sábado, 8 de outubro de 2016

Ah! Estes doces e inocentes mistérios de São João del-Rei...


Em São João del-Rei, os santos são amigos. Gostam de se encontrar, de conversar e matar a saudade, nem que para isso seja preciso se desculpar com o bispo, desobedecer o pároco, contrariar as irmandades e até mesmo a vontade do povo, como às vezes acontece.

Quando resolvem colocar debaixo do braço auréolas e santidades, para sair do sério, basta apenas a oportunidade de uma procissão. Nestes dias, esperam somente o cortejo atravessar um largo e dobrar duas ou três esquinas para rapidamente recolherem do céu as estrelas e jogarem das nuvens um bom pé-d'água. Pode ser até que ele passe depois de alguns minutos, mas até que isto aconteça, o  povaréu já se dispersou. As irmandades encurtaram o caminho e os ilustres carregadores do andor, de lanternas e do pálio protetor da autoridade eclesiástica tomaram o rumo da igreja mais próxima, onde o santo - que estava a passear em procissão pelo centro histórico, ao som da banda e dos sinos - passará a noite.

Lá, ele se juntará a outros santos e anjos, que esperam apenas o sacristão fechar as portas e apagar a luz das velas para tagarelarem noite inteira e colocar em dia verso e prosa, para avivar e aquecer tão velhas amizades. Relembram das santidades que moram em outros templos; falam de penitências, sofrimentos, torturas, suplícios e martírios; riem dos apuros que tantas vezes passaram, quando viviam na Terra e ainda não tinham ganhado asas para o Céu. Confidenciam sortilégios da humanidade que lhes tiram o sono e confabulam planos para enganar o Mal, desviar seus caminhos, levando-o para bem longe de qualquer ser vivente. É isto o que Deus e os homens deles esperam.

Assim, de uma hora para outra, São Francisco desvia o trajeto e sobe a escadaria da igreja de São Gonçalo. São Sebastião para na igreja do Carmo. Nossa Senhora da Glória e a Santíssima Trindade entram às pressas no Hospital das Mercês. Nossa Senhora das Dores suspende a capa de céu noturno, tira o diadema de prata e estrelas e fica na igreja do Rosário. Senhor dos Passos resolve transferir o encontro com sua mãe no Largo das Mercês para o dia seguinte, segunda-feira e, como desculpa, faz chover à tardinha, no quarto domingo da Quaresma. Tudo para visitar o santo amigo e conversar com ele a noite inteira...

Depois do choro pela frustração da roupa nova molhada e de uma noite mágica escorrida em enxurrada pelos bueiros de pedra rumo ao Córrego do Lenheiro, era assim que as crianças de antigamente, quando chegavam de volta em casa, justificavam umas para as outras a chuva que pôs fim à procissão. E logo em seguida ficavam felizes de novo, sabendo que no dia seguinte a festa continuaria, a partir da igreja onde o santo parou.

Informante: Carmen Trindade da Costa, SJDR, 88 anos
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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nossas Senhoras de São João del-Rei. A doce e suave matrona Conceição


Continuando nas "Breves invocações / de quem nada merece / a quem oferece tudo", do folheto Exposição Mariana, produzido pela Paróquia do Pilar de São João del-Rei, na Semana Santa de 1995, aproveitando que hoje é dia de São Francisco, assim clamou o poeta Jota Dângelo à Nossa Senhora da Conceição, a quem muito recorria o santo de Assis:

Nossa Senhora da Conceição

Que eu não precise, Senhora,
invocar-te em oração.
Que tudo o que eu diga e faça
seja a minha invocação.
Senhora, Senhora minha,
Senhora da Conceição.

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Imagem recolhida da internet (https://www.youtube.com/watch?v=e3D6FdUofX4)

sábado, 1 de outubro de 2016

Nossa Senhora do Rosário: com terço de contas e rosas, a grande Matriarca de São João del-Rei


Se Nossa Senhora do Pilar, vinda com os brancos, bandeirantes, desaforados e opressores, é a padroeira de São João del-Rei, Nossa Senhora do Rosário, que veio com os negros - com os cativos, com os escravos, com os libertos e com os livres - é a matriarca desta terra.

Sua corte na cidade começou oficialmente em 1708, quando a territorialidade são-joanense não passava de um arraial. A Irmandade do Rosário de São João del-Rei, uma das três mais antigas do Brasil e a pioneira de Minas Gerais, talvez seja a primeira instituição de direito civil, privado e religioso constituída na Comarca do Rio das Mortes. Documentos e datas não mentem. O orgulho dos irmãos do Rosário também não.

Sua igreja foi das primeiras edificadas no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, numa situação geográfica que  ostenta sua expressão e seu significado na sociedade daquela época dourada e colonial. Também festejada no mês de outubro, porém durante todos os trinta e um dias, é aquela a quem se chama em silêncio, nas horas de mais profundo recolhimento. Às vezes nem é preciso chamá-la: pressentindo o sofrimento, ela se antecipa em socorrer, anunciando a chegada de seu amor na forma de uma brisa misteriosa e docemente perfumada de rosas suaves.

O séquito de Nossa Senhora do Rosário é formado por reis congadeiros, marujos, catupés, caboclinhos, guerreiros, todos roucamente ruidosos no rufar de suas caixas e nos cantos guturais, que venceram noites, chibatas e oceanos; transporam a Serra do Lenheiro e pulsam eternamente no coração de cada negro são-joanense.

Conversando com Nossa Senhora do Rosário, Jota Dangelo disse:

Nas contas do teu rosário,
contou-se dores de escravos.
Curou-se chagas de açoite,
com a invocação do teu nome.
Luz que findou a noite,
consolo dos que têm fome.
Rainha dos congadeiros,
quer dizer, dos brasileiros,
pois nas raças, misturados,
não somos brancos nem negros.
Todos nós somos só pardos!

Texto: Antonio Emilio da Costa / Foto: Danilo Gallo