segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Novos tempos, novas mulas sem cabeça assombram São João del-Rei


Uma rua estreita, sinuosa, com subida e descida, no centro da cidade, tendo na metade uma pedreira angulosa e no alto dela um cruzeiro bicentenário, erguido no tempo em que mulas sem cabeça corriam noturnas a horas ermas e mortas, aterrorizando a todos com suas línguas de fogo.

Talvez, superando interrupções, uma continuidade da Rua Santo Antônio – caminho dos bandeirantes, escravos, libertos e aventureiros, no alvorecer do século XVIII, atravessando a Vila de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes rumo à Rua do Fogo e à Rua do Barro Vermelho.

Paralelo a uma ponta da avenida principal, o lugar foi batizado com um nome estranho, que os índios tupis falavam para referir-se a uma árvore de grandes e polpudas vagens. No seu começo, tem um alto muro de arrimo de pedras aparentes que em certas épocas do ano mais parece uma cascata de samambaias, musgos e liquens. No seu final, uma cruz alta, fina e simples, fincada em uma pequena pedra, sem os estigmas mas com a tabuleta J.N.R.J., permanentemente enfeitada com flores de plástico coloridas. Ao seu pé, ora às segundas-feiras, ora às sextas-feiras, às três da tarde as mulheres rezam o terço. Ali também para e canta, na Quaresma, a Encomendação de Almas que sobe do Quicumbi.

De lá se ouve bem o toque dos sinos, o  apito da maria fumaça, a sirene da fábrica, e até se vê, bem escuras, as nuvens de fumaça e cheiro de óleo queimado que o trem de ferro suspira. Nas duas cruzes daquele caminho param, rezam e cantam, na meia-noite de uma sexta-feira da Quaresma, a Encomendação de Almas que sobe do Quicumbi.

- Que lugar é este; ele existe de verdade?
- Existe, é o Pau d’angá!

Hoje nem sempre o chamam assim. Sem a natural espontaneidade, foi denominado Rua Carvalho de Resende. Mulas sem cabeça, não tem mais. Ali, noite e dia, o medo agora é outro. Caminhante daquela via, o professor, escritor e poeta Hélio da Conceição Silva, assim o manifesta, especialmente para este Almanaque Eletrônico:

“ Modesto de Paiva escreveu
sobre as assombrações
que rondavam o Pau D’Angá.
Mas hoje o que de fato assombra
Quem passa por lá
Rua Carvalho de Resende
Que é o nome do lugar
É a velocidade excessiva
Dos muitos automotores
Que trafegam por lá!”

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