segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Santa Clara, clareai minha São João del-Rei!


São João del-Rei é um lugar onde o viver feliz requer, dia e noite, céu aberto. Suas ruas estreitas e sinuosas, seus becos, jardins e largos são palcos públicos onde desde sempre tudo acontece, para todos. O entusiasmo, a vitalidade e a alegria dos são-joanenses precisam de céu limpo para se materializar como procissões, desfiles de carnaval, cortejos, concertos, serenatas, cinema,teatro, recitais e retretas - tudo ao ar livre.

Antigamente, nos tempos românticos que duraram até os anos setenta, era comum as pessoas ficarem nas janelas ou sentadas na calçada ou soleira da porta de suas casas, olhando o tempo e a vida passar. Algumas vezes por dia iam dar uma volta na rua, para comprar a verdura e a carne do almoço, encontrar com os conhecidos, ler o Jornal do Poste, saber quem morreu ou se internou e mandar lembrança para os amigos.

Tudo a céu aberto. Podiam até levar sombrinha ou guarda-chuva, tanto se prevenindo de algum aguaceiro quanto se protegendo do sol forte. Dor de cabeça? Melhor evitar!...

Nesse costume e dependência meteorológica, a devoção e o culto a duas santas eram fundamentais: Santa Bárbara, a brava guerreira, protetora contra os raios e os temporais, e a suave Santa Clara, amiga de São Francisco, a quem cabia deixar o céu sempre claro. Era missão das mulheres, à época sempre em casa, dialogar com as duas santas, na busca dos divinos favores.

O céu escureceu de repente, ventou forte, relampiou raio nervoso, estrondou trovão - antes mesmo que a chuva caísse, já logo, aflitas, elas chamavam: Santa Bárbara, São Jerônimo! E então se cobria espelhos, tirava o rádio da tomada, acendia uma vela para a Santa e queimava a palma seca, benta no Domingo de Ramos. A partir de então, não se chegava na porta ou janela nem se tocava em faca, tesoura, torneira ou seja lá o que fosse de metal, até que a tempestade abrandasse.

Já com a meiga e doce Santa Clara, a conversa era outra. Conversa feminina, misto de confidências, cumplicidade e ameaça. Acreditando as mulheres e as meninas que a Santa franciscana também gostava de festa, faziam para ela uma pequena saia rodada, que guardavam na gaveta, junto de outras roupas. Porém, se chovesse ou nem isso, se apenas o céu nublasse, sinalizando água a caminho, lavavam logo a sainha e a penduravam alto no varal, como sinal e advertência a Santa Clara. Se ela Clara quisesse mesmo ir à festa, que mandasse logo o sol para secar...

E não é que às vezes dava certo? Vinha o sol e a chuva parava. Mas por medida de segurança, a saia ficava no varal. Minha mãe, ainda hoje, faz isto!...

Texto: Antonio Emilio da Costa
Informante: Carmen Trindade da Costa, 88 anos

Foto do YouTube: Dorival Caymmi, na janela azul, em tudo igual à foto de meu pai,  Geraldo Sebastião da Costa, na janela de sua casa, a quem eu saúdo, há cinco anos do lado de lá, com esta música

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Irmandade dos Passos homenageia, com um belo monumento, os irmãos finados


Entre os vários territórios de lembrança, cultura e memória de São João del-Rei, os cemitérios estão em toda parte, sempre à vista, lembrando a todos que o tempo é breve e a existência passageira. É isto o que dizem seus portões, dísticos, símbolos e iconografias.
Este ano, o Cemitério da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, ou Cemitério dos Passos, como é chamado na intimidade, ganhou um novo monumento: um Cristo carregando a cruz, sobre uma base de mármore, onde estão em baixo relevo os estigmas da Paixão, que é o escudo-brasão da Irmandade, e o nome daquele campo santo.
O Cemitério dos Passos, aliás, tem o mais antigo monumento funerário do Cemitério da Matriz do Pilar, que fica no alto da Muxinga e é dividido em cinco partes, cada uma pertencente às irmandades do Santíssimo Sacramento, Senhor dos Passos, São Miguel e Almas, Nossa Senhora da Boa Morte e Santo Antônio. Trata-se de uma sepultura erigida no começo do século XX, em mármore branco, com belos relevos e uma comovente mensagem de lágrimas, do filho Rogério de Mattos para a mãe, Prudenciana de Mattos, falecida em 8 de março de 1914. Tem na cabeceira uma cruz muito artística, enfeitada com folhas tristes e flores chorosas. Servindo como base e apoio, uma pedreira, com uma rosa sonolenta - tudo em mármore branco, marcado pelo tempo centenário.
A Irmandade dos Passos, fundada há mais de três séculos, precisamente em 1734, é uma das mais antigas de São João del-Rei e responsável pela mais longa e tradicional celebração da Semana Santa são-joanense: a Celebração dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário. Popularmente conhecida como 'Festa de Passos', ela dura cerca de 40 dias, quando acontecem três Vias Sacras Solenes, duas procissões de depósito, duas rasouras, a Procissão do Encontro, o Setenário das Dores e a Procissão da Soledade de Nossa Senhora, ou das Lágrimas, como a chamavam antigamente.
Além de promover todas estas solenidades e de encarregar-se da missa noturna de todas as sextas-feiras, a Irmandade também é responsável pela preservação dos cinco grandes oratórios, que são os Passinhos da Paixão, e da capela-passo de Nossa Senhora da Piedade.

Muito zelosa, competente e dedicada no cumprimento de sua missão, a Irmandade estendeu seus cuidados até o cemitério onde estão sepultados os irmãos, e a primeira realização que prova isto foi a inauguração do monumento ao Senhor dos Passos, no dia 2 de novembro deste ano, em homenagem aos Finados. Certamente a sepultura secular de mármore branco de dona Prudenciana, por seu valor como patrimônio estético, artístico e histórico, também merecerá a atenção e o zelo da Irmandade dos Passos.
Texto e fotos 2, 3 e 4: Antonio Emilio da Costa
Foto 1 - Anthony Claret Moura Neri



sábado, 8 de outubro de 2016

Ah! Estes doces e inocentes mistérios de São João del-Rei...


Em São João del-Rei, os santos são amigos. Gostam de se encontrar, de conversar e matar a saudade, nem que para isso seja preciso se desculpar com o bispo, desobedecer o pároco, contrariar as irmandades e até mesmo a vontade do povo, como às vezes acontece.

Quando resolvem colocar debaixo do braço auréolas e santidades, para sair do sério, basta apenas a oportunidade de uma procissão. Nestes dias, esperam somente o cortejo atravessar um largo e dobrar duas ou três esquinas para rapidamente recolherem do céu as estrelas e jogarem das nuvens um bom pé-d'água. Pode ser até que ele passe depois de alguns minutos, mas até que isto aconteça, o  povaréu já se dispersou. As irmandades encurtaram o caminho e os ilustres carregadores do andor, de lanternas e do pálio protetor da autoridade eclesiástica tomaram o rumo da igreja mais próxima, onde o santo - que estava a passear em procissão pelo centro histórico, ao som da banda e dos sinos - passará a noite.

Lá, ele se juntará a outros santos e anjos, que esperam apenas o sacristão fechar as portas e apagar a luz das velas para tagarelarem noite inteira e colocar em dia verso e prosa, para avivar e aquecer tão velhas amizades. Relembram das santidades que moram em outros templos; falam de penitências, sofrimentos, torturas, suplícios e martírios; riem dos apuros que tantas vezes passaram, quando viviam na Terra e ainda não tinham ganhado asas para o Céu. Confidenciam sortilégios da humanidade que lhes tiram o sono e confabulam planos para enganar o Mal, desviar seus caminhos, levando-o para bem longe de qualquer ser vivente. É isto o que Deus e os homens deles esperam.

Assim, de uma hora para outra, São Francisco desvia o trajeto e sobe a escadaria da igreja de São Gonçalo. São Sebastião para na igreja do Carmo. Nossa Senhora da Glória e a Santíssima Trindade entram às pressas no Hospital das Mercês. Nossa Senhora das Dores suspende a capa de céu noturno, tira o diadema de prata e estrelas e fica na igreja do Rosário. Senhor dos Passos resolve transferir o encontro com sua mãe no Largo das Mercês para o dia seguinte, segunda-feira e, como desculpa, faz chover à tardinha, no quarto domingo da Quaresma. Tudo para visitar o santo amigo e conversar com ele a noite inteira...

Depois do choro pela frustração da roupa nova molhada e de uma noite mágica escorrida em enxurrada pelos bueiros de pedra rumo ao Córrego do Lenheiro, era assim que as crianças de antigamente, quando chegavam de volta em casa, justificavam umas para as outras a chuva que pôs fim à procissão. E logo em seguida ficavam felizes de novo, sabendo que no dia seguinte a festa continuaria, a partir da igreja onde o santo parou.

Informante: Carmen Trindade da Costa, SJDR, 88 anos
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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nossas Senhoras de São João del-Rei. A doce e suave matrona Conceição


Continuando nas "Breves invocações / de quem nada merece / a quem oferece tudo", do folheto Exposição Mariana, produzido pela Paróquia do Pilar de São João del-Rei, na Semana Santa de 1995, aproveitando que hoje é dia de São Francisco, assim clamou o poeta Jota Dângelo à Nossa Senhora da Conceição, a quem muito recorria o santo de Assis:

Nossa Senhora da Conceição

Que eu não precise, Senhora,
invocar-te em oração.
Que tudo o que eu diga e faça
seja a minha invocação.
Senhora, Senhora minha,
Senhora da Conceição.

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Imagem recolhida da internet (https://www.youtube.com/watch?v=e3D6FdUofX4)

sábado, 1 de outubro de 2016

Nossa Senhora do Rosário: com terço de contas e rosas, a grande Matriarca de São João del-Rei


Se Nossa Senhora do Pilar, vinda com os brancos, bandeirantes, desaforados e opressores, é a padroeira de São João del-Rei, Nossa Senhora do Rosário, que veio com os negros - com os cativos, com os escravos, com os libertos e com os livres - é a matriarca desta terra.

Sua corte na cidade começou oficialmente em 1708, quando a territorialidade são-joanense não passava de um arraial. A Irmandade do Rosário de São João del-Rei, uma das três mais antigas do Brasil e a pioneira de Minas Gerais, talvez seja a primeira instituição de direito civil, privado e religioso constituída na Comarca do Rio das Mortes. Documentos e datas não mentem. O orgulho dos irmãos do Rosário também não.

Sua igreja foi das primeiras edificadas no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, numa situação geográfica que  ostenta sua expressão e seu significado na sociedade daquela época dourada e colonial. Também festejada no mês de outubro, porém durante todos os trinta e um dias, é aquela a quem se chama em silêncio, nas horas de mais profundo recolhimento. Às vezes nem é preciso chamá-la: pressentindo o sofrimento, ela se antecipa em socorrer, anunciando a chegada de seu amor na forma de uma brisa misteriosa e docemente perfumada de rosas suaves.

O séquito de Nossa Senhora do Rosário é formado por reis congadeiros, marujos, catupés, caboclinhos, guerreiros, todos roucamente ruidosos no rufar de suas caixas e nos cantos guturais, que venceram noites, chibatas e oceanos; transporam a Serra do Lenheiro e pulsam eternamente no coração de cada negro são-joanense.

Conversando com Nossa Senhora do Rosário, Jota Dangelo disse:

Nas contas do teu rosário,
contou-se dores de escravos.
Curou-se chagas de açoite,
com a invocação do teu nome.
Luz que findou a noite,
consolo dos que têm fome.
Rainha dos congadeiros,
quer dizer, dos brasileiros,
pois nas raças, misturados,
não somos brancos nem negros.
Todos nós somos só pardos!

Texto: Antonio Emilio da Costa / Foto: Danilo Gallo






sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Nossas Senhoras de São João del-Rei - No Pilar, desde sempre, a Padroeira


Por mais que às vezes deseje estar em silêncio e sozinho, o são-joanense traz sempre alguém consigo, que o acompanha e com quem conversa. Homem ou mulher, criança ou velho, rico ou pobre, nas piores tristezas ou nas mais felizes horas, mudos ou ruidosos, sempre exclamam: Nossa Senhora! Por economia ou discreção, pode ser apenas Nossa! e, dependendo do susto ou do aperto, se resume a uma sílaba: Nó! Tão poucas letras, tamanha é a pressa, a infinita surpresa, o desmedido susto,o sufocante aperto, a desmesurada aflição.

Aliás, Nossa Senhora é madrinha de São João del-Rei. Em seu pilar, veio para cá nos oratórios dos bandeirantes portugueses, no comecinho dos anos setecentos. Viu o arraial transformar-se em vila e teve que proteger o povo das furiosas chamas paulistas e emboabas. Dizem que salvou até as imagens de São Sebastião e São Miguel Arcanjo que, antes na incendiada capela do Morro da Forca, agora habitam a Matriz do Pilar.

O tempo todo Nossa Senhora é festejada em São João del-Rei, todo mês, senão toda semana, tantas são as suas missões e invocações. Sobre isto, o multi-intelectual são-joanense Jota Dangelo, em 1995, escreveu dezenove versos, divulgados na "visitação" de Quinta-Feira Santa do ano de 1995 na igreja do Rosário, quando foram expostas muitas das mais belas imagens de Nossa Senhora veneradas a "terra onde os sinos falam" - a mais barroca cidade de Minas Gerais.

Nesta e nas próximas postagens apresentamos, com satisfação, as preces e os clamores poéticos de Jota Dangelo. Comecemos pela padroeira de São João del-Rei, festejada no dia 12 de outubro.

Nossa Senhora do Pilar
Minha santa padroeira
desta terra de emboabas.
Pilar da fé dos primeiros
que chegaram nestas plagas.
Derrama graças e bênçãos,
cicatriza nossas chagas,
que a cidade anda a deriva,
a mercê de muitas pragas.
Desperta o vale que, inerte,
adormece ao pé da Serra.
Ilumina a consciência
do povo de minha terra!

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A fé floresce orquídeas e esperanças nos quintais para os altares de São João del-Rei

O mundo é pequeno, o tempo é pouco, a existência é breve e a eternidade é insuficiente para a dinâmica cultural de São João del-Rei, sempre em enriquecedora evolução. Mesmo quando e do que não se imagina, tradições surgem silenciosas no limiar do sonho, no lusco-fusco da aurora, do orvalho sereno do fundo dos quintais, no silêncio madrugoso das almas, atravessa sentimentos e refulge na fé, ostentando-se em altares,  oratórios e olhares. É isto o que, há dois anos, vem acontecendo nos dias 14 e 15 de setembro, para eternizar a lembrança do Dia de Santa Cruz e o Dia de Nossa Senhora das Dores, na Matriz do Pilar, e o Dia de Bom Jesus do Perdão, na igreja das Mercês.

Estas datas há séculos já fazem parte do calendário religioso da cidade, mas na Paróquia do Pilar eram celebradas com discrição contrita em pregação modesta, na missa noturna que acontecia nas duas igrejas. A grande celebração acontecia na Paróquia de Matosinhos, onde até hoje a comunidade, relembrando uma tradição do século XVIII, até hoje realiza uma majestosa procissão - evocação moderna do antigo Jubileu, que até começos do século XX era um dos mais importantes de Minas Gerais.

De 2015 para cá, a devoção dos Irmãos dos Passos à Paixão de Cristo e às Dores de Maria Santíssima retomaram uma atitude legítima e espontânea, sinal de humildade, doação e amor, na demonstração de fé e gratidão ao Salvador e sua Mãe: cultivam nas sombras fundas de seus quintais orquídeas róseas que se entremeiam entre o fim do inverno e a chegada da primavera e as colhem na manhã do dia 13 de setembro, levando-as para enfeitar o altar do Encontro de Jesus com Maria na Matriz do Pilar.

A cascata de delicadas orquídeas nasce nos braços da cruz, escorre e desce pelos lances do altar e finda esparramada na bancada onde, nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, repousa o Crucificado antes e depois da Via Sacra Ali, os fiéis lhe beijam as mãos, os pés e a face, lhe acariciam a face e as chagas dos cravos e da coroa de espinhos. depositando na salva de prata a seus pés moedas, pedidos e esperanças.

Outra tradição dos tempos coloniais, resgatada este ano pela Irmandade dos Passos, é a celebração de uma missa em frente ao Passinho da Piedade, no Largo do Rosário, em frente ao Museu de Arte Sacra. Era das grades das celas daquele prédio setecentista, onde no século XVIII funcionava a Cadeia Pública, que os presos, condenados à forca, assistiam sua última missa e pediam o perdão celeste para suas penas e culpas, antes de subirem, arrastados, para a morte infame no cadafalso armado no alto do Morro do Bonfim.

E assim atravessam as eras e a eternidade, vencem os tempos e os homens, a fé, a tradição e a cultura de São João del-Rei...

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


quinta-feira, 3 de março de 2016

Quanto encanto na Festa de Passos de São João del-Rei


Nesta sexta-feira, que é a quarta da Quaresma, começa em São João del-Rei uma era muito profunda, quase ancestral, que, porém, dura não mais do que três dias: a Sexta-Feira das Dores, o Sábado de Passos e o Domingo do Encontro.

Os são-joanenses nativos ou adotivos, sabem de cor do que se trata, mas muita gente que é de outros lugares certamente não reconhecem em seu universo o sentido que tem aqui o quarto final de semana depois do Carnaval. Em São João del-Rei vive-se nestes dias, com grande liturgia, sentimentos e sensações, uma das mais emocionantes cenas da Paixão de Cristo. O Encontro de Jesus  coroado de espinhos, e todo machucado,carregando uma grande cruz nas costas, com sua mãe serenamente desolada, cujo coração foi transpassado por quatro espadas de prata.

Tudo remonta ao século XVIII. Das imagens e andores, ora enfeitados com manjericão, ora com hortências e orquídeas, até a rosmaninha cheirosa espalhada pelo chão das igrejas barrocas. Do incenso que enfumaça e perfume o ambiente até o vigoroso, triste e apavorado toque dos sinos. Das músicas coloniais que a banda toca e que a orquestra canta até a contrição e encantamento do coração do povo que reza nas missas e acompanha as procissões.

A representação desta cena bíblica, na forma como é a Festa de Passos em São João del-Rei, é um ritual barroco ímpar, original e tipicamente são-joanense. Em datas diferentes ele é realizado também em outras cidades, inclusive nas demais cidades históricas de Minas, mas em nenhuma delas tem a expressão e a grandiosidade das celebrações realizada na "terra onde os sinos falam".

Especialmente para quem é observador, atencioso, as solenidades promovidas pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos de São João del-Rei é um inestimável e único tesouro. Suas riquezas tricentenárias conjugam elementos estéticos sensoriais refinados e raros, envolvendo, ao mesmo tempo todos os sentidos - a visão, a audição, o olfato, o tato e até mesmo o paladar.

Por isto, ao assistir a Festa de Passos não deixe de observar estes detalhes:

. A ambiência mística da Matriz do Pilar com os andores velados, antes da saída dos depósitos
. A bênção no momento em que o velário do andor vai ser fechado para saída dos depósitos, ao som de um moteto cantado pela Orquestra Ribeiro Bastos.
. Os dobres dos sinos nas saídas, percurso e chegada dos depósitos nas igrejas do Carmo e de São Francisco
. O encontro das irmandades nas procissões dos depósitos, na Rua Direita e em frente à Prefeitura
. A retirada dos velários, ao som do canto do Miserere, quando da chegada dos andores nas duas igrejas acima
. A figura de Maria Madalena e sua naveta de perfume
. A figura de São João Evangelista, com sua tradicional túnica verde e manto pregueado vermelho, com diadema de prata, levando à mão um livro e uma pena de prata
. O pálio vermelho, bordado com fios de ouro um céu estrelado, os suplícios da Paixão e outros símbolos pascais
. As rasouras do domingo na igreja do Carmo (8h) e na igreja de São Francisco (9h)
. O pendão roxo SPQR que vai na frente da procissão do Encontro, saindo da igreja de São Francisco
. Os cinco passinhos da Paixão delicadamente enfeitados
. As marchas das Dores, dos Passos e do Encontro que as bandas tocam nas respectivas procissões
. A parada do andor de Nossa Senhora das Dores em frente ao Cemitério do Carmo, quando a orquestra, alinhada na frente do maravilhoso pórtico, canta o moteto Domine Jesu
. A maravilhosa Melodia Fúnebre que a Banda do 11o Regimento de Montanha toca no adro da igreja de São Francisco, antes da saída da rasoura do Senhor dos Passos
. A tradição de passar três vezes debaixo da cruz do Senhor dos Passos, rodeando o andor em sentido anti-horário e beijando a fita roxa que pende da imagem
. Os anjinhos nas procissões, os altostocheiros de prata que vão à frente dos cortejos e as varas de prata com insignias de seus cargos, que os mesários das irmandades carregam
. O modo como as partituras são fixados com pregadores de madeira na parte de trás das golas dos músicos das bandas de música
. Os penachos de papel crepom roxo enfeitando os badalos dos sinos. Com o dobras dos sinos as fitas roxas vão se desprendendo, algumas caindo no chão e telhados e outras voando pelos ares, todas se movimentando com o vento


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Texto: Antônio Emilio da Costa
Foto: Sidney Saab

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Em São João, o Céu desce ao chão, Domingo de Passos, na procissão



Faltam menos de duas semanas para o Domingo de Passos, um dos dias mais belamente impactantes da religiosidade de São João del-Rei. Com suas rasouras, missas cantadas, adoração da Cruz, oque de sinos enfeitados com penachos de papel crepom, procissão do Encontro, canto dos motetos sacros e sermões, é uma tradição grandiosa e singular de nossa cidade e, pela riqueza de sua autenticidade barroca, não encontra similar tão genuína, original, tocante e expressiva em outras partes do mundo. Muito amada pelos são-joanenses, a Festa de Passos é um dos orgulhos de São João del-Rei.

Uma das faces mais bonitas da Festa de Passos é a legião dos anjinhos, com a delicadeza e a inocência das crianças, algumas muito pequenas, às vezes até carregadas no colo,  vestidas com túnicas de cetim claro, coroa de flores miúdas e até com asas. Mas acontece de alguns anos o número de crianças vestidas de anjo ser menor, principalmente porque a Festa de Passos é a primeira grande celebração da Semana Santa e, em nossa cidade, acontece quando a Quaresma ainda está pela metade.

Pensando nisto, este Almanaque Eletrônico, juntamente com a Irmandade dos Passos, com o Museu de Arte Sacra, com a Atitude Cultural, com a Associação dos Amigos de São João del-Rei e com a JUNFEC, lançou o projeto Anjos del-Rei, cujo objetivo é incentivar o aumento da quantidade de anjinhos nas procissões de São João del-Rei, em especial nas atividades do Domingo de Passos, que acontecem em horário muito favorável para as crianças.

Uma das atividades deste projeto em 2016 é esta mensagem dirigida aos pais, mães, tios e padrinhos de crianças que gostariam de sair nas procissões:

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Projeto Anjos del-Rei

Com inocentes anjinhos
o Céu desce ao chão
nas belas procissões
de São João del-Rei


Prezado são-joanense,

A infância é uma das fases mais abençoadas, bonitas, felizes e importantes de nossa vida. As coisas boas que vivemos quando somos crianças não esquecemos mais, nem quando crescemos e ficamos adultos. Por isto, as crianças devem aproveitar bem e viver tudo o que a infância lhes oferece.

As procissões de São João del-Rei são muito bonitas, com seus belos andores enfeitados, as irmandades, a banda de música e as crianças vestidas de anjinho. Quanto mais crianças vestidas de anjinhos, mais bonitas são as procissões. Parecem o Céu, onde as crianças, inocentes, adoram a Deus em Seu Trono e brincam em redor de Nossa Senhora e de todos os santos. Por isto, os anjinhos são tradição importante nas procissões de nossa terra.

 Diante disto, convidamos você a proporcionar a seus filhos, netos e sobrinhos a oportunidade de vestir-se de anjinho nas procissões e viver uma experiência de que jamais se esquecerão. É só providenciar uma túnica de cetim de cor clara, uma coroa de flores miúdas (e, se possível, as asas) e comparecer na igreja meia hora antes do início da procissão. Se não for possível fazer a roupa, talvez seja possível conseguir alguma emprestada na Casa Paroquial do Pilar, mas é bom lembrar que existem poucas disponíveis.


Vestir-se de anjinho é agradar a Deus, contribuindo para a beleza das tradições de nossa terra, e também viver uma experiência única e encantadora. Traga sua criança para ser  anjinho em nossas procissões. Elas serão gratas pelo resto da vida!

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: JUNFEC

sábado, 20 de fevereiro de 2016

São João del-Rei e suas esquinas. São João del-Rei e suas sinas. São João del-Rei & outras Minas!


A escolha do nome São João del-Rei, dedicando a Vila erigida em 1713 em honra ao faustoso Rei Sol Português D. João V, selou para a cidade um destino luminoso. A cidade reluz como ouro, brilha como o astro-rei, pulsa como um coração apaixonado, sopra como uma brisa suave, murmura como a confessar um carinhoso segredo de amor. São João del-Rei é festa, é luz, é música, é arte, é vida, é devoção, é gozo. São João del-Rei é inspiração.

Tanto é assim que no ano passado a cidade ganhou parte do título de um livro e vários poemas do escritor Nelson Di Francesco, paulista da capital do estado bandeirante, apaixonado por São João del-Rei desde que aqui veio pela primeira vez, há coisa de dez anos. A obra, chamada São João d'El-Rey e outras Minas, foi lançada em 2015 e reúne poemas, crônicas, reflexões poéticas, pensamentos, sentimentos e percepções do autor sobre o universo histórico-barroco destas coloniais cidades alterosas, visto e sentido, principalmente, a partir desta terra de El Rey.

Nelson Di Francesco é apaixonado pela cidade: seu casario, suas ruas sinuosas, suas igrejas de muitos sinos e exércitos de anjos, seu chão de pedras, seus becos serpentinos apertados por casas tortas, seus doces, seus sabores, seus temperos, sua rica e musical sonoridade, sua tradicional religiosidade, sua gente simples, alegre, comedida, digna, generosa, modesta, acanhada, humilde, simpática, mineira.

Tudo isto ele nos mostra, com um olhar a um só tempo contemplativo e contemporâneo, em seu livro, que já está caminhando para a 3a edição, de tiragens muito limitadas. Tão minimamente limitadas que os exemplares bem poderiam ser numerados, como são as xilogravuras, litogravuras, gravuras em metal e outras obras de arte.

Nosso autor é de tal modo são-joanamente enfeitiçado que por duas vezes ao ano passa uma temporada na cidade.  Já pensou até em se mudar para cá, mas por enquanto alimenta esta paixão a uma certa distância, com o romantismo de antigamente, quando se namorava por correspondência.

Sua simbiose com São João del-Rei é tamanha que, quem o ver andando pelas ruas e largos da cidade certamente pensará que ele é o mais comum dos são-joanenses. E se algum desconfiado ou incrédulo lhe perguntar a origem, a resposta virá rápida, sincera, convicta e decidida: "sou são-joanense de coração"!

Ah, onde encontrar e como adquirir o livro? Na agência de turismo Rumos em Rotas (Rua da Prata), na Pousada Estação do Trem (Praça da Estação) e diretamente com o autor, pela internet / facebook






domingo, 7 de fevereiro de 2016

Sinos de São João del-Rei desobedecem Rei Momo e tocam até no Carnaval!



Carnaval ou não, todo domingo de manhã, de vários pontos da cidade 
se ouve os sinos da igreja do Carmo chamando os fiéis para a missa, 
tradicionalmente, com este sofisticado concertinho sonoro:



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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

No Carnaval de São João del-Rei o bloco Cordão da Zona concentra, mas sai!


Mesmo quando não tem o glamouroso desfile dos blocos carnavalescos oficiais e das tradicionais escolas de samba, o Carnaval de São João del-Rei é bastante animado.

Principalmente à tarde e à noite, os blocos espontâneos agitam os mais diversos pontos da cidade, mas se concentram principalmente nas ruas, praças do centro histórico, onde as paredes dos casarões, apertando os becos e cercando largos, dão ainda mais movimento e agito ao mar de gente, fazendo o canto, o batuque, as marchinhas tocadas pelas bandas de sopro e o som elétrico ecoarem ladeiras acima e abaixo.

Não tem cetim, lantejoula, pluma, pedraria, confete nem serpentina, mas o improviso - mais parecido com descontraído de todo dia - tem no conforto e liberdade duas de suas grandes vantagens. Por outro lado, há pouca cor e alegoria, quase nenhuma fantasia, tudo é realidade, porém com mais alegria.

Um dos blocos que a cada ano se torna mais tradicional é o Cordão da Zona que, como não poderia deixar de ser, concentra, mas sai, da Rua da Cachaça, que ainda hoje faz jus ao nome e, antigamente, era o endereço das casas da luz vermelha.

Em 2016, por exemplo, quem sair no Cordão da Zona com sua banda vai cantar o seguinte:


"Vem pro Cordão da Zona meu bem
Vem que tem, vem que tem... (bis)
Tem uma grande festa de brilhos e cores,
Paz, amor e alegria.
Tem carnaval de verdade
Pra qualquer idade cair na folia.
Vem pro Cordão da Zona meu bem
E traz quem quiser que é de graça.
Vem pro Cordão da Zona meu bem
Na Rua da Cachaça."
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Texto: Antonio Emilio da Costa
Música: João Oliveira
Foto: Barteliê

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Alegria, confete, folia e serpentina. "Embolada" de blocos no Carnaval 2016 de São João del-Rei

Impossível duvidar: o espírito do povo de São João del-Rei é barrocamente celebrativo e prova disto é o gosto das pessoas desta terra por manifestações coletivas que se concentram em largos e depois se arrastam pelas ruas, como por exemplo procissões, desfiles, cortejos, cordões e coisas assim.

É por este espírito celebrativo que o Carnaval de São João del-Rei sempre ultrapassa os tradicionais três dias de folia e em 2016, mesmo sem o brilho insubstituível das escolas de samba, durará nada menos do que 18 dias, ou seja, mais do que duas e meia semanas de alegria. Serão 47 blocos na rua, com nomes tão sem noção que até se embaraçam nesta segunda embolada. Quer ver?

Bora, à Zero Hora, tomar Birinight no Alambique, curtir Block'n Roll  até a Alvorada chegar, na maior e mais alucinada Tacofolia? Ora, esquece que você tem Copo Sujo e Banda Mole, é Lesma Lerda e vive na lama do maior Pantanal

Anima, vamos lá, Deixe o Mundo Girar até ficar tonto, redondo, virar Cambalhota, escorregar na casca da banana e engolir o caroço do Abacate, deslizar macio goela abaixo igual Cachaça com Mel. Mas depois, não Chora Borel! Olha lá, Se Mamãe Deixar, vou comer Arroz Doce com os Amigos da Regê, zoar muita Trincação até amolecer o Coração Rubro-Negro, amarrar o João Alvarenga com o famoso Cordão da Zona e internar na Santa Casa. Ele anda mal da Saúde, um verdadeiro Aragê escondido na Caixinha de Bambu enterrada lá na Chácara onde o Judas perdeu as botas, o Galo canta, janta e os males espanta.

Na Beira daquela Ponte tem muitas Domésticas escondendo as Pérolas no fundo da Mala, desembrulhando e chupando o Pirulito, lambendo os beiços e depois Arrastando o Resto para o animado e saudoso Carnaval de Antigamente. Falando nisto, Vamos a La Playa, lavar a roupa e a alma, surfar na onda e tomar uma Curimbada? Como "Custa Mas Vae", mas não custa nada, Só Não Vai Quem não Quer. É verdade,   Até Parece Mentira, mas, quem diria, eu vi o Gato de Botas soltinho, leve e pirado no Largo do Carmo, a milcercado de Piranhas aprontando sem dó nem vergonha  a maior Bandalheira: ê Trem Bão sô!...
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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: G-1



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

São Sebastião, mártir glorioso, é festejado de ponta a ponta em São João del-Rei


Engana-se quem pensa que as festas em homenagem a São Sebastião acontecem apenas no centro histórico de São João del-Rei, onde o "Guerreiro de Cristo", desde o início do século XVIII, tem altar na igreja do Pilar, é celebrado com uma novena e sai às ruas em procissão, no dia 20 de janeiro. No coração colonial são-joanense, ele também tem um nicho lateral ao altar-mor da Capela do Divino Espírito Santo e, ainda, em uma peanha do altar lateral direito da igreja das Mercês.

Em outras partes da cidade, e até do município, o santo protetor contra a peste, a fome e a guerra também é querido e festejado. Um dos mais antigos distritos de São João del-Rei, por exemplo, chama-se São Sebastião da Vitória e certamente também realiza algum festejo em honra do santo, está presente no distrito do Rio das Mortes, em imagem no altar da igreja de Santo Antonio,  onde a beata são-joanense Nhá Chica foi batizada. E na urbana Paróquia de Matosinhos, a Comunidade de São Sebastião presta-lhe  calorosa prova de sua devoção.

São quatro dias animados, de 21 a 24 de janeiro, quando os devotos provam sua fé ao quarteto ali formado pelo Santo Mártir, juntamente com os santos negros São Benedito e Santa Efigênia e com Nossa Senhora do Rosário. Alvorada festiva, levantamento de mastros e bandeiras,  barraquinhas, missas, cortejos solenes, apresentação de grupos de congadeiros e uma procissão, em ruas e casas enfeitadas. É assim que aquela comunidade expressa sua fé, sua esperança e sua gratidão àqueles santos que fazem parte de seu cotidiano, regando dias e noites com orvalho de bondade e harmonia, iluminando sorrisos que brotam da alma e afastando para longe perigos e preocupações.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Em São João del-Rei, no carnaval 2016 o Rei Momo está quase nu. Sem capa, cetro nem coroa!


Se tem uma coisa que são-joanense legítimo não recusa é celebração. Talvez no barroco Livro do Gênesis de São João del-Rei, o sopro de ar e vida que Deus deu sobre o homem deste lugar, além de insuflar os pulmões, tinha halos de espetáculos, de teatralizações, alegorias, encenações, metáforas, símbolos, representações. Por isto a cidade é tão festeira e não perde a oportunidade de mover-se em procissões, cortejos e desfiles, principalmente se forem desfiles de escola de samba, com suas batucadas, foguetórios...

Mas em 2016 não vai ter desfile de escola de samba em São João del-Rei o que, sem dúvida, é um imensurável retrocesso econômico-financeiro-cultural para uma cidade que precisa fortalecer seu destino turístico. Mas, mais do que isto, é uma mordaça e uma punhalada na alegria desta "terra querida e formosa".

Se as instituições, sejam elas quais forem, ou todas elas juntas, não propiciaram ou se dispuseram a promover os desfiles, cabe aos cidadãos são-joanenses cuidar para que a festa, mesmo espontânea e até improvisada, tenha brilho e dignidade. Que os foliões, ao mergulharem no espírito do carnaval, pensem também na civilidade, na cordialidade, no respeito, na brincadeira, na ludicidade, na criatividade e em tudo aquilo que pode tornar especial o Reinado de Momo, em um tempo em que o Rei Momo está quase nu:sem capa, cetro nem coroa.

Carnaval é brincadeira e fantasia. Isto mesmo, tempo de fantasia. Daquelas, que se usava nos bailes de salão de antigamente: ciganas, piratas, índios, colombinas, toureiros, havaianas, mágicos, odaliscas, sultões, anjos irreverentes, baianas, gênios e melindrosas e que, nas últimas décadas, foram padronizadamente substituídas pelo uniforme calção, bermuda, short, camiseta, tênis ou sandália havaiana. Nada mais. Se for só isso, mais cerveja, cachaça, caipirinha, cachaça com mel, capeta, batida, vodka e whisky baratos, os blocos de carnaval se tornam nada mais do que bandos de insanos, falanges de desesperados, facções de alienados e alucinados. E nisto, onde está a graça? Onde está a alegria?

Em duração, o Carnaval de São João del-Rei é generoso. Começa daqui a duas semanas e só termina em fevereiro, na Quarta Feira de Cinzas. Se duvidar, mais de vinte dias. Se for comparar com o que vem depois, é a metade do tempo da Quaresma.

Os foliões têm direito à alegria, mas também a obrigação de fazê-la, materializá-la e zelar por ela, com dedicação, satisfação, orgulho, auto-estima, amor próprio e beleza.

Os cidadãos têm direito à dignidade, ordem, estrutura, respeito, consideração, mas - sobretudo e principalmente - à segurança. Inclusive os foliões, que também são cidadãos.

É certo, está correto: nenhuma instituição pública tem por finalidade, obrigação, meta ou objetivo exclusivos e absolutos promover a alegria e a felicidade do povo.  Mas se elas cumprirem com eficácia suas missões já estarão contribuindo muito para que isto aconteça.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Gazeta de São João del-Rei - 25/02/2012

domingo, 10 de janeiro de 2016

Em São João del-Rei, janeiro é tempo do glorioso mártir São Sebastião

Estamos às vésperas da festa de São Sebastião, que começa amanhã com uma novena noturna, e toques de sinos ao meio dia, às três e às seis da tarde, na Matriz do Pilar. Em grande parte cantada pela Orquestra Lira Sanjoanense, com repertório composto por músicos são-joanenses especialmente para esta data, a novena (vídeo abaixo) se repete diariamente às sete da noite até o dia 19 - dia 20, consagrado ao santo a cerimônia é outra: uma procissão que sai pelo lado direito da Matriz à Hora do Ângelus e, ao som da Banda de Música, segue rumo ao Largo das Mercês, atravessa o Largo da Cruz, cruza o Largo do Carmo e retorna pela à Catedral, onde tudo termina com um Te Deum Laudamus.

Guerreiro, São Sebastião vence e afasta para longe a "peste, a fome e a guerra", pelo que sua devoção é muito difundida em São João del-Rei desde a época em que surgiu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes.

Sua festa é das poucas que unem o erudito e o popular. Além da novena, procissão e Te Deum barrocos, São Sebastião é homenageado também com folias que percorrem casas e ruas dos bairros periféricos e desfilam na procissão, guarnecida pelas irmandades. Durante o cortejo, a folia segue em silêncio e assim muitas vezes permanece até quando, na chegada da procissão, fica por um tempo concentrada no adro da Matriz do Pilar. O silêncio é expressão de respeito, pois a folia é ritmada por instrumentos de percussão que a Igreja Católica de outrora julgava profanos.

Por ser um santo guerreiro, o andor de São Sebastião é enfeitado por flores vermelhas e carregados por soldados do Exército, fardados. Às vezes, a Banda de Música que toca durante o trajeto é também do 11º Batalhão de Infantaria e Montanha.

Por este ano acontecer em um dia útil no meio da semana, quando a vida urbana funciona normalmente, é possível que a procissão de São Sebastião não conte com a presença de todos os devotos do santo. Mas mesmo que não compareçam à igreja para seguir o andor da imagem e beijar a fita vermelha que pende do santo muitos são-joanenses elevarão o pensamento e alguns até farão o sinal da cruz quando os sinos da Matriz, das Mercês e do Carmo anunciarem a passagem da procissão e foguetes estourarem saudando o santo mártir, flexado, representado em uma das imagens mais antigas da Matriz do Pilar.

Salve o glorioso São Sebastião! Livrai-nos da peste, da fome e da guerra!

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Em São João del-Rei, presépios são herança sentimental, ora se desbotando pelo tempo...

São João del-Rei é muito fiel às suas tradições, sobretudo àquelas espontâneas e singelas, impregnadas de emoções genuínas, ingênuas e desinteressadas. Em poucas palavras, às que expressam emoções simples e muito autênticas, impulsionadas por elos de cuidado, afeto e lembranças. Como por exemplo o Natal.

Literalmente, à sombra da Serra do Lenheiro Jesus nascia em humildes presépios todo dezembro, tanto nas igrejas suntuosas igrejas quanto nas casas mais pobres, abrigado por grutas de papel armado ou estrebarias cobertas com palha ou capim, encimadas pela Estrela Guia, de cinco pontas e com sua curva calda, pendendo para a direita, ou pelo anjo celeste, com sua fita "Gloria in excelsis Dei". Junto da manjedoura, além de José e Maria, alguns animais, pastores com seu mínimo rebanho e os três Reis Magos, que após o dia de Natal, pouco a pouco iam sendo aproximados do Menino, o que só acontecia de fato no dia 6 de janeiro.

Nas casas, montar o presépio era uma solenidade. Escolhido o local e ajeitado o abrigo, as imagens antigas iam uma a uma sendo desembrulhadas do jornal que as protegia na caixa de papelão onde ficavam o ano inteiro guardadas e colocadas cada uma em seu lugar, determinado pela posição de seu corpo. A decoração se completava com areia branca, "barbas de árvore", musgos secos e plantas rústicas, muitas vezes complementando a ambientação. Todo presépio tinha a dignidade e a sacralidade de um pequeno altar.

Mesmo nas casas onde não se montava o presépio, o Menino Jesus vinha para um local de destaque, forrado por toalhas de crochê, enfeitado com flores ou plantas vivas delicadas e também consagrado, onde a família fazia orações e acendia velas.

Entretanto a urbanidade, com seus novos valores estéticos, humanos e afetivos, pouco a pouco está apagando o significado do presépio entre as gerações atuais. Os pais mais jovens em geral não dedicam mais importância a criar esse cenário mágico, privando a criança daquilo que pode futuramente ser parte de um imaginário de afeto, esperança, humanidade e boas lembranças.

Mesmo que não seja mais com espírito de fé, continuar montando em casa um presépio toda época de Natal é uma atitude importante. Ao mesmo tempo em que acaricia o espírito e reacende esperanças, é um modo de manter viva a lembrança e a memória dos nossos pais e avós que, acreditando na magia do Advento, nos deixaram esta herança sentimental que o mundo moderno está nos roubando e consumindo tanto que, se descuidarmos, não deixaremos para nossos filhos e netos.

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Democratizar mais a cultura de São João del-Rei. Compromisso há 5 anos levado a sério!

Na impermanência do mundo atual, com suas transformações velozes e radicais, ofícios, funções, serviços, profissões, produtos, materiais, tecnologias, empresas, organizações, técnicas e até mesmo verdades seculares caem por terra a todo instante. Prova disto é que a cada dia instituições tradicionais fecham as portas e até mesmo, segundo dados estatísticos, poucas são as empresas que, recém-criadas, conseguem ultrapassar três anos de vida. Assim, para um veículo eletrônico voltado para temas de interesse específico e muito restrito, comemorar com jovialidade o 5º aniversário de existência é, sem dúvida, uma grande vitória.

Diante disto, hoje é  dia de festa para o Almanaque Eletrônico Tencões e Terentenas que, há pouco mais de 3 horas, completou cinco anos de existência. O almanaque nasceu às 13h27min do dia 4 de janeiro de 2011, quando fez a primeira publicação, chamada Democratizar mais a cultura de São João del-Rei, ilustrada com a imagem acima. Nela, o almanaque já dizia a que veio: resgatar, divulgar e difundir a cultura e a memória de nossa cidade, visando contribuir para a elevação da auto-estima do povo são-joanense, para a valorização das tradições e da paisagem local e para a união e o comprometimento de todos em um esforço pela conservação e preservação do patrimônio vivo, material e imaterial de São João del-Rei.

Nestes 5 anos, foram publicados 734 posts, correspondendo a uma média de 147 posts por ano e 12,5 posts por mês, ou seja, 1 post a cada 2,5 dias. O número de visitas, totalizou 153.521, o que significa 30.704 ao ano, 2.560 ao mês, 85 ao  dia e 3,6 acessos por hora. Além do Brasil, o almanaque é também muito visitado nos Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Ucrânia, França, Holanda, Canadá, Dinamarca e Índia.

Fatos históricos que remontam ao nascimento do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar e da Vila de São João del-Rei, histórias curiosas e situações pitorescas que aconteceram na cidade nestes três séculos de existência, as tradições esquecidas e as ainda hoje cultuadas, personagens heroicos, simples e populares de todos os tempos, signos, símbolos e sinais peculiares de nossa terra. Tudo isto transformam-se em posts neste Almanaque Eletrônico, que tem como url diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.

Cinco anos já se foram. Deseja-se que muitos cinco outros ainda venham. Neste e em outros formatos. Como por exemplo no Vertentes & Conexões Culturais de São João del-Rei https://www.facebook.com/vertenteseconexoesculturais/ , que divulga atualidades e o dia a dia da cultura, do patrimônio, da memória, das tradições, dos saberes e da riqueza cultural de nossa cidade e de nosso povo.

Entretanto, esta ação será tão mais interessante e seus resultados tão mais úteis e efetivos quanto mais contar com a participação de todos, colaborando com informações, dicas, livros e materiais que possam servir como fontes de inspiração e referência para posts e outros produtos a serviço de nosso bem maior: a cultura material e imaterial, popular e erudita, religiosa e profana, antiga e contemporânea de São João del-Rei.