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Em São João del-Rei, Mãe do Ouro fez estrela virar pepita e dragão virar serpente no fundo Rio Jordão



Este mês, do dia 15 ao dia 22, o Museu Regional de São João del-Rei realizará a Semana do Folclore, cujo tema tem grande identificação com a história local: a Mãe do Ouro. Palestras, teatro de rua, e exposição literária sobre o tema acontecerão no centro histórico colonial e na sede do Museu.

O Almanaque Eletrônico Tencões e terentenas se candidatou para participar da exposição com este texto:

Nossa Mãe do Ouro fez estrela virar pepita, 
dragão virar serpente e subiu ao Céu numa lua de prata

- Mãe do Ouro em São João del-Rei? Nâo, seu moço, nunca ouvi falar disto não...

- Hã?! Aquela que para uns mostrava, e para outros embaraçava e escondia os caminhos que levam onde muito ouro estava dormindo, e ainda hoje dorme feito pedra desde que Deus criou o mundo? Não! Desconheço esta estória...

- Quem? Aquela que ainda hoje guarda, de dia e  de noite toma conta da entrada das betas. A mesma que antigamente botava pintas de ouro no cristal branco que descia no Córrego do Lenheiro e nas enxurradas, e da água saíam como areia dourada para o fundo das bateias dos garimpeiros? Sei não...

- Como? Aquela que ajudou os emboabas a escorraçarem os paulistas na guerra medonha que aconteceu aqui em 1709, quando foi queimado todo o Arraial do Rio das Mortes, até a capelinha de Nossa Senhora do Pilar? Ora moço, como é que eu vou saber? Ainda não tinha nascido. Só sei que correu muito sangue...

- Cá entre nós, tudo o que eu sei, ouvi na Festa da Boa Morte. Nos sermões do dia 15 de agosto, nas músicas muito antigas que a Orquestra Lira Sanjoanense toca na missa das 10, quando o altar dourado da Matriz do Pilar abre, para Nossa Senhora da Assunção subir aos Céus em nuvens de incenso cheiroso. Uma beleza!

- Neste dia, o padre sempre conta de um tal de Apocalipse. Parece que ele escreveu um livro, falando de um dragão que existia no céu e que ficou furioso, quando viu uma mulher formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em campo de batalha.  Tão brabo ele ficou que cuspiu brasa, soprou fogo, quis devorar crianças e derrubou com o rabo metade das estrelas, que do céu caíram na terra. Mas não adiantou nada...

- Dizem que aqui em São João as estrelas viraram ouro , amarelinho-amarelinho, na Serra do Lenheiro. Por castigo, a mulher luminosa transformou o dragão em uma serpente, e prendeu no fundo do Rio Jordão, que passa debaixo da igreja do Carmo. O Rio Jordão, o senhor sabe, nasce lá pelos lados do Oriente e foi nas águas dele que São João Batista batizou Jesus Cristo, não é mesmo?

- Olha, só se a mulher que transformou as estrelas em pepitas de outro e fez o dragão virar a serpente que dormindo e presa no fundo do nosso Rio Jordão, for essa tal Mãe do Ouro.

- Quem sabe ela não é também aquela mulher bonita, pisando descalça sobre a lua crescente de prata e com um diadema de estrelas, que sai em procissão e atravessa os becos e as pontes de pedra no entardecer do dia 15 de agosto? Ela mesma, a que misteriosamente também vai num outro andor logo atrás e é coroada por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo...

- Mas não conta pra ninguém isto não, moço! Nesse dia os sinos tocam muito. Muitos foguetes coloridos estouram no céu. É muito barulho. Se a serpente que dorme há séculos acordar, o mundo acaba...


Texto e foto: Antonio Emilio da Costa



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