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Mostrando postagens com o rótulo religiosidade popular

Setembro é uma primavera de poesia e fé em São João del Rei

  Antes mesmo que chegue a primavera, a fé e a religiosidade florescem todos os dias do mês de setembro em São João del-Rei. Senhor dos Montes, Bom Jesus de Matosinhos, Exaltação da Santa Cruz, Nossa Senhora das Dores, Bom Jesus dos Perdões, Chagas de São Francisco, Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Parto, Santa Teresa, São Miguel Arcanjo, Anjos Custódios - faltam dias ao calendário para acomodar tantas celebrações, que se dão por meio de novenas, tríduos, missas, procissões, rasouras, bênçãos, te deum's e outros barroquíssimos ritos litúrgicos e para-litúrgicos. Sinos de todas as torres, de quase todas as igrejas e capelas do centro histórico tocam várias vezes por dia; às 12 horas e às 6 da tarde um alto-falante, do alto da igreja das Mercês, entoa para toda a cidade uma prece musical à Rainha Mercedária. As bandas de música, as orquestras, os corais - cada um a seu modo, no horário próprio e no lugar certo - enriquecem o universo sonoro da cidade com antífonas, responsó...

Em São João del-Rei, São Jorge perde a cabeça, mas não perde a vergonha! E nem a pose!

Antigamente, em São João del-Rei, no tempo em que nossos pais viviam a infância, certamente fazia parte do universo deles a mula-sem-cabeça: aquela figura imaginária e muito temida, que andava a horas mortas pelos locais ermos, nas noites da quaresma. Seu tropel, ora lento e bem compassado, ora veloz e desritmado, era percebido pelo bater de seus cascos no calçamento das ruas, e do mesmo modo que surgia, desaparecia, no silêncio, ao longe.  Fora a estória de uma ou outra alma penada, em um corpo decapitado, vagando pela noite à procura de sua cabeça, cortada por castigo, vingança, cobiça, inveja, ira - ou simplesmente por crueldade - em São João del-Rei, sempre que se falava (e ainda hoje quando se fala!) que alguém perdeu a cabeça, na maioria das vezes é para justificar desaforos, adultérios, crimes passionais, e até mesmo assassinatos. Mas neste domingo por volta do meio-dia, passando pela lateral direita da igreja do Carmo, uma cena incomum chamou minha atenção: São Jorge deca...

"Deus te ajude mas a mim não desampare", em São João del-Rei!

A sabedoria mineira ensina que, " Em Minas, entender logo já é muito tarde. O bom mesmo é antecipar ". Sendo assim, mesmo que não pareça, imagina como é matreiro e arisco o são-joanense, e não é sem motivos. Afinal, a Vila de São João del-Rei foi uma das primeiras e mais importantes matrizes de nosso Estado, instituída  no tempo em que Minas e São Paulo formavam uma única Capitania. Daí é que, pelo bem ou pelo mal - e com muita propriedade -, o são-joanense não dá ponto sem nó.  Vê fumaça onde não há fogo, não amarra cachorro com linguiça, não bota a mão na cumbuca nem procura chifre em cabeça de cavalo. Vai que ele ache!... E isso vale para tudo. Para as coisas desse mundo e também do outro. Nesse tempo de pandemia, preocupados e precavidos, muitos são-joanenses colocaram uma cruz na porta principal de suas casas, e outros, além desse apelo ao Deus-Filho e por garantia, ainda colocaram ao lado, em uma folha de papel A-4, a seguinte mensagem para o Deus-Pai: ...

Isolamento social & resgate cultural em São João del-Rei no Dia de Santa Cruz

Isolamento social é sinônimo de resgate e produção cultural? Por que não? Em São João del-Rei, com toda certeza, pode ser sim! Herdeiro e agente de um incalculável e inesgotável tesouro cultural, a quarentena a que vive 'a terra onde os sinos falam' só é tediosa e improdutiva para o são-joanenses que isso quiser. As horas vagas - e são muitas! - podem ser o tempo que se precisa para relembrar, rememorar, resgatar, reaprender e reavivar o saber, o fazer e o viver que são a essência, a magia, o encantamento e a alma do povo de cá. Daqui a alguns dias será 03 de maio - Dia de Santa Cruz. Uma data muito significativa no calendário religioso-cultural de nossa cidade, quando era costume comum enfeitar de flores ou papel de seda colorido repicado uma pequena cruz de madeira,e  pendurá-la  na porta principal ou na fachada, como elemento de fé e de identificação entre os iguais. Mas a movimentada rotina dos novos tempos foi aos poucos diluindo este hábito, que embelezava tanto a ...

Orações fortes amarram o amor nas esquinas e becos de São João del-Rei

Dizem que o mineiro é desconfiado de tudo e, tal qual São Tomé, só acredita naquilo que vê. Mas não é bem assim. Pelo menos em São João del-Rei, não é! A verdade é que os mineiros - e os são-joanenses em especial - guardam tudo a sete chaves, não alardeiam o que suspeitam nem proclamam o que imaginam e muito menos o que desconfiam. O que desejam, então... O são-joanense acredita no que não vê e, mais do que isto, dialoga e se relaciona intimamente com o que a vista não alcança. Mas isto ele não confessa. Se por algum motivo - crença, promessa ou obrigação - tem que professar essa sua crença, o faz da forma mais anônima. Torna pública a sua fé com tanto segredo e tanto mistério que é impossível identificá-lo, mesmo que a revelação seja no local mais público, na mais movimentada esquina da cidade. Você quer local mais visível, dia e noite, do que o sobradão do lado direito de quem se vira para a Matriz do Pilar, exatamente aquele onde começa o bequinho de degraus largos que disfar...

Ave Maria do Morro no céu azul de São João del-Rei

Engana-se quem pensa que a religiosidade do povo são-joanense, no recorte do catolicismo, restringe-se às práticas, rituais e liturgias realizadas nas igrejas do centro histórico e de todos os bairros. Quanto mais belas, envolventes e encantadoras forem essas celebrações, sobretudo as tradicionalmente barrocas, mais elas são prestigiadas e frequentadas, pois  refletem o paraíso que, principalmente os humildes, não encontram na terra. Se a beleza é, sem dúvida, o mais sedutor e lúdico instrumento de convencimento e educação, ela é também o mais suave, confortante e eficaz meio de evangelização. Principalmente nestes tempos estéreis, áridos e ásperos! Entretanto, a despeito delas, muitos são-joanenses estabelecem um meio próprio para sua comunicação com o universo divino, com canais, formas, códigos, espaços e linguagens criados por eles mesmos. É uma comunicação direta, quase "ao pé do ouvido", sem necessidade de qualquer orientação, mediação, consentimento, aprovação ou ...

Em São João del-Rei todas as ruas levam à religiosidade

São João del-Rei é território sagrado. Principalmente na região que compreende o centro histórico onde, a curtas distâncias entre si e das formas mais variadas, diversos marcos lembram e servem como pórticos para o são-joanense adentrar no universo profundo de sua religiosidade e chegar até as profundezas de sua fé, suas crenças e lembranças. Quem, andando pelos lados antigos de São João del-Rei, nunca viu um são-joanense, jovem ou mais vivido, interromper seu pensamento, diminuir o ritmo de seus passos e fazer o sinal da cruz ao passar diante de um cruzeiro, de um cemitério ou de uma igreja?  Este é um comportamento que, mesmo diante dos novos modelos, padrões e valores impostos pela sociedade hiperconectada, digital e virtual, continua firme como parte da rotina de muitos são-joanenses. E as razões são infinitas: pedir proteção divina, fortalecer-se na luta contra os maus e contra os males, abrir e desembaraçar os caminhos tortuosos e confusos, abrandar a ira e amansar o c...

Santa Clara, clareai minha São João del-Rei!

São João del-Rei é um lugar onde o viver feliz requer, dia e noite, céu aberto. Suas ruas estreitas e sinuosas, seus becos, jardins e largos são palcos públicos onde desde sempre tudo acontece, para todos. O entusiasmo, a vitalidade e a alegria dos são-joanenses precisam de céu limpo para se materializar como procissões, desfiles de carnaval, cortejos, concertos, serenatas, cinema,teatro, recitais e retretas - tudo ao ar livre. Antigamente, nos tempos românticos que duraram até os anos setenta, era comum as pessoas ficarem nas janelas ou sentadas na calçada ou soleira da porta de suas casas, olhando o tempo e a vida passar. Algumas vezes por dia iam dar uma volta na rua, para comprar a verdura e a carne do almoço, encontrar com os conhecidos, ler o Jornal do Poste, saber quem morreu ou se internou e mandar lembrança para os amigos. Tudo a céu aberto. Podiam até levar sombrinha ou guarda-chuva, tanto se prevenindo de algum aguaceiro quanto se protegendo do sol forte. Dor de cabeç...

Valei-nos Nossa Senhora do Rosário! Sorri com bondade para os congadeiros de São João del-Rei

Mesmo ficando meio à margem da cultura oficial são-joanense, algo como o primo pobre das nobres tradições coloniais, o congado, ou congada, como alguns preferem, é uma manifestação cultural forte em nossa região, principalmente nos bairros mais afastados e nos distritos de São João del-Rei. Não se precisa de nenhum esforço para entender porque isto acontece: basta relembrar a condição social do povo que introduziu este produto cultural na região: negros africanos, escravizados, que viviam à margem do sistema político-social. Na economia eram apenas a força bruta; para a religião vigente, no começo havia dúvida se sequer tinham alma. Ainda hoje ainda não são os negros são-joanenses que possuem visibilidade destacada na sociedade local que compõem os grupos de congado. Congado exige alma negra, exige fé autêntica e natural, exige crença, convicção e coragem. Se não for assim é folclore, folguedo, espetáculo e diversão. Mesmo que não se dimensione, a região de São João del-Rei tem...

Salve a coroa do "Rei do Mundo" em São João del-Rei! Atotô, Obaluaiê!

Agosto, em São João del-Rei era um mês de grande apreensão. Céu de tempo revolto, de neblina ainda pela manhã, de nuvens em agitado movimento, o vento correndo frio e raivoso, varrendo em redemoinho folhas no chão, sacudindo com força as roupas nos varais, espalhando viroses... Para muitos, agosto é mês de cachorro “zangado”, como se dizia antigamente dos cães contaminados pela raiva. Em uma era em que tudo era tranquilo e o mundo girava devagar, o oitavo mês do ano era também temido pela quantidade de acidentes que aconteciam naquele período, marcado pelo dia de São Bartolomeu, festejado em 24 de agosto. São Bartolomeu é  “santo bravo”; tão bravo que na noite de São Bartolomeu, no ano de 1572, praticou-se canibalismo nas cidades francesas de Lyon e Auxerre,  inclusive com venda de gordura, fígado e coração humanos. As vísceras eram assadas em braseiros, no meio das praças, conta Frei Beto, citando Jean de Léry. O sincretismo religioso afrobrasileiro associou São Ba...

Bendito e louvado sejam as folias, pastorinhas, congadas e catupés de São João del-Rei

Ninguém duvida da riqueza cultural de São João del-Rei. Principalmente das tradições barrocas que, herdadas do século XVIII, permanecem vivas, nas mais diversas formas de expressão: ofícios religiosos, música barroca, ricas procissões, toques de sinos, tapetes de rua e muitas outras atividades que preenchem de som, perfume e cor os 365 dias do ano de quem vive às margens do Córrego do Lenheiro. Mas existem algumas manifestações culturais que, paralelas ou periféricas às grandes celebrações litúrgicas, ainda são pouco conhecidas - e por isto mesmo pouco reconhecidas - pelos próprios são-joanenses. Entre estas, estão as folias, pastorinhas e congadas, que se apresentam por ocasião do Natal, Santos Reis Magos e São Sebastião, em janeiro, Divino Espírito Santo, em maio / junho, e Nossa Senhora do Rosário, por todo o mês de outubro. Em algumas situações, as folias e congadas podem ser vistas no centro histórico da cidade, mas seu território forte são os bairros e alguns dist...

Medos, segredos e mistérios do agosto na velha São João del-Rei

Antigamente, agosto era o mês mais temido pelo povo de São João del-Rei. Com seu céu pesado e opaco, com seu tempo brusco e suas ventanias, o oitavo mês do ano inspirava, aos são-joanenses do começo do século XX, quase tanto medo quanto a Quaresma. Isto porque acreditavam que nos 40 dias de jejum e sofrimento de Jesus, o Coisa-ruim, com permissão divina, estava solto na terra para tentar também os homens. E com suas ciladas, embustes, armadilhas, pactos e ilusões, desviá-los do bom caminho para por a perder suas almas... E pensavam que em agosto o perigo vinha do desconhecido e do acaso, das forças misteriosas e ocultas que regem a essência da natureza, gerando ameaças e provocando desastres de toda ordem. Nas águas dos rios e das lagoas, nos caminhos e nas estradas, nos abismos e precipícios, com fogo, objetos cortantes, animais peçonhentos e até mesmo com cachorros zangados. Loucura, envenenamentos, enforcamentos, afogamentos, suicídios e assassinatos também faziam parte deste...

Cruz enfeitada: lembrança desbotada pelo tempo na paisagem colonial de São João del-Rei

Três de maio é o Dia da Santa Cruz - uma data comemorativa outrora muito marcante no calendário religioso de São João del-Rei. Entretanto, nas últimas décadas, uma bela tradição relativa a este dia praticamente desapareceu da área urbana são-joanense, principalmente no centro histórico: a colocação de cruzes enfeitadas na porta das casas. Geralmente adornadas com flores naturais (crisântemos pequenos, em São João del-Rei antigamente conhecidos como "monsenhor") ou de papel crepom, ou simplesmente cobertas com papel de seda repicado, eram adereços coloridos que - em contraste com as portas azuis, vermelhas, verdes, cinzas, amarelas ou marrons - davam viva alegria à paisagem colonial de nossa cidade. As cruzes enfeitadas ficavam nas fachadas até que se desbotassem pela exposição ao sol, à chuva e ao sereno do inverno, que em São João del-Rei já começa forte nesta época do ano. Funcionavam como a guirlanda natalina, porém pendurada na porta no terceiro dia de maio, como d...

Eparrêi, São João del-Rei! Valei-nos Santa Bárbara, São Jerônimo...

Em tempos passados, sempre que um raio violento estrondosamente cortava ao meio o céu de São João del-Rei, logo se ouvia aflito chamado: Santa Bárbara! São Jerônimo! Era assim que se pedia socorro quando vinha o temor das tempestades. E logo se cobria espelhos, para que não refletissem os raios, se desligava tomadas, ninguém abria janela, pegava tesoura ou tocava em torneira. Pelo contrário, se acendia uma vela, benta no dia de Nossa Senhora das Candeias, 2 de fevereiro, e se queimava a palma levada à igreja para bênção na manhã do Domingo de Ramos. Tudo sob a invocação de Santa Bárbara. A santa, que tem aos pés uma torre, na cintura uma espada, nas mãos um cálice e uma palma verde, na cabeça uma coroa, exerce domínio inquebrantável quando o céu se desmancha em chuva forte. Acalma raios, amansa ventos, tranquiliza o firmamento. Afasta o temor e traz paz ao coração. Nos tempos modernos, para-raios sobre torres e telhados são a contemporânea espada de Santa Bárbara. Ante...

São Cosme e São Damião brincam inocentes nos largos, ruas e becos de São João del-Rei

No meio de tanta festança que no mês de setembro acontece no centro histórico de São João del-Rei - todas grandiosamente belas, corporativamente promovidas pelas Irmandades e Confrarias setecentistas -, pode parecer que não existe espaço para manifestações culturais singelas e espontâneas. Mas não é bem assim. Mal avançam as primeiras horas da manhã do dia 27 de setembro, já se percebe nos mais diferentes pontos da cidade, principalmente nas áreas residenciais dos bairros, um alvoroço diferente: são as crianças correndo atrás dos doces distribuídos  pelos adultos para saudar São Cosme e São Damião. Balas de coco, paçoca, pé de moleque, maria-mole, pirulito, doce de batata doce, pipoca industrializada - tudo vale para adoçar a vida e acariciar a infância da inocência, legítima e verdadeira. Não aquela oficialmente " pastichificada " no comercial Dia da Criança. Na verdade, a tradição de deixar doces e balas nos jardins e também distribuir guloseimas açucaradas no dia ...

Devota, convicta e confiante, São João del-Rei dialoga com os Céus

Pelas encruzilhadas e esquinas de São João del-Rei, misteriosamente, as letras misturam-se em uma prece. Escorrem pelas ladeiras íngremes, espalham-se nos largos e praças. Aparecem, quando menos se espera, do fundo de sacolas de compras. Desejo dos são-joanenses, é a Oração por uma cidade , que clama o seguinte:                         “Pai Nosso, que estais no Céu,                           que estais no Alto do Cristo,                           com vossos braços estendidos,                           como a nos abençoar:                           Protegei nossa cidade,                         ...