domingo, 24 de agosto de 2014

Ninguém duvida: em São João del-Rei os sinos falam! Quer entender o que eles dizem?



A intimidade de São João del-Rei com os sinos não é de hoje. Logo nos primeiros anos de surgimento do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, o sino já andava falando entre os forasteiros que vieram a ser os primeiros são-joanenses. Bem, como ainda nenhuma igreja havia sido construída neste vale da Serra do Lenheiro, na verdade quem falava era uma sineta, hoje parte do acervo do Museu de Arte Sacra.

Desde então, no peito dos são-joanenses bate um sino. Ao longo de três séculos desenvolveu-se uma linguagem sineira rica, complexa, bela e sofisticada, eficaz para transmitir informações em uma época em que não havia, no início do Ciclo do Ouro, nos arraiais em nascimento, nenhuma alternativa para a comunicação de massa. Assim, eram os sinos que cumpriam este papel. Informavam horas, datas e eventos religiosos, bem como as circunstâncias mais diversas, como dificuldade no parto, agonia, morte e sepultamentos.

De lá para cá, muita água passou sob as pontes do Rosário e da Cadeia, numa correnteza de 300 anos.O mundo deu muitas voltas, modernizou-se, desenvolveu novas formas e novos meios de comunicação, na linguagem de cada tempo e de acordo com as necessidades então atuais. Assim, é natural que, aos poucos, os são-joanenses vão conhecendo cada vez menos os códigos sineiros e os mais jovens - verdade seja dita - nada entendam do que os sinos dizem.

Se este é seu caso, e se você deseja aumentar e enriquecer seu conhecimento sobre esta particularidade da cultura de São João del-Rei, veja este bloco do documentário Sinos e silêncios, produzido e veiculado pela TV Aparecida (vídeo abaixo). Nele, o maestro Aluízio Viegas, uma das maiores autoridades brasileiras quando o assunto são as tradições barrocas de nossa terra, fala sobre vários toques, descrevendo-os e explicando em que situações eles são executados. Assista e beba conhecimento nesta preciosa fonte de cultura...


sábado, 23 de agosto de 2014

Mágicos talismãs sonoros de São João del-Rei, a mais barroca cidade de Minas



Engana-se quem pensa que a única finalidade dos sinos de São João del-Rei, além de compor as torres das belas igrejas barrocas, é informar e anunciar, em linguagem setecentista, as horas, missas, novenas, quinquenas, trezenas, tríduos, ofícios, procissões, partos difíceis, agonias, mortes e sepultamentos.

Ao darem vida e enriquecerem a tão singular sonoridade são-joanense, eles desempenham outra função, pouco conhecida na própria cidade. São talismãs sonoros que, ao dobrarem e repicarem, lançam céu afora, em forma de notas musicais, proteção contra tormentas e desejo de ventura, até os limites onde seu som, mesmo morrendo, alcança.

Esta missão lhes é confiada no momento em que, antes de serem elevados pela primeira vez à torre, recebem a bênção do batismo e também o nome. A oração, rezada para o sino São João da Cruz, que este ano subiu para uma torre da igreja do Carmo, diz o seguinte:

          "Que dos lugares onde ressoar este sino
            se afaste para longe 
            a virtude das ciladas dos inimigos,
            a sombra dos fantasmas,
            a violência dos turbilhões,
            os golpes dos raios,
            os estragos das trovoadas,
            os desastres das tempestades
            e todos os espíritos das procelas."

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Reproduzida de mural exposto na sacristia da igreja do Carmo de São João del-Rei, em 01/08/2014.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A sabedoria dos sinos e dos sineiros de São João del-Rei Salomão

Bons ventos sopram sobre São João del-Rei. Por mais que o amor são-joanense chore pelos pedaços da paisagem que se perdeu, clame com bravura pelo que corre risco e vigie, com apaixonado olhar, o tanto de memória que nosso tempo herdou dos séculos passados - e até exatamente como efeito destas três coisas - a cidade vê, a cada instante, seu passado reluzir.

Não o passado que passou, levado pelo tempo, e que agora é só lembrança. Quem reluz é o passado que eternizado ficou e brota a cada geração na alma do povo deste lugar. Se nossa paisagem urbana mostra antigas e recentes cicatrizes inapagáveis que exibem  insensibilidades e ignorâncias, nossas tradições a cada dia se tornam mais fortes, mais ricas, mais singulares e envolventes. Basta assistir a uma das muitas procissões que acontecem o ano inteiro no centro histórico para dissipar qualquer dúvida sobre esta verdade.

Muito ainda há por fazer e por certo muito ainda sempre haverá. Afinal, todos sabemos, o fazer cultural é um movimento que nunca se completa. Verdadeira sina, é um ofício e uma luta que não tem fim. Só acaba quando a cultura, cristalizada, não tiver mais vida nem significado. Daí a paixão que sempre envolve e impulsiona esta causa muitas vezes ferir e maltratar o próprio objeto de amor. Paixão cega desagrega, "descongrega", esquarteja esforços. Tão nefasta é, faz lembrar a falsa mãe que em tempos bíblicos, na disputa de uma criança diante do Rei Salomão, não hesitou em aceitar que a inocente, viva, fosse cortada ao meio, para que ela recebesse a metade.

Enquanto se faz, desfaz ou não se faz, a cultura verdadeira faz-se por si mesma. Senhora de si, segue sábia, livre, autônoma e desimpedida, o seu caminho, resplandecendo majestade. Os sineiros são-joanenses, do alto das torres, dobrando e repicando seus sinos, que o digam...

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Veja, no link abaixo, o documentário Homens da torre, produzido e veiculado pelo Canal Futura. Nele, os sineiros falam, com sentimento e paixão, do ofício a que pertencem, ou com encantamento e saudade, do ofício a que pertenceram.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Na Festa da Boa Morte, espelho do céu, São João del-Rei é a mais barroca cidade de Minas

Hoje, São João del-Rei parece o Céu em dia de festa. O amanhecer foi saudado com uma ruidosa alvorada festiva. Na metade da manhã, uma grandiosa e longa missa barroca revive solenes rituais de antigamente, plenos de música colonial e de narrativas fantásticas e apocalípticas, como a do dragão que derrubou as estrelas do céu.

Quando o sol, sonolento, estiver caindo atrás da Serra do Lenheiro, uma procissão setecentista mostrará aos olhos brilhantes dos são-joanenses o caminho entre nuvens e estrelas que Nossa Senhora da Assunção, resplandecente e com o pé direito pousado sobre uma lua crescente de prata, fez até os Céus. Lá, transmutou-se em Nossa Senhora da Glória, ao ser coroada pelas três pessoas da Santíssima Trindade. Em São João del-Rei, este caminho passa por estreitas ruas coloniais, por praças, largos e becos, onde as nuvens são de incenso e de algodão doce e as estrelas são de flores e de fogos de artifício.

Tudo ao som dos sinos da Matriz do Pilar e da Orquestra Lira Sanjoanense, entoando antífonas, hinos, salmos, responsórios, credos e motetos, compostos ao longo de três séculos por notáveis músicos locais. Assim encerra-se hoje a Semana Santa dos Mulatos, para recomeçar no dia 5 de agosto do ano que vem.

Lembrando os anjinhos, inocente presença divina nas procissões de São João del-Rei, a foto ao alto nos leva à metade da década de 1940. Nos leva ao começo da Serra do Lenheiro, mais precisamente à Rua do Ouro, onde a menina "Muquinca", de túnica, asas transparentes e diadema de estrelas, no quintal de sua casa, aguarda a mãe que com ela descerá o morro e a levará pela mão até a igreja de onde sairá o cortejo celestial.

Registro da festa em louvor à dormição, trânsito, assunção e exaltação de Nossa Senhora da Glória, o documentário abaixo mostra porque São João del-Rei é a mais barroca cidade de Minas.


Sobre a Festa da Boa Morte, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/08/festa-da-boa-morte-em-sao-joao-del-rei_15.html

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Medos, segredos e mistérios do agosto na velha São João del-Rei


Antigamente, agosto era o mês mais temido pelo povo de São João del-Rei. Com seu céu pesado e opaco, com seu tempo brusco e suas ventanias, o oitavo mês do ano inspirava, aos são-joanenses do começo do século XX, quase tanto medo quanto a Quaresma.

Isto porque acreditavam que nos 40 dias de jejum e sofrimento de Jesus, o Coisa-ruim, com permissão divina, estava solto na terra para tentar também os homens. E com suas ciladas, embustes, armadilhas, pactos e ilusões, desviá-los do bom caminho para por a perder suas almas...

E pensavam que em agosto o perigo vinha do desconhecido e do acaso, das forças misteriosas e ocultas que regem a essência da natureza, gerando ameaças e provocando desastres de toda ordem. Nas águas dos rios e das lagoas, nos caminhos e nas estradas, nos abismos e precipícios, com fogo, objetos cortantes, animais peçonhentos e até mesmo com cachorros zangados. Loucura, envenenamentos, enforcamentos, afogamentos, suicídios e assassinatos também faziam parte deste rosário de preocupações.

Dia 24 de agosto, por exemplo, dia de São Bartolomeu, então, era o máximo do terror. Como tudo de ruim e nefasto podia nele acontecer, havia quem até evitasse sair de casa, deslocar-se além do necessário e redobrasse o cuidado ao lidar com objetos que pudessem ser perigosos.

Contra tudo isto, acreditavam no poder de benzeduras e orações fortes, que além de rezadas diariamente em horários e lugares próprios, em silêncio e solidão, eram também dobradas e transformadas em patuás e amuletos que, como proteção, carregavam junto ao corpo, muitas vezes pendurados no pescoço.

Todas estas crenças tornavam mais rico e fascinante o universo imaginário das pessoas mais crédulas e simples. Fincavam marcos que ingenuamente pontuavam seus calendários anuais e davam mais cor e sabor às suas existências.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Começou a Semana Santa dos Mulatos em São João del-Rei.

 Mais uma vez, desde o dia 5 de agosto - e até o dia 15 - São João del-Rei está revivendo, como faz desde a segunda metade do século XVIII, uma de suas mais importantes celebrações religiosas. A festa da Boa Morte que, composta por uma novena e duas procissões, dura onze dias.

É uma das festividades mais ricas e grandiosas da cidade, tanto que em determinada época ficou conhecida como a "Semana Santa dos Mulatos", por serem predominantemente mulatos os membros da Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte. Pelo próprio espírito do que comemora - o sono profundo, a assunção aos Céus, e a coroação de Nossa Senhora pelas três pessoas da Santíssima Trindade -, a parte musical é delicada, leve e gloriosa e reúne obras barrocas de vários compositores locais. Inclusive de compositores do século XX e de nosso tempo.

Confira, neste vídeo, o requinte e a complexidade do toque A Senhora Morta, considerado o mais belo e sofisticado de São João del-Rei. É executado da noite do dia 13 até a manhã do dia 15 de agosto, no sino da Boa Morte, na lateral externa da torre direita da Matriz do Pilar.Esta  gravação e edição foram feitas por Helvécio Benigno.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Pode a tradição renovar-se a cada instante e continuar genuína? Em São João del-Rei, pode!...


Quem é de São João del-Rei ou conhece, atenciosamente e com interesse, nossa terra, por mais contemporâneo e digital que seja, sabe bem o que é tradição. Afinal, o povo são-joanense conserva e mantém, desde 1704, práticas culturais que aqui surgiram logo que foi criado o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar e se solidificaram a partir da instituição da Vila de São João del-Rei, em 1713.

De lá para cá, passaram-se mais de 300 anos. Aumentaram-se as manifestações, multiplicaram-se os saberes, sofisticaram-se as "festas", intensificaram-se as comemorações, ao mesmo tempo em que se consolidou a identidade são-joanense como uma cultura viva, fundamentada no passado, mas vivificada e vivenciada cotidianamente com grande atualidade. Certamente é por isto que São João del-Rei tanto se destaca em todo o país, quando o assunto é patrimônio imaterial.

Mas como isto acontece? É simples: por mais contraditório que possa parecer, na 'terra onde os sinos falam'  a tradição se mantém por meio da constante atualização e pelo eterno rejuvenescimento. É assim que ela continua viva e genuína, sem nunca perder sua verdadeira função e finalidade sociocultural. Sem nunca ser folclorizada ou transformar-se em espetáculo.

A manutenção das tradições de São João del-Rei não se deve a determinações legais ou imposições de qualquer natureza. É uma postura voluntária e cidadã da própria comunidade. Os ritos, as "festas", as celebrações barrocas e também as populares, enfim todo este patrimônio cultural é zelado como um bem de família, uma responsabilidade transmitida de pais para filhos, de geração para geração. Em muitos casos, por muitas décadas, algumas modalidades culturais foram literalmente conservadas por famílias, o que garantiu sua preservação, nas épocas em que estiveram expostas ao descaso e aos anseios da inconsequente modernização. Infelizmente isto não aconteceu na mesma intensidade - e até hoje nem sempre acontece - em relação ao patrimônio arquitetônico, volta e meia ameaçado com alguma descaracterização e, até mesmo, demolição.

Um bom exemplo deste rejuvenescimento cultural é o projeto Juventude ORB, na verdade uma filosofia e ação da Orquestra Ribeiro Bastos para estimular o interesse dos jovens pela música e incentivá-los a fazerem parte daquele grupo musical fundado no século XVIII. Seu lançamento será no próximo domingo, dia 10, às 19 horas, na sede da Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei, que fica em uma esquina, em frente ao jardim do Largo do Carmo, no sentido de quem vai subir para o Senhor dos Montes.

No concerto-recital, uma homenagem ao Dia dos Pais, os jovens músicos executarão um repertórico variado, do qual as músicas sacras e eruditas serão apenas uma parte. Para se ter ideia da riqueza do espetáculo, quando forem abertas as cortinas se revezarão no palco um grupo de câmara de cordas, a Camerata ORB, e um grupo de sopros, a Big Band ORB.

Palmas para a Orquestra Ribeiro Bastos. Palmas para a cultura sempre viva, atual e renovada de São João del-Rei!

Sobre a Orquestra Ribeiro Bastos, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/03/orquestra-ribeiro-bastos-de-sao-joao.html



domingo, 3 de agosto de 2014

Helvécio Benigno da Silva: uma câmera na mão e muito amor por São João del-Rei e suas tradições

Em São João del-Rei, quem passa pela colonial Rua Santo Antônio vai sempre ser encantado pela magia daquele local. Construída na rota exata que em 1704 era o caminho dos bandeirantes, ela é a via mais poética e mais musical da cidade. Nela, além de Santo Antônio em sua capela, de artistas sacros, compositores, maestros, músicos, de uma banda musical centenária e das duas orquestras barrocas mais antigas das Américas, mora também, na casa número 62, um são-joanense de 57 anos, quase 20 dos quais dedicados exclusivamente a registrar, em vídeos, as tradições religiosas desta terra onde os sinos falam.

E por falar em sinos, aqui estamos falando de Helvécio Benigno da Silva que, inclusive, foi sineiro na igreja de São Francisco de Assis. O amor e a intimidade de Helvécio com as festas religiosas de São João del-Rei vem de longa data. Filho de carpinteiro, aprendeu o ofício com o pai, mas logo com o primeiro salário comprou uma câmera fotográfica Minolta, já que o sonho de ter uma filmadora ainda estava longe de ser realizado. Mas enquanto este dia não chegava, Helvécio - despretensiosamente mas com grande interesse - tirava fotos em sequência, na tentativa aproximar-se do que, mesmo à visão estática, desse a ideia de movimento. Era 1997.

Alguns anos depois, filmadora em punho, lentes e foco exatos, Helvécio começou a gravar, com visão etnográfica, vídeos das procissões, ofícios, novenas e toda a profusão das liturgias e paraliturgias barrocas de São João del-Rei. Entre uma "festa" e outra, ele começou a produzir uma obra, que julga imprescindível. Um documentário exclusivamente sobre os sinos de São João del-Rei: seus nomes, histórias, toques tradicionais e contexto em que eles acontecem - tudo em uma linguagem simples, informativa e didático-explicativa, fácil de ser entendida tanto pelos leigos quanto pelos turistas que visitam a cidade e se encantam não só com o que veem, mas também com o que ouvem.

Mas por um golpe de má-sorte, em 1999 a câmera foi furtada e, com ela, foram-se para o nunca mais todas as gravações e registros. Ficou novo sonho, que será realizado em breve, de realizar este trabalho, desta vez até a  fase final de conclusão, divulgação e ampla distribuição.

Helvécio possui documentadas, ano a ano, as festas celebrativas de quase todas as irmandades de São João del-Rei e é possível, até, que seja quem produziu maior acervo cronologicamente sequencial sobre este tema. Entretanto, este material não foi catalogado por nenhuma instituição religiosa ou cultural são-joanense, nem possui cópia disponível para conhecimento ou consulta em nenhum espaço de memória e saber de nossa terra.

Do mesmo modo, poucos são os lugares em que se pode adquirir um ou outro trabalho de Helvécio; às vezes no balcão da Casa Paroquial da Matriz do Pilar. O mais certo mesmo é pelo telefone (32) 3371-  ou diretamente na Rua Santo Antônio, 62, logo na primeira curva após a igreja do Rosário, ao lado da sede da Orquestra Ribeiro Bastos. É só tocar a campainha do portão que ele mesmo vem, com sua discreta e mineira cordialidade, atender com satisfação...

Veja, abaixo, em vídeo, o sofisticado repique Tonstolin, gravado por Helvécio Benigno e disponível no Youtube: