domingo, 29 de abril de 2012

São João del-Rei redescobriu o Brasil



É grande a bilbliografia existente sobre São João del-Rei. A cultura, a história, as artes, a religiosidade, a estética, a musicalidade, as tradições, o desenvolvimento econômico e social  são-joanenses são temas de várias obras lançadas desde o século XVIII e que cada vez mais inspiram estudos, monografias e teses acadêmicas.

Contudo, muitas vezes, conhecê-las e pesquisá-las requer grande esforço, pela falta de um guia de fontes impresso ou eletrônico que sistematize e divulgue a produção existente sobre São João del-Rei, indicando inclusive sua localização e forma de acesso.Fica, assim, uma sugestão.

Já colaborando neste sentido, Tencões & terentenas divulga no final deste post o link da dissertação São João del-Rei - Tensões e conflitos na articulação entre o passado e o progresso. Produzida por Ralf José Castanheira Flores, como requisito do Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, em resumo a dissertação analisa a inserção de São João del-Rei no processo de construção da identidade nacional, através da ação do SPHAN.

O estudo analisa também os conflitos em torno do casarão que hoje abriga o Museu Regional e investiga as representações dos artistas e intelectuais fundadores do movimento modernista que começaram por São João del-Rei, em 1924, a viagem de redescoberta do Brasil.

> http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&frm=1&source=web&cd=2&sqi=2&ved=0CDYQFjAB&url=http%3A%2F%2Fwww.teses.usp.br%2Fteses%2Fdisponiveis%2F18%2F18142%2Ftde-07042008-105131%2Fpublico%2FRALF_FINAL.pdf&ei=a_eaT7i1HYum8gTD3KmJDw&usg=AFQjCNHnfFq7Lbepn90b9dH_LNZkVNwZSg&sig2=W-y5173JppQ25MeLePUwsg

quinta-feira, 26 de abril de 2012

As coisas boas de São João del-Rei: acarajé mineiro? No Dedo de Moça tem!

O bolinho de feijão está para a gastronomia de São João del-Rei, assim como o acarajé está para a culinária baiana. A bem da verdade, os dois são feitos do mesmo material - o feijão -, têm formato e "modo de fazer" semelhante, mas também têm lá suas diferenças.

Enquanto que o acarajé baiano é maior e mais pesado,  frito no azeite de dendê  e recheado de vatapá, camarão e molho vinagrete, o bolinho de feijão é mais leve, no tamanho, na massa e no tempero, e originalmente não leva nenhum complemento que lhe disfarce o sabor. É pequeno e sem recheio, tal qual o acarajé preparado para ser comida ritual nos cultos afrobrasileiros. Por isso, dizem, o bolinho de feijão que se come em São João del-Rei é a versão mais antiga, original e primitiva do acarajé servido na Bahia e em grandes cidades litorâneas.

Mas o Restaurante Dedo de Moça, de São João del-Rei, resolveu misturar tudo. Magicamente juntar tradição e modernidade, unir o útil ao agradável, fundir acarajé com bolinho de feijão. Assim nasceu o acarajé mineiro - o bolinho de feijão, que tem o mesmo princípio constituinte da base do acarajé, frito em óleo de soja e com quatro recheios de sabor local, que substituem o vatapá e o camarão, típicos da cozinha beira-mar.

Quer saber que gosto tem? Então vá ao Dedo de Moça.  E prove também o fondue mineiro e a costelinha laqueada com mel e pimenta. Não se trata de uma costela de porco nem de Adão, mas com certeza, pela doçura dourada e tenra maciez, mais parece sobra do material que que Deus usou para criar Eva... 

Para arrematar, como sobremesa, não deixe de experimentar trufa de caipirinha. Coisas boas de São João del-Rei. Especialidades do Dedo de Moça!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Em São João del-Rei tem ouro. Do melhor e mais puro...

Ainda em memória ao 27º aniversário da morte do são-joanense Tancredo Neves, Tencões & terentenas relembra nesta postagem um dos mais belos poemas escritos para homenagear a saga do presidente eleito que, em 21 de abril de 1985, tomou posse no coração de todos os brasileiros.

Assinados por Ghiaroni, os versos foram publicados na edição histórica da Revista Manchete, que circulou nacionalmente no dia 26/04/1985.


                    Hoje eu canto uma cantiga
                    que parte do coração
                    com uma ternura imensa.
                    Cantiga para Tancredo
                    que nos libertou do medo,
                    que nos salvou da descrença.                              

                               Éramos tão sofredores,
                               tão grandes as nossas dores
                               e as alegrias tão breves.
                               Na própria terra, em degredo,
                               até que veio Tancredo,
                               Tancredo de Almeida Neves.                                            


                                            Com bravura e lealdade
                                             ele falou a verdade
                                             como há anos não se ouvira.
                                             Verdade ressuscitada
                                              para a geração cansada
                                              de escutar tanta mentira.                              


                               Como ovelhas sem pastor
                               e crianças sem amor
                                já nem sonhávamos mais.
                               Mas eis que, ao peso da cruz, 
                                vimos brilhar uma luz
                                vinda de Minas Gerais.                


                 Era a luz da liberdade,
                 era nossa identidade
                 que encontrávamos de novo.
                 Nem os ódios nos consomem
                 no dia em que o povo
                 é um homem
                 e que um homem é o povo.                        


                                      Rio Lenheiro que amei,
                                      corre em São João del-Rei,
                                      dá ouro, dizem que dá.
                                      Podem jurar como eu juro
                                      que dá o ouro mais puro.
                                      Tancredo veio de lá.                                          


                                                   Por isso, não choro, canto.
                                                   Sou cantiga em vez de pranto,
                                                   celebrando uma eleição.
                                                   Tancredo ao ser presidente
                                                    nos fez povo novamente,
                                                    novamente uma nação.

                                                                                        Deu-nos fé, fé brasileira
                                                                  que é dom da terra mineira,
                                                                  São João del-Rei, a lembrança,
                                                                   a glória de uma cidade,
                                                                   é São João da Saudade,
                                                                   São Tancredo da Esperança!




São João del-Rei. E também del Imperador ...


Há 131 anos, nas vésperas do dia 24 de abril, autoridades, clero, nobres, músicos, artífices, artesãos, artistas e o povo de São João del-Rei estavam todos extraordinariamente ocupados. Preparavam a cidade para receber a visita do imperador Pedro II, acompanhado de sua esposa, Teresa Cristina, e de numerosa comitiva.

Praças, largos e monumentos ganharam decoração extraordinária, condizente com a nobreza dos visitantes. Na Ponte da Cadeia, um torreão gótico. No Largo de São Francisco, um "arco do triunfo", mandado construir pelos médicos e farmacêuticos. Na entrada do solar do Barão de São João del-Rei, onde se hospedou Dom Pedro, na Rua da Prata, treze arcos de cetim e filó, confeccionados pelas delicadas mãos das damas são-joanenses.

Já no dia da chegada, o imperador respondeu à altura os agrados do povo são-joanense: visitou a Câmara Municipal, a Sociedade Filarmônica, a Biblioteca Municipal, a Santa Casa de Misericórdia e os hospitais de "alienados" e de "lázaros".

No dia seguinte, entre outros compromissos oficiais, conheceu as instituições locais de ensino, inaugurou o Grupo Escolar João dos Santos e encantou-se com o que viu nas barrocas igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo, conforme escreveu em sua caderneta de viagem.

Aliás, no Diário da Viagem a Minas, assim Dom Pedro II registrou sua impressão sobre o Solene Te Deum cantado em sua imperial homenagem, na noite de 25 de abril de 1881, na Matriz do Pilar: "Foi a melhor música que ouvi em Minas. Dizem que é do padre José Maria."

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Quando São Jorge andou, de corpo e alma, pelas ruas de São João del-Rei. E cobrou caro por isso...


Neste 23 de abril, dia de São Jorge, nada melhor do que recordar um capítulo pitoresco da história do santo guerreiro em São João del-Rei.

Consta que, no século XVIII, Jorge de Capadócia era figura de destaque na Procissão são-joanense de Corpus Christi. No começo e por vários anos, era representado por um personagem vivo, vestido a caráter, garboso e altaneiro com sua armadura, capa, capacete, escudo e lança. Por ter desempenhado tão importante papel, Domingos Leitão, no dia 31 de  1746, peticionou ao Senado da Câmara o pagamento por este serviço.

A partir de 1754, por vários anos, aconteciam na Vila de São João, na mesma data, duas procissões de Corpus Christi: uma pela manhã e outra à tarde, uma promovida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento e outra pelo Senado da Câmara. São Jorge era o mesmo. Como a cobrança pelo serviço, agora então dobrado, inegavelmente aumentava a despesa daquela "festa régia", a Câmara Municipal, em 1765, decidida a reduzir os custos, encomendou a um santeiro local  a escultura de uma imagem de São Jorge, em tamanho natural e com pernas arqueadas, de modo que pudesse ser montada em um cavalo de verdade.

Assim se fez. A partir de então, por muitas décadas, era a imponente e expressiva imagem que saía, como a cavalgar um animal, na procissão do Corpo de Deus.

Mas o cavalo ficou velho e empacou. Sem cavalo, não tem negócio: nada feito! O ditado popular confirma: "enquanto houver cavalo São Jorge não anda a pé". Daí, desde 1847, o Santo Guerreiro  declina convites,  recusa intimações e não sai mais em procissão. Ficou um bom tempo na Prefeitura, vigiando os vereadores. Depois foi recolhido para um armário, num sobressalão lateral da Matriz do Pilar.

Hoje, prefere ver o tempo calmamente gotejar pelas beiras-seveiras dos telhados do Largo do Rosário. Mirar, com  grandes olhos vivos e arregalados, os turistas que  visitam o Museu de Arte Sacra de São João del-Rei ...

Sobre outras peripécias de São Jorge em São João del-Rei, leia também http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/04/o-dia-em-que-sao-jorge-quase-caiu-do.html
............................................................................
Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume 1. 2a edição revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte. 1982.

sábado, 21 de abril de 2012

Na São João del-Rei de hoje, cadê a lembrança de Joaquim José da Silva Xavier?


  
Em 2012, hoje, dia 21 de abril, completam-se 220 anos da morte de Tiradentes. Em São João del-Rei, este ano, a data será lembrada apenas com a realização de uma cavalgada - fato que é incompatível tanto com a importância do acontecimento histórico quanto com o espírito do povo são-joanense.

Herança dos tempos barrocos, o povo de São João del-Rei é festivo por natureza e procura em tudo motivos para celebrar e enriquecer o cotidiano local com concertos, exposições, palestras, retretas, missas, recitais, teatro, shows e eventos os mais diversos. Por que será que o sacrifício de Joaquim José da Silva Xavier, nos últimos anos, está caindo para o limbo na cidade onde os sinos falam? Certo é que a criação do Dia da Liberdade e da Cidadania - comemorado no dia do nascimento do herói inconfidente -, em princípio, em nada contraria a importância e a necessidade de se lembrar sua trágica execução, em forca, ocorrida em 21 de abril de 1792.

Outro motivo torna ainda mais necessária uma reflexão sobre a incômoda pergunta: o marco alusivo às homenagens de São João del-Rei ao Bicentenário da Inconfidência, erigido no Largo Tamandaré, em frente ao Museu Regional, hoje está incompleto. Fruto da ação do tempo e das intempéries, não ostenta mais o coroamento de sua composição - três esferas e uma pirâmide triangular de pedra sabão. Visto de longe ou de perto, é um monumento desolado na ponta de um jardim-estacionamento, desvalorizado diante da imponência da sede local do IPHAN, onde funciona o Museu Regional de São João del-Rei.

No conjunto da programação 200 Sonhos de Liberdade, a placa do marco foi descerrada em cerimônia nobre e solene, presidida pelas mais importantes autoridades nacionais à época: o presidente da República Itamar Franco, o arcebispo primaz Dom Lucas Moreira Neves (foto), o governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo, o procurador geral da República Aristides Junqueira e muitos outros parlamentares e figuras de destaque no mundo político, como o atual senador Aécio Neves e sua avó, sempre muito querida em São João del-Rei, Dona Risoleta.

Desenvolvido em 1992, o projeto 200 Sonhos de Liberdade promoveu, por mais de quarenta dias ininterruptos, em São João del-Rei, uma série de atividades diversas - de palestras a exposições de arte popular e de peças históricas, de concertos de música erudita a toques de sinos, de conferências científico-acadêmicas a exibição de filmes relacionados ao tema, de missas barrocas a shows. Tudo ao estilo do grande herói.

Sem dúvida foi a mais vasta, mais intensa e mais longa ação comemorativa do Bicentenário da Inconfidência Mineira realizada no Brasil. Que outras iguais se desenvolvam...

No clipe abaixo, a homenagem 2012 de Tencões & terentenas:
Valeu, Joaquim José!
Libertas quae sera tamen ...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Viva os santos negros São Benedito e Santa Efigênia! Viva a afromineiridade de São João del-Rei!...


Cada vez mais as manifestações populares da cultura negra se mostram presentes no cotidiano de São João del-Rei, inclusive nas celebrações religiosas da igreja católica. Prova disso é que começaram ontem (19) e vão até o próximo domingo (22), no bairro de Matosinhos, as festas em louvor a São Benedito e a Santa Efigênia. De modo temporão, São Sebastião também será lembrado.

A festa religiosa dura três dias, tem missa e tríduo, mas seu colorido especial fica por conta da atuação do Grupo de Congado São Benedito e São Sebastião, que dará ritmo a uma caminhada, fará uma alvorada festiva, levantará os mastros dos santos homenageados e encabeçará um cortejo solene com as imagens de Santa Efigênia, São Benedito e São Sebastião.

À presença de Santa Efigênia nas Minas Gerais do tempo do ouro, guiando e protegendo os negros em tão cruel sociedade colonial, no clássico Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles escreveu o seguinte poema:

               ROMANCE IX OU DE VIRA-E-SAI                 
                  
                  Santa Ifigênia, princesa Núbia,
                  desce as encostas, vem trabalhar,
                  por entre as pedras, por entre as águas,
                  com seu poder sobrenatural.

    Santa Ifigênia levanta o facho,
    procura a mina do Chico-Rei:
    negros tão dentro da serra negra
    que a santa negra quase os não vê.

                                  

                                   Ai destes homens, princesa núbia,
                                   rompendo as brenhas, pensando em vós!
                                   Que as vossas jóias, que as vossas flores
                                    aqui se ganham com ferro e suor!

                    

                     Santa Ifigênia, princesa núbia,
                     pisa na mina do Chico-Rei.
                     Folhagens de ouro, raízes de ouro
                     nos seus vestidos se vêm prender.

          

           Santa Ifigênia fica invisível,
           entre os escravos, de sol a sol.
           Ouvem-se os negros cantar felizes.
           Toda a montanha faz-se ouro em pó.

                         

                          Ninguém descobre a princesa núbia,
                          Na vasta mina do Chico-Rei.
                          Depois que passam o sol e a lua,
                          Santa Ifigênia passa também.

                                       

                                        Santa Ifigênia, princesa núbia,
                                        sobe a ladeira quase a dançar.
                                        O ouro sacode dos pés, do manto,
                                        chama seus anjos, e vira-e-sai.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Em São João del-Rei, Procissão dos Mártires pagou carrasco com uma penca de 25 cobres. Ia-se 1886.


De interior bastante simples e fachada totalmente atípica em relação às demais igrejas setecentistas e oitocentistas de São João del-Rei, contemporâneas a ela, a igreja de São Gonçalo Garcia demorou 131 anos para ficar pronta. Sua construção atravessou parte do século XVIII, todo o século XIX e o começo do século XX, tendo se iniciado em 1772 e só terminado em 1903. A conclusão de seu entorno, no formato atual, avançou até 1915, quando ficou pronta sua bela, semicircular e alta escadaria.

Sobre a evolução da obra, o viajante Richard Burton, quando passou por São João del-Rei em 1868, na viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, registrou em sua caderneta de anotações:

         "A igreja de São Gonçalo Garcia ... é uma simples casca, uma inacabada ruína,
           de tão exposta, e, sem dúvida, exigirá muito tempo para se tornar uma casa
           de Deus apresentável". Sua previsão de futuro foi acertada...

A Irmandade de São Gonçalo Garcia de São João del-Rei, ligada à aristocrática Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, era a alternativa franciscana para os homens pardos e crioulos. Sua criação é anterior a 1759 e tinha sede na capela de Nossa Senhora das Mercês.

Em tempos passados, a Irmandade de São Gonçalo promovia, esporadicamente, a Procissão dos Mártires que, a exemplo da Procissão das Cinzas, era um cortejo de muitas insígnias e figurantes inusitados, tirados dos mais diversos capítulos da iconografia católica e da história bíblica.

Consta, por exemplo, que, em 1886, a dita procissão tinha "26 figurantes de mártires, sendo 6 adultos e 20 fradinhos" que, portando-se como os tradicionais penitentes espanhóis, carregavam cruzes. Além deles, se destacavam as alegorias da Fé, da Esperança e da Caridade, Adão e Eva e a heroína Judith, tendo às mãos uma espada sangrenta e a cabeça do gigante Holofernes. Verdade ou exagero, acredite quem quiser, o jornal Astro de Minas divulgou que a procissão daquele ano foi vista por dez mil pessoas.

Um anúncio crítico e capcioso - Chamando para o  grande evento, dias antes da curiosa procissão, o mesmo periódico veiculou, há 126 anos, o seguinte chamado:

               "Precisa-se de um oficial da guarda nacional, fardado,
                para servir de tirano na Procissão dos Mártires.
                Quem quiser, apresente-se e, se servir bem, garante-se-lhe
                o papel de Abraão na procissão de Sexta Feira Santa.
                Além do cartucho (de amêndoas doces), gratifica-se
                com uma penca de 25 cobres ou 1$000."

O assinante da convocação? Zé de Mamão!
..........................................................................
Fonte: GAIO SOBRINHO, Antonio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei. Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei - FUNREI. São João del-Rei, 2001.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O dia em que São Jorge quase caiu do cavalo em São João del-Rei


Daqui a alguns dias, 23 de abril, será dia de São Jorge - o santo guerreiro que, enquanto houver cavalo, não anda a pé.

Muito popular nas Minas coloniais, o culto a São Jorge era patrocinado pela Câmara das vilas, mostrando como especialmente naquela época eram firmes os elos que uniam poder e religião. Em São João del-Rei, por exemplo, São Jorge era um símbolo estatal tão importante que sua imagem não ficava na igreja, mas na Casa da Câmara.

Entretanto, conta a história que, pelos idos de 1842, o prestígio do santo que se projetava em sombra na lua cheia, lutando contra o dragão, andava meio abalado em São João del-Rei. Tanto que há 160 anos, no dia 8 de abril, o vereador Francisco Joaquim Araújo Pereira da Silva propôs à Câmara que a imagem de São Jorge e suas vestes fossem entregues ao vigário para "ficarem em um lugar com mais decência". Mas aí começou uma contenda que durou quase cinco décadas.

É que outro vereador, padre Bernardino, discordou, alegando que a imagem barroca estava em boa guarda na Casa da Câmara e, para aumentar sua imponência e dignidade, poderia até ganhar um rebuscado dossel de damasco. A proposta foi prontamente aceita por todos - quem não teme a ira do guerreiro? Com isso, São Jorge teve mantido seu "cargo" público por mais 45 anos, até que em 1887 o vereador João Rodrigues de Melo pediu a trasladação da imagem para a Matriz do Pilar pelo mesmo motivo: a sala onde ficava não tinha "a decência necessária que lhe é devida".

Da Casa da Câmara, a bela imagem de São Jorge, em tamanho natural e pernas arqueadas para montar cavalo vivo, foi para a Matriz. Hoje está no Museu de Arte Sacra. Mesmo sem cavalo, ali São Jorge não anda a pé...

............................................................................
Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2a edição revista e aumentada. Volume 1. Imprensa Oficial. Belo Horizonte. 1982.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

São João del-Rei celebra, com muita festa, cultura e oração, os 202 anos da serva de Deus, Nhá Chica

Cinema, música, palestras, via sacra, "cristoteca", romaria de motociclistas, congada, solene celebração eucarística, toque de sinos, terço luminoso, exposição de arte temática. Esta é a síntese das atividades que, na semana de 22 a 29 de abril, movimentarão São João del-Rei. Mais precisamente o distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes. Qual o motivo de tanta festa?  A comemoração dos 202 anos de nascimento e batismo de Francisca de Paula, a popular Nhá Chica.

Em processo de beatificação no Vaticano, Nhá Chica pode ser a primeira santa autenticamente brasileira. Tem-se como data de seu aniversário o dia 26 de abril de 1810 e grande parte de sua vida passou-se na cidade mineira de Baependi, para onde mudou-se quando criança e fixou-se até morrer.

Além de celebrar o nascimento, batismo e vida daquela que, por sua dedicação religiosa, tornou-se conhecida como a "serva de Deus", a programação lançará luzes sobre a riqueza cultural pouco conhecida e pouco divulgada de sua terra natal. O distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes, à sombra da opulência barroca de São João del-Rei, comprovadamente detém importante patrimônio natural, urbanístico, arquitetônico, bens integrados, bens móveis, documentais e imateriais.

Segundo o historiador Lúcio de Oliveira, pesquisas apontam que o grupo de congado Nossa Senhora do Rosário existe no distrito do Rio das Mortes desde 1695. É, portanto, uma das mais antigas expressões da cultura negra em Minas Gerais. Talvez a única ainda em atuação. Já a banda de música Lira do Oriente Santa Cecília, também daquele distrito, tem como data provável de sua fundação o ano de 1895.

Quem tiver oportunidade de participar das comemorações dos 202 anos de nascimento e batismo de Nhá Chica, não perca. Com certeza vivenciará aspectos pouco conhecidos da história e da cultura de São João del-Rei.
..........................................................................
Fonte: Instituto Nhá Chica in http://saojoaodelreitransparente.com.br/events/view/2267

Semana Santa de São João del-Rei atualiza e eterniza passado setecentista

Capela oratório de N. S. da Piedade - SJDR (foto do autor)
Não é de agora que a Semana Santa de São João del-Rei, hoje considerada a mais tradicional do Brasil, é imponente e grandiosa. Repetindo ainda hoje, praticamente inalteradas, muitas liturgias e solenidades próprias do século XVIII, surpreende a todos pela vivacidade e autenticidade com que são mantidas. Desta forma, os ofícios e procissões, ao preservarem suas características originais, tornam-se a um só tempo clássicos e contemporâneos, o que os livra de qualquer folclorização, congelamento ou cheiro de naftalina. Assim, apesar de bisseculares, parecem (e são!) sempre atuais.

Para conhecer a dimensão desta "festa" religiosa no século XIX, basta avaliar uma informação divulgada pelo jornal Tribuna do Povo, que circulou na cidade no dia 16 de abril de 1882. Segundo o antigo periódico são-joanense, naquele ano distante, "trinta padres tomaram parte nos festejos da Semana Santa de São João del-Rei".

Crescendo a cada ano tanto em preservação quanto em documentação visual, a Semana Santa são-joanense é foco certo de muitos fotógrafos e cinegrafistas, amadores e profissionais, nativos, de outros estados e até de outros países e continentes. Um bom exemplo desta documentação fotográfica espontânea você pode conhecer no link    http://www.observatoriodacultura.org/2012/04/imagens-da-semana-santa.html  Trata-se de rico e belo trabalho que o fotógrafo André N. P. Azevedo produziu sobre o tema.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

São João del-Rei tem Atitude Cultural

Atitude Cultural é coisa que toda pessoa deve ter. No caso de cidades, principalmente aquelas que possuem riquezas históricas, ter atitudes culturais é fundamental. São João del-Rei tem esta felicidade: uma organização não-governamental destinada exclusivamente a promover, divulgar e apoiar realizações culturais sustentáveis, que contribuam para a valorização do patrimônio material e imaterial são-joanense. É a Atitude Cultural.

Seus projetos de maior visibilidade são aqueles que ocorrem em períodos comemorativos de grande expressão na cidade, como fim de ano, carnaval e Semana Santa. Para cada um deles a Atitude Cultural desenvolve anualmente projetos especiais, que vão da iluminação de Natal, realização de shows, exposições físicas e virtuais, criação e lançamento de agendas, cartazes e DVDs, encontro de folias de reis e pastorinhas, Carnaval de Antigamente, tapetes de rua, encontro de samba, seresta e chorinho e um sem-fim de atividades. Semanalmente a Atitude Cultural divulga por e-mail uma agenda de imperdíveis eventos artísticos e culturais.

Além disso, no dia a dia ou em ocasiões especiais, a Atitude Cultural incentiva e apoia artesãos, artistas e corporações vinculadas à arte e à cultura são-joanense, contribuindo das mais variadas formas para seu resgate, fortalecimento, articulação e valorização.

Contudo, menos visível, a coluna vertebral da Atitude Cultural é o portal São João del-Rei Transparente (http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/). Navegando nele, internautas de todo o mundo encontram informações completas, diversificadas e preciosas sobre São João del-Rei. Banco de imagens, fontes de consulta e pesquisa, artigos, monografias, documentos fotográficos, estudos, endereços, contatos, cronogramas - enfim tudo o que se refere ao vasto e rico patrimônio da Terra da Música, onde os sinos falam e todo mundo entende.

Fruto de suas pesquisas, documentação e realizações, a Atitude Cultural gera produtos como cartazes e agendas, que são disponibilizados para instituições artístico-culturais são-joanenses comercializarem, a preços simbólicos, para obtenção de recursos que auxiliem seu próprio funcionamento.

Da música ao folclore. Da arte barroca à expressão popular. Das artes plásticas à gastronomia. Dos bordados à internet. A atuação da Atitude Cultural é multidisciplinar, diversa, plural, transversal e bem pode ser sintetizada na expressão "unidade na diversidade".

Ao mesmo tempo em que têm forte característica preservacionista, seguindo a vertente da memória, as ações implementadas pela Atitude Cultural incentivam o desenvolvimento de novos talentos e o exercício de novas linguagens. Isto muito bem se vê nos tapetes processionais de rua confeccionados com areia, serragem, sementes e flores que decoraram o Largo de São Francisco e a Rua da Prata de São João del-Rei na Semana Santa de 2012, a exemplo do detalhe retratado abaixo.


Medalhão criado e executado pelo artista Ugo Agostini Haddad

terça-feira, 10 de abril de 2012

Salve Regina! Salve São João del-Rei e o Coral dos Coroinhas de Dom Bosco ...

Registro musical primoroso e precioso, que sem dúvida confirma e contribui para que São João del-Rei seja digna de uma de suas mais consagradas denominações: Terra da Música. Assim bem pode ser definido o CD Salve Regina, lançado recentemente pelo Coral dos Coroinhas de Dom Bosco da Matriz do Pilar de São João del-Rei, para comemorar o quadragésimo aniversário de sua fundação.

A Associação dos Coroinhas de Dom Bosco foi criada pelo padre José Teixeira Pereira, auxiliado pela professora Irene Sacramento, tendo como pilares valorosos a educação, a piedade e a responsabilidade. Com atuação essencialmente religiosa, os coroinhas participam das liturgias, "acolitando" às mais diversas cerimônias da Catedral de Nossa Senhora do Pilar e "louvando ao Senhor com o aprimoramento do canto litúrgico, principalmente o canto gregoriano". O canto dos Coroinhas é fundamental em diversas celebrações da Semana Santa de São João del-Rei, especialmente nos Ofícios de Trevas / Canto de Matinas e Laudes, Canto da Paixão e cerimônias vespertinas da Quinta Feira Santa.

Engana-se quem pensa que ser coroinha é coisa só de menino. Prova disto é que quase a metade dos setenta membros da Associação e Coral dos Coroinhas de Dom Bosco é constituída por homens adultos, muitos dos quais casados e pais de família. Como paralelamente à aprendizagem do cantochão os primeiros meninos receberam aulas de flauta doce, flauta transversal e violino, interessaram-se também pelo estudo da música, graduando-se nesta modalidade artística. São alguns deles que, hoje adultos, estão à frente do Coral dos Coroinhas e se dedicam ao ensino e à manutenção desta que é uma das mais antigas manifestações musicais: o canto gregoriano. A  eles São João del-Rei muito deve agradecer.

O CD Salve Regina pode ser adquirido na Casa Paroquial do Pilar - Rua Monsenhor Gustavo, em frente à Capela do Santíssimo Sacramento / Sacristia da Boa Morte da Matriz do Pilar. Informações sobre o disco e o Coral podem ser obtidas pelo telefone (32) 3371-2568.
............................................................................
Fonte: Capa / encarte do CD Salve Regina

Capela da Piedade - e do Bom Despacho - de São João del-Rei tem quase 280 anos


 A diminuta capelinha de Nossa Senhora da Piedade, ou simplesmente Passinho da Piedade, é um dos monumentos coloniais mais antigos do centro histórico de São João del-Rei. Com a particularidade de somente abrir três vezes por ano, no dia da Procissão das Lágrimas (6a. sexta-feira da Quaresma), na Quinta Feira Santa e na Sexta Feira da Paixão, sua construção é anterior a 1740, pois a 6 de abril de 1741

            "A Câmara de São João del-Rei resolve dar, anualmente, a quantia de seis oitavas de ouro para a constituição do patrimônio da Capela de Nossa Senhora da Piedade e do Bom Despacho, que alguns devotos haviam construído em frente à cadeia, para que os presos pudessem assistir a missa aos domingos e dias santificados", piedosamente, porém sem sair de suas celas.

Três meses depois desta decisão, no dia 8 de julho de 1741, o Senado da Câmara de São João del-Rei oficialmente encaminhou carta à Sua Majestade, o rei português D. João V, pedindo aprovação de um patrimônio anual de seis mil réis para a Capela de Nossa Senhora da Piedade.Tão importante era a capela e a função ali desempenhada que o Rei Sol português, sensibilizado pela causa, atendeu ao pedido e a resposta, que chegou à Vila de São João dois anos depois, foi registrada em sessão da Câmara realizada no dia 28 de agosto de 1743.

Uma indagação curiosa - Já que a imagem do altar da capela retrata Nossa Senhora com Cristo morto em seus braços - conhecida em Minas Gerais como Nossa Senhora da Piedade - o termo Bom Despacho seria uma alusão ao desejo e às orações dos presos para que seus processos criminais tivessem bons despachos nos julgamentos, diminuindo ou livrando-os de suas duras, severas e rigorosas penas?

A propósito ... - A construção da primeira cadeia pública de São João del-Rei, no Largo do Rosário em frente à Capela da Piedade, foi autorizada por Dom João V no dia 11 de abril de 1738. Sua planta previa "três enxovias fortes, numa sala fechada, e duas casas para o carcereiro". Atualmente o edifício abriga o Museu de Arte Sacra.
...........................................................................
Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, 1º volume - 2ª edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte, 1982.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Piedosas e solenes tradições de São João del-Rei

Cruzeiro do Morro da Forca - São João del-Rei. Foto do autor
São João del-Rei iniciou ontem, Domingo de Ramos, com muita pompa, fé e cultura, a celebração de mais uma tradicional Semana Santa. Com toques de sinos, motetos sacros, procissões, missa barroca e Canto da Paixão, a cidade marcou o primeiro dia de sua semana mais importante - extenso e intenso evento religioso cultural que faz parte da vida de todo são-joanense, independentemente de sua cor, classe social, nível econômico ou formação educacional.

Em São João del-Rei não há quem, de alguma forma, não viva a Semana Santa como um fenômeno. Isto porque, na cidade, Paixão de Cristo é uma festa mais forte e mais importante do que o Natal, apesar de sua linguagem estética, artística e comunicacional ser originária dos séculos XVIII e XIX.

A língua oficial da maioria das celebrações é o latim, mas isso não constitui dificuldade de compreensão para os são-joanenses por vários motivos.Um deles é que os maduros, pelo amor que têm à tradição, conhecem de cor as músicas e os textos cantados nas missas e ofícios. Segundo porque a Paróquia do Pilar, promotora da Semana Santa mais tradicional do país, editou um livro - Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra - que descreve minuciosamente todas as solenidades, incluindo os textos e leituras que constituem o ritual, com tradução comparativa em português para tudo o que é lido, recitado ou cantado em latim. 

Na Semana Santa de 2012 o livro esgotou sua segunda edição, mas trata-se de obra tão importante que, certamente, a Paróquia de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei, logo que possível, cuidará de providenciar a terceira edição, disponibilizando-a para fiéis, estudiosos e turistas. É o que todos esperamos...