domingo, 31 de março de 2013

Festa de Passos 2013 - Ecos da Semana Santa - São João del-Rei - 300 anos


A religião é o ponteiro do tempo, apontando ao homem - mais do que o giro dos astros e toda a mecânica celeste - como é possível viver, no dia a dia, o sentimento da eternidade. Em São João del-Rei, a religiosidade tem uma dimensão temporal, marcando vários calendários: o civil, o social, o individual e o humano.

Tanto que ao término de cada "festa" religiosa, geralmente indicada pela celebração maior, que sempre se mostra com missa solene, procissão e canto do Te Deum Laudamus, é comum as pessoas se despedirem com a seguinte expressão: agora só no ano que vem. Quem é são- joanense decifra logo e concorda - acabou-se um ciclo, que se repetirá ou segundo o calendário lunar, ou segundo o calendário civil.

As comemorações em memória dos passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a Caminho do Calvário, ou simplesmente Festa de Passos, em São João del-Rei são determinadas pelo calendário lunar. Começam na primeira sexta-feira seguinte ao Carnaval e se estendem até a sexta-feira da Quaresma, compreendendo 35 dias, quando são realizadas 03 vias-sacras externas, dois depósitos, duas rasouras, duas procissões e um setenário (ofício realizado durante sete dias consecutivos). Tendo no roxo a sua cor predominante e no manjericão, arnica e rosmaninha as suas ervas aromáticas peculiares, é a mais longa e mais extensa "festa" religiosa de São João del-Rei.

Veja, no link abaixo, um registro videográfico da Festa de Passos 2013, ao som de duas músicas muito executadas nestas cerimônias: Miserere, de Manuel Dias de Oliveira, e Popule Meus , do compositor são-joanense Padre José Maria Xavier.




quinta-feira, 28 de março de 2013

Semana Santa 2013. São João del-Rei é terra de memórias, recordações e lembranças...



Em São João del-Rei, moleque, o passado salta de cada esquina.
Escorre pelos becos, onde casas de beirais de cachorros e de beiras-seveiras
se abraçam solidárias, ombro a ombro, para permanecerem de pé
neste tempo de incertezas, de inseguranças e de impermanências.

Em São João del-Rei, misterioso, o passado nos espreita de cada janela,
do outro lado de recostadas bandeiras e fechadas guilhotinas.
Do alto das torres seculares, grita na boca dos sinos, com retorcidos dobres.
Suaviza a vida, na doçura do algodão doce, do cartucho de amêndoa de côco.

Tal qual o mitológico deus Chronos, São João del-Rei tem domínio do tempo
Em São João del-Rei também é passado até o que ainda não passou.
Em São João del-Rei inclusive é passado o que sequer aconteceu.


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Rememore abaixo, nesta Sexta-Feira  da Paixão, dia maior da Santa dos 300 anos de instituição da Vila de São João del-Rei, o que Tencões e terentenas publicou no início desta Quaresma.

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/02/a-paixao-segundo-sao-joao-del-rei-300.html

Semana Santa 2013 São João del-Rei: Atitude Cultural - Retalhos do céu nas pedras do chão


Como tudo o que diz respeito ao patrimônio e à cultura desta "terra querida e formosa", a confecção dos tapetes processionais de rua de São João del-Rei, desde que a tradição foi retomada em 1983 - portanto há 30 anos - é singular. Alia à finalidade religiosa e estética função cultural, buscando chamar a atenção de todos para a beleza e riqueza cultural que há mais de 300 anos reluzem como ouro nas margens do Córrego do Lenheiro. E também conclamar a todos a se mobilizarem pela valorização, conservação e preservação deste patrimônio inigualável.

Atualmente, esta iniciativa é capitaneada pela ONG Atitude Cultural - cuja atuação é exemplar e, sem dúvida, deveria servir de modelo para instituições públicas e privadas de todo o país que atuam na área da cultura. Acontece no contexto da Semana Santa, na quinta-feira e na Sexta-feira da Paixão, no Largo de São Francisco e nas ruas da Prata / Padre José Maria Xavier e Balbino da Cunha. Reune artistas plásticos, artesãos, a comunidade e quem se dispor a colocar a mão na massa, ou melhor, na areia, na serragem, nas flores e nas sementes. É um ponto de encontro dos são-joanenses que não moram na cidade e todo ano a visitam na Semana Santa.

Quem puder participar, não deve perder esta oportunidade!

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Conheça, abaixo, a história dos tapetes de rua são-joanenses, contada por este autor e publicada no site São João del-Rei Transparente:

quarta-feira, 27 de março de 2013

Semana Santa 2013 . São João del-Rei 300 anos . Ofício de Trevas . Música na noite da amargura


A quarta-feira que antecede a Sexta-Feira Santa, para o povo de São João del-Rei, desde os tempos mais remotos é a Quarta-Feira de Trevas. Nela, à noite, na Matriz do Pilar, acontece uma das mais peculiares e tradicionais liturgias da Semana Santa: o Ofício de Trevas.
Pura música colonial, em latim. Esta é a linguagem  do Ofício, composto por cantos gregorianos, leituras cantadas em ritmo local e responsórios barrocos – compostos pelo padre músico Padre José Maria Xavier. É quase certo que o Ofício de Trevas acontece em São João del-Rei  há quase trezentos anos, na noite da Quarta-Feira de Trevas e nas manhãs da Sexta-Feira da Paixão e do Sábado de Aleluia. Certo é que São João del-Rei  é o único local onde o ofício é celebrado ininterruptamente há mais de 200 anos, no mesmo formato e com o mesmo discurso e repertório de sua criação - coisa que não aconteceu em outras cidades históricas.
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Veja, nos links abaixo, o que Tencões e terentenas já publicou sobre o Ofício de Trevas de São João del-Rei:
+ http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/04/oficio-de-trevas-na-semana-santa-de-sao.html
+ http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/08/sao-joao-del-rei-de-trevas-eclipses-e.html

terça-feira, 26 de março de 2013

As boas coisas de São João del-Rei: vaca atolada no mais belo largo barroco de Minas Gerais


Em São João del-Rei, tem uma vaca atolada no Largo de São Francisco, mirando os anjos e arcanjos que saracoteam em volta da virgem na fachada de uma das mais belas e imponentes igrejas imaginadas por Aleijadinho. E é bom que ela fique lá por muito tempo, senão pela eternidade.

Sempre do jeito que hoje é: quente, cremosa, macia, morena, generosa, temperada e tantas outras virtudes mais - acompanhada de torradas fresquinhas e crocantes. Pronta para ser saboreada com um drink, uma taça de vinho ou uma cerveja, por um atendimento cordial, jovial e gentil.

Onde se encontrar com a tal vaca, deliciosamente atolada, e levá-la no estômago e na memória? No Sabor de Espeto, um pequenino e simpático bar, com mesas de madeira espalhadas entre quaresmeiras roxas, iluminadas por lampiões coloniais autênticos, exatamente em frente à igreja de São Francisco de Assis de Assis. Pena que só abra a partir do entardecer...

Semana Santa 2013 São João del-Rei - Aos 300 anos, brilha mais do que o ouro reluzente!



No ano em que se completam 300 anos da fundação da Vila de São João del-Rei – a quarta instituída em Minas Gerais, no começo da segunda década do século XVIII – as comemorações da Semana Santa 2013, iniciadas anteontem, com o Ofício de Ramos e o Canto da Paixão, são realizadas com incalculáveis religiosidade e pompa, compatíveis com os três séculos que se passaram desde que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar foi elevado à condição de vila do ouro.
Sem dúvida, a Semana Santa de São João del-Rei é um evento rico e múltiplo, plural, diverso facetado como um prisma, dinâmico como um harmonioso caleidoscópio. Consegue ser, a um só tempo, tradicional e contemporânea, religiosa e cultural, erudita e popular, bonita e trágica, melancólica e alegre. Multidual, como é próprio do espírito barroco. Diocese, irmandades, orquestras, bandas, poder público local, instituições culturais, colaboradores e voluntários – todos unidos em prol deste patrimônio ímpar de São João del-Rei, que é a Semana Santa. Patrimônio que o povo são-joanense valoriza, preserva e dá vida, conservando-o tão reluzente quanto o ouro que brilha nos altares das muitas igrejas de São João.

terça-feira, 19 de março de 2013

Irmandade dos Passos de São João del-Rei: em 2013, 280 anos de fé, cultura e tradição


Em São João del-Rei, a Festa de Passos de 2013 teve um significado especial: marcou as comemorações dos 280 anos da Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, fundada em 1733, apenas 20 anos após a instituição da quarta vila mineira - a Vila de São João del-Rei.

Para registrar a efeméride, a Mesa Administrativa da Irmandade brindou a cultura nacional com a restauração do pálio setecentista que sai nas procissões do Encontro e de Nossa Senhora da Piedade. Certamente único no Brasil, além de ser uma peça religiosa sem similar, o pálio é uma preciosa obra de arte, inclusive de importância museológica.

Rubro, no tom entre os vermelhos do sangue vivo e do coagulado, é todo bordado com fios de ouro, estampando todos os estigmas da paixão e outros elementos sacros. Também de fio de ouro são suas franjas e seus muitos pingentes. Seu sobrecéu é um firmamento de estrelas douradas, sob o qual, nas citadas procissões, o sacerdote carrega a custódia com a relíquia do Santo Lenho.

Além do pálio, a Irmandade resgatou a estampa tradicional de antigas alfaias, que vestem os andores, e também os velários que cobrem os andores de Nossa Senhora e do Senhor dos Passos, no percurso que fazem entre a Matriz do Pilar e as igrejas do Carmo e de São Francisco.

Para a Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, por mais tradicionais, artísticas e culturais que sejam, as celebrações que realiza são, acima de tudo, cultos de devoção e fé. Por isso são tão vivas, tão reais. Caminhando neste sentido, a Irmandade faz tudo para que a população acompanhe, entenda e verdadeiramente participe  das solenidades que têm, em muitos trechos, orações e cantos em latim. Uma das alternativas encontradas foi a publicação e distribuição de livretos belamente ilustrados, como por exemplo o Setenário das Dores de Maria Santíssima.

A Festa de Passos é muito valorizada e querida da população são-joanense, que retribui o carinho e o zelo da Irmandade levando, na Sexta-feira das Dores e no Sábado de Passos, feixes de manjericão cheiroso para enfeitar os andores.  Esta é a intenção que  leva muitas famílias a plantarem e a cuidarem o ano inteiro, em seus quintais e jardins, desta planta aromática tão emblemática para São João del-Rei. E também das roxas orquídeas de outono, que cultivam com grande amor para o buquê que o Senhor dos Passos de São João del-Rei abraça, juntamente com sua cruz, quando segue por esquinas e becos coloniais até o Calvário, que fica do lado de cá da Serra do Lenheiro, entre o Pelourinho, o hospital e a escadaria das Mercês.

terça-feira, 12 de março de 2013

Festa de Passos, 2013 - Tradição, arte e cultura são vida em São João del-Rei


São João del-Rei não é apenas território geopolítico. Latitudes, longitudes, trópicos, meridianos, geografias, graus, distâncias, fusos horários, calendários – às vezes, nada disso é suficiente para dimensionar,  emoldurar ou situar, no tempo e no espaço, São João del-Rei. A cidade tem temporalidades e territorialidades próprias, métricas peculiares para definir ritmos, pausas e compassos que só sentimento e emoção conseguem divisar.
 Em São João del-Rei, arte, cultura e tradição são uma coisa só:  vida. Principalmente quando envolvem crença e religiosidade. De um lado ou do outro da Ponte do Rosário, em qualquer margem do Córrego do Lenheiro, é impossível acompanhar uma procissão ou testemunhar um ofício sacro como quem assiste a um espetáculo. Em São João del-Rei o sagrado não é uma utopia inalcançável. É sangue que corre nas veias, que palpita e faz pulsar o coração.
Em São João del-Rei, Deus não é maestro a reger ventos, tempestades, astros nem estrelas em sinfonias de céu limpo ou revolto. No Domingo de Passos, ele anda de joelhos pelas ruas estreitas, calçadas de pedra, carregando pesada cruz e buquê de orquídeas,  para nas capelas-passinhos, onde em cada uma mira a si mesmo, como em imaginários espelhos. Se for preciso, para não molhar, corre da chuva.
Na volta para casa, antes de sair da igreja de seu irmão, São Francisco, recebe afagos nas feridas de sangue e rubis, bilhetes com pedidos secretos – e tão corriqueiros! -, beijos na fita, ouve lamentações, súplicas. Agradecimentos? Muito poucos. Quase nenhum...
Em São João del-Rei, Deus e o homem são íntimos. Um do outro, imagem e semelhança!

quarta-feira, 6 de março de 2013

Encomendação de Almas entrega música e oração aos mortos na noite de São João del-Rei


Tradição bicentenária de São João del-Rei, mantida com grande mistério até os dias atuais, as Encomendações de Almas são cortejos que, em hora próxima da meia-noite, percorre várias ruas da cidade, parando sete vezes em encruzilhadas, portões de cemitérios, cruzeiros e portas de igreja. Realizadas exclusivamente no tempo da Quaresma, no período da Festa de Passos, podem acontecer em três sextas-feiras consecutivas ou em uma única semana, em dias alternados - segunda, quarta e sexta-feira.

Lembrando rituais muito antigos, mais se parecem com enterros noturnos do que com procissões. Não é conduzida por padres, mas por um homem mais velho, respeitável e respeitado por todos, que puxa o terço durante todo o trajeto e, nas sete paradas de cada Encomendação, faz orações - ora em latim, ora em português - como a chamar as almas e entregar-lhes cantos, lembranças, lamentos e orações.

Nestas horas, ouve-se o bater da matraca e músicos executam os Motetos dos Passos, compostos há quase 200 anos pelo maestro Martiniano Ribeiro Bastos. A impressão que se tem é que flautas, clarinetas, contrabaixo, violoncelo e vozes embrulham sete recortes da noite com retalhos de veludo escuro. Por isso, em tempos passados, muitas lendas , mistérios e secretas magias envolviam estes rituais.

Pensando bem, por suas afinidades e semelhanças, não seriam as Encomendações de Almas de São João del-Rei o correspondente fúnebre das solenes vias sacras de rua, realizadas nas três primeiras sextas feiras da Quaresma na "terra onde os sinos falam"?

                Nona Estação*

         A matraca tocou e as cordas do enorme contrabaixo
         arranharam o silêncio das trevas.
         Flautas e clarinetas, com o sopro de sua música,
         tentaram apagar mais cedo o lume da vela,
         mas o tempo ensinou que todo começo
         só existe por causa do fim.

         O oficiante lança mensagens em latim,
         chamando os mortos de seu sono profundo,
         mas atrás do portão de ferro
         tudo continua como era o universo
         antes da criação do mundo.
        Apenas a memória está mais viva,
         mais densa, corporificou-se.

        Quem separou-se de alguém
        que do outro lado do chão ainda está quente
        corta a noite com soluços,
        embaça os olhos com saudade,
        mas não há resposta ao seu chamado.
        Só ausência...

        O cortejo escorre pelas ruas, para em encuzilhadas,
         onde os caminhos se encontram e se separam.
         Nos cruzeiros de pedra e culpa repete-se o mesmo ritual:
         - Senhor Deus, misericórdia!
         Mas do alto as almas tudo espiam com indiferença
         e não se manifestam com nenhum sinal.

         O relógio da eternidade não tem ponteiros.

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* Do folheto inédito A Paixão segundo São João (del-Rei)