sábado, 31 de dezembro de 2011

Fogos de poéticos artifícios anunciam Ano Novo em São João del-Rei


No universo da imaginação, a realidade pode ser sempre mais bela do que de fato é. Você já pensou como seria extraordinário se, à meia-noite deste sábado, 31 de dezembro, fogos de artifício explodissem em vários largos de São João del-Rei, escrevendo no céu estrelado, em dourado, diamante, esmeralda, azul, rubi, púrpura e prata, poemas sobre as esperanças que se renovam a cada Ano Novo?

Sonhar não custa nada e no mundo dos sonhos isto é possível. Convidemos Carlos Drummond de Andrade para, com seus Poemas de Dezembro, nos guiar nesta encantada via sacra, pelo centro histórico de São João del-Rei.


Ponte da Cadeia

"Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano e
eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é voo de um pássaro
é uma canção."
(Dezembro de 1968)


Largo da Cruz

 "Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor:
aliança."
(Dezembro de 1973)


 Escadaria das Mercês

 "Depois de moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
por fim tecer de amor
lábios e dedos
que a flauta animarão.
E a flauta, sem nada mais
que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre
neste mundo."
(Dezembro de 1981)


Largo do Rosário

 "Quem me acode a cabeça
e ao coração
neste fim de ano,
entre alegria e dor?
Que sonho,
que mistério,
que oração?
Amor."
(Dezembro de 1985)


Largo do Carmo

"Receita de Ano Novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
com todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir a ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota
mas com ele se come, se passeia, se ama,
se compreende, se trabalha
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? Passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo augusto direito de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil, mas tente, experiente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre."
(Dezembro de 1997)



Feliz Ano Novo para todos!


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Que em 2012 os anjos, iluminados, digam "Amém" à arte, à vida e à cultura em São João del-Rei

Dois mil e onze foi um ano próspero para a cultura de (e em) São João del-Rei. De janeiro a dezembro, das folias de Reis que alegram a cidade no primeiro mês do ano às comemorações natalinas, a cidade desenvolveu uma vasta, rica e complexa programação cultural nas mais diversas frentes - tão extensa e diversificada que é impossível descrevê-la neste espaço.

Tudo com muita autenticidade, resgatando, preservando e mantendo o que precisa ser conservado, acrescentando tons contemporâneos quando não descaracterizam e constituem enriquecimento, abrindo novos horizontes culturais, novos olhares, novos caminhos para o saber. A arte a se firmar como fator de inclusão, não apenas social e econômica, mas também como elemento de re-ligação do homem são-joanense consigo mesmo, com seu mundo e com o "mundo, mundo, vasto mundo", como falou Carlos Drummond de Andrade.

Viu-se a arte e a cultura são-joanenses se expandirem, valorizando a etnicidade da formação cultural de São João del-Rei, sobretudo no que diz respeito à vertente africana. Sem ressentimentos - ao contrário - com grande naturalidade e espontaneidade. Reparação? Não, reconhecimento...

Eventos culturais (no sentido mais amplo do conceito de cultura) quase que diários nas igrejas, nos teatros, nas praças públicas, enfim, em toda parte. Concertos, conferências, lançamento de livros, de CDs, de DVDs, exposições, recitais, novenas, folias, festivais, procissões, palestras, tapetes de rua, toques de sino, gastronomia marcante, restaurações, revitalizações e reapropriações. Poucas cidades do mundo, do porte de São João del-Rei, tiveram e tem programação tão extensa, tão intensa e tão frequente.

A cidade cada vez mais se materializa e ganha presença no universo virtual, propagada e difundida por são-joanenses e visitantes, na forma de vídeos e documentos diversos, nos mais diferentes canais eletrônicos. Isso não pode ser desprezado.

Diante de tanta grandiosidade e de tanta profusão, tão próprias da alma barroca de São João del-Rei, uma iniciativa implementada no mês de dezembro, pela modéstia, simplicidade e singeleza, se destaca: a restauração e revitalização do Presépio da Muxinga.

Em tudo, esta conquista deve servir de exemplo. Desde a espontaneidade da criação do Presépio, pelos irmãos Teixeira, no começo do século XX, até a ação voluntária e cidadã das pessoas que, contemporaneamente, se empenharam e viabilizaram sua restauração e retorno ao local de origem, na ladeira da Muxinga. Voluntariado e cidadania que espelham também a abnegação da família dos criadores Teixeira, ao tornar coletivo um patrimônio particular, possibilitando, inclusive, que o Presépio fique em exposição permanente, aberto para visitas nos feriados e fins de semana, à tarde.

A revitalização do Presépio da Muxinga talvez possa ser considerada um dos mais representativos símbolos das conquistas culturais de São João del-Rei em 2011. Que contemplando esta iniciativa e nela inspirados, todos os são-joanenses se unam para novas conquistas e realizações culturais em 2012!
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Ilustração: detalhe da ferragem da antiga Leiteria de São João del-Rei, hoje agência Bradesco, ao lado do Teatro Municipal

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

28.dezembro.1750. Exéquias de Dom João V, em São João del-Rei, ficaram para a história

Apesar do pouco tempo em que foram concebidas, preparadas e organizadas (apenas três dias), as celebrações das Exéquias de Dom João V em São João del-Rei assumiram tamanha importância e significado que se tornaram um livro, publicado em Lisboa em 1751, ou seja, pouco tempo depois de sua realização, em 28 de dezembro de 1750.

Seu título, pela quantidade de palavras dava idéia de sua imponência, pretensão e grandiosidade: Monumento do Agradecimento, Tributo da Veneraçam, Obelisco Funeral do Obséquio, Relaçam Fiel das Reaes Exequias que à Defunta Magestade do Fidelíssimo e Augustíssimo Rey o Senhor Nosso Dom João V dedicou o Doutor Mathias Antonio Salgado Vigario Collado da Matriz de N. Senhora do Pilar da Vila de São João del Rey offerecida ao Muito alto e Poderoso Rey Dom Joseph I, Nosso Senhor.

Com nome tão extenso e autoria compartilhada entre o poeta Correia e Alvarenga e o vigário Mathias Salgado, a obra reunia poemas, mensagens, descrições e o sermão proferido nos dois ofícios fúnebres realizados na Vila de São João. Um, marcando a presença do estado português, foi celebrado em cumprimento a uma obrigação da Câmara. O outro, firmando a posição política da Igreja e seus vínculos com o governo de Lisboa, foi iniciativa realizada e custada pelo Vigário da Matriz de São João del-Rei.

Além do registro de cronistas da época, como o de José Alvares de Oliveira - que, nos primeiros anos do surgimento da Vila de São João del-Rei escreveu a célebre obra "História do Distrito do Rio das Mortes" - o Monumento do Agradecimento ... Relaçam Fiel das Reaes Exequias que à Defunta Magestade do Fidelíssimo e Augustíssimo Rey o Senhor Nosso Dom João V ...  é retrato fiel de um evento que, ao mesmo tempo sociopolítico, religioso, artístico e cultural, na análise da historiadora Júnia Furtado, constituiu uma das três mais importantes "festas" barrocas realizadas em Minas Gerais na primeira metade dos anos setecentos.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II, 2a edição revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte, 1982.



     

Quem puder, não perca. Sinfônica de São João del-Rei "toca" adeus 2011 - bem-vindo 2012!

Pela última vez, em 2011, os são-joanenses poderão assistir na próxima sexta-feira, dia 30, no Teatro Municipal, a um concerto da Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei. Sob regência do consagrado maestro Marcelo Ramos, os músicos executarão um repertório que mesclará conhecidos e contemporâneos compositores locais com grandes nomes da música universal.

A Orquestra Sinfônica de São João del-Rei foi "inaugurada" no dia 6 de janeiro de 1930, materializando o ideal de unir músicos das várias orquestras são-joanenses e outros, independentes. Também era seu objetivo ter atuação de caráter social-beneficente. Com sede própria desde 1935, tornou-se muito apreciada pelas recorrentes montagens que fez das operetas A Viúva Alegre, o Conde de Luxemburgo, Sonho de Valsa e a Princesa das Czardas. Com participação de solistas de músicos da capital Rio de Janeiro, chegou a encenar, em 1964,  a ópera La Traviata.

Até hoje suas apresentações são frequentes e repertório variado e trazem a público, lado a lado, a produção de compositores locais com a obra de grandes nomes brasileiros e internacionais. Além de espetáculos em sua sede e no Teatro Municipal a Orquestra Sinfônica de São João del-Rei também se apresenta em toda a região. Seus concertos, inclusive, já integraram a programação cultural de Brasília e de Belo Horizonte.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

28.Dezembro.1750. As poéticas, simbólicas e reais exéquias de D. João V em São João del-Rei

Nas reais exéquias de Dom João V, oficiadas em São João del-Rei no dia 28 de dezembro de 1750, além da música e da cenografia barroca, a poesia também foi utilizada como importante elemento artístico de sensibilização da sociedade colonial que se firmava às margens do Córrego do Lenheiro. No centro e no alto, em toda parte, a sombra da morte do "Fidelíssimo" monarca que emprestara seu nome à Vila elevada em dezembro de 1713 se destacava até em palavras escritas, em um idioma em muito desconhecido da população, em sua maioria analfabeta.

O mausoléu construído e exposto na Matriz do Pilar para aqueles ofícios fúnebres tinha muitos poemas e inscrições em latim, falando principalmente sobre a morte e as "virtudes" do soberano morto em Lisboa. Conforme  a historiadora Júnia Ferreira Furtado, textos mostravam a estreita ligação entre o poder absolutista português e a Igreja, ao justificar que "o sol português da Majestade Augusta do Senhor Rei Dom João, o V, no seu ocaso (crepúsculo), antes quisera trocar o seu Reino de Portugal (...) pelo Reino Celeste, onde reinará triunfante e glorioso por toda a eternidade entre os habitadores do Império".

Na análise e descrição da historiadora, "os emblemas que adornavam o mausoléu construído em São João del-Rei falavam por si próprios. Num jogo de simpatias, onde cada elemento levava a sua significação, elaborava-se uma linguagem visual, completada com os dizeres e os poemas em latim.

Formado por oito faces, na primeira estampava o emblema de uma águia real bebendo os raios de sol (...) significava o desprezo pela fragilidade do mundo e sombras da terra, se queria ilustrar entre as luzes do Divino Sol.

Em outra, havia o Rei estampado como um Atlante, a simbolizar o trabalho que teve de sustentar a monarquia portuguesa, por tantos anos. Uma vela acesa significava o papel luminoso que teve para a difusão da religião cristã.

O sol lembrava o enorme poder que tivera. Uma fênix exaltava suas virtudes e entregava sua alma aos Criados. A Árvore dos Poetas representava o próprio Rei, cuja vida fora ceifada tão cedo e, por último, o fogo a simbolizar a luz do entendimento.

Na porta da Matriz do Pilar, via-se um esqueleto com o manto do Cavaleiro da Ordem de Cristo, tendo na mão direita uma coroa. Dispostos em outros pedestais, viam-se vários esqueletos, um sustentando a púrpura real, outro empunhando o régio cetro. Neste ambiente cenográfico, Dom João V se elevava à figura de ícone e criava o seu próprio culto, sem o qual toda a teatralidade artístico-fúnebre não adquiria sentido".

Prestando atenção no que apurou em cuidadosa pesquisa e nos descreve Júnia Furtado, percebemos que não é de hoje que a cultura de São João del-Rei adotou a Morte como parte importante de sua essência. Entendemos, assim, porque as procissões que mais seduzem e encantam são-joanenses e visitantes são exatamente aquelas que dizem respeito à morte, como a Procissão do Enterro do Senhor, do trânsito de Nossa Senhora Morta, entre outras. E também porque os muros e os portões dos cemitérios de São João del-Rei são tão monumentais e até a razão do que faz sobreviver, nas praças, nos altos, esquinas e encruzilhadas, tantos cruzeiros com os estigmas da Paixão.

Minas não tem mar, mas São João del-Rei é o oceano do tempo. E o infinito da eternidade...

28.dezembro.1750. Em São João del-Rei o dia virou noite, de tristeza pela morte do Rei Sol Português

Há mais de 260 anos, exatamente há 261, São João del-Rei foi protagonista de uma das três mais importantes celebrações acontecidas em Minas Gerais na primeira metade do século XVIII: as Solenes Exéquias d'El Rey Nosso Senhor Dom João V. Foi mais uma oportunidade para a Vila de São João del-Rei, assim batizada em homenagem ao monarca defunto, mostrar sua importância tanto para a metrópole quanto para as demais vilas mineiras, homenageando com inigualável pompa e luxo o falecido Rei Sol português. Dom João V faleceu em 31 de julho de 1750, mas a notícia de sua morte demorou cinco meses para chegar a Minas Gerais.

As exéquias realizadas em São João del-Rei, na Matriz do Pilar, segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado, se comparam às celebrações do Triunfo Eucarístico (Vila Rica, 1733) e ao Áureo Trono Episcopal (Mariana, 1748). Pesquisando diversos autores, Júnia mostra que o ambiente criado envolvia e aguçava todos os sentidos utilizando as mais diferentes linguagens artísticas:

"um clima fúnebre e algo etéreo; um tempo suspenso entre a vida e a morte, foi criado na igreja, por dois coros, dois rabecões e um cravo... O contraste da sombra, da vida e da morte, tão ao gosto barroco, ficava evidenciado pelo jogo de claro escuro. O mausoléu fúnebre então construído e a Matriz onde se realizou a cerimônia foram cobertos de poemas e inscrições, dísticos, epitáfios e esqueletos que em todo o corpo deste templo horrorizava a vista para estimular a dor."

"Os altares foram cobertos de cortinas negras, com fitas de veludo acentuando a escuridão. Antes de se iniciar o serviço, os altares foram iluminados e no mausoléu se acendeu uma pira de luzes que vomitando incêndios de um amor penalizado, ateados no sentimento, sem os poder apagar o pranto, pretendiam desafiar as estrelas do céu, pelo sol que nos roubaram."

Ela continua - "As metáforas estavam evidentes nesta descrição: o Rei representado pelo sol, símbolo de luz, de poder, o rei dos astros; a escuridão significando a morte, a perda, a dor; as luzes, que desafiavam a morte e até o brilho das estrelas. No mesmo ato fúnebre, os presentes à igreja e os que se amontoavam nas ruas acenderam velas em tal profusão e abundância que fizeram perder de vista as estrelas do firmamento, transformando a noite em dia, expiando o medo da própria morte."

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Fonte: FURTADO, Júnia Ferreira. DESFILAR: a procissão barroca. Publicado em http://www.fafich.ufmg.br/pae/apoio/desfilaraprocissaobarroca.pdf
Acessado em 27 de dezembro de 2011.

Ilustração: Desenho do mausoléu erigido na Matriz do Pilar de São João del-Rei para as Exéquias Reais de Dom João V, em dezembro de 1750

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

São João del-Rei ouve em uníssono, há quase 200 anos, as Matinas do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Assim como as peças musicais que compõem a Novena do Menino Jesus, executadas nas nove noites que antecedem a Missa do Galo na igreja do Rosário, as Matinas do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo são musicais marcas registradas do Natal de São João del-Rei. Tanto isto é verdade que elas fazem parte do repertório que as bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos executam nas missas celebradas no período que vai do Natal até a Epifania, ou seja, de 25 de dezembro a 6 de janeiro - Dia de Reis.

Compostas pelo célebre Padre José Maria Xavier no século XIX, foram editadas em Munique em junho de 1885, na Alemanha, o que as torna singulares no universo da música oitocentista mineira, visto que, naquela época, não era comum no Brasil terem partituras graficamente impressas. Na época de sua criação, faziam parte de uma celebração própria - Matinas - como até hoje são oficiadas as Matinas do Ofício de Trevas e das Matinas de Vésperas de Nossa Senhora Morta. Já faz algum tempo as matinas natalinas são executadas apenas durante as principais missas das igrejas do centro histórico.

Segundo a flautista são-joanense e mestra em Música Salomé Viegas, as Matinas do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, de autoria do padre-compositor são-joanense, compreendem um conjunto de "oito responsórios, compostos para quatro vozes e uma pequena orquestra (violino 1, violino 2, viola, baixo e / ou oficleide, flauta, clarineta, piston e trompas)".

Há cerca de 30 anos as Matinas do Natal foram registradas em LP pela Orquestra Ribeiro Bastos. Hoje, este "bolachão" é um documento raro, só encontrável entre alguns maduros são-joanenses, estudiosos de música barroca, colecionadores e raros sebos de música. O contexto dos 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de Vila de São João del-Rei, a serem comemorados em 2013, bem poderia oportunizar o relançamento, agora em CD, das Matinas do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, a exemplo dos dois CDs já lançados que registram, divulgam e difundem os Ofícios de Trevas, atualmente executados durante a Semana Santa, na Quarta Feira de Trevas, Sexta Feira da Paixão e Sábado de Aleluia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Pastorinhas do Menino Jesus são a Estrela-Guia do Natal em São João del-Rei


Em São João del-Rei, nas imediações da Ponte das Águas Férreas, os corações das meninas vizinhas de Dona Júlia Lacerda, a esta altura do mês de dezembro, já pulsam diferente. Deles, brota uma emoção mansa e rumorosa, tal qual o fio d'água que, cercado de areia branca, desce das Gameleiras e em algum lugar, não longe dali, vai se juntar ao Córrego do Lenheiro. Tal descompassado batimento nada mais é do que a emoção de fazer parte das Pastorinhas do Menino Jesus.

O grupo foi criado improvisadamente e às pressas por Dona Júlia há 33 anos. Seu objetivo era imediato e solidário: arrecadar contribuições para ajudar uma família vizinha a reconstruir a casa, destruída por uma tempestade poucos dias antes do Natal de 1978. Começou percorrendo apenas as ruas mais próximas, no bairro do Tejuco. De lá desceu para a Ponte do Rosário, para o Largo de São Francisco, para a Rua da Matriz, para os lados do Pau d'Angá, da Bica da Prata, da Rua Padre Faustino, para todos os lugares onde a alegria inocente e esperançosa do Natal é pedida e se faz necessária. Agora se apresenta até em programações culturais e em cidades vizinhas. Mas preserva o compromisso solidário de destinar os donativos obtidos para obras sociais. Mesmo só existindo na informalidade, as Pastorinhas do Menino Jesus são, triplamente, uma instituição de interesse público, pois cumpre funções culturais, sociais e religiosas.

Especialmente no período que vai do Natal ao Dia de Reis, as Pastorinhas do Menino Jesus emocionam e se emocionam. Parando de casa em casa, de praça em praça, diante da porta botequins, nos asilos, no mercado, por convite ou espontaneamente, as crianças enternecem com seu canto e com seu olhar, vez por outra marejado de lágrimas profundas. E fazem marejar os olhos de crianças, enamorados, idosos, solitários, mães, soldados, casais, viúvos - enfim de qualquer pessoa que deseja um mundo melhor para todos, tal qual o que anuncia o Natal.

Entra ano, sai ano, há 33 anos as Pastorinhas do Menino Jesus são a Estrela Guia do Natal de São João del-Rei. A infância - oratório onde Deus fez a morada - se renova em outras crianças, a bondade generosa de Dona Júlia se perpetua e todos querem merecer a graça do momento divino que elas trazem. Alguns, ainda neste mundo. Outros, já no céu azul e estrelado...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Tencão de Natal: sinos de São João del-Rei batem pulsando o Coração de Jesus

Por volta do meio dia do próximo sábado, dia 24 de dezembro, se ouvirá, em São João del-Rei, um dos mais belos e delicados toques de sinos da cidade - o Tencão do Natal. Executado simultaneamente em três sinos da torre esquerda da igreja do Rosário, dura aproximadamente vinte minutos e compreende quatro movimentos: o Tencão propriamente dito, as Nove, o Floreado e a Terentena.

O Tencão do Natal é um toque sofisticado, pleno de significados, transmitidos pelos códigos sonoros elaborados pelos antigos sineiros de São João del-Rei, perpetuados, e mantidos pelos jovens que hoje se dedicam a "falar a voz do bronze".  Evoca tudo o que diz respeito ao nascimento do Senhor. As Nove, por exemplo, são nove pancadas espaçadas que fazem lembrar os nove meses da gestação. Movimentos trêmulos do Tencão (repique) sugerem o descompasso do coração de Jesus e de toda criança quando se movimenta para deixar o ventre materno. O Floreado ilustra a alegria de quem vem ao mundo e, encantado, vê a luz pela primeira vez. A Terentena, arrematando tudo, é uma explosão mimosa de notas musicais, como se do céu orvalhasse pétalas, serenasse estrelas em pleno dia.

Além do meio dia da véspera de Natal, o Tencão se repete na hora do Ângelus do dia 24 de dezembro e mais tarde, anunciando a Missa do Galo. É tocado também em alguns horários do dia 25 e, pela última vez, após o Te Deum do Menino Jesus, cantado às seis da tarde, quando o dia se despede. Depois, só no ano que vem, de novo no Natal...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Anjos morenos sobre São João del-Rei anunciam barrocamente "Gloria in Excelsis Dei"


Hoje, em diversos horários, os sinos da igreja do Rosário anunciarão com devoção e alegria: o Natal, no seu sentido original e verdadeiro, já caminha pelas ruas, becos e largos, já se acolhe em presépios nas casas, já pulsa feliz de esperanças no coração do povo de São João del-Rei. Às sete da noite, quando o céu ainda estiver azul, começará a Novena do Menino Jesus.

Esta novena é celebração barroca delicada. Realizada na igreja do Rosário - a mais antiga de São João del-Rei, construída por (e para ) os escravos - é obra musical do século XIX, executada pela Orquestra Lira Sanjoanse, uma das mais antigas corporações musicais do mundo, fundada nos anos setecentos e em ininterrupta atividade.

Pouca gente sabe, mas em São João del-Rei, as irmandades dividem, entre si, a responsabilidade de realização das grandes festas da Igreja. As celebrações do Natal, por exemplo, cabem à irmandade do Rosário e constam de cinco atividades: novena, toque do Tencão do Natal nos sinos da igreja, a mais tradicional Missa do Galo da cidade, canto do Te Deum e rasoura do Menino Jesus.

Se você estiver na cidade ou por aqui passar nesta época do ano, aproveite o anoitecer para passear no Largo do Rosário. Se encantar com a iluminação de Natal, se surpreender com o toque dos sinos e, por alguns instantes, voltar no tempo e subir aos Céus com a Novena do Menino Jesus.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Velhas, fantásticas e assustadoras estórias ganham vida e viram realidade em São João del-Rei

Esta semana, por duas vezes, o universo fantástico das estórias que desde fins do século XVIII amedrontam crianças e crédulos de São João del-Rei, por algumas horas noturnas, invadirá o centro histórico da cidade. É o espetáculo Lendas São-Joanenses.

Sacrílegos, bisbilhoteiras, capatazes, chicotes, coronéis devassos, cruéis capitães do mato, punhais, piedosos sacerdotes, segredos, mães devotadas, esposas cruéis, corações de escrava, cadáveres transmutados pelo Diabo, encontro com as Almas, visita dos mortos. Tudo isto ganhará lugar no início da noite desta quarta-feira (14/12) e do dia 17, acontecendo em cortejo que percorrerá o Largo do Rosário, Rua Santo Antonio, escadaria da Matriz do Pilar, Solar da Baronesa, Largo da igreja do Carmo e portão do Cemitério da mesma igreja. Entre uma e outra encenação, explicações históricas e pitorescas sobre a paisagem colonial e as origens de São João del-Rei.

O espetáculo Lendas São-Joanenses dá vida a várias estórias que há mais de dois séculos compõem o imaginário local, sugerindo, por exemplo, como surgiram várias crenças e comportamentos peculiares do povo de São João del-Rei. É uma manifestação cultural que já se consolidou na cidade e atrai, surpreende e encanta turistas e visitantes por apresentar um produto de conteúdo turístico inédito no Brasil. A originalidade é tanta que o projeto há um ano foi indicado e representou Minas Gerais no Prêmio Rodrigo de Mello Franco do Ministério da Cultura, na categoria Patrimônio Imaterial.

Peregrinar com o espetáculo Lendas São-Joanenses é voltar no tempo e no espaço e transitar, sob lua cheia e lampiões,  por largos barrocos, becos tortos para chegar a outros mundos. Custa apenas R$ 10,00. O marco zero? Largo do Rosário, 20 horas.
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Ilustração: Detalhe do Chafariz da Municipalidade, instalado no Largo do Carmo de São João del-Rei (foto do autor)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Em São João del-Rei, sino que não se comunica, se trumbica!

Há dois anos, exatamente no dia 3 de dezembro de 2009, São João del-Rei recebeu uma boa notícia, há muito esperada: o tocar dos sinos de nossas bicentenárias igrejas foi finalmente reconhecido pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN como patrimônio imaterial brasileiro. Passou, assim, a integrar a pequena lista dos bens culturais imateriais classificados como riqueza cultural de nosso país.

Como se trata de uma valiosa conquista para a cultura e para a memória de São João del-Rei, pelo que representa em termos de salvaguarda, preservação, divulgação e difusão de expressão tão peculiar de nossa terra, data e fato não podem ser esquecidos. Ao contrário, precisam ser sempre lembrados, pois os toques dos sinos tão incorporados estão ao cotidiano são-joanense que muitos da terra, tão ordinariamente acostumados aos seus ritmos e  sonoridades, neles não percebem mais nada de excepcional.

Pouco a pouco a linguagem dos sinos de São João del-Rei vem ganhando cada vez mais notoriedade e visibilidade, mas esta repercussão ainda não é o bastante para fazer jus ao seu real significado e importância como expressão artística e cultural. Em sua maioria, os registros produzidos e existentes são isolados e afetivos, o que lhes garante grande espontaneidade mas os priva de qualidade técnica e concepção estratégica. Há clips interessantes sobre os sinos são-joanenses voluntariamente produzidos e postados no Youtube; há alguns anos foi produzido o DVD Entoados, há pequenos estudos publicados na internet, mas falta, por exemplo, um CD com o registro dos toques mais sofisticados e expressivos e um documentário, com base em estudos históricos e na história oral sobre a atividade sineira em São João del-Rei.

Fazendo modestamente (e com bastante humildade) sua parte,  o almanaque eletrônico Tencões & terentenas, a partir desta edição, divulgará um abecedário dos toques sineiros de nomes mais pitorescos e originais executados em São João del-Rei. Vamos a eles:

 Agonia (toque) - Nove pancadas no sino principal da irmandade ou confraria a que pertence o irmão agonizante. Normalmente o espaço entre as pancadas corresponde ao tempo de se rezar uma Ave Maria. Por origens históricas, não é incomum que esse toque seja feito no sino da Igreja de Nossa Senhora das Mercês independentemente de o cristão doente ser ou não filiado à irmandade ali sediada.

Almas  (toque) - Assim é chamado o último Angelus do dia, executado em horários diferentes, segundo duas estações do ano: às 21 horas no verão e às 20 horas no inverno. Possivelmente a dicotomia verão / inverno foi a forma encontrada para identificar a diferença dias mais longos, mais regidos pelo sol, e dias mais curtos, quando anoitece mais cedo.

Angelus (toque) - Nove pancadas espaçadas no sino principal das igrejas, ao meio dia, às seis da tarde e às 20 ou 21 horas. Do mesmo modo que o toque das Almas, o toque do Angelus é executado diariamente durante todo o ano, exceto na Sexta-Feira da Paixão e no Sábado de Aleluia.

Canjica queimou, Pé de galinha ou Canjiquinha (repique) - Bastante movimentado e alegre, é usado nos finais de festa em todas as igrejas, exceto na Matriz de Nossa Senhora do Pilar.

Chagas ou Morte do Senhor (toque) - Quatro dobres bem espaçados de uma pancada no sino da Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos da Matriz do Pilar, seguidas do "descaimento" do sino. É executado às três horas da tarde de todas as sextas-feiras do ano, exceto na Sexta Feira da Paixão.

Cinzas (dobre) - Dobre duplo bastante compassado e pungente, executado no sino do Santíssimo Sacramento da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, na Terça-Feira de Carnaval (Terça-Feira Gorda), às 21 horas, durante cerca de 10 minutos, como aviso de que haverá missa no dia seguinte. Tocado várias vezes, desde a manhã da Quarta-Feira de Cinzas, anuncia a realização de missa noturna e, durante a missa, é executado desde seu início até o final da imposição das cinzas. Finda quando se descai o sino.
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Fonte: http://www.horizontegeografico.com.br/index.php?acao=exibirMateria&materia%5Bid_materia%5D=1226

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. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/08/tencao-do-rosario-de-sao-joao-del-rei.html
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/04/na-semana-santa-de-sao-joao-del-rei_20.html
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domingo, 11 de dezembro de 2011

Mais uma vez a Música invade São João del-Rei


Mais de 20 espetáculos musicais  - populares e eruditos, sacros e profanos, grandiosos e singelos - para celebrar a vitória sobre 2011 e criar um clima divino e inspirador para receber, dignamente, 2012. Assim corre, festivamente, o mês de dezembro em São João del-Rei.

Concertos sinfônicos e de bandas de música, recital de órgão de tubos setecentista, toques de sino, corais, música popular, serestas, novenas barrocas, serenatas, folias de reis e Pastorinhas - tudo isso mostra como pulsa vibrante a musicalidade de São João del-Rei, nos largos, nas praças, nos museus, nos teatros, no coreto, nas igrejas, nos bares, enfim em toda parte. De Matosinhos ao Tejuco. Do Bonfim ao Senhor dos Montes.

Musicalidade tão presente, 24 horas por dia, faz são-joanenses, convictos e orgulhosos, pensarem: No meu peito bate um sino!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Parabéns, São João del-Rei, na voz de seus sinos!...

No entardecer do dia em que São João del-Rei completa 298 anos de sua elevação à categoria de vila, quando a população são-joanense se prepara para acompanhar a barroca padroeira Nossa Senhora da Conceição pelas ruas seculares de pedra e flores, extasiar-se com a iluminação de Natal e com concerto sinfônico à sombra da lua cheia no Largo de São Francisco, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas saúda a terra onde os sinos falam na linguagem que é só dela: toques mágicos - angelus, agonia, batucadinha, canjica queimou, chagas, chamadas, cléns, cinzas, floreados, matinas, nove, pé de galinha, principiada, tencões, tens-tens, trevas, terentenas, vésperas e muito mais - vindos do alto das torres do magistral templo riscado pelo genial Aleijadinho. Parabéns, São João del-Rei...


Não deixe de assistir o vídeo acima!

Lembranças de antigos oito de dezembro em São João del-Rei


Desde que em 1713 o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes foi elevado à categoria de Vila, recebendo o título de São João del-Rei, em homenagem ao rei-sol português Dom João V, no dia 8 de dezembro, vários fatos importantes ali foram realizados nesta data, para lembrar acontecimento tão especial. Oito de dezembro de 1713 está para São João del-Rei assim como 22 de abril de 1500 está para o Brasil e a Carta de Pero Vaz de Caminha da cidade nada mais é do que o Auto do Levantamento da Vila de São João del-Rei, divulgada no post de ontem. Avancemos no tempo e nos fatos...

Duzentos e vinte e nove anos após a criação da Vila de São João del-Rei, no mesmo dia 8 de dezembro, em 1942, foi inaugurada no alto do Senhor dos Montes a escultura do Cristo Redentor - um dos mais importantes marcos geográficos locais e elemento  artístico consagrado na cidade. A obra foi executada na Itália pelo diretor da Academia de Belas Artes de Petrossanto, Nicola Arrrighini, sobre projeto do engenheiro Heitor da Costa Silva. É admirada até hoje, por são-joanenses e visitantes.

Exatamente ao se completar uma década da inauguração do Cristo Redentor, o presidente Getúlio Vargas, na mesma data de outros grandes feitos, esteve na cidade, para mais uma inauguração. Desta vez não se tratava de nenhuma obra ou monumento, mas da abertura do VII Congresso dos Trabalhadores Mineiros, que aconteceu em São João del-Rei a partir do dia 8 de dezembro de 1953.

Dez anos depois, novamente um Presidente da República esteve na cidade, para um ato comemorativo. No dia 08 de dezembro de 1963, a autoridade maior do país presidiu, à sombra da Serra e às margens do Córrego do Lenheiro, todas as comemorações do 250º aniversário de elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar à categoria de Vila de São João del-Rei.
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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/10/sao-joao-del-rei-comemorara-em-silencio.html

Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, 2a edição revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte. 1982.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Presépio da Muxinga: o Natal per saeculum saeculorum de São João del-Rei

Ainda profetizam, os desesperançados, que São João del-Rei perde, a cada dia, um fiapo de sua memória. Não é bem assim; a realidade tem mostrado outra coisa. Prova disso é que o mais antigo, engenhoso e delicado brinquedo da cidade, a partir da próxima sexta-feira, dia 10,  novamente estará funcionando - e para sempre - no local onde foi montado pela primeira vez e funcionou durante décadas: um sobradão antigo, na esquina da Muxinga. Ali poderá ser visitado durante todo o ano, nas tardes dos sábados, domingos, feriados e dias santos. Todas as figuras e engenhos foram restaurados e estão novinhos em folha, pela ação cidadã do são-joanense José Imbroisi. A pequena reforma do prédio também viabilizou-se por meio de colaborações.

O Presépio da Muxinga foi criado em 1929 pelos irmãos Teixeira. Nele, carrossel infantil, lavadeiras, ferreiros, passadeiras, animais domésticos, trem de ferro, enfim o mundo urbano são-joanense do começo do século XX, circundam em movimento uma igreja barroca. Basta depositar uma moeda no cofre para que as luzes da minicidade pisquem coloridas, os sinos dobrem e  no interior da igreja dois anjos se ponham a incensar o Menino Jesus, que balança na manjedoura.

Para as antigas crianças de São João del-Rei visitar o Presépio da Muxinga na época do Natal era uma emoção arrebatadora. Nos caminhos, a respiração ficava ofegante desde que se chegava ao Largo do Carmo, à Ponte da Cadeia ou ao Largo do Rosário. A emoção aumentava logo que se chegava ao Beco da Matriz e, já na subida em fila dos mui largos e inclinados degraus da escadaria externa e descida dos degraus estreitos  e íngremes do pátio do sobrado, o coração disparava.

Cruzando na porta do salão onde o Presépio estava exposto, crianças e adultos tinham a respiração suspensa, encantados diante do universo singelo e mágico criado pelos irmãos Teixeira. Deve ter sido assim que os anjos, pastores e reis magos ficaram há mais de dois mil anos quando, seguindo a Estrela Guia até Belém, na Judéia, viram Jesus recém-nascido.
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Ilustração: detalhe de foto copiada do blog http://ambicaoliteraria.blogspot.com/

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

São João del-Rei, 1713 / 2011. Eis a Certidão de Nascimento da quarta vila criada em Minas Gerais

O sol que anunciou em alvorada o amanhecer do dia 8 de dezembro de 1713 iluminou também uma nova era para o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Naquela data, o movimentado e próspero aglomerado urbano que desde 1703 se formara à sombra da Serra e às margens do Córrego do Lenheiro, tendo se recomposto do incêndio que assinalara o fim da sangrenta e cruel Guerra dos Emboabas, foi elevado à categoria de Vila. Seu nome, São João del-Rei, em homenagem a El-Rey Nosso Senhor Dom João V.

Nascia ali, assim, a quarta vila do ouro das Minas Gerais, conforme o Auto de Levantamento da Vila de São João del'Rey, lavrado naquela data:

"Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil sete centos e treze annos, aos oito dias do mez de dezembro do dito anno neste Arraial do Rio das Mortes, onde veiu por ordem de Sua Majestade, que Deus Guarde, Dom Braz Balthazar da Silveira, Mestre de Campo General dos seus exércitos, Governador e Capitão Geral da Cidade de São Paulo, e Minas, para effeito de levantar Villa o dito Arraial; e logo em virtude da dita Ordem, que ao pé deste Auto vai registrada, o criou em Villa com todas as solenidades necessárias, levantando o Pelourinho no lugar, que escolheu para a dita Villa a contento, e com aprovação dos moradores della, a saber na xapada do morro que fica da outra parte do córrego para a parte da Nascente do dito Arraial, por ser o citio mais capaz e conveniente para se continuar a dita Villa, a qual elle dito Mestre de Campo General, e Governador e Capitão General appelidou com o nome São João del'Rey, e mandou , que com este título fosse de todo nomiado em memória de El Rey Nosso Senhor por ser a primeira Villa que nestas Minas elle dito Governador e Capitão General levanta assistindo a esta nova erécção o Dezembargador Gonçalo de Freitas Baracho, como Menistro do dito Senhor que se acha Ouvidor Geral desta dita Villa, como tão bem assistido toda a nobreza, e Povo della, e se levantou com effeito o dito Pelourinho, e ouve elle dito Governador e Capitão General por erecta a dita Villa, creando nela os Officiaes necessários, assim os Milicias, como de Justiça conducentes ao bom regimen della, e mandou se  procedesse a elleição dos pelouros para os Officiaes da Camara na forma da Ley, e de tudo mandou fazer este Auto que assignou com o dito Dezembargador, Ouvidor Geral, e eu Miguel Machado de Avelar Escrivão da Ouvidoria Geral que o escrevy - Dom Braz  Balthazar da Silveira - Gonçalo de Freitas Baracho."

Esta é a Certidão de Nascimento de São João del-Rei, em transcrição feita de registro colhido pelo dedicado e saudoso historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra.

domingo, 4 de dezembro de 2011

São João del-Rei, principalmente em dezembro, é cidade presépio


Apesar do aumento diário de automóveis e motocicletas nas ruas tortas e estreitas, que deixa o trânsito caótico principalmente na área comercial, e do crescimento de uma população mutante formada por estudantes universitários que chegam em busca de conhecimento e saber (o que dá à cidade um certo ar desenvolvimentista, cosmopolita) - São João del-Rei ainda possui cantos e recantos urbanos bucólicos e poéticos. Neles, parece até que o tempo parou, que a cidade é parte de um presépio. E é.

Aliás, de um não. Em dezembro de 2011, São João del-Rei é parte de quatro presépios, espalhados em espaços nobres do centro histórico. Comecemos pelo mais antigo, o da Muxinga. Criado e confeccionado em 1929 pelos quatro irmãos Teixeira, pela magia do Natal dá vida e urbanidade a pequenos personagens de madeira e lata que há mais de oito décadas se movimentam primitivamente, encantando a infância são-joanense. O Presépio da Muxinga fica exposto em um casarão antigo, nos fundos da Matriz do Pilar, na ladeira florida que dá nome ao presépio e acesso a dois velhos cemitérios.

No Largo do Rosário, que nesta época bem poderia chamar-se Largo do Natal, ou do Largo do Mistério do Menino Jesus, devido à programação religiosa e cultural que ali acontece, este ano se poderá conhecer o Presépio do Nono Rela. Pela primeira vez montado na cidade, no Museu de Arte Sacra, tem proposta interessante: sua construção é dinâmica e crescerá a cada ano, retratando diferentes fases e paisagens da história da humanidade, entre elas a própria São João del-Rei.

O Solar da Baronesa, no Largo do Carmo, ostentará diversos presépios, num concurso promovido pelo Centro Cultural da universidade federal são-joanense. Nas várias cenas natalinas, não é só Jesus que nasce - é a criatividade do povo de São João del-Rei que brota e resplandece.

Por fim, lembrando que tudo tem início e fim, também já virou tradição visitar, na escadaria da igreja das Mercês,  um presépio agropastoril, singelo e em tamanho natural. Seria uma cena comum do nascimento de Cristo não fosse aquele exatamente o local onde, na Semana Santa, se realiza uma das mais importantes e expressivas representações barrocas brasileiras da Paixão de Cristo: o Descendimento da Cruz, com o Canto da Verônica e saída da Procissão do Senhor Morto, tal qual acontecia no século XVIII.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Presidente da República cantou parabéns para São João del-Rei


Há exatos 48 anos, no dia primeiro de dezembro de 1963, São João del-Rei amanheceu alegremente ruidosa. Como aqui é costume nas datas especiais, a cidade acordou com uma alvorada festiva, abrindo as comemorações do 250º aniversário da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de vila, com o nome de São João del-Rei. Homenagem ao Rei Sol Português, Dom João V, o fidelíssimo e freirático monarca. Todas as bandas de música civis do município tocaram em uníssono, logo aos primeiros raios da manhã.

Consta que naquele dia, na antiga Avenida Rui Barbosa, hoje Avenida Tancredo Neves, foi inaugurado um temporário Arco do Triunfo, marcando a efeméride ao modo das grandes cidades européias, como Paris, Madrid, Brandemburgo e outras. Para completar, à noite, as mais importantes ruas do centro histórico receberam ornamentação temática, ressaltada por iluminação colorida, tudo desaguando na Ponte da Cadeia, que é um dos mais importantes símbolos são-joanenses.

A programação se estendeu por toda a semana, incluindo lançamento de livros, concertos e outras atividades culturais. Seu encerramento, no dia 8 de dezembro - data oficial do aniversário da cidade - mostrou a importância, a expressão, o reconhecimento, a representatividade e a projeção de São João del-Rei na história nacional: as cerimônias e solenidades foram prestigiadas por ninguém menos do que o Presidente da República e o Governador do Estado de Minas Gerais.

Importância, expressão, reconhecimento, representatividade e projeção semelhante se espera das comemorações que, em 2013, marcarão os 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de vila, com o nome de São João del-Rei.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume 2. 2a edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte, 1982.