sábado, 31 de março de 2012

Semana Santa 2012 - Poéticas chagas de Cristo na paisagem da Paixão segundo São João del-Rei

Passinho do Largo do Rosário de São João del-Rei (12/2011). Foto do autor
Em São João del-Rei, não se concebe imaginar as tradicionais celebrações da Quaresma e da Semana Santa sem pensar nos Passinhos da Paixão - cinco capelas / oratórios, que se destacam, entre casarões e sobrados, na paisagem arquitetônica de largos e ruas bicentenárias. Lembrando o número das chagas abertas por cravos e pela lança, nas mãos, pés e coração de Cristo, são territórios religiosos importantes em várias solenidades da "Festa de Passos": vias sacras de rua, procissão do Encontro e procissão das Lágrimas / Soledade de Nossa Senhora.

O poema abaixo, do ainda inédito libreto Vi(d)a Dolorosa - A Paixão segundo São João del-Rei, ambiciona descrever poeticamente os Passinhos da Paixão de Cristo de São João del-Rei, desvelando sua ambiência religiosa, psicológica e de memória.

Sétima Estação

Vistos de fora, os passinhos são oratórios de pedra,
com grossas portas vermelhas de madeira almofadada,
que se abrem para si mesmos ou para lugar nenhum – tanto faz.

Uma vez abertos, são nichos dourados, de delicado entalhe,
encarnação perfeita, com volutas, velas, flores, rendas e bordados.
Tudo tão simples e tão exato como deve ser por dentro
a veia aorta do coração de Jesus.

Neste vácuo bissecular de realidade e geografia,
que afunda uma âncora de interrogação no oceano da onisciência,
mistério maior é a imagem barroca que o povoa.

Uma vez maior do que o natural, quatro vezes menor
do que o mais humilde pensamento, em todos os passinhos
a representação de um martirizado, com túnica roxa, coroa de espinhos
e cruz às costas, traspassa as almas sensíveis com espadas de solidão.

Solidão do tempo. Solidão do mundo. Solidão das almas.
A ausência de si mesmo é labirinto tenebroso,
sem novelo ou lume que ajude a encontrar a aurora.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Semana Santa 2012 São João del-Rei - Cruz, coroa, sangue, suplícios e delicadezas da Paixão de Cristo



Simbolicamente cordiosos, são como barrocas chagas de Cristo na paisagem urbana do centro histórico de São João del-Rei. Assim são os cinco Passos da Paixão - grandes oratórios de pedra e madeira, semelhantes a pórticos de igrejas coloniais, dispostos na Rua da Prata, Largo do Rosário, Largo da Câmara, Largo da Cruz e rua que liga a igreja do Carmo à Matriz do Pilar. A eles, maior, se junta o Passo da Piedade, também no Largo do Rosário.

Pela quinta vez na Quaresma, hoje os passinhos estão sendo enfeitados, desta vez para a Procissão das Lágrimas. Seus retábulos dourados, pinturas setecentistas e antigas imagens recebem da Irmandade dos Passos, da vizinhança ou de famílias devotas, cuidados especiais. Toalhas brancas, com bordados "richelieux" forram a mesa roxa dos altares. Vasos de flores e castiçais com altas velas completam a decoração. No centro de todas a imagem de Cristo com a cruz às costas. No pequeno chão de pedra, tapetes persas e folhas perfumadas de rosmaninho.

À noite, na Procissão das Lágrimas, Nossa Senhora das Dores sete vezes interromperá seu trajeto. Parará diante dos seis passinhos, para mirar as cenas tristes dos dourados altares e ouvir a Orquestra Ribeiro Bastos, rememorando divina dor, entoar motetos compostos há mais de dois séculos por Martiniano Ribeiro Bastos e por Francisco de PaulaVilela. Já na entrada, parará novamente no adro da Matriz do Pilar, desta vez para olhar seu povo e ouvir a céu aberto na noite tenebrosa o último moteto barroco. Depois, de costas, entrará decida na igreja Matriz, de onde só saírá na quarta sexta feira da Quaresma do ano que vem...


Semana Santa 2012 São João del-Rei: hoje é dia da Procissão das Lágrimas

Às nove da noite de ontem, o sino dos Passos fez dobres incomuns para uma quinta feira. Incomuns não fosse para informar à população são-joanense que naquele momento estava se encerrando a celebração do último dia do Setenário das Dores. E também para lembrar que o dia seguinte (hoje, sexta sexta-feira da Quaresma), em São João del-Rei é Sexta Feira das Lágrimas, ou da Soledade. E que haverá procissão, de Nossa Senhora das Dores, realizada pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos.

Mal o sino tocou o último dobre e na Matriz do Pilar - fechadas todas as portas - irmãos e irmãs dos Passos, ainda nos trajes sociais pretos com que tinham participado do ofício do Setenário, já se dividiam nas tarefas e preparativos para a procissão da noite desta sexta-feira. Os homens, montando o pálio vermelho, bordado a ouro no século XVIII, e carregando o andor vazio pela nave da igreja até o local onde a imagem da virgem, retirada do altar-mor, fora nele colocada. Finda esta missão, retornaram para a sacristia, a cuidar das velas, nas tochas e lanternas.

Chegada a hora das mulheres, se encarregaram devotamente da Senhora - seu vestido de cetim roxo, suas espadas de prata, jóias, estrela e diadema, sua capa de veludo preto. A santa no andor, o enfeitaram com desmedido zelo, fazendo uma montanha de arnica em sua base. Esta arnica será muito disputada pelos fiéis ao final da procissão, para uso religioso e terapêutico.

Arrumado o andor de Nossa Senhora, os meninos e meninas que acompanhavam pai e mãe na arrumação, desfolharam rosmaninho no chão da Matriz do Pilar, espalhando o perfume tão próprio da Semana Santa de São João del-Rei. Assim, encerraram os preparativos para a última celebração da Irmandade dos Passos na Quaresma de 2012.

Tudo pronto, logo no começo da manhã as portas da Matriz serão abertas, para que os são-joanenses, durante todo o dia, façam visitas, orações e reverências a Nossa Senhora das Dores. Várias vezes o sino dos Passos dobrará compassos lentos, longos, demorados e pungentes. Repetindo linguagem antiga, lançará pelos ares avisos sonoros de que à noite haverá procissão, motetos, lembranças, saudades, lágrimas e bênção com a relíquia do Santo Lenho.

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Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/03/semana-santa-sao-joao-del-rei-2012.html

domingo, 25 de março de 2012

Semana Santa São João del-Rei 2012: fé, tradição e cultura


Tapete de rua - Semana Santa 2010 - obra e foto do autor
Fé, tradição e cultura. Estas três palavras, definidas como slogan pela Irmandade dos Passos em 2011, conceituam, com absoluta precisão, qual é a "santíssima trindade" da Semana Santa de São João del-Rei. Uma celebração fundamentada na religiosidade sincera, que se repete a cada ano seguindo características originais tricentenárias, enriquecidas por manifestações culturais contemporâneas.

Além das comoventes procissões e dos ofícios barrocos com participação da Orquestra Ribeiro Bastos, concerto pelos 110 anos da Banda Theodoro de Faria, recital no órgão colonial de tubos do Museu Regional, lançamento de CD dos Coroinhas entoando cantos gregorianos, exposição de oratórios domésticos dos séculos XVIII e XIX, confecção de tapetes processionais de rua pela ONG Atitude Cultural e muitos eventos artístico-culturais ainda não divulgados.

Tudo isto e muito mais é o que você poderá desfrutar em São João del-Rei no período de 31 de março a 8 de abril deste ano. Uma vasta e rica programação que pode ser resumida em três palavras: fé, tradição e cultura.


sexta-feira, 23 de março de 2012

São João del-Rei / Semana Santa 2012: coração são-joanense pulsa tradição, memória e lembrança

Procissão do Encontro no Largo da Cruz (c. 1978) - Foto do autor
O sino dos Passos, plangendo agora para anunciar o fim do primeiro ofício do Setenário das Dores, é um convite a pensar: a autenticidade das tradições culturais religiosas de São João del-Rei surpreende e encanta. Surpreende não apenas pela notória fidelidade das práticas litúrgicas e paralitúrgicas às suas origens mais remotas, muitas delas surgidas nas primeiras décadas do século XVIII.

Encanta principalmente por sua fulgurante vitalidade. Longe de serem representações ou encenações, mais do que lembrança e memória, as tradições culturais religiosas de São João del-Rei são a própria religiosidade do povo são-joanense. Brilham nos olhos, batem no coração, pulsam nas veias, transpiram nos poros, adoçam a boca, confortam o espírito.

Este modo devotado de sentir e de viver o tesouro que veio do passado - mais do que do século XVIII, o sentimento que veio de um tempo imemorial e aqui materializou-se em expressão e arte nos anos setecentos - é o que faz do são-joanense um povo diferente. Aquele que consegue transitar com integridade entre o barroco e a pós-modernidade. Entre a couve com angu e o fast food, o fogão de lenha e o forno microondas. Entre a mandinga e a medicina. Entre o pragmatismo científico e a liberdade artística. Entre o toque dos sinos e a internet. Que subvertendo a ordem vigente, coloca a atualidade a serviço do que surgiu ontem e atravessou séculos até nossos dias. Que inconscientemente zela e preserva sua própria origem e alma, revelando-as e divulgando-as sobretudo para si mesmo, com absoluto respeito e profunda admiração, sem folclorizá-las nem espetacularizá-las.

Coisas boas do povo de São João del-Rei!

Semana Santa São João del-Rei 2012: angústia, solidão e saudade no Setenário das Dores

Nesta sexta-feira, a quinta da Quaresma, começa em São João del-Rei a terceira e última etapa das Celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário - o Setenário das Dores.

Promovido ininterruptamente há quase trezentos anos pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, consiste em sete dias consecutivos de missa barroca, celebrada as 19 horas, seguida de ofícios sacros que rememoram e fazem refletir sobre as sete espadas de dor que traspassaram o coração de Nossa Senhora, desde o nascimento de Cristo até seu sepultamento. Não se tem notícia de outra cidade que realize o Setenário das Dores com tanta e tão tradicional exaltação e nesta mesma época da Quaresma.

O Setenário das Dores é uma solenidade a um só tempo terna e austera, que conjuga a doçura do amor maternal com os sentimentos agudos de ausência do filho que sofre e se vai, desta vida para sempre. Da apresentação do Menino no templo - quando Simeão à Mãe previu um doloroso futuro - até a volta para casa sem o filho sequer morto, passando pela fuga para o Egito perseguidos por Herodes, pelo desaparecimento do Menino, pelo encontro na Rua da Amargura, pela crucifixão, acolhimento do filho morto em seus braços e sepultamento, tudo é cantado no ofício do Setenário, na voz do celebrante e pela bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos.

Além de orações especiais, só entoadas nesta celebração, também são executados motetos raros e outras peças barrocas, compostas nos séculos XVIII e XIX (veja vídeo ao final). O toque do sino dos Passos, melancólico e langoroso, em horas tradicionalmente próprias, complementa a riqueza musical do Setenário das Dores.

O ciclo da Festa dos Passos encerra-se na sexta feira seguinte, a sexta da Quaresma, que em 2012 será dia 30 de março, quando acontece a Procissão das Lágrimas, também conhecida como Procissão da Soledade, Procissão da Saudade, Procissão da Piedade de Nossa Senhora. Nela, o andor com a imagem setecentista de Nossa Senhora das Dores percorre as ruas do centro histórico de São João del-Rei, fazendo um percurso quase inverso ao da Procissão do Senhor Morto. Durante o trajeto, em ritual semelhante ao da Procissão do Encontro, para diante dos cinco Passinhos, quando a Orquestra Ribeiro Bastos executa os Motetos das Dores, de autoria oitocentista dos compositores Martiniano Ribeiro Bastos e Francisco de Paula Vilela.

O Setenário das Dores é uma celebração tão dramáticamente circunspectiva que não se utiliza flores, nem no altar-mor, nem no andor. No lugar delas, apenas arnica da Serra do Lenheiro - planta medicinal, utilizada em infusão de alcool para aliviar dores de entorses e contusões. Também aí, mais uma vez, pode-se notar uma alusão ao sofrimento de Cristo, nas quedas e escoriações que teve a caminho do Calvário, quando carregava a cruz às costas.

Manjericão, também, tradicionalmente, nesta celebração não é planta utilizada. O rústico rosmaninho, ao contrário, é desfolhado no chão da Matriz do Pilar, para seu perfume juntar-se ao aroma do insenso e, assim, aguçar sensorialmente o olfato dos fiéis.


terça-feira, 20 de março de 2012

Coisas boas de São João del-Rei: Ponto Literário, vírgula poética, reticências musicais...

Quem,andando descontraído pelo centro histórico de São João del-Rei, a caminho da igreja do Carmo, da Rua da Cachaça e do Largo da Cruz, passar pela Rua Sebastião Sette e entrar em uma das duas portas do número 97, se tiver interesse pelo saber e pelo lazer, certamente vai ter uma agradável surpresa. Um acervo vasto, composto por muitos livros antigos e  por outros já lidos, uma grande variedade de revistas de outras décadas e sequências de exemplares de jornais irreverentes ou revolucionários, como O Pasquim e Movimento.

Além disso, vai dar de cara (e de ouvidos), com ninguém menos que Nana Caymmi, Ben Harper, Janis Joplin, Duke Elington, Cascatinha e Inhana, Mendelson, Gal Costa, LouisArmstrong, Roberto Carlos, Willy Nelson, Pearl Jam, J. S. Bach, Milton Nascimento, Padre José Maria Xavier, Gilberto Gil, Clara Nunes, Villa Lobos, Hermeto Paschoal, Tom Jobim e muitos outros. Todos em uma infinidade de long plays de vinil e numa reduzida e seleta quantidade de CDs. Bem conservados.

Que oásis da cultura, da memória, do saber e do lazer é esse, que bem cabe no sonho e no bolso de todos nós? Ora, é a livraria Ponto Literário. Um sebo simpático que também poderia chamar-se Vírgula Poética. Ou Reticências Musicais. Nas imediações do Largo do Carmo, da Rua da Cachaça e do Largo da Cruz, em São João del-Rei...

Correr séculos em menos de uma hora? No Museu de Arte Sacra de São João del-Rei, você pode!...

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Fachada do Museu de Arte Sacra de São João del-Rei (12/2011) foto do autor 
Uma sineta, de 1705, que nos primeiros anos do surgimento do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes foi precursora dos inigualáveis sinos da Vila de São João del-Rei,  que até hoje anunciam missas, ofícios religiosos, novenas e enterros. Um São Jorge, que no tempo colonial saía em procissão, montado em um cavalo, sob os auspícios do Senado da Câmara da quarta vila instituída nas Minas do Ouro. Setecentistas objetos sacros de ouro e prata, imagens expressivas, iconografias raras, um grande presépio oitocentista e até o altar e o sino da capela da Fazenda do Pombal, onde nasceu o herói Tiradentes. Estes são apenas alguns exemplos das joias que compõem o acervo exposto no Museu de Arte Sacra de São João del-Rei.

Por sua concepção ao mesmo tempo moderna e didática, talvez não seja exagero dizer que o Museu de Arte Sacra de São João del-Rei é minimalista em sua proposta museológica. Ao contrário de outras instituições afins que pecam pela quantidade exagerada de peças expostas, tornando a visita cansativa e enfadonha, o MAS é absolutamente seletivo em sua exposição permanente. Apresenta apenas o que de fato é significativo e sintetiza outros objetos, imagens, joias e ex-votos que retratam a cultura religiosa da cidade nos séculos XVIII e XIX.

A localização do Museu de Arte Sacra não podia ser mais adequada. Em um imóvel no Largo do Rosário, quase vizinho a um Passinho da Paixão e na sombra de uma torre da Matriz do Pilar, em um casarão que, no século XVIII, abrigava a cadeia da Vila. Uma curiosidade: o oratório de Nossa Senhora da Piedade, que fica com o Museu face a face, não foi construído ali sem motivo. Ao contrário, a escolha daquele local para a capela buscou permitir que os condenados pudessem assistir a missa dos domingos de dentro de suas celas e até se confessar e receber a comunhão através das grades.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Semana Santa - São João del-Rei: Irmandade dos Passos


Novamente São João del-Rei viveu, de sexta-feira passada até a noite de ontem, um dos pontos mais altos de sua cultura e religiosidade: a Comemoração dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário ou, simplesmente,  Festa de Passos.

Trata-se de tradição muito antiga, provavelmente iniciada em 1734 quando se fundou a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. Aliás, cada vez mais se percebe que, para aquela instituição, irmandade não é só parte do nome. É uma filosofia que se materializa em forma de atenção, respeito humano, valorização, consideração, compaixão e dignificação com que todos os membros se tratam no ambiente sagrado da sacristia, na Matriz do Pilar e em outros espaços em que se juntam para cumprir funções religiosas. Muito mais do que fraternidade, esta irmandade certamente faz Nossa Senhora das Dores, cravada de espadas, sorrir e Jesus ensanguentado, sob a coroa de espinhos e a pesada cruz, sentir-se recompensado por seu divino e desumano sofrimento.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A que tempo, a que espaço e a que lembranças levam as reticentes ruas de São João del-Rei?


Rua da Alegria, Beco do Cotovelo, Bica da Prata, Rua da Cachaça, Rua do Ouro, Rua da Prata, Beco Sujo, Buraquinho, Beco da Escadinha, Cajangá, Beco do Agá, Rua das Mônicas, Morro da Forca, Rua da Graça, Biquinha, Beco da Romeira, Matola, Morro Mané José, Rua da Laje, Beco do Salto, Rua do Barro, Rua do Fogo, Subida da Muxinga, Largo da Cruz. Muito pitorescos e originais eram os antigos nomes das ruas de São João del-Rei, vários homenageando velhos e importantes moradores do próprio logradouro ou informando, já no nome, aspectos da geografia, flora ou atividade predominante no local.

Com o passar do tempo, o avanço da urbanização formalizante, o desejo de um progresso burocrático e o culto à vaidade de políticos, heróis e autoridades, também foram substituindo denominações espontâneas por nomes precedidos de títulos, cargos e funções. Alguns deles resistiram bravamente na memória popular, atravessando séculos e enfrentando em pé de igualdade a formalidade administrativa, a tal ponto de ter-se, na cidade, algumas ruas com duas placas. Uma com a antiga denominação e outra com o nome atual.

Um bom exemplo desta situação é o Pau D'angá, também conhecida como Rua Carvalho Resende, sobrenome de Francisco Inácio de Carvalho Resende. Na língua do povo, a via tem uma preposição a mais - Rua Carvalho de Resende. Nem todos sabem onde ela  fica, mas quem não sabe onde fica o Pau D'Angá?

O nome popular também fixou uma corruptela - Pau de Ingá, árvore ingazeira que há trezentos anos existia no caminho que ligava o centro da vila às lavras de ouro do Barro Vermelho, hoje simplesmente Rua do Barro. Voltando ao Pau D'Angá, ainda no século XVIII a rua foi urbanizada. Documentos de época registram que a 31 de dezembro de 1786 o pedreiro Antônio Francisco Salzedo arrematou a obra de "reparos nas calçadas do caminho que vai para o Pau de Ingá." Em 1805, portanto logo no começo do século XIX, a Câmara mandou que "se fizessem consertos no paredão do Pau de Ingá."

O primeiro jornal de São João del-Rei, o Astro de Minas, fala sobre o Pau D'Angá na edição do dia 27 de novembro de1827. O escritor são-joanense Modesto de Paiva, no livro Noites de Insônia, publicado em 1892,  resgatando a lenda A Sombra do Enforcado em versos assim refere-se ao Pau D'Angá:

            "Jesus, que casa assombrada!
              Coitado de quem for lá...
             Junto à subida chamada
             Ladeira do Pau D'Angá".


Em uma bela pedreira, em um pequeno largo, na metade da ladeira, existe um imponente Cruzeiro da Penitência, que em uma sexta feira da Quaresma é ponto da terceira Encomendação de Almas. Teria sido erigido ali para afastar as tenebrosas assombrações?

A verdade é que, no começo do século XX, o largo do cruzeiro do Pau D'Angá foi palco de animadas festas religiosas. Em 9 de junho de 1918 o vigário Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho fez ali pegação que deu início à temporã e tocante cerimônia da Adoração da Cruz. A praça iluminada e enfeitada. tinha no centro um coreto onde se apresentou de uma das duas bicentenárias orquestras barrocas de São João del-Rei.

Sobre as ruas de São João del-Rei, leia também:
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2012/02/poesia-e-beleza-que-se-revelam-nas.html
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Fonte: http://www.sjdr.com.br/historia/igrejas_monumentos/ruas/rua08.html

Divino Espírito Santo pousará, para sempre, no coração de São João del-Rei

Quem passa pela Rua das Flores, em São João del-Rei, e olha uma construção branca, elevada, vizinha parede-meia com o Cemitério do Rosário, não imagina que, a partir do dia 27 de maio, atrás daquelas portas, poderá ser conhecida mais uma preciosidade da cultura artístico-religiosa de São João del-Rei: o interior da capela do Divino Espírito Santo, de "especiosa obra de talha dourada e policromada e o deslumbrante teto da capela-mor, pintado por José Joaquim da Natividade". A obra deste artista é, na atualidade, um dos principais alvos de interesse dos estudiosos do barroco mineiro.

A materialização do projeto Capela do Espírito Santo seguiu em tudo o imaginário da sabedoria e da engenhosa inteligência de Deus, simbolizadas na terceira pessoa da Santíssima Trindade. Venceu tempo e espaço, pela visão generosa e altruista de Padre Paiva em relação à arte e às tradições culturais de São João del-Rei. Muitas pessoas e instituições foram tocados pelo fogo divino e não negaram a contribuição de seus esforços, suas habilidades, seu empenho, seu talento, suas competências, seu amor à beleza de Deus que se faz matéria pela mão dos artistas, eternizando o ontem em sempre.

Agora, a chama do Espírito Santo de novo se lança sobre São João del-Rei, trazendo para o povo são-joanense uma oportunidade de se fazer parte de seu próprio patrimônio, contribuindo para a finalização da capela. Mistérios de Deus. Dádiva do Paráclito...

O edifício que abrigará o monumento está pronto. As obras de arte - altares, capela-mor, tetos, púlpitos - restauradas. Faltam vinte bancos de madeira. Faltam? Não... Cada banco é oportunidade de um ou vários são-joanenses fazerem sua parte, contribuindo para a equipagem do novo espaço religioso-cultural da cidade, aderindo à campanha, lançada recentemente para a aquisição dos bancos.

Você já maginou a satisfação e o orgulho cidadão de se entregar e de algum modo se integrar, para sempre, a um projeto grandioso de abrigo, preservação e divulgação da obra de um dos mais importantes artistas de São João del-Rei no século XVIII? Então, sozinho ou cotizando com amigos, aproveite que a hora é esta...


quarta-feira, 7 de março de 2012

Na São João del-Rei oitocentista, roletas para colher e acolher as crianças enjeitadas

Há 180 anos, no dia 7 de março de 1832, ao iniciar a construção do Abrigo dos Expostos, a Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei deu um passo importante para minimizar um problema muito comum no período colonial: o abandono clandestino de crianças pequenas (muitas ainda recém-nascidas) na porta de terceiros.

Na ocasião, a entrega da criança para o abrigo se dava de uma forma inusitada - ela era depositada em uma caixa giratória, fixada no tamanho exato de uma pequena janela. Uma vez movimentada, girava 180 graus, fazendo com que a abertura passasse da pessoa que estivesse "dispensando" a criança para o encarregado de recolhê-la pela instituição, sem que ambos se vissem. 

Nas cidades e vilas em que existia, este engenho era conhecido como Roda dos Expostos, ou Caixa dos Enjeitados, e as crianças indesejadas, nele entregues, ou eram voluntariamente adotadas por religiosos e famílias caridosas, ou eram criadas no abrigo mantido pela Santa Casa. Antes da adolescência, já ajudavam nos trabalhos mais leves e muitas, mesmo atingindo a maioridade, continuavam morando no abrigo e servindo no hospital provedor da instituição que as acolhera  e educara.

Vinte e seis anos depois de instituído o Abrigo dos Expostos de São João del-Rei, foram criadas quatro loterias, com autorização do Imperador Pedro II, para arrecadar recursos destinados a custear as despesas com alimentação e educação das crianças e jovens enjeitados e ali residentes.

A evolução dos tempos e da sociedade terminou por reduzir a quantidade de crianças entregues na Caixa dos Expostos. Por isso, em 1888 foi sugerido que a "Casa das Expostas" (Abrigo dos Expostos) fosse transformada em Asilo de Órfãos, que mais tarde veio a ser o conhecido Orfanato.
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Fonte:
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume I. 2a edição revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte. 1982.

Ilustração: fachada da Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei (2011) - Foto do autor

terça-feira, 6 de março de 2012

Bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos enobrece São João del-Rei com mais um coral infantil

Quem disser que  velhas árvores não dão mais flores viçosas nem frutos saborosos está mentindo. As bicentenárias orquestras barrocas de São João del-Rei provam isso.

A Orquestra Ribeiro Bastos foi criada oficialmente em 1790. Juntamente com a Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776, são as duas orquestras mais antigas das Américas em atuação ininterrupta, talvez as duas mais antigas do mundo.

Apesar dos seus 222 anos, a Orquestra Ribeiro Bastos continua atuante. Divide também, irmamente, com a Orquestra Lira Sanjoanense os merecimentos e a responsabilidade de manter viva a tradição musical de São João del-Rei. Inquestionavelmente, são duas das poucas organizações destinadas exclusivamente ao cultivo, guarda e preservação da música colonial e imperial produzida em Minas Gerais, sobretudo na região da antiga Comarca do Rio das Mortes, cuja sede era a Vila de São João del-Rei.

Agora a Orquestra Ribeiro Bastos alimenta outro sonho cidadão e memorável e já faz tudo para torná-lo realidade: fortalecer o Coral Ribeirinhos, fundado em 2011 pela professora e maestrina Maria Stella Neves Vale. Seu objetivo é difundir o gosto pela música e ensinar canto coral a crianças com idade a partir de sete anos. As aulas serão gratuitas, semanais, com duração de uma hora, exatamente no entardecer, das 18 às 19 horas, na sede da Orquestra, em uma curva barroca da estreita Rua Santo Antônio. O programa  baseia-se em um repertório eclético e variado, que inclui vários gêneros musicais - erudito, popular, folclórico e infantil.

O grandioso projeto é capitaneado por duas mulheres. Dona Stella Neves - personalidade cultural ilustre e célebre meritoriamente por sua incalculável dedicação e atuação em favor da preservação da música barroca em São João del-Rei, sempre à frente da Orquestra Ribeiro Bastos. Marily Assis - aposentada do Conservatório Estadual de Música Padre Maria Xavier e responsável por outro coral em formação na cidade, reunindo alunos da Universidade Federal de São João del-Rei.

Para inscrições e mais informações sobre o Coral Ribeirinhos, basta comparecer ao Memorial Dom Lucas Moreira Neves, das 13 às 17 horas. O Memorial fica na Rua Getúlio Vargas, em frente à Matriz do Pilar.

Sucesso para o Coral! Aplausos para os infantes novos herdeiros da musicalidade são-joanense! Obrigado, Dona Stella e Marily Assis!
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Sobre a música colonial em São João del-Rei, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/04/em-sao-joao-del-rei-principalmente-na.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/04/o-pai-da-musica-vive-em-sao-joao-del.html

segunda-feira, 5 de março de 2012

1838 / 2012: Viva São João del-Rei! Suas armas, seus brasões e seu povo!



No aniversário de 174 anos da elevação de São João del-Rei à categoria de cidade, que tal homenageá-la conhecendo e divulgando o seu brasão?

Uma harmônica composição heráldica, concebida e arquitetada pelo reonhecido heraldista Alberto Lima, sintetiza todos os elementos histórico-culturais próprios do povo e da terra são-joanense desde o surgimento do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Assim é o brasão de armas de São João del-Rei, composto pelos seguintes elementos:

. Escudo português - lembra que é lusitano o berço da cultura brasileira.
. Ponte da Cadeia e o Córrego do Lenheiro - traços marcantes da arquitetura e da geografia de São João del-Rei.
. Triângulo Vermelho - Referência ao herói Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Disposto sobre o fundo branco, evoca explicitamente a bandeira de Minas Gerais.
. Listão Central - Referência ao Rio das Mortes, com sua importância histórica e lendária.
. Arcabuz e clave de sol - O primeiro evoca a lembrança do fundador do primitivo Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, o taubateano Tomé Portes Del-Rei. A segunda é um registro da Música como elemento indissociável da vida de São João del-Rei desde os primórdios de seu povoamento e desenvolvimento cultural.
. Flor de Liz - Disposta na região frontal da torre central da coroa que encima o escudo, explicita consagração da cidade à sua padroeira, a espanhola Nossa Senhora do Pilar, madrinha de São João del-Rei desde 1721.
. Datas 1713 - 1838 - Registros históricos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar à categoria de Vila de São João Del-Rei e elevação da Vila à dignidade de Cidade.

Suas cores predominantes significam:
. Ouro - força
. Prata - candura
. Azul - serenidade
Vermelho - luta
. Verde - abundância
. Branco - paz

A estes significados se pode juntar muitos outros, próprios e determinantes da cultura são-joanense: generosidade, espírito pacífico e conciliador, temperança, amor ao passado, sentimento humanista, religieosidade, nobreza, sonho de igualdade e tantos mais.

São João del-Rei sempre sonhou alto...

O dia 6 de março não pode passar despercebido no calendário histórico de São João del-Rei. Nele, em 1838, a Vila de São João del-Rei foi elevada à categoria de cidade, portanto há 174 anos. Bem que poderia ser desenvolvida uma programação cultural para marcar este fato importante...

O que bem poucos sabem é que este era um sonho antigo cultivado por São João del-Rei. Segundo pesquisa do historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra, ainda em 1749, em data muito próxima - exatamente no dia 8 de março -, o Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei enviou representação à Corte, formalizando pedido para tal elevação.

Vale lembrar que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei em 1713, sendo assim a quarta vila instituída em Minas Gerais.

sábado, 3 de março de 2012

Semana Santa São João del-Rei 2012 - Via Sacra Ecológica na Rua Padre Faustino / Bica da Prata

Na próxima segunda feira, dia 5, no circuito das celebrações populares da Paixão de Cristo em São João del-Rei, acontece a Via Sacra anual da Rua Padre  Faustino, que tem características muito particulares. Com forte tonalidade sóciorreligiosa-ecológica, a celebração começa em um altar armado sob árvores, próximo a uma gruta de pedras, tendo como fundo uma cascatinha natural e delicada.

Dali o cortejo segue tendo à frente a Cruz da Penitência, para diante de algumas casas que montam nichos em suas janelas, com imagens e estampas de Cristo, e vai até o início da subida da Bica da Prata. Apesar do nome Bica da Prata, das betas e galerias daquela região, tempos atrás, se extraiu muito ouro.

Leia, abaixo, o post que registrou a Via Sacra ecológica ali oficiada em 2011 e, ao final, veja o clipe da trilha sonora que a sintetiza.

  

     Menos penitência e mais persistência no barroco popular 

e ecológico de São João del-Rei


Barroco, em São João del-Rei, não é apenas um estilo artístico. É uma jeito de ver o mundo, um modo de viver. Assim sendo, barroco, em São João del-Rei, não é somente uma manifestação estática, presa aos templos e a espaços artístico- culturais. Ela volta e meia se mostra nas ruas – até nas mais afastadas -, mesmo quando menos se espera.
Isto se viu ontem (6 de abril) na Via Sacra realizada na Bica da Prata, bairro popular, situado nas proximidades do centro, historicamente importante para São João del-Rei: ali era área de mineração e por isso, existe, ainda hoje, no fundo do “terreiro” de várias casas, betas e galerias de onde era extraído ouro.
Primeiro, foi celebrada uma missa diante de um oratório de pedra e ao lado de uma cascata, em uma pequena área ecológica no final da Rua Padre Faustino. Lugar ideal para o início de um culto quaresmal inspirado no tema da Campanha da Fraternidade 2011 – Amor e zelo para com o planeta. Depois, de sob altas figueiras, de entre lírios campestres brancos e perfumados, saiu a grande Cruz da Penitência, de madeira escura, com lençol branco, e atrás dela um cortejo composto por quase cem pessoas.
O templo era o próprio percurso. A pintura do teto, o céu aberto, estrelado. Os altares esculpidos, as janelas de algumas casas, com crucifixos, imagens de santos, toalhas bordadas, estampas, velas. Não havia motetos coloniais nem orações em latim, mas na cascatinha, sapos e grilos cantavam em coro. Na caminhada, as pessoas cantavam orações lembrando a Paixão de Cristo, o Amor de Maria Santíssima, a responsabilidade para com a natureza e o sofrimento do planeta.
Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, casais, solteiros, solitários, viúvos, doentes – todos com o coração flamejante - abriram um rasgo na noite estrelada, nos programas de televisão, no cansaço de um dia de trabalho ou de espera, para professar a esperança e o compromisso com um mundo melhor. Naturalmente barroco. Espontaneamente ecológico. Com menos penitência e mais persistência. E muita paciência. Num bairro central de São João del-Rei.

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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2012/02/semana-santa-2012-sao-joao-del-rei_23.html

sexta-feira, 2 de março de 2012

Semana Santa de São João del-Rei. O arauto da música barroca. De motetos, lamentos e misereres


Hoje em São João del-Rei, várias vezes, o sino dos Passos, na Matriz do Pilar, dobrará anunciando que, à noite, tem a segunda Via Sacra de rua.Tradição muito antiga, o cortejo se arrasta pelas ruas coloniais do centro histórico, parando nos passinhos de pedra e arte, para que o crucificado repouse no altar, ouvindo a Orquestra Ribeiro Bastos cantar motetos barrocos.

Durante muitas décadas, em tempos passados, atraía  os são-joanenses acompanhar o homem humilde, gente do povo que, de terno preto e cabelo branco, era figura importante nas procissões da Quaresma e Semana Santa.

Seu breve retrato foi colhido no poema Sexta Estação, do livreto inédito A Paixão segundo São João (del-Rei):

"Como o santo em silêncio levava às costas a imensa cruz,
sua sina era carregar o contrabaixo da orquestra,
de Passinho em Passinho, da Matriz, à Matriz.

Se para muitos carregar tão grande carga
soava como castigo,
para ele era prestígio.
Ato muy digno, motivo de orgulho:
'... a música anda pelas minhas pernas,
conduzida pelas minhas mãos ...'

De Via Sacra em Via Sacra,
da Procissão do Encontro
ao caminhar das Lágrimas,
chegava-se à Sexta Feira da Paixão.
Estandartes, andores, lanternas brilhantes,
varas de pálio bordado a ouro, coroas, espadas,
tochas acesas, estigmas, insignias, matracas.
Na solene Procissão do Senhor Morto
cada um ostentava publicamente sua vaidade.

Sem o contrabaixo, de encruzilhada em encruzilhada,
antes de tudo ele abria alas, conduzindo o banquinho da Verônica.
Pedestal humilde que lançava para o alto, muito além dos sete lados
o que durante o ano é canto mais ansiado e faz calar a multidão:
o lamento secular e a face ensanguentada do Senhor.