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Parodiando Carlos Drummond, São João del-Rei é apenas um retrato na parede?

Há décadas atrás era comum em São João del-Rei pensar que o moderno era inimigo do antigo. Que as novidades tinham vindo e se alastravam para apagar todas as marcas do passado. Mesmo falso, este pensamento refletia uma visão simplista da evolução da história local, no caso específico da arquitetura são-joanense, que das casas de pau-a-pique, cobertas com capim, do Arraial Velho de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, até os sobradões imperiais e os edifícios art noveau, não foram poucas as vezes em que a mais nova custava o sacrifício da mais velha. Se por um lado isto deu à cidade uma face bastante heterogênea e diversificada na paisagem de sua arquitetura, por outro é como se fosse uma história contada em capítulos, cada um falando de seu tempo, por meio de fachadas, sacadas, volumes, ferragens, estuques, cancelas e aldabras. Pena que cada novo capítulo era escrito apagando partes dos capítulos anteriores

Hoje sabe-se que o moderno pode, deve e quase sempre é amigo do antigo. Que o carrasco do antigo, antes de ser o estilo arquitetônico que lhe substitui ou sobrepõe, é a mentalidade antiga que, para a perda do patrimônio nacional, ainda existe, resiste e persiste, em São João del-Rei e em quase toda parte onde existem riquezas culturais legadas pelo tempo passado.

Em toda terra que é rica de patrimônio cultural, notadamente o arquitetônico, onde a educação patrimonial é débil, onde o poder econômico descomprometido, sedioso e ignorante, desconhece, desvaloriza e destrói a riqueza do passado e o Estado é desinteressado e frouxo no seu papel de garantir a preservação e a perpetuação de todas as formas de patrimônio material e imaterial que constituem a história do lugar.

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

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