quinta-feira, 27 de outubro de 2011

São João del-Rei comemorará em silêncio seus 300 anos de elevação à Vila?


Se é verdade que os mineiros são "come-quietos" e que "Minas trabalha em silêncio", os são-joanenses podem ficar tranquilos: as comemorações dos 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de Vila, com o nome de São João del-Rei, em 2013, serão um sucesso retumbante.

Mesmo sem alardes, sequer sem notícias, se é verdade o ditado popular acima, já devem estar sendo programados e preparados eventos  e produções culturais compatíveis com a importância e grandiosidade do fato histórico a ser celebrado, que nos remonta a dezembro de 1713 - infância de Minas. Porém, pelo imaginado, tudo vem sendo cuidado inconfidentemente, "sob sete chaves".

Poder público, instituições acadêmicas e culturais, organizações governamentais e não-governamentais, pesquisadores, intelectuais, todos enfim que de algum modo têm missão ou compromisso com a história, a memória, a cultura, o turismo e o desenvolvimento social e econômico de São João del-Rei precisam ter em mente que 2013 já bate à nossa porta. E que realizações culturais requerem dedicação, tempo, competência, organização, responsabilidade, agilidade, desprendimento, objetividade e, principalmente, espírito coletivo e compromisso com o bem comum. E também, quase sempre, patrocínio...

Para serem de fato importantes para São João del-Rei, é ideal que as comemorações sejam dedicadas e destinadas ao povo de são-joanense - autor, protagonista, sujeito, objeto, agente e proprietário legítimo da história cultuada. Eventos oficiais e formalidades são próprios, mas em geral soam como expressão da (e reverência à) aristocracia decadente porque em geral se limitam a uma esfera de poder que para a atualidade tem cheiro de naftalina. Do mesmo modo, bom será se as comemorações conseguirem não se esgotar em si próprias, deixando resíduos que impulsionem transformação, fortalecimento e desenvolvimento cultural, econômico, social e acadêmico.

Nesta perspectiva, a programação será tão mais grandiosa e edificante quanto mais acontecer em praças públicas, envolver o maior número de pessoas de todas as condições sociais e econômicas, gerar produtos culturais duradouros que difundam a cultura, a história e a memória de São João del-Rei, inclusive constituindo subsídios e apoio para outras e futuras produções. E também quanto mais incentive e promova a revitalização, preservação e conservação de bens, edifícios e áreas urbanas de importância patrimonial, como por exemplo o Chafariz da Legalidade. Pensar na "descoberta" e "reconquista" da Ponte da Misericórdia é sonhar muito alto? E o projeto de conservação / preservação estrutural da Matriz do Pilar?

Ativação e inauguração do Museu da Rua das Flores, concertos, festivais, relançamento de livros antigos importantes sobre São João del-Rei, exposições, concursos, restauração de peças sacras, partituras e bens museológicos, cursos, seminários e ciclo de palestras, mostras de teatro, cinema e folclore, bailes públicos, enredos carnavalescos - enfim absoluta efervescência cultural, consistente e responsável. Tudo isto será muito bem-vindo!..

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Foto: Detalhe da portada da igreja do Carmo, de São João del-Rei, considerada uma das seis  mais belas obras de Aleijadinho

terça-feira, 25 de outubro de 2011

São João del-Rei vivifica o herói Tiradentes e canta em hino sua vida, seu sonho e seus ideais


A instituição da Comenda da Liberdade e Cidadania, a ser entregue anualmente a grandes personalidades brasileiras na Fazenda do Pombal em data próxima ao dia 12 de novembro - quando, em 1746, Tiradentes foi batizado em São João del-Rei, na capela de São Sebastião do Rio Abaixo - sinaliza para uma nova visão deste herói das montanhas de Minas: a vivificação do homem Joaquim José da Silva Xavier, eternizado por seus ideais libertários. Substitui-se assim o imaginário do mártir proscrito e maldito pelo sistema colonizador  português, vitimizado e derrotado na forca e no esquartejamento, resgatando a dignidade humana do herói Tiradentes.

12 de novembro não é 21 de abril -Talvez de imediato não se tenha percebido, mas este outro modo de olhar o passado com certeza indica uma nova direção que - como Joaquim José - sonhamos para o presente e para o futuro. Não mais apenas, pela lente do pessimismo, vislumbrar o fracasso, cultivar a submissão, dedicar-se ao sofrimento, curvar-se à morte. Ao contrário, enxergar desde já um agora fecundo e acreditar em um porvir luminoso de grandeza humanística e coragem humanitária.

Ouça, clicando no ícone abaixo, o hino composto e interpretado por Marcus Vianna em homenagem ao herói Tiradentes, a partir deste ano vivificado nas comemorações de seu nascimento e batismo com a entrega da Comenda da Liberdade e da Cidadania a personalidades nacionais que declaradamente, por meio de seus atos, demonstram compromisso com os ideais vivos de Joaquim José da Silva Xavier.

3 - Cançao+do...mp3
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domingo, 23 de outubro de 2011

São João del-Rei, 1818: cidade encantadora. E também aterrorizadora!...


Como todas as cidades coloniais - notadamente aquelas que nasceram com o brilho do ouro que reluziu em Minas Gerais a partir do século XVIII e floresceram impulsionadas pela cobiça, oprimidas pelo punho português e iludidas pela fantasia barroca - São João del-Rei desde sua gênese sempre revelou antagonismos e contrastes.

O viajante austríaco Johann Baptist Emanuel Pohl (reprodução), quando aqui chegou em 15 de outubro de 1818 integrando a Missão Austríaca que pesquisou a mineralogia e a botânica local, assim descreveu sua acolhida em nossa cidade e uma visão aterrizadora que testemunhou da janela do quarto onde ficou hospedado:

" Esta cidade figura entre as mais limpas e alegres que já encontrei no Brasil. Situada em clima suave, apresenta uma vista risonha com as suas mil casas, na maioria de um andar só, limpamente caiadas de branco e  pomares de cujo verde viçoso se erguem belas bananeiras.

As igrejas, inteiramente construídas de pedra, com torres bem proporcionadas, algumas ornadas com relógios, o que é uma raridade no país, sobrepujam as próprias igrejas do Rio de Janeiro (...)


Fiquei numa hospedaria  não longe da entrada da cidade.  Deram-me um quarto limpo, pintado, com cama, mesa e cadeiras, como há muito tempo eu não vira no Brasil. Mas o primeiro olhar que deitei pela janela me transtornou o ânimo alegre que essas comodidades me haviam proporcionado.


Descobri com horror num alto, apenas a 16 passos de mim, enfiados numa vara, em torno da qual adejavam milhares de moscas, a cabeça  e a mão de um negro. Pouco tempo antes este infeliz matara o seu tirano, dono da estalagem.  Fugira para longe, fora preso e executado. Mas a cabeça e a mão haviam sido trazidas para aqui, a fim de ser expostas, como exemplo, no local do crime."



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Fontes:
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II. 2a edição revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte, 1982.
GAIO Sº, Antonio. Sanjoanidades - Um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. Editora A Voz do Lenheiro. São João del-Rei. 1996.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Banda Theodoro de Faria espalha noite e dia música e alegria pelas ruas de São João del-Rei

Não é raro deparar com a conversa alegre das notas musicais, saltando de polidos instrumentos de sopro e percussão, dando ainda mais ritmo, vida e cor às ruas coloniais de São João del-Rei. Sempre que isso acontece (e acontece com muita frequência!) os são-joanenses sabem: a Banda Theodoro de Faria está passando.

Há 109 anos é assim. A Banda Theodoro de Faria é presença certa em procissões, retretas e concertos, nas ruas, nos becos, nos largos, nas praças, no coreto e até no Teatro Municipal, marcando presença em comemorações religiosas, cívicas, culturais e de lazer. Seu repertório é vasto e vai das oitocentistas marchas processionais de compositores são-joanenses até clássicos da música brasileira e internacional de todos os tempos, passando até pelo tema de grandes filmes.

A Banda Theodoro de Faria foi criada logo no raiar do século XX, em 1902, como dissidência da "Banda de Música do Ribeiro Bastos", fundada no século XIX. Inicialmente era conhecida como "Banda do Augusto de Faria", em alusão ao seu primeiro maestro, Augusto Theodoro de Faria que, estrategicamente idealista, cuidoru logo de juntar aprendizes com músicos experientes. Desta forma, ao mesmo tempo em que aumentava a formação musical dos jovens são-joanenses, os atraia para a nova corporação, seduzidos pela visibilidade, reconhecimento e prestígio de se apresentarem publicamente.

Quinze anos depois, o comando da Banda passou para o maestro Teófilo Inácio Rodrigues, cuja atuação foi tão importante que a comunidade são-joanense informalmente passou a designá-la "Banda do Seu Tiófilo". Para se ter ideia de sua dedicação, "Seu Tiófilo" transformou vários cômodos de sua residência em local de ensaios, de ensino, de arquivo, depósito - enfim na própria sede da Banda, que se tornou mais um membro da família Rodrigues. Como a única fonte dos poucos recursos eram as apresentações, o maestro comprava instrumentos de segunda mão e consertava os danificados, sempre pensando em aumentar o corpo musical.

O nome Banda Theodoro de Faria foi oficializado em 1954 - ano que a Corporação apresentou-se uniformizada pela primeira vez - e, a partir daquele tempo, fruto da união dos componentes, iniciaram-se ações que conduziram à compra de terreno na Rua Santo Antônio e construção da sede própria, inaugurada em 1967.

A Banda Theodoro de Faria ocupa um lugar de destaque no universo da música e das instituições culturais de São João del-Rei. Oferece cursos regulares de música com aulas individuais de teoria musical, leitura ritmica, solfejo e  técnica instrumental, sendo base para músicos que se destacam nas orquestras bicentenárias, na Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei e na Banda de Música do 11º Batalhão de Infantaria, sediado na cidade.

Atualmente a Banda Theodoro de Faria tem cerca de 60 músicos, em sua maioria jovens, estudantes. Além de participar das tradicionais procissões, especialmente na Semana Santa, também realiza apresentações públicas, inclusive concertos comemorativos no Teatro Municipal de São João del-Rei. Veja e ouça, no vídeo abaixo, a Banda Theodoro de Faria em trecho da opereta A Viúva Alegre, peça que há mais de meio século faz parte da cultura musical da cidade.

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Fontes: http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/34
              http://theodorodefaria.blogspot.com/
Foto da abertura: Alzira Agostini Hadad (Atitude Cultural)  

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

São João del-Rei festejará, em 12 de novembro, o aniversário de Tiradentes



Dia em que, em 1746, Tiradentes foi batizado na capela de São Sebastião do Rio Abaixo, 12 de novembro é uma das datas mais importantes do calendário cívico-histórico de São João del-Rei. Até bem pouco tempo a data sequer era festejada, mas foi declarada Dia da Liberdade e, a partir deste ano, será dignamente festejada na região Campo das Vertentes com a entrega da Comenda da Liberdade e da Cidadania a personalidades que notoriamente prestaram ou prestam relevantes serviços à Cultura, à Política, à Economia, às Ciências, ao Direito, ao Meio Ambiente e a outros importantes segmentos da sociedade brasileira.

A entrega será feita na Fazenda do Pombal - local do nascimento de Tiradentes, que à época  ficava em território pertencente à Vila de São João del-Rei. Com nova demarcação, a fazenda ficou por pouco tempo pertencendo a outra vila, mas voltou a ser propriedade são-joanense de 1755 a 1963, quando então passou a fazer parte de outro município vizinho. São João del-Rei será o primeiro, dos três municípios cuja história envolve a territorialidade da Fazenda do Pombal, a organizar e promover a entrega da Comenda, passando essa função, nos dois próximos anos, sequencialmente, para as outras administrações municipais.

Pela responsabilidade e seriedade dos são-joanenses responsáveis pela organização da entrega da Comenda da Liberdade e da Cidadania, a proposta não se resumirá a uma solenidade formal para homenagens sociais e tributos políticos. Será, de fato, um resgate histórico de uma das datas mais importantes da História do Brasil e a expressão de reconhecimento a brasileiros que honram a Pátria sonhada por Tiradentes.

Baptismo de Tiradentes


"(Livro para servir de assentos dos baptizados da freguezia de N.S. do Pilar
da Villa de São João d'El Rey ..." 1742-1749 Fº 151 rº)


"Aos doze dias do mez de Novembro de mil setecentos e quarenta e seis annos, na Capella de São Sebastião do Rio Abaixo o Reverendo Padre João Gonçalves Chaves, capellão da dita Capella, baptizou e poz os Santos Oleos a Joaquim filho legítimo de Domingos da Silva dos Santos e de Antonia da Encarnação Xavier; foram padrinhos Sebastião Ferreira Leytão e não teve madrinha; do que fiz este assento.


O coadjutor. Jerônymo da Fonseca Alvarez


O citado Livro está sob guarda da Biblioteca Nacional.
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Iconografia de São João del-Rei é tesouro precioso, desconhecido e inexplorado

Ainda em grande parte desconhecido, certamente deve ser grande e precioso o volume de logomarcas criadas em São João del-Rei no século XIX e início do século XX, com o objetivo de identificar instituições comerciais, civis, religiosas, culturais, educacionais, públicas e das mais diversas naturezas. Bancos, lojas, escolas, irmandades, hospitais, grêmios, clubes, funerárias, produtos - todos estampavam em logomarcas, carimbos, selos e rótulos, elementos estéticos e simbólicos que evidenciavam sua importância na sociedade são-joanense, ao mesmo tempo em que espelhavam aspectos marcantes da cultural local.

Um bom exemplo da riqueza iconográfica de São João del-Rei é a logomarca da Santa Casa de Misericórdia, harmoniosamente composta com a representação de alguns estigmas da Paixão de Cristo. Do mesmo modo, a logomarca da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, que também utiliza elementos sacros da mesma natureza.

Não se tem notícia de nenhuma pesquisa, análise ou documentário sobre a iconografia produzida em São João del-Rei nos séculos XIX e XX, mas sem dúvida este é um interessante empreendimento cultural a ser realizado, seja sob o enfoque histórico, sociológico, antropológico, econômico ou artístico. Sequer da existência de um banco de dados e da organização de um acervo físico ou virtual sobre a linguagem iconográfica são-joanense se sabe.

Fica a sugestão para as instituições culturais governamentais e não governamentais, para as universidades públicas e particulares, para os abnegados pesquisadores autônomos e para os estudantes que procuram temas interessantes para seus TCCs, monografias e teses...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Duas Semanas Santas por ano? Em São João del-Rei tinha! Você sabia?...

Barroca como a alma do lugar, a história de São João del-Rei é cheia de voltas, volutas e curvas. Tem fatos inusitados, pitorescos e curiosos que poucas pessoas conhecem e que - quando são descobertos - tornam ainda mais colorida, extraordinária e fascinante a vivência e a vida daquele lugar.

Você imagina, por exemplo, que a Prefeitura Municipal de São João del-Rei quase foi uma igreja? Isso mesmo. Por pouco, exatamente naquele local privilegiado, em frente à Ponte da Cadeia, no começo do século XIX ali não foi construída a igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, para sediar a Confraria, que era proprietária daquele terreno.

A Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte é das mais antigas da cidade e também rica de peculiaridades. Seu Compromisso data de 1786, mas há indicativos de que, naquela época, a irmandade já existia há mais ou menos 50 anos. Tornando-se confraria em 1858, seus irmãos usam hábito talar preto, com escapulário azul onde se estampam as letras B M A M (Boa Morte Ave Maria), capa creme e cinto de couro preto com fivela redonda de osso ou marfim. Seu altar é o mais elaborado da Matriz do Pilar e o douramento ficou pronto em 1782.

A maioria dos músicos coloniais são-joanenses era filiada à Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte e alguns até pagavam suas anuidades com serviços musicais. As celebrações da Boa Morte e da Assunção eram tão imponentes que chegaram a ser chamadas de Segunda Semana Santa e de Semana Santa dos Mulatos, esta segunda porque era muito grande o número de mulatos naquela Confraria.

Os resplendores de prata das imagens pertencentes à Confraria da Boa Morte destacam-se entre os mais requintados de Minas Gerais e são obra do prateiro são-joanense Joaquim Francisco de Assis Pereira. No conjunto da Santíssima Trindade, o resplendor do Filho tem, no centro, um sudário com as cinco chagas de Cristo; o do Pai Eterno, de forma triangular, é ornamentado com raios, volutas, rocailles e tem, no centro, outro triângulo em prata dourada, onde pousa um Espírito Santo em forma de pomba. O diadema de Nossa Senhora da Assunção é um aro com doze estrelas e a maior está disposta no centro, sobre uma raiada de prata dourada. Quando sai em procissão, esta imagem apoia um pé sobre uma grande e bela lua crescente de prata, cinzelada com muita arte.

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Fonte: http://www.sjdr.com.br/historia/igrejas_monumentos/matriz/irmandade.html
Foto: detalhe da fachada principal da Prefeitura Municipal de São João del-Rei (foto do autor)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sinos e hinos de São João del-Rei saúdam a "excelsa" padroeira Nossa Senhora do Pilar

Neste 12 de outubro, São João del-Rei homenageia com delicadeza e serenidade sua padroeira, Nossa Senhora do Pilar. Desde cedo, uma intensa programação religiosa movimenta a cidade até o anoitecer, quando sai às principais ruas do centro histórico uma grande e colorida procissão.

Uma das mais importantes comemorações do 12 de outubro em São João del-Rei aconteceu em 1954. Naquele ano ocorreu a coroação pontifícia da imagem de Nossa Senhora do Pilar e do Menino Jesus, com as joias de ouro garimpado na Serra do Lenheiro e doado por garimpeiros são-joanenses. Conduzida por Dom Helvécio, representando o Papa Pio XII, foi uma cerimônia grandiosa, seguida de procissão que, de tão especial, foi marcada por  seis discursos, proferidos por personalidades de grande destaque na sociedade local: Elpídio Antônio Ramalho, Carmélio Teixeira, Padre Flávio Carneiro Rodrigues, Mateus Salomé, Ataliba Nogueira e Oscar de Oliveira.

Treze anos depois, no mesmo dia, foi inaugurado no Alto do Bonfim, nas imediações da primeira capela de Nossa Senhora do Pilar - erigida por volta de 1703 e incendiada durante a Guerra dos Emboabas, em 1709 - um alto monumento à Padroeira de São João del-Rei.

Confira, no vídeo abaixo, a riqueza ritmica e sonora dos sinos da Matriz do Pilar, saudando a chegada da procissão da padroeira de São João del-Rei.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Doce mãe que viu nascer e desde sempre, protetora, adotou São João del-Rei

São João del-Rei vê, com alegria, raiar a véspera do dia de sua padroeira. Nossa Senhora do Pilar aqui chegou na alvorada dos anos setecentos, trazendo os primeiros bandeirantes que, por volta de 1703, fundaram um arraial  a ela dedicado: o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes.

Na cidade estendida ao longo da Serra e do Córrego do Lenheiro, Nossa Senhora do Pilar teve dois endereços, antes do atual. A imagem primitiva, ainda hoje existente, inicialmente era venerada em uma capelinha simples, no alto do Bonfim - incendiada em 1709, nos alvoroços da Guerra dos Emboabas.

Apagadas as chamas do fogo e da ira, permaneceram acesas  labaredas do fervor. Daí, não precisou muito tempo para que nova capela lhe fosse construída, um pouco mais abaixo, dizem que no local hoje conhecido como Morro da Forca. Como o núcleo urbano mudou de endereço, mais entre o Corrego do Lenheiro e o Morro das Mercês, Nossa Senhora do Pilar também mudou sua morada. Já em 1721 estava em uma Matriz em construção - obra que demorou quase cem anos e hoje é a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Dizem que, nela, existem materiais de construção e adornos aproveitados da capela construída e poucos anos depois demolida no Morro da Forca.

A imagem da padroeira, hoje no altar-mor, é obra do início do século passado e, tanto ela quanto o menino que está em seu colo, tem na cabeça coroa do ouro mais puro, colhido nas betas da Serra do Lenheiro e presenteado por garimpeiros são-joanenses.

A festa de Nossa Senhora do Pilar, ainda hoje realizada no dia 12 de outubro, no século XVIII era considerada oficial e, portanto, patrocinada pelo Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei. A programação musical, de cunho barroco, desde sempre esteve a cargo da bicentenária orquestra Lira Sanjoanense. Entretanto, é bastante popular o Hino a Nossa Senhora do Pilar, de autoria do compositor Felix Agüeras, sempre cantado com muito entusiasmo pelo vigário, não só na procissão da Padroeira mas também quando a procissão de Corpus Christi entra na Matriz do Pilar, antes do canto do Te Deum e da bênção do Santíssimo Sacramento.

Conheça, abaixo, a letra deste hino:

Virgem santa, virgem pia, luz formosa, claro dia
que à Terra São-joanense Te dignaste visitar.

Este povo, que a Ti agora, de teu amor favor implora
e Te aclama e Te bendiz abraçado ao teu pilar.

Pilar sagrado, farol esplendente, rico presente de Caridade,
pilar bendito, trono de glória: tu à vitória nos levarás!

Cantai, cantai, hinos de honra e de louvor,
cantai, cantai à Virgem do Pilar...

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Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/08/matriz-do-pilar-de-sao-joao-del-rei.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/09/big-ben-sao-joao-del-rei-tem.html





quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lembrança de setembro em São João del-Rei


Setembro.
O manacá, o jasmim, a dama da noite,
a flor de laranjeira, com seu perfume doce,
emolduram a noite amena, estrelada,
no Largo das Mercês.

Entre a novena na igreja singela
e os dobrados que a banda toca,
desejos humanos afloram
no pedreiro da Rua do Ouro,
na morena da Rua das Flores,
no alfaiate do Morro da Forca,
no sapateiro do beco da Matriz,
na tecelã da Fábrica Sanjoanense.

O homem que sofre do coração,
debruçado na janela do Hospital,
ainda agora aguarda o futuro,
que se esperava chegasse ontem,
de Curvelo,  de Congonhas do Campo,
de Baependi, de Bom Jesus da Lapa,
de Juazeiro e de Aparecida - ambos do Norte,
vindo no avião da barraquinha de rifas.

Assim, entre setembro e setembro,
toda existência se cumpre.

Vencendo tempo e espaço,
é no cheiro doce daquelas flores
que os sonhos se eternizam
e que os sentimentos se perpetuam.
Pela lembrança e renovação, viçosos,
brotam sempre com as primaveras.

Ouça, no link abaixo, o belo dobrado Doutor Bibi, do brilhante compositor Adhemar Campos Filho. Muito executado pelas bandas de São João del-Rei, foi recentemente gravado no CD Marchas Mineiras para banda.

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

São João del-Rei sempre teve muita Educação

A educação formal sempre foi uma atividade importante na vida de São João del Rei, desde os tempos da colônia. Tanto que há exatamente 180 anos, no dia 5 de outubro de 1831, a Câmara local realizou sessão solene para divulgar o resultado de um censo sobre "instrução" na Vila de São João del-Rei e seu Termo, constituído por arraiais e localidades.

Já naquela época, quando o analfabetismo da população brasileira era quase absoluto, existia no centro da Vila três aulas (escolas) públicas, das quais uma exclusivamente para as meninas (75 alunas). Das outras duas, uma oferecia 'ensino mútuo' (59 alunos) e outra ensinava Gramática Latina a 31 alunos.

Existiam também duas escolas particulares de primeiras letras, com 102 alunos, e um Colégio particular, dirigido por padres, que ensinavam Retórica, Música, Dança, Francês e Latim a 14 alunos.

Nos Termos da Vila, existiam 15 escolas de primeiras letras, sendo uma pública e 14 particulares, ao todo educando quase 250 "discípulos".

Assim, temos que, naquele ano, o censo escolar apontou a existência de 531 alunos matriculados nas escolas públicas e particulares da Vila de São João del-Rei e seus Termos.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei volume II - 2a edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1982.

Foto: Detalhe da fachada do Grupo Escolar Maria Teresa (foto do autor)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

São João del-Rei ama São Francisco de Assis, que ama as Chagas de Cristo e todas as Criaturas

São João del-Rei ama São Francisco fervorosamente, com o mesmo amor com que São Francisco amou as chagas de Cristo. Tanto que lhe construiu uma igreja mundialmente reconhecida como uma das mais belas expressões do barroco brasileiro e lhe celebra todo ano emocionantes cerimônias barrocas para relembrar duas passagens importantíssimas da vida do santo de Assis: a impostação das chagas de Cristo, quando as cinco chagas de Nosso Senhor abriram-se em feridas no corpo de São Francisco, e o momento em que deixou a terra rumo à eternidade.

A primeira, acontece sempre exatamente na metade do mês de setembro, no mesmo período em que, no mundo católico, se comemora o Dia da Exaltação da Santa Cruz. A segunda, se encerra hoje, 4 de outubro, com missa cantada, ofício fúnebre e procissão pelas principais ruas do centro histórico de São João del-Rei. Tudo para lembrar a vida e a morte de um dos santos mais conhecidos e venerados,  considerado um símbolo supra-religioso da generosidade divina e humana, bem como do amor à natureza e aos animais.

São Francisco é grato e sabe retribuir o amor de São João del-Rei. Inspirou os músicos locais a comporem  obras barrocas executadas nas cerimônias em sua homenagem.  Deu dom aos sineiros de suas torres para criarem repiques e dobres. Iluminou os arquitetos, artistas e artífices  responsáveis pela criação e construção de seu templo. Mais, ainda, deu imaginação para que se criasse a fantástica lenda do Senhor do Monte Alverne, estória popular que sugere a origem mágica e misteriosa da grande e realista imagem alada do Crucificado do qual, como cordões, saem as chagas em direção ao peito, mãos e pés de São Francisco. Esta composição cenográfica fica no ponto mais alto do altar-mor.

Veja e ouça, no vídeo abaixo, uma sofisticada sinfonia de repiques festivos dos sinos da torre da igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei.

domingo, 2 de outubro de 2011

Orgulho de São João del-Rei, a Lira Sanjoanense, 235 anos, é a orquestra mais antiga das Américas

No mundo inteiro, apenas três orquestras têm 235 anos de funcionamento ininterrupto. A Lira Sanjoanense, de São João del-Rei é uma delas. Cumpre anualmente uma programação que, quantitativamente, supera sua idade: são 272 apresentações anuais, em compromissos firmados com as irmandades de Nossa Senhora do Rosário, da Boa Morte, das Mercês, de São Miguel e Almas, de São Gonçalo Garcia e Santo Antônio. A orquestra mais antiga das Américas também participa de concertos e estende sua atuação para cidades vizinhas a São João del-Rei.

A Lira Sanjoanense foi fundada em 1776, por José Joaquim de Miranda, com o nome de Companhia de Música. No passado foi o ambiente musical onde se iniciaram, desenvolveram e aperfeiçoaram importantes compositores coloniais, como por exemplo José Lino de Oliveira e o Padre José Maria Xavier. Esta condição permaneceu no século XX e continua no século atual, sendo a Lira Sanjoanense tanto um reduto de novos compositores inspirados na música setecentista e oitocentista local quanto uma fonte inesgotável de pesquisa e estudo sobre música barroca brasileira. Seu acervo é valiosíssimo e considerado um dos mais importantes do país, tanto pelo volume de manuscritos e partituras autografadas, quanto pelo seu estado de conservação e organização.

Orgulho de São João del-Rei e patrimônio vivo da música, a Orquestra Lira Sanjoanense hoje é formada por oitenta músicos, dividindo-se entre instrumentistas e cantores.Todos atuando voluntariamente, sem nada receber pelo seu empenho, dedicação e desempenho. Só a satisfação de ser parte de uma história que começou há 235 anos e foi comemorada na tarde deste domingo, com um concerto no Teatro Municipal de São João del-Rei, do qual - além da homenageada -  participaram as orquestras Ribeiro Bastos, Ramalho e Lira Ceciliana. Todas corporações muito antigas e respeitadas pela atuação cotidiana em favor da música colonial produzida sobretudo na região de São João del-Rei, nos séculos XVIII e XIX.

O vídeo abaixo documenta parte da Missa da Assunção, cuja parte musical foi executada pela Orquestra Lira Sanjoanense.

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Foto: sede da Orquestra Lira Sanjoanense (casa nº 45), na Rua Santo Antônio (foto do autor).
Fonte: http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/53

sábado, 1 de outubro de 2011

São João del-Rei Congo. Outras territorialidades e outras temporalidades nas terras do Lenheiro


Corre, até o dia 4, a novena barroca e procissão de São Francisco de Assis. Encerram-se, no dia 2, as homenagens aos Anjos Custódios. Dia 12 tem a festa da padroeira, Nossa Senhora do Pilar. Apesar de tantas festas, outubro, em São João del-Rei é, principalmente, o mês do Rosário. Da santa que, nas cidades nascidas do brilho do ouro, é protetora do povo negro. 

Mês etnicamente negro em São João del-Rei, outubro tem musicalidade diferente, ancestral. Nos distritos e na própria cidade, ganham ruas, largos e igrejas os ternos de Congada, com seus chapéus e coroas enfeitados de flores de papel colorido, fitas e espelhos, seus longos rosários de contas de lágrima cruzados no peito e nas costas, seus estandartes azuis e vermelhos, seus bastões, espadas, capitães, reis e rainhas, chocalho nos pés, percussões - louvação a Deus em um canto gutural que sai, parece, do início dos tempos, do fundo da terra, de além-mar, África.

No bairro de São Dimas, de São Geraldo, no Bonfim, no Tejuco, no Senhor dos Montes, no Caburu, no Cajuru, em Arcângelo, no Rio das Mortes, caixas, reco-recos e tambores já estão tocando. Resgatam dos séculos passados reinos ancestrais e distantes, do Congo, e no mês de outubro os implantam em São João del-Rei, criando ao redor da Serra do Lenheiro, em pleno século XXI, outra temporalidade e outra territorialidade. Às vezes, até novembro é assim.

 
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Foto: Rua Santo Antônio, vendo-se ao fundo as torres da igreja do Rosário (foto do autor)