quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Quaresma de histórias, memórias, lembranças, quebrantos e encantos em São João del-Rei


Hoje muito pouco, antigamente a Quaresma era um tempo mágico em São João del-Rei. Dias e noites de grande temor, recato e recolhimento, marcados por longos jejuns e principalmente pela abstinência de carne, de todo tipo, nem que fosse apenas na Quarta Feira de Cinzas, em todas as sextas-feiras, na Quarta Feira de Trevas e na Sexta Feira da Paixão. Tempo de silêncio profundo. Os clubes não promoviam bailes e as pessoas continham as gargalhadas, evitando até ouvir a velha e nostálgica Rádio São João del-Rei  em volume mais alto.

Se por um lado era um tempo de obscuridade, pelo sofrimento, paixão e morte de Jesus Cristo, por outro era um tempo de certa desordem, como tentação provocada pelo Espírito do Mal. Ocorrências misteriosas, comportamentos inexplicáveis, ameaças ocultas, destemperos, acontecimentos insuspeitáveis, muitos deles envolvendo animais tanto dóceis quanto peçonhentos, trilhas do campo, lua cheia, ruídos desconhecidos, vozes estranhas, chamados anônimos, incêndios e afogamentos - tudo isto povoava o imaginário popular. Para as crianças, sacis, lobisomens, mulas sem cabeça podiam estar em cada canto escuro.

Como antídoto a isto tudo, só penitência e oração, apesar de que alguns amuletos, patuás e outros talismãs bem que também era ostentados para afastar o mal e seus malefícios. Por isto, era tão comum encontrar crucifixos na cabeceira das camas, terços pendurados às vezes até no pescoço, velas acesas nos quartos, frascos de água benta, ambientes embaçados pela fumaça de incenso queimado em brasas.

Hoje a tecnologia devassou tudo. Devastou tudo. Quase em mais nada há segredo ou mistério a se ver. A não ser na recordada lembrança dos velhos são-joanenses e também no pulsar coração dos novos, que pressentem o encanto da riqueza que a imaginação criou e que a inteligência transformou em sabedoria, em crença e fé!



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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Procissão das luzes em São João del-Rei


Diferentemente de outros lugares culturalmente importantes do Brasil, em São João del-Rei, o dia 2 de fevereiro não é Dia de Yemanjá. Na cidade onde os sinos falam, o culto é feito para Nossa Senhora das Candeias, em outros lugares conhecida como da Candelária e também da Apresentação.

Tudo começa muito cedo, quando o dia ainda está clareando, na igreja do Rosário, com a bênção das velas que os fiéis levam de casa. Em seguida, quando o sol começa a nascer no horizonte, sai com ele uma procissão pelo curto trajeto, que vai da igreja-sede da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Negros até a Matriz do Pilar.

Tal como os raios do sol que despontam, cada participante leva sua vela acesa, no ritmo do sacerdote que repete, durante todo o percurso, o Cântico de Simeão. Nada mais do que a expressão  latina Nunc Dimittis - que teriam sido as palavras ditas pelo Velho Simeão quando recebeu nos braços, no Templo de Jerusalém, o Menino Jesus, apresentado por seus pais. Esta procissão não possui andor com imagem, nem estandarte, nem banda, nem toque de sinos. Estes dois últimos, possivelmente devido ao horário.

Aliás, o horário em que acontece - quando as ruas ainda estão vazias, em quase absoluto silêncio e sem nenhum movimento de carros ou pessoas - faz com que a procissão das luzes pareça ocorrer em outro tempo, bastante antigo e muito distante. Contribui para esta impressão a predominância das mulheres, compenetradas e seguindo em fila, assim como a ausência de pessoas nas calçadas, simplesmente "olhando" a procissão passar.

Desde que é abençoada no início da celebração, a vela ganha um significado especial e, a partir de então, passa a ser guardada com cuidado. Só é acesa pelos fiéis em situações de aflição devido ao mau tempo, como por exemplo durante as fortes tempestades, que cortam o céu com seus raios e estouram graves trovões. Normalmente, nestes momentos, além da vela, os são-joanenses que estão na curva da idade queimam também os ramos bentos no Domingo de Ramos, para afastar medos e perigos e abrandar as fúrias da natureza.

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Foto e informações: Thiago Neves Abrantes (Facebook)