sábado, 31 de outubro de 2015

Um rosário de flores, graças e favores para o povo de São João del-Rei


Em São João del-Rei, o mês de outubro não poderia terminar de um modo que não fosse celestial. Com uma majestosa procissão, que nos remonta a 1708, quando nesta terra foi fundada a primeira Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Minas Gerais. Entre os historiadores que se debruçam sobre o culto a Nossa Senhora do Rosário no Brasil, no século XVIII, existe uma dúvida se a irmandade são-joanense é a segunda ou a terceira mais antiga do país.

Como é tradição na cidade, desde o cedo o sino do Rosário de tempos em tempos dobra festivo, anunciando que é um dia especial. Na missa cantada, a música fica por conta da Orquestra Lira Sanjoanense - a mais antiga das Américas em ininterrupta atividade desde a sua fundação, em 1776.

Barroquíssima ao extremo, a imagem da madona encanta. Generosa, sublime, materna, acolhedora, terna, solidária, complacente, cordiosa, divina, diáfana, humana e até mesmo idílica. Tudo isto, olho a olho, ela transmite aos devotos que vão visitá-la.

A igreja do Rosário, erigida em 1719, é tão simples quanto graciosa, e tudo isto sem nenhum douramento. Apenas suaves tons de azul e rosa, na roupa dos anjos e arcanjos que em adoração voam em volta da virgem no altar-mor. Se na igreja do Rosário alguma coisa realmente brilha, é o olhar. O olhar de Nossa Senhora, o olhar dos santos, o olhar dos anjos adoradores e, sobretudo de fé e deslumbramento, o olhar dos fiéis.

A ornamentação do templo é magnífica. Nuvens de flores suaves, harmônicas e bem compostas, são como os favores e as graças que Nossa Senhora do Rosário e seu Menino Jesus destacam do imenso e sem fim rosário e distribuem de coração a todos que a eles recorrem.

E são muitas contas, e são muitas flores, e são muitas lágrimas, e são muitas dores, e são muitas graças, e são muitos favores...

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Danilo Gallo (cortesia)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Ora iê iê ô, Oxum! Ora iê iê ô, São João del-Rei!

São João del-Rei nasceu do ouro. Foi este metal dourado que - assim como a Estrela Guia levou os Reis Magos até a gruta de Belém - atraiu os bandeirantes, os aventureiros, os forasteiros e o poder português, fazendo brotar aqui o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Aqui o ouro foi esplendor que reluz até hoje...

Se o ouro foi a semente fértil do velho Arraial, São João del-Rei é, também, filha de Oxum - yabá das mais belas e nobres das religiões brasileiras de matriz africana. Oxum é a essência feminina em sua forma mais delicada, encantadora, amorosa, maternal. Rainha, é dona do ouro e de tudo o que é dourado. Mulher, é mãe da infância e da doçura. Natureza, vive na água doce que cai em cascatas e cachoeiras. Etérea, é senhora do dia e da noite de astros brilhantes.

Talvez por desconhecimento deste laço original e pelos rumos que historicamente tomou a presença negra nesta região, em São João del-Rei não se realizam homenagens coletivas a Oxum. Seu culto acontece no interior dos barracões, terreiros e tendas que praticam a religiosidade afro-brasileira em suas diversas vertentes, cada qual com seu ritual próprio, composto por toques, cantos, movimentos, flores, perfumes e comidas peculiares.

Como por exemplo o que acontecerá no próximo sábado, dia 31, às 19 horas, na Associação Afro-brasileira Casa do Tesouro – Egbe Ile Omidewa Ase Igbolayo, no alto do bairro Guarda-Mor, à Rua Vereador Vicente Cantelmo, 875.

Por todas as suas energias e características suaves, férteis, afetuosas, generosas, belas, pródigas, estéticas, harmoniosas, inspiradoras e benfazejas, Oxum é um dos orixás que mais prestígio, admiração e carinho recebe dos brasileiros. Assim como ela se alegra com flores, perfumes, espelhos e outras coisas que evidenciam bondade, requinte, suavidade, bom gosto e conforto, seu ritmo preferido é o Ijexá, dançado inclusive fora do contexto religioso, em festas populares onde se celebra a alegria de viver e se reverencia a grandiosidade da alma negra.

Se você quer saber um pouco mais sobre o Ijexá e até se arriscar a tocar o ritmo, preste a atenção nesta oficina.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Novos tempos, novas mulas sem cabeça assombram São João del-Rei


Uma rua estreita, sinuosa, com subida e descida, no centro da cidade, tendo na metade uma pedreira angulosa e no alto dela um cruzeiro bicentenário, erguido no tempo em que mulas sem cabeça corriam noturnas a horas ermas e mortas, aterrorizando a todos com suas línguas de fogo.

Talvez, superando interrupções, uma continuidade da Rua Santo Antônio – caminho dos bandeirantes, escravos, libertos e aventureiros, no alvorecer do século XVIII, atravessando a Vila de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes rumo à Rua do Fogo e à Rua do Barro Vermelho.

Paralelo a uma ponta da avenida principal, o lugar foi batizado com um nome estranho, que os índios tupis falavam para referir-se a uma árvore de grandes e polpudas vagens. No seu começo, tem um alto muro de arrimo de pedras aparentes que em certas épocas do ano mais parece uma cascata de samambaias, musgos e liquens. No seu final, uma cruz alta, fina e simples, fincada em uma pequena pedra, sem os estigmas mas com a tabuleta J.N.R.J., permanentemente enfeitada com flores de plástico coloridas. Ao seu pé, ora às segundas-feiras, ora às sextas-feiras, às três da tarde as mulheres rezam o terço. Ali também para e canta, na Quaresma, a Encomendação de Almas que sobe do Quicumbi.

De lá se ouve bem o toque dos sinos, o  apito da maria fumaça, a sirene da fábrica, e até se vê, bem escuras, as nuvens de fumaça e cheiro de óleo queimado que o trem de ferro suspira. Nas duas cruzes daquele caminho param, rezam e cantam, na meia-noite de uma sexta-feira da Quaresma, a Encomendação de Almas que sobe do Quicumbi.

- Que lugar é este; ele existe de verdade?
- Existe, é o Pau d’angá!

Hoje nem sempre o chamam assim. Sem a natural espontaneidade, foi denominado Rua Carvalho de Resende. Mulas sem cabeça, não tem mais. Ali, noite e dia, o medo agora é outro. Caminhante daquela via, o professor, escritor e poeta Hélio da Conceição Silva, assim o manifesta, especialmente para este Almanaque Eletrônico:

“ Modesto de Paiva escreveu
sobre as assombrações
que rondavam o Pau D’Angá.
Mas hoje o que de fato assombra
Quem passa por lá
Rua Carvalho de Resende
Que é o nome do lugar
É a velocidade excessiva
Dos muitos automotores
Que trafegam por lá!”

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Parodiando Carlos Drummond, São João del-Rei é apenas um retrato na parede?

Há décadas atrás era comum em São João del-Rei pensar que o moderno era inimigo do antigo. Que as novidades tinham vindo e se alastravam para apagar todas as marcas do passado. Mesmo falso, este pensamento refletia uma visão simplista da evolução da história local, no caso específico da arquitetura são-joanense, que das casas de pau-a-pique, cobertas com capim, do Arraial Velho de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, até os sobradões imperiais e os edifícios art noveau, não foram poucas as vezes em que a mais nova custava o sacrifício da mais velha. Se por um lado isto deu à cidade uma face bastante heterogênea e diversificada na paisagem de sua arquitetura, por outro é como se fosse uma história contada em capítulos, cada um falando de seu tempo, por meio de fachadas, sacadas, volumes, ferragens, estuques, cancelas e aldabras. Pena que cada novo capítulo era escrito apagando partes dos capítulos anteriores

Hoje sabe-se que o moderno pode, deve e quase sempre é amigo do antigo. Que o carrasco do antigo, antes de ser o estilo arquitetônico que lhe substitui ou sobrepõe, é a mentalidade antiga que, para a perda do patrimônio nacional, ainda existe, resiste e persiste, em São João del-Rei e em quase toda parte onde existem riquezas culturais legadas pelo tempo passado.

Em toda terra que é rica de patrimônio cultural, notadamente o arquitetônico, onde a educação patrimonial é débil, onde o poder econômico descomprometido, sedioso e ignorante, desconhece, desvaloriza e destrói a riqueza do passado e o Estado é desinteressado e frouxo no seu papel de garantir a preservação e a perpetuação de todas as formas de patrimônio material e imaterial que constituem a história do lugar.

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Valei-nos Nossa Senhora do Rosário! Sorri com bondade para os congadeiros de São João del-Rei



Mesmo ficando meio à margem da cultura oficial são-joanense, algo como o primo pobre das nobres tradições coloniais, o congado, ou congada, como alguns preferem, é uma manifestação cultural forte em nossa região, principalmente nos bairros mais afastados e nos distritos de São João del-Rei.

Não se precisa de nenhum esforço para entender porque isto acontece: basta relembrar a condição social do povo que introduziu este produto cultural na região: negros africanos, escravizados, que viviam à margem do sistema político-social. Na economia eram apenas a força bruta; para a religião vigente, no começo havia dúvida se sequer tinham alma. Ainda hoje ainda não são os negros são-joanenses que possuem visibilidade destacada na sociedade local que compõem os grupos de congado. Congado exige alma negra, exige fé autêntica e natural, exige crença, convicção e coragem. Se não for assim é folclore, folguedo, espetáculo e diversão.

Mesmo que não se dimensione, a região de São João del-Rei tem muitos grupos de congado - que nos diga o Superintendente de Cultura e congadeiro Ulisses Passarelli - nos bairros mais afastados, na periferia e nos distritos, principalmente no de Caburu, que depois rebatizaram São Gonçalo do Amarante, e no do Rio das Mortes.

O congado do Rio das Mortes, inclusive, se orgulha de ostentar uma idade e um título: foi criado no fím do século XVI, e portanto tem quase 350 anos, e é um dos mais antigos, se não for o mais antigo, de Minas Gerais. Isto, inclusive, foi reconhecido pela imprensa regional no canal G1, em uma matéria veiculada neste fim-de-semana.

Mas o congado do Rio das Mortes tem ainda mais coisa do que se orgulhar. Os pais cultivam no coração dos filhos, desde a pouca idade, o amor congadeiro, e lhes transmitem como herança esta cultura ancestral. No Caburu, em São Dimas e em outros lugares onde o congado sempre revigora quando é tempo de Nossa Senhora do Rosário isto também acontece: lutando contra a modernidade da televisão, da cultura de massa e da internet, os pais tentam manter acesa no coração dos filhos a chama do amor congadeiro, que é a seiva do passado e a estrela da ancestralidade.

Sem a fé, sem a crença, sem a convicção e sem a coragem dos antepassados, que são os amuletos do Congado, a chama se apaga. A seiva, que é sangue e água, seca. A estrela perde o lume. O negro de hoje fica desnorteado de sua cultura original e genuína, equivocado e iludido pelo canto da sereia escrito na pauta dos códigos de barras.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Ilustração: Foto G1

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nossa Senhora do Pilar e seu coração de ouro, batendo dourado no peito de São João del-Rei


São João del-Rei, 12 de outubro.  Em 2015, pouco depois das seis da manhã, todos os sinos já dobram em conjunto. Começam, em matinada, o concerto sonoro da alvorada de Nossa Senhora do Pilar - padroeira e madrinha da cidade, irmã da espanhola Zaragoza, onde a Virgem apareceu ao apóstolo São Tiago.

Toques de sino o dia inteiro, alfaias, velas, cortinas vaporosas, chuvas de flores, aromas, tapetes de pétalas e areia colorida, música da Orquestra Lira Sanjoanense, foguetes, banda de música, fogos de artifício. São João del-Rei é vida, fé e festa no dia 12 de outubro.

Hoje menos do que antes, antigamente São João del-Rei era ainda mais festiva no dia 12 de outubro. Em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, ao meio dia todas as casas - principalmente as mais humildes, dos recantos, bairros periféricos, dos altos e encostas - soltavam uma artilharia de foguetes, em meio a velas acesas, incenso em brasa e a voz da Rádio Aparecida do Norte, bradando a imaculada consagração.

A indústria cultural, tecnológica e digitalizada, povoou o mundo de simulacros, desterrou a simplicidade da alma, desalmou sentimentos puros. Secou o orvalho da esperança, ofuscou o brilho do olhar, condensou a brisa dos pulmões, transformou em neon a luz dos arco-íris, criou vácuos de existência.

Mas os sinos insistem e dobram. Tapetes coloridos de areia e serragem se estendem dos dedos dos jovens, de homens de vida bruta e alma pura. Das rendilhadas sacadas de ferro a primavera chove flores e exala perfume. Velas se acendem na luz das estrelas. A banda toca e a orquestra de anjos canta antífonas de antigamente.

Nossa Senhora do Pilar sai às ruas com sua coroa e cetro de ouro, catado na Serra do Lenheiro; o menino Jesus, desnudo, sorri pureza em seus braços. O céu se espalha colorido e feliz no chão de São João del-Rei. Todo dia 12 de outubro...


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

As coisas boas de São João del-Rei 10 - Barteliê: o que você não espera, ali espera por você!



Em São João del-Rei tem uma via que começa no século XVIII e leva gente, jovem e sorridente, do século presente,  aos anos setenta do século que ficou para trás. Tudo atravessando as três portas do Barteliê. Assim como o nome é uma mistura inusitada das palavras Bar e Ateliê, a proposta artístico-etílico-gastronômico-musical também é ousada: um bar fundido com uma galeria de arte e artesanato, onde se ouve a música que ninguém espera. Jazz, blues, mpb, chorinho, samba, clássicos, grandes nomes, inéditos, desconhecidos, alternativos, música autoral. Tudo cabe no Barteliê.

Bob Dylan, Janis Joplin, James Taylor, Joan Baez, Beatles, Egberto Gismonti, Sivuca, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Tropicália, Clube da Esquina, Samba, Forró: Tudo a seu dia se ouve no Barteliê. Melhor dizendo, tudo à sua noite, pois o bar sempre abre quando o sol se esconde.

Aquela rua, outrora, foi mal-afamada, mal-dita, de tanto que nela moravam o prazer, a alegria e a diversão, amamentados por mulheres risonhas, morenas de cabelos longos, largos, fartos e fundos decotes nos vestidos estampados de colorido forte como o perfume que usavam no cair da noite. Mulheres e perfumes damas da noite...

O tempo passou, as mulheres se foram, a rua caiu em decadência, quase virou ruína. Mas aos poucos está recuperando seu vigor e gosto; a alegria, a diversão e o espírito de festa de novo nela estão fazendo morada, nutridos pelo sereno da noite e pela seiva da arte. Principalmente da música.

Aquela que antes se chamou Rua da Cachaça ainda hoje guarda o antigo nome, mas agora é também a rua do vinho e da cerveja. Entretanto, a aguardente ali ainda reina soberana. afinal, quem foi rei sempre será majestade...

O Barteliê é lugar de todos, território para todos, menos para gente metida a besta. Tudo ali é tão espontâneo, jovial e viçoso que não há lugar para não-me-toques, você sabe com quem está falando e tais. Mas todo mundo sabe com quem está falando e, por isto, educação e respeito é o que não faltam. Por favor, obrigado, pois não, com licença o tempo todo se ouve, inclusive entre os passos e os bailados que movimentam os jovens na rua de paralelepípedos, quando é impossível resistir à sedução que vem da música tocada ao vivo.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Barteliê