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Mostrando postagens com o rótulo Orquestra Ribeiro Bastos

São João del-Rei persiste na "estranha mania de ter fé na vida!"

Quase nunca é um dia comum no centro histórico de São João del-Rei. Aliás, para ser mais exato, também quase nunca é uma noite comum no centro histórico de São João del-Rei. Basta ouvir os sinos de alguma das várias igrejas barrocas e sair pelas ruas e largos coloniais para ver que alguma coisa vai acontecer em breve. Se já não estiver acontecendo... Na verdade, nenhuma cidade histórica brasileira possui uma religiosidade tão forte e tão intensa quanto São João del-Rei e nem a vive no dia a dia, com tamanho entusiasmo e alegria. Aliás, sem falsa modéstia, com tamanho brilho e felicidade. É por isto que aqui os sinos falam e tudo é festa: Festa dos Passos, Festa do Espírito Santo, Festa do Carmo, da Boa Morte, das Mercês, Festa de São Benedito, do Bonfim, e tantas outras. O coroamento das Festas acontece sempre com uma (ou mais) grandiosa procissão. Não são raros os meses em que acontecem duas ou três, e até mais. Neste junho (2023), por exemplo, foram quatro, duas, inclusive, em uma ún...

As boas coisas de São João del Rei: café, música e arte na Rua Santo Antonio

  É um sacrilégio, quase um crime ou pecado mortal, ir a São João del Rei e não passear calmamente pela Rua Santo Antonio. É algo mais ou menos como ir à Cidade do Rio de Janeiro e não ver o mar, ou como ir a Roma e não ver o Papa! A tricentenária, estreita, poética, misteriosa e sedutora rua ainda hoje é a morada de muitos tesouros, guardados nos baús da música barroca, da história e da arquitetura colonial. O consagrado compositor sacro Padre José Maria Xavier, por exemplo, nasceu nela, em 1819. A Banda de Música Theodoro de Faria (1902), a bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos (1790) e a Orquestra Lira Sanjoanense, que é a mais antiga orquestra das Américas em funcionamento ininterrupto desde a sua fundação, em 1776, têm suas sedes e arquivos naquela rua. Consta que a Lira Sanjoanense, inclusive, foi a primeira corporação musical profissional instituída no Brasil. Por tudo isto, poeticamente, a Rua Santo Antônio bem poderia se chamar também Rua da Música. A capela de Santo Antôn...

Via Sacra e Encomendação de Almas. Magias da Quaresma em São João del-Rei

Quaresma é uma era diferente em São João del-Rei. Talvez seja a era anual de São João del-Rei. Sendo assim, as  sete sextas-feiras da Quaresma, então... Até quem não é nativo, ou mesmo os são-joanenses alheios às tradições e à identidade local - enfim, qualquer pessoa que nestes dias transitar pelo centro histórico ou pelos bairros mais antigos da cidade - vai notar algo diferente no ar. Atmosfera mais densa, clima espesso e misterioso, ecos da reza de algum terço, esgarçado e trazido entrecortado e de longe pelo vento, dobre longo, solitário e choroso de um sino, expectativa contraditória  quanto à Paixão e à compaixão, à dor e ao gozo, à festa que é  sofrimento. O silêncio conversa nas esquinas, nas pontes, nas encruzilhadas, nos largos e seus cruzeiros. Espreita das janelas de guilhotinas, escorre nas pedras do chão, escorrega, sorrateiro, pelas bicas dos telhados. Conversa com as pessoas que passam, com suas memórias, lembranças e pensamentos. À noite, tem...

Quanto encanto na Festa de Passos de São João del-Rei

Nesta sexta-feira, que é a quarta da Quaresma, começa em São João del-Rei uma era muito profunda, quase ancestral, que, porém, dura não mais do que três dias: a Sexta-Feira das Dores, o Sábado de Passos e o Domingo do Encontro. Os são-joanenses nativos ou adotivos, sabem de cor do que se trata, mas muita gente que é de outros lugares certamente não reconhecem em seu universo o sentido que tem aqui o quarto final de semana depois do Carnaval. Em São João del-Rei vive-se nestes dias, com grande liturgia, sentimentos e sensações, uma das mais emocionantes cenas da Paixão de Cristo. O Encontro de Jesus  coroado de espinhos, e todo machucado,carregando uma grande cruz nas costas, com sua mãe serenamente desolada, cujo coração foi transpassado por quatro espadas de prata. Tudo remonta ao século XVIII. Das imagens e andores, ora enfeitados com manjericão, ora com hortências e orquídeas, até a rosmaninha cheirosa espalhada pelo chão das igrejas barrocas. Do incenso que enfum...

Em São João del-Rei, até defuntos e cemitérios comemoram aniversários. Sabia?

Na tradição popular, novembro é o mês dos mortos e, em São João del-Rei, esta característica do penúltimo mês do ano é reforçada diversas vezes. A partir do dia 2, quando se celebra Finados, começam as missas aniversárias dos defuntos que pertenceram a uma, ou a várias, das dez Irmandades bicentenárias, sediadas no centro histórico são-joanense. Também conhecida como "aniversário dos cemitérios", a cerimônia é composta de duas partes. Começa com uma missa, na igreja que é sede da Irmandade, onde, no centro da nave estão dispostos, no chão, um tapete preto, com galões e uma grande cruz dourados e bordados. Em cada uma das quatro pontas, um castiçal alto, com uma vela acesa, como se estivesse aguardando um defunto para a oração final. Terminada a missa, os sinos tocam exéquias e os irmãos saem em procissão, vestidos com suas opas ou hábitos, e assim vão até o cemitério correspondente, onde o padre faz orações fúnebres. Tudo - missa e orações no campo santo - ao som de mú...

Doces lembranças de maio em São João del-Rei

O Dia das Mães, como é hoje, é coisa nova em São João del-Rei. Não tem mais do que cinqutenta anos - muito pouco diante dos três séculos de história da cidade. Mas de outro modo, as mães sempre foram homenageadas no quinto mês do ano na terra "onde os sinos falam". Aliás, eram exatamente eles - os sinos - que às seis da tarde, hora do Ângelus, anunciavam estar acabando mais um dia do Mês de Maria e ser hora de as famílias rezarem o terço, em casa, em volta do rádio, ou as pessoas solitárias, em conjunto e em voz alta, na penumbra das igrejas. Mês azul de céu claro, estrelas vivas, vento manso, sereno ameno e perfumado, era um tempo doce. Libertos das penitências, sacrifícios, jejuns e abstinências da Quaresma, os são-joanenses desfrutavam com calma o outono, vendo dia a dia chegar mais perto a Festa do Divino Espírito Santo, da Santíssima Trindade, do Corpo de Deus, de Santo Antônio, de São João, e com elas o frio severo de manhãs orvalhadas, neblinas vespertinas e m...

Pudesse, São João del-Rei entregaria um buquê de notas musicais à maestrina Maria Stella Neves Vale

Há exatamente um ano, no dia 28 de abril, acenaram-se adeus a maestrina Maria Stella Neves Valle e São João del-Rei. Fora-se ela, pela imensidão celeste, a reger astros, cometas e estrelas. Ficara a cidade, no devir eterno e cotidiano, a pressentir seus passos firmes, a imaginar seus gestos decididos, a intuir a harmonia das vozes e instrumentos que ela, já octogenária, vivamente, até há dois anos atrás, comandava. Já senhora da admiração e do respeito dos são-joanenses, dona Stella agora vai ganhar uma pequena praça, à margem direita do Córrego do Lenheiro, em frente à Estação Ferroviária. De lá, certamente, vai reger os apitos da Maria Fumaça, que dali parte e para ali volta, de sexta-feira a domingo, quando é manhã e quando é tarde, lendo no céu a pauta compassada pela clave de sol. São-joanense que é são-joanense, sabe quem dona Stella foi. Sabe o valor que ela tem. Tem por ela grande gratidão. E, entre Misereres e Motetos, a eterniza todo dia, na memória e no coração. Cl...

Semana Santa de São João del-Rei: Domingo de Ramos, determinista domingo de angústias...

Hoje, Domingo de Ramos, em São João del-Rei o tempo já mudou. O início oficial da Semana Santa imerge os são-joanenses em uma outra era emocional, emoldurada e conduzida pelo mais profundo sentimento religioso. Há em tudo uma expectativa determinista do que já é conhecido, que se repete há muitos séculos, mas que é anualmente revivido, como se fosse sempre a primeira vez. Um pesar denuncia o desejo irrealizável de que a história acontecida pudesse ainda ter outro rumo, ou não mais se repetir, como se faz desde sempre. Tudo começa na Igreja do Rosário, aos pés do Senhor do Triunfo, entre palmas viçosas, pratarias brilhantes, paramentos vermelhos, incensos aromáticos, cruzes cobertas, em meio ao povo que levanta nas mãos ramos verdes que o bispo benze, ao som de antífonas e hinos  barrocos do século XVIII que a Orquestra Ribeiro Bastos entoa. Tudo lembra tristemente a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a caminho do sofrimento e do sacrifício. O sino toca pungente nota...

A música de São João del-Rei é a afilhada preferida de Santa Cecília.

São João del-Rei é terra abençoada. Santos e anjos que moram na corte celestial habitam também a terra que tem no nome uma homenagem ao Rei Sol português, D. João V. Entre as tantas divindades que habitam o firmamento, mas que não tiram os olhos do povo são-joanense, uma, inclusive, fica mais na cidade do que no céu. É Santa Cecília! Mas pudera: como desde 1717 a Música firmou morada em São João del-Rei, aqui a santa tem para cuidar quatro bandas de música e três orquestras, vários corais, grupos de câmera, duos, trios e quartetos, muitos maestros, sineiros e compositores, sempre em permanente atividade. Nas igrejas, nos teatros, nas praças, nas ruas, nos auditórios. E como Santa Cecília é padroeira dos músicos, não é sem motivo que ela está em toda parte... Mas aqueles a que a santa dedica tanto olhar e zelo não lhe são ingratos. Deram-lhe lugar de honra, em um dourado altar lateral da Matriz e Pilar, e a guardam consigo, em imagem ou estampa, na sede da Orquestra Ribeiro ...