segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

São João del-Rei e a Folia de Reis a "Caminho da Salvação"


A passagem de folias de reis pelas ruas de São João del-Rei - do centro histórico às localidades mais periféricas - é tradição centenária, mas nos últimos anos andou perdendo força, pela falta de renovação em seus membros. É que a modernidade e a urbanização, com seus novos valores estéticos e apelos tecnológicos, aos mais jovens ainda parecem  opor a folia de reis tradicional ao status de progresso e evolução. Com isso, os grupos são-joanenses cada vez mais se tornaram menores e mais escassos, compostos em sua grande maioria por pessoas mais idosas.

Atentos a esta realidade, alguns intelectuais buscaram não só minimizar este enfraquecimento quanto valorizar a folia de reis, elevando a auto-estima de seus membros e das comunidades que as conservam, pensando na  revigoração desta importante expressão cultural popular do ciclo natalino. Foi assim que a Organização Não Governamental Atitude Cultural organizou e promoveu, durante mais de uma década, o Encontro das Folias de Reis e Pastorinhas de São João del-Rei, realizado sempre no fim-de-semana mais próximo do dia 6 de janeiro - Dia de Reis. Desde sua criação, 2015 será o primeiro ano que o Encontro não acontecerá.

Entretanto, já há alguns anos a cidade recebe dois interessantes grupos de folias de reis vindos da Zona da Mata mineira, que sem dúvida podem ser considerados uma versão contemporânea desta manifestação cultural. Em princípio, eles se diferem bastante das folias tradicionais, mas possuem a mesma função religiosa, utilizam a música como elemento evangelizador e emocionam a população do mesmo modo.

Contudo, não retratam a folia de outros tempos; são a folia na sua face mais atual. Formados por um grupo numeroso de jovens, com roupas coloridas e caracterização rica de adereços, mesmo com instrumentos "primitivos" (sanfonas, caixas, triângulos, reco-recos, cavaquinhos, violas) cantam em ritmo que mescla o rural, o country e o funk, músicas religiosas difundidas pela indústria de comunicação de massa, em geral cantadas pelo padre Marcelo Rossi.

Muito ricas em suas alegorias brilhantes, figuras fantasmagóricas compostas por chifres, aranhas, monstros e outros elementos míticos, iluminados a LED em simbólicas coreografias e acrobacias, sua passagem fala das trevas que cobriam a humanidade até que o nascimento de Jesus Cristo trouxesse luz ao mundo. Na noite tenebrosa de tantos figurantes em movimento, o estandarte santo corta ao meio a escuridão, como fez a Estrela Guia de Belém. Não é sem motivo que uma das folias se chama A Caminho da Salvação.

É impossível ignorar a passagem destas folias, a começar pelo grande número de seus membros, todos jovens, negros, de forte presença e vitalidade. Por onde transitam, eles ocupam, se apropriam e se assenhoream do espaço, convictos de sua importância e de sua missão evangelizadora, social e cultural. Isto lhes assegura visibilidade, respeito e reconhecimento.

Elas apontam um caminho para tradições que, por estarem se tornando frágeis, quase a perder sua função, encontrem novas formas, novas estéticas, novas linguagens e novas alternativas para manter sua finalidade cultural. Mostram que mesmo nas trevas é possível encontrar o Caminho da Salvação...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Barroco Natal de samba, sons e tons de São João del-Rei


Uma cidade de coração vivaz e multicor, que harmoniza os mais diversos tons e sons, para pulsar barrocos sentimentos tropicais de brasilidade. É assim São João del-Rei, e isto se vê de vários modos.

Às fachadas dos sobrados coloniais, nas demais cidades históricas tradionalmente pintadas de branco, com portas e janelas vermelhas, azuis, ocre e marrom, aqui se juntam outras, de cores suaves, porém vibrantes: azuis, rosas, cinzas, amarelas, verdes - com seus beirais e lambrequins. Pura alegria.

Mais do que em outras cidades nascidas no tempo do ouro, em São João del-Rei as sonoridades se harmonizam em compassos que ninguém imagina. Durante todo o dia 24 de dezembro, por exemplo, enquanto de tempos em tempos os sinos do Rosário repicavam o tencão de Natal, a poucos passos dali, no Largo do Carmo, uma  espontânea batucada, com muito samba,  celebrava a vida e a liberdade. Eram os herdeiros da noite, revivendo a conquista do dia.

Tudo sobre as galerias subterrâneas de onde se extraiu tanto ouro. Tudo sobre o chão de pedra escura, outrora manchado de sangue escravo. Tudo sob a sombra da grande caveira, há séculos suspensa no portão de ferro do cemitério e vigiada pelos ferozes capricórnios do chafariz , também de ferro.

Até  na portada do Carmo - uma das mais belas igrejas de Aleijadinho -, os querubins acenavam as asas e Nossa Senhora tentava conter no colo o Menino, a desvencilhar-se de seus braços para entregar àquela gente o escapulario da estrela.

Uma das faces do Natal em São João del-Rei é esta...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Vovô Gomide & as Catitas de São João del-Rei


Na galeria dos personagens típicose muito populares de São João del-Rei, um muito pitoresco, mas hoje praticamente esquecido, é Vovô Gomide.

Fins dos anos 50, começo dos anos 60, já relativamente idoso, o velho meio branco, baixinho, de cabelo e barba brancos, morava na esquina da Rua Coronel Tamarindo com a Rua Rodrigues de Melo, onde hoje existe a Praça Padre José Maria Fernandes, próximo à Rua do Barro e ao Pau D'Angá. Para as crianças, pela semelhança, era o ilustre Marquês de Tamandaré, que naquela época corria de mão em mão na nota de Cr$ 1 (um cruzeiro).

Sempre de paletó escuro e surrado, com sua voz mansa, rouca e baixa, se dizia nobre, descendente do Barão de Cocais, e aguardava a chegada de sua parte da lendária herança, que vinha não se sabe de onde, mas do século XIX.

O que fazia dele uma pessoa especial? Vovô Gomide catava no chão maços vazios de cigarro que os fumantes jogavam fora e desenhava a lápis, no verso da estampa e no papel branco, garatujas de corpo inteiro. Por motivos que ninguém sabe, todas eram mulheres de saia e perfil.

Diariamente sentado na Praça do Coreto, em frente ao Hotel Brasil, na porta da Estação ou nas esquinas perto de sua casa, presenteava as crianças com suas garatujas, que ele e todos chamavam de Catitas. Possivelmente hoje ninguém tem mais este registro de sua existência..

Algum são-joanense sexagenário ou maior desta idade, tendo recebido alguma Catita, se lembra do Vovô Gomide?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, mágico e iluminado em São João del-Rei


Na ocasião do Natal, mal começa o Advento, São João del-Rei fica envolta por uma aura mágica. Luzes coloridas e brilhantes realçam contornos de telhados, beirais e janelas coloniais, semeiam anjos e estrelas nos jardins, franjas luminosas enfeitam o coreto – romântico cenário para os corais e suas cantatas.

Na metade do mês começa, na igreja do Rosário, a Novena Barroca do Menino Jesus, composta no século XIX pelo são-joanense Padre José Maria Xavier. É um ofício alegre e delicado, só executado em São João del-Rei, pela Orquestra Lira Sanjoanense, considerada a mais antiga orquestra das Américas em atividade permanente desde a segunda metade do século XVIII. 


Pouca gente sabe, mas as mais importantes celebrações do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra onde os sinos falam são realizadas na igreja do Rosário, seguindo uma tradição colonial. Assim como a Ordem Terceira do Carmo incumbia-se de parte das celebrações da Paixão de Cristo, a Irmandade do Rosário é responsável pelas festividades do Natal. Ainda hoje elas compreendem a Novena, a Missa do Galo, o Te Deum Laudamus vespertino dia 25 e a procissão do Menino Jesus em seu trono, no dia 6 de janeiro.

Como em tudo o que acontece no universo religioso barroco de São João del-Rei, também nas celebrações do Natal, os sinos são um espetáculo à parte. Às 12h15 do dia 24, da torre esquerda da igreja do Rosário, ouve-se o Tencão do Natal, uma peça musical de aproximadamente 20 minutos dividida por vários movimentos, entre eles o tencão, a terentena e o floreado. Utilizando três sinos simultaneamente e executada por dois sineiros, em grande parte um sineiro toca dois sinos: o médio e o pequeno - um em cada mão, enquanto o outro maneja o sino grande, batizado Domingos de Gusmão. 
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Sobre o mesmo tema, leia também 
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/12/novena-barroca-de-natal-em-sao-joao-del.html

Foto: JPhotography (Facebook)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O modernista Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e a Semana Santa de São João del-Rei


Estamos em São João del-Rei, mais precisamente no Largo do Carmo, no ano de 1924. Pela sombra oblíqua projetada da esquerda para a direita, sabemos que devem ser, mais ou menos, 3 horas da tarde.

Um soldado, em primeiro plano, anda depressa, atravessando a praça, como a fugir da paisagem rumo ao Largo da Cruz. Dois meninos brincando, um homem de pé, encostado na monumental fachada, do lado oposto mais algumas crianças. Uma mulher, na janela, espia o dia  escorrer e a vida passar...

- Quem é aquele homem de terno preto e chapéu no centro da foto, de frente à portada?

- Ora, não é ninguém menos do que Oswald de Andrade!

Era abril, Semana Santa, e ele adentrava o interior de Minas para redescobrir o Brasil, na companhia da pintora Tarsila do Amaral e do poeta e intelectual francês Blaise Cendars.

Ficaram todos tão encantados com o que viram que, entre outros poemas, Oswald de Andrade, após descrever sumariamente nossa cidade por não encontrar para ela adjetivos, pediu aos brasileiros: Ide a São João del-Rei!

                             "São João del Rey
                               A fachada do Carmo
                               A igreja branca de São Francisco
                               Os morros
                               O Córrego do Lenheiro.

                                Ide a São João del Rey
                                De trem
                                Como os paulistas foram
                                A pé de ferro."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

301 anos de Vila. 310 anos de vida. "... Salve terra de São João del-Rei!"


301 anos de Vila, 310 anos de vida. É assim que São João del-Rei - 'a cidade mais barroca de Minas' - chega a este 8 de dezembro, sua data natal. Exultante como a setecentista e alegre procissão que no entardecer, ao som dos sinos e das marchas  festivas que a banda toca, caminha com Nossa Senhora da Conceição pelas ruas da cidade. Mas agora, voltemos no tempo...

O sol que anunciou em alvorada o amanhecer do dia 8 de dezembro de 1713 iluminou também uma nova era para o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Naquela data, o movimentado e próspero aglomerado urbano que desde 1703/1704 se formara à sombra da Serra e às margens do Córrego do Lenheiro, tendo - semelhante a Fênix - se recomposto do incêndio que assinalara o fim da sangrenta e cruel Guerra dos Emboabas, foi elevado à categoria de Vila. Seu nome, São João del-Rei, em homenagem a El-Rey Nosso Senhor Dom João V, o "Rei Sol" português.

Nascia ali, assim, a quarta vila do ouro das Minas Gerais, conforme o Auto de Levantamento da Vila de São João del'Rey, lavrado naquela data e reproduzido a seguir:

"Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil sete centos e treze annos, aos oito dias do mez de dezembro do dito anno neste Arraial do Rio das Mortes, onde veiu por ordem de Sua Majestade, que Deus Guarde, Dom Braz Balthazar da Silveira, Mestre de Campo General dos seus exércitos, Governador e Capitão Geral da Cidade de São Paulo, e Minas, para effeito de levantar Villa o dito Arraial; e logo em virtude da dita Ordem, que ao pé deste Auto vai registrada, o criou em Villa com todas as solenidades necessárias, levantando o Pelourinho no lugar, que escolheu para a dita Villa a contento, e com aprovação dos moradores della, a saber na xapada do morro que fica da outra parte do córrego para a parte da Nascente do dito Arraial, por ser o citio mais capaz e conveniente para se continuar a dita Villa, a qual elle dito Mestre de Campo General, e Governador e Capitão General appelidou com o nome São João del'Rey, e mandou , que com este título fosse de todo nomiado em memória de El Rey Nosso Senhor por ser a primeira Villa que nestas Minas elle dito Governador e Capitão General levanta assistindo a esta nova erécção o Dezembargador Gonçalo de Freitas Baracho, como Menistro do dito Senhor que se acha Ouvidor Geral desta dita Villa, como tão bem assistido toda a nobreza, e Povo della, e se levantou com effeito o dito Pelourinho, e ouve elle dito Governador e Capitão General por erecta a dita Villa, creando nela os Officiaes necessários, assim os Milicias, como de Justiça conducentes ao bom regimen della, e mandou se  procedesse a elleição dos pelouros para os Officiaes da Camara na forma da Ley, e de tudo mandou fazer este Auto que assignou com o dito Dezembargador, Ouvidor Geral, e eu Miguel Machado de Avelar Escrivão da Ouvidoria Geral que o escrevy - Dom Braz  Balthazar da Silveira - Gonçalo de Freitas Baracho."

Esta é a Certidão de Nascimento de São João del-Rei, em transcrição feita de registro colhido pelo dedicado e saudoso historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra.

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Foto: Procissão de Nossa Senhora da Conceição (Divulgação - G1)