sexta-feira, 31 de maio de 2013

De mansinho, agora maio se vai. Ontem era carnaval temporão em São João del-Rei


Mês de Maria, maio é tempo sublime em São João del-Rei. Céu distante, absolutamente azul, noites de grandes estrelas frias. Tudo às vezes se esfumaça no amanhecer, cobrindo a cidade com um véu de neblina, sereno, serração e orvalho. Desde sempre foi assim.

Alias, a 31 de maio de 1786, o Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei determinou que o alcaide, vestido a caráter, inclusive usando capa,  montado em um cavalo e acompanhado de todos os oficiais da justiça e do porteiro do "Juizo", saísse às ruas tocando clarins, timbales, trompas e flautas, anunciando a todas as pessoas livres e aos senhores de escravos que as Festas Reais estavam chegando. Durante elas, todos deveriam estusiasmar-se e tocar ruidosos instrumentos. Quem quisesse, poderia até sair mascarado e dançar "qualquer tipo de dança, sem impedimento algum". Era algo como um carnaval temporão.

Voltando a 2013, nesta despedida de maio, veja no link abaixo a paisagem de um estático anoitecer em São João del-Rei. Cortina de fundo para um grandioso toque dos sinos da Matriz do Pilar, em sofisticada e sublime sinfonia. Tencões, terentenas, floreados, canjica queimou, batucada e outros repiques e dobres que se toca nos dias festivos e suas vésperas.

"Salve terra querida e formosa. Salve terra de São João del-Rei!", conclama a todos o hino, antigo, de nossa cidade.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Canta del-Rei. Encontro Nacional de Corais espalha ainda mais música sob o céu de São João del-Rei


A alma de São João del-Rei é musical. Tanto que a designaram Cidade da Música - expressão da arte que aqui reina soberana e intensamente 365 dias por ano, nas mais diversas sonoridades: do barroco ao contemporâneo, do erudito ao popular, do espontâneo e urbano ao artístico e acadêmico. Mais do que em qualquer outra cidade, em São João del-Rei tudo é sonoro.  A cidade é uma clave de sol.

Agora, por exemplo, São João del-Rei vive o 4º Canta del-Rei, um encontro nacional de corais que, na versão 2013, dura dez dias e reúne oitenta corais de quase todos os estados brasileiros. A epopeia começou dia 24 e se estenderá até o dia 2 de junho, com concertos, serestas, intervenções urbanas, encontros e oficinas de preparação de cantores e regentes.

Por seu porte e propósito, o 4º Canta del-Rei não acontecerá apenas nos espaços fechados de teatros, templos e auditórios. Mantendo a tradição de edições passadas, como um Córrego do Lenheiro musical, escorrerá pelas ruas antigas do centro histórico, povoando-as com canções e cantigas que fazem muito bem para  a lembrança, para os ouvidos e para o coração.

O encerramento e ponto mais alto do encontro acontecerá na manhã do próximo domingo, em um local elevado e muito emblemático para São João del-Rei: a escadaria da igreja de Nossa Senhora das Mercês.

Lá - local consagrado, onde acontece o descendimento da cruz e começa a procissão do Senhor Morto, na Sexta Feira da Paixão - após duas missas barrocas executadas pelas orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos (as corporações musicais mais antigas das Américas, ininterruptamente atuantes desde suas fundações, no século XVIII) todos os oitenta corais se unirão em uma única voz para entoar três músicas. Finalizando, cantarão "São João del-Rei", de autoria do pianista e compositor Abgar Campos Tirado, que é o nome homenageado pelo 4º Canta del-Rei.

Veja, abaixo, uma apresentação do Grupo Villa Lobos no Canta del-Rei 2012.


domingo, 26 de maio de 2013

Corpus Christi em São João del-Rei: cometas e estrelas cadentes saúdam o Corpo de Deus


Deve ter mais de trezentos anos que São João del-Rei celebra a festa de Corpus Christi, pois este é o tempo em que o arraial foi elevado à categoria de Vila. Porém, pela importância deste marco, é possível que as comemorações desta data religiosa tenham sido realizadas pela primeira vez quando nossa cidade ainda era o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, na primeira década do século XVIII.

Aliás, naquela época - e até mesmo no século XIX - Corpus Christi era uma festa cívico-religiosa. Realizada pela Igreja Católica, era patrocinada pelo Senado da Câmara, que participava da procissão tendo à frente o seu estandarte. Era a Câmara que, inclusive, determinava as personalidades carregariam as varas do pálio. Recusar ou não comparecer era passível de severas punições, pois significava descumprimento de um dever para com Deus e para com o poder português.

Em alguns anos (ou décadas) chegou mesmo a se realizar, na Vila de São João del-Rei, duas procissões de Corpus Christi no mesmo trajeto e no mesmo dia. Uma pela manhã e outra à tarde. Uma promovida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento e outra pelo Senado da Câmara. Em todas elas São Jorge era presença certa - no começo encarnado em um cidadão são-joanense e depois representado por uma imagem em tamanho natural, que saía montada cavalgando um garboso cavalo vivo. A História local é muito rica, singular e pitoresca nos registros deste fato...

Há um bom tempo São Jorge se aposentou e não sai mais em procissões, recolhido às visitas que recebe no Museu de Arte Sacra de São João del-Rei. Também com o tempo a procissão de Corpus Christi foi perdendo sua função cívica, convertendo-se exclusivamente a manifestação de fé do calendário católico e social da cidade.

Várias paróquias de São João del-Rei comemoram, na mesma quinta-feira, a festa de Corpus Christi, cada uma com a coloração de sua comunidade. Porém, a mais tradicional é a realizada na Matriz do Pilar. Apesar do templo atual ser datado de 1721, já nos tempos de arraial eram as irmandades ali sediadas que promoviam as festas religiosas - razão pela qual as celebrações da Paróquia do Pilar são-joanense se destacam em todo o estado de Minas Gerais, sobretudo por sua pompa e fidelidade ao que se praticava antigamente.

Este ano, não será diferente. As celebrações começarão amanhã à noite, com um tríduo de cantos e orações que se estenderá até a noite de quarta-feira. Na quinta-feira, dia maior, missas solenes e a procissão de Corpus Christi mais uma vez mostrarão a fé dos são-joanenses e a dedicação que o povo de São João del-Rei empenha para expressar seu sentimento religioso, inclusive decorando com esmero as ruas e fachadas dos sobrados e casarões dos largos e ruas que são trajeto de Jesus Sacramentado - o Corpo de Deus.

Sinos, banda, orquestra, flores, incenso e céu das estrelas coloridas, cadentes dos fogos de artifício, tornando atual a palpitação de outros tempos, por algumas horas tornarão eterno mais um anoitecer outonal em São João del-Rei.




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Sobre o mesmo assunto, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/06/corpus-christi-religiao-e-civismo-de.html

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Volte ao tempo do ouro e percorra 300 anos nos museus de São João del-Rei


São João del-Rei é um dos poucos lugares do país onde a cultura original continua viva. O calendário da cidade é rico e intenso, pleno de manifestações que nos fazem voltar aos séculos XVIII e XIX, principalmente quando o assunto é tradição religiosa e musical.

Andar pelas ruas do centro histórico é como passar em revista à arquitetura de três séculos, do colonial ao contemporâneo. Harmonicamente, diversos estilos se intercalam e se complementam, mostrando o cenário que resultou da evolução urbana, econômica, social, religiosa, educacional, cultural e política ocorrida ao longo de 300 anos.

Mas São João del-Rei possui também espaços onde a memória está materializada em obras de arte, objetos, instrumentos de trabalho, instrumentos musicais, documentos históricos, livros e todo tipo de registro. São os vários museus e memoriais que, próximos dos templos setecentistas, se espalham pelos largos, ruas e becos do centro histórico.

Conheça, no link abaixo, um vídeo jornalístico de apresentação de dois museus de São João del-Rei: o Museu de Arte Sacra (Paróquia do Pilar) e o Museu Regional (Ibram / MinC)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Irmandade dos Passos de São João del-Rei: bulas papais, indulgências e devoção sensorial



A Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos é uma das mais antigas e tradicionais irmandades religiosas de São João del-Rei. Tanto que no dia 24 de maio do longínquo 1734, portanto há 279 anos, obteve do Papa Clemente XII um Breve para realizar o Jubileu das Quarenta Horas - tempo de duração da adoração feita ao Santíssimo Sacramento no período carnavalesco. No dia seguinte, novo Breve Papal concedeu indulgência de Altar Privilegiado ao altar de "Nosso Senhor Jesus Cristo dos Passos" da Matriz do Pilar de São João del-Rei, A indulgência valia todo Dia dos Defuntos - 2 de novembro - e seu oitavário, bem como infinitamente nas sextas-feiras de cada semana, pelas missas celebradas "por alma de qualquer fiel cristão".

Assim, as missas noturnas celebradas todas as sextas-feiras na Matriz do Pilar são de responsabilidade da Irmandade dos Passos, que se faz presente com seus irmãos vestidos a rigor, com terno escuro e opa roxa. Nestas cerimônias, a Orquestra Ribeiro Bastos executa músicas do repertório em grande parte composto para a Festa de Passos.

Aliás, a Festa de Passos é a mais extensa celebração do calendário religioso de São João del-Rei. Dura exatos 36 dias, quando são realizadas três Vias Sacras externas e solenes, três Encomendações de Alma, duas procissões de depósito, duas rasouras, a Procissão do Encontro, o Setenário das Dores e a Procissão das Lágrimas, da Soledade ou de Nossa Senhora da Piedade. Tudo isto no período que vai da primeira sexta-feira seguinte ao Carnaval até a última sexta-feira anterior à Sexta-feira da Paixão. Certamente em nenhuma outra cidade brasileira, e possivelmente em nenhuma outra cidade do mundo, as Celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a Caminho do Calvário têm tão longa, completa e diversificada programação.

Mas não são só a duração e a variedade de liturgias que tornam a Festa de Passos a mais autêntica, tradicional e peculiar do calendário religioso são-joanense. É que ela é a mais sensorial das celebrações. A visão, realçada pela cor roxa preponderante nas alfaias e pela expressividade dramática das imagens; a audição, convocada por um repertório que diz muito à emoção; o olfato, aguçado pelo aroma do incenso, do manjericão, da rosmaninha e pelo perfume que a multidão usa, como se estivesse em uma noite de gala; pelo tato, sensível ao contato do veludo da roupa das imagens, das fitas de cetim que são beijadas, da madeira da cruz que é acariciada, das folhas e ervas aromáticas que são recolhidas; do paladar das amêndoas de coco e amendoim com açúcar, embaladas em coloridos cartuchos cônicos de papel e até no almoço festivo do Domingo de Passos, tradicionalmente composto por lombo e tutu.

Para São João del-Rei, a Festa de Passos é a um só tempo realidade, presente e memória. Fé, arte e cultura! Confira nos links abaixo:


http://www.youtube.com/watch?v=2OUpkf8cVcE
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ecos do Jubileu do Divino Espírito Santo - São João del-Rei, 2013


O relógio de São João del-Rei tem dois ponteiros: um aponta para o futuro, para o amanhã, para o sempre, para o porvir, para o que nunca vai chegar. O outro, para o antes das horas, para o antes de tudo, para o antes do nada, para o antes do antes.

"Houve este mundo ou eu inventei?" A imagem acima e o que documenta o vídeo abaixo  inspiram esta pergunta, que pedi emprestada a Adélia Prado.

Depois deste vídeo, pra acalmar a palpitação, ouça logo esta música.
Homenagem sincera de reconhecimento e gratidão aos festeiros, imperadores, congadeiros, folieiros, cavaleiros, devotos, religiosos, enfim ao povo que há quase 250 anos cultiva e mantém viva e flamejante a fé que ao tempo de cada Pentecostes reluz e torna realidade o Jubileu do Divino Espírito Santo em São João del-Rei.

Sobre o mesmo assunto, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/05/as-duas-faces-radiantes-do-divino.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/05/sao-joao-del-rei-festeja-o-divino.html

domingo, 19 de maio de 2013

São João del-Rei festeja o Divino Espírito Santo!. No céu, na terra, em toda parte...


Hoje, quinto domingo depois da Páscoa, mais uma vez São João del-Rei está em festa, para celebrar Pentecostes - a descida do Espírito Santo, com seus sete dons, em forma de línguas de fogo, sobre a Terra. Aliás, como é onipresente, o Espírito Santo, em São João del-Rei, desce em dois lugares ao mesmo tempo: no centro histórico, onde é celebrado com solenidades  barrocamente celestes, e no bairro de Matosinhos, onde a festa tem tons populares, com congados, dança das fitas, folias, e outras manifestações que têm a alegria, o calor, o som e o jeito terrestres. Nestas, não faltam tambores, chocalhos, foguetes, cantigas, danças próprias nem rezas.

Aliás, este ano, a festa do Divino Espírito Santo de Matosinhos, em São João del-Rei, comemora o 239º aniversário, pois foi realizada pela primeira vez em 1774. Com o status de Jubileu, ela completa em 2013 230 anos.

Leia, abaixo, o que o Almanaque Eletrônico Tencões e Terentenas publicou sobre o Jubileu do Divino Espírito Santo de Matosinhos em 31 de maio de 2011.



São João del-Rei em festa: Salve o Divino Espírito Santo!

São João del-Rei está sempre em festa. Graças a Deus! Foguetórios, alvoradas festivas, cortejos, toques de sino, procissões, orquestras, gente na rua, música, movimento...Se desde o começo foi assim, Tomé Portes Del-Rei, quando aqui chegou, em 1703, e resolveu fundar a cidade, deve ter sido saudado por uma banda de música e a primeira coisa que fez não pode ter sido outra coisa senão, de braço para o alto, soltar uma caixa de foguetes. Só depois disso, então, é que começou a catar ouro e a cobrar pedágio pela travessia de pessoas, animais e cargas no caudaloso Rio das Mortes...

Agora falando sério, depois da amanhã, dia 2 de junho, São João del-Rei mais uma vez dá início a uma festa grandiosa: o Jubileu do Divino Espírito Santo.

As celebrações em honra à terceira pessoa da SantíssimaTrindade aqui são muito antigas. Começaram em 1774, no arraial de Matozinhos, da então Vila de São João del-Rei, e nove anos depois, em 1783, por sua importância para a Colônia - e talvez para todo o Reino Português -, foram elevadas pelo Papa Pio VI, à grandeza de Jubileu. Eram tão grandiosas quanto populares e, crescendo sempre, misturaram demais o sacro com o profano,  devoção com diversão. Assim, acabaram desagradando as elites e ao bispo de Mariana, que as inibiu em 1924. Desativadas durante 74 anos, quase desapareceram. Graças a Deus a Igreja e a sociedade evoluíram, possibilitando que, em 1998, a comunidade são-joanense, liderada por um grupo de folcloristas,  reconquistasse o direito resgatar esta tradição, recuperando inclusive sua "parte profana".

O que é, atualmente, a parte profana? Imagine: grupos de folia do Divino, ternos de congada, pastorinhas, manifestações de cultura afro-brasileira, cavalgada, cortejo imperial e coroação dos imperadores do Divino Espírito Santo, hasteamento / descida de mastros e shows populares. Nada que desaponte, macule, constranja, condene  ou envergonhe a Santa Madre Igreja.

Diferentemente das demais tradições religiosas bicentenárias de São João del-Rei,o o Jubileu do Divino Espírito Santo não acontece no centro históricomas no bairro de Matosinhos, para muitos considerado o berço da cidade, por fazer parte da região onde se fixou o fundador Tomé Portes del-Rei e nas proximidades do local onde, segundo alguns historiadores, se deu o terrível Capão da Traição, episódio terrível da sangrenta Guerra dos Emboabas, que ocorreu no Arraial Novo de Nossa Senhor do Pilar do Rio das Mortes, por volta de 1709.

Também é particularidade do Jubileu misturar o comando oficial da Igreja com a decisiva participação popular; a cultura clássico-barroca, representada pela Orquestra Lira São Joanense, com as manifestações telúricas das folias e dos ternos de congada. Nas várias atividades da festa, passado e contemporâneo se unem, culminando com uma procissão solene e luminosa, seguida de bênção do Santíssimo Sagramento e descida dos mastros, para dar lugar a um show popular, às vezes de violeiros e de música de raiz, às vezes de sertanejos urbanos. Milagres culturais do Espírito Santo...

Como em Sâo João del-Rei tudo é profundo, intenso e prolongado, para não fugir à regra, o Jubileu do Divino Espírito Santo dura dez dias. Este ano, terminará no dia 12 de junho.

Veja, no vídeo abaixo, os sineiros "catando o sino" e iniciando tencões, terentenas e floreados, na moderna igreja de Matozinhos, durante o Jubileu do Divino em 2010. A igreja antiga, construída no século XVIII, foi deliberadamente demolida, com consentimento de todos os responsáveis pelo bem e por sua preservação, há menos de quarenta anos. Dela, quase tudo foi vendido. O que não foi, publicamente desapareceu.

Restou no local a fé do povo, o sino e a imagem do santo protetor, Senhor Bom Jesus de Matosinhos. A tomar pelo Jubileu do Divino Espírito Santo, ele em cumprido bem o papel que lhe entregaram, pois não desaponta os cidadãos são-joanenses, devotos ou não, que vêm pedir seus favores, nem desampara o Espírito Santo, nos festejos de sua data maior...
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sexta-feira, 17 de maio de 2013

São João del-Rei tem um saudável manicômio de teatro, arte & cultura

Em São João del-Rei, a arte está em toda parte e por toda parte. No centro histórico, nos bairros, na periferia, nos teatros, nas praças públicas, em centros comunitários, escolas, nos auditórios, em arredores, no meio da rua. Interagindo com crianças, jovens, adultos, maduros, estudantes, analfabetos, letrados, doutores, agricultores, donas de casa, funcionários, autônomos, comerciantes, comerciários, empresários, empregados, desempregados, biscateiros e ambulantes - enfim, com quem aparecer para ver.

E não é de hoje que isso acontece. Pelo contrário, já faz quase uma década que a Companhia Teatral Manicômicos, ou simplesmente o Manicômicos, chegou à cidade, vinda de São Paulo. Aumentando ainda mais a riqueza da cultura tricentenária são-joanense, o Manicômicos criou aqui uma escola de "cultura" onde a comunidade de São João del-Rei e de dez outras cidades da região tem acesso a aulas de teatro, música, artes plásticas, dança e literatura, tudo finalizando na criação de um espetáculo.  A escola, assim como os espetáculos, é itinerante.

Em oito anos, como resultados deste trabalho, já foram montadas 13 peças teatrais, apresentadas em São João del-Rei e em diversas outras cidades do Brasil e até da Europa, sendo que somente em 2012 cerca de 2.000 pessoas  participaram diretamente do processo criativo, educativo e formativo. Para comemorar estes feitos, desde abril os espetáculos do Manicômicos estão intensamente, inclusive várias vezes por dia - e com espetáculos diferentes -, na programação dos fins de semana do Teatro Municipal de São João del-Rei.

A sede do Manicômicos fica em uma rua na margem direita do Córrego do Lenheiro, na entrada do Bairro de Matosinhos. É um espaço cultural composto por um pequeno teatro, local de pesquisa, treinamento e troca artística, uma biblioteca especializada em artes e uma lan house, gratuitas e abertas ao público.

Mas ao que parece, para o Manicômicos isto tudo é pouco.Para Companhia humanizar, harmonizar e embelezar as ruas que emolduram sua sede, o grupo criou, em um muro vizinho, um grande mosaico com temas da cultura são-joanense. Não satisfeitos, juntamente com a comunidade, plantpo na alameda da rua, que antes era área baldia, um "hortimedicinaljardim", onde as plantas têm nome e vicejam com um propósito, escrito à mão em uma rústica e sustentável tabuleta: "Vamos salvar o mundo!"

- Bravô! Bravô! Palmas para os Manicômicos...

Veja este clipe de um trabalho da Cia. Teatral Manicômicos, de São João del-Rei







quarta-feira, 15 de maio de 2013

Ouro, glória e memória para festejar os 300 anos da Vila de São João del-Rei


A história de São João del-Rei começou no alvorecer do século XVIII, com a formação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, mas foi dez anos depois, no dia 8 de dezembro de 1713 - ainda no calor do incêndio da Guerra dos Emboabas -, que foi instituída a Vila de São João del-Rei. Surgia, assim, a quarta vila criada na Capitania de Minas Gerais.

Desde o começo de 2013, mesmo sem constituir uma programação única, vários eventos vêm se dedicando a celebrar a efeméride. No Carnaval, os 300 anos de São João del-Rei foram o tema do bloco Carnaval de Antigamente, assim como a Semana Santa Cultural teve a mesma inspiração, inclusive nos tapetes de serragem e flores que se alastraram do Largo de São Francisco à Rua da Prata.

Agora, chegou a vez do Museu Regional de São João del-Rei também incluir este fato histórico no seu programa anual de exposições, o que será feito a partir desta quinta-feira, dia 16, com a mostra São João del-Rei: 300 anos de ouro e glórias. A exposição destaca peças do rico acervo setecentista e oitocentista da instituição para contar três séculos de história são-joanense: a mineração e corrida do ouro, a religiosidade, a cultura, o comércio, a indústria e a imigração.

Uma boa e anfitriã surpresa: quem receberá e saudará os visitantes na abertura da exposição será uma peça muito especial. O pequenino órgão de tubos, em recital da organista Josinéia Godinho.

Nosso desejo de são-joanenses é que, além desta exposição promovida pelo órgão local do Instituto Brasileiro de Museus - Ibram / Ministério da Cultura, o Governo Federal promova, incentive e apoie, ainda este ano, novas realizações na cidade, compatíveis com o significado do fato histórico e com a grandeza que se espera do Estado Brasileiro.

As boas coisas de São João del-Rei VIII: Alecrim Gastronomia a quilo


Imagine passeando pelo centro histórico de São João del-Rei encontrar, em uma das tantas esquinas, uma casa verde-água, com alpendre ao qual se chega subindo poucos degraus e um pequeno jardim, delimitado da rua por simpático gradil de ferro  retorcido.

Imagine cruzar o alpendre e percorrer cômodos que um dia foram salas e quartos, anfitriões, uns espaços levando aos outros com a maior cortesia e hospitalidade. Em todos, a luminosidade e o frescor de janelas abertas para o meio-dia, para o toque dos sinos da Matriz do Pilar e da igreja de São Francisco.

Imagine agora, tendo cruzado pouco a pouco as intimidades de uma cinquentona casa urbana mineira, chegar  à  generosa, ventilada e clara cozinha. Nada de fogões de lenha, panelas de pedra ou ferro, caldeirões, frigideiras, colheres de pau, sabores de tempos distantes. Não.

Aqui, contemporâneas saladas frescas, frugais na sua diversidade de folhas, brotos, caules, frutos, polpas, espigas, cachos e sementes. Mais à frente, uma sequência de pratos que bem transitam "da terra ao reino", do nativo ao estrangeiro - tudo preparado com tão grande cuidado que parece ter sido feito especialmente para você almoçar, em um dia de festa.

          - Mas, epa! No caminho entre a cozinha e a mesa escolhida, tem uma balança!...
          - Uma balança?
          - Sim, tal qual no poema de Drummond tem uma pedra no meio do caminho.
          - Calma, eu explico: no restaurante Alecrim Gastronomia a quilo, o sistema é
             self-service.
          - Onde fica este lugar?
          - Na Rua Aureliano Mourão, 72, esquina com a Avenida Tiradentes, no antigo
             Beco do H. Pena que só funciona para almoço, no horário mineiro, que termina
             as três da tarde...

Depois da sobremesa, o Alecrim Gastronomia tem um agrado: belos cartões-postais de São João del-Rei que você pode endereçar, com uma mensagem, para alguém especial. O próprio restaurante manda pelo Correio.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

São João del-Rei festejou, com muita música, a libertação dos escravos



Não poderia ser diferente: foi com música barroca que São João del-Rei comemorou, em 13 de maio de 1889, o primeiro aniversário da assinatura da Lei Áurea. As solenidades formais aconteceram na igreja do Rosário - templo-sede da mais antiga irmandade negra constituída em Minas Gerais, em 1708, bem antes que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar fosse elevado à categoria de Vila. Quem tocou foi a Orquestra Ribeiro Bastos.

Certamente, depois das solenidades, pompas, salamaleques e circunstâncias, teve animado batuque, alegres cateretês e até mesmo rodas de irreverentes umbigadas no Largo do Rosário, Rua Santo Antônio e arredores. A negrada tem no sangue pura alegria!

Desde seus primórdios, até hoje, São João del-Rei tem um número bastante expressivo de negros em sua população, mas antes que a Princesa Isabel assinasse a lei que proibiu o cativeiro e o trabalho escravo nas terras brasileiras, outra poderosa majestade já abrira, para os negros são-joanenses, a porta da liberdade.

Era a Arte, nas suas mais diversas formas. Música, pintura, escultura, ourivesaria, cantaria, prataria, feitiçaria, entre várias outras que muito dependem da alma e brotam da capacidade de imaginação, criatividade, originalidade, habilidade, observação, dedicação e de muitos predicados subjetivos.
 
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, 2a edição, volume I. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982


sábado, 11 de maio de 2013

As duas faces radiantes do Divino Espírito Santo em São João del-Rei

 
 
O Divino Espírito Santo é um só, mas em São João del-Rei, a fé, o poder e o mistério de Pentecostes são celebrados de duas diferentes maneiras. Entretanto, todas elas são festa flamejante e já começaram com grande vitalidade e entusiasmo, no centro histórico e nos bairros, principalmente no de Matosinhos.

No alto da Muxinga, na dourada capela do Espírito Divino, a programação, cheia de missas, novena, matinas, Te Deum Laudamos e procissão, têm tom mais solene, tradicional como convém a geografia e ambiente elevados e barrocos. Recentemente integrada ao patrimônio artístico-religioso-cultural de São João del-Rei, ela é uma extensão da Matriz do Pilar, sede das tricentenárias irmandades responsáveis pelas mais tradicionais cerimônias barrocas da cidade.

Enquanto isso, no moderno santuário do Senhor Bom Jesus, que fica no coração do agitado bairro de Matosinhos, a devoção tem jeito e cor popular, com folias, missa inculturada, cortejo, cavalgada, procissões e show. Para ela, inclusive, já estão se movimentando folieiros e congadeiros de outros bairros são-joanenses e até de localidades vizinhas.

Para os são-joanenses de antigamente, o Domingo de Pentecostes era dia santificado forte e de muito respeito,  entendido e festejado como parte da trilogia Espírito Santo, Santíssima Trindade, Corpus Christi. Celebração enfraquecida na metade do século XX, novamente vem ganhando força nas últimas décadas, sobretudo por unir fé e festa.

A continuar se revigorando e ganhando vulto participativo, não é utopia desejar que, em um futuro não muito distante, distintivos e insígnias do Espírito Santo decorativamente sejam colocados nas fachadas das casas e em marcos do trajeto por onde passam procissões, folias e cavalgadas. A fé também se materializa e se fortalece pela visão e, além do mais, o Espírito Santo está presente no dia a dia de São João del-Rei, como inspiração e obra dos artesãos que O multiplicam em vários tamanhos, de asas abertas, cabeça levemente pendida e os sete raios de seus poderosos dons.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Congadeiros colorem o céu, o chão e o coração de maio em São João del-Rei

Se no peito de São João del-Rei bate um sino, nos próximos dias - de 20 a 26 de maio - o coração são-joanense baterá como uma caixa de congado. O sangue correrá com o ruído de chocalhos e as cores suaves da devoção de Nossa Senhora ganharão mais vida e movimento, reverberarão em tons fortes nas fitas e papéis repicados que enfeitam os instrumentos, chapéus, roupas, estandartes e adereços dos congadeiros. É que a cidade será terreiro para o Encontro de Congadeiros das Vertentes.

Mas não serão apenas a música tocada e cantada, as orações negras de antigamente, as danças, passos e saudações do povo que veio da África que darão corpo ao evento. Uma vasta programação, composta por atividades informativas, formativas e culturais, mostrará como é forte a cultura negra em São João del-Rei. Como ela é parte do dia a dia, como está ligada às nossas origens histórico-culturais e mais: como a despeito da cyber-realidade está viva e marca o compasso da batida de muitos corações. Infantis, jovens, maduros, sábios.

Exposições, aulas, palestras, rodas de conversa, intelectuais, capitães de congado, congadeiros, artistas, cortejos. Tudo em memória daqueles que, trazidos de outro continente, como escravos, para este mundo novo da Terra de Santa Cruz, não cortaram o umbigo que os une ao centro da terra. Antes, neste território geográfico e mítico, cultivam seus ritos, alimento de esperança, certeza, alívio e fé, para que brotem sempre entre as flores do Rosário de Nossa Senhora, mãe do dia e da noite, do firmamento, do sol e da lua, das estrelas, do arco-íris e de todas as outras coisas que, mesmo sendo muito boas, no Céu e no Mundo não mais se vê.

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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/05/13-de-maio-sao-joao-del-rei-teve.html

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Maestrina Stella Neves Vale rege estrelas, auroras e crepúsculos na pauta celeste de São João del-Rei

Quando a noite do domingo passado, 28 de abril, chegou, cobriu com um manto negro o coração de São João del-Rei. Estrelas e lua cheia, sem clave de sol, no céu se organizaram em pauta silenciosa, a espera da maestrina que a partir de então as regeria. Os sinos, como poucas vezes nos trezentos anos da Vila de São João del-Rei, fizeram 24 horas de silêncio, solidários com a Música, que aqui perdera os braços de sua mãe. Dona Maria Stella Neves Valle deixou o mundo às 18 horas.
Deitada placidamente com o uniforme preto da Orquestra Ribeiro Bastos, no centro da sede da Sociedade de Concertos Sinfônicos, suas mãos agora inertes acariciavam flores brancas notas musicais - ternura eterna dos anjos negros-dourados-barrocos que comandava nos coros das igrejas de São João del-Rei. Agora Dona Stella ajudará o Criador a reger a sinfonia do universo, acenando as mãos com determinação carinhosa e austera para orientar estrelas, planetas, luas, cometas,  brisas, estações, ventos, auroras e crepúsculos na pauta da abóboda celeste de sua São João del-Rei.
Na Matriz do Pilar, mirando de olhos cerrados o teto que espelha seu novo destino, ouviu mais uma vez - não pela última - trechos da Missa Breve do Domingo de Passos, Christus factus est e lamentosos responsórios dos Ofícios de Trevas.
Depois, atravessou o Largo do Rosário, seu caminho de todo dia, mas desviou-se à direita e, contrariando sua rotina, não adentrou a Rua Santo Antonio. Convicta e firme como sempre fora, subiu o beco-ladeira da Muxinga, passou em frente à capela do Divino Espírito Santo, ouviu o Miserere e cruzou a porta eterna que a levou para junto de seus pais.
No entardecer daquela segunda-feira, quando o sino das Almas, choroso, tocou Ângelus, um conforto aliviou o coração do povo de São João del-Rei: o legado que a maestrina Maria Stella Neves Valle, dona Stella, deixou é infinito. Tanto, que por maior que doravante seja o sentimento por sua ausência, jamais conseguirá se assemelhar a tudo o que ela, generosamente, fez pela cultura, pelos músicos, pela Orquestra Ribeiro Bastos, pela música barroca, por São João del-Rei, por Minas Gerais e pelo Brasil. Isto sem dizer que a música é patrimônio universal... 
Estrela luminosa da Orquestra, Dona Stella agora é a mais nova orquídea do buquê roxo do Senhor dos Passos!
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