domingo, 24 de fevereiro de 2013

Via Sacra de São João del-Rei. 8ª Estação: do Beco do Cotovelo ao Largo da Cruz*


"Um rio de gente desce
caudaloso e turbulento
pelo Beco do Cotovelo.

Palavras, ombros, partituras,
velas, terços, instrumentos e pés
se esbarram, se comprimem,
se atropelam, deixando cair
pedaços de prece, retalhos de sonho,
notas musicais e pepitas de medo
no calçamento pé-de-moleque.

O buganvile lílás, abraçado ao jasmim cheiroso,
debruça sobre as telhas curvas, do muro de pedras,
e recolhe um olhar perdido, um suspiro saudoso,
um pressentimento. Creio em Deus Padre!...

Finda a curva no Largo da Cruz,
sentimentos novamente se desembaraçam.
Se desvencilham, se harmonizam,
se diluem como a fumaça do incenso.

Ali, o galo que cantou depois que Pedro negou Cristo,
na Noite da Condenação, assiste tudo e não anuncia a aurora,
imovel que está no telhado, sobre o cruzeiro de suplícios e estrelas,
com pingentes de franjas e lágrimas.

Ali, o homem de nobreza e bronze caminha há décadas
ao encontro de sua família, mas o tempo passa
e ele nunca consegue sair do lugar. Sonho inalcançável!

No Largo da Cruz, mistérios brotam dos jardins,
mas quase sempre morrem antes de em alegrias florescer."

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* do folheto inédito A Paixão segundo São João (del-Rei)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Retrato falado da Procissão das Cinzas de São João del-Rei no começo do século XIX


Há exatamente 150 anos, no dia 18 de fevereiro de 1863, as ruas de São João del-Rei foram cenário para mais uma Procissão das Cinzas. Promovida pela Ordem Terceira de São Francisco, era realizada sempre na Quarta-Feira de Cinzas, para assinalar o começo da Quaresma e conclamar o povo ao jejum, abstinência e penitência.

Tudo indica que este ritual já era tradicionalmente praticado em nossa cidade há muitas décadas, senão desde o século XVIII, pois o viajante francês Augusto de Saint-Hilaire, que visitou São João del-Rei em 1819 e em 1822, assim a descreveu em sua caderneta de campo, onde registrava suas anotações de viagem (versão simplificada):

"Por volta das cinco horas, a procissão entrou na rua onde morava o pároco. À frente, vinham três mulatos, com túnicas cinzentas. Um deles carregava uma cruz de madeira e os outros dois, um de cada lado, carregavam altas lanternas. Em seguida vinha um personagem caracterizado como um esqueleto, representando a Morte, fingindo golpear, com uma foice, as pessoas que assistiam passar o cortejo.

Em seguida vinha outro conjunto, iniciado por um homem com um manto cinzento, trazendo nas mãos uma grande bandeja de cinzas. Também tentava marcar a testa de quem assistia sua passagem. Atrás dele, uma mulher branca, cheia de "atavios" e um homem de manto cinza, levando nas mãos um galho de árvore repleto de maçãs e com a escultura de uma serpente enrolada em seu tronco. O homem representava Adão e a mulher Eva, pois volta e meia aproximava-se do galho e fingia colher uma maçã. Finalizando este grupo, vinham dois meninos: um, com um fuso, fiando um tecido de algodão era Abel e o outro, com uma enxada com a qual batia no chão fingindo cavar a terra, era Caim.

Na sequência vinham treze andores, com imagens em tamanho natural, esculpidas em madeira e vestidas com tecido, entre elas: Jesus orando no Jardim das Oliveiras, Santa Maria Madalena, Santa Margarida de Cortone, São Luís Rei de França, Santo Ivo bispo de Chartes, São Lúcio e Santa Bona, Nossa Senhora cercada de nuvens e querubins, São Francisco recebendo do Papa o estatuto de aprovação da Ordem Terceira, São Francisco recebendo os estigmas de Cristo, São Francisco sendo beijado por Cristo.

Meninos vestidos de anjos serafins, com saias-balão bem armadas, corpetes plissados com asas e diademas brilhantes na cabeça circundavam os andores. Finalizando, vinha um padre com a custódia dourada do Santíssimo Sacramento.´

As roupas dos figurados, em cores fortes e bastante vivas, condiziam com as pessoas que as vestiam e as imagens dos andores eram verdadeiras obras de arte, pois haviam sido esculpidas imaginativamente, devido à falta de ilustrações e modelos vivos na região.

Quando a procissão passou em frente à casa do vigário, um grupo de músicos cantou um moteto e, à passagem de cada andor, o povo se ajoelhava numa breve genuflexão, mas logo voltava a conversar".

Muitas das imagens que saíram nos andores desta procissão ainda hoje estão nos altares da igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei. A imagem de Santa Margarida de Cortone está exposta no Museu de Arte Sacra. Vale a pena visitar e conhecer!
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Fonte: SAINT-HILAIRE, Augusto - Viagem às nascentes do Rio São Francisco. Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1975 - http://www.sjdr.com.br/historia/celebridades/hilaire.html

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mistério de São João del-Rei: pode em um só peito bater dois corações?

São João del-Rei tem mistérios que ninguém ainda conseguiu decifrar. Enigmas que transcendem o pragmatismo cotidiano. Quer uma prova? Aí vai: tem gente que nasceu em outros lugares, muito além da Serra do Lenheiro, e no entanto é tão são-joanense quanto os mais puros são-joanenses "da gema". Esta gente, são são-joanenses de coração! Pessoas que se encantaram de corpo e alma pela riqueza cultural barroca de nossa cidade a ponto de quase anonimamente divulgarem, para todo o mundo, via web, muitas preciosidades artísticas que são exclusivas de São João del-Rei.

Duvida? Então te dou um exemplo: a primeira pessoa a publicar no Youtube um vídeo da música barroca tocada em São João del-Rei, mais precisamente pela grandiosa e respeitável Orquestra Ribeiro Bastos, não foi um são-joanense da gema. É um são-joanense de coração. Muito provavelmente é ele quem mais já publicou trechos musicais de nossa Festa de Passos, da Semana Santa e de várias outras tradicionais festas de nossa cidade. Mais de cem.

Quem é ele? Rafael Sales Arantes (na foto, com a família). Nasceu em 1980, em Aiuruoca, cidade sul-mineira que também cultiva a música colonial . Com 13 anos, começou a interessar-se muito por este gênero de música sacra. Tanto que, aos 17 anos, impulsionou  um movimento regional pela preservação das partituras musicais de sua cidade, expostas a grave ameaça: uma ordem da maestrina local que, já idosa, determinara que tais documentos fossem com ela para o túmulo, ou, então, queimados logo depois de seu enterro. Boato, lenda ou verdade, não se sabe.

O que se sabe é que, como resultado deste esforço, as partituras continuam sendo executadas até hoje. Além disso, entre os vários contatos que manteve em sua empreitada, Rafael conheceu o músico Aluízio Viegas, maestro da Orquestra Lira Sanjoanense, a quem é muito grato. Por meio de Aluízio, pode conhecer e realizar importantes pesquisas no arquivo daquela que é considerada a mais antiga orquestra das Américas. Entretanto, ainda nesta época, não conheceu, em atividade, as orquestras que fazem São João del-Rei, em determinados momentos, voltar 300 anos no tempo.

Mas não demorou muito e, convidado para uma solene missa cantada dedicada a Dom Lucas Moreira Neves, conheceu, em ação, a Orquestra Ribeiro Bastos. Aí então consagrou-se e consumou o encantamento com São João del-Rei e sua musicalidade barroca, iniciado com Aluízio Viegas e com os arquivos da Lira Sanjoanense.

Fruto desta aproximação, a Orquestra Ribeiro Bastos apresentou-se duas vezes em Aiuruoca, e numa delas recebeu de Rafael uma partitura da obra Sete Palavras do compositor José Alexandrino de Souza. Para sua surpresa, no ano seguinte a peça já havia sido incorporada ao repertório musical da Sexta Feira da Paixão em São João del-Rei.

Contudo, somente em 2007 Rafael conheceu a Semana Santa são-joanense e, sob efeito do encantamento, começou a gravar vídeos das apresentações da Orquestra Ribeiro Bastos para ouvir sempre que quisesse e disponibilizá-los no Youtube. Ofício de Trevas, Miserere, Canto da Verônica, Popule Meus, novenas, missas cantadas, Te Deum, tudo. Assim, em menos de sete anos, suas gravações já ultrapassam uma centena...

Mergulhado no universo musical barroco de São João del-Rei, em 2008 Rafael compôs um Te Deum alternado, lançado mundialmente no Rio de Janeiro, pelo maestro Israel Menezes. A partir de então, volta e meia o Te Deum é executado nas festas religiosas são-joanenses. Desta forma, por meio da música, Rafael está sempre presente nos coros de nossas igrejas, do mesmo modo que espalha a música das orquestras de São João del-Rei para todas as partes do mundo. Quem agradece a quem? Ora, os dois - no encabulado silêncio dos bons mineiros - se agradecem sinceramente!

Se é possível uma pessoa ter dois corações, este é o caso de Rafael. Em seu peito, entre pulmões e costelas, de um lado um coração bate por Aiuruoca. De outro, um coração bate por São João del-Rei. A Medicina nega este fenômeno, mas a realidade do sentimento encantado não tem dúvidas...

Veja, abaixo, o Tributo ao Padre José Maria Xavier, gravado por Rafael Sales Arantes no Domingo da Ressurreição de 2009:


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Programação da Festa de Passos na Semana Santa 300 anos de São João del-Rei


Em São João del-Rei, as celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a Caminho do Calvário, ou simplesmente Festa dos Passos, são  programação mais longa do calendário litúrgico da cidade. Dura exatos  21 dias, ou seja, mais da metade da Quaresma. São 21 eventos, entre vias sacras, encomendações de almas, depósitos, rasouras, setenário e procissões.

Tradicionalmente, na "terra onde os sinos falam", começam na primeira sexta-feira após o Carnaval e terminam na sexta sexta-feira da Quaresma, ou seja, a última sexta-feira que antecede à Sexta-Feira da Paixão.

Em 2013, as atividades da Festade Passos configuram o seguinte calendário:

. 15 e 22 de fevereiro e 1o de março - Solenes vias sacras, pelas ruas do centro histórico
. 8 de março - Depósito de Nossa Senhora das Dores 
. 9 de março - Depósito de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos
. 10 de março
     - Rasoura de Nossa Senhora das Dores
     - Rasoura de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos
     - Procissão do Encontro na Via Dolorosa
. 15 a 21 de março - Setenário das Dores de Maria Santíssima
. Datas variáveis, entre 15 de fevereiro e 22 de março - Encomendações de Almas (3)
. 22 de março - Procissão das Lágrimas, da Solidão ou da Soledade de Nossa Senhora

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Primeira sexta feira da Quaresma. Começa hoje a Festa de Passos de São João del-Rei 300 anos

Como prevê o calendário litúrgico de São João del-Rei, nas três sextas-feiras seguintes ao Carnaval, a Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos realiza solenes vias-sacras externas. Para quem não sabe o que são estas celebrações, elas se assemelham a procissões, mais precisamente à Procissão do Encontro, porém com algumas particularidades. Têm à frente, puxando o cortejo, uma grande cruz preta, com um alvo lençol em forma de M; não tem andor. O que o substitui é um crucificado, conduzido altivamente por um membro da irmandade.

Seu trajeto também é singular. Sai da matriz do Pilar, rumo à igreja de São Francisco de Assis, onde a Orquestra Ribeiro Bastos canta o primeiro moteto sacro e o sacerdote reza orações especiais para este exercício de meditação e penitência. Finalizando, a orquestra executa a antífona Senhor Deus, misericórdia!, somente executada nas vias sacras solenes.

De lá, percorrendo ora ruas e pontes estreitas, ora espaçosos largos, percorre cinco capelas-passos, onde a liturgia se repete, mudando porém os motetos e as orações. Os sinos das igrejas dispostas neste trajeto plangem anunciando uns para os outros a passagem do cortejo.

A última estação da via sacra é rezada na Matriz do Pilar. Outro moteto, outra oração e o encerramento é marcado pelo canto do Miserere. Costuma ser um momento comovente, quando os fiéis, emocionados, tocam e beijam o Senhor crucificado, agora deitado sobre o altar de Bom Jesus dos Passos, e colocam na salva de prata que fica aos pés da cruz moedas e notas de pequeno valor.

Veja, no próximo passo, o programa-calendário da Festa de Passos 2013 em São João del-Rei. Antes disso, assista a reportagem abaixo. É muito interessante!


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

São João del-Rei 300 anos. São João dos sinos!


Tantos e tão sonoros são os sinos de São João del-Rei, do alto da muitas torres vigiando  tudo e contando uns para os outros - e também para os são-joanenses! - o que acontece ou vai acontecer do lado de cá da Serra do Lenheiro, que São João del-Rei responde se sente orgulhosa quando lhe chamam "cidade onde os sinos falam".

Por incrível que pareça, o sino chegou ao vale do Lenheiro juntamente com o próprio Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes nos primeiros anos do século XVIII. Não tão grande, quanto os atuais, mas como uma sineta exposta no Museu de Arte Sacra. Naquele tempo, a primitiva capela da santa padroeira era uma capela de pau a pique e palha, sem torres para sinos. Assim, era a sineta que tocavam à frente das procissões.

Todas as igrejas da cidade possuem sinos pequenos, médios e grandes, de sons únicos, variados. Tradição são-joanense, todo sino, ao ser batizado, recebe um nome, para lembrar um santo ou personalidade religiosa. Elias, por exemplo, é o nome de um sino da igreja do Carmo, Domingos de Gusmão de um sino da igreja do Rosário, João Evangelista de um sino da Irmandade da Boa Morte, Daniel de um sino da Irmandade das Almas.

Na antiga e setecentista Matriz do Pilar, hoje catedral basílica, os sinos estão assim colocados:

Torre direita (à esquerda de quem vê de frente a Catedral)
. Pela frente: sino dos Passos
. Lateral à direita: sino da Boa Morte
. Ao fundo: sino pequeno da Boa Morte

Torre esquerda
. Pela frente: sino do Santíssimo Sacramento. É o mais importante da cidade e anuncia horas cheias e três quartos de hora.
. Lateral  direita: sino das Almas, chamado Daniel
. Lateral esquerdo: sino da "fábrica", bate meia hora e um quarto de hora
. Ao fundo: sino pequeno da Boa Morte, toca dobres fúnebres e repiques festivos

São três as modalidades básicas de todos os toques de sinos de São João del-Rei que, por sua combinação, frequência, duração e ritmo, formam peças sonoras que compõem o mais completo, sofisticado, original, tradicional e complexo repertório sineiro do Brasil.

. Dobre simples - O sino cai pelo lado em que está encostado o badalo, ouvindo-se apenas uma pancada a cada movimento.

. Dobre duplo - O sino cai pelo lado oposto ao que está encostado o badalo, ouvindo-se assim duas pancadas a cada movimento.

. Repiques - O movimento é feito somente pelo bater manual  do badalo, com o sino parado.

Em geral, os dobres, quando lentos e compassados, expressam contrição ou a tristeza de chamados fúnebres. Quando os sinos giram velozes, como por exemplo à saída e entrada de procissões, indicam júbilo e vitória, ocasiões em que, muitas vezes, os badalos estão enfeitados com penachos - grossos pingentes de tiras de papel crepom da cor da opa de sua irmandade, confraria ou ordem terceira.

Já os repiques indicam alegria, até mesmo quando anunciam o enterro de uma criança. Nos antigos entendimentos, nestes casos a alegria era pela subida e entrada de mais um anjinho no céu.


A Paixão segundo São João del-Rei. 300 anos

Findo o Carnaval, imediatamente São João del-Rei mergulha noutro tempo. Noutra era. Uma longa e densa Quaresma evapora do chão de pedra, rarefaz-se em nuvens nebulosas, toma conta de tudo - do tato ao pensamento, do olfato ao coração. Há mais de 300 anos é assim.

Em horas enigmáticas os sinos tocam lamentosos pancadas dolorosas. Introspectivos dobres. Chamam para noturnas vias sacras. Para a Paixão segundo São João, tal qual há mais de três séculos compôs Bach, quando São João del-Rei, ainda Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, amanhecia sua infância de ouro e esperança. Ouça BWV I e II:




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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carnaval, São João del-Rei. Bloco dos Caveiras é um Baú de Ossos: "Todos somos iguaes!"


Como é comum no carnaval de São João del-Rei, é na Segunda Feira das Almas que o Bloco dos Caveiras sai às ruas. Sombrio, escuro, lúgubre, funesto, segue lento e compassado na cadência de uma marcha fúnebre, que uma banda de metais tortos toca desafinada. Tal qual a vida no seu indesejado compasso final. Apesar de ser o carnaval festa da carne, no Bloco dos Caveiras não há alegria.

Risadas estridentes, sofridas e histéricas ecoam nos alto-falantes roucos. Ninguém canta, não tem confete nem serpentina. Só defuntos, esqueletos,  caveiras desdentadas, túnicas pretas, capuzes, caixões, assombrações, almas do outro mundo, mulas sem cabeça, demônios, decapitados, enforcados, esfaqueados, ensaguentados, eviscerados,  urubus, diabos, sacis, bruxas, abutres,  tumbas e altos estandartes que, com inscrições barrocomedievais, entre enfumaçamentos, proclamam:

         * A riqueza dos túmulos e a pompa dos funerais não melhoram
            em nada as condições dos mortos. Só satisfazem a vaidade dos vivos!

         * Do pó viestes, ao pó retornarás!

         * Já fui o que tu és, tu serás o que eu sou!

         * Todos somos iguaes"
Em meio ao caos carnavalesco, o Bloco dos Caveiras atravessadamente deixa uma mensagem religiosa: a vida é breve - te cuida, vive-a plenamente! Acumula amigos, cultiva-os! Viva o dia de hoje, aprende: onde está teu tesouro, está também teu coração!

Neste enigmático discurso de igualdade, o que o Bloco dos Caveiras ensina aos são-joanenses pode ser simplificado no que assim nos disse o escritor Pedro Nava, na clássica obra Baú de Ossos:

"Conhecidos ou não, adversários, correligionários, amigos, inimigos,
intimos ou sem costumes uns com os outros, somos queijo do mesmo leite.
Milho da mesma espiga. Fubá da mesma saca.

Nascemos nas mesmas casas. Tivemos os mesmos retratos e as mesmas folhinhas
de Mariana nas paredes. As mesmas despensas cheirando ao porco no sal
e à banha, ardida na lata. 

As mesmas cozinhas escuras onde a lenha verde chia, a seca estala
e o fumo enegrece paredes, barrotes, e o picumã, que o sangue estanca."

sábado, 9 de fevereiro de 2013

No Carnaval de São João del-Rei, Bate-Paus são do bem. Com B e P maiúsculos!

Amanhã, domingo de Carnaval de 2013, em São João del-Rei, a atual Escola de Samba Bate-Paus será uma das homenageadas do bloco Carnaval de Antigamente / Atitude Culural, como  a mais antiga agremiação carnavalescas da cidade, ainda desfilando no cortejo de Momo. a festa, vespertina, acontecerá no Largo do Rosário, entre animadas e saudosas marchinhas carnavalescas, cabeções, anjos barrocos, caveiras sorridentes, palhaços, pernas-de-pau e muita alegria.

Há controvérsias sobre o ano exato da fundação do Bate-Paus, como bloco, nos anos trinta do século XX, mas isto não importa. O que interessa é que ela - se ainda não completou - está muito perto de completar oitenta anos. E ativa, lúcida, lúdica, vivaz, feliz, sagaz, lépida e fagueira. Alguém duvida do que o amor à vida e aos semelhantes, a alegria e o samba são capazes? Pois é...

No Carnaval de 2011, referindo-se à Escola de Samba Bate Paus, este Almanaque Eletrônico Tencões & terentenas publicou o seguinte texto, que será sempre atual::

Quem não é de São João del-Rei nem da região, certamente deve ficar apavorado quando ouve dizer que a cidade possui uma escola de samba chamada Bate-Paus. É que em outras regiões brasileiras, e até mesmo em outros países, a expressão designa pessoas ligadas à violência e à desordem, que geralmente agem por mando de terceiros.

Guimarães Rosa, por exemplo, nas consagradas obras Sagarana e A hora e a vez de Augusto Matraga, usou a expressão "bate-paus" como sinônimo de jagunços e capangas. Em 2011, o noticiário internacional falou sobre os conflitos que em fevereiro derrubaram o ditador egípcio Hosni Mubarak, adotando a expressão bate-paus para citar truculentos grupos policiais e paramilitares, contratados para espalhar o terror e conter, à força, a população egípcia, principalmente na cidade do Cairo, capital daquele país. Bate-paus com b e p minúsculos.

Em São João del-Rei, Bate-Paus é outra coisa. É uma comunidade unida, que age com  objetivo totalmente oposto ao que os bate-paus, com iniciais minúsculas, fazem pelo Brasil e pelo mundo afora: de verde e rosa, no compasso de belos sambas, a Escola de Samba Bate-Paus conta estórias e histórias, diverte e encanta a todos com a alegria do carnaval.

São João del-Rei tem esta capacidade de subverter o sentido das palavras; de autonomamente dar-lhes sentido próprio. Em São João del-Rei, tem até praia e cais, sem nunca ter tido mar ou  rio caudaloso. Mas que tem, tem. Todo mundo sabe e ninguém duvida ...


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Carnaval 2013 em São João del-Rei já começou com a maior Bandalheira!



A palavra bandalheira, no senso comum, todo mundo sabe o que é: zona, cachorrada, molecagem, safadeza, canalhice, malandragem, roubalheira, mamata, senvergonhice, velhacaria. Isto, é a bandalheira com b minúsculo.

Mas não em São João del-Rei, no sábado que antecede o Carnaval. Lá, Bandalheira é outra coisa. É um bloco, ou uma banda, ou os dois ao mesmo tempo, que arrasta muita gente por ruas de paisagem colonial muito bonita, no centro histórico da cidade.

Na Bandalheira de São João del-Rei, não tem falcatrua, corrupção, trapaça, nem exploração. Só alegria sadia. Cordialidades, gentilezas, civilidades. Como o bloco sai à luz do dia, abrindo as portas para o Carnaval propriamente dito, tudo acontece às claras, o que cria uma ambiência muito feliz e tranquila, propícia para todos - do pequeno infante ao são-joanense mais curtido pelo tempo.

Desde seu primeiro desfile, o abre-alas da Bandalheira é um jipe, sobre o qual costuma sair um grande estandarte branco, com estampa do tema ou pessoa homenageada. O estandarte original da Bandalheira tem a representação de quatro pés - dois femininos dentro de dois masculinos - em sentidos opostos, na posição de quem está deitado. Não precisa dizer mais nada, todo mundo entende a mensagem, não é mesmo?

Na sua informalidade e elegante irreverência, a Bandalheira também tem comissão de frente, que sai junto ao grande estandarte, dentro, à frente e ao lado do jipe. São alguns médicos muito conhecidos e queridos do povo são-joanense. Certamente não é por acaso que eles vão ali, pois, amigos dos fundadores do bloco (alguns deles inclusive foram fundadores), pode-se dizer que eles fizeram o parto, foram pediatras e agora cuidam da saúde, do pulmão e do coração, da Bandalheira. Do fígado, Deus cuida...

Quem conhece profundamente a cultura são-joanense, e aproveita tudo para entender a barroquice local, vai perceber que, na primeira grande procissão da Quaresma - a Procissão do Encontro, que em São João del-Rei se realiza no Domingo de Passos, o quarto domingo após o Carnaval - quem segura os cordões retorcidos que pendem do alto estandarte roxo, com a inscrição S.P.Q.R. bordada a ouro, são também médicos. Desde o século XVIII, tal estandarte vem à frente do cortejo, puxando as irmandades e confrarias na procissão do Senhor dos Passos.

Viu como em São João del-Rei, civilizadamente, sagrado e profano convivem em paz e até dialogam?

Em 2013, a Bandalheira já saiu, já sorriu, já divertiu, já alegrou. Com sua banda de sopro tocando velhas marchinhas, já se recolheu à memória de todos que foram no seu embalo. Então, ficamos aqui com a mesma frase que os são-joanenses, no fim de cada carnaval, já saudosos da festa que acabou, se despedem: Bandalheira, "Agora, só no ano que vem!"

Enquanto 2014 não chega, curta abaixo alguns flashes do desfile da Bandalheira 2013.

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Veja, neste link, a saída da Bandalheira de São João del-Rei no carnaval de 2012.Seu enredo foi O mundo pode até acabar mas a Bandalheira não pode parar! http://www.oirmusicas.com/mp3/bloco-do-passo-samba.html
Foto da abertura: guiadelrei.com.br

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sabe qual foi a grande contribuição de São João del-Rei para o Carnaval? A madrinha de bateria!


O carnaval de São João del-Rei, desde os idos 1930 até os dias atuais, teve muitas épocas de ouro. Ouro, aliás, foi o que incendiou a cobiça e iluminou os rumos dos bandeirantes até o vale da Serra do Lenheiro, para fundar o arraial que há exatos 300 anos foi transformado em vila e, pouco mais de 100 anos depois, em cidade.

Mas deixando os bandeirantes de lado, voltemos ao reino de Momo. Você sabe qual foi a grande contribuição mundial de São João del-Rei para o Carnaval de todos os tempos? A criação da madrinha de bateria. Isto mesmo, a criação desta "entidade" que encanta a todos, à frente dos ritmistas, se deu aqui, mais precisamente no carnaval de 1968, ou seja há 45 anos.

Segundo o grande carnavalesco são-joanense e respeitável homem da Cultura Jota Dangelo, até aquele ano nenhuma agremiação carnavalesca ou escola de samba, sequer do Rio de Janeiro, tinha em sua composição algo que se assemelhasse à madrinha de bateria. Ela foi criada por acaso, quando o casal Rômulo Magalhães e Ligia Vellasco, dirigentes da iniciante Escola de Samba Falem de Mim, sabiamente perceberam a falta de um personagem belo e mágico à frente da bateria. Alguém que encantasse:o público, nos momentos finais do desfile, e os ritmistas, na dura missão de bater, repicar, chacoalhar, reco-recar, enfim serem a locomotiva sonora da escola de samba.

A solução estrategicamente encontrada para irradiar encantamento veio  com a idéia de colocar à frente da bateria uma musa bela, graciosa e sedutora, em trajes que mostrassem sem pudor o movimento frenético de seu corpo escultural possuído pelo samba. Esta missão entregaram à filha, Moema Magalhães (foto). Assim, coube a ela o pioneirismo, a vanguarda e a honra de ser a primeira madrinha de bateria do Brasil.

Com esta inovação e ousadia, a Escola de Samba Falem de Mim fez jus ao seu enredo de 1968: O maior espetáculo da terra. E apresentou  pela primeira vez a "entidade" do mundo do samba que até então não existia e somente alguns anos depois passou a desfilar nas escolas de samba cariocas.

Veja, neste vídeo, uma homenagem do Carnaval de Antigamente / Atitude Cultural à primeira e mãe de todas as madrinhas de bateria do Brasil, Moema de Almeida Magalhães.

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Fonte: DANGELO, Jota. Subsídios para a história do carnaval de São João del-Rei, de 1950 a 2000. Segunda edição. Editora Ateneu. São Paulo, 2003.

Foto: Banco de imagens São João del-Rei Transparente (http://saojoaodelreitransparente.com.br/galleries/view/265)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Urubu Malandro e Sabiá Moleque, de alegria, caíram na folia em São João del-Rei


Há pouco mais de 115  anos, no último dia de janeiro de 1897, partiu de São João del-Rei o 16° Batalhão de Infantaria. Vindo de Pelotas e passagem na cidade desde junho de 1896, seguia para combater Antônio Conselheiro, na Guerra de Canudos.

Mas não foi o modo de falar, os costumes desconhecidos nem o toque marcial da partida o fato o que marcou a passagem dos soldados gaúchos  por São João del-Rei. O que mais causou estranheza aos são-joanenses foi a inusitada apresentação daqueles militares, que formaram um "Bando de Reis", muito diferente das folias de Reis a que estavam acostumados. No dia 6 de janeiro, vestidos "a caráter" de Reis Magos, acompanhados de algumas mulheres, os sulistas percorrerem diversas ruas do centro da cidade, cantando em coro toadas e loas desconhecidas. Seus movimentos de danças curiosas, próprias de sua distante região, pareciam um espetáculo itinerante, que agradou e foi bastante aplaudido pelo povo que morava à sombra da Serra do Lenheiro.

As Folias de Reis que os são-joanenses conheciam, à época conhecidas como Bandos de Reis, tinham como figura central o Bastião - único personagem que, vestido de cores berrantes e estranhamente mascarado, dançava passos típicos de "urubu malandro e de sabiá moleque". O ritmo era ditado por cantores, um violeiro, um caixeiro, um tocador de pandeiro, um sanfoneiro e um rabequista. O solo pertencia ao Bastião e o coro era formado por cinco ou seis "goelas", responsáveis pelos mais altos, distorcidos e estridentes agudos.

O jornal Astro de Minas, que circulou em São João del-Rei no dia 9 de fevereiro de 1883, portanto há exatos 130 anos, trouxe, em uma crônica retrospectiva, o retrato conciso e preciso de uma Folia de Reis são-joanense, tal qual acontecera em 1860.

Dizia o seguinte: "Nos Bandos de Reis vinham os três reis magos fantasiados e a cavalo, trajando roçagante manto, empunhando áureo cetro e tendo a cabeça cingida de resplandecente diadema, sobressaindo-se entre eles o rei Congo."

Quer saber qual é o ritmo do Urubu Malandro? Então ouça o choro abaixo (Adenilde Fonseca, Jacob do Bandolim e Waldyr Azevedo).  Uns, dizem que é de Braguinha e Loro. Outros, fue é trecho de uma cantiga folclórica gravada pela primeira vez em 1914. Portanto, há 99 anos!

Sem mais conversa, já que é quase Carnaval, pelo sim e pelo não, vai Urubu Malandro...





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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte. 1982.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Na barroca São João del-Rei, fevereiro é balança de dois pratos: alegria e arrependimento


Em São João del-Rei, fevereiro é um mês que, como nenhum outro, coloca lado a lado o sagrado e o profano, a farra e a penitência. Tão maior o delírio, quão maior o arrependimento. Se não houver um, como  justificar o outro?
Logo que o mês começa, no dia 5, desde a metade do século XVIII a cidade festeja as virtudes de São Gonçalo Garcia. Em sua homenagem, a  Confraria que honra o santo realiza novena barroca, com músicas próprias, compostas pelo Padre José Maria Xavier e executadas pela Orquestra Lira Sanjoanense  - a mais antiga das Américas, em atividade ininterrupta desde sua fundação. Deste repertório sacro fazem parte Veni Sancte Spíritus, Dómine ad adjuvandum, Invícte Martyr e Justus ut Palma florébit. Encerrando a festa religiosa, solene missa cantada, procissão e Te Deum laudamus.
Da festa religiosa para a festa profana, a distância não é maior do que alguns dias.Um pulo e a música barroca dá lugar a sambas, batuques e marchinhas. Em vez de sinos, tambores e tamborins, cornetas, reco-reco e chocalhos. No lugar das flores naturais, flores de plástico e papeis, confetes e serpentinas. Não há cortejos sérios e disciplinados , mas blocos, alas e alegorias. Nada de andores, agora é a vez dos carros alegóricos. Chegou o Carnaval e quem manda é o Rei Momo, com sua  leviana corte de delírio e alegria.
Em São João del-Rei, há dois momentos em que sagrado e profano, próximos, ocupam o mesmo  espaço de tempo. Na terça-feira gorda, enquanto os blocos do dia quebram as esquinas e entortam ladeiras, na Matriz do Pilar fiéis se devotam em piedosa Hora Santa e adorações ao Santíssimo Sacramento. Às nove da noite, quando escolas de samba requebram e repicam meio a casarões dos largos coloniais, das torres imponentes da matriz da majestosa padroeira, o sino da Irmandade do Santíssimo Sacramento, barrocamente profético, lança sobre tudo o sonoro Toque de Cinzas.
Quando a noite vai embora  e o sol chega,  afastando as sombras e iluminando o dia, o tempo muda. O céu fica mais distante, uma névoa discreta ronda a Serra do Lenheiro, espinheiros e quaresmeiras se destacam brancos e roxas nas montanhas, encostas e jardins. Os sinos tocam de tempos em tempos, anunciando que já é quarta-feira de cinzas.
À noite, os são-joanenses vão à missa e via sacra da Boa Morte na Matriz do Pilar. Lá, contritos, oferecem a testa ao padre que faz nela uma cruz de cinzas clamando: "convertei-vos ao Evangelho de Jesus Cristo!"

Como se despedem as pessoas nos últimos momentos da balbúrdia, Carnaval agora só no ano que vem...