terça-feira, 30 de julho de 2013

Poética anotação - São João del-Rei: a cidade & sua história


Há vinte anos, por ocasião das comemorações do 30º aniversário do Museu Regional de São João del-Rei, colaborei na elaboração de um projeto cultural que, além de um ciclo de palestras, lançamento de um carimbo postal e realização de duas exposições - Painéis da Inconfidência, do artista plástico Fernando Pita, e Povo da Terra, do multiartista são-joanense Marcos Mazzoni, previa também o lançamento de um folder sobre a instituição homenageada. Dividida em três blocos, a programação durou quatro meses: começou no dia 11 de agosto de 1993, com a primeira palestra, e encerrou-se em 6 de dezembro, com o carimbo e a segunda exposição.

Para compor o folder e para o painel de abertura da segunda exposição, do são-joanense Mazzoni, que reproduzia em esculturas de cerâmica personagens populares da história de São João del-Rei a partir da segunda década do século XX, até os anos 90, criei o seguinte texto:

São João del-Rei: a cidade & sua história

Sob as luzes e o esplendor do século XVIII, uma das primeiras vilas régias da Capitania de Minas Gerais iniciou sua história, às margens do Rio das Mortes e à sombra da Serra do Lenheiro. História escrita com ouro, sangue, arte e ideais.

Cidade guerreira, de solo fértil, de onde se extraiu grandes riquezas e de cujo barro se moldou cidadãos e heróis: Tiradentes, Bárbara Eliodora, Tancredo Neves e muitos outros que são símbolos maiores da dignidade nacional.

A alma são-joanense é nobre e não negou contribuições à cultura brasileira, principalmente quando se definia nossa identidade enquanto povo e nação. Francisco de Lima Cerqueira, Venâncio do Espírito Santo, Aniceto de Souza Lopes, Padre José Maria Xavier, Presciliano José da Silva, Martiniano Ribeiro Bastos, entre muitos outros, produziram obras que os incluem entre os maiores arquitetos, escultores, pintores e músicos do Barroco Mineiro.

O homem comum, no dia a dia dos calendários, pelos séculos afora, continuou bravamente construindo a história: os tropeiros, conduzindo-a pelos caminhos, em lombos de burros, semeando-a aos quatro ventos. As lavadeiras, clareando a barra do dia nas imensas trouxas de roupa quaradas ao sol refletido pelas cristalinas águas do Ribeirão São Francisco Xavier. Os operários, nas fábricas e nos teares artesanais, tecendo, com o sutil fio de algodão e tempo, a vida eterna. Os sapateiros, sob escadas de madeira dos escuros e frios porões bicentenários, consertando saltos gastos pelos séculos, colocando meias-solas em sapatos que caminham rumo ao amanhã, ao futuro e ao novo tempo.

A história de São João del-Rei tem muitos capítulos e, desde sempre, vem sendo escrita a muitas mãos. Cada anoitecer é uma página do tempo que se vira, para que os homens sonhem com a realidade que vão construir, quando romper a aurora. 

Este compromisso vem de muito tempo...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Lincoln de Souza: ouro de São João del-Rei que refulgiu aquém e além da Serra do Lenheiro


Quando nasceu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, em 1704, o ouro brotava à flor da terra, às margens do riacho e nos cocurutos da Serra do Lenheiro, entre cascalhos, quartzos e raízes, abrindo trilhas que, pouco tempo depois, em 1713, viraram ruas da nascente e fulgurante Vila de São João del-Rei.

Metal precioso, o ouro esgotou-se. Mas do solo são-joanense continuou brotando outro ouro, ainda mais brilhante, fino e precioso: um povo cuja alma é iluminada pela fé, pela arte, pelo saber e pela cultura. Duvida?

Quem percorre, nas noites de sábado, entre telhados, lampiões, sinos e torres, os largos, becos e ruelas,  igrejas e cemitérios do centro histórico de São João del-Rei, acompanhando o espetáculo itinerante Lendas São-Joanenses, não imagina que a estória fantástica do menino perdido que foi devolvido à família por Nossa Senhora, do defunto que o diabo levou para o nunca mais, da mãe morta que voltou ao mundo a pedir comunhão para o filho agonizante, da bisbilhoteira castigada meia-madrugada durante uma Encomendação de Almas, da viúva piedosa que assistiu a uma missa do outro mundo e morreu ao ver que já estava lá, do devasso que deitou, deleitou-se e dormiu com uma mulher fatal e acordou sobre uma cova fria no Cemitério do Carmo, do garimpeiro que vendeu a alma ao senhor das trevas em troca de ouro, não imagina que tudo isto foi recolhido e elaborado por um escritor são-joanense importante, que viveu de 1894 até 1969, entre São João del-Rei e duas outras importantes capitais brasileiras.

Como ele se chamava? Lincoln Teixeira de Souza, ou, simplesmente, Lincoln de Souza, como assinava suas obras. De que família ele era? Era neto de Antonio Teixeira Carvalho Pinho, maestro da Orquestra Lira Sanjoanense, na primeira metade do século XIX. Quer saber mais sobre ele? Então veja:

Lincoln Teixeira de Souza era um homem de muitos instrumento e firmou-se no universo intelectual brasileiro por volta de 1920,  quando mudou-se para Belo Horizonte e tornou-se amigo do poeta Drummond. Naquela época pipocavam as primeiras inquietações da Semana de Arte Moderna. Interessado pelo desconhecido mundo dos índios, fez expedições ao Planalto Central e produziu várias obras documentais escritas e fotográficas sobre os Xavantes e outros povos indígenas. Deste modo foi pioneiro do indigenismo nacional.

Também pioneiramente, já naquela época, sabia o valor do turismo e dizia que esta era uma atividade  capaz de  colocar o homem à frente de seu tempo. Foi quando, nesta lente, fotografou Paris, Bruges, Lisboa, Bordeaux e, claro, a sua São João del-Rei. Tornou-se, assim, precursor da divulgação turístico-cultural de nossa cidade. Aliás, foi ele também que, no dia 8 de abril de 1941, usou pela primeira vez a expressão "Cidade dos Sinos" para referir-se à São João del-Rei. Sua obra Contam que... , lançada em 1920, foi editada 13 vezes e há várias décadas está esgotada.

 Falando sobre a poesia de Lincoln de Souza, Carlos Drummond de Andrade disse, por volta de 1920: "Foi uma hora amável a que você me deu seu livro. E uma hora amável, de fina emoção e doce encantamento, é mais raro dos acasos, nesse tempo de coisas tristes e feias...

Devo dizer-lhe que seu livro me encantou - mas ao mesmo tempo me encheu de melancolia. No seu jardim, as flores e as estátuas têm uma beleza dolorosa, e na água dos repuxos  há uma queixa sutil, de velhas mágoas recalcadas. Há sombras cinzentas vagando pelas alamedas e, não raro,  chove uma chuva fina, penetrante, e desconsoladora. Por isso mesmo, mais quero o seu livro: porque tocou a minha sensibilidade e me disse de coisas dolentes e misteriosas."

Sobre o livro de lendas Contam que... o maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo, declarou, no dia 30/03/1954: " Ao texto, não há senão louvor e sonhos de continuação. Tudo ali me agrada, na linguagem lépida e nítida, a precisão vocabular fixando definitivamente o tema, o encanto das escolhas dos assuntos, as soluções terminais, enfim a maneira que será sinônimo de processo, de comunicação ao leitor na mesma intimidade emocional como sente o mineiro cheio de  recordações e lembranças de sua terra natal."

O grande escritor Josué Montello, à época diretor da Biblioteca Nacional, assim lhe escreveu, em 05/04/1948: "Quando se alcança a posição que hoje você ocupa, os louvores não servem mais como recompensa.O que realmente tem importãncia é a consciência de que se dedicou à vida literáriao melhor de suas horas, proporcionadas por Deus."

Além de sua obra, Lincoln de Souza deixou parte de sua herança patrimonial para São João del-Rei. Doou livros para a Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida, coleção de pinturas e outras obras de arte para o Conservatório de Música Padre José Maria Xavier, uma casa na histórica Rua Santa Teresa, em São João del-Rei, e um apartamento no Rio de Janeiro para a Paróquia do Pilar e um terreno, na Rua Paulo Freitas, no bairro das Fábricas de São João del-Rei, para a obra social Vovô Faleiro.

Tendo vivido 75 anos completos, deixou o mundo no dia 11 de agosto de 1969. Mas a população são-joanense de nossos dias praticamente nada sabe sobre Lincoln de Souza: quem era, o pioneirismo nacional de sua obra, como amava e divulgava São João del-Rei...

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Saiba mais sobre o espetáculo teatral itinerante Lendas São-joanenses, inspirado no livro Contam que..., de Lincoln de Souza, acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/02/medos-misterios-e-segredos-na-noite-de.html



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Fonte: PASSARELLI, Ulisses. Lembrando Lincoln de Souza. Apresentação feita no Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei em 02/11/2008.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Festival Inverno Cultural São João del-Rei 300 anos - "Hoje é dia de el Rey" Milton Nascimento


No ano em que São João del-Rei comemora seus 300 anos como vila instituída a 8 de dezembro de 1713 pelo Rei Dom João V, a cidade não poderia receber melhor presente do que Milton Nascimento. De corpo, alma e música.

Assim, duplamente abençoada será a próxima quinta-feira, 25 de julho, Dia de São Cristóvão. Nele, o próprio santo, dono dos caminhos, das estradas e travessias, trará por uma mão, o compositor de Travessia. No outro braço, São Cristóvão traz sempre consigo o Menino Jesus que, alguém já disse, se cantasse, seria com a voz de Milton Nascimento. O show será em uma geografia enigmática: nas imediações do local onde o Córrego do Lenheiro abraça e acompanha o Rio das Mortes, rumo a outros rios e ao mar.

Quem sabe Milton Nascimento não é convidado a voltar à cidade, no anoitecer do dia 8 de dezembro - momento maior das comemorações dos 300 anos, para, depois da procissão de Nossa Senhora da Conceição, cantar, nas escadarias da igreja das Mercês? São João del-Rei merece! Fica aí a sugestão para a Secretaria de Cultura da cidade...

Nos preparando para a noite da abençoada quinta-feira, ouçamos Milton Nascimento cantar Hoje é dia de El Rey.




quinta-feira, 18 de julho de 2013

2013 - Vila de São João del-Rei: 300 anos . Museu Regional de São João del-Rei: 60 anos


2013. No mesmo ano em que São João del-Rei celebra trezentos anos que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes ganhou o status de Vila, com o nome de São João del-Rei (a quarta instituída em solo mineiro), o povo são-joanense tem também mais um motivo para comemorar: os 60 anos do Museu Regional. Comparando os números, vemos que 60 é 1/5 de 300 - uma boa proporção quando a unidade é o tempo.

O Museu Regional de São João del-Rei pertence ao Instituto Brasileiro de Museus, do Ministério da Cultura. Criado em 1963, em um dos mais belos edifícios coloniais oitocentistas de três andares da cidade e até do estado de Minas Gerais, representa e apresenta muitas conquistas histórico-culturais que se consolidaram ao longo destas seis décadas.

 Uma delas é que deu destinação museológica para um casarão que nos anos quarenta começou a ser demolido, mas teve a obra interditada e foi tombado pelo SPHAN, o que possibilitou sua restauração e revitalização. Assim, tornou-se um dos mais nobres territórios de cidadania da cidade, e também da região.

Outra é que oportunizou a formação de um acervo rico e diversificado, que conta capítulos importantes da história da Vila de São João del-Rei e da Comarca do Rio das Mortes, por meio de obras de arte, documentos, instrumentos de trabalho, peças religiosas, móveis, armas, liteiras, utensílios domésticos, instrumentos musicais e uma infinidade de objetos que nos levam de volta aos séculos XVIII e XIX. Deste modo, expõe do que se guarda na intimidade da casa ao que se mostra ou se vê na rua, do universo privado e particular ao que é mais público, impessoal e visível. Tudo na moldura de tempos passados.

Além destas conquistas, na última década tem servido de teto, inspiração e impulso para a criação de um espaço cultural que cada dia mais se firma como um moderno centro de memória e arte, ao promover frequentemente exposições temporárias, concertos, palestras, visitas guiadas e outras atividades de integração da comunidade com sua história.

Deste modo, o Museu se abre para a sociedade são-joanense se mostrar, se perceber, se conhecer e se reconhecer. E também serve como uma vitrine do tempo, onde visitantes e turistas - por meio do olhar, do entender e do compreender - dialogam com a história e se enriquecem com a cultura de São João del-Rei.

Para saber mais sobre o Museu Regional de São Joao del-Rei, veja o vídeo abaixo. Ele é aberto com um longo comercial e apresenta outros ao longo do texto, mas é muito completo e informativo, inclusive sobre a história da cidade. Clique e assista!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O universo fantástico de São João del-Rei: o Rio Jordão, a serpente e o castigo de Adão e Eva


Dentro de poucas horas, São João del-Rei já estará na glória do dia de Nossa Senhora do Carmo. Alvorada festiva, sinos dobrando, gente arrumada chegando no largo e na igreja, missas cantadas, adorações, horas santas, música barroca, procissão, estandartes, crianças vestidas de anjo, tapete de flores, banda tocando, cheiro de incenso, de pipoca, de beijo quente de coco e de amendoim, perfume forte de mulher no ar, foguetes ruidosamente estrelando de cores o luzeiro celeste. Tudo tal qual se fazia há quase três séculos, para agradar o Céu e a Terra. Com tanta intensidade, entusiasmo, fé, cor e luz, talvez não seja assim em nenhuma outra cidade.

Tão antiga quanto a festa do Carmo - e envolvendo o magnífico templo - é uma crença que ouvi, na infância, de minha avó, Francisca Maria da Conceição (1898 - 1994).

Nos idos anos 60, eu criança pequena ela me dizia que sua mãe jurava que sua avó contava que o Rio Jordão, onde Cristo foi batizado, corria debaixo da igreja do Carmo. Que na calada da noite, quem deitasse no assoalho, fechasse os olhos e encostasse o ouvido nas tábuas, escutaria a água correndo e até a serpente - que tentou Adão e Eva  no Paraíso - mesmo dormindo se mexer, sacudindo o chocalho e o mundo. Que se a serpente acordasse as estrelas caíam e o mundo acabava. Por isso estava presa debaixo da casa de Nossa Senhora...

Como eram ricos a imaginação e o imaginário dos são-joanenses de antigamente. Como estas  estórias e lembranças vêm se desbotando com o tempo, se apagando nas noites, se perdendo entre os dias, apesar de tantos recursos tecnológicos que tudo documentam, registram e espalham para todos os cantos do planeta. Viva o trabalho do folclorista Ulisses Passarelli!
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Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/igreja-do-carmo-brilho-luminoso-estrela.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/07/festa-do-carmo-fe-abraca-festa-em-sao.html

domingo, 14 de julho de 2013

Incêndio destruiu casarão histórico em São João del-Rei. Mas o amor ao passado não virou cinzas!


Há 18 anos, no dia 5 de julho de 1995, no começo do anoitecer, os sinos do centro histórico de São João del-Rei dobraram descompassados e aflitos. Não era o toque de Ângelus, nem chamada temporã para a novena do Carmo, nem brincadeira de sineiros. Era um aviso sinistro: aquela noite tenebrosa trouxe consigo um violento incêndio que em vorazes labaredas devorou o sobrado de esquina onde há mais de cem anos nascera o presidente eleito Tancredo Neves.

Desacostumado deste tipo de desastre, o povo são-joanense, assistiu atônito o fogo alastrar-se, derrubando  abaixo sacadas, vidraças, beirais, platibanda, telhado, tijolos, cumeeira, ladrilhos - tudo, do que muita coisa já era cinzas quando soldados do Corpo de Bombeiros, vindos de cidades vizinhas, duas horas depois, chegaram ao pedaço do inferno em que se transformou o imóvel daquela torta encruzilhada

O fato foi noticiado em tempo real pelo Jornal Nacional daquela noite e, no dia seguinte, era manchete, matéria ou nota nos principais jornais e telejornais do país.

Mesmo consternada, a comunidade são-joanense manifestou não só tristeza e solidariedade, mas também preocupação com aquela ferida cultural aberta a fogo no coração de São João del-Rei. Muitos, inclusive, encaminharam correspondências publicadas pela imprensa estadual e nacional, como por exemplo as mensagens do autor  deste almanaque eletrônico, publicadas nos seguintes diários, aqui transcritas:

Estado de Minas (14/07/1995) -  "O incêndio do Solar dos Sade, onde nasceu o ex-presidente Tancredo Neves, em São João del-Rei, foi eficientemente coberto pela imprensa televisiva, transmitindo quase ao vivo a voracidade das chamas e o prejuízo material e cultural causado pelo acidente.

São João del-Rei precisa, mais do que nunca, de uma unidade do Corpo de Bombeiros, uma vez que o risco de incêndios não é a única ameaça aos preciosos registros do passado que a cidade produziu e guarda. A cidade precisa de maior comprometimento e determinação do poder público, em suas três esferas, para elaboração e implantação de uma política de preservação cultural.

Sem uma mudança de mentalidade e conduta. só uma unidade do Corpo de Bombeiros é muito pouco e não garante plenamente a segurança, proteção e preservação de vários capítulos da história do Brasil escritos em São João del-Rei."

Jornal de Brasília (12/07/1995) -  "Passado em cinzas - Conforme publicado na imprensa brasiliense na semana passada, o ministro da Cultura, Francisco Weffort, afirmou que "o Brasil tem necessidade de produzir mais cultura". Concordo com o ministro, mas o cotidiano mostra que o Estado brasileiro precisa - e muito - desenvolver esforços mais efetivos e eficazes para a preservação da memória nacional.

Prova disso é o incêndio ocorrido na noite do dia 5 passado, em São João del-Ei, cidade setecentista, possuidora de rico patrimônio cultural, do qual fazem parte, inclusive, obras de Aleijadinho, documentos da Inconfidência Mineira, partituras bicentenárias, livros raros do século XVI e XVII e até uma coleção de jornais franceses do século XVIII.

Como a cidade até hoje (1995) não conta com uma brigada do Corpo de Bombeiros, e muitos imóveis que guardam estes acervos não possuem estrutura adequada de segurança, uma precio sa fração da memória nacional está exposta a todo tipo de ameaças.

No acidente citado, poderíamos atribuir à fatalidade a culpa por nossas perdas culturais irreparáveis, mas a verdade é que o poder público precisa ser mais determinado em sua luta pela preservação da memória. Preocupado com o patrimônio daquela cidade, em 17 de maio passado, como cidadão, encaminhei correspondência ao Ministério da Cultura, mas imagino que o assunto não recebeu a atenção merecida, pois não recebi resposta.

Cidadão são-joanense, espero que o incêndio motive, pelo menos, a adoção de medidas eficazes de proteção, preservação, conservação e divulgação do patrimônio daquela cidade - medidas estas compatíveis com a seriedade de qualquer nação que pleiteie ser reconhecida e respeitada internacionalmente  e alcançar a modernidade e o "Primeiro Mundo".

A foto na abertura deste post mostra o sobrado reconstruído e o link abaixo leva a um vídeo que documenta o incêndio
http://www.youtube.com/watch?v=Db8Ig_7qEsE&feature=endscreen&NR=1

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Novo sino do Carmo: São João del-Rei faz um convite irrecusável

São João del-Rei tem consciência da importância e do valor de sua riqueza cultural. Por isso a cidade vive a dar exemplos. Inclusive para si própria.

A bênção, no domingo 14 de julho, do sino São Simão Stock, que fará par com o sino Santo Elias, substituindo a outro, antigo, que rachou de tanto uso, em uma das torres angulosas da majestosa igreja do Carmo da "cidade onde os sinos falam", é prova disso.

A Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, zelosa de seu patrimônio, diante de um prejuízo causado pelo tempo em uma peça de seu patrimônio, não resignou-se à própria sorte. Assumiu a propriedade de tão importante signo da cultura nacional e não fugiu à responsabilidade de empreender todos os esforços necessários para preservá-lo.

Por isso, generosamente partilhou o sentimento de pertencimento com a comunidade são-joanense, ao lançar uma campanha de doações financeiras, com intenção, sobretudo, participativa. Ao mesmo tempo saiu em busca de patrocínios público e privado, local e estadual, para que novo sino subisse à torre, tão afinado - e afinado no mesmo tom - que o antigo, a ser mantido como objeto museológico.

Preservou-se e engrandeceu-se assim, mais uma vez, o patrimônio de São João del-Rei, nas suas faces simbólicas, culturais, religiosas, comunitárias e cidadãs. Quem ganha, além dos são-joanenses, é a cultura nacional...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Festival Inverno Cultural 2013 São João del-Rei - Milton Nascimento, há 20 anos, "todo lugar é aqui"

Todo lugar é aqui - este é o tema do Festival Inverno Cultural de São João del-Rei em 2013. Não poderia haver saudação mais adequada para situar  um acontecimento nascido aqui qual o ouro de aluvião, que há mais de trezentos anos, nos idos de 1705, brotava à flor de terra, entre raizes de capim e quartzo, no Morro das Mercês e nas encostas da Serra do Lenheiro.

Todo lugar é aqui. São João del-Rei tem dessas coisas. Desde sempre e até depois de tudo, traz em si o mundo inteiro. Tem praia e cais sem sequer ter mar. Faz o bronze falar pelas bocas e badalos de seus sinos. Transforma estrelas em  brancas e doces amêndoas de coco e traz o céu para o chão, em suas centésimas e tricentenárias procissões. E também leva para o mundo a expressão artística, principalmente por meio da música barroca e sinfônica, do povo são-joanense. Compositores e maestros conterrâneos, de ontem e de hoje, são conhecidos além dos limites de nosso país. Toques de sino tão criativos e sofisticados quanto os de São João del-Rei não há em outro lugar, mesmo sendo aqui todo lugar.

Todo lugar é aqui quer dizer o mundo na palma da mão, além do alcance dos olhos, correndo veia afora até perpassar o coração. Maria Bethânia, há 40 anos, proclamou esta universalidade abissal da alma quando, no álbum Drama - Luz da Noite, lançado em 1973, declamou:

                   "Dizem que há mundos lá fora, que nem em sonhos eu vi.

                     Mas que me importa todo o mundo, se o mundo todo é aqui?"

Milton Nascimento, em 1993, no disco Ângelus, intercalou-se a James Taylor na música Only a dream in Rio e cantou

                              "O lugar de onde eu vim brota do coração.
                                O lugar onde nasci está em tudo e em mim.
                                O lugar que a gente sonhar pode existir e existirá. 
                                Vive em nós e viverá enquanto houver canção..."

Agora, 20 anos depois, ele é a estrela maior do festival Inverno Cultural que proclama "Todo lugar é aqui", em uma terra que almeja não ter medo nem fronteiras. Só o passado a conservar e o futuro, hoje e sempre, a conquistar...




                                       

segunda-feira, 8 de julho de 2013

300 anos. Retrato de São João del-Rei na poesia de Carlos Drummond de Andrade

Lanterna Mágica - V - São João del-Rei


                                "Quem foi que apitou?
                                  Deixa dormir o Aleijadinho, coitadinho.
                                   Almas antigas que nem casas.
                                  Melancolia das legendas.

                                  As ruas cheias de mulas-sem-cabeça
                                  correndo para o Rio das Mortes
                                  e a cidade paralítica
                                  no sol
                                  espiando a sombra dos emboabas
                                  no encantamento das alfaias.

                                  Sinos começam a dobrar.

                                  E todo me envolve
                                  uma sensação fina e grossa.


                                        Carlos Drummond de Andrade in Alguma Poesia (1930)


Clique no link abaixo e ouça o toque de sinos a que se referiu o poeta-maior

quinta-feira, 4 de julho de 2013

300 anos . Retratos poéticos de São João del-Rei: Chafariz da Legalidade




                                             Chafariz da Legalidade*

                                  " Secaram a água
                                      na boca dos chafarizes.                                   
                                      Brotaram lágrimas
                                      no fundo dos olhos."

                                               

                                                *Antonio Emilio da Costa, no livreto inédito Ossuário Geral

Ajudada por sacis, Alexina Pinto rasgou cartilhas e revolucionou o ensino infantil em São João del-Rei




4 de julho é data que deveria ser escrita com algarismos de ouro no Livro de História da Educação em São João del-Rei. Nele, em 1870, nasceu a educadora Alexina de Magalhães Pinto, considerada a primeira folclorista do Brasil e precursora da utilização da cultura popular como recurso didático-pedagógico no processo de alfabetização infantil.

Sua história de vida é sem igual, em São João del-Rei, em Minas Gerais e no Brasil. A começar pela viagem que, aos 22 anos, fez sozinha à Europa, para conhecer e estudar em centros culturais daquele continente. Em 1892, quando o século XX sequer tinha chegado, Alexina Pinto andava de bicicleta no centro da cidade e aplicava em salas de aula proposta educacional revolucionária, que rasgava a cartilha de alfabetização tradicional, substituía castigos por brincadeiras de trava-língua e trocava a temida palmatória por cantigas de roda.

Como era de se esperar, tanta inovação e vanguardismo chocaram a conservadora sociedade provinciana de São João del-Rei. Mas isto é outra história, muito interessante por sinal.Quer conhecer mais? Então leia o que vem a seguir...

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/alexina-pinto-deu-educacao-sao-joao-del.html



terça-feira, 2 de julho de 2013

Festa do Carmo. A fé abraça a festa. Em São João del-Rei, ser feliz não é pecado!...


De janeiro a dezembro, é difícil dizer qual mês é mais rico de tradição, fé e encantamento no sofisticado calendário religioso de São João del-Rei.

Seja nas celebrações dolorosas, como a Festa de Passos e a Semana Santa, seja nas comemorações gloriosas, como as novenas e procissões em homenagem aos santos e às Nossas Senhoras - por todas elas o povo são-joanense nutre grande dedicação, empenho, zelo e cuidado. Profundo, intuitivo e devotado senso estético, faz com que tudo - música, flores, cores, perfumes, sabores, ritmos, calores - se aproxime do sublime e do divino, tornando as pessoas arrebatadas, enlevadas, alegres e felizes.

Julho, por exemplo, é o mês da Festa de Nossa Senhora do Carmo. A partir do dia 7, por dez dias, missas, novenas barrocas, procissões, bandas de música, fogos de artifícios, toques de sino, barraquinhas de canjica branca e morena, pé-de-moleque e quentão, devolvem ao Largo do Carmo a vitalidade que aqueles arredores tinham há duzentos anos. Mesmo as pessoas mais simples, que a qualquer hora do dia caminham para a igreja, envergam e empunham solenidade respeitosa, própria de um momento incomum.

Contudo, os são-joanenses sabem que as riquezas sentimentais de sua cultura e religiosidade têm como cofre a memória e o coração. Por isso, além do cartaz e do programa das cerimônias religiosas, muito pouco produzem como lembrança deste momento anualmente singular. Joia preciosa neste sentido é o CD Novena do Carmo, gravado pela Orquestra Ribeiro Bastos em 2010, sob regência da saudosa maestrina Maria Stella Neves Valle.

Composto por nove peças musicais (invocatórios, saudações, coros e hinos) compostas nos séculos XVIII e XIX para serem parte da novena, o CD é uma preciosidade, tanto pela autenticidade da execução musical quanto pelo despojamento da gravação. Como tudo o que é raro nem sempre está ao alcance da mão, não costuma ser fácil encontrá-lo à venda nos arredores da igreja. Diante desta situação, aí vai uma pista para os garimpeiros culturais: (32) 3372-2011 / 9968-2703 são os telefones do Studio Via 8 Produções (studiovia8@hotmail.com), que produziu o disco. Outra dica é fazer contato diretamente com a Orquestra.

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Sobre o mesmo tema, leia também
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