terça-feira, 31 de maio de 2011

São João del-Rei em festa: salve o Divino Espírito Santo!


São João del-Rei está sempre em festa. Graças a Deus! Foguetórios, alvoradas festivas, cortejos, toques de sino, procissões, orquestras, gente na rua, música, movimento...Se foi sempre assim, Tomé Portes Del-Rei, quando aqui chegou, em 1703, para fundar a cidade, deve ter sido saudado por uma banda de música e a primeira coisa que fez não pode ter sido outra coisa senão, de braço para o alto, soltar uma caixa de foguetes. Só depois disso, então, é que começou a catar ouro e a cobrar pedágio pela travessia de pessoas e cargas no caudaloso Rio das Mortes...

Agora falando sério, depois da amanhã, dia 2 de junho, São João del-Rei mais uma vez dá início a uma festa grandiosa: o Jubileu do Divino Espírito Santo.

As celebrações em honra à terceira pessoa da SantíssimaTrindade aqui são muito antigas. Começaram em 1774, no arraial de Matozinhos, da então Vila de São João del-Rei, e nove anos depois, em 1783, por sua importância para a Colônia - e talvez para todo o Reino Português -, foram elevadas pelo Papa Pio VI, à grandeza de Jubileu. Eram tão grandiosas quanto populares e, crescendo sempre, misturaram demais o sacro com o profano,  devoção com diversão. Assim, acabaram desagradando às elites e ao bispo de Mariana, que as inibiu em1924.Desativadas durante mais de 70 anos, quase desapareceram. Graças a Deus a Igreja e a sociedade evoluíram, possibilitando que, em 1998, a comunidade são-joanense, liderada por um grupo de folcloristas locais,  reconquistasse o direito resgatar esta tradição, recuperando inclusive sua "parte profana".

O que é, atualmente, a parte profana? Imagine: grupos de folia do Divino, ternos de congada, pastorinhas, manifestações de cultura afro-brasileira, cavalgada, cortejo imperial e coroação dos imperadores do Divino Espírito Santo, hasteamento / descida de mastros e shows populares. Nada que desaponte, macule, constranja, condene  ou envergonhe a Santa Madre Igreja.

Diferentemente das demais tradições religiosas bicentenárias de São João del-Rei, o Jubileu do Divino Espírito Santo não acontece no centro históricomas no bairro de Matosinhos, para muitos considerado o berço da cidade, por ser o local onde se fixou o fundador Tomé Portes del-Rei. Matosinhos fica nas proximidades do local onde, há mais de trezentos anos, aconteceu a sangrenta Guerra dos Emboabas.

Também é particularidade do Jubileu misturar o comando oficial da Igreja com a decisiva participação popular; a cultura clássico-barroca, representada pela Orquestra Lira São Joanense, com as manifestações telúricas das folias e dos ternos de congada. Nas várias atividades da festa, passado e contemporâneo se unem, culminando com uma procissão solene e luminosa, seguida de bênção do Santíssimo Sagramento e descida dos mastros, para dar lugar a um show popular, às vezes de violeiros e de música de raiz, às vezes de sertanejos urbanos. Milagres culturais do Espírito Santo...

Como em Sâo João del-Rei tudo é profundo, intenso e prolongado, para não fugir à regra, o Jubileu do Divino Espírito Santo dura dez dias. Este ano, terminará no dia 12 de junho.

Veja, no vídeo abaixo, os sineiros "catando o sino" e iniciando tencões, terentenas e floreados, na moderna igreja de Matozinhos, durante o Jubileu do Divino em 2010. A igreja antiga, construída no século XVIII, foi deliberadamente demolida, com consentimento de todos os responsáveis pelo bem e por sua preservação, há menos de quarenta anos. Dela, quase tudo foi vendido. O que não foi, publicamente desapareceu.

Restou no local apenas a fé do povo e a imagem do santo protetor, Senhor Bom Jesus de Matosinhos. A tomar pelo Jubileu, ele tem cumprido bem o papel que lhe deixaram, pois não desaponta os cidadãos são-joanenses, devotos ou não, nem desampara o Espírito Santo...

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+   Serviço   +
Conheça a programação da festa acessando
http://www.diocesedesaojoaodelrei.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1286:jubileu-do-divino-espirito-santo-sjdr&catid=23:eventos&Itemid=131

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mineirice, mineirismo e mineiridade - A sabedoria de Minas em São João del-Rei (2)

Bebamos mais uma dose branquinha da santíssima trindade mineirice, mineirismo e mineiridade, engarrafada por frei Beto. Mas antes que ela suba à cabeça (em São João del-Rei, cachaça do quilombo cada gole é um tombo), convém perguntar: Ser mineiro é uma sina?

Mineiramente falando, a resposta não precisa ser nem sim nem não. Nem muito pelo contrário. Pelo menos do jeito que, pejorativamente se propaga. A sabedoria de Minas é ter consciência de que muitas vezes pensamentos folclóricos, frases de efeito e ditados populares transmitem e reforçam  idéias menores, impõem padrões e valores superados, difundem e constroem preconceitos, ditam normas questionáveis e moldam comportamentos ultrapassados. Quando isso acontece, são um atraso de vida, contrariando a evolução humanística e dificultando aperfeiçoamentos de toda ordem. 

Mineirice, mineirismo e mineiridade, acima de tudo, têm em si este saber. Sua astúcia é, essencialmente, a sabedoria de Minas. E mineiro de verdade sabe disso, mas não conta pra ninguém. Nem pra si mesmo... Será isso verdade e - se é - é bom que seja, e precisa ser, assim?

Vamos lá, mais um gole desta fonte...
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Ser mineiro (2a Parte)
Mineiro fala  de desgraça, doença e morte, e vive como quem se julga eterno. Chega à estação antes de colocarem os trilhos, para não perder o trem. Relógio de mineiro é enfeite. Pontual para chegar, o mineiro nunca tem hora para sair. A diferença entre o suiço e o mineiro é que o suiço chega na hora. O mineiro chega antes.

O bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé-de-vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, não estica conversa com estranhos, só acredita em fumaça quando vê fogo, pede no açougue lombinho francês, só arrisca quando tem certeza e não troca um pássaro na mão por dois voando.

Mineiro fala de política como se só ele entendesse do assunto; finge que acredita nas autoridades e conspira contra o governo; faz oposição sem granjear inimigos; gera filho para  virar compadre de político; foge da luz do sol por desconfiar da própria sombra; vive entre montanhas e sonha com o mar; viaja mundo para comer, do outro lado do planeta, tutu de feijão com couve picada.

Ser mineiro é venerar o passado como relíquia e falar do futuro como utopia; curtir saudades na aguardente e paixão em serenatas; dormir com um olho fechado e outro aberto; acender vela à Santa e, por via das dúvidas, não conjurar o Diabo.

Ser mineiro é fazer a pergunta já sabendo a resposta. É ter orgulho de ser humilde. É bancar a raposa e ainda insistir em tomar conta do ganhinheiro.

Mineiro fica em cima do muro, não por imparcialidade, mas para poder ver melhor os dois lados. Cabeça-dura, o mineiro tem o coração mole. Acredita mais no fascínio da simpatia  do que no poder das ideias.

(Continua outro dia, mais adiante...)  
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Enquanto esse dia não chega, leia mais sobre Mineirismo, Mineirice e Mineiridade acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade.html  

Festival Inverno Cultural aquecerá com arte o frio de São João del-Rei

Julho é um dos meses mais frios em São João del-Rei mas nesta época, a temperatura cultural esquenta nas duas semanas em que acontece o Inverno Cultural. Em 2011, começará no dia 16 e termina em 30 de julho.

Os Sentidos do Corpo será o tema central de todas as atividades: oficinas, shows, exposições, instalações, performances, teatro, concertos, espetáculos de rua e tudo o mais que você imaginar. No amanhecer entre nuvens, orvalhadas de sereno; ao meio dia com céu de todo azul e sol alto; quando o sol cai vermelho atrás da Serra do Lenheiro e até madrugada adentro - a lua acompanhando tudo ao girar em compasso na noite estrelada -, o tempo todo, em toda parte, a cidade será luz, cor, som, forma, movimento, palavra, gesto, música, sabor.

Há grandes promessas, em todas as áreas. Na música, por exemplo, desde já se destacam duas: Elza Soares e Jacques MorelenbaumPara antecipar um pouco do que vem por aí, basta clicar abaixo e ouvir o casal Morelenbaum em O Boto, de Tom Jobim.



Leia mais sobre o Inverno Cultural em
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/07/sao-joao-del-rei-o-melhor-da-festa-nao.html
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/elza-soares-contemporanetnia-brasileira.html
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/festival-inverno-cultural-concertara.html
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Fonte: http://www.invernocultural.ufsj.edu.br/

domingo, 29 de maio de 2011

Mineirice, mineirismo e mineiridade desde sempre vivem em São João del-Rei (1)

Você sabe qual a diferença entre mineirice, mineirismo e mineiridade? Pois é diferenças existem, mas isso é assunto para os estudiosos, já que os cidadãos comuns da Terras Alterosas não só sabem quanto praticam, no viver de todo dia, o que é cada coisa. Porém "não dizem nem a si mesmos, este irrevelável segredo chamado Minas"*.

São João del-Rei, fundada cerca de 1703, foi uma das primeiras vilas de Minas Gerais, elevada a esta categoria em 1713. Foi também sede da Comarca do Rio das Mortes - uma das três áreas geográficas e administrativas em que se dividia o Estado no século XVIII. Cenario, em 1709, da Guerra dos Emboabas, São João del-Rei foi também berço da Inconfidência Mineira, terra natal de Tiradentes e Bárbara Heliodora. Nos séculos XIX e XX continuou destacando-se na história do país e, hoje, é reconhecida nacionalmente não só por seu  patrimônio histórico-cultural mas também por sua cultura viva, representada pelas orquestras, irmandades, ternos de congada, grupos folia de reis, pastorinhas, ranchos carnavalescos e pessoas que mais são "entidades culturais". O que é isso tudo senão a santíssima trindade Mineirice, Mineirismo e Mineiridade?

Frei Beto, no texto Ser Mineiro, mostra, por meio de ditados populares, pensamentos, frases de caminhão, conjecturas, piadas, citações poéticas e literárias, o que é, em que se baseia e como se perpetua o espírito de quem tem a alma de Minas Gerais. É um texto longo que Tencões & terentenas, como bom almanaque mineiro, apresentará aos poucos, em partes, comendo quieto, devagar, pelas beiradas... Então, comecemos!

Ser Mineiro (1ª parte)
"Como todo mineiro é um pouco filósofo, há um mistério sobre o qual venho há anos especulado: o que é ser mineiro?Das reflexões e inflexões que extraí sobre a mineirice, muitas delas colhidas em filosóficas inscrições de rótulos de cachaça e quinquilharias de beira de estrada, eis as conclusões prévias e provisórias, sujeitas a chuvas e trovoadas a que cheguei.

Ser mineiro é dormir no chão para não cair da cama; usar sapatos de borracha para não dar esmola a cegos; sorrir sem mostrar os dentes; tomar café ralo para guardar  dinheiro grosso. É desconfiar até dos próprios pensamentos e não dar adeus para evitar abrir a mão. Mineiro pede emprestado para disfarçar a fartura. Se é rico, compra carro do ano e manda por meia sola em sapato velho. Mineiro vive pobre para morrer rico. Mineiro não é contra nem a favor, antes pelo contrário.

(Continua futuramente. Enquanto isso, clique & ouça...)


Leia mais sobre Mineirismo, Mineirice e Mineiridade acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade_30.html

sábado, 28 de maio de 2011

Lembranças de maio em São João del-Rei

Uma das lembranças mais belas, ricas e fortes de São João del-Rei no mês de maio era o Mês de Maria. Durante trinta dias, principalmente aos domingos, nas igrejas suntuosas ou nas humildes capelinhas, depois da missa vespertina ou noturna, crianças vestidas de anjos e de virgem subiam ao altar, cantavam canções ternas em louvor à Nossa Senhora, coroavam a imagem e lhe jogavam pétalas de flor. Entre nuvens de incenso, parecia uma chuva perfumada e afetuosa, orvalho de poesia, inocência e cor. Os sinos tocavam alegres e os são-joanenses voltavam felizes para casa, confortados por terem presenciado um momento celestial, por terem vivenciado um instante divino. Prontos para uma boa e nova semana.

Hoje, quando acontecem, as coroações são mais raras. Há poucos anjos no mundo. O Céu não desce à Terra tão facilmente. Está mais distante.

Mas pode ser diferente. Numa cidade tão rica culturalmente e tão fervorosa como São João del-Rei, resgatar, nos meses de maio, as coroações dominicais de Nossa Senhora nas igrejas do centro histórico seria recuperar uma tradição de efeitos múltiplos sobre a vida e a identidade são-joanense. Isto não é difícil, São João del-Rei tem gente de fibra, devoção, coragem, dedicação e competência para isso.

Dona Júlia Lacerda, por exemplo, da Ponte das Águas Férreas, certamente não se negaria a cumprir com louvor mais esta missão. Inspirada em lembranças de sua infância e impulsionada pela solidariedade humana, com a cumplicidade e ajuda do marido, Geraldo Eloy, há trinta anos criou e põe às ruas, na ocasião do Natal e no Jubileu do Divino Espírito Santo, as Pastorinhas do Menino Jesus. Quem, melhor do que ela, pode ser o anjo determinado a buscar na memória afetiva a luz e a energia necessárias para recuperar tão importante tradição religiosa e cultural?

Fica a ideia lançada. Trabalhemos por ela. Quem sabe, no próximo ano, em maio, muitos são-joanenses já possam ter essa saudável alternativa para os pânicos e videocassetadas dominicais?

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Ilustração:Arredores da igreja do Carmo de São João del-Rei (foto do autor)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ide a São João del-Rei!, pede Oswald de Andrade


Na busca de melhor conhecer a riqueza cultural brasileira para, a partir de então, traçar rumos que ajudassem a encontrar, fortalecer e expandir a identidade nacional, um grupo de artistas e intelectuais,  confabulando o Movimento Modernista de 1922, visitaram as cidades históricas de Minas Gerais. Se encantaram com o que lá viram.

Oswald de Andrade, por exemplo, fascinado pela São João del-Rei de 1920, fez a todos - juntamente com uma descrição minimalista da paisagem são-joanense - o seguinte, breve e irrecusável, apelo:

               Convite
 
               São João del Rey
               A fachada do Carmo
               A igreja branca de São Francisco
               Os morros
               O córrego do Lenheiro


                Ide a São João del Rey
                De trem
                Como os paulistas foram
                A pé de ferro

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Fonte: http://www.redutoliterario.hpg.ig.com.br/poesia/osvaldandrade.htm

 Ilustração: São João del-Rei, rumo à igreja do Carmo (foto do autor)

terça-feira, 24 de maio de 2011

São João del-Rei não perde o trem. Nem o prazo?

Há exatamente dois anos, a imprensa mineira noticiou que o Ministério Público Federal e o Instituto de Patrimônio Histório e Artistico Nacional - zelando pela qualidade e integridade do patrimônio arquitetônico-urbanístico de São João del-Rei - julgaram as guaritas de ônibus situadas em frente à Estação Ferroviária e ao Chafariz da Legalidade incompatíveis com aqueles importantes bens  patrimoniais.

Por isso, os dois órgãos federais determinaram que as mesmas fossem demolidas para reconstrução de outras, pela Prefeitura Municipal, em estilo mais adequado, que não agredissem os dois monumentos nem descaracterizassem  suas paisagens.

Segundo matéria publicada no portal UAI, e também divulgada no site do Ministério Público, MPF e IPHAN fixaram até o prazo em que a determinação deveria ser cumprida: 150 dias.

Já se passaram 150, 300, 450, 600 dias. Em breve completaremos 750 dias, ou seja, cinco vezes o prazo determinado. Mas as guaritas continuam firmes e inabaláveis. Mais fortes do que o destino para elas traçado ...
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Leia mais sobre o assunto nos links

Ministério Público - http://www.prmg.mpf.gov.br/imprensa/noticias/patrimonio-cultural/prefeitura-de-sao-joao-del-rei-compromete-se-a-substituir-guaritas-de-pontos-de-onibus-no-entorno-de-bens-tombados

Imprensa - http://wwo.uai.com.br/UAI/html/sessao_2/2009/05/20/em_noticia_interna,id_sessao=2&id_noticia=111249/em_noticia_interna.shtml

Um ramo de saudade para Bárbara Heliodora

 

24 de maio de 1819. Morria, nesta data, a poetisa inconfidente Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, nascida em São João del-Rei em 1758. Inspirada em seu enterro, Cecília Meireles, no clássico Romanceiro da Inconfidência, assim escreveu: 

ROMANCE LXXX OU DO ENTERRO DE BÁRBARA HELIODORA

Nove padres vão rezando - e com que tristeza rezam! -
atrás de um pequeno vulto, mirrado corpo, que levam pela nave,
além das grades, e ao pé do altar-mor enterram.

Dona Bárbara Eliodora, tão altiva e tão cantada,
que foi Bueno e foi Silveira, dama de tão alta casta
que em toda a terra das Minas a ninguém se comparara,
lá vai para a fria campa, já sem nome, voz nem peso,
entre palavras latinas, velas brancas, panos negros, 
lá vai para as longas praias do sobre-humano degredo.

Nove padres vão rezando... (Dizei-me se ainda é preciso!...
Fundos calabouços frios devoraram-lhe o marido.
Quatro punhais teve n'alma, na sorte de cada filho.
E, conforme a cor da lua, viram-na, exaltada e brava
falar às paredes mudas da casa desesperada,
invocar Reis e Rainhas, clamar às pedras de Ambaca.)

Ela era a Estrela do Norte, ela era Bárbara, a bela...
(Secava-lhe a tosse o peito, queimava-lhe a febre a testa.)
Agora, deitam-na, exausta, num simples colchão de terra.

Nove padres vão rezando sobre o seu pálido corpo.
E os vultos já se retiram, e a pedra cobre-lhe o sono,
e os missais já estão fechados e as velas secam seu choro.

Dona Bárbara Eliodora toma vida noutros mundos.
Grita a amigos e parentes, quer saber de seus defuntos:
ronda igrejas e presídios, fala aos santos mais obscuros.

Transparente de água e lua, velha poeira em sonho de asa,
Dona Bárbara Eliodora move seu débil fantasma
entre o túmulo e a memória: mariposa na vidraça.

Nove padres já rezaram. Já vão longe, os nove padres.
Uma porta vai rodando, vão rodando grossas chaves.
Fica o silêncio pensando, nessa pedra, além das grades.


Trilha sonora para Bárbara Heliodora


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Ilustração: Detalhe da imagem de Nossa Senhora da Piedade do Museu de Arte Sacra de São João del-Rei (reprodução de folder antigo)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Vanguarda e pioneirismo na valorização do folclore brasileiro sacudiram São João del-Rei oitocentista


Nem ainda começara o século XX e, em São João del-Rei, uma professora já se dedicava, pioneiramente, a estudar, documentar e valorizar a cultura popular brasileira, especialmente o folclore infantil. Era a são-joanense Alexina de Magalhães Pinto, por muitos considerada a primeira folclorista de nosso país.

Nascida na segunda metade do século XIX (1870), seu trabalho foi tão inovador que tornou-se conhecida como "a mineira ruidosa" e não era sem motivo. Consta que, sempre no primeiro dia de aula do ano letivo, rasgava diante dos alunos as cartilhas tradicionais, tipo b, a, ba, para mostrar que era contrária ao método de leitura por associação de palavras e propunha um método de aprendizagem global. Foi quem usou pela primeira vez as cantigas, lendas, brincadeiras, jogos e outros elementos do folclore com fins educacionais, transformando-os em livros infantis e outros instrumentos pedagógicos.

Produções acadêmicas sobre sua obra dizem que ela foi a primeira professora a substituir a palmatória pelas cantigas de roda e os castigos por exercícios de memória e dicção. Fale depressa sem gaguejar: o bispo de Constantinopla é um bom constantinopolitanizador. Era com jogos assim que "punia" os alunos teimosos e endiabrados.

Alexina Pinto estava à frente de tudo. Até de São João del-Rei, que à época não conseguia dimensionar nem a grandiosidade de suas propostas educacionais nem seu modo ousado de viver. Com isso, sua relação com a sociedade são-joanense tornou-se conflituosa. Após - aos vinte anos - fugir para a Europa, voltou um anos depois, desfilando pelas ruas e praças montada em um desconhecido e estranho artefato de duas rodas, que chamava a atenção de todos. Assim, foi a primeira mulher a andar de bicicleta na São João del-Rei de 1890. A hostilidade da sociedade conservadora e provinciana contra a educadora cosmopolita cresceu tanto que Alexina chegou a ser apelativamente agredida na rua, de modo primitivo, com ovos e tomates. Todos contra ela, que só não foi excomungada porque seus parentes intercederam junto ao bispo de Mariana.

Tão grande quanto o rebuliço que causou Alexina Pinto no raiar do século XX foram a inovação que ela prenunciou e o legado de suas ideias. Ainda no século XIX teve quatro livros sobre folclore ("As nossas histórias", "Os nossos brinquedos", "As cantigas de criança e do povo" e "Danças populares e provérbios usuais")  publicados na França e em Portugal. Mas só setenta anos depois é que se viu brotar o reconhecimento de seu pioneirismo no campo da Pedagogia, assim como suas propostas serem redescobertas, valorizadas e resgatadas por autores e educadores modernos.

Alexina Pinto morreu no dia que completava 51 anos - 18 de fevereiro - acidentalmente, arrastada por uma locomotiva, no Rio de Janeiro, há 90 anos. Não fosse isso, certamente teria se juntado aos intelectuais e artistas que, no ano seguinte à sua morte, fundaram o Movimento Modernista e promoveram a Semana de Arte Moderna de 1922.

Inegavelmente, ficou uma dívida de São João del-Rei para com ela, já que a única homenagem que recebeu na cidade foi, desde 1924, tornar-se nome de rua. Contudo, não fica bem uma cidade culturalmente tão avançada e progressista cultivar esta injustiça. Por isso, não será hora e oportunidade de São João del-Rei se retratar, prestando à sua memória um tributo dinâmico e transformador? Por exemplo, criando o Festival Anual de Folclore e Arte-Educação Alexina Pinto? Fica a ideia ...

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Fonte: www.teses.usp.br/teses/.../8/.../FLAVIA_GUIA_CARNEVALI.pdf
Ilustração:Reprodução do quadro Inconfidência Mineira, de Clóvis Graciano. 1973. Museu da Caixa Econômica Federal - Brasília

domingo, 22 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011

São João del-Rei, 1938: a número 1, tombada no Livro de Belas Artes do SPHAN.


Menos de cem anos. Mais precisamente, 87. Pensando bem, não faz muito tempo que o Brasil começou a valorizar seu patrimônio histórico-cultural. Consta que em 1924, por influência e iniciativa dos intelectuais, escritores e artistas do Movimento Modernista, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Olívia Guedes Penteado e Blaise Cendars fizeram uma viagem percorrendo e observando as principais cidades históricas de Minas Gerais. Foi aí que tudo começou...

Na sequência, José Mariano Filho, à frente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, convocou arquitetos e alunos para inventariar detalhadamente o acervo arquitetônico histórico brasileiro, visando produzir albuns a serem usados na divulgação do patrimônio nacional. Àquela época, neste propósito, a riqueza da paisagem arquitetônica e paisagística de São João del-Rei foi documentada por Nereu Sampaio. Muito se revelou...

O cenário encontrado na cidade por Nereu Sampaio era tão fantástico que  foi o primeiro bem tombado no livro de Belas Artes do SPHAN - Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no dia 3 de março de 1938. Antes mesmo do fabuloso conjunto formado pela igreja e convento de São Francisco de Assis da capital baiana, Salvador.

Nestes 73 anos, o mundo muito evoluiu. O Brasil urbanizou-se ainda mais. Mudaram-se as  relações econômicas, sociais, humanas e culturais. Renovaram-se os conceitos de espaço público, urbano, e do espaço privado, da propriedade particular e moradia, de conforto e habitação. Novas necessidades surgiram, o trânsito automobilístico intensificou-se, houve crescimento populacional, agravou-se o problema da infra-estrutura.

Sem dúvida, tudo isso há de ser considerado quando se avalia descaracterizações que, especialmente nas últimas cinco décadas, interferiram na paisagem bissecular de muitas cidades históricas. Sem perder de vista as relações conflituosas, as visões restritas e os interesses mutuamente imediatistas que muitas vezes são comuns a todas as partes envolvidas, geralmente opostas em dois lados: de um, o poder público. De outro, a sociedade civil. Perdem as comunidades. Perdem a cultura e a memória nacional.
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Foto: cruzeiro do Largo da Cruz (detalhe) - uma das raras  iconografias de parede da paixão de Cristo (séculos XVIII / XIX) existentes em Minas Gerais ( foto do autor)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

São João del-Rei. Segundo o Vaticano, uma das cidades mais tradicionais do mundo católico

A Semana Santa já dobrou a esquina. Agora, só no ano que vem... Como disse um poeta, penso que Adélia Prado,

"uma cor tão roxa desmaia.
Uma dor tão grande não há.
Só quaresmal ninguém suporta ser."

Mas a precisão cirúrgica - e ao mesmo tempo tão poética, quase lírica - com que as celebrações da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo em São João del-Rei são descritas e narradas neste vídeo, colhido do Youtube, torna-o atemporal, oportuno de ser visto em qualquer tempo. Então...



Veja, abaixo, parte da descrição do vídeo:

Minas Gerais é nacionalmente conhecida pela beleza de seus ritos litúrgicos, que são realizados com minúcias memoráveis. São João del-Rei é uma das cidades mais antigas do estado e segue os rituais com pompas e iconografias únicas, sendo até reconhecida pelo Vaticano como uma das cidades mais tradicionais do mundo católico. A Jovem Pan Online foi até a cidade e acompanhou a cerimônia e, agora, mostra para você as curiosidades das cerimônias pascais mineiras. Confira os detalhes com Marilu Torres.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sabedoria de São João del-Rei na poesia de Bárbara Heliodora


Às vésperas de se completar, no dia 24 de maio, o 192º ano da morte de Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, heroína inconfidente, filha de São João del-Rei, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas reverencia sua memória divulgando aqui, para a geração atual, um dos poemas que, no século XVIII, ela escreveu para seus quatro filhos.

Na obra - que tem  valor ainda maior considerando ter sido escrita numa época em que, no Brasil Colônia, poucas mulheres eram letradas - Bárbara Heliodora transmite valores humanos de grande sabedoria, ensina virtudes e recomenda atitudes prudentes e sensatas.

Aprendamos com ela e repassemos para os mais jovens!

Conselhos a meus filhos

Meninos, eu vou ditar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sábios é o pensar.

Neste tormentoso mar
De ondas de contradições,
Ninguém soletre feições,
Que sempre se há de enganar;
De caras a corações
Há muitas léguas que andar.

Aplicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Há bichinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.

Quem quer males evitar
Evite-lhe a ocasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguém os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudência ferrar.

Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas e as intrigas
Servem de precipitar.

Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não há modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.

Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.

Se vos mandarem chamar
Para ver uma função,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.

Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Prontos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Tais as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.

Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E pode quem conta os contos,
Mil pontos acrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.

Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mas temer por muito amar,
Santo temor de ofender
A quem se deve adorar!

Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Pode o resto adivinhar.

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Tencões & terentenas já publicou sobre Bárbara Heliodora http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/03/face-feminina-de-sao-joao-del-rei.html

Poema transcrito de  http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/brasil/barbara_heliodora.html

Ilustração: Casa de Bárbara Heliodora, em São João del-Rei.Sobradão do século XVIII onde nasceu e viveu a heroína inconfidente (foto do autor)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

IPHAN cortou asas do Red Bull em São João del-Rei mas cidade continua querendo voar


Em fins de abril, começo de maio, uma nova "Guerra dos Emboabas" quase aconteceu em São João del-Rei, repetindo um fato histórico ali ocorrido em 1708. Desta vez, de um lado está o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN e do outro um conjunto de instituições públicas e privadas, formado pela administração municipal, parlamentares estaduais e federais da região e várias entidades associativas e representativas culturais são-joanenses.

Motivo: "enérgico", o IPHAN - que tem um escritório regional na cidade - não permitiu que o "energético" Red Bull desse asas a São João del-Rei, impedindo a realização, no Largo São Francisco, de um evento esportivo de visibilidade internacional, que já teve como cenário até as pirâmides do Egito e o Coliseu, de Roma: o X Fighters Jam Session, transmitido para 130 países.

Como a negativa gerou muitos e indignados protestos, o superintendente do IPHAN em Minas Gerais, Leonardo Barreto, falando para o jornal Gazeta de São João del-Rei, justificou como causa para tão firme negativa o não recebimento, com razoável antecedência, de  documentos garantindo que a realização do evento não punha em risco a segurança e a preservação do Largo São Francisco. Alegou, também, aspecto simbólico, de natureza religiosa. Católica, naturalmente.

Este último argumento, inclusive, pode ser melhor compreendido pelo que disse o chefe do Escritório local do IPHAN, Marco Antonio Ferrari Felisberto. Pela análise do que foi divulgado no jornal são-joanense Folha das Vertentes, Marco Antonio evidenciou que dois personagens de peso muito provavelmente influenciaram na decisão do órgão governamental, ao dizer: "O IPHAN de Minas Gerais, o bispo e a Paróquia da Igreja de São Francisco foram contra o evento."

Do confronto para o consenso, os principais envolvidos (agora não mais incluídos o bispo e a Paróquia) no dia 9 de maio reuniram-se em Belo Horizonte para, com base em decisões do IPHAN e perdas decorrentes, buscarem saída para conflitos semelhantes que há tempos se arrastam, prejudicando o desenvolvimento cultural da cidade. Para isso, criou-se um grupo de trabalho. Certamente, tentando se retratar, em breve, o órgão federal fará algumas concessões e todos se darão por satisfeitos. Amistosamente, não se falará mais nisso...

Contudo, este fato pode trazer mais ganhos do que desaforos, ressentimentos e eventuais prêmios de consolação. Entre eles, a compreensão de que o IPHAN e a comunidade são-joanense precisam ter visões mais convergentes e ações mais colaborativas e articuladas. Que erros, descasos, permissividades e negligências do passado relativas à proteção, conservação e preservação do patrimônio cultural de São João del-Rei não podem mais ser corrigidos nem agora reparados com posturas rígidas, anacrônicas em relação à flexibilidade responsável que o mundo atual requer.

E, mais: que na briga do mar com o rochedo, quem sofre sempre é o marisco, ou seja, se não houver união, compromisso e comprometimento de todos com a memória, a cultura e o patrimônio de São João del-Rei, os grandes prejudicados continuarão sendo a comunidade são-joanense e a memória nacional.

Veja, em nove links abaixo, a repercussão negativa  da decisão do IPHAN, em alguns registros do fato na imprensa local e regional e na internet. No último link, a flexibilidade e lucidez como foi tratada questão semelhante em relação a outro importante evento da região, que se repete anualmente. O entendimento e o pacto evitaram prejuízos. Pena que a habilidade e o espírito colaborativo não serviram como exemplo no caso de São João del-Rei.

Antes, divirta-se com o interessante anúncio Red Bull te dá asas...

Eis os links com várias matérias sobre o assunto:
http://www.readoz.com/publication/read?i=1037344#page6

http://www.hojeemdia.com.br/cmlink/hoje-em-dia/marcio-fagundes-1.11067/o-barroco-retrogrado-1.269540

http://www.corrosivofilmes.com/node/1190

 http://www.folhadasvertentes.com.br/default.asp?pagina=integra&cd_materias=4573

http://www.penobarro.com.br/noticia/ver/109

http://www.barrosoemdia.com.br/policia/item/253-s%C3%A3o-jo%C3%A3o-del-rei-deixa-de-sediar-evento-mundial

http://68.233.225.143/cmlink/hoje-em-dia/marcio-fagundes-1.11067/a-mentalidade-tacanha-1.272843

http://www.time2ride.com.br/

http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/projects/view/666

http://www.prmg.mpf.gov.br/imprensa/noticias/patrimonio-cultural/mpf-obtem-dos-organizadores-do-festival-gastronomico-de-tiradentes-mg-compromisso-de-protecao-do-patrimonio-cultural

terça-feira, 17 de maio de 2011

São João del-Rei tem livraria-biblioteca de bolso. Você sabia?


Quem desce apressado ou distraído o Largo Tamandaré, na direção do Museu Regional, caminhando pelo lado esquerdo, certamente não percebe que "no meio do caminho não tem uma pedra". Pouco antes do Beco da Romeira, que dá acesso ao Largo do Rosário, tem uma estação cultural interessante: a Livraria Libertas, que não deixa de ser quase uma preciosa pepita.

Discreta na apresentação externa, pequena no acervo, mas rica no conteúdo, bem pode ser considerada uma 'livraria de bolso'. Livros jurídicos, de literatura, fotografia e outras artes se dividem nas estantes; convidativamente ficam dispostos nas mesas de leitura, prontos para ser folheados. É que a despojada livraria pode ser usada também como breve biblioteca, já que alguns livros que não estão à venda podem ser ali consultados.

Da próxima vez que passar pelo Largo Tamandaré, se puder, entre na Livraria Libertas.Você vai conhecer mais uma surpresa cultural que São João del-Rei oferece e, com certeza, um bom papo com o casal proprietário sobre os livros expostos e muitos de seus autores.

Pena que ainda não tem CDs nem DVDs e também não seja Café Libertas. Faz falta, a cidade precisa. Seria tão bem-vindo!...
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Foto: telhados do Largo do Rosário, vistos do Largo Tamandaré, na década de 80. (foto do autor)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Humor e morte à moda São João del-Rei


Em todo o país, ninguém duvida da esperteza do mineiro. Quanto mais cara de bobo tiver, mais astuto, mais matreiro o ser. Até na hora da morte. Só que não conta vantagem, não fala pra ninguém. No caladinho, dá nó em pingo d'água, não dá ponto sem nó; vê fumaça onde ainda não há sinal de fogo e não dá passo nem coice maior do que as pernas. Afinal, ensinam que em Minas entender logo é muito tarde; que bom mesmo é antecipar. Esse espírito deu origem a muitas piadas, como a reproduzida abaixo, cuja moral bem pode ser: macaco velho não mete a mão na cumbuca!

Corre a lenda que certo são-joanense estava muito mal de saúde. Sua vida estava por um fio, já a arrebentar em poucas horas. Definitivamente desenganado pelos médicos. Esgotadas todas as esperanças de dar socorro ao corpo, a única saída então era tentar salvar a alma. Para isso a família chamou um padre, para a extrema unção.

Piedoso e solidário, o sacerdote não negou o pedido. Como a morte não espera, adiantou-se o quanto pode e foi logo ao encontro do moribundo. Chegando lá, pediu a reserva e a privacidade que momento tão grave requeria, esvaziando o quarto para que o quase-morto ficasse à vontade na despedida deste mundo. Fez as orações adequadas e, em seguida, falou baixo, mas com firmeza:
- Agora, confirme sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e renegue a Satanás!

O doente mexeu os olhos e, nada!

O padre insistiu:
- Irmão, não vacile. Coragem neste momento decisivo, do qual ninguém foge. Reafirme sua fé em Deus,  Nosso Senhor Jesus Cristo, e renegue a Satanás!

De novo, nada. Aí o padre perguntou:
- Homem, você está me ouvindo? Por que não faz o que te peço?...

Com esforço, o doente balbuciou:
- Padre, como não sei pra onde vou, é melhor não ficar mal com ninguém!...

domingo, 15 de maio de 2011

São João del-Rei, da música, dos sinos e dos queijos...

São João del-Rei sempre foi conhecida pela qualidade e pelo sabor de seus queijos. Puros como a alvorada nebulosa dos dias frios de inverno, fresquinhos como o orvalho, branquinhos, imaculados e únidos como a neblina das montanhas alterosas.Tanto que, carinhosamente, durante muitas décadas, a cidade ficou conhecida em todo o país como São João dos Queijos.

Nos anos sessenta e setenta, produto são-joanense conhecido nacionalmente era o pão de queijo do Lelé. Não havia quem, tendo passado por São João del-Rei e conhecido a delícia de polvilho e queijo, esquecesse seu cheiro, sua consistência e seu sabor.

Não tem jeito,  queiramos ou não o tempo passa. Mas, felizmente, algumas referências não. São João del-Rei continua sendo São João dos Queijos. Que o diga quem conhece o Rei dos Queijos, que funciona no Mercado Municipal. Queijo Minas fresquinho, catiara, provolone, gorgonzola, mussarela de trança, de bolinha e cabacinha, parmesão, brie, do reino, goulda, goiabada cascão, pessegada, doce de figo, de abóbora, de marmelo, cajuzinho e tantas outras doçuras alterosas, cachacinha de primeira e um monte de coisa boa da terra, isso tudo lá tem.

Quem conhece sabe bem. Não é à toa que, nos feriados prolongados, o Rei do Queijo vive lotado de são-joanenses ausentes, se abastecendo para levar para onde hoje vivem tão raras delícias de São João del-Rei. Seguindo a sabedoria de que quem deixa para a última hora sempre sai com as mãos vazias, os são-joanenses, por vivência, podem até perder o trem, mas quase nunca perdem o  queijo...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de maio - Brasil reconheceu, em São João del-Rei, influência afro-brasileira no barroco mineiro

Não é sem motivo que se diz: a cultura afro-brasileira cada vez ganha mais espaço, é reconhecida e fortalecida em São João del-Rei. Transcendendo o aspecto cultura / folclore / espetáculo (sem dúvida também muito importante), a questão volta e meia é tratada com grande profundidade e abrangência nacional, por instituições respeitáveis. Até sob novos enfoques, como por exemplo reconhecendo a participação negra na autoria e construção da arte "clássica" mineira.

Exemplo disto foi a 22ª Assembleia Nacional do Instituto Mariama - associação que congrega bispos, padres e diáconos do Brasil - realizada na cidade há menos de um ano, mais precisamente no período de 26 a 30 de julho de 2010. Presidida pelo padre Guanair da Silva Santos, era propósito do evento, progressista e ousado: "... Trabalhar para que os padres sejam homens comprometidos com a transformação da realidade a partir do anúncio do Evangelho, que nos impulsiona a estar com os olhos abertos à situação atual da comunidade negra no Brasil."

A assembleia teve como tema central "A contribuição dos artistas negros na arte sacra do estado de Minas Gerais". Sobre ele, ao final dos trabalhos, que contaram com notável colaboração do historiador são-joanense Antonio Gaio Sobrinho, foi aprovada uma mensagem de grande valor, que destaca:

"Embora não seja fácil encontrar referências documentais sobre a contribuição dos negros na arte sacra, sabemos que trouxeram da África técnicas, habilidades, saberes e conhecimentos artísticos, que aqui foram utilizados e ressignificados. Muitos negros e mulatos se distinguiram como mestres em diferentes artes., entre eles Aleijadinho, Aniceto de Sousa Lopes, Venâncio do Espírito Santo, João da Mata, Ireno Batista Lopes, Luiz Batista Lopes, Manoel Dias de Oliveira e Padre José Maria Xavier. Isto nos leva a crer que, mesmo diante do ocultamento histórico, os artistas negros conseguiram imprimir seus traços no embelezamento e na riqueza cultural de nosso país.

Sobre isso, o papa João Paulo II assim escreveu aos artistas em 1999: "através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a história da arte não é apenas uma história de obras, mas também história de seres humanos. As obras de arte falam de seus autores, dão a conhecer seu íntimo e revelam a contribuição original que eles oferecem à história da cultura."

Situando a assembleia no contexto da realidade dos negros no Brasil, o documento lembra os compromissos sociais, políticos e humanos da Igreja Católica, ressaltando: "Diante de forças que negam vida plena aos negros e negras na sociedade, nós, ministros ordenados, na medida em que assumimos, com consciência, nossa negritude, explicitamos melhor a identidade de nossa Igreja, marcada, desde o seu nascimento, pela diversidade cultural, num discipulado de reparação, missionário e dialogante. (...) A Igreja precisará ajudar para que as feridas culturais injustamente sofridas na história dos afro-americanos, não absorvam nem paralisem, a partir do seu interior, o dinamismo de sua personalidade humana, de sua identidade étnica, de sua memória cultural, de seu desenvolvimento social nos novos cenários que se apresentam."

Ao apresentar a síntese de alguns aspectos da Mensagem da 22ª Assembléia Nacional do Instituto Mariama, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas marca a passagem deste 13 de maio como oportunidade de reflexão sobre a realidade do negro no Brasil, especialmente em São João del-Rei, lembrando a importância de que, continuamente, sejam realizadas abolições & ebulições.

Veja, nos vídeos abaixo, uma abordagem histórico-artística da obra de Aleijadinho, o grande mestre mulato que deu cor brasileira à arte do século XVIII. O filme tem direção do consagrado cineasta Joaquim Pedro de Andrade.

                


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*     Serviço     *
Conheça a íntegra da Mensagem da 22ª Assembleia Nacional do Instituto Mariama acessando http://www.geledes.org.br/escultura/acontribui%C3%A7%C3%A3odosartistasnegrosnaartesacra04/08/2010.html

quinta-feira, 12 de maio de 2011

13 de maio. Abolições & ebulições em São João del-Rei

Especialmente na última década, expressões da cultura negra cada vez ganham mais espaço e visibilidade em São João del-Rei, passando a fazer parte, inclusive, de programações comemorativas oficiais. Grupos de congada ressurgem; novos grupos de capoeira se criam, até maracatu às vezes se ouve na "terra da música". O tema negritude se faz presente em exposições de arte, seminários e debates. Isto é bom. Como consciência política, negritude está ganhando mais cor em São João del-Rei.

Festejando este avanço, ouça Baba Alapalá, que fala sobre o conhecimento e a busca da ancestralidade negra.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

13 de maio - São João del-Rei negro


Quem andar pelas ruas de São João del-Rei de olhos semicerrados - obscurecendo a visão para melhor observar a dinâmica social - terá a impressão que a cidade é de uma única cor. Que os são-joanenses são todos uma gente morena, feita de um barro só, exposto igualmente ao sol, pelo mesmo tempo, para queimar.

De olhos abertos, a realidade é outra: negros e mulatos, em notória maioria, reforçam a cor da paisagem humana. Com alegria esfuziante ou recatada timidez, com nobreza e fidalguia das antigas cortes africanas ou com a humildade de quem, desde a escravidão, foi explorado e teve tudo subtraído. Com  força mansa, atitudes delgadas e vozes sonoras mas com a emoção que remonta a crimes históricos.

Até para os são-joanenses, todos, às vezes parece que não há diferença. Que brancos, negros, mulatos e morenos somos todos iguais. Essa relativa igualdade é positiva, ainda mais que  foi impulsionada pela força flexibilizadora da arte na qual, desde os tempos do ouro, negros e mulatos se destacaram como notáveis músicos, artistas, artífices e artesãos. Hoje, origem étnica, por si só, não é obstáculo para se galgar qualquer posto, o que abre ainda mais os horizontes para os descendentes daqueles que, até a metade do século passado, certamente muita dificuldade tiveram para ascender social e economicamente.

Mas a ascensão não pode ser o "canto da sereia", assim como o sonho da  igualdade plena não deve levar à cegueira cultural, ao ressequimento das memórias ancestrais e ao aniquilamento da matriz teluricamentente africana, que são a fonte e a força da cultura negra, da qual provieram também os mulatos e os morenos.

Se os brancos, por sofisticado e perverso racismo, sutilmente, induzirem a isto, estão dilapidando uma face viva de toda a cultura universal. Se os negros, os mulatos e os morenos, por ingenuidade ou desmedida ambição, se submeterem a este genocídio cultural, sem dúvida estão regressando a um novo processo escravagista, subjugando-se à espoliação de um bem que pode não ser retornável nem renovável.

Nesta semana em que sexta-feira é 13 de maio, São João del-Rei, ouçamos Clementina de Jesus e pensemos nisto!