quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Retrato sentimental e poético de São João del-Rei




                             " Todo sino é uma saudade de bronze.
                       Toda maria-fumaça é uma saudade
                       de ferro e fogo."

Ao que se sabe, o teólogo Rubem Alves não dedicou esta construção poética a São João del-Rei. Mas ela expressa tão precisamente o sentimento são-joanense que pode ser considerada um retrato sentimental e poético de São João del-Rei.

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Foto: Marcinho Lima


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Novena barroca de Natal em São João del-Rei. Encantamento, magia e mistério!

O calendário festivo de São João del-Rei é tão intenso que mal termina uma "festa" e outra já está a caminho, quando não começando ou, então, já na metade. As comemorações do Natal, por exemplo, na "terra onde os sinos falam" começam no dia 16 de dezembro, com uma novena barroca, na igreja do Rosário - a mais antiga da cidade.

Nesta celebração, durante nove noites a Orquestra Lira Sanjoanense - a mais antiga das Américas - executa hinos, salmos, responsórios e ladainhas compostos no século XIX, entre eles as famosas "Matinas do Natal", que o compositor são-joanense Padre José Maria Xavier criou especialmente para a ocasião. Muito alegres, vivas e suaves, as Matinas são cantadas em latim e descrevem a história do nascimento de Cristo. Narram o chamado que o Anjo fez aos pastores, o movimento do cometa que guiou os Reis Magos do Oriente até Belém, a humildade devota dos animais que estavam na estrebaria, a harmonia infinita e brilhante dos astros no céu - enfim a felicidade que abraçou o universo naquele 25 de dezembro distante.

Quem puder, não deixe de assistir, pelo menos um dia desta novena que termina no anoitecer do dia 24. Tudo é especialmente bonito, a começar pelo caminho que leva ao frontispício da igreja. O largo do Rosário, com seus nobres casarões entremeados por casas de beiras-seveiras e curvos portais - tudo realçado por iluminação delicada parece uma paisagem riscada com vagalume sobre um pano preto. Que antiga criança são-joanense não fez isso nas noites da infância?

Por dentro, a igreja é em tudo acolhedora. Simples de adornos discretos e de cores suaves, como se concebida fosse para a novena de Natal. No trono do altar-mor, a imponente imagem colonial portuguesa da padroeira dos negros, Nossa Senhora do Rosário, nestes dias sem o Menino Jesus sentado em seu braço. Sussurram os mais velhos que ela o emprestou ao mundo, para ele ficar entre os homens no tempo de seu nascimento.

Toques de sino, encantamento das matinas, nuvens perfumadas e misteriosas de incenso, estrelas coloridas que escapam dos foguetes e estouram instantâneas nas noites de dezembro do Largo do Rosário. Que mistério é este que faz o Céu descer ao chão no centro histórico de São João del-Rei?

Veja e ouça, neste link https://www.youtube.com/watch?v=Xa6FUl7ruGw um belo, melodioso e completo movimento das Matinas de Natal do Padre José Maria Xavier.Na regência, a saudosa maestrina Maria Stella Neves Vale, durante muitas décadas a grande matriarca da música colonial em São João del-Rei.

Depois, acesse http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/12/em-sao-joao-del-rei-estrela-guia-no-ceu.html e leia sobre as Pastorinhas do Menino Jesus de São João del-Rei


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os olhos de Santa Luzia iluminam São João del-Rei, seja de noite, seja de dia



13 de dezembro - dia de Santa Luzia. A eternamente jovem, virgem e cega, que tem domínio sobre os olhos, protege a visão e guia os cegos na sua noite longa e sem estrelas. Em São João del-Rei, Santa Luzia tem bastante prestígio junto ao povo são-joanense, que chega a ter com ela, inclusive, relativa intimidade física.

Durante o ano quase inteiro, a Santa - em imagem de madeira - mora sobre uma arca grande na sacristia da modesta igreja de São Gonçalo Garcia. A ela fazem companhia flores artificiais, bilhetes, pedidos, agradecimentos e fotografias daqueles que lhe devem ou lhe pedem favor: homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e velhos. Pessoas simples, humildes de bens e ricas de esperança e fé.

Da noite da Quarta Feira de Trevas até o entardecer da Sexta Feira da Paixão, Santa Luzia vai para a entrada da igreja onde, à frente do tapa-vento, recebe os são-joanenses. Estes, por sua vez, ajoelham-se diante dela, beijam a fita roxa que pende de seus pés e passam-lhe o polegar e o indicador da mão direita sobre os olhos, pousando-os depois nos olhos de si próprios. Depois disso, com a visão clara, entram na igreja escura para ver, representada, uma cena dos milagres de Cristo.

No dia a dia, quando um cisco lhes cai no olho, incomodando visão, pedem intervenção à santa, repetindo assim:

            "Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim.
             Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim.
             Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim."


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Folias de Reis anunciam - com cor, suor, devoção e alegria - o Natal em São João del-Rei


São João del-Rei está em um momento muito feliz. Não apenas pelo calor e entusiasmo com que está comemorando os 300 anos da criação da quarta vila  de Minas Gerais, ou melhor, da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, quando o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes foi elevado à categoria de Vila, com o nome de São João del-Rei, em homenagem ao faustoso soberano português D. João V.

São João del-Rei está em um momento muito feliz porque está voltando seu olhar para si própria. Não que negue e desvalorize o mundo que existe do outro lado da Serra do Lenheiro, mas sim porque está garimpando suas próprias riquezas, se apropriando de seus tesouros culturais, reconhecendo suas origens e reforçando-as como bases de sua identidade e de sua cultura. É de posse desta história, desta memória e deste patrimônio que, a partir de então, São João del-Rei vai se apresentar para o mundo.

E recebê-lo na intimidade dos quintais da alma são-joanense, onde se cultiva e colhe música barroca, tradições religiosas, cultura popular, sabedoria, humanidade, conhecimento, respeito, folclore e erudição. Onde se cultiva e colhe a própria vida, aqui semeada - ora com zelo e delicadeza, ora com absoluta e selvagem brutalidade - nos idos de 1704.

São João del-Rei surpreende. Evolui e surpreende ainda mais. Holística, a cidade tem espaço democrático para todos - todos os conceitos, todos os modos de pensar, acreditar e agir, todos os modos de se expressar. Nos jardins de São João del-Rei floresce legitimidade e é ela que perfuma a brisa da diversidade plena que exala neste Vale do Lenheiro.

Um bom exemplo disto é o trabalho desenvolvido pelo Memorial Dom Lucas Moreira Neves, sobretudo nesta segunda semana de dezembro. No clima de Natal, aquela casa de cultura e memória está promovendo, toda noite, de hoje até sexta-feira,  em frente à sua sede, na Rua Direita, em frente à Matriz do Pilar, apresentações de dez grupos de folias diversas: embaixadas santas, moçambiques, folias de reis, folias de São Sebastião, folias do Divino, folia feminina e algumas outras, em sua maioria dos bairros de São João del-Rei mas também de duas cidades vizinhas.

Por sua alma telúrica e popular, as folias ainda não ocupam o lugar que merecem no panteão sagrado da cultura de São João del-Rei, referenciada pelas tradições barrocas, clássicas e eruditas. Mas a cada evento se tornam mais visíveis, tão conhecidas e reconhecidas que em breve as folias, congados, catupés e moçambiques figurarão entre os mais importantes elementos constituidores e de expressão do patrimônio cultural da tricentenária São João del-Rei.



Foto: Ulisses Passarelli (cortesia)


domingo, 8 de dezembro de 2013

300 anos de São João del-Rei em destaque no Terra de Minas


Minas Gerais dirigiu um olhar especial para São João del-Rei neste dia 8 de dezembro, saudando o povo são-joanense pelos 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar à  Vila de São João del-Rei.

O programa Terra de Minas, da TV Globo, produziu uma série especial sobre a cultura e as tradições locais, exibida neste domingo, que você pode conhecer clicando nos links abaixo

A barroca lembrança dos velhos quintais que ainda existem no centro da cidade
http://redeglobo.globo.com/mg/globominas/terrademinas/videos/t/edicoes/v/terra-de-minas-comemora-300-anos-de-sao-joao-del-rei-e-desvenda-os-quintais-da-cidade/3003704/

A música que desce das torres e escorre sonora pelas ruas coloniais
http://redeglobo.globo.com/mg/globominas/terrademinas/videos/t/edicoes/v/com-instrumentos-pelas-ruas-sao-joao-del-rei-transforma-os-sinos-da-igreja-em-musica/3003710/

Pinturas rupestres e história de amor proibido na Serra do Lenheiro
http://redeglobo.globo.com/mg/globominas/terrademinas/videos/t/edicoes/v/terra-de-minas-mostra-curiosidades-encontradas-por-desbravadores-em-sao-joao-del-rei/3003703/

Festa, emoção e coração nos 300 anos da Vila de São João del-Rei - Falam os são-joanenses

São João del-Rei 300 anos

Trezentos anos separam 8 de dezembro de 1713 de 8 de dezembro de 2013. Trezentos anos unem 8 de dezembro de 2013 a 8 de dezembro de 1713. À luz do sol do Campo das Vertentes e à sombra da Serra do Lenheiro, São João del-Rei está em festa, celebrando os três séculos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar da Comarca do Rio das Mortes à condição de Vila, com o nome de São João del-Rei. A quarta instituída em Minas Gerais, quando o estado ainda se chamava Capitania de São Paulo e das Minas de Ouro.

A história de São João del-Rei se mistura com a história de vida dos são-joanenses. Aliás, é difícil saber se elas se fundem, se são indissociáveis ou se são uma só. Isto é o que se percebe nos depoimentos de são-joanenses publicados hoje no blog São João del-Rei 300 anos, que você pode ler clicando neste link http://saojoaodelrei300anos.blogspot.com.br/

Parabéns, São João del-Rei, pelos seus 300 anos. Parabéns, são-joanenses, por sua história e por suas histórias!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Coração são-joanense: 300 anos de história & sentimento - Mande sua mensagem!





300 anos não são 300 dias. Por isto, os três séculos de elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar a Vila de São João del-Rei enchem de alegria e orgulho são-joanenses e não são-joanenses. Afinal, nascia ali a quarta vila do ouro instituída em Minas Gerais.

Em cada um destes 109.500 dias, construiu-se São João del-Rei e tudo o que identifica, diferencia e singulariza o povo desta cidade. Educação, sabedoria, religiosidade, humanismo, cidadania, criatividade, cultura, tradição, patrimônio, lembrança e memória. Esta é a principal riqueza da terra onde os sinos falam.

Pensando nisto - e no entusiasmo dos trezentos anos da Vila de São João del-Rei - que tal declarar à cidade seu afeto e sentimento,  encaminhando uma mensagem para o e-mail  sjdr300anos@gmail.com ? Texto, desenho, foto, poema, vídeo, música, história ou estória - vale tudo!

Se possível, informe pelo menos nome, idade e cidade, pois muitas mensagens serão publicadas no blog São João del-Rei 300 anos (saojoaodelrei300anos.blogspot.com.br)

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Mensagens recebidas
Para ler as mensagens encaminhadas a São João del-Rei, clique nos links abaixo




   Mensagens

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Eparrêi, São João del-Rei! Valei-nos Santa Bárbara, São Jerônimo...




Em tempos passados, sempre que um raio violento estrondosamente cortava ao meio o céu de São João del-Rei, logo se ouvia aflito chamado: Santa Bárbara! São Jerônimo! Era assim que se pedia socorro quando vinha o temor das tempestades.

E logo se cobria espelhos, para que não refletissem os raios, se desligava tomadas, ninguém abria janela, pegava tesoura ou tocava em torneira. Pelo contrário, se acendia uma vela, benta no dia de Nossa Senhora das Candeias, 2 de fevereiro, e se queimava a palma levada à igreja para bênção na manhã do Domingo de Ramos. Tudo sob a invocação de Santa Bárbara.

A santa, que tem aos pés uma torre, na cintura uma espada, nas mãos um cálice e uma palma verde, na cabeça uma coroa, exerce domínio inquebrantável quando o céu se desmancha em chuva forte. Acalma raios, amansa ventos, tranquiliza o firmamento. Afasta o temor e traz paz ao coração.

Nos tempos modernos, para-raios sobre torres e telhados são a contemporânea espada de Santa Bárbara. Antenados, colhem no ar faíscas elétricas e as guardam no cálice dourado, raso e sagrado que a santa tem nas mãos.

Tanto tempo depois do tempo, em São João del-Rei Santa Bárbara vigia tudo, em nicho dourado do primeiro altar à esquerda de quem entra na Matriz do Pilar, dedicado a Nossa Senhora da Conceição. Protetora principalmente dos trabalhadores que em perigo lidam com o fogo em chamas, certamente nesta quarta-feira, 4 de dezembro, Santa Bárbara ganhará muitas visitas e buquês de flores vermelhas na terra onde os sinos falam. Na Matriz do Pilar e nas casas de umbanda e candomblé.

4 de dezembro. Dia de Santa Bárbara, na religião católica. Dia de Iansã - ou Inhansã - na religiosidade que veio da África. Para todos, brancos e negros, a rainha dos raios, a senhora das tempestades. Que não tem medo da morte e acalma as tormentas...


domingo, 1 de dezembro de 2013

Tempestade em São João del-Rei faz lembrar 1797


A última noite de novembro deste ano não desceu sobre São João del-Rei com seu manto azul escuro  bordado de estrelas. Pelo contrário. No momento em que a lua nova deveria estar pousando sobre a Serra do Lenheiro, uma nuvem pesada prenunciava um acontecimento que, ao longo de 300 anos, os são-joanenses já viram muitas vezes: uma forte tempestade que com muito ruidosos e velozes flashes de prata fez brilhar telhados e paralelepípedos.

A água, violenta, transformou o pacato fio d'água que corta ao meio a cidade em um gigante líquido e furioso, a enfrentar, com vigor, as setecentistas pontes de pedra e a resistir ao extremo os limites que o guarnecem, em São João del-Rei conhecidos como cais. Longe do mar, ali o Córrego do Lenheiro, na intimidade dos mais antigos, é informalmente chamado de praia.

Contra as forças da natureza, o homem pode muito pouco, quase nada e esta realidade é universal. Está presente o tempo todo, em toda parte do mundo. Basta olhar as notícias que volta e meia chegam dos vários continentes, informando acidentes naturais.

Mas os são-joanenses, na firmeza de sua fé inabalável, aprenderam ao longo dos séculos a esperar serenos que se passe a tormenta, a lamentar no coração pelas perdas e sofrimento, a se fortalecer para novas tempestades e a dar seguimento à vida que flui - ora serena, ora turbulenta - como um córrego corre para o rio, que corre para o mar que, na sua imensidão, não corre para lugar nenhum. Ou melhor, que corre para si mesmo.
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Sobre as enchentes em São João del-Rei, leia abaixo a história de uma que, no final do século XVIII, motivou a construção do monumento que é um dos mais importantes ícones da cidade - a Ponte da Cadeia.