sexta-feira, 27 de março de 2015

Procissão das Lágrimas. Tradição ímpar da Quaresma em São João del-Rei

Às nove da noite de ontem, o sino dos Passos fez dobres incomuns para uma quinta feira. Incomuns não fosse para informar à população são-joanense que naquele momento estava se encerrando a celebração do último dia do Setenário das Dores. E também para lembrar que o dia seguinte (sexta sexta-feira da Quaresma), em São João del-Rei é Sexta Feira das Lágrimas, ou da Soledade. E que haverá procissão, de Nossa Senhora das Dores, realizada pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos.

Mal o sino tocou o último dobre e na Matriz do Pilar - fechadas todas as portas - já se iniciaram providências e preparativos para a procissão desta noite. A imagem foi retirada do altar e arrumada no andor, conferindo-se com desmedido zelo o vestido roxo, a capa cor da noite, as joias, espadas e o diadema de estrelas. Em seguida, a colocada a arnica que, colhida na Serra do Lenheiro, será muito disputada ao final da procissão, tanto devido à força devocional da fé curativa quando ao poder de suas propriedades terapêutico-medicinais.  

Depois, foi montado o setecentista pálio vermelho, no qual reluzem, bordados a fio de ouro, um céu estrelado, suplícios e estigmas da Paixão do Senhor do Passos. E, por fim, revisadas as lanternas e tochas, verificando se as velas estavam no tamanho exato para durar as luminosas horas de todo o trajeto. Seguiu-se a isto o desfolhar de rosmaninho no chão da Matriz do Pilar, espalhando pela nave perfume tão próprio da Quaresma de São João del-Rei. 

Tudo pronto, logo no começo desta manhã as portas da Matriz se abriram, para os são-joanenses, durante todo o dia, fazerem visitas, orações e reverências a Nossa Senhora das Dores. Desde cedo e por várias vezes hoje o sino dos Passos dobra compassos lentos, longos, demorados e pungentes. Repetindo linguagem antiga, lança pelos ares avisos sonoros de que à noite haverá procissão, motetos, lembranças, saudades, lágrimas e bênção com a relíquia do Santo Lenho.

Logo depois que o sol se por, novamente o espírito de São João del-Rei, religiosamente, se perturbará, em silêncio, para dentro da própria alma. Será a noite da Soledade de Nossa Senhora, marcada pela Procissão das Lágrimas, nome hoje em desuso, mas muito adequado para o que se rememora: a volta da mãe de Jesus do local de sepultamento de Cristo para casa, relembrando todo o sofrimento do filho e vivendo, resignada e na plenitude, a própria dor.

O andor de Nossa Senhora das Dores que percorrerá as ruas do centro histórico de São João del-Rei é absolutamente austero, quase árido, desprovido de qualquer enfeite ou adereço. Sua sanefa é de saudade e suas palmas são de suspiro, ausência e desolação.

Nesta procissão Nossa Senhora vai envolta apenas em solidão e dor, parando contemplativa nas cinco capelas-passo da Paixão. Em cada uma, a Orquestra Ribeiro Bastos cantará  motetos longínquos, vários deles inspirados nas lamentações do profeta Jeremias. O mistério é tamanho que, quem se compenetrar, terá a impressão que o canto não quer transpassar o silêncio nem se espalhar pela noite. 

Muito envolvimento, respeito e fé. As celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Setenário das Dores e a Semana Santa de São João del-Rei ainda se fundamentam emoção e sentimento.

Antes de recolher-se por mais um ano na catedral basílica de Nossa Senhora do Pilar, Senhora das Dores para diante do grande oratório da Piedade e, como a mirar-se a si própria em espelho imaginário, contempla a outra imagem, que está no alto do altar, ao pé da cruz, com Cristo morto em seu colo. Esta, portuguesa, veio para São João del-Rei no século XVIII.


Até alguns anos atrás, somente na Sexta Feira das Lágrimas o Passinho da Piedade era aberto. Agora, ele fica aberto para contemplação de fiéis e turistas também na Quinta Feira Santa e na Sexta Feira da Paixão. Mas não é a mesma coisa, pois nestes dois dias o oratório é, como certamente diria Carlos Drummond de Andrade, um belo e grande retrato na parede da paisagem do Largo do Rosário. Não tem a função de espaço sagrado que tão fortemente desempenha na Procissão da Soledade...


terça-feira, 10 de março de 2015

Territórios de memória, lembrança, fé, sofrimento e divindade no coração de São João del-Rei


Andando a pé pelo centro histórico de São João del-Rei, e adjacências,  é impossível não percebê-los. Eles estão sempre ao alto, no centro, em posição de destaque. São os antigos Cruzeiros da Penitência, plantados na paisagem colonial são-joanense nos séculos XVIII e XIX.

Os mais antigos, imponentes, iconograficamente ricos e completos, têm todos os estigmas da Paixão: coroa de espinhos, cálice de amargura, cravos, chicote, túnica, corda, lança, lençol, dados, escada e até o galo que condenou São Pedro pela negação do Salvador.

Estão no lado direito da igreja das Mercês, no Morro da Forca, no Largo da igreja do Senhor dos Montes, na pedreira do Pau D'Angá e no alto da Rua do Ouro, territórios da Serra do Lenheiro. Cinco. Um para cada chaga de Cristo.

O do Largo da Cruz, na fachada de uma casa residencial, é singular em todo o país. Fica no ponto exato entre o público e o privado, entre a casa e a rua.

Na lateral direita da Matriz do Pilar tem uma cruz em relevo, encimando uma peanha de pedra, assim como na esquina da entrada da Rua Padre Faustino, uma cruz incrustada em uma pedra pede calma e orações a quem passa. Os moradores do local a conservam sempre enfeitada de flores, menos na Quaresma, que é tempo de sacrifício e penitência.

O tempo que passa tem trazido para São João del-Rei novas cruzes e novos cruzeiros e os melhores exemplos são o de cimento, há alguns anos edificado na gruta que fica à direita do Corrego do Lenheiro, na altura da Praça Raul Soares, e uma grande cruz de ferro, que agora habita o jardim lateral externo da Casa Episcopal.

Todos marcam territórios da fé, da memória, do sofrimento e da divindade, nos quatro cantos, aurículas e ventrículos do coração de São João del-Rei.





Foto: São João del-Rei Transparente (http://saojoaodelreitransparente.com.br/works/view/249)

sábado, 7 de março de 2015

Anjos del-Rei - O espelho do céu nas procissões de São João del-Rei


Ser anjinho nas procissões de São João del-Rei é um momento especial e mágico na vida das crianças. A túnica, a coroa de flores, as asas, caminharem legião entre as alas das irmandades, à frente dos andores incensados, ao som da banda, da orquestra e dos sinos. Tudo isto cria uma emoção
que é lembrada para sempre como um momento feliz, por toda a vida.

Além disto, vestir-se de anjinho faz parte de um processo evangelizador, que aproxima a criança da Igreja e da religiosidade, por meio da beleza, da pureza e da inocência, que são estrelas brilhantes na alma infantil.

Sair de anjinho nas procissões é um presente valioso que pais, padrinhos e avós podem oferecer às crianças, como momentos de sublime recordação; a  São João del-Rei, com o embelezamento das tradicionais procissões, e a Deus, pela louvação de Seu Reino, que é feito de amor e paz.

...................................................

O projeto Anjos del-Rei prevê a formação de um banco de imagens com fotografias antigas e recentes de anjinhos das procissões de São João del-Rei, para futura montagem de exposição. Participe e apoie, enviando fotos antigas  e atuais para os seguintes e-mails:

Atitude Cultural / SJDR Transparente – alzirah@gmail.com
Tencões e terentenas / Vertentes & Conexões Culturais de SJDR - emiliosjdelrei@gmail.com
....................................................................
As roupas de anjo, coroas e asas podem ser doadas através do professor Anthony, do Conservatório de Música Padre José Maria Xavier (32-33718781), e de Kátia, do Museu de Arte Sacra (32-33717005), lembrando que as procissões da Festa de Passos começam no próximo dia 13 e a Procissão do Encontro será no domingo, dia 15.

.....................................................................................

Esta campanha é uma realização da Associação dos Amigos de São João del-Rei e do Museu de Arte Sacra, com o apoio da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, da ONG Atitude Cultural, do Almanaque Eletrônico Tencões e terentenas, da Vertentes & Conexões Culturais de SJDR, do Grupo de Jovens da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e do SESI/DN.

Foto gentilmente cedida por Ulisses Passarelli

sexta-feira, 6 de março de 2015

Em São João del-Rei, roxo não é uma cor. É um sentimento!

Nesta época do ano, cada dia mais São João del-Rei se veste de roxo. Nos quintais, as orquídeas na sombra apontam flor. Nos jardins e nos campos, quaresmeiras com singeleza explodem a cor. Nas igrejas, altares cobertos de roxo atenuam a dor.

Nesta época do ano, roxo em São João del-Rei não é uma cor; é um sentimento presente em tudo. E isto faz com que o coração dos são-joaneses, a cada dia que se aproxima da Sexta Feira das Dores, do Sábado dos Passos e do Domingo do Encontro fiquem mais suspensos em um tipo de expectativa que aperta o peito, chega a tirar o fôlego. Os sinos que dobram giram penachos de papel crepom, desprendendo fitas roxas que voam pelos ares e se espalham pelos telhados, pelas árvores, pelos jardins, pelas pedras do chão, espalhadas pelo som e pelo vento. Roxo no céu, na terra, no ar. Roxo em toda parte.

O alívio só vai voltando à alma lentamente, o coração só acalma seus batimentos aos poucos, quando o Senhor dos Passos, com cruz e buquê de orquídeas roxas, sai vespertino e crepuscular da igreja de São Francisco. Calmo, triste e pensativo, para no passinho da Rua da Prata, atravessa a ponte de arcos e pedra, para novamente no passinho do Largo do Rosário, e sobe o beco da Matriz para se encontrar, no Largo das Mercês, com sua Mãe das Dores.

Tudo de frente e em frente ao pelourinho de pedra, onde antigamente eram castigados publicamente os negros escravos e os condenados pela sociedade colonial. Tudo ao som de motetos barrocos, coloniais, que a Orquestra tira de partituras antigas, para deixar mais denso e sublime o ambiente.

Sequentes, mãe e filho seguem pela Rua da Graça, ele na frente e ela atrás. Dobram a esquina, descem para o passinho do Largo da Cruz, passam por uma rua sinuosa até o passinho da Rua Direita e de lá sobem a escadaria da Matriz do Pilar. Lá do alto se miram resignados, complascentes olham o povo apinhado escada abaixo, do lado de fora do gradil. Depois entram no templo e de lá para a sacristia, de onde o Cristo condenado, de cruz às costas, só vai sair na quaresma do ano que vem.

Quando tudo estiver roxo outra vez...


Celebração dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário
São João del-Rei, de 13 a 15 de março de 2015 - Matriz do Pilar

Foto e vídeo - Marcos Luan (https://www.youtube.com/watch?v=GE4tiWFxcRg)