terça-feira, 24 de novembro de 2015

São João del-Rei. Dentro do tempo tem Tempo. Do colonial ao barroco digital


Não é raro, aqui, ali e acolá, encontrar são-joanenses chorando pelo leite derramado. Desqualificando gratuitamente a cidade como patrimônio da cultura brasileira, pelo que se perdeu de sua paisagem urbana colonial e imperial. Mas também tem gente séria, sábia e comprometida refletindo produtivamente sobre esta situação.

É verdade, muito se perdeu, e a responsabilidade começa com o Estado, que não foi competente o bastante para agir, tanto com medidas protetoras quanto com ações convictas e enérgicas para impedir - e no que fosse possível e adequado reparar - demolições e descaracterizações. Mas a comunidade também tem grande parcela de culpa. Ignorante do valor da tão vasta riqueza histórico-patrimonial que era de sua propriedade, deixou-se enganar pelo canto da sereia da então modernidade do século XX, não zelou e destruiu muitas edificações que eram tão valiosas.

O mundo evolui, as cidades crescem, surgem novas necessidades urbanas e humanas e, se de lado nenhum vier inteligência, diretriz, conhecimento técnico e sensibilidade, é natural que muito do que é retrato do passado escorra pelos bueiros, Córrego do Lenheiro embora. Foi isto o que aconteceu. É isto o que, hoje, se tenta evitar. Mas em menor escala ainda acontece.

Simplesmente lamentar o que se foi, sem nenhuma contribuição a oferecer não leva a nada. Pelo contrário, acaba sendo uma atitude derrotista leviana, que fragiliza ainda mais o esforço para preservação do que ainda existe. As perdas, as agressões e os prejuízos à memória não podem ser esquecidos, mas precisam transformar-se em consciência em favor da proteção do que sobreviveu e do que ainda pode melhorar. E até em projetos voluntários concretos, como foi, por exemplo, a construção da capela do Divino Espírito Santo.

Uma ajuda poderosa tem vindo mediada por alguns recursos de comunicação e compartilhamento de informações, ideias, preocupações  e sentimentos muito atuais: a tecnologia digital e as redes sociais. Isto porque são-joanenses das mais diferentes idades e níveis social, econômico e cultural, simplesmente tendo à mão um smartphone, estão instrumentalizados e empoderados para fotografar e publicar no Facebook as belezas culturais de nossa cidade.

E fazem isto tanto em comunidades e grupos específicos quanto em perfis pessoais, utilizando o ambiente digital para divulgar também, às vezes até comparativamente, os dois momentos de São João del-Rei. De um lado paisagens, edificações e cenários que desapareceram, por força do tempo e pela inércia ou inadequada ação humana e de outro lado o que ainda hoje é motivo de orgulho de quem gosta de nossa cidade. Incluindo nisto tudo o patrimônio imaterial - das procissões e concertos eruditos até expressões populares, como personagens comuns e manifestações da cultura de nosso povo.

Alguns são-joanenses também utilizam os blogs pessoais ou institucionais como veículo útil para o registro, resgate e divulgação da história são-joanense. Artigos, fotos, vídeos, comentários, depoimentos, transcrição de documentos - tudo isto pode ser encontrado nos canais criados para valorizar e difundir a cultura de São João del-Rei.

Levantamento e catalogação deste universo, seus canais, protagonistas, estratégias, interesses e objetivos, merecem atenção e realização conjunta da Secretaria Municipal de Cultura com o Departamento de Comunicação da Universidade Federal de São João del-Rei. Os registros contemporâneos do tempo presente, à luz de um diálogo com velhas imagens, lembranças, crenças e documentos do passado são referências importantes para atuar no presente, com vistas no futuro.

Foto e texto: Antonio Emilio da Costa



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O enigmático, misterioso e encantador aniversário dos cemitérios de São João del-Rei


Alguém já ouviu falar que cemitério faz e celebra aniversário? Pois é, em São João del-Rei isto acontece.

O que é popularmente conhecido pelos são-joanenses mais ligados às tradições litúrgicas coloniais como aniversário do cemitério é a cerimônia que a igreja local denomina Missas Aniversárias dos Cemitérios.

Esta celebração, que se repete sete vezes em diferentes dias, consiste em uma Missa de Réquiem, ofício de responsórios e marchas fúnebres, executados pelas bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense ou Ribeiro Bastos. O repertório é composto por obras de compositores são-joanenses dos séculos XIX e XX, destacadamente o padre José Maria Xavier, Luiz Baptista Lopes, Emídio Machado, João Feliciano de Souza, Pedro de Souza, Benigno Parreira e Geraldo Barbosa de Souza.

Após esta missa, na igreja que é sede da Irmandade homenageada, os "irmãos" saem em procissão até o cemitério da referida Irmandade, onde o padre faz orações fúnebres, abençoa os presentes e pede a Deus pela alma dos "irmãos" falecidos.

Interessante observar que nestes dias é feita uma ambientação especial, fúnebre, nas igrejas onde começará a celebração. No corpo da igreja, pouco antes do arco-cruzeiro que é a grande porta da capela-mor, é disposto um tapete retangular preto de veludo ou tecido adamascado, engalanado ou com franjas douradas, tendo ao centro, vistosamente bordada, uma grande cruz dourada ou amarela. Cada ponta do tapete  é guarnecida por um castiçal alto, de vela acesa, como se fosse receber um caixão para missa de corpo presente ou encomendação.

A ordem destes "aniversários" tem como referência o dia 2 de novembro, que é o Dia de Finados, e, a contar desta data, é a seguinte:

1a segunda-feira - Irmandade de São Miguel e Almas
1a quarta-feira - Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte
1a quinta-feira - Irmandade do Santíssimo Sacramento
1a sexta-feira - Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos

12 de novembro - Ordem Terceira de São Francisco de Assis

15 de novembro - Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e Irmandade de São Gonçalo Garcia

16 de novembro -Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos

17 de novembro - Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês

Veja, no vídeo abaixo, a bela cantata fúnebre BWV 198: Laß, Fürstin, laß noch einen Strahl "Trauerode" (composta em 17 de outubro de 1727, por J.S. Bach)


Texto e foto: Antonio Emilio da Costa