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Mostrando postagens com o rótulo religião

Ave Maria do Morro no céu azul de São João del-Rei

Engana-se quem pensa que a religiosidade do povo são-joanense, no recorte do catolicismo, restringe-se às práticas, rituais e liturgias realizadas nas igrejas do centro histórico e de todos os bairros. Quanto mais belas, envolventes e encantadoras forem essas celebrações, sobretudo as tradicionalmente barrocas, mais elas são prestigiadas e frequentadas, pois  refletem o paraíso que, principalmente os humildes, não encontram na terra. Se a beleza é, sem dúvida, o mais sedutor e lúdico instrumento de convencimento e educação, ela é também o mais suave, confortante e eficaz meio de evangelização. Principalmente nestes tempos estéreis, áridos e ásperos! Entretanto, a despeito delas, muitos são-joanenses estabelecem um meio próprio para sua comunicação com o universo divino, com canais, formas, códigos, espaços e linguagens criados por eles mesmos. É uma comunicação direta, quase "ao pé do ouvido", sem necessidade de qualquer orientação, mediação, consentimento, aprovação ou ...

Os olhos de Santa Luzia iluminam São João del-Rei, seja de noite, seja de dia

13 de dezembro - dia de Santa Luzia. A eternamente jovem, virgem e cega, que tem domínio sobre os olhos, protege a visão e guia os cegos na sua noite longa e sem estrelas. Em São João del-Rei, Santa Luzia tem bastante prestígio junto ao povo são-joanense, que chega a ter com ela, inclusive, relativa intimidade física. Durante o ano quase inteiro, a Santa - em imagem de madeira - mora sobre uma arca grande na sacristia da modesta igreja de São Gonçalo Garcia. A ela fazem companhia flores artificiais, bilhetes, pedidos, agradecimentos e fotografias daqueles que lhe devem ou lhe pedem favor: homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e velhos. Pessoas simples, humildes de bens e ricas de esperança e fé. Da noite da Quarta Feira de Trevas até o entardecer da Sexta Feira da Paixão, Santa Luzia vai para a entrada da igreja onde, à frente do tapa-vento, recebe os são-joanenses. Estes, por sua vez, ajoelham-se diante dela, beijam a fita roxa que pende de seus pés e passam-lhe o polega...

Na memória de São João del-Rei, onde foram parar Todos os Santos?

Uma tradição muito antiga que já dobrou a  esquina - e há décadas não se vê mais em São João del-Rei - é a Ladainha de Todos os Santos . Apesar de o dia de Todos os Santos ser 1º de novembro, em nossa cidade a ladainha era rezada na alvorada dos três dias que antecediam o domingo em que se comemorava a Ascensão do Senhor. A recitação acontecia durante uma procissão sem andor, que saía da Matriz do Pilar ainda de madrugada, antes do nascer do sol. Puxada pelo vigário, percorria em círculo irregular ruelas e becos do centro histórico, retornando para a mesma igreja de onde saíra. O padre, cantando, chamava alto, pelo nome, todos os santos e os devotos, em coro cantado, suplicavam também em alta voz: rogai por nós ! No passado, o clamor era em latim: ora pro nobis ! Tem coisas que o tempo leva e não traz de volta. Em São João del-Rei, a Ladainha de Todos os Santos foi uma delas. Ficou em algumas lembranças. Oxalá para sempre vire memória. Sobre o mesmo tema, leia també...

Festa das Mercês: São João del-Rei reinventa ícones, ressignifica símbolos e reescreve sua história

Na sua dinâmica sociocultural, a cada dia São João del-Rei ressignifica elementos e símbolos de sua história, dando-lhes novos e contemporâneos sentidos. No vale da Serra e ao longo do Córrego do Lenheiro, o que antes ostensivamente apontava condenação, hoje serve para induzir questionamentos. O que outrora, em séculos passados, sinalizava colonial castigo, neste terceiro milênio, é alvorada da consciência dos direitos humanísticos e cidadãos. Você imagina que o Pelourinho, onde desde 1713 se castigavam escravos e executavam severas punições na Vila de São João del-Rei, pudesse servir de mastro para um toldo da principal barraca da quermesse da Festa de Nossa Senhora das Mercês? Pois é! Em setembro de 2013, isto aconteceu. A face religiosa, tradicional e barroca, da Festa das Mercês continua fiel aos rituais setecentistas. Toques de sinos, foguetes, novenas, missas cantadas, incensos, irmãos com hábitos, escapulários e mantos caudalosos, andores enfeitados, procissões, fogos de ...

Propina legal em São João del-Rei. Era no século XVIII...

A história de São João del-Rei tem muitos registros curiosos e  inusitados. No dia 24 de setembro de 1781, por exemplo, um Acórdão autorizou o pagamento de “propinas” a cada membro da Câmara de São João del-Rei  – presidente, vereadores, procurador, e escrivão do Senado - que comparecesse às festas religiosas realizadas na Matriz do Pilar. O valor variava de acordo com a importância social da celebração e procissão. As quatro festas mais importantes – Corpo de Deus, Visitação de Santa Isabel, Anjo Custódio do Reino e Nossa Senhora do Pilar – rendiam cada uma, ao  bolso de cada servidor público, dez mil réis. Igual valor ganharia quem comparecesse às festividades de São Francisco da Bórgia e do Patrocínio de Nossa Senhora. Consideradas de menor expressão, as festas de São Sebastião, São João Batista e da Publicação da Bula garantiam, cada uma, cinco mil réis. A assiduidade no cumprimento social do compromisso religioso, representando o poder público, poderi...

Festa das Mercês - Doce, sereno e sublime encanto de São João del-Rei

Há quase 300 anos o povo de São João del-Rei participa - com fé, devoção e encantamento - da sublime novena barroca de Nossa Senhora das Mercês. É um ofício encantador, numa capela delicadamente dourada, entre flores, incensos, música suave que vem de violas, violinos, violoncelos, flautas, clarinetas e de belas vozes que se harmonizam em rendilhados de notas musicais que formam volutas sonoras inigualáveis. O sino sozinho, na torre altaneira, soberana e solitária, toca alegre. Padre Geraldo canta vigoroso responsórios seculares, que orquestra e fieis, em coro único, respondem convictos. Fieis em sua maioria negros de carapinha branca, entre jovens e crianças, compenetrados vivenciam por uma hora e meia, um amoroso abraço imaginário com Nossa Senhora das Mercês. Com o olhar trocam palavras, fazem pedidos, promessas, agradecimentos. A tudo a Virgem acolhe de braços abertos e face levemente inclinada na direção da mão direita, que estende para o povo são-joanense com um buquê de crav...

A eterna primavera da fé em São João del-Rei

São João del-Rei é como um jardim, sempre em primavera a florescer. Todo mês, durante as festas religiosas, altares e andores em cascatas se cobrem das flores mais diversas: angélicas, antúrios, cravos, crisântemos, copos-de-leite, "egpsy", gérberas, hortências, lírios, margaridas, palmas e rosas, entre muitas outras. São as estrelas da terra luzindo gentileza, cor e perfume; brilhando fé, suavidade e devoção. Agosto, por exemplo, quando chega, acende em todos memórias antigas, que se tornam realidade nas ladeiras, largos e becos do centro histórico da terra onde os sinos falam. A bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense afina instrumentos e vozes, ensaia partituras antigas para que, no período de 5 a 15, a música barroca de mulatos compositores locais se junte ao som dos sinos e ao perfume de incenso para criar ambiência celeste em honra a Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Glória e também à Santíssima Trindade - Pai, Filho e Espírito...