terça-feira, 29 de novembro de 2011

Em São João del-Rei, uma rua começa na alegria e vai dar no meu coração...*


A alegria é mulher e, morando em São João del-Rei, tem lá uma rua só pra ela. É a Rua da Alegria - estreita, ligeiramente curva, colorida, graciosa, sedutora e serelepe. Fica paralela à majestosa igreja do Carmo, separada apenas pelo Beco da Escadinha. Tão perto que, estendendo o braço com pequeno esforço, é possível até pegar na mão de Nossa Senhora e tomar-lhe a bênção. Nesta rua  fica o Centro Cultural Feminino da cidade.

O Centro Cultural Feminino de São João del-Rei é coisa só de mulher? Né não, cara! É um espaço universal e democrático, onde se cultiva principalmente trabalhos manuais, que a maioria das mulheres gosta de fazer: artesanatos, bordados, amarrados, enfeites, estampas, flores, imagens, tecelagens - tudo o que requer delicadeza, tempo, paciência, dedicação, convívio, conversa (muita conversa!), cumplicidade e saber antigo. Lá os produtos da ação, da criação e da imaginação estão sempre em exposição e, por um preço camarada, podem tornar mais bonito o lugar onde você mora e a  casa de quem você tem afeição.

Sejam pontos de bordado ou pontos que dão ritmo a frases e a palavras, o Centro Cultural Feminino de São João del-Rei não dá ponto sem nó. Tanto que, volta e meia, promove eventos culturais com leitura de poemas, lançamento de livros e abre suas portas e seu quintal para autores trocarem ideias com leitores. Até a música, entre uma pausa e outra, costuma dar uma passada por lá e fazer serestas e pequenos recitais.  Em todos eles, homens não faltam...

Quem sabe daqui a pouco aquele espaço cultural não venha a oferecer também, para seu "público prioritário", oficinas de letras, com foco na produção poético-literária para culinária e bordados? Poemas de comer. Versos de beber em pequenos goles. E mais: versacolas, verstítulos, poesias de vestir, de cobrir, de enrolar e desenrolar, na forma de cintos, pulseiras, colares, objetos para o lar, para jardins, para sonhar, dormir e acordar?

Dos retalhos, contas, cores, flores, fibras e fios, o Centro Cultural Feminino são-joanense já chegou à internet e, com um blog, agora faz a Rua da Alegria de São João del-Rei se estender até todos os cantos do mundo. Planetariamente estreita, ligeiramente curva, colorida, graciosa, sedutora e serelepe. Seu endereço eletrônico é http://centrocfemininosjdr.blogspot.com/.

Já seu endereço físico, postal, é Rua Marechal Bitencourt. Antigamente Rua da Cachaça. Depois Rua da Alegria! Tomara que em breve Rua da Arte...
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*Título inspirado em verso do poema América, de Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

São João del-Rei teve chafariz no Largo São Francisco. Foi por água abaixo!...

Atualmente São João del-Rei ainda tem três chafarizes: o da Legalidade, de cantaria, na Praça dos Expedicionários, o da Municipalidade, no Largo do Carmo, e o da Deusa Ceres, na Praça Bom Jesus de Matosinhos - estes dois de ferro fundido. Entretanto, há registro de que, no dia 28 de novembro de 1750, a Câmara mandou construir uma fonte pública, nas imediações da igreja de São Francisco.

Da decisão à ação, foi um pulo. Dez dias após a deliberação, portanto no dia 8 de dezembro de 1750, João Batista de Almeida arrematou a execução da obra por 60 oitavas de ouro. Era exigência que tivesse um tanque coberto, medindo seis palmos de comprimento, quatro palmos de altura e outros quatro de largura e oferecesse água farta, boa e pura à população são-joanense setecentista em duas bicas de ferro.

Por enquanto, nada se sabe de sua fachada ou frontispício. Tampouco da época e circunstância de sua demolição e muito menos de seu destino. Bom, isto é assunto para historiadores, pesquisadores, estudiosos e estudantes. Mas onde está o problema, se São João del-Rei tem tantos intelectuais e até um curso superior de História em sua renomada Universidade?
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Batismo de sangue e fogo trouxe o Inferno à Vila de São João del-Rei. Era novembro de 1709...


Além da matança brutal que consumiu muitas vidas no Capão da Traição, uma das cicatrizes que a Guerra dos Emboabas deixou no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, depois Vila de São João del-Rei, foi o incêndio de todas as casas do povoado, inclusive da primitiva capela de Nossa Senhora do Pilar. Por ordem dos portugueses, o fogo foi ateado no dia 18 de novembro de 1709, consumindo todas as edificações, em sua maioria cobertas de palha.

Durante muitos anos a lembrança das chamas ardentes aterrorizou a população são-joanense e preocupou o governo da Provìncia. Tanto que, oito anos depois, exatamente no dia 26 de novembro de 1717, o Governador Dom Pedro de Almeida enviou correspondência ao Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei, ainda para tratar daquele sangrento assundo. Na carta, proibia que, a partir de então, fosse construída naquela Vila qualquer edificação coberta de palha. Cumprindo a ordem, há 294 anos, a Câmara fez publicar um Edital, onde se lia.

          "... Declaramos que só concederemos licença para se fabricarem novas casas nas iminências e paragens da parte onde está a igreja, e nas colinas circunvizinhas com declaração de que hão ser cobertas de telhas."

A igreja citada é a Matriz do Pilar, na sua localização atual. As colinas circunvizinhas são a região da igreja das Mercês, Largo da Cruz, Largo do Carmo, Beco do Cotovelo, Beco do Salto, Ruas Santa Teresa e Santo Elias, Muxinga, Rua do Ouro, Rua das Flores, Rua da Laje, Rua Santo Antônio e arredores. Alí se constituiu, de fato, o primeiro núcleo verdadeiramente urbano da Vila de São João del-Rei, certamente com traçado muito semelhante ao que hoje conhecemos.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

À memória de meu pai, Geraldo Sebastião da Costa


Na noite que sucedeu a tarde em que sepultamos meu pai (18/11), dormi demorado sono profundo. Cansaço, esgotamento, tristeza, alienação, fuga, solidariedade, desejo de identificação - cada coisa ou todas elas, pode ser.

Sonho contínuo, fatos unidos igual às contas do terço que nos últimos muitos anos, antes de dormir, religioso ele rezava. Entre duas pencas de ave-marias, como um perdido Pai Nosso, a pergunta surgiu no território onírico e ficou na memória, mesmo depois de acordar: "Que pode uma criatura senão, entre outras criaturas, amar?"

Assim Drummond, sem explicação, voltara a São João del-Rei para se juntar a mim e a meu pai naquela madrugada. A pergunta brotada no sonho é o primeiro verso do poema Amar, que partilho com os amigos internavegadores, reproduzindo-o abaixo, integralmente, nas formas escrita e falada.

          "Que pode uma criatura senão,
            entre criaturas, amar?
            amar e esquecer,
            amar e malamar,
            amar, desamar, amar?
            sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

           Amar solenemente as palmas do deserto,
           o que é entrega ou adoração expectante,
           e amar o inóspito, o áspero,
           um vaso sem flor, um chão de ferro,
           e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

          Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
          amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita."

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Ilustração: anjo em detalhe de mausoléu no Cemitério de São Francisco de Assis de São João del-Rei. (foto do autor)

Em São João del-Rei, quem clareia o dia é sempre a clave de sol...


Nesta terça-feira, 22 de novembro, a 30a Semana da Música de São João del-Rei chega ao final, com uma merecida homenagem a Santa Cecília - padroeira da Música e dos músicos. Foram nove dias de intensa programação, composta por dezesseis eventos culturais - retretas, concertos, missas barrocas, tríduo e procissão, da qual participaram duas orquestras bicentenárias, a centenária Banda Theodoro de Faria, a quase centenária Sociedade de Concertos Sinfônicos e diversas corporações musicais são-joanenses remanescentes do século XX ou criadas no século atual.

Folheando o livro Efemérides de São João del-Rei, mais precisamente a página 485 do volume 2, vemos que, em 1966 a cidade começou um movimento cultural, focado na música, de finalidade muito semelhante à que se propõe a Semana que nesta terça-feira se encerra. Era o Festival de Música de São João del-Rei, organizado pelo Serviço de Recreação e Turismo da Prefeitura Municipal. Também a data de sua realização coincidia com a do evento atual: a semana do dia 22 de novembro, dedicado a Santa Cecília.

A programação brindava a população são-joanense com música erudita e popular de qualidade, em operetas, missas, concertos e retretas que reuniam as orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, a Banda Theodoro de Faria, a Sociedade de Concertos Sinfônicos, alunos e professores do Conservatório Padre José Maria Xavier. Como convidados na primeira e segunda edição do Festival, participaram a corporação Lira Ceciliana, de Prados, a Banda do Batalhão de Guardas da Guanabara,  o Coral da Universidade Federal de Juiz de Fora, a Sociedade Musical Carlos Gomes, de Santos Dumont, e o Balé Musical do Teatro Francisco Nunes, de Belo Horizonte.

Segundo o historiador Sebastião Cintra, autor da obra citada como referência deste post, participação destacada no Festival tiveram os músicos são-joanenses e cidadãos devotados que, nos anos sessenta e setenta, davam vida e dinamismo ao universo cultural de São João del-Rei. Só para citar alguns nomes, como exemplo: Djalma Tarcísio de Assis, maestro Pedro de Souza, Domingos Cirilo Assunção, Benigno Parreira, Sílvio de Araújo Padilha, Mercês Bini Couto.
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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Uma Semana de Música e de nove dias em São João del-Rei

Uma semana de nove dias? Em São João del-Rei tem. É a 30ª Semana da Música, que começa nesta segunda-feira, 14 de novembro, e vai até terça-feira da semana que vem, dia 22. Tudo para homenagear a Música e sua padroeira, Santa Cecília.

Serão dezesseis eventos - entre retretas, concertos, tríduos, missa barroca, procissão e Bênção do Santíssimo Sacramento - envolvendo dez corporações musicais, entre elas algumas muito antigas, como as bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, a centenária Banda Theodoro de Faria e a Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei, que já deve estar caminhando para completar um século de excelentes serviços musicais prestados à terra onde os sinos falam.

Como você vê, a Música - que desde 1717 mora e passeia pelas ruas históricas, pelos largos e becos, jardins, coreto, teatros e igrejas de São João del-Rei - nos próximos dias vai ocupar todos os espaços da cidade, espalhando em tudo notas de alegria, entusiasmo, felicidade e contentamento, em um repertório de primeira grandeza. Será impossível, nesta semana de nove dias, estar em São João del-Rei e não ser arrebatado pela Música...
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  Serviço 
Para conhecer a programação completa, acesse http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/events/view/2008

domingo, 13 de novembro de 2011

Herói contemporâneo, Tiradentes navega no ciberespaço e tem até página no Facebook



Duzentos e dezenove anos após sua morte, Tiradentes continua vivo. E muito vivo! Tão vivo que tem até página no Facebook...

Quer ver? Então acesse

http://www.facebook.com/media/set/?set=a.192615460763945.56533.124068884285270&type=1

Parece que a página foi criada há pouco tempo e, além de duas imagens, tem apenas as seguintes informações pessoais:

JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER, o TIRADENTES (Fazenda do Pombal), batizado em 12 de novembro de 1746 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792) foi um dentista, tropeiro, minerador, comerciante, militar e ativista político que atuou no Brasil colonial, mais especificamente nas capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
 No Brasil, é reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira, patrono cívico do Brasil, patrono também das Polícias Militares dos Estados e herói nacional. O dia de sua execução, 21 de abril, é feriado nacional.

Sem dúvida é uma página "fake", mas que relevância isso tem se efetivamente constitui mais um canal de difusão da memória nacional - por sinal um canal contemporâneo e eficiente, que pode ter até finalidades didático-pedagógicas para o público mais jovem? Parabéns ao autor da página, pela criatividade, visão e iniciativa, criando uma inventiva ponte que une passado e presente e até nos permite, virtualmente, enviar mensagens para o herói batizado em São João del-Rei em 12 de novembro de 1746.

Tomara que suas intenções sejam sérias e que, na medida do possível, ele se valha de documentos, estudos, informações e análises acadêmicas, historiográficas, sociológicas, antropológicas, artísticas e culturais para administrá-la e atualizá-la. Aí, sim, ele estará prestando um importante serviço à memória nacional, com esta iniciativa ousada e de vanguarda colocando-se na frente de muitas instituições, organizações, entidades e intelectuais que institucionalmente têm essa missão ou voluntariamente se delegam esta responsabilidade.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

São João del-Rei constrói novo Sudário do herói Tiradentes


As comemorações do Dia da Liberdade e da Cidadania, celebradas na data em que, em 1746, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi batizado na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, Termo da Vila de São João del-Rei, apontam para um novo olhar sobre o herói maior de um dos mais importantes capítulos da história nacional: a Inconfidência Mineira.

Sinalizam também para vários aspectos que, mesmo simbólicos, mostram estar aquele território ressignificando a própria história; os são-joanenses dispondo-se a olhar o mundo com novos olhos e seguir rumo ao futuro com renovada determinação. Não mais objeto, mas sujeito. Não mais determinismo, mas imprevisibilidade, com uma plenitude de possibilidades. Não mais crença, mas confiança. Não mais vítima, mas agente. Protagonismo.

Isto cada vez fica mais claro quando percebemos a evolução / renovação do culto ao herói Tiradentes, em São João del-Rei realizado. Ao 21 de abril, data de sua morte, se acrescentou outra data comemorativa - o 12 de novembro, data de seu batismo, comemoração que já nasceu fortalecida regionalmente. Também a iconografia do herói começa a se modificar, substituindo-se o condenado, sacrificado, esquartejado, derrotado pelo cidadão digno, inserido na sociedade da época.

Sem dúvida, ainda é um estereótipo, que lembra modelo similar americano e europeu. Mas sem dúvida é um avanço, em termos de visão positiva e imagem, que conduz a maior confiança, credibilidade, dignidade, orgulho e desejo de identificação. A atual representação imagética já expressa o imaginário local ou se aproxima, identitariamente, da coletividade dos mineiros habitantes das terras inconfidentes?

É bem verdade, ainda não. Mas passo importante está sendo dado. Quem sabe, daqui a alguns anos, a representação do herói Tiradentes não tenha, de fato, a face do homem destas terras?

Veja, abaixo a soprano Rute Pardini e o pianista Francisco Braga interpretando a canção Coração de Heroi, especialmente composta por Marcos Viana para ser executada na outorga da Comenda da Liberdade e da Cidadania na Fazenda do Pombal, em 12 de novembro de 2011.
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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Em São João del-Rei, cidadania e liberdade, poesia e prece pelo heroi Tiradentes


Na semana em que São João del-Rei celebra os 265 anos de nascimento e batismo de Tiradentes, com  programação enriquecida pela outorga da Comenda da Liberdade e da Cidadania, que tal relembrar o poema que Cecília Meireles escreveu em 1955, uma conversa entre o menino Joaquim José e a Virgem na capela de Nossa Senhora da Ajuda, Fazenda do Pombal, então Termo da Vila de São João del-Rei.

O altar da citada capela (foto acima) é parte do rico acervo histórico são-joanense e pode ser conhecido no Museu de Arte Sacra, localizado no Largo do Rosário de São João del Rei.

Romance XII ou De Nossa Senhora da Ajuda
Havia várias imagens na capela do Pombal. E portada de cortinas, e sanefa de damasco,
e, no altar, o seu frontal. São Francisco, Santo Antônio olhavam para Jesus
que explicava, noite e dia, com sua simples presença, a aprendizagem da cruz.

Havia prato e galhetas, panos roxos e missal. E dois castiçais de estanho,
e vozes puxando rezas, na capela do Pombal. (Pequenas imagens de pouco valor,
os Santos, a Virgem e Nosso Senhor) Aquilo que mais valia na capela do Pombal
era a Senhora da Ajuda, com seu cetro, com seu manto e coroa, com seus olhos de cristal.

Sete crianças, na capela, rezavam, cheias de fé, à grande Santa Formosa.
Eram três de cada lado, os filhos do almotacé. Suplicam as sete crianças
que a Santa as livre do Mal. Três meninas, três meninos.
E um grande silêncio reina na capela do Pombal...

(Mas esse, do meio, tão sério, quem é?
- Eu, Nossa Senhora, sou Joaquim José!)

Ah! como ficam pequenos os doces poderes seus! Este é sem Anjo da Guarda,
sem Estrela, sem Madrinha...Que o proteja a mão de Deus!
Diante deste solitário, na capela do Pombal, Nossa Senhora da Ajuda é
uma grande imagem triste, longe do mundo mortal.

(Nossa Senhora da Ajuda, entre os meninos que estão rezando aqui na capela,
um vai ser levado à forca, com baraço e com pregão!)
(Salvai-o, Senhora, com Vosso Poder, do triste destino que vai padecer!)
(Pois vai ser levado à forca, para morte natural,  este que não estais ouvindo -
tão contrito, de mãos postas - na capela do Pombal!)

Sete crianças se levantam. Todas sete estão de pé, fitando a Santa formosa,
de cetro, manto e coroa. No meio Joaquim José.

(Agora são tempos de ouro. Os de sangue vêm depois. Vêm algemas,
vêm sentenças, vêm cordas e cadafalsos, na era de noventa e dois.)

(Lá vai um menino entre seis irmãos.
Senhora da Ajuda, pelo Vosso nome, estendei-lhe as mãos!)
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MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência.
Foto: Altar da capela de Nossa Senhora da Ajuda da Fazenda do Pombal. Acervo Museu de Arte Sacra. São João del-Rei

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

São João del-Rei festeja, com liberdade e cidadania, o visionário sonhar do herói Tiradentes

Certamente será a primeira vez que um herói brasileiro terá seu nascimento tão grandiosamente festejado e, sobretudo, na cidade em que foi batizado. Certamente será também o primeiro herói brasileiro a ser festejado em duas datas: a de seu nascimento e a de sua morte.Quem é ele? Joaquim José da Silva Xavier, historicamente conhecido pelo apelido Tiradentes. Qual a cidade da comemoração? São João del-Rei...

A grandiosidade das comemorações pode ser mensurada pela consistência e propósito das atividades que serão desenvolvidas. O Instituto Histórico e Geográfico da cidade, por exemplo, conjuntamente com a Chancelaria da Comenda da Liberdade e Cidadania, promoverá do dia 9 ao dia 13 deste mês um seminário composto por 15 palestras e conferências, proferidas por intelectuais de renome. Tratarão desde recentes descobertas historiográficas sobre a realidade vivida no tempo do ouro até as mais novas convenções da Unesco sobre bens culturais. Discorrerão com entusiasmo e realismo sobre questões ligadas à liberdade e à cidaddania, analisando também as atuais e quase sempre muito conflitantes  relações entre patrimônio cultural e extrativismo.

Entretanto as atividades comemorativas não se restringirão a eventos informativos de caráter histórico e oficiais, como a entrega da Comenda da Liberdade e Cidadania a brasileiros que se destaca(ra)m por seu compromisso concreto com os ideais de Tiradentes. A festa também terá forte apelo popular, com apresentações da Banda da Polícia Militar de Minas Gerais e concerto, em praça pública, da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

E, como estamos em São João del-Rei, não poderiam faltar três coisas: missa barroca com participação de orquestras bicentenárias, apitaço da Maria Fumaça e toque dos sinos de todas as igrejas do centro histórico.

Se você estiver na cidade de 9 a 13 de novembro, não perca!

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Foto: Anjo com cartela sobre capitel. Detalhe da portada da igreja do Carmo de São João del-Rei

sábado, 5 de novembro de 2011

Respeito e voz para os terreiros e para a negritude mulata de São João del-Rei

Cultura afrobrasileira? São João del-Rei tem, sim senhor! Só que aqui, por eufemismo tão típico dos mineiros, afrobrasileiros "mais claros, desbotados" e seus descendentes são, muitas vezes, regionalmente, classificados e chamados de mulatos.

Entendido isto, vamos lá: a música colonial do Campos das Vertentes, quem compôs? Os músicos mulatos. E nas orquestras barrocas bicentenárias, o que muito tem? Músicos mulatos. As Folias de Reis, Congadas e Pastorinhas, quem as mantém? São-joanenses mulatos. Os sinos e seus toques, no alto das torres, viram dobres mulatos.

Mulatos são os Passinhos da Paixão, as Pontes da Cadeia e do Rosário, os Cruzeiros e as matracas, a couve picada fininha, o angu, o torresmo, a farofa, a feijoada, a pimenta, o doce de abóbora com coco, as amêndoas no tacho de cobre, a cachaça com mel, o bolinho de feijão - São João del-Rei é cada vez mais uma cidade mulata. E não era para ser, pois os censos realizados no tempo da Colônia falam que a Vila de São João del-Rei era, de todas, a que possuía a maior população branca de Minas Gerais.

Quem tiver dúvida sobre a negritude (epa! sobre a mulatice...) de São João del-Rei não pode deixar de visitar a exposição "Fala terreiro e que soem os tambores de Minas!" Nela, vai conhecer fotografias e outros registros das manifestações da cultura afrobrasileira próprias das comunidades de terreiros e dos grupos de congada e de folias de São João del Rei e de outras cidades da região.

A anfitriã é a Associação Afrobrasileira Casa do Tesouro de São João del-Rei e o local da exposição não poderia ser mais convidativo: a Casa de Bárbara Heliodora, no Largo de São Francisco.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Felit, Semana da Música, Vertentes da Liberdade. Novembro ferve arte e cultura em São João del-Rei


Novembro é mês de memória, lembrança e saudade em São João del-Rei. Tempo de saudar o ontem e evocar os mortos, sem dúvida, para garantir-lhes perpetuidade. Mas, também, tempo de celebrar a vida, o agora e a eternidade do sempre, por meio da cultura nas suas mais diversas formas. Nada menos do que isto é o que este mês acontece na cidade.

Especialmente no período de 10 a 20, São João del-Rei será palco e agente de um democrático e efervescente movimento cultural. O Festival de Literatura -Felit encherá de literatura, cinema e gastronomia auditórios, largos, becos e bares do centro histórico, este ano para homenagear o escritor Ziraldo. No dia 12, um  grande concerto em frente ao Coreto homenageará a vida do herói Tiradentes, na data em que, no século XVIII, ele foi batizado na Vila de São João del-Rei. E a Semana da Música, realizada em honra de Santa Cecília, padroeira dos músicos, na sua trigésima edição afasta qualquer dúvida: São João del-Rei é mesmo terra de rica de cultura. É isso o que os sinos falam e a realidade não ousa desmentir...
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

São João del-Rei. Del Rei Sol de Portugal, "d'Aquém e d'Além Mar, Senhor da África, Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia."


Todos sabemos que o nome São João del-Rei - criado em dezembro de 1713, quando o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar foi elevado à categoria de Vila, sede da Comarca do Rio das Mortes - homenageia o rei português Dom João V. Mas e daí: quem era este rei e o que ele tinha de especial?

Famoso por seu amor à arte e à cultura, especialmente à Música, tanto que sua alcunha era O Magnânimo, Dom João V nasceu em Lisboa, em 16 de outubro de 1689. Oito anos depois foi "jurado" Príncipe Herdeiro e em 1706 tornou-se o 24º rei de Portugal. O ouro das Minas Gerais dourou seu reinado com exuberância, opulência e luxo, consagrando o mornarca como o "Rei Sol Português".

Dom João V também tinha suas esquisitices. Apesar de muito dedicado à fé cristã, a ponto de receber do Papa Bento XIV o título de "Majestade Fidelíssima", era sexualmente aficcionado por freiras. Com elas teve alguns filhos, conhecidos como "Meninos de Palhavã",

Mas isto não impediu que aos dezenove anos o "Freirático" se casasse com a sereníssima arquiduquesa Maria Ana Josefa Antônia, filha do Imperador da Áustria. Com ela teve cinco filhos e cinco outros fora do casamento real. Em homenagem à rainha Dona Mariana d'Áustria se deu nome à mais antiga vila de Minas Gerais, o que permite afirmar que, historicamente, profundos laços de amor unem as cidades históricas de São João del-Rei e Mariana.

Dom João V tinha saúde frágil, mas seu reinado durou até 31 de julho de 1750. Foi um período politicamente muito agitado para Portugal, principalmente para manter em harmonia as relações internacionais com Espanha, França e Inglaterra. Contudo a metrópole impulsionou grande desenvolvimento econômico, cultural e social e a sociedade portuguesa experimentou mais liberdade moral e de costumes. Especialmente as mulheres, que passaram a ser vistas em público, inclusive dançando e cantando nos bailes de salão que antes só tinham participação masculina.

O Magnânimo Rei Sol  Português era tão especial que aparece até no enredo de um filme luso-brasileiro. O Judeu, produzido em 1995 sob a direção de Tom Job Azulay, conta a história da Inquisição em Portual no tempo de El Rey Nosso Senhor Dom João V, que é interpretado pelo ator lusitano Mário Viegas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Novembro. Tempo de saudades, lembranças e memórias em São João del-Rei


Novembro, em São João del-Rei, é um mês diferente. Antigamente, amanhecia com a ladainha de Todos os Santos, saindo da Matriz do Pilar e rezada apressadamente e em movimento como um rosário a unir becos, travessas, ruas, largos, pontes de pedra, Passos da Paixão e cruzeiros. Mal a noite saudasse o dia, de manhã cedinho, antes que o sol nascesse. Primeiro de novembro. À noite o sino já tocava (e ainda hoje toca) códigos, ritmos e saudações  funerais. Véspera de Finados.

Dia 2, missa barroca, de cordas lamentosas, metais pungentes e responsórios de Trevas no entremuros altos do Cemitério das Almas, dos Passos, do Santíssimo e da Boa Morte, cada qual com sua legião de mortos. Colina da Muxinga. De lá se avista, como delimitação precisa entre os territórios do aqui e do além, do agora, do sempre e do jamais, a Serra roxazul do Lenheiro. Fúnebres, de todas as torres, em dois de novembro os sinos tocam  até o sol se por. Silêncio e noite eterna depois.

E voltarão a tocar mais, outros dias do mês, com o mesmo propósito. Chamarão para missas pelos "Irmãos Defuntos" e anunciarão as  "Solenes Encomendações de suas Almas": na primeira segunda-feira depois de Finados pelos irmãos das Almas; na quarta seguinte pelos da Boa Morte; na quinta pelos do Santíssimo Sacramento, na sexta pelos saudosos da Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos.

As homenagens continuarão no dia 12, dedicadas aos defuntos da Ordem Terceira de São Francisco; dia 15 pelos do Carmo e também pelos de São Gonçalo.

Dia 16 as três Encomendações de Almas mais solenes evocam a memória dos falecidos da Irmandade do Rosário. A primeira, na igreja mais  antiga de São João del-Rei, lembra os sacerdotes que já se foram. A segunda no Cemitério do Rosário, chama os irmãos e irmãs que não estão mais neste mundo. A terceira no mesmo Campo Santo, diante do chão onde dorme o sacerdote-compositor são-joanense Padre José Maria Xavier, louva todos os músicos da cidade, que bem poderia se chamar Clave de Sol.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

São João del-Rei, 2 de novembro, 1797: o sagrado desce água abaixo. Sobe a Ponte da Cadeia!


A Ponte da Cadeia, - por sua beleza clássica e imponente e por sua grandiosidade arquitetônica - é um dos símbolos mais fortes e um dos mais consagrados ícones de São João del-Rei. Entretanto, o que poucos sabem é que sua construção, no projeto que ainda hoje vemos, foi motivado por uma tragédia, ocorrida exatamente no dia 2 de novembro.

Era 1797. O pároco da Vila de São João del-Rei, acompanhado por um pequeno cortejo, atravessava com com Santíssimo Viático a Ponte da Rua da Intendência, a levar comunhão para alguns doentes. Gasta pelo tempo e pelo uso, a ponte não suportou o peso do reverendo nem de sua devota comitiva e, sem piedade, tirou-lhes o solo, lançando-os nas águas corredeiras que desciam da Serra e cortavam a Vila de São João.

"Por um milagre extraordinário ficarão ilezas e salvas da corrente do Rio (naquela época, de tão caudaloso, o Córrego do Lenheiro parecia um rio) as sagradas formas, ao mesmo passo que todas as pessoas que 'O' acompanhavam em mayor parte dellas forão gravemente mollestadas". Assim o fato está registrado na folha 275 do Livro de Acórdãos da Vila de São João del-Rei, referente aos anos 1791-1798.

O acontecimento teve grande repercussão, tanto na Vila quanto na Provîncia, na Colônia e até mesmo na Metrópole, visto que envolvia o símbolo maior da Igreja. Assim, imediatamente formam exigidas e adotadas providências para a construção de uma ponte de pedra, sólida e resistente para suportar todos os pesos, enchentes e tempestades. Até hoje a Ponte da Cadeia - assim como suas irmãs Ponte do Rosário, Ponte dos Suspiros, Ponte do Teatro e Ponte da Estação, todas sobre o Córrego do Lenheiro - cumpre este papel.

Quem ganhou com isto? A arte, a memória, a arquitetura, a história e, principalmente, São João del-Rei. Mesmo quem não conhece este capítulo da história são-joanense, percebe claramente que a Ponte da Cadeia, feita de pedra e óleo de baleia, é projeto arquitetônico-urbanístico magnífico - uma das mais belas expressões da arte colonial urbana brasileira.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira -Efemérides de São João del-Rei. Volume II. 2a edição revista e aumentada. Belo Horizonte. Imprensa Oficial. 1982.