terça-feira, 30 de outubro de 2012

De tristeza, sinos de São João del-Rei dobram "de trás pra frente, pelo avesso" no dia de Finados


No principiar de novembro, São João del-Rei volta no tempo. É tempo de Finados. Desde o entardecer do dia 1º até o entardecer do dia 2, de tempos em tempos os sinos das igrejas barrocas dobram Finados - dobre triste, é como um toque inverso, pelo avesso, de trás para frente.

Já na manhã do primeiro dia, nas ruas coloniais do centro histórico, se percebe que é véspera. Os são-joanenses mais antigos, previamente, visitam os cemitérios, vistoriando, limpando e zelando das tumbas e ossuários. Depois, transitam pelas lojas, prevenidos que são, comprando flores artificiais que no dia seguinte serão entregues aos seus mortos. Em São João del-Rei, túmulo descuidado é o mesmo que defunto esquecido, desonrado ou por gosto abandonado, intencionalmente deixado para trás.

Antigamente, no dia 2, as velhas igrejas são-joanenses montavam em seu interior uma instalação funerária, na nave do templo ou em sua capela-mor: um tapete retangular preto ou roxo de galões dourados, quatro altos castiçais com velas compridas acesas, um em cada canto e, no centro, uma "eça" - alta mesa, de madeira escura, algumas com entalhe de caveira nas quatro faces, sobre a qual, em tempos passados, se depositava o caixão com o defunto para as orações do padre, abençoando e encomendando (ou deveria ser recomendando?) a alma a um bom destino no universo sem fim da eternidade.

Também era recomendado que, a pedido do Papa, os fiéis visitassem as igrejas que tivessem estes monumentos fúnebres, entrando nove vezes pela porta principal e saindo pela porta da sacristia, e rezando para a salvação de todas as almas. Em troca, receberiam "indulgências plenárias".

Desde um tempo longínquo se celebra uma missa barroca, às vezes na capelinha do Cemitério da Matriz, às vezes na própria Matriz do Pilar, ao som dos responsórios do Ofício de Trevas da Semana Santa, executados por uma das bicentenárias orquestras locais.

Assim, ao som esparsado dos sinos que de tristeza parecem chorar, tocando pelo avesso, de trás para frente; entre velas, flores e lágrimas, ainda se esvai cada dois de novembro em São João del-Rei, na certeza  indesejada de que muitos, hoje no lado de cá, ano que vem estarão no lado de lá.

Veja, no vídeo abaixo, o registro que uma turista fez de um enterro comum em São João del-Rei. Na descrição, ela menciona o que mais lhe chamou a atenção: o respeito dos são-joanenses diante do cortejo fúnebre, inclusive do comércio, que cerra as portas quando por aquela rua vai passar um defunto. Somente respeito, ou crença e superstição? Memórias antigas podem responder porque. Mas isto é tema para os pesquisadores de São João del-Rei.

1783-1817 - Da setecentista Casa de Caridade à Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei


No jogo de víspora, tão comum nas antigas barraquinhas das festas de largo de São João del-Rei, o número trinta e três é anunciado como "a idade de Cristo". Trinta e três anos foi o tempo que se passou entre a fundação e instalação da Santa Casa de Misericórdia são-joanense e o ato que oficializou e confirmou tal fundação. Voltemos no tempo, aliás,  tempo da Inconfidência ...

As origens da Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei nos levam a 28 de dezembro de 1783, quando Manuel de Jesus Fortes requereu ao bispado da Capitania de Minas Gerais licença para a construção de uma ermida, dedicada a São João de Deus, junto à Casa de Caridade que ele havia construído na próspera Vila. Segundo pesquisas documentais do historiador Sebastião Cintra, a construção durou menos de um ano e, para a época, era um hospital qualificado, 

            "em lugar próprio, com cômodos necessários para trinta doentes, com todas as camas precisas e distinção de lugares para pessoas de um e de outro sexo ... a obra tem merecido aplauso de todo o povo ... para ela entraram enfermos aos quais até o momento não tem faltado coisa alguma."

Apesar de já estar em funcionamento há mais de três décadas, a confirmação da fundação e existência daquele hospital ocorreu no dia 31 de outubro de 1816, por uma Provisão de D. João VI. A mudança do nome, de Casa de Caridade para Santa Casa de Misericórdia, e sua oficialização ocorreu em 21 de janeiro de 1817, quando foi aprovado o "Compromisso" e prestaram juramento os primeiros "irmãos".

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira . Efemérides de São João del-Rei . Volume II, segunda edição, revista e aumentada . Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1983.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

São João del-Rei e a saúde pública no século XVIII


Nestes dias em que outubro está indo embora, em São João del-Rei os congadeiros empunham estandartes enfeitados e fazem soar mais forte suas caixas, seus guizos e suas vozes rústicas, para  homenagear Nossa Senhora do Rosário. Madrinha e protetora dos escravos, era a ela que os negros recorriam nos tempos de ferro quente, algemas e chicotes, pedindo socorro, alívio para as dores, cicatrização para as feridas, cura para doenças, luz para a alma, paz para o coração, força e esperança para lutar e acreditar que mais cedo ou mais tarde o sol haveria de trazer um novo e livre dia.

No Brasil colonial do século XVIII, escravos eram mercadoria valiosa, custavam caro e - perecíveis pela força que o trabalho pesado lhes roubava - precisavam de pelo menos algum cuidado físico para não se deteriorarem no adoecimento. Foi nesse momento histórico que em 1708  fundaram, em São Joao del-Rei, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Afirmam alguns historiadores que foi a primeira e é a mais antiga irmandade negra criada em Minas Gerais e a segunda do Brasil.

Por ação - ou não! - de Nossa Senhora do Rosário, a 22 de outubro de 1718 a Câmara da Vila de São João contratou o médico José de Macedo Correa, formado pela Universidade de Coimbra, para "curar os pobres, de graça".  Como pagamento por este trabalho, receberia anualmente uma libra do ouro mais puro.

No pedido de autorização para esta medida social, o Senado da Câmara justificou ao ouvidor geral da Comarca que naquela vila "morriam muitos escravos por não haver quem lhes conheça os achaques para os curar." E também muitos brancos pobres que, carentes de recursos, não podiam buscar tratamento na cidade do Rio de Janeiro.

Cinquenta anos depois, no dia 23 de outubro de 1769, com a mesma intenção da Câmara, a Irmandade de São Miguel e Almas de São João del-Rei contratou o cirurgião Antonio José da Silva Lapa e o boticário Amado da Cunha Barreto para tratarem dos enfermos pobres, entre eles os escravos. Era intenção daquela irmandade construir um hospital e, para isso, até conseguiu do Senado da Câmara a doação de um terreno. Entretanto, a obra não subiu além dos alicerces...

Em homenagem aos escravos do passado e aos congadeiros de nosso tempo, ouçamos  a Radiola Tribusana no canal Clementina de Jesus, Cinco Cantos de Trabalho e Cantos dos Escravos. Afine a sensibilidade e apure os ouvidos!






terça-feira, 23 de outubro de 2012

Antes que Chacrinha, São João del-Rei já sabia: "Quem não se comunica..."


Por mais que se saiba da importância e se reconheça o pioneirismo de São João del-Rei na história de Minas, a todo instante tem uma coisa nova para se descobrir. Você imaginava que São João del-Rei foi uma das quatro primeiras vilas mineiras a ter uma agência de Correios? Isto mesmo, e desde 20 de janeiro de 1798, conforme alvará editado pelo Conde de Sarzedas, então governador da Capitania.

Entretanto, mesmo existindo este "serviço público", a população continuou contando com os mercadores, mascates e tropeiros para levar recados, dar notícias e transportar correspondências, encomendas e objetos, os mais variados. As viagens dos estafetas, que eram os carteiros da época e faziam o percurso Rio / Minas - Minas / Rio eram muito espaçadas, muitas vezes não atendendo a urgência da necessidade de informação e comunicação.

A chegada dos "carteiros" à Vila de São João era quinzenal. Anunciada por ruidosos foguetes, soltados do alto do Morro da Forca, alvoroçava a população, que logo subia as ladeiras do Bonfim para buscar correspondências ou para, simplesmente, saber em primeira mão as novidades que correriam de boca em boca nas próximas duas semanas.

A atividade postal em São João del-Rei tornou-se tão expressiva que na metade do século XX, mais precisamente em 1952, ou seja, há 60 anos atrás, foram expedidas na cidade quase 760 mil correspondências e recebidas mais de 1 milhão e 300 mil. Estes números se mostram ainda mais significativos levando em conta o tamanho da população local à época e o índice de analfabetismo do país.

Também em 1952 o Correio são-joanense movimentou 329 mil objetos sem valor e 4.900 objetos de valor e emitiu um grande número de vales postais e despachos financeiros. Foi neste ano que se inaugurou a atual sede dos Correios em São João del-Rei, bastante moderna para aquela metade de século.

O século XIX ainda não havia acabado quando os telégrafos chegaram à cidade. Era 1896. Passados pouco mais de cinquenta anos, em 1952, em São João del-Rei foram expedidos mais de 43 mil telegramas e recebidos quase 45 mil, números que novamente devem ser dimensionados segundo a população local e o percentual brasileiro de analfabetos.

Já as primeiras conversas para o telefone chegar a São João del-Rei começaram em 1912, sendo oficializadas no dia 24 de dezembro. Presente de Papai Noel? A rede interurbana da Companhia Telefônica Brasileira começou a funcionar a 11 de março de 1934, mas por muito tempo os são-joanenses reclamaram da precariedade das ligações para as capitais e cidades mais distantes, que dependiam de postos intermediários.

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Fonte: VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 2ª edição. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1953.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Em São João del-Rei, onde vai a corda, vai a caçamba!...


Dizem que corda foi feita para amarrar. Isto é verdade, em parte. Corda também serve para unir, para estreitar, para ligar. Para apresentar, conhecer, ensinar e aprender.

Pelo menos é isto o que está acontecendo de hoje até sábado em São João del-Rei. Na  setecentista e barroca cidade, a 3ª Semana de Cordas do Conservatório Padre José Maria Xavier está levando música de qualidade, gratuitamente, para diversos pontos da cidade e principalmente para um público especial: jovens, alunos das escolas públicas de ensino fundamental e médio.

- Mas o que a corda tem a ver com isso?

- Ora, as músicas são todas executadas unicamente com instrumentos de corda - violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. Com esta iniciativa o Conservatório, além de apresentar os instrumentos há muito tempo mais conhecidos na execução de músicas eruditas do que nos hits do momento, aínda desperta o interesse das crianças e adolescentes para o estudo da música. Não é à toa que o Conservatório tem tantos alunos e matricular-se nos cursos de instrumentos e canto é tão desejado e concorrido.

Mas a 3ª Semana de Cordas ocupará com música outros espaços de São João del-Rei. Sua programação, variada, vai de apresentações e concertos musicais a conferências sobre educação musical na terceira idade e master class com o Quarteto de Cordas Guerra Peixe. Este grupo veio do Rio de Janeiro especialmente para participar do evento.

Pensando bem, não é sem motivo que a 'Cidade onde os sinos falam' tem orgulho quando em alto e bom tom declara seu outro condinome: 'Cidade da Música' ...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

São João del-Rei não conhece (nem reconhece!) são joão del-rei...


O patrimônio barroco de São João del-Rei é tamanho, tão grandioso e ofuscante, que enche a vista de todos. Arquitetura, escultura, música, paisagismo, urbanismo,sonoridades, tradições religiosas de três séculos, tudo isso se entrelaça de tal modo que a muitos - são-joanenses e não-são-joanenses - parece ser esta a riqueza cultural de São João del-Rei. Não é bem assim. Ela é maior ainda...

Além dos limites do perímetro histórico também acontecem manifestações culturais originais e genuínas, algumas delas existentes desde os primórdios do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, no começo do século XVIII. Entretanto ainda hoje, século XXI, conttinuam desconhecidas e, portanto, não reconhecidas pela sociedade são-joanense.

Um exemplo disto vai ver quem assistir abaixo o videodocumentário Festa do Rosário do Rio das Mortes, gravado naquele distrito são-joanense, berço de Nhá Chica, em outubro de 2005, por João Paulo Guimarães. João Paulo é fotógrafo, produtor de vídeo, documentarista e webdesign;  possui vasta produção videográfica sobre vários aspectos da cultura de São João del-Rei. Com isto, presta uma importante contribuição para conhecimento, valorização e preservação da memória são-joanense.

Clique neste link http://www.videolog.tv/video.php?id=273521 e conheça, pelo olhar de João Paulo, esta festa que acontece anualmente no mês de outubro, no Distrito do Rio das Mortes e em outros distritos são-joanenses, e também em vários bairros locais.

 A autenticidade da manifestação, a preciosidade do depoimento do festeiro e a singularidade da coreografia do congado, inclusive com um embate dos incomuns "homens vermelhos", surpreende. São João del-Rei é mais rica do que sabe. É abrir os olhos e ver...

Quando o sol marcou as horas em São João del-Rei


Para São João del-Rei, o relógio da Matriz do Pilar é tão importante quanto o é o Big Ben para Londres. Instalado no alto da torre esquerda, logo abaixo da sineira, é considerado o principal relógio púbico da cidade e assinala as horas, suas metades e quartos de modo original, bastante conhecido dos são-joanenses:

. o primeiro quarto de hora (15 minutos) é marcado com uma pancada no sino pequeno,
. meia hora (segundo quarto) é anunciada com tantas batidas quantas a da hora seguinte, também no sino pequeno,
. aos três quartos (45 minutos) ouve-se uma batida no sino grande e
. as horas são dadas no sino grande.

Foi instalado e bento no dia 13 de dezembro de 1905, mas tudo indica que, antes dele, desde o século XVIII havia um relógio do sol no adro da Matriz do Pilar, no lado oposto a um Cruzeiro da Paixão, ou da Penitência, citado por alguns autores.  Prova disso é que no dia 14 de outubro de 1845, o mestre pedreiro Cândido José da Silva recebeu da Irmandade do Santíssimo Sacramento de São João del-Rei a quantia de 67$560 pela execução de várias obras naquela igreja, entre elas o reboque de um relógio do sol.

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Fontes
. ALVARENGA, Luís de Melo. Igrejas de São João del-Rei. Editora Vozes, Petrópolis, 1963.
. CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Segunda edição revist

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

São João del-Rei se enfeita, se perfuma, canta e se encanta para saudar sua padroeira

Tem coisa que não se sabe: foram os bandeirantes paulistas que, no primeiro raiar do século XVIII, trouxeram em primitiva imagem Nossa Senhora do Pilar para São João del-Rei ou foi a Virgem de Saragoza que os chamou e conduziu para este eldorado das terras são-joanenses?

Não importa! Aqui os bandeirantes encontraram muito ouro nas betas, nas pedras que rolavam nas enxurradas, à flor da terra. Depois se foram, rumo a outros destinos e à eternidade do esquecimento. Seus nomes se apagaram no tempo, mas a santa que os guiou - ou que com eles veio, tanto faz - continua protetora, humilde, emblemática e excelsa na Matriz do Pilar de São João del-Rei.

Hoje, 12 de outubro, a cidade se enfeita por ela, se perfuma por ela, se encanta por ela, canta por ela, cobre de flores andores e altares, salpica pétalas no chão que já foi dourado de pepitas. Hoje, em São João del-Rei, logo cedo, o sol despertou ao som de uma alvorada festiva. Banda de música, sinos, foguetes - É dia de festa!

E durante todo o dia a festa acompanha todas as voltas do ponteiro do relógio da Matriz. Missas solenes, barrocas, cantadas pela Orquestra Lira Sanjoanense. Canto das Vésperas de Nossa Senhora do Pilar, na voz masculina do Coral dos Coroinhas de Dom Bosco. Silêncios, preces, orações.

À noite, banda de música, foguetes, fogos de artifícios, tapetes de flores, algodão doce, pipoca, encantada procissão.

O ouro, esgotou-se.
Os bandeirantes, se foram.
Nossa Senhora, não.
Ficou para sempre, padroeira,
nesta terra de São João...

.o0o.o0o.o0o.
Veja, abaixo,  três belos momentos do na manhã dia 12 de outubro de 2012:  Canto do Glória, pela Orquestra Lira Sanjoanense, procissão interna na Matriz ao som do hino de Nossa Senhora do Pilar  e do repique dos sinos e a saída da procissão noturna. Ao final, programação completa, da novena  ao Te Deum Laudamus, apresentada pelo pároco Geraldo Magela da Silva.





terça-feira, 9 de outubro de 2012

São João del-Rei, além do rei!



Em São João del-Rei, assim como a vida, a arte está em toda parte. Igrejas barrocas, pontes setecentistas, edifícios monumentais, jardins, sobradões imponentes, chafarizes, casarios, lampiões, largos e becos numa paisagem colonial delicada, pratarias, ourivessarias, imaginária, alfaias, tradição e religiosidade ímpares, consagrados compositores e música barroca original, da melhor qualidade. Mas engana-se quem pensa que o patrimônio cultural são-joanense é só isso. Não é!

Há muita riqueza cultural em regiões da cidade que não integram o centro histórico, nos bairros periféricos e até na área rural que, por serem fruto, dizerem respeito e serem expressão da arte, do pensamento e da vida popular, injustamente não são devidamente valorizadas nem alcançam o merecido reconhecimento.

Fora alguns poucos e dedicados pesquisadores, quem conhece bastante e é capaz de dimensionar a quantidade, a qualidade e a diversidade das tradições populares de São João del-Rei e da região? Mas apesar do anonimato e do olhar desdenhoso da cultura oficial, mesmo ofuscadas pelo brilho esplendoroso digno da corte do rei sol Dom João V, congadas, folias diversas, pastorinhas, orações em cruzeiros enfeitados e outras manifestações desta natureza sobrevivem vigorosamente nos bairros de São Geraldo, São Dimas, Senhor dos Montes, Tejuco, Bonfim, Matosinhos; nos distrito do Rio das Mortes, Caburu, Cajuru e Arcângelo e nos arredores do município. Cada vez mais legitimadas e vivificadas pelas comunidades que as mantém, a cada dia mais se firmam como patrimônio e expressão cultural e por isso, em breve, sem dúvida estarão reconhecidas e integradas ao patrimônio cultural de São João del-Rei.

Autenticidade, originalidade, seriedade, finalidade, função, fundamentação e arte não lhes faltam. Isto é o que comprova quem visita o blog Tradições Populares das Vertentes     (http://folclorevertentes.blogspot.com.br/), que diariamente divulga conhecimentos, registros fotográficos, pesquisas, comentários e informações diversas sobre o folclore e a cultura popular de São João del-Rei e região. Mais um valioso produto que o estudioso, pesquisador e folclorista Ulisses Passarelli oferece como contribuição para o amplo conhecimento e para a permanente revigoração da cultura do povo são-joanense, é uma fonte preciosa para quem tem sede de saber - e até viver -, em sua plenitude, tudo o que compõe o patrimônio cultural material e imaterial de São João del-Rei.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Medonho, triste e tenebroso foi o dia em que o sol não deveria ter nascido em São João del-Rei


Os dois últimos minutos deste 4 de outubro, dia de São Francisco - quando São João del-Rei mais uma vez celebrou com grandiosidade e emoção a lembrança da morte do santo que era irmão da humildade e da natureza - fizeram saltar da internet para este almanaque a memória de um dia que, de tão barrocamente trágico e tenebroso,  o sol parece não ter nascido na terra onde os sinos falam.

São João del-Rei, 24 de abril de 1985, de sol a sol, nas palavras e nas lentes do escritor, jornalista, ex-militante revolucionário, político fundador do Partido Verde e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Mesmo que demore ou tenha interrupções, vale a pena insistir.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

São João del-Rei, começo de outubro. Doçura, sorriso e orvalho na morte de São Francisco


Em São João del-Rei, seja de manhã, de tarde, à noite ou alta madrugada, é impossível passar diante da igreja de São Francisco e não se extasiar com tamanha beleza, imponência e grandiosidade. A visão majestosa do templo de paredes e telhado curvos, projetado por Aleijadinho na segunda metade do século XVIII, encanta até mesmo quem, íntimo daquela paisagem, cruza o belo largo cotidianamente. Seja religioso, crente ou ateu, a beleza todos adoram.

Mas quem o vê por fora não imagina que ali dentro se cultua o pai da pobreza e da humildade, o irmão dos animais, da água, do sol e da lua, que teve impressas, por ação divina, no próprio corpo, as cinco dolorosas chagas vivas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esta, aliás, é a primeira celebração anualmente ali realizada em honra ao santo: a Quinquena das Chagas de São Francisco de Assis. Tradição noturna bissecular, realizada de 12 a 17 de setembro, consta de cânticos, orações, reflexões e música barroca (Domine ad adjuvandum, Veni Sancti Spiritus, Ego Stigmata Domine Jesu e outras) compostas pelo maestro Martiniano Ribeiro Bastos e  executadas pela orquestra cujo nome homenageia o compositor.

Passados apenas sete dias da Quinquena, começa então a novena preparatória para as cerimônias que lembram a morte de São Francisco, no dia 4 de outubro. De estrutura semelhante à celebração anterior, a novena também é obra do compositor Ribeiro Bastos, executada pela mesma orquestra.

Quatro de outubro é o dia maior de São Francisco, marcado por missa solene, rasoura barroca e, ao final, canto do Te Deum Laudamus. Mas quem já assistiu conta que a cerimônia mais tocante acontece às três da tarde, quando, para marcar o trânsito, a imagem de São Francisco é deitada na pedra fria da capela mor, rodeada pelos frades e irmãos franciscanos com seus hábitos pretos, enquanto o sino toca choroso lamentando a hora em que a alma do santo se despediu do corpo para, na eternidade sem fim, juntar-se para sempre ao Senhor.

Num acalanto sublime para São Francisco, ouça, abaixo, a música Francisco, de Milton Nascimento, na voz de Mônica Salmaso. Ela é também mensageira de um abraço eternamente agradecido ao meu irmão Luiz Alberto Soldati, irmão também de São Francisco.