quarta-feira, 30 de março de 2011

Semana Santa em São João del-Rei. Festa de Passos é Fé, Tradição e Cultura


As Comemorações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a Caminho do Calvário constituem um marco nas cerimônias que antecedem a Semana Santa em São João del-Rei. Esta condição ganha maior destaque considerando que não possui similar nas demais cidades históricas mineiras nem em outras cidades brasileiras nascidas no tempo colonial. Além disso, não são unicamente representações culturais, mas continuam vivas, como manifestações de religiosidade que reúne, organiza, articula e propaga uma infinidade de signos, símbolos e sinais que, integrados, formam uma linguagem e um discurso muito próprios. Tanto que a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, promotora da “Festa”, com muita propriedade, fez constar no programa de divulgação das solenidades, o slogan “Fé. Tradição. Cultura.”
A realização litúrgica envolve todos os sentidos, conjuga muitos elementos, que possuem os mais diversos significados. Vários são explícitos e consagrados pela percepção inequívoca e inquestionável; outros deixam indicações para que se estabeleçam significações ainda não reconhecidas ou imaginadas. Por tudo isso, a Festa dos Passos é um canal perfeito para o estabelecimento de contatos sensoriais, cognitivos, intelectuais e transcendentais do homem são-joanense com o divino.
Visão, audição, olfato, tato, paladar são provocados e estimulados, de muitas formas. Na cor roxa dos tecidos, das roupas das imagens, das flores que enfeitam os andores, das fitas que adornam os sinos. Nas músicas, nos sons, nas melodias, nas vozes, nos instrumentos, no toque dos sinos, na marcha das bandas, nos motetos da Orquestra Ribeiro Bastos. No perfume do rosmaninho, do manjericão, do incenso, da colônia aplicada sobre a fita que se beija,da pipoca quente estourada no carrinho e vendida na praça. No toque suave dos lábios na fita roxa que pende das imagens, da mão no veludo dos mantos e das túnicas sagradas, na cruz de madeira. No sabor das amêndoa-doce, do quebra-queixo, da pipoca, do algodão-doce e de todas as guloseimas vendidas na praça onde as imagens se encontram, comandadas pelo sermão. E também do lombo, com tutu e macarronada, que geralmente se come no Domingo de Passos.
Tudo tem sentido no ritual litúrgico que relembra os “Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a Caminho do Calvário”. Do grande e imponente pendão roxo - onde se lê em ouro S.P.Q.R. - com longas cordas e pingentes dourados, carregado pelos nobres “doutores” da sociedade são-joanense, até o sem-igual pálio vermelho, reproduzindo, em bordado a fio de ouro, os estigmas da Paixão e o céu estrelado.
Até o que não se imagina, pode ter sentido. Como por exemplo serem cinco as capelas-passos, ou, na intimidade, nossos Passinhos. Não são cinco as chagas de Cristo? Dizem que Deus está no Céu, na Terra, em Toda Parte! Está muito mais na nossa cabeça, quiçá em nosso coração...

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+   Serviço   +
6ª Feira das Dores (Procissão do Depósito de Nossa Senhora das Dores) – 1º de abril – 19 horas – Matriz do Pilar
Sábado de Passos  (Procissão do Depósito de Nossa Senhor Bom Jesus dos Passos) – 2 de abril – 19 horas – Matriz do Pilar
Domingo de Passos (Rasouras e Procissão do Encontro) – 3 de abril (8h, 9h e 17h30) – Igrejas do Carmo e de São Francisco de Assis

Crédito da ilustração: reprodução de foto de folder-programa da Irmandade dos Passos

terça-feira, 29 de março de 2011

Semana Santa 2011 - Em São João del-Rei, pranto setecentista a embalar nossos dias

Miserere, do compositor setecentista Manoel Dias de Oliveira, é expressão perfeita do sentimento / alma da Semana Santa de São João del-Rei, sobretudo da Festa de Passos. Clamor profundo, impossível definí-lo.

Quase todos os são-joanenses sabem o moteto - com arranjo vocal elaborado - de cor, em latim e em português.

É a trilha sonora ideal para os dias que antecedem as procissões das Dores, dos Passos e do Encontro (1o, 2 e 3 de abril). E também para se contemplar e meditar sobre a foto publicada neste almanaque eletrônico Tencões & terentenas, ontem, 28 de março.

Para ouvir o moteto Miserere, em versão raríssima, clique na imagem abaixo .

Sensibilizado pela música, leia Miserere Mei São João del-Rei e veja foto citada, acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/03/miserere-mei-sao-joao-del-rei.html 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Miserere mei ... São João del-Rei

No próximo fim de semana, de sexta (1º) a domingo (3), o centro histórico de São João del-Rei será palco perfeito de cinco procissões que muito bem representam um drama que aterroriza a humanidade. A violência. No caso, a representação é extremada, porque é elevada à potência divindade e a vítima, o homem-deus.  Velários roxos, estandartes roxos, incensos, rosmaninho, manjericão, velas, palmas portuguesas, orquídeas, avencas, hortências, galões dourados, espadas de prata, resplendores de prata, coroa de estrelas de prata, coroa de espinhos. Sinos pungentes, motetos lamentosos, lágrimas de diamante, sangue de rubi. Todos estes elementos barrocos tornam ainda mais trágico o teatro sagrado. É a estética a sensibilizar para a conversão, para a reflexão e para a aproximação do humano com o divino.

Mas a violência nossa de cada dia não tem alegorias. O que se vive hoje nas avenidas, nas pontes, nos becos, nos mercados, nos bancos, nos lares não tem recursos teatrais nem elementos cenográficos. A crueldade e a barbárie são de verdade, reais. Na África, na Ásia, na Europa, na América. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em São Salvador da Bahia. Até em São João del-Rei.

A ilustração abaixo, retratando uma cena real colhida durante a guerra em Kosovo, bem pode ser compreendida como uma foto 3 x 4 de nossos dias. Nas zonas de conflito ou onde se imagina ilusoriamente viver a paz, em paz. Olhemos para ela como quem contempla uma Pieta contemporânea. E pensemos como somos vítimas ( mas também algozes) de nossos dias, de nossos sonhos, de nossa infância, nossa juventude, nossa maturidade, nossa maioridade, enfim, de nossas esperanças...

No mundo de hoje, terá se tornado a paz, apenas, uma ilusão?


Crédito: Deuil in Kosovo - Georges Merillon /Gamma -Vencedora do Prix World Photo 1990 - Categoria Fotojornalismo

Paulo Mendes Campos morou em São João del-Rei


Às vezes, no entusiasmo do sentimento nativista e valendo-se da força das palavras, alguns são-joanenses chegam a dizer que "São João del-Rei é um dos berços da arte". Esta declaração de amor pela cidade não é de todo desmedida: desde a criação da Vila de São João del-Rei até nossos dias, muitas pessoas que aqui nasceram ou viveram nesta cidade deram importante contribuição para o desenvolvimento cultural do país, destacando-se no campo das artes plásticas, da pintura, da literatura, do cinema e até, mais recentemente, da arte midiática.

Entre os vários escritores que viveram em São João del-Rei, Tencões & terentenas destaca aqui o nome de Paulo Mendes Campos.  Nascido em Belo Horizonte a 28 de fevereiro de 1922, começou seus estudos na capital mineira, prosseguiu em Cachoeira do Campo (onde o padre professor de Português lhe vaticinou: "Você ainda será escritor") e terminou em São João del Rei.

 Muito moço ainda, ingressou na vida literária, juntando-se à trupe formada pelo são-joanense Otto Lara Resende, com Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, João Ettiene Filho e Murilo Rubião. Foi para o Rio de Janeiro em 1945, para conhecer o poeta Pablo Neruda, e por lá ficou a viver o dia a dia.

Na sua autobiografia, referindo-se a São João del-Rei, escreveu:

1938 - Os japoneses tomam Cantão; no Hotel Espanhol, São João del-Rei, os bacharelandos do Ginásio de Santo Antônio tomam vinho Gatão e recitam um ditirambo de Medeiros de Albuquerque (estava no florilégio do compêndio): "Bebe! e se ao cabo da noite escura, / Hora de crimes torpes, medonhos, / Varrer-te acaso da mente os sonhos, / Cerra os ouvidos à voz do povo! / Ergue teu cálice, bebe de novo!" Foi o que fizemos.

No poema Testamento do Brasil, parcialmente transcrito abaixo, também se refere a nossa cidade:


TESTAMENTO DO BRASIL 

Que já se faça a partilha.  
Só de quem nada possui  
nada de nada terei.  
Que seja aberto na praia,  
não na sala do notário,  
o testamento de todos.  
Quero de Belo Horizonte  
esse píncaro mais áspero,  
onde fiquei sem consolo,  
mas onde floriu por milagre  
no recôncavo da brenha  
a campânula azulada.  
De São João del-Rei só quero  
as palmeiras esculpidas  
na matriz de São Francisco.  
Da Zona da Mata quero  
o Ford envolto em poeira  
por esse Brasil precário  
dos anos vinte (ou twenties),  
quando o trompete de jazz
ruborizava a aurora  
cor de cinza de Chicago. 
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Fonte e foto: http://palavrarte.sites.uol.com.br/Poeta_Lembrei/poelembrei_poesias2.htm

quinta-feira, 24 de março de 2011

Semana Santa 2011 - No Sábado de Aleluia, São João del-Rei saudará São Jorge


São João del-Rei é mesmo uma terra de cultura imprevisível e surpreendente. Por mais que se imagine serem vastas as expressões culturais são-joanenses, aqui sempre tem uma nova manifestação cultural espontaneamente brotando, florescendo, florindo, frutificando. Este ano, por exemplo, voltará às ruas, sob novo formato, uma celebração que era muito importante na vila de São João del-Rei no começo do século XVIII: a festa de São Jorge.
23 de abril é dia de São Jorge. Em 2011, 23 de abril será também Sábado de Aleluia. Nesta data, a Legião São-joanense de São Jorge – LSSJ se apresentará à comunidade de São João del-Rei, dando início a um trabalho que tem como missão principal difundir e propagar o culto a São Jorge - santo católico, símbolo da firmeza e ícone da luta vitoriosa do bem contra o mal.
São Jorge era guerreiro e viveu na Capadócia. Na lenda, ele mora na lua cheia, onde luta contra o dragão da maldade humana. Em São João del-Rei, no próximo dia 23 de abril, ele descerá do alto da do Senhor dos Montes, cheio de força, poder, comando, alegria e confiança, e durante todo o dia passará, como comandante diante das tropas, em revista por diversas ruas são-joanenses em cortejos, corrida rústica, cavalhadas, capoeira, maracatu, congada. Manifestações de entusiasmo que brota da fonte viva que é a fé na alma humana. Só não terá missa porque é Sábado de Aleluia, mas haverá uma bênção católica coletiva.
Uma curiosidade: no século XVIII, o dia de São Jorge era festejado com muita pompa em São João del-Rei, inclusive com procissão  solene, que saía da Matriz do Pilar, patrocinada pelo Senado da Câmara da Vila. A imagem, que nesta procissão saía montada em um cavalo vivo, tem grande expressividade facial e pode ser conhecida no Museu de Arte Sacra.
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*  Serviço  *
A Legião São-joanense de São Jorge - LSSJ é uma entidade civil sem fins lucrativos, criada em 2010. Seu objetivo é, por meio da celebração anual do Dia Festivo Consagrado a São Jorge, fortalecer no imaginário dos são-joanenses a presença do santo guerreiro como representação da fé, confiança, ética, justiça e retidão, simbolizadas nos ideais e nas armas de São Jorge.

 Para isso, espera contar com o apoio espontâneo, de qualquer natureza, de devotos do santo, do empresariado, de instituições culturais e até (por que não?) do próprio São Jorge. Para informações e contatos: (32) 3373-0709 / tatumanuel@hotmail.com

quarta-feira, 23 de março de 2011

Você já viu sino tocar “em feitio de oração”? Na Semana Santa de São João del-Rei, tem...

Com o aproximar da Semana Santa, dia a dia o clima introspectivo e místico da Quaresma cada vez fica mais denso em São João del-Rei. Quaresmeiras floridas espalham roxo por toda parte. Cartazetes da Festa de Passos - em preto, roxo e dourado – estão afixados em jornais murais, ocupam quadros de aviso de locais públicos, estampam  vitrines das sapatarias, paredes de bares, balcões de verdurarias, prateleiras de supermercados, caixas de padaria... Impossível não se lembrar!
Duas Vias Sacras Solenes já se realizaram; duas Encomendações de Almas também. Na próxima sexta-feira, dia 25, acontecem a última Via Sacra de Rua, saindo da Matriz do Pilar às 19h30, e a última Encomendação de Almas, que parte do Cemitério do Quicumbi às 23h. Na trilha sonora de ambas , os Motetos dos Passos, do compositor são-joanense Martiniano Ribeiro Bastos, além de orações próprias, para uma, nas capelas-passos, e para outra, nos cemitérios, encruzilhadas, cruzes e cruzeiros. Esta função não termina antes da 1h do sábado, 26.
Compondo o barroco cenário sonoro da Quaresma, em São João del-Rei, nesta época, os sinos tocam de modo próprio. Lentos, largos, pungentes, compassados, ao meio-dia, às três da tarde, à hora do Ângelus, dobram dolentes nas igrejas onde, no dia, haverá a Via Sacra Interna. Tal  programação se estenderá até a véspera da Quarta-Feira de Trevas, em 2011, no dia 20 de abril.
Matriz, Carmo, Rosário, São Francisco, Senhor dos Montes, Bonfim, São Gonçalo, Santo Antônio, Senhora de Lourdes, Senhora das Dores. Quem está em São João del-Rei não pode perder a oportunidade de ouvir, ao vivo, a mensagem dos tantos e tão “afinados” sinos são-joanenses.

Mas quem não pode escutar “face a face” este chamado, matará a vontade (e a saudade!) se clicar no vídeo abaixo e ver / ouvir o sino da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos tocando “em feitio de oração”.
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 *    Serviço   *
Sexta-Feira das Dores (1º de abril) - 19h, Matriz do Pilar: Missa Barroca e depósito de Nossa Senhora das Dores para a igreja do Carmo
Sábado de Passos (2 de abril) - 19 h, Matriz do Pilar - Missa Barroca e depósito do Senhor Bom Jesus dos Passos para a igreja de São Francisco de Assis
Domingo do Encontro (3 de abril)
8h, igreja do Carmo: Rasoura de Nossa Senhora das Dores e Missa solene cantada
9h, igreja de São Francisco de Assis: Rasoura do Senhor dos Passos e Missa Solene cantada - Adoração da Cruz
18 horas - Das duas igrejas saem as procissões das imagens do Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora das Dores para o Encontro, no Largo das Mercês, imediações do Pelourinho. No trajeto, motetos barrocos sacros são executados pela Orquestra Ribeiro Bastos
19 horas, Matriz do Pilar - Entrada da Procissão, Sermão do Calvário e cantos barrocos próprios para a solenidade

terça-feira, 22 de março de 2011

Patrimônio cultural de São João del-Rei faz sorrir milhões de brasileiros (2)

A Cera Dr. Lustosa, medicamento milagroso contra a dor de dente, não foi famosa somente entre a população menos favorecida, que muito sofria pela falta de cuidados com a saúde bucal, entre eles escovar os dentes após as refeições.

Intelectuais e escritores mineiros também conheceram e até escreveram sobre o medicamento infalível, como por exemplo Fernando Sabino, na menção, transcrita abaixo, que fez a São João del-Rei no livro A Chave do Enigma:

"Caminhando pelas ruas de São João del-Rei. Uma dor de cabeça renitente pede com urgência um comprimido. Se fosse dor de dente, pediria Cera Dr. Lustosa. Ainda há em São João quem se lembre do próprio Dr. Lustosa, criador da milagrosa cera, cujo cheiro característico me vem da infância..."

segunda-feira, 21 de março de 2011

Patrimônio cultural de São João del-Rei faz sorrir milhões de brasileiros


As novas gerações talvez não a conheçam, mas a Cera Dr. Lustosa é valioso patrimônio cultural de São João del-Rei. Criada pelo Dr. Paulo Lustosa e utilizada largamente para aliviar a dor de dentes em uma época em que poucos conheciam a escova de dentes, o produto parecia milagroso pelo resultado imediato. Bastava aplicar uma pequena “bolinha” da cera sobre a cárie que, em poucos segundos, adeus dor de dente...

A Cera Dr. Lustosa tem quase cem anos, pois a fórmula final foi registrada em 21 de janeiro de 1922. Mas seis anos antes dela, o dentista  são-joanense, formado em 1906, após muitas pesquisas – visando aliviar o sofrimento causado tanto pela dor de dentes quanto pelos medicamentos líquidos de uso local que queimavam a boca e tinham efeito breve - produziu a pasta antisseptica Pauber, que trazia no nome partes do nome do criador e de sua esposa Bertha. Sempre dedicado à causa e, por isso mesmo, avançando em seu trabalho,  em 1932,Dr. Paulo criou a Gutha Percha, produto que, aplicado sobre a cárie, funcionava como uma obturação provisória.

O pioneirismo inovador da utilização da cera de abelha na indústria farmacêutica rendeu a Dr. Paulo Lustosa, em 1929, medalha de ouro pela criação da Cera. A eficácia terapêutica e a grande demanda pelo medicamento tornou a Cera Dr. Lustosa um produto muito requisitado. Com isso, em 1930, ele abandonou a atividade clínica, dedicando-se integralmente ao laboratório, agora transformado em empresa. 

O medicamento foi consagrado nacionalmente e tornou-se líder de mercado, pela eficácia no alívio prolongado da dor de dente. Tanto que, durante muitos anos, as encomendas chegavam acompanhadas de cartas agradecendo pelo alívio obtido com o uso do produto. A popularidade do medicamento são-joanese foi tamanha que em 1972, quando completou cinquenta anos de lançamento, seu criador foi homenageado com mensagem do Ministro da Saúde,  Rocha Lagoa, parabenizando-o pelos serviços prestados à população carente, com o remédio que aliviou a dor de milhões de brasileiros.

Ainda hoje, 89 anos após sua criação, a Cera Dr. Lustosa continua a ser produzida artesanalmente em São João del-Rei - Largo do Rosário, no belo e impomente Solar dos Lustosa.

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Fonte e ilustração: http://www.doutorlustosa.com.br

São João del-Rei restaura igrejas de Ouro Preto

A qualidade, competência e especialização de artistas, técnicos e empresas de São João del-Rei na restauração de obras de arte e edificações coloniais são reconhecidas nacionalmente. Tanto que cada vez mais aumenta o número de monumentos e edifícações históricos religiosos e civis restaurados com a participação de são-joanenses.

Atualmente, por exemplo, uma empresa de São João del-Rei é responsável pela restauração da porta de  um dos mais importantes exemplares da arquitetura religiosa barroca brasileira: a Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto. Também a capela de São João, da mesma cidade, está sendo restaurada com a participação da empresa são-joanense , conforme matéria que você pode ler acessando http://www.ouropreto.com.br/noticias/detalhe.php?idnoticia=4463

domingo, 20 de março de 2011

Desde 1717, a música é a mãe das artes em São João del-Rei


Aproximando da ilustração de que Deus, no ato da Criação, após moldar o homem de barro e falar-lhe algumas palavras, deu-lhe vida com um sopro e, desta forma, colocou  dentro dele todo o universo, que o perpassa por meio da respiração, a história mostra que, em São João del-Rei, a música foi e ainda é o sopro vital de todas as artes. Refletindo a este respeito, Antonio Guerra, na obra Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei -1717 a 1967, inspirado no historiador são-joanense Fábio Nelson Guimarães, escreveu:
São João del-Rei pode se ufanar  de ter sido o berço ou a segunda infância das artes nas terras de Minas Gerais, no século inicial da colonização  do Estado. O espírito artístico germinou no seio das corporações musicais, concorrendo como moldura incentivadora para a implantação das artes cênicas.
O ouro das serras ergueu e ornou os templos, semeados pela crença inata dos reinóis, criando obras  em arquitetura e escultura. Surgiram, então, a música e outros trabalhos com características próprias, fluentes do misticismo das igrejas, como apanágio da religiosidade do povo.  A música a vivificar o sentimento religioso, como complemento das construções barrocas.”
O primeiro registro da atividade musical em São João del-Rei data de 1717, quando o maestro Antonio do Carmo liderou uma banda de música no Morro do Bonfim, na chegada do governador D. Pedro de Almeida, Conde de Assumar, que viera visitar o arraial surgido  em 1703 e elevado à categoria de vila em 1713, portanto apenas dez anos depois.
Sobre esta, que talvez tenha sido a primeira visita de uma importante autoridade à cidade, os registros feitos por Samuel Soares de Almeida, existentes no Arquivo do Patrimônio (GUERRA: 1968, 15), descrevem que:
O Governador Conde de Assumar, sendo recebido à entrada da Vila de São João del-Rei, com todo o cerimonial da época, seguindo-se as solenidades religiosas e profanas usuais. Na entrada da Vila se achava construído, por ordem do Senado da Câmara, um excelente pavilhão, ornado com riqueza e decência possível, onde se achava o Ouvidor, o presidente do Senado e mais vereadores para pegarem nas varas do pálio, debaixo do qual foi conduzido o governador, precedido dos homens bons... que marchavam ao som de uma música organizada por mestre Antônio do Carmo até a igreja matriz, onde o vigário entoou Te Deum ... Houve iluminação geral por três noites em toda a vila.
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Fonte: GUERRA, Antonio. Pequena história de teatro, circo, música e variedades em São João del-Rei, 1717 a 1967. Sociedade Propagadora Esdeva, Lar Católico, 1968.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Musicalidade de São João del-Rei corre o mundo. Mais do que se imagina...

Nesta noite, no Espaço Cultural Calêndula, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas saúda os calouros do curso de Música da Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ, apresentando-se como um canal de interação, entretenimento, informação e diálogo com os estudantes que nos próximos anos dedicarão sua vida acadêmica a uma atividade que é a própria alma de São João del-Rei: a Música.
São João del-Rei é uma cidade viva, culturalmente pródiga, e singular, pois mais que qualquer outra pulsa sonoridade. Assim, é um universo rico e fértil para quem deseja estudar música que, aqui, transcende instrumentos convencionais e partituras e se alastra na forma de apitos de trem, toques de sino, ensaios musicais, foguetes e de uma infinidade de sons muito próprios.
Tencões & terentenas valoriza muito este aspecto da cultura são-joanense e, periodicamente a contempla em suas postagens, disponibilizando fontes, estudos, produções acadêmicas, gravações e vídeos que documentam a sonoridade e a musicalidade de São João del-Rei. Marcas registradas da cidade desde sua gênese, em 1703.
A musicalidade de São João del-Rei corre o mundo, tem registros que nem por muitos de nós é conhecido, como a peça abaixo, com composições de Manuel Dias de Oliveira, utilizadas na Sexta-Feira da Paixão, no momento da comunhão,  na Matriz do Pilar. Clique no vídeo abaixo e confira:

http://www.youtube.com/watch?v=JKc9caPIlpM&playnext=1&list=PL81FFEADA92B8BC8D

Manoel Dias de Oliveira-Miserere



quinta-feira, 17 de março de 2011

Todos estão ligados e de olho na riqueza patrimonial de São João del-Rei

Lateral da Igreja do Pilar, em São João Del Rei (Foto: Luciano Oliveira/Divulgação Prefeitura de São João Del Rei)

Recentemente, na primeira semana de março, os olhos são-joanenses se voltaram com atenção e cuidado para um dos mais importantes templos do barroco mineiro, aqui edificados: a Matriz do Pilar. As chuvas intensas e fortes que por longo período caíram na região favoreceram um pequeno desmoronamento externo na quina da parede da igreja, no ângulo esquerdo do andar superior da fachada lateral, sob o qual há um vestíbulo de acesso à sacristia da Boa Morte, à capela do Santíssimo Sacramento e ao interior do templo, na altura do arco-cruzeiro.
Se o fato trouxe surpresa, a resposta não tardou. Demonstrando responsabilidade, zelo e competência em relação a tão importante patrimônio religioso e histórico-cultural, o pároco do Pilar e o representante do IPHAN na cidade imediatamente se pronunciaram. Tranquilizaram a população quanto ao diagnóstico do estrago - suas causas e consequências - e informaram as providências que seriam adotadas, inclusive estabeleceram prazos. Foi um posicionamento sério e honesto, o que se comprova pelo adiantado estágio da obra, que está sendo realizada observando a natureza dos materiais e técnicas originalmente utilizados na construção quase tricentenária.
Numa demonstração de interesse da mídia para com São João del-Rei, por várias vezes o assunto foi apresentado na imprensa local e estadual, como por exemplo na notícia veiculada nesta quinta-feira, 17/03, no MG TV, 1ª e 2ª Edição, da TV Globo Minas (vídeo não disponibilizado no site G1). Além do andamento das obras, a matéria comenta o fato de que, apesar de seu notável potencial turístico, São João del-Rei este ano não será contemplada com verbas do ICMS Turístico. A razão, conforme explicou um representante da Secretaria Municipal de Cultura, é que a cidade não tem um plano municipal de desenvolvimento turístico compatível com a moderna visão desta atividade econômica, o que é exigido pelo Governo de Minas Gerais para concessão do benefício. Mas, segundo ele, em breve este pré-requisito será atendido, permitindo que em 2012 a cidade possa se candidatar para receber este incentivo.
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  Serviço  *
Para ler síntese da matéria veiculada no MG TV no dia 10/03/2011, clique no link http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2011/03/igreja-de-sao-joao-del-rei-tem-parte-de-parede-destruida-pela-chuva.html (vídeo não disponibilizado no site G1)


Crédito da imagem: reprodução de foto divulgada no endereço eletrônico citado acima.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tencões & terentenas no Espaço Cultural Calêndula, em São João del-Rei

Direto de São João del-Rei
Apresentação presencial de um canal de comunicação virtual. Isto é um contra-senso, um disparate, um despropósito? Não. Pelo contrário, é a oportunidade de aproximação, diálogo e comunicação face a face,  superando algo que, se por um lado é a grande possibilidade da internet, por outro é sua principal limitação: a virtualidade.

Com este objetivo, na próxima sexta-feira, 18 de março, às 22 horas, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas será presencialmente apresentado em São João del-Rei, no Espaço Cultural Calêndula, em uma programação de boas-vindas aos novos alunos do curso de Música da Universidade Federal de São João del-Rei. Você está convidado!

A breve apresentação, em um bar tão interessante, será a abertura de uma festa participativa e democrática, plena de arte, música e poesia - linguagens que muito se afinam aos propósitos deste almanaque eletrônico. Tanto se afinam que o nome Tencões & terentenas é referência e homenagem aos toques de sinos sãojoanenses, em especial àquele executado ao meio-dia da véspera de Natal na igreja do Rosário de São João del-Rei, composto por "Tencão Festivo, Nove, Terentenas e Floreados". É um toque singular, executado apenas por ocasião do Natal e, ouvido com atenção e entendimento, faz lembrar a emoção de nascer do Cristo.

Esta, por exemplo, será uma das histórias contadas durante a apresentação.

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  *  Serviço  * 
Tencões & terentenas - lançamento em 18/03/2011 (sexta-feira) - 22 horas
 Espaço Cultural Calêndula Bar e Restaurante (Rua Marechal Deodoro, 242)

terça-feira, 15 de março de 2011

Paisagem de São João del-Rei é caleidoscópio mágico. Mistura imagens de três séculos...


A contemporaneidade e o espírito de vanguarda de São João del-Rei não são recentes e surpreendem quem espera encontrar aqui uma paisagem arquitetonicamente homogênea, que espelha apenas o ciclo do ouro. Tendo sempre evoluído a partir de uma visão dinâmica da realidade, São João preserva seu centro histórico como uma joia formada por diferentes pedras preciosas, cada uma de uma época.
Isto se reflete, e é muito visível, na arquitetura e no urbanismo são-joanenses. Em São João del-Rei, por exemplo, é possível encontrar, lado a lado com construções dos tempos coloniais e imperiais, edificações que retratam as transformações urbanas, sociais, econômicas, culturais, políticas, industriais e outras que modificaram o país ao longo dos últimos trezentos anos.
É natural que em uma cidade com desejo desenvolvimentista (São João del-Rei não se estagnou  com o declínio da mineração e criou alternativas para superar esta dificuldade) muitas construções dos séculos XVIII e XIX dessem lugar a outras, de novos estilos, para atender novos conceitos, novas demandas e novas necessidades. Esta realidade persistiu por muito tempo, e é inegável que trouxe até alguns prejuízos, mas não é proposta discutí-los aqui nem apontar responsabilidades.
O certo é que, hoje, com maior, mais intensa, firme e efetiva atuação do poder público; com louvável e crescente participação da iniciativa privada (ainda pode ser mais expressiva!) e com a informação, conscientização e comprometimento da coletividade local, novas demolições e descaracterizações tendem a ser coisa do passado.
Por tudo isso, caminhar pelas ruas, becos, largos e praças de São João del-Rei não é voltar no tempo. É mais: é passear pelo tempo, percorrendo diversas paisagens que foram cenários de vários capítulos da história brasileira. Do século XVIII ao século XXI, da Inconfidência Mineira à Nova República, passando pelo Império, pela República Velha e pela participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, entre outros.
Passeio agradável, a se fazer a pé, atravessando pontes de pedra, sentindo o cheiro de manacás, damas da noite e jasmins, ouvindo o som de foguetes, apitos do trem e das fábricas, o toque de sinos e a música de violinos. Mas neste ritmo, há de se encontrar pausas para, num botequim simples, no balcão ou em mesas despojadas, saborear bolinhos de feijão, empadas, chouriço com angu, mozarelas de bolinha, dobradinha, canja de galinha, ou somente, lembrando da pura água benta, degustar uma cachaça branquinha...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Festa de Passos: tradição mais pura da Semana Santa de São João del-Rei

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 Começou, na sexta-feira, 11 de março, a mais longa celebração religiosa de São João del-Rei: a Comemoração dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui conhecida simplesmente como Festa de Passos, é realizada em período de exatos 36 dias – desde a primeira sexta-feira da Quaresma até a última sexta-feira antes da Semana Santa, que oficialmente começa no Domingo de Ramos.
Além de ser a celebração religiosa são-joanense que ocorre em maior período de tempo, a Festa de Passos, promovida pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, reúne também o maior número de solenidades. Ao todo, 11. São 3 vias sacras externas, 2 depósitos das imagens, 2 rasouras, 1 adoração da Santa Cruz, 2 procissões e um Setenário, que é o nome à cerimônia que se repete por sete dias, no caso para rememorar as 7 dores de Maria Santíssima.
A Festa de Passos é uma das mais autênticas e legítimas tradições da Semana Santa de São João del-Rei. Tanto as imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, quanto objetos sacros utilizados nas solenidades são originais e datam do século XVIII. O repertório musical é o mesmo executado há mais de duzentos anos. Também o costume popular  de beijar três vezes a fita do Senhor dos Passos, alternando com passagens debaixo da cruz que a imagem tem às costas, contornando o andor em sentido anti-horário, é muito antigo.
Muitos são-joanenses, morando na cidade ou exilados em outras terras, sabem de cor os Motetos dos Passos que a Orquestra Ribeiro Bastos executa nas Vias Sacras e na Procissão do Encontro, o Senhor Deus, o Miserere, o Popule Meus, os vários O Vos Omnes, o Adoramus Te. São capazes de, fechando os olhos, rememorar o tom exato do roxo que predomina em tudo, os tempos, os perfumes, o rico universo sonoro, onde se destaca o combate em que os sinos da Matriz, do Carmo e de São Francisco dobram vigorosamente e com grande harmonia.
A Festa de Passos é expressão tão autêntica, tradição tão genuína,  porque – mesmo nestes dias em que predominam desejos de modernização, inovação e promoção – não aspira ser mais do que é. Porque conhece e reconhece o sentimento de religiosidade que motivou sua gênese e perpetua este fundamento a cada ano, com grande amorosidade, por meio da fé e da arte.

Explicitando esta percepção e este compromisso, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos fez imprimir, na capa do programa-convite da Comemoração dos Passos 2011, um lema, composto por três palavras:  "fé, tradição, cultura".

domingo, 13 de março de 2011

Na Semana Santa de São João del-Rei, Encomendação de Almas é lição de vida!


Mistério, segredo, sagrado, ancestral. Este pequeno conjunto de palavras muito bem define o que são
as Encomendações de Almas de São João del-Rei, que acontecem na calada da noite das três primeiras sextas-feiras da Quaresma. Manifestação religioso-cultural única no mundo, por sua ritualidade e musicalidade, as Encomendações de Almas percorrem trajeto definido que prevê paradas, com orações e cânticos, em  cemitérios, portas de igrejas, cruzes, cruzeiros e encruzilhadas do centro histórico e de dois bairros desta cidade mineira, fundada em 1705.
As Encomendações de Almas de São João del-Rei são rituais bicentenários, católicos, promovidos pela Orquestra Lira Sanjoanense, que se corporifica no cortejo com maestro, cantores e instrumentistas (contrabaixo, trompete,  trombone, flauta transversa, clarineta e matraca). Por não ter a presença de sacerdote celebrante, o maestro conduz o rito, fazendo em latim saudações fúnebres próprias e, em português, orações póstumas. Também rege a música barroca - tudo nos sete locais onde o universo dos vivos, em um momento mágico, se conecta com o mundo dos mortos.  Segundo estudiosos, a Orquestra Lira Sanjoanense é a terceira orquestra mais antiga do mundo em atividade ininterrupta. Atuando desde sua fundação, em 1776, até nossos dias. Nas Encomendações, nos grandes intervalos entre um e outro moteto sacro (o cortejo dura cerca de duas horas), os fiéis rezam o terço.
Apesar de repetirem tradição muito antiga, sobretudo no que diz respeito aos trajetos e rituais, as Encomendações de Almas, pela unicidade e imediatismo do momento em que cada vez se realizam, são singulares. Na de sexta-feira, 11/03, os fiéis tiveram que discretamente se esquivar de um pequeno, mas ostensivo despacho, feito pouco mais cedo, furtivamente, no portão do Cemitério das Mercês (rosa vermelha, copo d’água, vela branca). O sino da Matriz batia 23h30.
Três paradas depois, no portão do Cemitério do Rosário, nova surpresa, também a ser falsamente ignorada: desta vez, a oferenda deixada para os mortos era uma bandeja branca, cheinha de quindins, cocadas e outros doces 'regalos'. Teriam religiões de inspiração afro-brasileira chegado mais cedo e feito, antes, sua encomendação de almas?
Mas o inesperado reservava mais. 12/03, 00h15. Ao chegar na parada seguinte, portão da igreja de São Francisco de Assis, a música barroca da Encomendação de Almas se encontrou com o samba. Ali já instalado, um grupo de estudantes de Música da Universidade Federal de São João del-Rei, ainda no embalo do Carnaval, animadamente cantava, com acompanhamento de pandeiro, cavaquinho e tantan. 
 Mineiramente, sacro e profano confabularam ao pé-do-ouvido.  Elegantemente, o samba fez uma pausa, desceu dos degraus, cedeu o palco e, em silêncio, com interesse, ouviu o moteto O vos omnes. Só não aplaudiu no final porque não ficava bem. A circunstância não permitia...
Quanto ensinamento acompanhar uma Encomendação de Almas em São João del-Rei pode nos trazer. Imprevistas e inesquecíveis lições de pluralidade, diversidade, informação, conhecimento, sabedoria, tolerância e convivência pacífica entre diferentes culturas, crenças, convicções e religiões!

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    Serviço   
Outras Encomendações de Almas acontecerão nas próximas sextas-feiras (18 e 25/03), saindo às 23 horas, da porta da Igreja de São José (Tejuco) e do Cemitério do Quicumbi (Bairro das Fábricas)

sábado, 12 de março de 2011

Semana Santa 2011 - A fé, a música e a lua nova em Via Sacra barroca nas ruas de São João del-Rei


Perpetuando uma tradição que deve ter quase trezentos anos, a noite de sexta-feira (11/03) começou, em São João del-Rei, com uma "solene" e barroca Via Sacra. Única em todo o mundo porque pontuada por motetos compostos especialmente para estas cerimônias são-joanenses, estas Vias Sacras são realizadas exclusivamente pela Irmandade dos Passos de São João del-Rei, nas três sextas-feiras seguintes ao Carnaval, anteriores ao fim de semana em que acontece a Festa de Passos, que será assunto de outra postagem, mais no fim do mês.

Para quem não conhece, as vias sacras "de rua", como são popularmente conhecidas em São João del-Rei, são procissões, que têm à frente uma grande cruz, da qual pende um lençol branco, ladeada por duas lanternas, que puxam cada uma uma guarda dos irmãos e irmãs dos Passos, com suas opas (homens) e "capinhas" (mulheres) roxas, todos carregando tochas com velas acesas. Mais ao final, um irmão carrega, elevado pela base da cruz, um Cristo crucificado e, concluindo o cortejo, vem o sacerdote, que em voz alta reza o terço, sendo acompanhado pelo povo, que vai ao lado ou atrás da procissão.

Na igreja de São Francisco, e nas cinco capelas-Passos, construídas há mais de duzentos anos e popularmente conhecidas como Passinhos, situadas num trajeto circular por diversas ruas do centro histórico, iniciando e terminando na Matriz do Pilar, o cortejo faz uma breve parada. O crucificado é posto diante do altar e a Orquestra Ribeiro Bastos executa composições oitocentistas que reproduzem pensamentos e frases ditas por Cristo a caminho do calvário.

Entre um Passinho e outro, os sinos das igrejas choram, espaçados, contidos e lamentosos em suas "descaídas". Tudo tão contrito que até a lua nova, já a caminho do quarto crescente, na primeira sexta-feira da Quaresma de 2011, acompanhou a Via Sacra de rua encoberta por um misterioso e enevoado véu branco.

Tal qual os sinos, a lua nova descaiu-se lentamente para os lados da Serra do Lenheiro, passando pelas trilhas e remanescendo velhas lembranças nas betas, nos veios e nas raizes de onde se arrancara ouro, quando a Via Sacra parou no Passinho do Largo das Mercês e a .Orquestra cantou Domine Jesu.

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    Serviço   

Próximas Vias Sacras Solenes: dias 18 e 25/03, às 19 horas, saindo da Matriz do Pilar

quinta-feira, 10 de março de 2011

Semana Santa 2011 - Já na Quarta-feira de Cinzas, começou 'A Paixão segundo São João' (del-Rei)

Em São João del-Rei, a Quaresma é, de fato, um tempo sagrado. Tanto que não é exagero dizer que, naquele dia, aqui começou "A Paixão segundo São João del-Rei", tamanhas a frequência, a intensidade e a eloquência das liturgias, solenidades e celebrações religiosas que, iniciadas na Quarta-Feira de Cinzas, se sucederão por quarenta dias, até a Semana Santa, para lembrar o sofrimento e a morte de Cristo. Tudo em linguagem barroca tão peculiar, tão única e tão própria que extrapola os aspectos locais e até nacionais para alcançar a universalidade.

Mesmo quando no calendário ainda é fevereiro, na Serra do Lenheiro, arnica e rosmaninho já estão prontas para serem colhidas no tempo santo e perfumarem o chão das igrejas e das ruas de São João del-Rei. Nas encostas dos arredores da cidade, os espinheiros brancos se adiantam em florir, desejando lembrar aos genuínos são-joanenses que é tempo de penitência e meditação. Nos quintais, manjericões brancos e roxos estão altos e viçosos, antevendo os andores que enfeitarão. Quaresmeiras salpicam roxo nos largos e jardins. Nos cantos úmidos e silenciosos de seculares muros de adobe e pedra, entre musgos e serenos, orquídeas e avencas desabrocham e se guardam para a cruz do Senhor dos Passos.

É a natureza que se curva a um tempo sagrado, culturalmente estabelecido pelo homem católico, ou é este homem que, lendo a sabedoria escrita na natureza, escolheu o outono como o tempo para reviver a paixão e o sacrificado e altruista amor divino? Responder a esta pergunta não muito importa. O que importa mesmo é entender que tudo isto, em São João del-Rei  é mistério delicado. Segredo que todos os são-joanenses conhecem, decifram e entendem, mas nem sob cruel tortura ou sedutora promessa - revela.

Talvez de algum modo pensasse nisso Carlos Drummond de Andrade, quando escreveu:

"Só os mineiros sabem,
e não dizem nem a si mesmos,
esse irrevelável segredo
chamado Minas".

domingo, 6 de março de 2011

No Bloco dos Caveiras, até a morte 'dança' no carnaval de São João del-Rei


Imagine numa cidade católica como São João del-Rei, o Diabo de chifre e rabo andar tranquilo pelas ruas, atravessar multidões, sorrir para crianças e saudar e piscar o olho para o cidadão contrito que há pouco saiu da Adoração do Santíssimo. Imagine também a Morte, de cumprida túnica preta, esticar longamente o cabo  de sua foice prateada, como a ceifar o pescoço esganiçado de senhoras espantadas.

E pequenos diabinhos, saltitantes, distribuindo balas para as crianças. Mais: alas de caveiras carregando ossos animais, grandes estandartes com mensagens fúnebres, agentes funerários correndo de um lado para outro com valises e fitas métricas, um defunto imponente e deboçado em seu caixão, seguido por um séquito de assanhadas viúvas, que vez em quando esquecem do morto para se insinuar e até se atirar nos braços de pais de família e rapazes enamorados com suas noivas. Bruxas, feiticeiras, enforcados, degolados, fantasmas, monstros noturnos. Trilha sonora para tudo isso, uma bandinha no mesmo clima tocava do início ao fim compassada marcha fúnebre.

 Assim era, originalmente, o Bloco dos Caveiras de São João del-Rei - o mundo funesto trazido para o carnaval, quase como uma aterrorizante mensagem religiosa. Formado apenas por homens, adultos. Quem sabe sua inspiração inconsciente não buscou reproduzir, pelo avesso, a Procissão das Cinzas, realizada com grande pompa nesta terra e com menos esplendor em outras vilas mineradoras no período colonial?

Sinal dos tempos, hoje o Bloco dos Caveiras fala de outra era. Para isso, manteve alguns personagens antigos e tradicionais, mas acrescentou outros, virtuais, televisivos, saídos da realidade urbana de nossos dias. Não aterrorizam, não causam medo nem pavor, pois eles de fato existem, estão à nossa espreita. Do mesmo modo, abriu para a participação de mulheres e jovens muito jovens.

Longe de ser fruto da criatividade ou da imaginação, o universo que o Bloco dos Caveiras caricaturalmente mostra é o universo de hoje. Olhando de perto, vê-se que a caricaturização até infantiliza os fatos, mostrando-os menos perigosos e pavorosos do que de fato eles são.

Já que no Bloco da Alvorada não tem samba-enredo, porta-bandeira, cabrochas, passistas, baianas, madrinha nem bateria, que pelo menos se preste atenção nos recados que ele transmite, ora com humor, ora com irreverência...


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   Serviço   
O Bloco dos Caveiras atualmente desfila apenas na noite de segunda-feira de carnaval, saindo da rua que une a igreja do Carmo ,  a igreja do Rosário e amatrizdo Pilar 

sábado, 5 de março de 2011

Mozart no samba? Só no carnaval pós-moderno de São João del-Rei...


Quem acredita que carnaval é só samba não sabe o que pode acontecer no carnaval de São João del-Rei. E acontece... Alguém já pensou em misturar violino, executando clássicos de Mozart, e tamborins, surdos, frigideiras  e tudo o que tem uma bateria de escola de samba, tocando juntos, entre sobrados e  lampiões coloniais, numa paisagem noturna de beleza sem igual?

Pois é, isso aconteceu durante o desfile do bloco Unidos do Gato de Botas, que proporcionou a mais de 5 mil pessoas, em um dos mais belos cenários barrocos de Minas Gerais [as imediações da igreja do Carmo de São João del Rei] um espetáculo surpreendente: a união da música erudita de Mozart com o samba. Era a esfusiante e arrebatadora percussão carnavalesca conversando alegremente com a sinfonia sedutora de sonoros violinos.

Na terra da música, isso é possível, pois os vários tipos de música - cada qual com sua linguagem e seu estilo -  dialogam em grande harmonia. Mostrando visão plural e a possibilidade de grande evolução humana e social, o desfile do bloco Unidos do Gato dv Botas foi um aprendizado e tanto para a tolerância e para o respeito às diferenças, atualmente conhecidas como diversidade ...

Como "quem sabe faz a hora, não espera acontecer", cada vez mais São João del-Rei colhe os frutos por essa opção por um modelo de progresso inspirado em avançada visão humanista, expressa no convívio pacífico e colaborativo de diferentes manifestações culturais. Prova disso é que, segundo fontes oficiais, até a metade desta semana, mais de 90% da capacidade da rede hoteleira local já estava ocupada com reservas. Previsões realistas sinalizam que, a partir de sábado, vagas nos hotéis da cidade passarão a ser muito disputadas, inclusive podendo haver disponibilização de listas de espera.

Veja, no noticiário da Rede Globo - Minas, como foi surpreendente, inovadora e mágica como a secular  fábula infantil a apresentação do bloco Unidos do Gato de Botas. 
http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/v/carnaval-ja-comecou-em-sao-joao-del-rei/1451239/

sexta-feira, 4 de março de 2011

De São João del-Rei a Paris, via carnaval

Em São João del-Rei, por mais animada que esteja a folia de rua, sempre é possível dar uma escapada na noite para encontrar, em um canto tranquilo, um bar agradável ou uma roda de amigos, tocando e cantando música amena, às vezes com a ajuda de um violão e, até, de um saxofone.

Duvida? Então faça o teste apurando o ouvido e o olhar e prestando melhor a atenção no que se passa em sua volta, nas pequenas praças, nos jardins, bares mais sossegados, nas varandas e nos terraços. Não vai ser muito díficil, em pleno carnaval, se surpreender com música de primeira.

Se é isto o que você quer, enquanto não encontra, ouça abaixo A Noite dos Mascarados, de Chico Buarque, cantada em francês, por Elis Regina com Pierre Barouh.


Carnaval de São João del-Rei vira o mundo de pernas pro ar


Tradicionalmente, quando se pensa em carnaval, a primeira coisa que vem à mente é o samba. Porta-bandeiras, mestre-salas, passistas, cabrochas, mulatas, destaques, baianas, carros alegóricos, as baterias e suas madrinhas estonteantes. O maior espetáculo da terra a contar estórias e histórias, ora fabulosas, ora cotidianas.

Também se lembra do frevo autenticamente pernambucano e dos blocos de axé que, criados na Bahia, como produtos industriais e de massa são reproduzidos nos estados brasileiros em que é pouco expressiva a cultura do carnaval.

A imagem de fantasiados, de blocos de sujo e do espontâneo carnaval de rua, sem esforço, também vem à nossa lembrança. Mas alguém já pensou em brincar o carnaval virando cambalhotas? Girando verticalmente 360 graus em torno de si próprio, só pra ver o mundo de cabeça pra baixo? Alguns são-joanenses pensaram.

E não só pensaram quanto há onze anos comemoram, deste modo, o reinado de Momo. É o bloco Unidos da Cambalhota!

Predominando a cor azul, num tom que estilizadamente sugere o espaço sideral visto da terra em dia claro, ou o amarelo, que lembra o ouro e o sol, os "cambalhotas" desfilam pelo centro histórico de São João del-Rei fazendo esta acrobacia. Para isso, levam grandes colchonetes que de tempo em tempo, de espaço em espaço,  desenrolam sobre o chão de pedras para, sobre eles, virarem divertidas e acrobáticas cambalhotas. Estrelinha também vale...

O Unidos da Cambalhota tem samba-enredo e tudo. Em 2011, por exemplo, o homenageado será Jota Dângelo, ícone sagrado do carnaval são-joanense, nos últimos anos, com justiça, bastante reverenciado por seus méritos culturais. Mas também são homenageados a população, que prestigia tão inusitado e original cortejo, e os próprios "acrobatas", pela coragem de transformar em realidade, naquela tarde, um sonho muito especial: voltar a ser criança e desafiar o mundo em divertidas cambalhotas!


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    Serviço    
 O bloco Unidos da Cambalhota desfila no sábado de carnaval, saindo às 16 horas do Largo São Francisco, passando pela Rua da Prata, Largo do Rosário, Rua Artur Bernardes, Ponte da Cadeia,  até a Avenida Tiradentes, onde "desconcentra" por volta das 21 horas.

Ilustração: imagem copiada de http://www.unidosdacambalhota.com.br/fotos/2002/frameset.htm