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Mostrando postagens com o rótulo curiosidades

São João del Rei na língua do povo: 50 ditados e expressões populares

 Na São João del-Rei de outrora, os ditados e expressões populares eram poderosos recursos de linguagem na comunicação informal. Nesta terra onde os sinos falam, a língua do povo falava muito estas curiosas, surrealistas e inusitadas expressões, muitas delas com cores e significados locais. Não são raros os são-joanenses, principalmente os mais vividos - para não dizer os mais antigos, ou, ainda, os mais velhos -, que ainda hoje, nas suas conversas cotidianas, usam estas enigmáticas expressões da sabedoria popular para: justificar ou reforçar opiniões pessoais ou de terceiros, transmitir conhecimento, alertar, aconselhar, advertir ou simplesmente colocar uma pitada de humor e tornar mais leve e lúdico um assunto, que muitas vezes é espinhoso, indesejável e indigesto. Com o tempo, muitos ditados populares foram se tornando menos propagados e, consequentemente, menos conhecidos e pouco transmitidos entre sucessivas gerações. Alguns chegaram muito perto do desaparecimento e hoje são m...

Sapateiros do tempo em que Adão rodava pião na palma da mão. Coisas de São João!

Sr. Geraldo, mestre da Sapataria Nossa Senhora do Carmo, em sua mesa de trabalho Quase ninguém sabe, mas o ofício de sapateiro foi um dos primeiros serviços oficializados na Vila de São João del-Rei. Consta que, no dia 20 de julho de 1719, o Senado da Câmara local concedeu licença para Manoel de Araújo exercer aqui a função de confeccionar e consertar sapatos, colaborando para a saúde, o conforto, a elegância e a distinção dos nobres moradores destas paragens. Pelo jeito, naquela época ser sapateiro não significava exercer um ofício irrelevante nem economicamente pouco expressivo. Para conquistar a licença, Manoel de Araújo teve que apresentar fiador e se comprometer com o pagamento dos quinto reais e das taxas de almoçataria. Mais de 70 anos depois, outro sapateiro Manuel, desta vez Manuel da Costa Capanema, foi réu citado nos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, suspeito de fazer parte do grupo de conjurados.-  - Por qual motivo? - Porque mais de uma vez, em diferentes luga...

Inconfidência dos escravos: Reis foram presos na Quaresma de São João del-Rei.

Da história colonial de São João del-Rei, especialmente de alguns capítulos, pouco se fala. A bem da verdade, deles nada se fala, principalmente quando não exaltam fatos grandiosos, vangloriam feitos gloriosos, louvam atos destemidos e corajosos daqueles que, por razões que aqui não vem ao caso, foram consagrados como heróis. Assim como em quase toda parte, também aqui a história dos oprimidos não consta dos livros de História. Uma pena. Mas vamos adiante... Desde os anos setecentos, a Quinta-Feira Santa sempre sensibilizou e mobilizou fortemente a população de São João del-Rei. Principalmente as cerimônias da Última Ceia do Senhor e do Lava-pés, além da visitação às igrejas, que retratam primorosamente e com grande criatividade as cenas bíblicas que contam os milagres, sermões e outras passagens da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vem daquela época o costume, ainda hoje muito vivo, de na noite de Quinta-Feira Santa visitar uma a uma as belas igrejas barrocas e capelas do...

São João del-Rei sempre a encantar. É só abrir o coração, o ouvido e o olhar!

Quando passeamos pelo centro histórico de São João del-Rei, apreciando a paisagem urbana, é comum focarmos nosso olhar no casario e sua arquitetura colonial. As fachadas, brancas em sua maioria, com as portas e janelas coloridas de vermelho, azul. ocre, verde, amarelo, dão à cidade um tom vivo e alegre, capaz de aliviar o humor até da pessoa mais aborrecida. As cores têm esse poder e esse efeito: alegram a vida! Mas se levantarmos um pouco mais o olhar para a linha onde o céu encontra os telhados, principalmente se for ao anoitecer ou amanhecer, certamente vamos nos supreender com algumas formas recortadas que, em geral, não percebemos facilmente na luz do dia. Como por exemplo essa grimpa que fica no ponto mais alto da torre da capela do Divino Espírito Santo, na Rua das Flores - Muxinga. São João del-Rei tem tudo para o tempo todo a nos encantar. É só abrir o coração, os ouvidos e o olhar!

O enigmático, misterioso e encantador aniversário dos cemitérios de São João del-Rei

Alguém já ouviu falar que cemitério faz e celebra aniversário? Pois é, em São João del-Rei isto acontece. O que é popularmente conhecido pelos são-joanenses mais ligados às tradições litúrgicas coloniais como aniversário do cemitério é a cerimônia que a igreja local denomina Missas Aniversárias dos Cemitérios. Esta celebração, que se repete sete vezes em diferentes dias, consiste em uma Missa de Réquiem, ofício de responsórios e marchas fúnebres, executados pelas bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense ou Ribeiro Bastos. O repertório é composto por obras de compositores são-joanenses dos séculos XIX e XX, destacadamente o padre José Maria Xavier, Luiz Baptista Lopes, Emídio Machado, João Feliciano de Souza, Pedro de Souza, Benigno Parreira e Geraldo Barbosa de Souza. Após esta missa, na igreja que é sede da Irmandade homenageada, os "irmãos" saem em procissão até o cemitério da referida Irmandade, onde o padre faz orações fúnebres, abençoa os presentes e pede a Deu...

Vovô Gomide & as Catitas de São João del-Rei

Na galeria dos personagens típicose muito populares de São João del-Rei, um muito pitoresco, mas hoje praticamente esquecido, é Vovô Gomide. Fins dos anos 50, começo dos anos 60, já relativamente idoso, o velho meio branco, baixinho, de cabelo e barba brancos, morava na esquina da Rua Coronel Tamarindo com a Rua Rodrigues de Melo, onde hoje existe a Praça Padre José Maria Fernandes, próximo à Rua do Barro e ao Pau D'Angá. Para as crianças, pela semelhança, era o ilustre Marquês de Tamandaré, que naquela época corria de mão em mão na nota de Cr$ 1 (um cruzeiro). Sempre de paletó escuro e surrado, com sua voz mansa, rouca e baixa, se dizia nobre, descendente do Barão de Cocais, e aguardava a chegada de sua parte da lendária herança, que vinha não se sabe de onde, mas do século XIX. O que fazia dele uma pessoa especial? Vovô Gomide catava no chão maços vazios de cigarro que os fumantes jogavam fora e desenhava a lápis, no verso da estampa e no papel branco, garatujas de corpo...

Tencões e terentenas: três anos e quase cem mil vezes São João del-Rei!

O Almanaque Eletrônico Tencões e Terentenas completa, nestes primeiros dias de janeiro de 2014, três anos de existência. Nele, em publicações quase que diárias, foram divulgados 600 posts sobre a cultura de São João del-Rei, não somente nos aspectos históricos, artísticos, eruditos e religiosos, mas também sobre as manifestações espontâneas e sobre as mais diversas formas de expressão da cultura popular da " cidade onde os sinos falam " . O número de acessos, hoje, aproxima-se de 100 mil. Neste tempo, foram publicados 251 mensagens, recebidas  de quem, tendo lido o almanaque, se dispôs a encaminhar comentários, em sua maioria respondidos pelo autor desta publicação eletrônica. Com satisfação, percebe-se que Tencões e Terentenas está cumprindo sua missão de ser útil no processo de valorização, divulgação e difusão da cultura e da memória de São João del-Rei. Seus posts frequentemente transformam-se em pauta para outros meios de comunicação - sobretudo jornais impres...

Belos e férteis quintais. Ainda existem paraísos intimistas no centro urbano de São João del-Rei

São João del-Rei surpreende. Na maioria das vezes, de onde menos se espera, salta uma visão inesperada que mostra a renovação pela qual a vida sempre brota naquele - e daquele -lugar. Remanescentes de velhos tempos e resistentes às atuais pressões por mais espaço residencial, os quintais nos dizem isso. Dizem também - e tão bem - que é possível alcançar o que Bachelard sentenciou: "O universo tem um destino de felicidade. O homem deve encontrar o Paraíso."  É só acreditar e persistir... Mas também em São João del-Rei o crescimento populacional impulsiona a demanda pelo aumento das áreas habitacionais, fazendo com que, cada vez mais, as casas cubram espaços que antes tinham céu aberto. Cimentem canteiros e cresçam verticalmente. Com isso, se domestica e urbaniza o que antes era celestial. Perde-se a porção do Éden que havia no pequeno território familiar e intimista, antes povoado por muito do que Deus criou no começo do mundo: laranjeiras, roseiras, orquídeas, hortências,...

Outubro Rosa em São João del-Rei." Todo dia é dia, toda hora é hora de saber que este mundo é seu"!

Todo mês de outubro, em muitas das grandes capitais brasileiras, os mais belos e principais monumentos públicos recebem iluminação noturna especial, rosada, como parte da campanha de prevenção do câncer de mama. É o movimento nacional conhecido como Outubro Rosa . Em São João del-Rei, independentemente da época do ano e do horário do dia, muitas pessoas, por puro deleite, pintam as fachadas de suas casas de cores vivas e variadas, em tons vibrantes: vermelho, verde, abóbora, azul, amarelo, abacate, hortência, ocre, cereja, ferrugem, laranja, lilás, rosa, terra - sem qualquer pudor ou constrangimento. Agindo assim, buscam deixar mais alegres a vida e a paisagem, fazendo cumprir o que sentencia uma antiga constatação poética de Antônio Marcos Noronha:                                 " Era dia comum                            ...

São Cosme e São Damião brincam inocentes nos largos, ruas e becos de São João del-Rei

No meio de tanta festança que no mês de setembro acontece no centro histórico de São João del-Rei - todas grandiosamente belas, corporativamente promovidas pelas Irmandades e Confrarias setecentistas -, pode parecer que não existe espaço para manifestações culturais singelas e espontâneas. Mas não é bem assim. Mal avançam as primeiras horas da manhã do dia 27 de setembro, já se percebe nos mais diferentes pontos da cidade, principalmente nas áreas residenciais dos bairros, um alvoroço diferente: são as crianças correndo atrás dos doces distribuídos  pelos adultos para saudar São Cosme e São Damião. Balas de coco, paçoca, pé de moleque, maria-mole, pirulito, doce de batata doce, pipoca industrializada - tudo vale para adoçar a vida e acariciar a infância da inocência, legítima e verdadeira. Não aquela oficialmente " pastichificada " no comercial Dia da Criança. Na verdade, a tradição de deixar doces e balas nos jardins e também distribuir guloseimas açucaradas no dia ...

Propina legal em São João del-Rei. Era no século XVIII...

A história de São João del-Rei tem muitos registros curiosos e  inusitados. No dia 24 de setembro de 1781, por exemplo, um Acórdão autorizou o pagamento de “propinas” a cada membro da Câmara de São João del-Rei  – presidente, vereadores, procurador, e escrivão do Senado - que comparecesse às festas religiosas realizadas na Matriz do Pilar. O valor variava de acordo com a importância social da celebração e procissão. As quatro festas mais importantes – Corpo de Deus, Visitação de Santa Isabel, Anjo Custódio do Reino e Nossa Senhora do Pilar – rendiam cada uma, ao  bolso de cada servidor público, dez mil réis. Igual valor ganharia quem comparecesse às festividades de São Francisco da Bórgia e do Patrocínio de Nossa Senhora. Consideradas de menor expressão, as festas de São Sebastião, São João Batista e da Publicação da Bula garantiam, cada uma, cinco mil réis. A assiduidade no cumprimento social do compromisso religioso, representando o poder público, poderi...

Tira-se o véu por trinta dinheiros em São João del-Rei. Findava agosto de 1755...

Mesmo nas solenidades mais tradicionais, tocantes e piedosas, como as da Festa de Passos e da Semana Santa, hoje é muito raro, nas igrejas de São João del-Rei, ver uma mulher usando véu para cobrir a cabeça, quando segue a caminho da mesa da comunhão. Até pouco mais do que a metade do século passado, este lenço retangular de renda fina e transparente ainda fazia parte do vestuário religioso feminino, como símbolo de respeito, devoção, obediência, pureza e elegância. A cor variava entre branco, azul claro, cinza e preto, sinalizando entre outras coisas a idade e o estado civil da jovem ou senhora que o véu usava. Poucos sabem, mas houve um tempo em que as mulheres de São João del-Rei só podiam andar em determinados espaços sagrados são-joanenses com a cabeça bem coberta por um gorro padrão, possivelmente adquirido da própria igreja. Prova disso é que no dia 28 de agosto de 1755, o padre comissário Manoel da Costa Faro propôs -  em reunião da Ordem Terceira de São Francis...

O universo fantástico de São João del-Rei: o Rio Jordão, a serpente e o castigo de Adão e Eva

Dentro de poucas horas, São João del-Rei já estará na glória do dia de Nossa Senhora do Carmo. Alvorada festiva, sinos dobrando, gente arrumada chegando no largo e na igreja, missas cantadas, adorações, horas santas, música barroca, procissão, estandartes, crianças vestidas de anjo, tapete de flores, banda tocando, cheiro de incenso, de pipoca, de beijo quente de coco e de amendoim, perfume forte de mulher no ar, foguetes ruidosamente estrelando de cores o luzeiro celeste. Tudo tal qual se fazia há quase três séculos, para agradar o Céu e a Terra. Com tanta intensidade, entusiasmo, fé, cor e luz, talvez não seja assim em nenhuma outra cidade. Tão antiga quanto a festa do Carmo - e envolvendo o magnífico templo - é uma crença que ouvi, na infância, de minha avó, Francisca Maria da Conceição (1898 - 1994). Nos idos anos 60, eu criança pequena ela me dizia que sua mãe jurava que sua avó contava que o Rio Jordão, onde Cristo foi batizado, corria debaixo da igreja do Carmo. Que n...

Irmandade das Almas tranca a rua e o cofre, toca o sino e sela a eternidade em São João del-Rei

Se o dia 1º de junho felicitou São João del-Rei com a criação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário mais antiga de Minas Gerais, também a segunda mais antiga de todo o Brasil, em 1708, quando a cidade ainda era o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, oito anos depois, o dia 2 de junho também deu sua contribuição para a riqueza religiosa e cultural de nossa terra. Naquela data, em 1716, portanto há 296 anos, Dom Francisco de São Jerônimo, bispo do Rio de Janeiro, instituiu canonicamente a Irmandade de São Miguel e Almas da recém-elevada Vila de São João del-Rei. A Irmandade das Almas, como é popularmente conhecida, é das ordens religiosas mais populares da cidade. Sediada na Matriz do Pilar, em sacristia frontal à principal, ocupada pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, tem seu altar em posição de destaque, imediatamente à direita do altar-mor. Além disto, sua importância se evidencia na pintura do teto do vestíbulo que separa as duas sacristias: três alma...

Vandalismo e conto do vigário na Matriz do Pilar de São João del-Rei. Era 24 de janeiro de 1844...

Com quase trezentos anos, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar figura como um dos mais belos, imponentes e importantes templos  barrocos de São João del-Rei. Não só de nossa cidade, mas também de Minas Gerais e do Brasil. Sua talha dourada é requintada, as pinturas de seu teto muito originais e singulares, sua prataria refinada e valiosa e suas imagens, todas muito antigas e expressivas. Dizem até que algumas existem desde o tempo da capela primitiva que, no morro do Bonfim, foi incendiada durante a Guerra dos Emboabas. Pois bem, há 169 anos, no dia 24 de janeiro, o "vetusto" templo foi alvo de vandalismo que, na verdade, começou com um conto do vigário . Sabe como aconteceu? Altas horas, o sacristão dormia em sua casa, em beco próximo à igreja, quando foi acordado com fortes pancadas em sua porta e alguém gritando: - "A porta lateral da igreja, no lado do Cemitério está aberta! Convém fechar!". Preocupado, ele não pensou duas vezes. Vestiu um agasalho, ...