sábado, 22 de novembro de 2014

São João del-Rei não é uma cidade, é uma sinfonia! Quem disse foi Santa Cecília*


Com seus sinos, suas orquestras e bandas, São João del-Rei é mais do que uma cidade. É uma sinfonia. Pura música. As ruas se alinham em pauta, para que igrejas, casarões,  sobrados, lampiões, cruzeiros e pontes se alternem em notas e pausas, entre becos e largos, entre sol e chuva, dia e noite.

As flores dos jardins - damas da noite, bugarins, margaridas, ibiscos, papoulas, manacás, jasmins - ao mesmo tempo que perfumes, exalam sons celestes, de estrelas, orvalhos e vagalumes. Mas só depois que, crepuscular, a clave de sol se apaga, para acender no céu a clave de luar. Tudo por milagre de Santa Cecília...

Ela, padroeira dos músicos, é madrinha da cidade. Mora aqui desde 1717, quando veio para Vila de São João del-Rei a pedido do Mestre Antonio do Carmo, a protegê-lo na missão de desenrolar um tapete de música para a passagem do Conde de Assumar, na sua primeira visita São João, O nobre português ainda estava ressabiado com violência da Guerra dos Emboabas e precisava ter certeza de que das chamas do ódio que incendiaram  Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes não mais  restavam brasas, sequer cinzas.

A santa tomou gosto pelo Vale do Lenheiro, ficou aqui, não quis mais voltar. Trezentos anos depois, tem em São João del-Rei um altar dourado na Matriz do Pilar e ainda maior legião de músicos. Várias orquestras, muitas bandas, uma infinidade de corais, sineiros... Tímidas e envergonhadas, pela própria condição periférica, popular, profana, folias, congadas e baterias de escola de samba não ousam confessar, mas também rendem graças e pedem favores à santa-mártir, mãe da música.

Mas Santa Cecília não discrimina. Pelo contrário, sabe que quanto mais diversos forem os ritmos, mais variados os compassos e mais combinadas as notas, mais rica, bela e plural serão a música, a melodia, a harmonia e o concerto final. Por isto, espera só que o sol se ponha no dia 22 de novembro para, de mãos dadas com todos, passear numa alegre ciranda - de flores, sons e estrelas - pelas ladeiras, largos e becos de São João del-Rei. E na fumaça do incenso com eles subir aos Céus...



* Dedicado à jornalista são-joanense Cláudia Simões

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Negritude, consciência, direitos, conquistas, igualdade & cidadania em São João del-Rei

O Brasil inteiro comemorou hoje o Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra. São João del-Rei está comemorando a semana inteira, com palestras, panfletagem, encontro de zeladores de santo (orixás), cinema, desfile da beleza negra, cortejo, danças e artes afrobrasileiras e outras atividades do Ponto de Memória Batuques / Casa do Tesouro. Tendo começado no dia 18 e prosseguindo até o dia 28, será uma semana de 11 dias. Não se espante, em São João del-Rei isto é possível, e até muito comum.

Grande parte dos eventos acontece no centro histórico, em edifícios coloniais e nos largos e ruas mais antigas da cidade, mas a programação se estendeu também pela periferia, como o Bairro Araçá, famoso por seus grupos de congada e folia de reis.

Como era de se esperar, o evento, como um todo, visa a valorização e afirmação do povo negro são-joanense, o combate ao racismo e ao preconceito; a informação, mobilização e luta por igualdade, direitos, reconhecimento e cidadania. Daí seu enfoque etno-religioso, cultural, artístico, acadêmico e cidadão.

Sente-se falta, nele, da participação das agremiações carnavalescas, dos grupos de folia de reis e de congada e das orquestras barrocas, já que os negros são parte importante e quantitativamente expressiva de sua composição.

Louvável, muito louvável, foi a inclusão - na programação comemorativa - da inauguração do trevo de entrada para o distrito são-joanense de Santo Antonio do Rio das Mortes Pequeno, onde nasceu e foi batizada a beata Nhá Chica. A intenção, inclusive, da inauguração do monumento que representa a beata e sua pia batismal acontecer na Semana Municipal da Consciência Negra é destacar que nossa conterrânea Nhá Chica é a primeira negra beatificada do Brasil.

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/05/quilombos-e-neoquilombos-de-sao-joao.html

Foto da abertura http://oglobo.globo.com/rio/restauracao-da-estatua-de-zumbi-ainda-espera-licitacao-2960797

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Em São João del-Rei, Santa Cecília dedilha amorosas canções para ninar Aleijadinho




Há exatos duzentos anos, nesta data, fechou os olhos para o mundo o mineiro Antonio Francisco Lisboa - maior nome do barroco nas Américas e o grande mestre das artes plásticas americanas no século XVIII, por todos conhecido como Aleijadinho.

Sua vida foi repetir, com maestria, o ato da criação. Cristos, virgens, anjos, apóstolos, soldados romanos, gente do povo, cordeiros, corações flamejantes, rocalhas e volutas graciosamente brotavam da pedra e da madeira pelo movimento até do que restaram de suas mãos. Aleijadinho reproduziu o céu entre os riachos, os vales, pepitas de ouro e as montanhas de Minas Gerais.

São João del-Rei recebeu a graça divina de ter em seu centro histórico dois dos seis mais belos templos barrocos criados pelo grande mestre - a igreja do Carmo, com as quinas angulosas de suas torres que misteriosamente ao alto se tornam sinuosas até diluir-se no infinito, e a igreja de São Francisco, absolutamente toda em curvas. As fachadas destas igrejas, com suas portadas, medalhões e janelas emolduradas, todas primorosamente esculpidas em pedra sabão, em seu barroco estilo não encontram similar em Minas Gerais, quiçá nem no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

Na igreja de São Francisco, inclusive, Aleijadinho deixou sua marca em uma pequena imagem que se encontra em nicho de um altar lateral e no monumental retábulo da capela-mor, sublime, delicada e colorida expressão de alegre rococó, também ímpar na arte brasileira.

Por tudo isto, neste mês de novembro São João del-Rei está prestando por meio da arte, com uma vasta programação cultural, seu tributo de reconhecimento e gratidão a Aleijadinho. Tributo que certamente lhe está sendo entregue por Santa Cecília, padroeira dos músicos, que são muitos na cidade. Nas cordas douradas de sua harpa, afinada em clave de sol, mas também de lua e de estrelas, Santa Cecília dedilha notas musicais amorosas - canção de ninar que embala o sono profundo e do grande artista.

Descanse em paz, Aleijadinho. Dorme no colo de Deus, cercado dos anjos, arcanjos, querubins e serafins que você tanto espalhou por estas Minas de lembrança e eternidade.


Em São João del-Rei, até defuntos e cemitérios comemoram aniversários. Sabia?


Na tradição popular, novembro é o mês dos mortos e, em São João del-Rei, esta característica do penúltimo mês do ano é reforçada diversas vezes. A partir do dia 2, quando se celebra Finados, começam as missas aniversárias dos defuntos que pertenceram a uma, ou a várias, das dez Irmandades bicentenárias, sediadas no centro histórico são-joanense.

Também conhecida como "aniversário dos cemitérios", a cerimônia é composta de duas partes. Começa com uma missa, na igreja que é sede da Irmandade, onde, no centro da nave estão dispostos, no chão, um tapete preto, com galões e uma grande cruz dourados e bordados. Em cada uma das quatro pontas, um castiçal alto, com uma vela acesa, como se estivesse aguardando um defunto para a oração final.

Terminada a missa, os sinos tocam exéquias e os irmãos saem em procissão, vestidos com suas opas ou hábitos, e assim vão até o cemitério correspondente, onde o padre faz orações fúnebres. Tudo - missa e orações no campo santo - ao som de música barroca executada pela orquestra que atende às festas daquela irmandade: a Lira Sanjoanense ou a Ribeiro Bastos.

Esta celebração se repete dez vezes, em dias e datas predeterminadas.

Para saber mais sobre esta antiga tradição singular de São João del-Rei, veja o que diz o grande  maestro e pesquisador são-joanense Aloísio Viegas, no vídeo abaixo - um breve documentário gravado por Helvécio Benigno.



domingo, 16 de novembro de 2014

Encontro de Sineiros de Minas Gerais: Em São João del-Rei, palavra de sineiro não volta atrás


                No encanto do Primeiro Encontro de Sineiros de Minas Gerais, 
                clique no link abaixo e ouça o que dizem com as mãos e o coração
                os eternos meninos, homens sineiros de São João.
                E palavra de sineiro não volta atrás...

sábado, 15 de novembro de 2014

Encontro de Sineiros de Minas Gerais: da voz do bronze à voz dos homens em São João del-Rei


Dificilmente existe, no dia a dia de São João del-Rei, algum personagem mais presente do que ele: o sineiro. Assim como os sinos, é do alto das torres barrocas que eles anunciam júbilo ou tristeza, executando no bronze sons melodiosos que transmitem sinais litúrgicos e códigos seculares: dobres, repiques, chamadas, cinzas, tencões, terentenas, floreados, canjica queimou e uma infinidade de tantos outros. Se existem símbolos eternos de São João del-Rei, juntamente com os sinos, os sineiros estão entre eles.

Por tudo isto, São João del-Rei é também conhecida como "a cidade onde os sinos falam" e, portanto, não poderia ser realizado em outro lugar o Primeiro Encontro de Sineiros de Minas Gerais. Aqui, ele está acontecendo neste fim de semana, com atividades diversas - apresentações, intercâmbios, visita às torres, relatos e conversas sobre este patrimônio imaterial brasileiro, que é o toque dos sinos de São João del-Rei e demais cidades históricas de Minas Gerais.

Participam do encontro mais de quarenta sineiros de nove cidades coloniais, seguindo uma vasta pauta, em essência voltada para a presença e manutenção dos toques dos sinos no mundo contemporâneo, para a realidade dos homens que os executam e para a necessidade da definição e adoção de políticas de valorização, salvaguarda, preservação e difusão deste bem cultural vivo, que é lançado pelos ares e em emoção recolhido na memória e no coração.

Na oportunidade deste encontro, vale lembrar que desde 2006 existe um projeto, apresentado pelo Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, de criação, na cidade, do Museu Estação dos Sinos, conforme documento disponível neste endereço:  (http://patriamineira.com.br/imagens/img_noticias/081015230710_O_Sino_dos_300_anos_do_Arraial_Novo_de_Nossa_Senhora_o_Pilar_e_o_projeto__Museu_Estacao_dos_Sinos__de_Sao_Joao_del-Rei_-_MG_-_Jose_Antonio_de_Avila_Sacramento.pdf)

Foto: Thiago Morandi in http://www.patrimoniohistoriaviva.com.br/2014/11/salvaguarda-dos-sinos.html


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nhá Chica: de São João del-Rei para o Sambódromo carioca, via Baependi


Quando nasceu em Santo Antonio do Rio das Mortes, distrito de São João del-Rei, em 1808, a menina Francisca de Paula de Jesus, filha de uma escrava, não imaginava que seu nome e sua história iriam ultrapassar fronteiras e continentes. De São João del-Rei para Baependi, de Baependi para Minas Gerais e para todo o Brasil, do Brasil para o Vaticano e de lá para o mundo inteiro. A negra, analfabeta, afilhada de Nossa Senhora da Conceição e Serva de Deus, conhecida também como 'mãe dos pobres', foi beatificada em maio de 2013.

Agora, em fevereiro do ano que vem, mais uma vez Nhá Chica vai ser destaque no Brasil e no mundo, porém passando por um caminho incomum, pouco ortodoxo mesmo, para uma beata que não vê a hora de ser santificada: o Sambódromo do Rio de Janeiro. Sua história vai ser o enredo da Escola de Samba Tradição, no Carnaval de 2015, que tem o título Nhá Chica, a beata negra e guerreira do Brasil.

E não haveria forma mais brasileira nem mais eficaz para propagar a fé e difundir a humildade e outras virtudes de Nhá Chica. Afinal, durante 50 minutos, sua trajetória iniciada no distrito são-joanense do Rio das Mortes há 206 anos e ainda trilhando o caminho da santificação será contada em um samba-enredo e com fantasias, alegorias, destaques, evolução, comissão de frente, ala das baianas e tudo o que faz uma escola de samba encantar milhões de pessoas em muitos países de vários continentes.

Esta não será a primeira vez que a história de São João del-Rei desfilará como enredo carnavalesco de uma importante escola de samba do Rio de Janeiro, no caso, a Escola de Samba Tradição. Em 2006, portanto há menos de uma década, a cidade foi o tema do desfile da Escola de Samba União da Ilha, no enredo As minas del Rei São João.

Antes ainda, em 2002, a Escola de Samba Unidos da Ponte saudou nossa cidade e um de seus filhos mais ilustres com o enredo De Minas para o Brasil: Tancredo Neves, o mártir da Nova República.

Para saber mais sobre este tema, acesse 

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/09/nha-chica-estrela-do-rio-das-mortes.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/01/as-minas-del-rei-sao-joao.html.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

São João del-Rei tem duas das seis mais belas igrejas de Aleijadinho



Aleijadinho presenteou São João del-Rei com o projeto de duas das seis igrejas barrocas que especialistas consideram as mais belas do barroco mineiro. As das Ordens Terceiras de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis. Se em quantidade  parece pouco, é só lembrar que duas é um terço de seis!

Retribuindo o tesouro recebido do maior gênio do barroco nas Américas, a cidade desenvolverá uma vasta programação para homenagear o grande mestre, neste mês e ano em que se comemora o bicentenário de sua chegada ao mundo.

Até o momento, já estão programados onze eventos, distribuídos no período de 11 a 30 de novembro: exposições, palestras, lançamento de livros e de documentário, recitais e concertos. Eles acontecerão principalmente no Museu de Arte Sacra, no Teatro Municipal e na delicada Capela do Espírito Santo.

Mas não será surpresa se este rosário cultural estender-se por outros espaços coloniais do centro histórico e aumentar ainda mais com jantar harmonizado, intervenção urbana, missas cantadas, fotografia, poesia, teatro e outras realizações.

Quando o assunto é arte, beleza e cultura, São João del-Rei é fartamente barroca. Tanto quanto o Céu que Aleijadinho espalhou por estas Minas...

sábado, 1 de novembro de 2014

A morte é vizinha da vida em São João del-Rei. O que as separa é só um portão de ferro!

Hoje, os sinos de São João del-Rei estão dobrando de um modo diferente, em uma frequência incomum. Começaram ontem, logo depois da Hora do Ângelus, tocam do alto das torres de todas as igrejas, de tempos em tempos, e assim será até o cair da noite, pois hoje é o dia dos Mortos. Seus dobres são dobres fúnebres.

Desde cedo, missas são rezadas nas várias coloniais igrejas, muitas das quais preparadas como antigamente eram quando iam receber um defunto, para ser ali "encomendado": um tapete de veludo preto, engalanado com bordas douradas e uma grande cruz no centro também dourada, estendido próximo do arco-cruzeiro. Sobre ele, uma alta e grande "eça" - imponente, nobre e trágica mesa de madeira, esculpida com caveiras e outros símbolos funerários.

Na tradicional cidade, ainda é costume dos mais velhos entrar rezando para as almas do Purgatório pela porta principal das igrejas três vezes seguidas e sair pela lateral, para obter "indulgências plenárias concedidas neste dia pelo Santo Padre, o Papa". Naturalmente, quanto mais igrejas, mais indulgências...

Apesar de ser um dia de melancolia e saudade, Finados não é marcado pela tristeza em São João del-Rei. Talvez porque ali, no dia a dia, mortos e vivos são vizinhos parede-e-meia, pois no centro histórico dez campos santos se alternam entre  as casas, facilitando a que os vivos - quando a ausência aperta - não precisem de mais do que um passo para atravessar os portões de ferro dos cemitérios e falar com seus mortos. Rezar, reclamar, maldizer, agradecer, pedir conselho, intercessão, ajuda ou, simplesmente, conversar e matar a saudade. Isto alivia um bocado a dor da separação, já que quem ficou não perdeu visualmente a referência geográfica de onde quem foi está. Nem mesmo de noite, já que da rua, iluminadas pela lua, se vê muitas covas, sepulturas, túmulos e ossuários, com suas cruzes, nomes e flores.

Lembrando séculos passados, as orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense tocam neste dia, nas missas e ofícios de algumas igrejas, músicas barrocas dos Ofícios de Trevas e peças de exéquias, como a marcha fúnebre A Saudade, do grande maestro e compositor são-joanense Benigno Parreira. É uma das músicas funerais mais executadas em Minas Gerais e, em São João del-Rei, frequentemente regida pelo próprio autor.

Assim escorre o dia 2 de novembro em São João del-Rei, até que no fim da tarde os sinos parem de tocar e o manto azul muito escuro da noite cubra a cidade.

No poema e na canção, um suspiro atravessa o portão. Clique e ouça, se tiver coração!