quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Na São João del-Rei das beiras-seveiras, entre encruzilhadas e esquinas

Este fim de janeiro, quando São João del-Rei começa a se despedir do festival gastronômico Happy Hour, que chegou à cidade juntamente com o ano de 2013  e vai até o primeiro fim de semana de fevereiro, é o momento certo para se lembrar de um interessante espaço gastronômico-cultural surgido em fins dos anos 80 "na rua mais antiga, mais poética e mais bonita da cidade" - o Beira Seveira Bar e Restaurante.

Instalado no número 17 da Rua Santo Antônio, a ele se chegava descendo por uma estreita escadaria  que se abria do estreito vestíbulo e levava para um lugar inusitado: um porão colonial, sustentado por várias colunas de pedra construídas na metade do século XVIII. Eram elas que projetavam para o alto o casão, colocando-o no nível da rua calçada com pedras pretas pé-de-moleque.

Sua iluminação, vazada de lampiões e arandelas, acentuava o clima de mistério, criado a partir dos bancos e mesas de antiquário e de muitos utensílios e utilitários de estanho e cobre. Ao fundo, nas paredes também de pedra, intrigantes obras de arte.

O cardápio, assim como o nome do restaurante, homenageavam elementos da mineração, da arquiterura e do urbanismo local de três séculos. Rocalha, água-furtada, beiral, cascalho, voluta, cimalha, cangalha, aldabra, bateia, gamela e outros davam nomes a pratos, petiscos, tira-gostos, bebidas e drinks. Tudo feito com os melhores produtos, o cuidado e o zelo que são próprios da culinária mineira, sobretudo da que se desfruta na região.

O cardápio artístico cultural não deixava nada a desejar: o melhor da música popular mineira preenchia ao vivo todo o espaço, quando não cedia lugar para o teatro de bonecos, apresentações teatrais, saraus poético-literários e lançamento de livros. No Beira Seveira se saciava as fomes do corpo, da alma e do espírito.

Floresceram-se primaveras, aqueceram-se verões, amadureceram-se outonos e chegaram-se também invernos. Depois de algum tempo, o Beira-Seveira mudou-se para outra cidade, mas não resistindo à saudade da Rua Santo Antônio e de São João del-Rei, despediu-se e fechou as portas.

"Aconchego, música, fogão de lenha, tudo com gosto do bem feito, num ambiente especial,
 único em São João del-Rei, na rua mais antiga, mais poética e mais antiga da cidade."

Era isso o que o Restaurante e Bar Beira-Seveira prometia e oferecia. É assim que ele ficou na recordação de quem o conheceu e frequentou naqueles tempos, e até hoje o frequenta, em lembrança, memória e saudade.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Carnaval São João del-Rei 300 anos. São João del Rei Momo. Quanto riso. Oh! quanta alegria!...



Sempre que é tempo de Carnaval, São João del-Rei bem poderia mudar de nome. Chamar-se São João del Rei Momo, tamanha é a entrega que a cidade se faz à brincadeira, à folia, à fina ironia, ao saudável deboche, à crítica necessária a tudo o que é socialmente instituído, a todos os modelos e construções sociais que regulam a vida do homem moderno. Em muita coisa - e à muita coisa - São João del-Rei subverte, se subverte, se vira pelo avesso, para logo em seguida se reestruturar, se recompor, se reorganizar, resgatando então, ora reforçados e fortalecidos, ora renovados, seus valores tradicionais.

Mas o Carnaval de São João del-Rei não é só isso. Em meio à espontaneidade dos blocos e à esforçada estética das escolas de samba, que a todo custo buscam na linguagem carnavalesca uma didática que torne educativos os seus enredos, uma ideia se destaca. É a Atitude Cultural com o seu Carnaval de Antigamente.

Pode parecer estranho uma entidade tão sedimentada denominar-se "atitude" e um bloco carnavalesco batizar-se de "carnaval", mas não é. O que a Atitude Cultural, por meio do Carnaval de Antigamente, promove é a conscientização de são-joanenses e turistas sobre a riqueza cultural de São João del-Rei: seu patrimônio histórico, seus valores culturais, seus artistas e protagonistas, principalmente ligados ao universo do samba e do Carnaval. Tudo a partir da alegria natural e espontânea, que em outros tempos era a pedra mais brilhante na coroa do Rei Momo.

Em 2013, por exemplo, o Carnaval de Antigamente tem como "enredo" os 300 anos de instituição da Vila de São João del-Rei e, à lembrança deste fato histórico, acrescenta publicamente uma saudação: São João del-Rei, eu te amo! Neste clima, renderá homenagens à mais antiga agremiação carnavalesca de São João del-Rei ainda em atividade - o octogenário bloco / escola de samba Bate Paus.

Certamente, todos os que amam São João del-Rei estarão, na tarde do domingo de Carnaval, no Largo do Rosário, para engrossar o cordão que, entre antigas marchinhas carnavalescas e retumbantes toques de clarins e trombetas, farão ecoar nas pedras da Serra do Lenheiro sua declaração de amor à cidade tricentenária.

Inclusive a lua nova, que todo carnaval brilha vespertina como fina aliança de prata no céu de cetim azul claro para o qual apontam as torres brancas da igreja mais antiga de São João del-Rei. Em silêncio sideral, ela também dirá: São João del-Rei, eu te amo!

Sobre o Bate-Paus, leia também:
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/02/em-sao-joao-del-rei-bate-paus-sao-do.html


sábado, 26 de janeiro de 2013

São João del-Rei, 8 de dezembro de 1913


Há  cem anos, uma das homenagens a São João del-Rei por seu bicentenário como vila  foi o lançamento de um "álbum" impresso em que o autor "TB" apresentou diversos aspectos locais, mostrando como a cidade se via, era vista e se apresentava para Minas Gerais e para o Brasil.

Com muitas fotos e ilustrações, referia-se ao desenvolvimento da cidade em vários setores: comercial, industrial, educacional, de saúde, artístico e muitos outros. Citava diversas personalidades, enumerando seus grandes feitos. Falava das tradições religiosas, demografia, urbanismo, instituições sociais, educandários, administração pública e comemorações cívico-sociais importantes - tudo documentado com fotografias que mostravam como era São João del-Rei quando chegou o século XX.

Sobre a efeméride dos 200 anos de instituição da Vila de São João del-Rei, o  "álbum" traz o seguinte:

Oito de dezembro de 1913 - O Bicentenário

No dia 8 de dezembro do corrente ano, a nossa formosa cidade festeja o bicentenário de sua elevação a vila. É uma data grandiosa, bem cara a seus filhos, que celebrarão condignamente a passagem de tão fulgurante efeméride.

Dois séculos são passados que a coroa imperial deu organização administrativa a nossa terra.

Num decorrer tão longo, nossa frondosa cidade poderia hoje ostentar luxuosos palácios e maior progresso, mas o sonho do grande conterrâneo, Tiradentes, que aqui queria erguer a capital da república por ele aspirada, interrompeu-se tragicamente.

Tragicamente, é verdade, mas seu glorioso exemplo frutificou. E a sua causa foi vitoriosa, não muito tarde.

Demais, o ouro era o principal elemento de vida das nossas cercanias. Em ânsias, atras dele, aqui vinham ondas de aventureiros. Porém o vil metal começou a desaparecer, e com ele também a população, que em outras terras, menos exploradas, foi procurá-lo.

A São João del-Rei não coube a glória de ser a capital da República, belamente idealizada pelo maior dos são-joanenses, pelo maior dos brasileiros.

Se nela, hoje, não se erguem os palácios do Governo, se nela não se agita o mundo oficial, tem a linda cidade uma população ordeira, laboriosa, feliz e incomparáveis belezas naturais.

Daqui também tem saído formosos talentos nas artes, nas ciências, nas letras, nas diversas manifestações da atividade humana.

Festejemos pois o dia que se aproxima. Que o bom Deus lance sobre nossa encantadora cidade suas bênçãos.

Festejemos pois o dia que se aproxima. Que este chamado ecoe junto a todos os são-joanenses - poder público, instituições culturais, setor econômico, comunidade - e nos mobilize para este ano comemorar, com grandeza e dignidade, os trezentos anos da Vila de São João del-Rei, a quarta vila instituída em Minas Gerais. 



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Vandalismo e conto do vigário na Matriz do Pilar de São João del-Rei. Era 24 de janeiro de 1844...

Com quase trezentos anos, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar figura como um dos mais belos, imponentes e importantes templos  barrocos de São João del-Rei. Não só de nossa cidade, mas também de Minas Gerais e do Brasil. Sua talha dourada é requintada, as pinturas de seu teto muito originais e singulares, sua prataria refinada e valiosa e suas imagens, todas muito antigas e expressivas. Dizem até que algumas existem desde o tempo da capela primitiva que, no morro do Bonfim, foi incendiada durante a Guerra dos Emboabas.

Pois bem, há 169 anos, no dia 24 de janeiro, o "vetusto" templo foi alvo de vandalismo que, na verdade, começou com um conto do vigário. Sabe como aconteceu?

Altas horas, o sacristão dormia em sua casa, em beco próximo à igreja, quando foi acordado com fortes pancadas em sua porta e alguém gritando: - "A porta lateral da igreja, no lado do Cemitério está aberta! Convém fechar!".

Preocupado, ele não pensou duas vezes. Vestiu um agasalho, pegou a penca de chaves e, no ainda escuro, saiu em direção à Matriz. Mal deu alguns passos e foi atacado por dois embuçados que, com pistolas em punho, tomaram-lhe as chaves e o forçaram a acompanhá-los até a igreja.

Lá, foram direto ao assunto, ou melhor, ao que interessava - o ambiente decorativo que havia sido criado para celebração das exéquias do senador padre Diogo Antonio de Feijó, que seriam oficiadas no dia 30 daquele mês. Desmantelaram o monumento funerário, destruíram o cenário, desmancharam e inutilizaram os enfeites. Tudo sem dizer uma palavra.

Em seguida, também em silêncio, devolveram a penca de chaves ao assustado sacristão. E sumiram na noite de becos estreitos, de ruas escuras e muitas estrelas. Não havia lua no céu...
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume I, 2a edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Garimpando ouro cultural em São João del-Rei

Da riqueza cultural de São João del-Rei, ninguém duvida. Suas tradições tricentenárias, sua música barroca, a beleza de sua arquitetura, a singularidade de sua Semana Santa, das Comemorações de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, das procissões que acontecem durante todo o ano, das folias, congadas, concertos.

Entretanto, se é tão vasto e único este universo peculiar de cultura  e memória - patrimônio puro -, pequena ainda é a produção impressa, bibliográfica, fonográfica, fotográfica e videográfica que, materializada em produto físico, pode ser adquirida por quem mora, visita, estuda ou, simplesmente, gosta da cidade e com ela mantém laços os mais diversos.

Além de ser "muito discreta" esta produção, em relação à grandeza da cultura são-joanense, encontrar à vista para compra livros, discos, fotografias, postais e cartazes sobre a cidade é tão difícil quanto garimpar pepitas de ouro, outrora tão à flor da terra nas raízes dos capins que ainda hoje brotam nas pedras do chão e nas encostas da Serra do Lenheiro.

Se algum dia você se encontar nesta condição, aí vão algumas dicas. Livros do historiador Antônio Gaio, CDs da Orquestra Ribeiro Bastos, DVDs da Orquestra Lira Sanjoanense e da Sociedade de Concertos Sinfônicos, CDs dos Ofícios de Trevas e das Marchas das Bandas são-joanenses (vídeo abaixo), DVDs com registros das cerimônias da Festa de Passos e Semana Santa - quase sempre é mais fácil adquirí-los diretamente com os autores.

Contudo, pode ser que você dê sorte e até encontre exemplar de algum deles nos seguintes locais:

. Agência de Jornais e Revistas - Avenida Presidente Tancredo Neves
. Sebo Ponto Literário - Rua Sebastião Sette, próximo à igreja do Carmo
. Café Sede da Orquestra Popular Livre - Rua Getúlio Vargas, em frente à igreja do Carmo
. Centro Cultural da Baronesa - Rua Sebastião Sette, em frente à Rua da Cachaça
. Casa Paroquial da Matriz do Pilar - Ao lado da Matriz do Pilar, subindo pela esquerda
. Memorial Dom Lucas Moreira Neves - Em frente à Matriz do Pilar

A dica vai, invertida, para as livrarias e distribuidores locais: sejam generosos com quem aprecia, procura e precisa dos belos e importantes produtos culturais são-joanenses. Exponham e facilitem o acesso a estas preciosidades, disponibilizando-as em museus, lojas de artesanato, centros culturais e espaços turísticos. São João del-Rei agradece!

Ou simplesmente se inpirem nons tempos em que os discos em vinil da Orquestra Ribeiro Bastos e livretos das tradições religiosas eram vendidos no adro e na escadaria da Matriz, durante as cerimônias da Semana Santa...




domingo, 20 de janeiro de 2013

São Sebastião. Cidadão de São João del-Rei?


Ainda hoje realizada com grande dignidade, no dia 20 de janeiro de cada ano, nos séculos XVIII e XIX a festa de São Sebastião figurava entre as mais importantes do calendário religioso da Vila de São João del-Rei. Tanto que era comum o senado da câmara fazer parte do cortejo, como por exemplo ocorreu em 1755 e em 1810, levando à frente do grupo o estandarte que o distinguia como representante do poder público. Isto acontecia nas mais importantes procissões, como de Corpus Christi, Anjos Custódios, São Jorge e outras.

Com o tempo, este costume caiu em desuso, mesmo como tradição, e não mais se vê a Câmara Municipal, como corporação, presente em nenhuma celebração religiosa. Hoje, muito não mais  se vê nenhum vereador ou ocupante de cargo público municipal carregar insígnia ou lanterna junto ao pálio nas procissões são-joanenses, a não ser na Procissão do Senhor Morto, realizada na noite da Sexta-feira da Paixão.

Se para os religiosos esta tradicional procissão é expressão de fé, para os outros é como uma vitrine ambulante de grande visibilidade. Não só na cidade, mas também na região, no Estado e, alguns anos, até nacional.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I . 2ª edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Carnaval de São João del-Rei tem saudades do imortal Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae

Quem é de São João del-Rei, tem mais de cinquenta anos e passou a infância na cidade  certamente não se esquece: quando nas noites de carnaval clarins tocavam na Ponte da Cadeia anunciando que o Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae já estava cruzando os Quatro Cantos, uma emoção forte inquietava a todos, disparava o coração. Aos poucos, a multidão ia se recompondo, voltando a si, recuperando o fôlego para ver passar, dolente, acetinada, verde e rosa uma das mais antigas agremiações carnavalescas da cidade, criada nos anos vinte do século passado.

Um rancho moreno, perfumado, extraordinariamente singelo, com suas crianças inocentes, ingenuamente sensuais pastoras, homens e rapazes pontuando com firmeza o movimento do rancho. Ciganas, fadas, aladins, sultões, baianas, mandraques, piratas - todos deslizando sublimes ao som de uma marcha rancho de composição sofisticada e letra erudita, que colocava um dos mais antigos ranchos carnavalescos são-joanenses acima das constelações celestes e dos maiores e mais importantes heróis da mitologia grega.

Depois de desfilar por quase (ou mais de) cinquenta anos, o Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae há um bom tempo é apenas memória; lembrança e saudade dos velhos carnavais de São João del-Rei. Em seu livro, modestamente denominado Subsídios para a história do carnaval de São João del-Rei, o grande Jota Dangelo transcreve um folhetim de 1928 e descreve como foi o desfile do "Custa" naquele ano:

"Cavalgando garbosos ginetes, III [três] cavalleiros, empunhando clarins, cornetas e trombetas abrem, por entre a multidão, passagem para o Custa Mas Vae.  Em seguida, vêm o presidente e seu secretário, montados em dois lindos corcéis. Segue-se a porta-estandarte e seu  defensor, com trejeitos coreugráphicos [coreográficos], demonstrando sua perícia em tal arte.... surgem então as senhorinhas e os rapazes representando diversas constellações, estrellas, enfim, todos os astros que, embebidos, olhamos à noite". No final vinha a 'carruagem'  Dentro da Noite, nome do enredo idealizado e confeccionado por Lord Redondo."

Ainda falando sobre o Custa Mas Vae, Jota Dângelo conta que no carnaval de 1929 o rancho desfilou com o enredo  A Fada dos Bosques, e que o folhetim distribuído antes do desfile chamava a atenção para as marchas Nego no Samba e Marcha do Custa Mas Vae. Esta última, belíssima letra de J. Colombiano, vulgo Collombo, e composição, segundo o maestro Marcelo Ramos, de Pancrácio Loureiro, ficou conhecida como o Hino do Custa Mas Vae. Sua letra diz:

"Como estrela a cintilar, a luzir lá no céu, sempre azul,
tal é o Custa Mas Vae, rivalizando com o Cruzeiro do Sul.

Febo morre de ciúmes de ti porque brilhas no Carnaval.
Vênus te rende homenagens, és o Rancho Escola, és o Rancho Ideal .

És forte como Hércules. Teu passado é de gloria.
Tens um porvir glorioso, viva a folia, viva a vitória!

És bravo com denodo, e todos de ti bem dizem.
Do Carnaval és a nata, brava gente heróica e juvenil.

Qual farol que ilumina o caminho, tu és vencedor.
Sempre, sempre altaneiro, brilhas muito e com grande esplendor.

Do civismo és a alta expressão, tu jamais serás abatido.
Timoneiro valoroso, és o Rancho Escola, o Rancho ideal."

A marcha Hino do Custa Mas Vae foi gravada recentemente no CD Marchas Mineiras para Bandas pela Companhia dos Inconfidentes, sob regência do maestro Marcelo Ramos. Saiba mais sobre o CD e como adquirí-lo no vídeo abaixo:




Carnaval de São João del-Rei foi proibido. Era 1720


Não é de hoje que a alegria e o entusiasmo, em determinadas ocasiões, tomam conta das ruas e do povo de São João del-Rei. Desde os primeiros tempos do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, sua população, principalmente os negros, via em tudo oportunidade para festejar a vida e cair na gandaia e na folia, com rodas de batuques, cateretês e folguedos.
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Como eram espontâneas, autônomas e independentes, estas aglomerações incomodavam o poder público: afinal a alegria tem muita força; ninguém sabe do que uma pessoa feliz é capaz, se for exposta a um regime restritivo e opressor.

Por isso, no dia 13 de janeiro de 1720, cumprindo o que determinou o Conde de Assumar, o Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei publicou edital proibindo que os negros se juntassem para fazer bailes e folguedos.

A ordem era tão severa que novo edital foi publicado quatro dias depois, no dia 17, reforçando a determinação. Temia-se as ameaça de danos, insubordinações e  revoltas que a união e a alegria coletiva do povo  poderiam provocar. Este segundo edital determinava, inclusive, os tipos de vestimentas que os escravos, cotidianamente, não poderiam usar.

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Quer saber sobre o Carnaval de São João del-Rei nos dias atuais? Então acesse:

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/01/blog-post.html
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I. Segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte. 1982.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Em São João del-Rei, São Sebastião combateu o fogo do inferno na Guerra dos Emboabas


Não é de hoje que são amigos São João del-Rei e São Sebastião. Conta a história que o mártir guerreiro se instalou no então Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, no alvorecer dos anos setecentos. Na capela da virgem padroeira, assistiu aos horrores da Guerra dos Emboabas e se salvou do incêndio que a tudo destruiu, em 1709. Ainda hoje mora na cidade, em um altar lateral da matriz de Nossa Senhora do Pilar.

Amizade tão antiga não enfraquece com o tempo. Se dez anos depois, em 1719, o Senado da Câmara da então Vila de São João del-Rei declarou obrigatória a celebração anual  de missa cantada e solene procissão em honra de São Sebastião, os são-joanenses, por devoção ao santo, levaram tão a sério tal determinação que até hoje realizam novenas barrocas e procissão para festejar o divino advogado e feroz combatente na luta contra a peste, a fome e a guerra.

Ao longo de três séculos, importantes compositores são-joanenses produziram obras sacras que até hoje se alternam na novena, realizada de 19 a 19 de janeiro, que tem como repertório:

. Dómine, Veni, Hino e Antífona (Padre José Maria Xavier)
. Dómine e Veni (Carlos dos Passos Andrade)
.  Jaculatória de São Sebastião (Luiz Baptista Lopes)
. Domine, Veni, Hino e Antífona (Geraldo Barbosa de Souza)

Para a procissão, realizada ao entardecer de todo dia 20 de janeiro, foram compostos os seguintes coros processionais:

. Invicte Mártyr (Presciliano José da Silva)
. Beatus Vir e Invicte Mártyr (Marcelo Ramos de Souza)

Por se tratar de um santo guerreiro, a procissão de São Sebastião, em São João del-Rei, ostenta aspectos bélicos na formação do cortejo, muito perceptíveis para os mais atentos observadores: presença militar do Exército uniformizado, folia de São Sebastião alinhada com seus instrumentos de percussão em silêncio - folia e soldados guarnecidos pelas irmandades - e predominância espontânea do vernelho na cor da roupa das pessoas que acompanham o santo flechado. Altaneiro e amarrado à prata em tronco e galhos, traz a Cruz da Ordem de Cristo no peito, uma faixa vermelha à cintura, com grande pendente de ouro em fios e  flores, muitas palmas, vermelhas, enfeitando o andor.

Se Rio e Bahia se vestem de branco para homenagear Yemanjá, Oxalá e Senhor do Bonfim, São João del-Rei - como os índios brasileiros pintados para a guerra - se veste de vermelho para saudar São Sebastião.

Ouça, abaixo, a Antífona de São Sebastião (O Beate Sebastiane). Composição oitocentista do Padre José Maria Xavier, executada tradicionalmente na novena de São Sebastião pela Orquestra Lira Sanjoanense, aqui  interpretada pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais sob a regência do contemporâneo maestro Marcelo Ramos. Compositor e maestro - dois são-joanenses! Como se tornou São Sebastião...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pedindo fartura, vitalidade e proteção, São João del-Rei saúda São Sebastião


Guerreiro e protetor contra a peste, a fome e a guerra, em São João del-Rei São Sebastião é santo forte. A ele, todos querem agradar. Por isso, em sua homenagem, do dia 10 ao dia 19 de janeiro, no centro histórico, a matriz do Pilar realiza barroca novena, anunciada por tencão tocado no sino do Santíssimo Sacramento duas vezes por dia: às 12h15 e às 18h15.

Nos bairros, várias folias populares de São Sebastião visitam as casas,levando fé, alegria, esperança  e devoção. Cantam músicas que têm ritmo próprio e recolhem esmolas que em sua maioria serão destinadas a obras sociais.

No dia 20, barroco e popular se juntam na procissão de São Sebastião, que faz um percurso singular entre a matriz do Pilar e as igrejas das Mercês e do Carmo. Nela, a folia vai em silêncio, guarnecida pelas alas das irmandades, à frente do andor do mártir guerreiro, na cadência da banda de música.

Em geral, ao final da procissão, a folia não entra na igreja, detendo-se no adro da matriz, no lado esquerdo de quem entra pela porta principal. Sabe por que? Por que seus instrumentos, populares e de percussão - caixas, pandeiro, sanfona, chocalhos, triângulo e viola caipira - não se afinam com a musicalidade que se tem como sagrada.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Em São João del-Rei a fé é festa. O tempo todo!


Quem, convidado a entrar na sala principal de muitas casas antigas de São João del-Rei, ao sair, nunca observou que no lado de dentro da porta principal estavam escritos os nomes Gaspar, Baltazar e Belchior, com giz branco, às vezes dipostos em formação triangular emoldurando uma estrela de cinco ou seis pontas, assinalados ou não com uma cruz? Certamente muitas pessoas.

Entretanto, o que nem todo mundo sabe é que esta inscrição expressa devoção católica aos três reis magos que, orientados pela estrela-guia, foram do Oriente a Belém para levar presentes e adorar ao Deus Menino. O giz com que os nomes e símbolos são grafados não é objeto comum. São bentos e distribuídos ao fim da missa festiva celebrada na igreja do Rosário na manhã do dia 6 de janeiro, para lembrar a "epifania" do senhor.

Inscrições, insígnias, reverências e louvações ao menino Jesus são tão importantes que nova bênção e distribuição de giz se faz ao fim da tarde, após mais uma missa solene e rasoura em que o menino, sentado em um pequeno trono, circula o largo e a igreja do Rosário, ao som de banda de música, matinas do Natal, tencões, cléns, floreados e terentenas, antes do Te Deum Laudamus e bênção do Santíssimo Sacramento.

Assim todo ano se concluem as celebrações do Natal de Nosso Senhoir Jesus Cristo promovidas pela mais antiga irmandade negra de Minas Gerais, a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de São João del-Rei. A partir de então, os presépios são desmontados, a iluminação natalina desfeita, folias de reis e pastorinhas vão se rareando, para se metamorfosearem nas folias de São Sebastião, que atingem seu ponnto máximo no dia 20 de janeiro.

Em São João del-Rei a fé é festa. O tempo todo...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Tencões & terentenas: 2 anos - Vila de São João del-Rei: 300 anos

Na primeira sexta-feira deste primeiro mês de 2013 - dia 4 passado - o almanaque eletrônico Tencões & terentenas completou dois anos de ativa existência, no endereço eletrônico http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br
.  Foram, até aquela data, 447 postagens, acessadas mais de 56 mil vezes, o que daria uma média aproximada de 74 acessos / dia, estatística sempre ascendente considerando que, desde janeiro de 2012, o número de visitas diárias está na faixa de 85 -100 acessos.
Houve dias em que se ultrapassou 220 acessos e, em vários meses, superou a casa de 3.500. trilhando por outra estatística, chegamos à marca de 127 visitas por postagem.

Este fato merece registro, pois raros são os blogs que conseguem viver, ou sobreviver, com atualizações tão frequentes, muitas vezes diárias, por mais de um ano. Ainda mais quando possuem linha editorial tão definida, em torno de uma proposta tão específica, no caso a valorização e divulgação do patrimônio, da cultura e da memória de São João del-Rei, que este ano completa 300 anos de elevação à categoria de vila.A rigor, patrimônio, cultura e memória são a mesma coisa, nas por uma questão peculiar, neste veículo digital, apresentam-se tal qual a Santíssima Trindade: três pessoas em um só corpo e um só espírito. Entretanto, três pessoas distintas...

No entusiasmo de um ano novo e de uma nova aurora e na desejada - e já em curso - efervescência das comemorações dos 300 anos da Vila de São João del-Rei, Tencões & terentenas completa seu segundo aniversário. Mira com humildade, mas também com satisfação, o trabalho já realizado. Orgulha-se dos resultados. Agradece a todos, principalmente a São João del-Rei e a seus célebres e anônimos baluartes, operários, sonhadores, construtores, realizadores, sonhadores - todos, enfim, que com seu espírito e sua humanidade tornam tão singular esta nossa "terra tão querida e formosa. Salve Terra de São João del-Rei!"

Cumprindo o hino que seu ouve ao clicar no brasão abaixo, sejamos nós, sempre, "felizes e gloriosos, sentinelas da crença e da lei."