quarta-feira, 31 de agosto de 2011

130 anos do trem de ferro em São João del-Rei: de Adélia Prado a Villa-Lobos, passando por Tom Jobim e Manuel Bandeira

Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (jardim) - São João del-Rei

Tão importantes são os 130 anos da presença do trem de ferro em São João del-Rei que bem cabe, para os são-joanenses e visitantes encantados com a Maria Fumaça, resgatar, na produção artístico-cultural brasileira do século XX, algumas obras preciosas  que se inspiraram na representação do trem no imaginário nacional. Principalmente na imaginação dos mineiros e, mais especialmente  ainda, dos são-joanenses. Vejamos e ouçamos:

A grande poetisa mineira Adélia Prado explicou:




O carioca Villa-Lobos compôs o Trenzinho do Caipira, que o grupo mineiro Uakti, com seus instrumentos únicos e originais, assim apresenta:





Já o pernambucano Manuel Bandeira, em versos, embarcou no "Trem de Ferro" rumo à imaginária Pasárgada - viagem que Tom Jobim deu voz:


Leia mais sobre os 130 anos da Estrada de Ferro Oeste de Minas em São João del-Rei, acessando

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/08/maria-fumaca-de-sao-joao-del-rei.html

terça-feira, 30 de agosto de 2011

D. Pedro II foi o primeiro a andar na Maria Fumaça de São João del-Rei. Era 28 de agosto de 1881.


São João del-Rei é uma cidade de muitos - e mais do que centenários - símbolos: os sinos e seus toques, os violinos e a música barroca, a Semana Santa e suas procissões, a Ponte da Cadeia, o Largo de São Francisco e o quê mais? a Maria Fumaça e seus trenzinhos...

Desde1881 a  presença da Estrada de Ferro é tão marcante na cultura da cidade que a bela Estação Ferroviária foi edificada em um local privilegiado. Nas margens do Córrego do Lenheiro, em frente àquele que foi o mais importante hotel da cidade nas décadas finais dos anos oitocentos - o Hotel Brasil. A área por mais de cem anos, entre os séculos XIX e XX, era nobre e requintada e ainda hoje movimenta comércio intenso. Tem uma ponte de ferro construída só para, saltando a "praia", se chegar à Estação.

O modernista Oswald de Andrade, quando esteve em São João del-Rei, recomendou que os brasileiros viessem, de trem, conhecer nossa cidade. Carlos Drummond de Andrade, quando por aqui passou, ao falar sobre a sonoridade são-joanense, perguntou, antes de fazer um grande pedido: "Quem foi que apitou? Deixa dormir o Aleijadinho, coitadinho..."

Capítulos importantes e o cotidiano singelo da história de São João del-Rei andaram lado a lado nos vagões puxados pela Maria Fumaça. Personalidades nobres também atenderam a seus apitos, como o Imperador Dom Pedro II, que fez a viagem inaugural da Estrada de Ferro Oeste de Minas no dia 28 de agosto de 1881. Eram 22 horas quando a locomotiva n° 1, batizada de São João del-Rei, entrou na estação,  transportando a comitiva imperial que, além do monarca, levava também a imperatriz Teresa Cristina e diversos ministros, conselheiros, parlamentares, jornalistas e pessoas influentes.

Segundo relatos e registros na imprensa da época, foi tudo uma grande festa. Descrevem que, da estação, Dom Pedro e sua corte seguiram em carro aberto pelas principais ruas da cidade até o solar do Barão de São João del-Rei (atual Delegacia de Ensino), na Rua da Prata, onde ele ficou hospedado.Todo o trajeto estava  muito bem iluminado, enfeitado com guirlandas e arcos floridos para o cortejo imperial. O povo são-joanense, feliz e entusiasmado com o progresso que a Estrada de Ferro Oeste de Minas ainda mais estimularia, saudava a passagem dos nobres visitantes e a nova era que iniciava.

Muito deste fato você pode conhecer visitando a Rotunda e o Museu Ferroviário, instalados na Estação Ferroviária de São João del-Rei. Boa viagem, no tempo e na história...


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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/07/poucas-palavras-de-ferro-e-movimento.html
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II. 2a edição, revista e aumentada.  Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte.1982.

Foto da abertura: Estação Ferroviária de São João del-Rei (foto do autor)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

São João del-Rei, "de barro e oca. Barroca."


Desde há muito tempo viajantes e escritores, passando por São João del-Rei, inspirados pela magia do lugar, dedicaram-se a registrar, em seus apontamentos, principalmente na forma de versos e poemas, singularidades são-joanenses.

O Conde de Sant'Ana, por exemplo, quando aqui esteve, referindo-se ao anoitecer de nossa terra, escreveu o seguinte:

"Às seis horas da tarde, em São João del-Rei, os sinos dobram.
Rumo às igrejas, os devotos buscam a paz, a crença e momentos
de serenidade. O altar é iluminado, a música sacra entoa.

De suas janelas, pessoas contemplativas admiram
o mistério que envolve o anoitecer na cidade."

Nas ruas coloniais, que no tempo do ouro conheceram Tiradentes, Alvarenga Peixoto, Bárbara Heliodora e todos os sonhos inconfidentes de liberdade, ainda hoje é assim!

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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/as-boas-coisas-de-sao-joao-del-rei.html

domingo, 28 de agosto de 2011

Enquanto a primavera de todo não chega em São João del-Rei...


Ainda é inverno em São João del-Rei mas, refletindo a alma são-joanense, a luz torna-se cada dia mais intensa, reverberando sem sombras no céu azul e infinito. Apesar do clima seco, as cores saltam do chão, dos muros e do ar, nas árvores que, floridas, lembram o céu estrelado da Via Láctea. Anunciam que a primavera vem se  aproximando de mansinho e chegará em silêncio, sem alvorada de banda de música, sem apito de trem, sem sirene de fábrica, Polícia, Bombeiros nem ambulância, sem toque de sinos, sem foguetório. Discreta e modesta em sua tanta beleza, como às vezes faz questão de ser o povo de Minas Gerais.

Enquanto a primavera de todo não vem, mergulhemos neste domingo na ciranda abaixo, mostrando como pode ser diferente e haver harmonia neste "Mundo Louco", que é a tradução literal do título da música.

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Ilustração da abertura: Jardim do Largo do Carmo de São João del-Rei, com igreja e cemitério da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo (foto do autor)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Senhor Bom Jesus dos Montes, do alto de vossa colina, olhai misericordioso para São João del-Rei!


Reprodução de imagem de cartaz 2007 - Paroquia Sr. do Monte


Em São João del-Rei, o povo do Senhor dos Montes já está em festa. Desde a tarde desta sexta-feira, 26 de agosto, mal o sol se despede por detrás da Serra do Lenheiro, no alto da colina do Cristo, foguetes fazem riscos de cometa dourado e estouram no céu crepuscular. Avisam que dentro em pouco começará a novena ao generoso e complascente crucificado padroeiro. O sino, da capela humilde, dobra leve e veloz, espalhando pelos quatro ventos seu som menino. A vida não envelhece no alto do Senhor dos Montes. Pode ser que se ouça até, pelo autofalante, o canto da Ave Maria. Coisas imemoriais de São João del-Rei, de alguns recantos esquecidos de Minas...

Durante toda a semana será assim. E mais: a comunidade do bairro se mobilizará limpando a pequenina igreja, roçando o mato, capinando a rua, lavando a roupa dos santos e dos anjinhos, lustrando as lanternas, aparando as velas das tochas, recolhendo prendas para os leilões, preparando empadinhas de massa grossa, quentão, caipirinha, biscoitos fritos de açúcar e coco, bolos de laranja, quibes, pastéis, coxinhas e tudo saudoso que só se encontra nas barraquinhas sobreviventes de um tempo que já se foi. Mas que no bairro do Senhor dos Montes, felizmente, volta todo ano, no começo de setembro, até que chegue o primeiro domingo do mês. Neste dia santos saem em procissão.

O bairro do Senhor dos Montes tem como muralha protetora a Serra do Lenheiro, onde à mão, sobre a terra, no cascalho, se catou muito ouro nos primeiros anos setecentos. Entre ela e ele, corre o Ribeirão de São Francisco Xavier - cordão d'água que atraiu, amarrou e amansou violentos bandeirantes, seduzidos pela cobiça e pela riqueza, mal se assentara naquele chão de meu Deus o Arrarial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes.

Daquele tempo, o ouro acabou. Contemporânea, a violência encontrou outras causas, outras raízes, sobreviveu, se urbanizou. Mas a riqueza interior do povo do Senhor dos Montes - indiferente ao exaurir aurífero e às insanidades humanas que se nutrem de desigualdades e injustiças - prossegue serena, convicta e inabalável, setembro a setembro, como o olhar indagativo da imagem do Cristo crucificado, de Nossa Senhora das Dores e de Nossa Senhora da Piedade que este ano, no entardecer do próximo dia 4, percorrerão as ruas, becos, atalhos e trilhas do Senhor dos Montes, olhando do alto, contemplativos e misericordiosos, para a outra - barroca e altiva - São João del-Rei.

Esta, cá de baixo, mirando os foguetes, ouvindo os sinos, imaginando o sabor das delicias e ansiando as emoções que já não sente mais, cidade importante, imponente, barroca e altiva sentirá no coração um aperto:

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

São João del-Rei: do Dia de São Bartolomeu à Declaração Universal dos Direitos Humanos


Talvez para os muito antigos, não tenha sido sem motivo que - exatamente no dia 25 de agosto de 1719 - o Conde de Assumar, em São João del-Rei, tenha oficiado ao Senado da Câmara local informando sobre o equipamento bélico da cidade (post anterior). É que para os são-joanenses de muito tempo nesta época do mês de agosto, com o mesmo furor que na Quaresma, o Diabo estava livre e solto na Terra, acendendo discórdias, incendiando iras e abrasando intolerâncias, que espalha em ventanias e redemoinhos.

Senhor de si e do mundo, há quem creia que o "Inimigo" ainda hoje provoca revoltas naturais e discórdias humanas, que resultam em tragédias, e o exemplo maior foi o conflito religioso entre católicos e protestantes que aconteceu em Paris em 1572, no tempo divisor entre os dias 23 e 24 de agosto. Ao massacrarem cruelmente os adversários de fé, os católicos, insanamente, obedeceram ao Espírito das Trevas, fazendo correr muito sangue.

Para os católicos que ainda se lembram, 24 de agosto é dia dedicado a São Bartolomeu, apóstolo de Cristo pacífico e manso, protetor dos padeiros, alfaiates e sapateiros. Para o povo do candomblé, é dia de Oxumaré, o arco-íris filho do fogo da terra com as águas paradas.

Os tempos atuais enfraquecem sabedorias contidas em crenças populares, como a apreensão e cautela com o dia de São Bartolomeu - símbolo  da impotência do homem diante de fenômenos naturais, de instabilidades de toda ordem e de sofrimentos que podem advir das atitudes humanas intolerantes. Por isso, é bom lembrar que em 26 de agosto de 1789 - portanto há 222 anos, quando em São João del-Rei e em outras vilas de Minas crepitava a Inconfidência Mineira - em Paris a Assembléia Constituinte, no coroar da Revolução Francesa, aprovou a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Documento magno da humanidade, mundialmente consagrado, é tão mais observado quanto mais as sociedades, os povos e as nações se tornam evoluídos.


Acesse
 http://www.oas.org/dil/port/1948%20Declara%C3%A7%C3%A3o%20Universal%20dos%20Direitos%20Humanos.pdf 
e conheça, na íntegra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. No link abaixo, veja um trecho do filme A Rainha Margot, enredado no conflito de 1572.

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Ilustração da abertura: detalhe de túmulo do Cemitério de São Francisco de Assis, de São João del-Rei (foto do autor)

Agosto de 1719: São João del-Rei em pé de guerra


Desde a alvorada de sua história, São João del-Rei é uma cidade movimentada, sempre pronta para o que der e vier. Seguindo a filosofia mineira de que "entender logo é muito tarde; que bom mesmo é antecipar", os são-joanenses evitam ao máximo "ser pegos de calça curta". Quem ensinou isto? A história e o tempo...

Antes mesmo de ser elevada à categoria de Vila, em 1713, o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes foi palco da sangrenta Guerra dos Emboabas. Em  consequência, foi incendiado em 1709, pouco restando além da riqueza mineral e da persistência de construir, à sombra da Serra do Lenheiro, uma cultura singular.

Reerguendo-se das cinzas, os primeiros são-joanenses aprenderam que a guerra existe e que é preciso se preparar para ela. Assim, nem completados dez anos da Guerra dos Emboabas, São João del-Rei já procurava construir fortificações e dispor de forças militares, conforme comprovado em correspondência do dia 25 de agosto de 1719. Nela, o Conde de Assumar, que se encontrava na vila, informa ao Senado da Câmara local que já estavam no Rio de Janeiro as tropas que serviriam no quartel de São João del-Rei. Estariam aí as primeiras sementes do 11º Batalhão de Infantaria?

Segundo Dom Pedro de Almeida de Portugal, o Conde de Assumar, os militares ficariam alojados nas residências particulares - até que terminassem a construção das edificações militares -, mas os administradores deveriam apressar o andamento das obras para evitar "a grande opressão, ficando Sua Majestade servida e os povos sem vexação".
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2a edição revista e aumentada. Volume 2. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte: 1982

Ilustração: Detalhe do chafariz de ferro do Largo do Carmo (foto do autor)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Em São João del-Rei, como no conhecido ditado popular, "a casa do povo é a casa de Deus"

Encanta, aos viajantes, visitantes e turistas que passam por São João del-Rei, o excelente estado de conservação da maioria das igrejas locais. Sempre pintadas externamente e extremamente limpas em seu interior, são uma demonstração do zelo dos são-joanenses para com estes espaços sagrados de devoção e memória.

Mais do que monumentos, as igrejas de São João del-Rei são ambientes de prática religiosa e também de convivência social, que se dá nas mais diferentes situações: missas, novenas, festas dos padroeiros, agradecimentos, batizados, casamentos e funerais, entre tantos outros. Assim, não são apenas casas de Deus, são também casas dos homens.

Esta posse impõe à comunidade responsabilidade para com o zelo e conservação dos templos. Como legítimos proprietários, os são-joanenses esperem pouco dos órgãos públicos e se mobilizam ao máximo, por meio das irmandades e confrarias - e também individualmente -, para viabilizar a realização de obras que garantam a conservação e preservação de seus templos de memória e adoração.

Um bom exemplo deste comprometimento é a restauração por que passa a igreja de São Gonçalo Garcia (foto). Recentemente o edifício teve reparadas sua fachada e torre e, no momento, a irmandade faz uma campanha para restauração de imagens e dos altares, muito danificados por cupins. E mobiliza os fiéis a participarem, com contribuições anônimas, em espécie ou depósito bancário, conforme envelope-mensagem, reproduzido abaixo.

Em São João del-Rei a obrigação anda lado-a-lado com a devoção...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

De São João del-Rei, um acalanto para o Padre José Maria Xavier. Ponta de Areia, de estrelas!


Anoitecem em São João del-Rei as homenagens imaginárias ao grande compositor são-joanense Padre José Maria Xavier, no 192º aniversário de seu nascimento. Tal qual em 1819, a Rua Santo Antônio já está cochilando, quieta.

Nem vê que saltam dos muros seculares, vindos sobre telhados e do fundo de  generosos quintais, o cheiro vivo de salientes damas da noite, de cândidas laranjeiras em flor, de castos e sedutores jasmins, de atrevidos manacás.

No céu seco, revolto e nebuloso deste exato agosto, notas musicais se mesclam às estrelas - acalanto mineiro, em gaita-fole galega. Ponta de Areia.

Presença, lembrança, gratidão e memorosa saudade. Eternidade!

Padre José Maria Xavier, nascido em São João del-Rei, tinha na testa a estrela da música barroca oitocentista



Certamente, há quase duzentos anos, ninguém ouviu quando um coro de anjos cantou sobre São João del-Rei. Anunciava que, no dia 23 de agosto de 1819, numa esquina da Rua Santo Antônio, nasceria uma criança mulata, trazendo nas linhas das mãos um destino brilhante: ser um dos grandes - senão o maior - músico colonial mineiro do século XIX. Pouco mais de um mês de nascido, no dia 27 de setembro, (consagrado a São Cosme e São Damião) em cerimônia na Matriz do Pilar, o infante foi batizado com o nome José Maria Xavier.

Ainda na infância, o menino mostrou gosto e vocação para música. Primeiro nos estudos de solfejo, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, e, em seguida dominando o violino e o clarinete. Da infância para a adolescência, da música para o estudo das linguas, José Maria aprendeu Latim e Francês, complementando os estudos com História, Geografia e Filosofia. Tão consistente era seu conhecimento que necessitou de apenas um ano para cursar Teologia em Mariana. Assim, já ordenado padre, em 23 de maio de 1846, na mesma Matriz do Pilar de seu batismo, cantou sua primeira missa solene.

Padre José Maria Xavier conciliou, com grande maestria, sua vida sacerdotal com a atividade docente, na São João del-Rei oitocentista, mas sua luminosa estrela guia foi mesmo a música. Seu reconhecimento rompeu fronteiras. Foi condecorado com Medalha de Prata, em 1872, na 5a Exposição Industrial Mineira, por suas composições sacras. O Solene Te Deum de sua autoria, executado em 25 de abril de 1881 na Matriz do Pilar em homenagem à visita do Imperador do Brasil a São João del-Rei foi registrado no diário de viagem de Dom Pedro II como "a melhor música que ouvi em Minas".
 
Sem dúvida, a obra do Padre José Maria Xavier é a grande marca das tradicionais celebrações barrocas de São João del-Rei. Das novenas de São Sebastião, Nossa Senhora das Mercês aos Ofícios de Trevas; das Matinas do Natal, às Matinas da Assunção de Nossa Senhora; dos Solos ao Pregador às Matinas do Espírito Santo, de Nossa Senhora da Conceição e de santos de várias invocações,  de peças executadas na Festa de Passos, no Domingo de Ramos e na Sexta-Feira da Paixão a obras que marcam o Sábado da Aleluia e o Domingo da Ressurreição - tudo tem a genialidade do grande sacerdote, professor, instrumentista e compositor sacro são-joanense.

Ironia do destino. Padre José Maria Xavier, que nos seus 68 anos de vida  tantas vezes subiu aos Céus nas escadarias de sua inteligência privilegiada, de sua sabedoria invejável e de sua inspiração divina, faleceu em consequência de ter caído de uma árvore que podava em seu quintal, para alguns na Rua Santo Antônio, para outros na Rua da Prata, no dia 22 de janeiro de 1887.

Numa rua ou noutra, que importa? Engana-se quem pensa que Padre José Maria Xavier dorme o eterno sono dos justos no Cemitério do Rosário, no alto,  Rua das Flores, ou vigia em bronze o sossegado Largo  de belos solares onde puseram-lhe uma estátua. Padre José Maria Xavier está vivo, o tempo todo, o ano inteiro, no coro das igrejas setecentistas de São João del-Rei, nos instrumentos e vozes das orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, nos ouvidos e na memória ancestral do povo desta terra.

Relembre, abaixo, um trecho do Ofício de Trevas, uma das obras mais populares do Padre José Maria Xavier em São João del-Rei. Este ofício sacro é executado anualmente em três ocasiões: na noite da Quarta-Feira de Trevas e nas manhãs da Sexta-Feira da Paixão e do Sábado Santo.


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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira.
. Efemérides de São João del-Rei. Volume 2. Edição Revista e Aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte, 1982.
. Galeria das Personalidades Notáveis de São João del-Rei. Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura - FAPEC. São João del-Rei, 1994.

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+     Serviço    +
Há cerca de 5 anos foram gravados e lançados dois CDs com os Ofícios de Trevas do Padre José Maria Xavier, sob regência do maestro são-joanense Marcelo Ramos. O primeiro CD está esgotado e o segundo pode ser adquirido eletronicamente de qualquer parte do país no endereço eletrônico abaixo, onde é possível, inclusive, ouvir trechos do Canto de Matinas e Laudes, compreendendo 16 antífonas, responsórios e leituras. Acesse e confira:

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Recital de órgão setecentista vivifica música barroca civil de São João del-Rei no século XVIII

  
São João del-Rei sempre encontra novas formas para manter vivo e pulsante um passado glorioso. Transmite continuamente, para as gerações sucessivas e vindouras, um legado cultural ímpar na história e na memória das cidades coloniais de nosso país. O que para muitos é missão quixotesca, em nossa cidade felizmente acontece: permanentemente os tempos se encontram; se abraçam como contas de um colar que põe lado a lado três séculos de história, eternizada na arte, de formas plurais.

O passado saudando o presente. Isto  é o que verá quem estiver em São João del-Rei na próxima quinta-feira, dia 25, e comparecer, às 18h30, ao Museu Regional. Lá, mais uma vez, estará em atividade o único órgão barroco de origem civil, construído no século XVIII com técnicas e madeiras nacionais, existente no país. Este é o diferencial do órgão de São João del-Rei: sem a complexidade de recursos, imponência e a monumentalidade dos dois outros instrumentos barrocos existentes em Minas, mas vindos da Europa, o órgão são-joanense tem como diferencial a singeleza, a intimidade do alcance de suas notas e, acima de tudo, sua brasilidade.

A concertista será ninguém menos do que Elisa Freixo - organista titular da Arp-Schnitger da Sé de Mariana (MG), com passagem pela Escola de Música de Hamburgo, na Alemanha. Elisa Freixo, inclusive, coordenou tecnicamente a restauração do órgão são-joanense - cuja execução coube ao restaurador Andreas Fuchs, da organaria do mestre organeiro Gerhard Grenzing, instalada na cidade espanhola de Barcelona. A restauração do mobiliário foi coordenada pelo são-joanense Carlos Magno de Araújo.

Então, já sabe: quinta-feira, dia 25 de agosto, às 18h30, no Museu Regional tem um programa imperdível. Mas, atenção, nunca é demais lembrar. Para evitar constrangimento, antes de começar o espetáculo, não se esqueça de desligar seu telefone celular...

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Leia mais sobre o órgão setecentista de São João del-Rei acessando o link abaixo:
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/02/sao-joao-del-rei-restaura-joia-da.html

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tencão do Rosário: uma original orquestra de sinos em São João del-Rei

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A rica e diversa sonoridade é um dos traços mais marcantes da cultura são-joanense. Apitos da maria fumaça e das fábricas de tecido, a marcha matinal da banda do Batalhão, foguetes que de ora em quando estouram ninguém sabe ao certo por quê, som de instrumentos afinando ou ensaiando - toda esta pluralidade de notas, ritmos, tons e tempos musicais conferem a São João del-Rei uma posição singular. Posição esta que se distingue ainda mais quando se fala no toque dos sinos, oficialmente reconhecido patrimônio imaterial brasileiro.

E por falar em toque de sinos, o denominado Tencão é dos mais notáveis. Sendo, no particular, aquele que dá início a uma sequência de toques, que antigamente chegava a durar quarenta ou mais minutos, esta primazia faz com que ele genericamente denomine toda a sequência, que às vezes inclui, terentenas, badaladas, floreados, tremidos e outros.

Sendo assim, o Tencão é uma verdadeira orquestra de sinos, visto que conjuga e harmoniza diferentes "instrumentos", tocando partes e variações de uma mesma "mental partitura".

Duvida? Então confira ouvindo e admirando este vídeo, que contém parte de um Tencão tocado nos sinos da igreja do Rosário de São João del-Rei. É ou não é digno de se aplaudir no final?



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Leia mais sobre a linguagem dos sinos de São João del-Rei, acessando




Festa da Boa Morte: Assumpta est! Exaltáta est São João del-Rei

15 de agosto é um dos dias mais sublimes e gloriosos em São João del-Rei. Nele, todo ano, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte promove solenes celebrações para lembrar a assunção de Nossa Senhora aos Céus e, lá, sua coroação pelas três pessoas da Santíssima Trindade: Deus Pai, com seu cetro; Deus Filho, com sua cruz, e Deus Espírito Santo - uma pomba de prata e raios.

Nem bem amanhece e os sinos da Matriz do Pilar repicam e dobram anunciando "A Senhora é Morta". Na metade da manhã, começa uma missa barroca, toda cantada em latim, que tem no canto do Glória o grande momento: os sinos tocam alegres, foguetes estouram ruidosos e, no altar dourado, Nossa Senhora da Assunção aparece subindo ao Céu,  pé direito apoiado sobre uma lua crescente, de prata. Tal qual na estória de Cinderela, ela está descalça de seus sapatos de seda. Bordados a fio de ouro e pedras brilhantes, estão caídos no imaginário e aéreo caminho.

No entardecer, a celebração ganha as ruas. Uma grande e lenta procissão, saída do século XVIII, desce a escadaria da Matriz e toma rumo ao Largo do Rosário, de onde seguirá por um caminho de pontes de pedra e ruas tortas, que mais parece um arabesco colonial. As opas coloridas das irmandades tremulam à luz das tochas, dando mais cor e movimento à festa setecentista. A banda toca marchas compostas para a ocasião e o coro da Orquestra Lira Sanjoanense, tal qual um coral de anjos maduros e mulatos, canta motetos longínquos, `a frente dos dois andores. Onde termina o mundo e começa o Céu?

Em São João del-Rei ainda é assim. Tal como era há trezentos anos. Se Deus quiser, tal como será "per ómnia saecula saeculorum!"

Ouça, abaixo, uma gravação do Pai Nosso em latim, gravado na Missa da Assunção, reproduzido do Youtube.

Matriz do Pilar de São João del-Rei: trezentos anos de nobre história, grandeza e galhardia

A catedral basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, na intimidade conhecida apenas como Matriz do Pilar, tem uma história longa. Seus antecedentes fazem voltar a 1705 quando, marcando o surgimento do Arraial de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, foi erigida uma primitiva capela para louvar sua padroeira. Esta capela teve vida curta, pois desapareceu entre chamas em 1709, juntamente com o arraial, incendiado na cruel Guerra dos Emboabas.  
A fé sobreviveu ao fogo. Assim, no ano seguinte começou-se a construção de nova igreja dedicada à mesma santa, desta vez nas margens do Rio das Mortes - proximidades do atual bairro de Matosinhos. Como se vivia tempos conflituosos e de grandes disputas, o arraial precisava estar preparado para se defender de novos ataques e sobreviver a outras guerras. Por isso, a história mudou de rumo e os alicerces que seriam da igreja serviram de base para a construção de um forte.
Em troca, no ano seguinte, foi erguida no Morro da Forca, arredores da posterior capela do Bonfim, uma nova igreja de Nossa Senhora do Pilar, que funcionou como matriz até 1724. Com a transformação do arraial em Vila de São João del-Rei em 1713  e  deslocamento do centro urbano para a margem esquerda do Córrego do Lenheiro, já se pensou na transferência da igreja da padroeira para a nova área central. A construção começou em 1721 e três anos depois, ainda em obras, a igreja foi benta e inaugurada, com a vinda do Santíssimo Sacramento, em procissão solene, da capela velha.
Relatos da fachada da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, na época de sua inauguração, indicam que suas torres tinham quatro sinos e eram rematadas por grimpas de cobre dourado “as quais os embates dos ventos fazem girar para mostrar a todos os rumos sua grandeza e galhardia”. Indicam também que no adro, com duas entradas, se destacava um cruzeiro de pedra, não mais existente.
O atual frontispício e o adro atual, com seu alto gradil e três portões de ferro, são únicos entre as demais igrejas mineiras. Começaram a ser construídos quando a igreja já estava pronta, por volta de 1820. Portanto, há duzentos anos...
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Ilustração da abertura: ARARIPE, Oscar. Igreja de Nossa Senhora do Pilar, abraçada por telhados vermelhos de São João del-Rei. (agradecimentos especiais ao artista plástico Oscar Araripe, pela colaboração)

Fonte: GUIMARÃES, Geraldo. São João Del-Rei Século XVIII - História Sumária. Edição do Autor. São João del-Rei, 1996.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Jafé Maria da Conceição: o serafim violinista da Orquestra Ribeiro Bastos de São João del-Rei

Jafé Maria da Conceição. Certamente, pouquíssimos são-joanenses já ouviram falar neste nome e, menos ainda, sabem que pertenceu a um grande músico, nascido em nossa cidade e aqui falecido hoje faz exatamente 73 anos.

Corretíssimo em sua vida pessoal e musical, Jafé foi elogiado em uma crônica bem-humorada que Caetano Furquim Werneck de Almeida, escondido sob o pseudônimo de Scapin, publicou, em 1907, em um periódico local. Comentando o rigor disciplinar que à época predominava na Orquestra Ribeiro Bastos, onde Jafé era violinista, disse Scapin:

"Quanto à disciplina, a nossa orquestra não é uma orquestra, é um batalhão perfeito, em que o maestro é coronel, o João Pequeno, Major, e o Jafé, ajudante.


Tudo ali obedece cegamente e sem discrepância à voz ou, antes, ao olhar do "comando". Jafé, o seráfico ajudante, toca com os olhos volvidos para o céu, enlevado e estático, completamente alheio às terrenas cousas. Ele não polue o seu arco tocando em festas profanas.


Quando o vejo tocar naquela atitude beatífica, parece-me que estou a ver no céu querubins e serafins a puxarem de lá o arco de Jafé, por uns fios invisíveis..."


Sobre os músicos extraordinários de São João del-Rei, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/04/o-pai-da-musica-vive-em-sao-joao-del.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/04/em-sao-joao-del-rei-principalmente-na.html
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição revista e ampliada. Imprensa Oficial, Belo Horizonte, abril de 1982.

Abecê de São João del-Rei no século XVIII

Em São João del-Rei - assim como em todas as vilas de ouro e diamantes de Minas Gerais na primeira metade do século XVIII - o vocabulário da população era cheio de palavras que hoje já são praticamente desconhecidas.

Abundantes em sons e ritmos, aos poucos foram deixando de ser utilizadas e caindo no esquecimento, tanto porque os instrumentos, códigos, objetos, funções e situações que designavam não mais existem quanto porque, como somente poucas foram ressignificadas, a maioria não passarou a denominar outras coisas, fugindo portanto do dia a dia.

Recordemos algumas:

Almocrafe (ou almocrafre) - enxadinha estreita e pontuda, utilizada na mineração.
Almotacé (ou almotacel) - fiscal responsável por, entre outras coisas, aferir e controlar a fidelidade das unidades de pesos e medidas utilizados.
Bando - forma antiga de tornar públicos, solenemente, decretos e ordens régias. A leitura do bando era precedida do toque de caixas, para chamar a atenção da população para o assunto que ia ser lido e para as instruções que deveriam ser seguidas.
Bateia - instrumento de madeira, parecido com um grande prato cônico, servia para fazer a lavagem do ouro nos rios, bicas e cursos d'água.
Boticas (ou coticas) - estabelecimento onde se preparavam e vendiam remédios e drogas medicinais.
Calhambola - o mesmo que quilombola, negro fugitivo que vivia em quilombos.
Carumbés (ou calhumbés) - vasilha ou gamela cônica que servia para conduzir o cascalho a ser lavado nas catas de outro e de diamante.
Devassa - inquérito que se abria para apurar e julgar crimes ou para localizar / verificar irregularidades.
Epíteto - palavra ou frase que se juntava ao nome de pessoa ou coisa para qualificar ou realçar sua significação. O mesmo que apelido ou alcunha, porém sem caráter pejorativo.
Escravos da nação - escravos a serviço do governo.
Estilicídio - gotejar de um líquido, coriza.
Fazenda molhada - gêneros comestíveis, ferro, aço e "tudo o mais que não se veste".
Fazenda seca - "o que não se come nem se bebe, mas serve para vestir".
Forrar - libertar, conceder carta de alforria.
Freguesia - o mesmo que paróquia, distrito de uma paróquia.
Grão - unidade de peso (0,05 grama).
Gró - peça do vestuário.
Inhambassa - referente à origem africana
Juiz de vintena - juiz nomeado anualmente para cada aldeia de 20 vizinhos. Julgava questões de até 300 réis, prendia criminosos e julgava violação às posturas municipais.
Ladino - escravo que conhecia a língua, os usos e costumes locais. Sabia exercer algum ofício.
Locanda - casa alugada.
Manumissão - libertação de escravos, alforria.
Oitava - peso antigo usado na mineração (3,587 gramas). Equivalia à oitava parte de uma "onça".
Pêgas - gancho de ferro com que se prendiam os pés dos escravos fugitivos.
Posturas - normas municipais escritas que obrigavam os municípios a cumprirem certos deveres de ordem pública.
Quartar (ou coartar) - situação em que o escravo ajusta com o senhor a quantia necessária para libertar-se e sobre a qual já pagou a quarta parte. O escravo quartado não pode mais ser vendido para outro senhor.
Quimbete - espécie de batuque ou dança de negros.
Quitanda - venda, pequena loja, em geral de produtos alimentícios.
Rabadilha - o classificado em último lugar, que ficou no fim (rabo) da fila.
Soldado-dragão - soldado da companhia de dragões.
Tomadia - Gratificação devida ao capitão-do-mato pela captura de escravos fugidos. O valor era elevado (20 oitavas de ouro), estabelecido por lei e devia ser pago pelo dono do capturado.
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Fonte: Caderno do Arquivo 1 - Escravidão em Minas Gerais. Arquivo Público Mineiro. Belo Horizonte, 1988.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

São João del-Rei de todas as horas, de todas as cores


São João del-Rei é uma cidade de cores vivas. Nos jardins, nas janelas, nos portais, nas pedras, nas torres, nos telhados os tons se revezam, conforme a estação do ano e a hora do dia.

Em São João del-Rei, até o silêncio tem cor.

Sobre esta constante mutabilidade, o conde de Sant'Ana escreveu:

"Quando cai a tarde em São João del-Rei, a cidade se transforma. É como se as cores imponentes do barroco tomassem uma nuance de romantismo e magia. Os lampiões vêm iluminar as fachadas dos casarios e igrejas e se anuncia a beleza do anoitecer."

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Festa da Boa Morte: "applaudátur et laudétur... et venerátio" São João del-Rei

São João del-Rei começou, nesta sexta-feira, a barroca e solene celebração anual da gloriosa morte e assunção de Nossa Senhora aos Céus, popularmente conhecida como Festa da Boa Morte. Nela, tudo é absolutamente barroco, sublime e delicado - novena, toque dos sinos, missa cantada, procissões, bênção do Santíssimo Sacramento  e canto do Te Deum.

Juntamente com a Festa de Passos e com a Semana Santa, forma uma das três maiores "festas" da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, se diferindo das demais por seu aspecto alegre. Ao contrário das outras duas, na Festa da Boa Morte nada é trágico. Não lamenta a morte da mãe de Deus, mas se compraz com sua subida gloriosa para os Céus, de onde mira complascente o povo são-joanense.

Consta que a Festa da Boa Morte é realizada em São João del-Rei desde 1735 - portanto há 276 anos - , quando foi instituida a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. Desde 1776 tem a participação da Orquestra Lira Sanjoanense (a mais antiga das Américas) e é tão importante no calendário religioso local que chegou a ser apelidada de "semana santa dos mulatos", em referência à genética mestiça que predomina naquela irmandade.

A Festa da Boa Morte é a solenidade que mais motivou a produção musical religiosa são-joanense, sendo conhecidas novenas completas e outras obras compostas ao longo de três séculos por compositores reconhecidos, entre eles Antônio dos Santos Cunha e Manoel Dias de Oliveira (século XVIII), Padre José Maria Xavier (1851), Marcos dos Passos Pereira, Luiz Baptista Lopes e João Feliciano de Souza (1888), José Victor d'Aparição (1893), Martiniano Ribeiro Bastos, Carlos dos Passos de Andrade, Lindolfo Gomes e Euclides de Brito (século XIX), Adhemar Campos Filho e João Américo da Costa (1963) e, mais recentemente, Geraldo Barbosa de Souza (1994).

Até o toque dos sinos próprio para a Festa da Boa Morte é especial. Considerado o mais belo de São João del-Rei e só existente nesta cidade, harmoniza repiques festivos e dobres ritmados e lentos de vários sinos. Batizado de "A Senhora é Morta", dizem que tem até autor: foi composto pelo escravo Francisco, à época propriedade da senhora Ana Romão.

Observe, no vídeo abaixo, a riqueza e sofisticação sonora do toque "A Senhora é Morta" e o "transe" dos sineiros durante sua execução.
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Fonte: Piedosas e solenes tradições de nossa terra - volume 2. Publicação da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. São João del-Rei, 1997.

Em São João del-Rei, agosto não é mês do desgosto!

Agosto, em São João del-Rei, não é mês do desgosto. Se por um lado, enfraquecido, um frio de inverno ainda corta a pele com orvalhos noturnos e neblinas matinais; se em certos dias o céu mais se revolta e o ar - agitado em ventania enfurecida - anuncia que está perto a temida noite de São Bartolomeu, por outro, para aliviar, a fé anima a alma e o espírito. Mais uma vez espalha na terra são-joanense um clima serenamente festivo, que perpassa o oitavo mês do ano.

Festa do Bonfim, Festa da Boa Morte, início da Festa do Senhor dos Montes. Ipês amarelos, orquídeas de penca, perfume de flor de laranjeira saltando por cima de velhos muros. Música barroca de orquestras setecentistas, marchas e dobrados de bandas centenárias - tudo se juntando nas ruas estreitas e nos largos. Em São João del-Rei, agosto não é apenas o mês dos cachorros loucos,  que também existem aqui e, urbanos, são mais violentamente perigosos.

Em nossa cidade, principalmente naquela que existe dentro de nós e na qual gostaríamos de viver, agosto é tempo de re-vivificar o passado e re-viver o presente, recordando doces e antigas lembranças. Serão elas, as lembranças, que florescerão em setembro, trazendo a tão sonhada primavera.
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Imagem de abertura: foto reproduzida de
   http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=238912  

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Repiques do Rosário: sorriso de inocência e alegria na voz dos sinos de São João del-Rei


Antecipando o clima solene e alegre que abraça São João del-Rei durante os onze dias da Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, que começa amanhã e termina na noite do dia 15, Tencões & terentenas saúda a todos com este repique festivo, executado em três sinos de uma das torres da igreja de Nossa Senhora do Rosário.


Mais toque de sinos em São João del-Rei nos links:


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Alô São João del-Rei, se liga! Que tal saber mais sobre Turismo & inclusão?...

Certamente, foi no século do ouro que alguma cigana, daquelas que andavam de vila em vila lendo sortes e adivinhando o futuro em troco de pepitas, ao examinar as linhas da mão de São João del-Rei, exclamou: vejo movimento do sol, gente que chega e que vai. No destino deste lugar, mais do que ouro puro, vejo algo a brilhar...

Que cigana era esta, ninguém sabe. A verdade é que desde então, pelos séculos a fora, a cidade vem recebendo viajantes, visitantes, estudantes e, volta e meia, um grande número de turistas. Mas precisa se instrumentalizar para melhor aproveitar o que a imaginária vidente, há trezentos anos, vislumbrou. Afinal, turismo hoje vale mais do que ouro e pode extrapolar a limitada equação hospedagem + alimentação + cultura  + diversão.

Neste sentido, são-joanense que puder não perca: de 24 a 27 deste mês acontece na capital paulista (SESC Consolação) o Encontro das Américas de Turismo Social, que abrigará uma vasta programação desenvolvida em torno do tema Turismo e inclusão - por uma visão humanista e social do turismo nas Américas.

O objetivo deste evento continental é "propor uma reflexão sobre a importância do turismo como instrumento de inclusão social, cultural e econômica no continente americano. Um turismo baseado na solidariedade, na valorização das diversidades, na educação, na democracia, na sustentabilidade cultural, ambiental e econômica dos locais turisticamente visitados".

Como se percebe, as informações e intercâmbios que advirão deste encontro - promovido pelo SESC/SP, conjuntamente com a Organização Internacional do Turismo Social - muito poderão contribuir para o desenvolvimento do turismo responsável em São João del-Rei. Especialmente neste momento em que a cidade se mobiliza para participar de dois importantes projetos de turismo religioso: o Caminho de Nhá Chica e Padre Vitor e a rota De Padroeira a Padroeira.

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    Serviço   
Mais informações em

Ilustração da abertura: Detalhe de tapete de rua, confeccionado com serragem colorida no Largo do Rosário / São João del-Rei, na Semana Santa de 2010 (foto do autor)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os números não mentem: São João del-Rei vive de festas!

Festa, em São João del-Rei, é palavra que tem significado próprio. Principalmente no sentido coletivamente religioso. Todo acontecimento que, com alguma solenidade, reúna pessoas para celebrarem publicamente alguma coisa é uma festa. Tenha pompa e aparato ou aconteça na simplicidade.

Percebendo assim, festa, em São João del-Rei, não pressupõe alegria. As cerimônias tristes da Semana Santa, por exemplo, são uma festa. Qual são-joanense não sabe o que quer dizer Festa de Passos? E Festa da Boa Morte, das Mercês ou do Divino Espírito Santo?

Aos são-joanenses, festa pede alguma coisa que marque o tempo e o momento e não deixe dúvidas de que se trata de uma ritualização da própria vida - real ou imaginada. Roupa nova, perfume, corte de cabelo, sapato brilhando, alguma cerimônia no comportar, reserva e relativa formalidade. Casas pintadas de novo, ruas limpas, calçadas caiadas, jardins floridos. Em São João del-Rei as festas pontuam o calendário, criando parêntesis na rotina. Deste modo, são fundamentais, principalmente quando se aprende com o poeta Carlos Drummond de Andrade que "A vida necessita de pausas".

Esta semana, a cidade vive a festa do Bonfim. Antes mesmo que acabe, começa a da Boa Morte. Depois vem a do Senhor dos Montes, seguida da de Bom Jesus de Matosinhos, das Mercês, de São Miguel Arcanjo, de Nossa Senhora do Pilar, de Nossa Senhora do Rosário e suas congadas, de São Geraldo e Nossa Senhora Aparecida,Todos os Santos, de Nossa Senhora da Conceição e, por fim, a do Menino Jesus, no Natal. Como quase todas incluem novenas, fazendo com que cada uma dure dez dias, de agosto a dezembro São João del-Rei terá, no mínimo cem dias de festa. Isto significa, em cinco meses, mais de três.

Os números confirmam. São-joanense é um povo que faz tudo para tornar encantado seu dia a dia. Para isso, marca o tempo e preenche a vida com festas...