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Mostrando postagens com o rótulo lendas

Em São João del-Rei, São Jorge perde a cabeça, mas não perde a vergonha! E nem a pose!

Antigamente, em São João del-Rei, no tempo em que nossos pais viviam a infância, certamente fazia parte do universo deles a mula-sem-cabeça: aquela figura imaginária e muito temida, que andava a horas mortas pelos locais ermos, nas noites da quaresma. Seu tropel, ora lento e bem compassado, ora veloz e desritmado, era percebido pelo bater de seus cascos no calçamento das ruas, e do mesmo modo que surgia, desaparecia, no silêncio, ao longe.  Fora a estória de uma ou outra alma penada, em um corpo decapitado, vagando pela noite à procura de sua cabeça, cortada por castigo, vingança, cobiça, inveja, ira - ou simplesmente por crueldade - em São João del-Rei, sempre que se falava (e ainda hoje quando se fala!) que alguém perdeu a cabeça, na maioria das vezes é para justificar desaforos, adultérios, crimes passionais, e até mesmo assassinatos. Mas neste domingo por volta do meio-dia, passando pela lateral direita da igreja do Carmo, uma cena incomum chamou minha atenção: São Jorge deca...

O diabo dia e noite no dia a dia da antiga São João del-Rei

Hoje as coisas estão muito diferentes, mas antigamente o diabo estava presente dia e noite em todas as coisas de São João del-Rei. Afinal, quanto maior for a religiosidade de um povo, mais canais e ambientes existem para as pessoas estabelecerem relacionamentos com o mundo sobrenatural. E sendo São João del-Rei uma cidade tão religiosa, imagine ... Principalmente pelos são-joanenses mais simples, mais humildes, mais crédulos e menos letrados, a presença do anjo das trevas era muito temida. Chegava às vezes a ser pressentida e evitada, mas as vezes, em situações diversas, seu nome era exclamado e, mais raramente, até invocado. Quem nunca ouviu: - isso é coisa do diabo! ou, - mas que diabo, sô!, ou, ainda, - vai pro diabo que o carregue!? Se fora de hora o galo fazia barulho estranho no galinheiro, tinha-o visto passar por perto. Se algum objeto ou documento misteriosamente sumia dentro de casa, era ele que tinha escondido. Se alguém se via diante de um desejo incontrolável de faze...

As linhas da mão e a fibra real do coração de São João del-Rei

Cidade colonial, barroca, as linhas de São João del-Rei, em sua maioria, são curvas. Curvas telhas, curvas torres, curvas beira-seveiras, curvas pontes, curvas conchas, rocalhas e volutas, curvas barroquices, como a curva lua crescente de prata que firma o pé de Nossa Senhora da Assunção, em sua subida ao céu no dia 15 de agosto. Diferentes destas, tem também a linha do trem, paralela e reta, que agora só leva à vizinha Tiradentes... Mas além destas, tem muitas outras linhas, que desenham o passado no presente, mostrando às vezes o que, a olho nu, no corre-corre da rotina, muitas vezes não se vê: as tramas do pau-a-pique das velhas paredes, os detalhes das aldabras e dos gradis de ferro batido, a harmonia secular das pedras pé-de-moleque, as nervuras e formatos das pétalas e das folhas de nossas plantas devocionais e da medicina popular. Tudo isso tem fibra, e esta fibra é real. Isso mesmo: Fibra Real é o nome de um projeto são-joanense muito interessante. Discreto como os minei...

Novos tempos, novas mulas sem cabeça assombram São João del-Rei

Uma rua estreita, sinuosa, com subida e descida, no centro da cidade, tendo na metade uma pedreira angulosa e no alto dela um cruzeiro bicentenário, erguido no tempo em que mulas sem cabeça corriam noturnas a horas ermas e mortas, aterrorizando a todos com suas línguas de fogo. Talvez, superando interrupções, uma continuidade da Rua Santo Antônio – caminho dos bandeirantes, escravos, libertos e aventureiros, no alvorecer do século XVIII, atravessando a Vila de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes rumo à Rua do Fogo e à Rua do Barro Vermelho. Paralelo a uma ponta da avenida principal, o lugar foi batizado com um nome estranho, que os índios tupis falavam para referir-se a uma árvore de grandes e polpudas vagens. No seu começo, tem um alto muro de arrimo de pedras aparentes que em certas épocas do ano mais parece uma cascata de samambaias, musgos e liquens. No seu final, uma cruz alta, fina e simples, fincada em uma pequena pedra, sem os estigmas mas com a tabuleta J.N.R....

Em São João del-Rei, Mãe do Ouro fez estrela virar pepita e dragão virar serpente no fundo Rio Jordão

Quem anda por São João del-Rei se encanta com a paisagem urbana. Seus casarios, suas pontes, seus largos, seus jardins, suas escadarias, balaústres e monumentos. Se encanta com a paisagem religiosa. Suas procissões, suas novenas, seus ritos, seus ofícios, responsórios, antífonas, Te Deum's. Suas igrejas, seus anjos, seus santos, suas portadas e suas torres. Se encanta com sua paisagem sonora. Seus toques de sino, dobres, tencões, terentenas, tens-tens, floreados, repicados, canjica queimou. Seus sons de orquestra, violinos, violas, bombardinos, trompetes, trompas, trombones, flautas, vozes. Seus toques de banda, dobrados, marchas. Seus apitos do trem, das fábricas, com o estrelamento ruidoso e brilhante de seus foguetórios... - Mas e a paisagem humana de São João del-Rei, o que ela nos mostra? - Ora, muito mais do que a gente imagina! A paisagem humana de São João del-Rei é feita de tempo, de sonho, imaginação e sentimento. Ela está em toda parte. O tempo todo. É só ...

A mítica e a mística popular na Quaresma de São João del-Rei

Antigamente, a Quaresma era um tempo tenebroso em São João del-Rei. Acreditavam os mais velhos que no Carnaval o Diabo era solto da prisão do Inferno e desde então ficava vagando pela Terra até o momento em que se comemorasse, com sinos e com foguetes, o Aleluia. Relacionavam este período aos quarenta dias em que Jesus jejuou no deserto e foi tentado por Satanás. A partir da Quarta-feira de Cinzas, cessavam os bailes nos clubes. Nas casas, os radios funcionavam em volumes mais baixos e não raramente as pessoas evitavam fazer barulho, batucar, cantar e até falar alto, em compaixão e respeito àquele que, no final dos quarenta dias, todo ano é crucificado. Era comum praticar jejuns curtos e voluntários, assim como em hipótese alguma se deveria comer carne às sextas-feiras, substituindo este alimento por ovo ou sardinha em lata. Os mais penitentes estendiam  este sacrifício também para as segundas e quartas-feiras. Bebidas alcóolicas, convinha evitá-las ao máximo. Era comum cont...

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco do Capitão do Mato do sagrado ao pecado, perdição

Entre os velhos becos da colonial São João del-Rei, um era o mais desgraçado. Caminho da maldade e do pecado, era o Beco do Capitão do Mato. Numa ponta, imaculada, a pureza e a bondade. Torre branca, muitas portas, tudo para a capela do Santíssimo Sacramento, em eterna adoração, na igreja do Carmo. Na outra, pura obscuridade: mulheres de vida livre, serenatas, rufiões, risadas, bandidos, gemidos, pervertidos, miseráveis, jogatinas, cachaçadas. No caminho de pedra e poucos passos, entre virtude e desgraça, morava a crueldade do solitário capataz que a alma ao diabo, em troca de ouro, entregara. O tempo passou. Adeus Margarida Tomba-homem. Adeus Helena dos Cachos. Adeus Índia Paraguaia. Adeus mulheres da vida. Adeus escravidão. Adeus capitão do mato... Estreito e simpático, entre a igreja do Carmo e a Rua da Cachaça, o Beco do Capitão do Mato é hoje uma rota inocente, de pedra calçada. Tanto que, na voz do povo, tem nome infantil: Beco da escadinha, Beco do Carmo. Visto da parte...

Lincoln de Souza: ouro de São João del-Rei que refulgiu aquém e além da Serra do Lenheiro

Quando nasceu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, em 1704, o ouro brotava à flor da terra, às margens do riacho e nos cocurutos da Serra do Lenheiro, entre cascalhos, quartzos e raízes, abrindo trilhas que, pouco tempo depois, em 1713, viraram ruas da nascente e fulgurante Vila de São João del-Rei. Metal precioso, o ouro esgotou-se. Mas do solo são-joanense continuou brotando outro ouro, ainda mais brilhante, fino e precioso: um povo cuja alma é iluminada pela fé, pela arte, pelo saber e pela cultura. Duvida? Quem percorre, nas noites de sábado, entre telhados, lampiões, sinos e torres, os largos, becos e ruelas,  igrejas e cemitérios do centro histórico de São João del-Rei, acompanhando o espetáculo itinerante Lendas São-Joanenses , não imagina que a estória fantástica do menino perdido que foi devolvido à família por Nossa Senhora, do defunto que o diabo levou para o nunca mais, da mãe morta que voltou ao mundo a pedir comunhão para o filho agoniza...