sábado, 29 de junho de 2013

300 anos - Retratos de São João del-Rei na poesia de J. Dangelo. Igreja de São Francisco

                    "Esta portada me fala  
                      dos pardos destas gerais.
                      Com que metro, em que escala,
                      com quantas dores e ais,
                      com quanto sangue de escaras
                      foram feitas estas lavras?

                     E quem as teria lavrado
                    sem força de mãos escravas?
                    Que prumo usou o pedreiro?
                    Que compasso e que esquadro?
                    Quem foi o mestre-santeiro?
                    Quem desenhou este adro?

                    Aqui, Lisboa e Cerqueira
                    sublimaram sua arte.
                    Um riscou, outro interviu,
                     cada qual fez sua partwe.
                    Quando dois gênios se encontram
                     Deus renasce no que fazem...

                    Ai! Estes templos barrocos!
                    Quanta alegria me trazem!
                    Me perco nestas volutas,
                    subo escada destas torres,
                    nas rasouras matutuinas,
                    me vergo sob os andores,

                    E logo me sinto verme
                    pronto a purgar minhas mágoas.
                    Lá do alto Montalverne
                    me transfere suas chagas.
                    Devo rezar?
                    Sem vontade.
                    Me arrepender?
                    Muito tarde...

                                                                Jota Dangelo
                      

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A congada, a pluralidade cultural e a transformação social na São João del-Rei de nossos dias



 São João del-Rei é plural em sua cultura. Protegidas pela Serra do Lenheiro e vigiadas pelas torres imponentes das igrejas setecentistas, manifestações culturais diversas convivem pacificamente, se complementam formando um universo único, fértil, fecundo e enriquecedor para todas as formas de expressão. Sejam elas eruditas ou populares. Sagradas ou profanas. Tradicionais ou contemporâneas. Nativas, de origem européia ou africana.

A realidade tem mostrado que, quanto mais a sociedade são-joanense evolui e amplia a visão que tem de si mesma e do mundo, mais valoriza a pluralidade, a multiplicidade e a diversidade cultural. E caminha rumo à universalidade.

Em relação à congada, é isto o que está acontecendo. Tão antiga na região quanto a própria história de São João del-Rei e de Minas Gerais, esta forma de manifestação e expressão negra é realizada em nossa terra desde os tempos do cativeiro. Naquele tempo colonial distante era coisa de escravos, depois passou a ser vista como celebração dos pobres, "atrasados", iletrados. Nesta perspectiva, não tinha mais prestígio para ocupar a área nobre da cidade e então, para sobreviver, teve que refugiar-se nos distritos e periferias de São João del-Rei.

Nas últimas décadas, a informação, a atualização, o desenvolvimento humanístico e o auto-reconhecimento cultural dos são-joanenses estão a reverter este quadro. A congada se fortalece, aumenta a participação jovem, passa a ser respeitada culturalmente como qualquer outra expressão cultural de nossa terra e isto traz ganhos diversos: culturais, sociais - enfim, plurais.

Quer ver como? Então clique no link abaixo assista a uma matéria do Globo Rural, veiculada na TV Globo no dia 27 de maio passado.

terça-feira, 25 de junho de 2013

300 anos - Retratos de São João del-Rei na poesia de J. Dangelo: Largo do Carmo




                            "Sob o olhar da baronesa
                              e luzes, então acesas,
                              desta Rua da Cachaça
                              vejo a igreja e a redondeza.
                              O alto portão de ferro
                              do Cemitério do Carmo:
                              me dispo de vaidades
                              e, no limite das grades,
                              vejo o chão de meu repouso.
                              Vejo o pó de onde venho.
                              Quero rezar, mas não ouso.
                              Quero chorar, me contenho."

                                                                                           Jota Dangelo   


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Cultura negra, congada e o rosário de tempo, de flores e lágrimas de São João del-Rei


A presença da cultura negra em São João del-Rei é tão forte que chega a ser imperceptível. Isto mesmo. Ela se confunde com a cultura de São João del-Rei, ou melhor, ela é a própria cultura de São João del-Rei. Sempre requintada e profunda, sagrada em suas várias vertentes, ela vai do erudito ao popular, do barroco ao espontâneo. Faz parte da vida, da alvorada ao anoitecer, da concepção à morte.

Entretanto, por ser ela tão vital quanto orgânica, o tempo todo cotidiana, São João del-Rei ainda precisa conhecer e reconhecer a presença da cultura negra na composição de seu mosaico de tradições e no caleidoscópio de suas expressões culturais.

Neste sentido, a Associação Cultural Casa do Tesouro - Egbê Ilê Omidewea Asè Igbolayo realizou, em maio passado o Encontro de Congadeiros das Vertentes e lança nesta segunda-feira, dia de São João, 24 de junho, o documentário Este rosário é meu. Com duração de 55 minutos, o filme é um registro antropolígico-afetivo do panorama da congada na região de São João del-Rei, na visão dos próprios congadeiros. São eles que, na obra dirigida por Antonio Gil Leal, falam sobre a resistência das manifestações negras e a astúcia desenvolvida ao longo dos séculos para possibilitar sua presença, fixação e perpetuação face a um ambiente de dominação branca. Viva São João! Kaô Xangô Kabiecile!

O lançamento será às  20 horas, no Centro Cultural Solar da Baronesa (foto). Para mais informações ou contato com a Casa do Tesouro, ligue (32) 3373-1619 ou 8809-6107


sábado, 22 de junho de 2013

Era assim São João del-Rei, há 190 anos atrás: "um dos lugares mais animados do Brasil"



1823. Diminuído o brilho do ouro, já esgotado à flor da terra e escasseado nas betas e galerias, a vila de São João del-Rei florescia como um entreposto comercial de produtos vindos da capital do Império, Rio de Janeiro, e da Europa.

Passara-se um ano do grito retumbante que "ouviram do Ipiranga as margens plácidas", libertando o Brasil de Portugal, quando observadores viajantes estrangeiros estiveram em São João del-Rei. O que viram na quarta vila instituída em Minas Gerais, em 1713, assim registraram:

. Saint-Hilaire - "Depois que o Brasil se tornou independente e os habitantes de São João del-Rei renunciaram, ao menos em parte, a mineração, esta vila tornou-se centro de considerável comércio, que tende a aumentar com o tempo."

. Spix e Martius - "Quanto aqui é animado o comércio logo se vê pelo fato de fazerem quatro tropas, cada uma de 50 cargueiros, contínuas viagens para lá e para cá da capital anualmente, levando toicinho, queijos, algum tecido de algodão, chapéus de feltro, gado bovino, mulas, galinhas, panos, rendas, utensílios de ferro, vinhos, cervejas, licores, etc. 

O estrangeiro vê-se com prazer em uma pequena cidade comercial. 

Ruas bem calçadas, belas igrejas guarnecidas com pinturas de artistas nacionais, lojas bem fornecidas de todos os artigos de luxo e do comércio europeu, muitas oficinas, etc. indicam a riqueza do lugar que, por suas transações com o sertão, é considerado entre os mais animados do Brasil."

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Fonte: SOBRINHO, Antonio Gaio. Sanjoanidades. Um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. Esdeva Empresa Gráfica Ltda. Juiz de Fora, 1996.

Ilustração: ARARIPE, Oscar. Rua Santo Antônio - gentil colaboração ao Almanaque Eletrônico Tencões e Terentenas.




sexta-feira, 21 de junho de 2013

300 anos - Retratos de São João del-Rei na poesia de J. Dangelo - Largo do Rosário

                      
                     "Rosário, tão branca e fria
                        é sentinela postada
                        que paciente vigia
                        a Rua de Santo Antônio.
                        
                        O padre José Maria,
                        de costas para a portada,
                        fica olhando bem de frente
                        para o solar dos Lustosa
                        que curou dores de dente
                        com a cera milagrosa.

                        Já não há quem alivie
                        as dores de minha sina:
                        acabaram com a farmácia
                        da velha dona Afonsina...

                         Tancredo, ali, da sacada
                         vê o seu próprio enterro.
                         Morrer, talvez tenha sido
                         o seu único erro...

                        Ninguém seguiu seu conselho,
                        muito menos seu exemplo.
                        Agora é só um fantasma
                        que aqui de baixo contemplo...

                        Quero entender, não me empenho,
                        quero explicar, me abstenho..."

                                                        Jota Dangelo


Festival Inverno Cultural 2013 - Milton Nascimento nos 300 anos de São João del-Rei

 
 

Uma palpitação, uma taquicardia, um sopro no coração de São João del-Rei. É assim que as águas correm sob as pontes seculares que se curvam de ponta a ponta sobre o Córrego do Lenheiro. É assim que sinos tocam, que maria fumaça e fábricas apitam, que foguetes espocam no céu de inverno, que bandas de música apressam o passo e o compasso de suas marchas.

Tudo isto tem motivo. No presente, deve-se à irmandade que São João del-Rei selou com outras cidades brasileiras, nas manifestações e protestos que, no somatório, pedem dignidade cidadã, decoro político, justiça social, respeito cívico, simbolizados nas reivindicações imediatas e cotidianas.

No futuro próximo, pela festa barroca de Nossa Senhora do Carmo e pelo Inverno Cultural, programações já incorporadas ao calendário pessoal e afetivo do povo são-joanense, na travessia de quase todo o mês de julho. E por falar em Travessia, em 2013 com a presença de Milton Nascimento.

Esperança, entusiasmo, expectativa, esforço, enfim, convicção, crença e fé. Isto é o que nestes tempos de clima frio e sangue quente faz bater alegre e forte o coração de São João del-Rei.



quinta-feira, 20 de junho de 2013

300 anos - Retratos de São João del-Rei na poesia de J. Dangelo - Rua Direita





               "As casas enfileiradas 
                 vigiam rua e pessoas,    
                  com olhos de guilhotina.
                 Entre uma esquina e outra esquina
                 alguns sobrados se alteiam.
                 No Pilar, ferem a retina
                 esguias torres erguidas:
                 o* Passos olha de quina
                 o* Sacramento empinado.
                 O adro me lembra a infância:
                 coroinha endiabrado...
                 Lá dentro a arte faz pouso
                 em rebuscado desenho.
                 Quero ter fé, mas não ouso.
                 Quero rezar me contenho."

                                                                          Jota Dangelo
                                                                                                                      * sino dos



quinta-feira, 13 de junho de 2013

São João del-Rei, em festa, saúda Santo Antônio


Há muito tempo Santo Antônio vive em São João del-Rei. Tanto que, dizem, a rua que responde pelo seu nome surgiu sobre o caminho pelo qual os bandeirantes entraram no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, atrás de ouro e muita riqueza.

A casa de Santo Antônio é pequenina, delicada e graciosa. Mais parece um oratório barroco do que uma capela. Entre jasmineiros e jaboticabeiras, o santo de Pádua que carrega o Menino Jesus sorridente, sentado em seu braço, é vizinho da centenária Banda Theodoro de Faria e das bicentenárias Orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos.

Especialmente hoje, os casarões e sobrados da Rua Santo Antônio estão enfeitados para saudar o santo padroeiro que por ali passeia todo dia 13 de junho, depois que o sol vai se deitar do outro lado da Serra do Lenheiro. Colchas rendadas, toalhas bordadas, cortinas de linha, vasos de plantas, jarros de flores - tudo nas janelas de uma rua sinuosa, estreita, poética e muito musical. A fachada de muitas casas, inclusive, é iluminada por luminárias e lampiões que, vistos de longe, se confundem com as grandes estrelas do céu de junho. Com elas também se confundem os multipontos coloridos e brilhantes que saltam dos fogos de artifício lançados ao alto de vários pontos do trajeto.

Caminhando no compasso da marcha solene e serelepe que a banda toca e balançando suas vestes no mesmo ritmo das flores que em cascata se movimentam no andor, Santo Antônio saúda, um a um, todos os seus vizinhos. Eles respondem em coro, gritando alto: Viva Santo Antônio! Viva!...

Depois, desce até o Largo do Rosário, sobe pela Rua do Tejuco e, cortando por um beco íngreme, volta novamente para sua rua. Ouve o toque do sino insistente que o chama para dentro, olha os foguetes que estouram no céu, antes de, de costas, adentrar sua capela.

E lá, no alto do altar, continuará esperando  a fé, os pedidos, as preces, as promessas, a piedade e as velas votivas do povo são-joanense, que o visita toda terça-feira. Na diminuta capela, fitando o santo com intimidade, os são-joanenses murmuram várias vezes, como um mantra, no segundo dia da semana, este milagroso Responsório:

          "Se milagres desejais / recorrei a Santo Antonio.
           Vereis fugir o demônio / e as tentações infernais.

           Recupera-se o perdido / rompe-se a invisível prisão.
           E no auge do furacão / cede o mar embravecido.

           Todos os males humanos / se moderam, se retiram.
           Digam-no aqueles que o viram / digam-no os paduanos.

           Pela sua intercessão / foge a peste, a fome e a morte.
           O fraco torna-se forte / e torna-se o enfermo são.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Beco do Capitão do Mato: atalho entre o Céu e o "Inferno" na São João del-Rei colonial


Desde seu planejamento urbanístico original, esboçado na segunda década do século XVIII, São João del-Rei aviva antagonismos urbanos próprios do espírito barroco, aqui muito fecundo. A própria geografia local, com seus montanheses altos e baixos, impôs um traçado urbano diversificado, com becos estreitos e ruas sinuosas que se convergem em largos claros, amplos, arejados e esplanados, povoados por chafarizes, pelourinho, lampiões, jardins e monumentos, coroados por templos que são tesouros de outros tempos.

Um bequinho muito conhecido, mas quase anônimo, é o que liga a face lateral da igreja do Carmo à Rua da Cachaça e da Alegria. Talvez, porque seu nome lembra a brutalidade e os terrores da escravidão. Beco do Capitão do Mato, diz o historiador Fábio Nelson Guimarães, em sua obra Ruas de São João del-Rei.

Menor em extensão, porém tão belo quanto o Beco do Cotovelo, Beco do Salto, Beco da Romeira e Beco da Matriz, a história injustamente não lhe deu a mesma nobreza nem o mesmo prestígio de seus outros irmãos. Na aurora do século XX, a Câmara mandou fechá-lo, ordem que foi reforçada por uma lei municipal assinada há 90 anos, em 1923.

Tudo, talvez, por moralismo, já que o Beco do Capitão do Mato é um atalho que outrora encurtava o caminho de quem quisesse chegar mais depressa e discretamente à rua então boêmia (foto, do autor), onde por vários séculos se comercializou cachaça, sexo e alegria...

Mas o beco resistiu e até hoje continua ligando o século XVIII ao século XXI e à eternidade...

Coerentes aos discursos e esforços para resgatar e revitalizar sítios históricos de São João del-Rei, que os órgãos ligados à memória, o poder público municipal, ONGs culturais e a sociedade são-joanense devolvam àquela via, informalmente chamada beco da escadinha, seu colonial nome de batismo popular: Beco do Capitão do Mato. E que suas escadinhas sirvam como arquibancada para espetáculos teatrais ao ar livre, nos entardeceres e anoiteceres amenos e seculares de São João del-Rei.
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Fonte: GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura - FAPEC São João del-Rei / Fundação Mariana Resende Costa. Contagem, 1994.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Irmandade das Almas tranca a rua e o cofre, toca o sino e sela a eternidade em São João del-Rei


Se o dia 1º de junho felicitou São João del-Rei com a criação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário mais antiga de Minas Gerais, também a segunda mais antiga de todo o Brasil, em 1708, quando a cidade ainda era o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, oito anos depois, o dia 2 de junho também deu sua contribuição para a riqueza religiosa e cultural de nossa terra. Naquela data, em 1716, portanto há 296 anos, Dom Francisco de São Jerônimo, bispo do Rio de Janeiro, instituiu canonicamente a Irmandade de São Miguel e Almas da recém-elevada Vila de São João del-Rei.

A Irmandade das Almas, como é popularmente conhecida, é das ordens religiosas mais populares da cidade. Sediada na Matriz do Pilar, em sacristia frontal à principal, ocupada pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, tem seu altar em posição de destaque, imediatamente à direita do altar-mor. Além disto, sua importância se evidencia na pintura do teto do vestíbulo que separa as duas sacristias: três almas do Purgatório, em oração, entre altas labaredas, aguardando que o "Príncipe das Milícias Celestes" venha em seu socorro.

A imagem de seu patrono, São Miguel Arcanjo, é considerada um dos mais expressivos exemplares da iconografia do santo anjo guerreiro na imaginária colonial de Minas Gerais. Sem o demônio aos seus pés, representa um ser gracioso, sereno, etéreo e atento na missão de pesar o homem e a mulher que ajelhados oram de mãos postas, cada um em um prato da balança.

A Irmandade das Almas tem na segunda-feira o seu dia votivo e, por isso, é ela que patrocina a missa noturna de todo primeiro dia da semana. Sua data maior é 29 de setembro, quando o santo sai em apressada procissão pelas ruas, largos e becos íngremes e estreitos do centro histórico de São João del-Rei. Sua cor é o verde.

Verde, aliás, também é a cor dos cofres de madeira, que antigamente se via na parede entre portas dos botequins, barbearias, armazéns, açougues, quitandas, bancas do mercado e outras "vendas", onde outrora se comprava de tudo: café, cachaça, carne, açúcar, sal, sal grosso, pão, linguiça, arroz de primeira, de segunda e de terceira, couve, ovos, inhame, taioba, abóbora, fubá, farinha de milho, farinha de mandioca, farinha de trigo, manteiga, guaraná, gordura, caneca esmaltada, corda, bacia, banha, barbante, bule, pinico, papel manilha, alfinete, agulha, arame, cera, sabão, chaleira, vela, linha, fumo de rolo, incenso em grãos, canjiquinha, milho de galinha, milho de canjica, sardinha em lata, apresuntado, anil, neocid, detefon, mel e tudo o que, naquele tempo, se precisava para viver.

Sobre o verde, logo abaixo do cadeado, tinha nos cofres esta inscrição: Esmola p S. Miguel e Almas.

Hoje, se algum destes cofres ainda existe, além dos templos da memória, é em algum estabelecimento que, fiel à alma de seus antigos donos, vem lutando contra o tempo,para dar algum sentido à expressão ora também pouco conhecida, mas sempre muito bonita e simbólica, "bacia das almas".

Um convite: se em uma segunda-feira, por volta das 18h15 você estiver nas imediações do Largo do Carmo, Largo da Cruz, Largo das Mercês, ou Largo do Rosário, apure os ouvidos para o que vem da torre da Matriz do Pilar. O sino que toca suave e compassado, chamando para a Missa das Almas, é um espetáculo sem igual.

Sobre o mesmo assunto, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/sao-joao-del-rei-na-balanca-de-sao.html

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ao longo de 60 anos, Conservatório de São João del-Rei "solta a voz nas estradas, já não pode parar"


Por mais vitalidade que tenham, não são muitas as instituições culturais brasileiras que conseguem entusiasmadamente apagar 60 velinhas com a intensidade e o vigor de um jovem atleta de 30 anos. Entre estas poucas, está o Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, de São João del-Rei, que em 2013 está comemorando o seu 60º aniversário de inauguração Isto mesmo, de inauguração, pois sua criação foi oficializada dois anos antes, quando Juscelino Kubistchek, então governador de Minas Gerais, assinou as leis nº  811 e 825, nos dias 13 e 14 de dezembro de 1951.

Inaugurado, o Conservatório não parou mais. Como nas músicas de Milton Nascimento, "soltou a voz nas estradas", certo de que "todo artista tem de ir aonde o povo está". Sempre dirigido por grandes nomes da música são-joanense, como Emilio Viegas, Silvio Padilha, Pedro de Souza, Abgar Campos Tirado, entre outros - atualmente é presidido pelo professor Anthony Claret Moura Neri - implantou diversos projetos de iniciação, educação, formação e aperfeiçoamento musical, inclusive voltados para pessoas portadoras de necessidades especiais.

Originalmente batizado Conservatório Mineiro de Música de São João del-Rei, em  1954  passou a homenagear, em seu nome, o consagrado compositor sacro são-joanense Padre José Maria Xavier. Do mesmo modo, ao longo das décadas seguintes, ampliou os horizontes de sua atuação. Se a missão que primeiramente lhe deram foi formar músicos que levassem adiante a tradição musical de São João del-Rei, coroada de ouro pelas orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, o Conservatório cumpre muito bem este papel e atua em um universo tão vasto que orgulhosamente declara ter função cultural, educacional de de lazer.

Presença certa na muito rica, intensa e diversificada programação cultural de São João del-Rei, sempre coloca nos palcos, nas igrejas, nos teatros, nas escolas e nas praças públicas, sua camerata, sua banda sinfônica, seus grupos de seresta, seus corais e apresentações de seus alunos, em duos, trios, quartetos, quintetos e todas as formações possíveis e imaginárias.

Neste mês de junho, por exemplo, toda a segunda quinzena terá programação cultural em nome do 60º aniversário. Afinal, como também canta Milton Nascimento, "todo dia é dia de viver!" Nos dias 14 e 15, sua comunidade realizará uma festa junina cultural, bastante diferente daquelas que se resumem a danças tradicionais e comidas típicas. Na do Conservatório, além destas manifestações de cultura popular, vai ter também Grupão de Violinos, mini-camerata, coral, choro, banda sinfônica e até uma big band.

Quando no sábado mal encerrar a festa, já no dia seguinte, domingo, 16, começa a Semana de Violões, que será aberta com uma apresentação de ninguém mais, ninguém menos do que o violonista Toninho Horta, certa vez considerado um dos cinco maiores violonistas do mundo. Mas além de violões, a semana terá também palestra sobre música arquetípica, relacionada à psicologia de Carl G. Jung, recitais de canto, roda de choro e até show de rock.

Para finalizar o mês, nos dias 25 e 26 o Conservatório realizará o projeto Cenas Curtas que, homenageando o escritor Luís Fernando Veríssimo, levará para ruas, praças e largos do centro histórico de São João del-Rei um cortejo músico-performático-teatral, apresentações e pequenas montagens teatrais, além de intervenções cênico-urbanas nas ruas mais movimentadas da cidade.

Ufa! Haja fôlego cultural... Viu porque eu disse que poucas são as instituições culturais que chegam aos 60 anos com o entusiasmo e o vigor de quem acabou de completar 30?

Pensemos na resposta ouvindo Toninho Horta!...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

São João del-Rei tem a mais antiga irmandade negra de Minas Gerais. E a segunda do Brasil...


305 anos, no dia 1º de junho de 1708, foi fundada, em São João del-Rei, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. É a primeira Irmandade do Rosário instituída em Minas Gerais e a segunda mais antiga do Brasil dedicada à Virgem que traz sentado em um dos braços Jesus Menino e na outra mão um longo rosário, composto por mais de 150 contas, cada uma correspondendo a uma Ave Maria a ser rezada durante a oração.

1719. Este registro na pedra da portada da igreja do Rosário de São João del-Rei informa o ano que a igreja começou a ser erguida e sua localização - á direita da Matriz do Pilar e ostensivamente em frente à igreja de Nossa Senhora do Carmo - não deixa dúvidas quanto à importância daquela irmandade na sociedade são-joanense na segunda década do século XVIII, época em que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes foi elevado à condição de vila, com o nome de São João del-Rei.

É um templo simples, porém leve e muito gracioso. Sua fachada, singela, ganhou torres no começo do século XX e seu interior, apesar de despojado, é a um só tempo elegante, alegree  acolhedor. No altar-mor, a imagem da virgem, em tamanho natural, é uma das mais belas esculturas sacras do Brasil colonial.

A Irmandade do Rosário, além da festa de sua padroeira, comemorada durante todo o mês de outubro, é responsável também pelas comemorações do Natal e da Epifania. As celebrações começam no dia 16 de dezembro, com a Novena do Menino Jesus, e se estendem até o dia 6 de janeiro, quando a imagem do Menino Deus, sentado em um trono de rei, sai em pequena procissão.

Entre novena e rasoura, na igreja do Rosário se executam os tencões de Natal, a barroca Missa do Galo e o canto do Te Deum Laudamos, A Orquestra Lira Sanjoanense - a mais antiga das Américas - cuida da parte musical, em grande parte de autoria do compositor são-joanense Padre José Maria Xavier.

É tudo tão bonito que vale a pena, desde já, você reservar, na sua agenda de dezembro,  pelo menos o dia do Natal e sua véspera para visitar a igreja do Rosário e ver de perto todas as cerimônias que ali acontecem.

domingo, 2 de junho de 2013

Cozinha mineira: São João del-Rei e as profecias gastronômicas de Autran Dourado


A melhor, mais autêntica, original, saborosa e nobre cozinha de São João del-Rei pouco sai às ruas. Se cultiva, se alimenta, se consome e se preserva no interior das casas simples - arroz com feijão, às vezes tutu, angu, almeirão, agrião, abobrinha batida, abóbora, abóbora d'água, broto de abóbora, berinjela, beldroega, batata, batata doce, batata baroa, bambá, cará, couve, chicória, chuchu, dobradinha, espinafre, frango com quiabo, frango a molho pardo, farinha torrada, gembê de mamão verde e de chuchu novinho, inhame, jiló, lombo, língua, linguiça, mandioca, mamão verde, moranga, mugango, mostarda, maneco com jaleco,  moela, mocotó, maneco sem jaleco, mexido, miúdos, mingau, ora-pro-nobis, pela-bico, pernil, pimentas várias, quiabo, salsinha, taioba, torresmo,tomate, umbigo de bananeira, urucum, vaca atolada. Da culinária são-joanense pode de extrair vários alfabetos.

Isto sem falar das carnes e dos doces. Arroz-doce, doce de abóbora em calda e em creme, doce de batata doce, cocada, doce de leite, doce de figo em calda e cristalizado, doce de cidra, de laranja, de mamão, de pau de mamão, de banana, de goiaba em calda, cremosa e goiabada cascão, doce de feijão - muitos deles saboreados com queijo, após as refeições, antes do licor e do café.

A verdadeira cozinha de São João del-Rei é doméstica e intima. Se perpetua pela observação e pela intuição. Pouco cruza a porta da rua, mas se adentra pelas hortas e quintais, em busca do que de mais peculiar oferece a terra. Sejam alimentos subterrâneos, alastrados na superfície, suspensos em caules e arbustos ou espalhados feito cipós pelos galhos e cercas.

Quando sai porta afora a cozinha são-joanense não vai a locais refinados, sofisticados. Prefere restaurantes acanhados e botequins despretensiosos, onde pode mostrar, sem acanhamento nem vergonha seu acre sabor e seus singelos ingredientes. Quem a prepara, prepara como se fosse para si próprio. E às vezes o é, só que, mais por generosidade do que por necessidade, partilha com quem a deseja.

Falando sobre este assunto, em um de seus livros aqui não identificado, Autran Dourado tristemente profetizou:

"... Minas vai acabar, eu sei. Minas de antigamente, a nossa, a eterna, com a qual nos defrontaremos no juízo final, quando tivermos de prestar contas e nos perguntarem o que fizemos daquela sopa tão boa chamada Maneco com Jaleco.

Por mais que a gente queira fazê-la de novo viver, há sempre os olhos dos drugstores espreitando, ameaçando com seus hambúrgueres, catchups e outros assassinos.

Tempos bons dos doces e quitandas, das deliciosas comidinhas mineiras. Nada de serviço à francesa, os pratos todos à mesa, fumegantes e cheirosos. O mundo não havia começado ainda a se americanalhar, ninguém comia comida de sal com doces e frutas em conserva.

A continuar como está, cortando a Serra do Curral e só pensando em siderurgia, os mineiros de hoje vão acabar lambendo lingotes de ferro..."



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SERVIÇO - Para saber mais e aprofundar-se sobre cozinha mineira: memória, identidade e territorialidade, acesse e leia:

http://bdm.bce.unb.br/bitstream/10483/994/1/2009_AntonioEmilioCosta.pdf