quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Em São João del-Rei, a cultura popular vai para o bar. E não quer mais sair de lá!

Diferentemente da cultura erudita, que se pratica e se conserva em espaços consagrados, a cultura popular vive na rua, é do mundo. Mesmo quando não está a céu aberto, sua proteção pode ser o telhado de uma igreja humilde, de uma casa de gente simples, da lona de um circo ou de uma barraquinha de quermesse. Até o mercado e o bar servem de teto para a cultura popular.

Em São João del-Rei, apesar da modernidade que tomou conta dos espaços de convivência mais desfrutados pelos homens, em alguns bares, antigamente chamados botequins,  ainda se encontra o ambiente simples, mas culturalmente muito rico, de outros tempos. Tudo autêntico: uma imagem ou um quadro do santo protetor daquela casa, mais comumente os guerreiros São Jorge e São Miguel, ou das muitas invocações de Nossa Senhora, principalmente a de Aparecida, a das Mercês e a do Carmo, resgatando as almas que queimam em chamas ardentes. Santo católico não bebe, não come, mas em compensação sua presença não ocupa espaço nem faz mal a ninguém.

Em alguns dos muito antigos e mais afastados do centro, é possível que ainda se encontre, entre portas, o cofre das Almas, que acolhe a moeda de troco de quem vai ali tomar uma. A boa tradição manda jogar num canto um gole pro santo e destinar uma esmola para as Almas, pois com elas não se brinca. De tempos em tempos um mensageiro da Irmandade das Almas vinha recolher o que haviam posto no cofre ou o dono do bar usava para mandar celebrar missas.

Como proteção nunca é demais, era comum encontrar em um canto dos bares, perto da porta, algumas plantas poderosas contra inveja e mau olhado. Pés Arruda, Guiné e Espada de São Jorge eram infalíveis.

Não é preciso sair muito do centro histórico para encontrar alguns botequins populares típicos da metade do século passado. No Bar Mineirão, que fica ao lado da Matriz do Pilar, ainda se come doce arroxeado de batata doce e se bebe cachaça com diversas ervas, especiarias e o que mais se puder imaginar: carqueja, coco, cravo e canela, losna, mel. Mas também cerveja gelada e geralmente no final da manhã, bolinho de feijão, saído a pouco da panela com óleo fervendo. Quem der sorte, pode ser que encontre ali, como trilha sonora música clássica ou italiana.

Outros botequins, mas bem botequins mesmo, ficam no Largo do Carmo, em frente à igreja projetada por Aleijadinho e uma curiosidade sem igual é que eles são vizinhos do majestoso cemitério. Por isto, aos sábados e domingos, quando o sol está alto ou à noite, eles não hesitam em colocar mesas na calçada daquele campo santo. Melhor para quem já se foi deste mundo: se quiser molhar a goela não precisa nem atravessar a rua.

Mas um botequinzinho muito inusitado fica na Rua das Fábricas (Avenida Leite de Castro), em frente ao Grupo Escolar Aureliano Pimentel. De uma porta só, ele tem uma parede coberta de alto abaixo com garrafas de pimenta vermelha, o que combina com uma curiosa estátua de um muito estranho e até assustador “humanurubu” (foto), que fica no alto de outra parede. Mas em compensação tudo contrasta com os quadros de santo que tem no local.

Neste mês de agosto, celebrando o folclore brasileiro, um bar-ateliê recém-inaugurado na Rua da Cachaça cometeu uma saudável ousadia: expôs em seu interior peças de arte popular emprestadas pelo folclorista Ulisses Passarelli. Deste modo, literalmente, a cultura popular foi para o bar...

Foto: Antonio Emilio da Costa

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