joanenses em São João del-Rei e em todas as partes do Brasil, na metade da manhã, surpreenderam-se com o toque dos sinos chamando-os para um lugar inusitado: para a frente da televisão.

Não que o aparelho estivesse no alto de uma torre ou sobre um altar, mas é que em sua tela a apresentadora Ana Maria Braga e seu "escudeiro" Loro José apresentaram uma reportagem de oito minutos sobre os sinos de São João del-Rei. A linguagem, os toques mais conhecidos, seus significados, a história e os sineiros. Os atuais, no vigor dos dobres e dos repiques; os "jubilados", que não sobem mais às torres mas de lágrimas nos olhos octogenários recebem todo o reconhecimento, e os infantes, pedindo que o tempo passe depressa para se apoderarem das chaves das sineiras e, lá do alto, darem sequência à nobre e sonora sina.

Bonita, poética, informativa, lírica, sincera, correta.Vale a pena clicar no link abaixo e ver a reportagem, que foi ao ar no programa Mais Você, da Rede Globo de Televisão.

domingo, 20 de julho de 2014

Meia-sola, taquinho, "neulate e bichigão" para andar a pé os 300 anos de história de São João del-Rei


O dia 20 de julho não é uma data qualquer no trissecular calendário de São João del-Rei. Ao longo de 300 anos, várias vezes esta data se destaca, com registros que bem mostram indicativos de como era a vida da sociedade colonial que vicejava à sombra da Serra do Lenheiro. Voltemos no tempo, sempre no dia 20 de julho.

No longínquo 1719 - portanto apenas seis anos após o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes ter sido elevado à Vila de São João del-Rei -, o Senado da Câmara local concedeu a Manoel de Araújo licença para exercer o ofício de sapateiro. Para obter este direito, Manoel apresentou fiador e se comprometeu a pagar tanto os quintos reais quanto os pesados impostos de almotaçaria.

Este fato não teria nada de extraordinário se não tivesse ocorrido em um tempo em que a população das vilas mineiras, majoritariamente, vivia descalça e desse modo, com os pés no chão, comparecia até mesmo, às festas religiosas e a outros eventos sociais. Assim, a existência de alguém dedicado ao ofício de sapateiro, disposto a pagar altos tributos por esta atividade profissional, demonstrava que havia demanda para seus serviços, ou seja, uma razoável camada social que precisava confeccionar e consertar, na própria vila de São João del-Rei, seus calçados.

Cem anos depois, em 1820, a Câmara da Vila encaminhou à "Sua Majestade Real" pedido para construir um cais entre a Ponte da Cadeia e a Ponte do Rosário, um chafariz e uma nova cadeia, já que a existente estava péssima, imunda e sem 'cômodo'. Esta medida evidenciava preocupação dos homens públicos são-joanenses oitocentistas para com a população - infra-estrutura, equipamentos urbanos e saúde pública, bem como para com o respeito, mesmo que rudimentar, à dignidade humana dos presidiários.

Uma das mais belas obras em ferro fundido do barroco brasileiro, o altivo e imponente portão de ferro do Cemitério do Carmo estava em obras quando, no dia 20 de julho de 1835, a Irmandade do Carmo deliberou pagar 800 réis diários ao artista, mestre-de-obra, Jesuíno José Ferreira. Com isto, já no ano seguinte estava concluída e a postos aquela obra de arte que, sem igual no Brasil e no mundo, hoje é orgulho cultural do povo de São João del-Rei.

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FONTE: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I, 2a edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

terça-feira, 15 de julho de 2014

As duas histórias de São João del-Rei

Faustoso esplendor. Um Eldorado pródigo, onde arte e ouro o tempo todo saltavam de toda parte. Anjos em cada quina, santos em cada esquina, astros celestes, querubins, atlantes, o Velho Testamento desfolhado em púlpitos e nos altares. Esta é uma face da história antiga de São João del-Rei. Mas não é a única...

A história longínqua de nossa cidade também possui cenas de uma realidade indesejada, marcada pelo sofrimento dos bastardos e oprimidos: fome, violência, exploração, medo, arbitrariedade e escravidão. Tudo isto foi marcado a ferro e fogo na carne e nas almas de grandes contingentes nas vilas criadas em Minas Gerais no tempo do ouro.

As duas histórias aconteceram ao mesmo tempo e muitas vezes até se entrelaçaram. Porém, em todo o mundo é assim: a história que sobrevive aos séculos é a história dos vencedores - daqueles que se impuseram, conquistaram à força, subjugaram. Discriminação que faz parte do processo de dominação que, salvo para demonstrar poderio, apaga ao máximo a história e a memória dos dominados, legando a eles a invisibilidade. É como se eles não tivessem existido ou fossem tão insignificantes que não conseguiram deixar vestígios de sua existência. E com isto toda a humanidade empobrece e perde, lançando ao vento as páginas obscuras de seu passado.

Estar na vanguarda do tempo é grande sonho de São João del-Rei, quase sempre dissimulado pela modéstia que é própria do povo de Minas Gerais. Mas apesar da discrição, esta aspiração existe e pulsa forte, a se notar pela forma como nossa cidade mantém vivas suas seculares tradições - todas valorosas, porém contando apenas os capítulos da história gloriosa. É como se a vida de todos os antepassados são-joanenses tivesse sido faustoso esplendor.

E as outras, infelizes e malsucedidas, viraram estórias? Certamente não. Algumas, aos sábados, ganham vida noturna nas ruas coloniais como lendas são-joanenses. Outras continuam na sombra, na escuridão das betas, no frio dos porões, na cadeia das algemas e enxovias. Como as almas do Purgatório, que anseiam a subida ao Céu, esperam quem as resgate e lhes restitua a dignidade de história - parte da cultura, patrimônio que é tão mais rico quanto mais é diverso e verdadeiro.

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Observe, no centro da fotografia, o secular pelourinho - símbolo da opressão, em São João del-Rei ambientado em uma praça bucólica, rodeado de rosas inocentes.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Novena de Nossa Senhora do Carmo: orvalhada pétala musical e barroca de São João del-Rei

Desde o dia 7 deste julho - e até o dia 15 do mesmo mês -, acontece toda noite, em São João del-Rei um evento divino e sublime, que mistura arte, fé, música, imaginação, história, perfume, lembrança, memória, graça, cultura, alegria, recordação, beleza, encantamento e tradição. É a Novena do Carmo, que prepara o coração e os sentidos do povo são-joanense para as pomposas celebrações que, no dia 16, vão homenagear Nossa Senhora do Carmo.

Virgem de devoção muito popular em várias cidades históricas de Minas Gerais, em São João del-Rei seu culto é especialmente grandioso  e começou em 1727, na Matriz do Pilar, com a Confraria do Escapulário. Criada a Irmandade do Carmo, em 1732, logo deu-se início à construção da igreja, que é considerada um dos seis mais belos templos criados por Aleijadinho. Em 1746 a Irmandade foi elevada a Ordem Terceira.

A Novena de Nossa Senhora do Carmo, celebrada em São João del-Rei é barroca, composta por músicos são-joanenses setecentistas e oitocentistas e executada por ninguém menos do que a Orquestra Ribeiro Bastos.

Tal novena foi gravada há 36 anos em um disco de vinil, que hoje é raridade. Há poucos anos, foi novamente gravada em um CD independente que, por sua pequena tiragem, é pedra preciosa a ser garimpada na cidade. Não é muito fácil, mas vale a pena esforçar-se para encontrá-lo, pois tem peças delicadas, compostas pelo Padre José Maria Xavier, Jerônimo de Souza Lobo, Manuel Dias de Oliveira e João Francisco da Matta.

Conheça, abaixo, um trecho da Novena de Nossa Senhora do Carmo, gravado em 2008. Registro histórico importante, que mostra à frente da Orquestra Ribeiro Bastos a grande e saudosa maestrina Maria Stella Neves Valle.


Sobre a Festa do Carmo em São João del-Rei, leia também:
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/o-fotografo-que-viu-o-ceu-nas-barrocas.html
. http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/festa-barroca-de-nossa-senhora-do-carmo.html

domingo, 6 de julho de 2014

Debaixo de São João del-Rei, existe uma São João del-Rei subterrânea que ninguém conhece.

Debaixo de São João del-Rei existe uma outra São João del-Rei. Subterrânea, de pedra, cheia de ruas, travessas e becos, abertos por escravos no subsolo são-joanense no século XVIII, ao mesmo tempo em que construíam as igrejas de ouro e as pontes de pedra.

A esta cidade ainda ora oculta se chega por 20 betas de grande profundidade, cavadas na rocha terra adentro há certos 300 anos.  Elas se comunicam por meio de longas, estreitas e escuras galerias - veias  e umbigo do ventre mineral de onde se extraíu, durante dois séculos, o metal dourado que valia mais do que o sol.

Não se tem notícia de outra cidade de Minas que tenha igual patrimônio debaixo de seu visível patrimônio. Por isto, quando estas betas tiverem sido limpas e tratadas como um bem histórico, darão a São João del-Rei um atrativo turístico que será único, no Brasil e no mundo.

Atualmente, uma beta, nas imediações do centro histórico, já pode ser visitada e percorrida. Faltam outras 19, já mapeadas, dependendo da sensibilização, da mobilização, da iniciativa, do empenho e do esforço do poder público municipal, das instituições culturais e da comunidade são-joanenses.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Coisa da antiga: vereador de São João del-Rei foi "preso e recolhido à cadeia por três dias"


O começo do mês de julho faz lembrar um tempo distante em que o Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei era tão importante e respeitável que o estandarte daquele colegiado valia ouro. Prova disto é que no dia 1º de julho de 1716 - portanto há 298 anos - foram pagas 126,5 oitavas de ouro pela confecção da bandeira vertical que, como uma insígnia, ia à frente da corporação dos vereadores nas maiores procissões e nos cortejos oficiais.

O Estandarte do Senado da Câmara era até mais importante do que é hoje a bandeira nacional. Tanto isto é verdade que, no dia 2 de julho de 1775, a Câmara retomou sobre ele uma antiga tradição: nas ocasiões em que a Câmara saísse "incorporada", o estandarte deveria ser carregado pelo vereador mais velho do ano antecedente. E detalhou a sucessão de responsabilidades por esta atribuição, no caso de impedimento daquele titular.

Tal medida não foi sem motivo. Com ela buscavam corrigir um problema surgido no dia 24 de junho daquele ano, quando o vereador Joaquim Lopes do Vale, na procissão do Corpo de Deus, recusou-se a carregar tão nobre pendão. Como castigo, foi "preso e recolhido à cadeia por três dias, para emenda sua e exemplo de outros em semelhantes casos".

Onze anos depois, no mesmo dia 2 de julho, o Estandarte do Senado da Câmara foi levado com grande acompanhamento do Largo da Câmara para o "terreiro" do Largo de São Francisco, onde solenemente se levantou um mastro, iniciando os festejos do casamento dos infantes portugueses.

Na busca de enriquecer o conhecimento da iconografia colonial são-joanense, algum pesquisador bem poderia se dedicar a descobrir como era o Estandarte do Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei...

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Segunda edição, revista e ampliada, volume I. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.