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Mostrando postagens com o rótulo semana santa

Todo dia é Sexta-Feira da Paixão em São João del Rei

  Quando o assunto é cultura, em seu sentido mais genuinamente antropológico, São João del-Rei é uma das cidades históricas brasileiras mais ricas e mais dinâmicas. Seu conjunto arquitetônico não é  uniforme nem homogêneo, mas o que isto importa? Seu casario de estilos diversos, característicos de sucessivas épocas, registra em si, como em nenhuma outra cidade histórica mineira, a passagem dos séculos com seus ciclos de evolução econômica, estética e social. Tão ou mais do que outras cidades surgidas no tempo do ouro, a cultura local é autêntica e peculiar, e mantém-se viva de modo natural e espontâneo. Tanto que, por não se pautar na realização de eventos de inspiração e motivação externa, para um público "estrangeiro", há quem diga, desavisadamente,  que em  São João del-Rei não se promove cultura. Mas dependendo do ponto de vista e do que se tem como cultura, quem pensa assim não está de todo errado, por uma razão muito simples: São João del-Rei " não vive de cul...

Independente de religião, boldo é planta sagrada em São João del-Rei!

  Especialmente procurado para curar a ressaca  braba de são-joanense que exagera na água que passarinho não bebe e em outras canjibrinas, sem dispensar o torresmo, o bife de fígado acebolado, as almôndegas, chouriços, costelas com mandioca e até mesmo o mocotó e a dobradinha, o boldo é um remédio miraculoso. Seu gosto amargo, mais amargo ainda do que o caldo do chifre do diabo, tem poderes que ninguém duvida. Como por exemplo desarmar as bombas que estouram na cabeça e espremem os miolos do infeliz moribundo;  lavar da boca o gosto de cabo de velho guarda-chuva e levar para bem longe as náuseas, enjoos e até mesmo os vômitos, que desgraçadamente torcem o estômago e trazem a bílis por sobre a língua. Por tudo isto, o boldo, em São João del-Rei é uma planta, podemos até dizer, bastante venerada. Muito fácil de ser plantado, não é raro encontrar um pé, às vezes até mesmo florido com seus pendões roxos, nos velhos quintais que ainda resistem à exploração imobiliária. Mas o q...

São João del Rei tem saudades do tempo que não viveu!

O calendário da vida , em São João del-Rei, é regido pelas festas religiosas. O são-joanense tradicional, "legítimo" - como diziam (e ainda dizem!) os mais antigos quando querem testemunhar que algo  é 'o orignal e verdadeiro' -, medem o tempo pelos ponteiros de deus girando numa ciranda alegre e festiva de celebrações, que se sucedem pelo ano inteiro. De janeiro a dezembro. Pensando sob uma certa perspectiva, pode-se até mesmo dizer que o calendário religioso de nossa terra tem mais dias do que o calendário civil. Há pouco mais de um ano, a cidade de repente viu-se diante de uma nova realidade. A pandemia do coronavirus virou o mundo pelo avesso e, nele, São João del-Rei. Do dia para a noite, uma des-ordem se estabeleceu, tão perigosa quanto desconhecida e misteriosa, e qualquer deslize, inocente ou acidental; qualquer transgressão, deliberada ou por vontade própria, quase sempre tem levado ao que em toda parte é líquido e certo: à morte.  Mas aqui, não à morte como ...

Semana Santa 2021 - São João del Rei em busca do Paraíso

  A Quaresma e a Semana Santa são o tempo mais importante de São João del-Rei. Lendo ou ouvindo assim, pode parecer que há algo errado, desafinado, nesta afirmação, mas não -, é isso mesmo! A Quaresma e a Semana Santa são o tempo mais importante de São João del-Rei. Mais do que o período do ano que compreende 48 dias e constitui o mais expressivo e intenso marco do calendário religioso e cultural da cidade, aqui as celebrações, orações, liturgias, sermões, cantos, reflexões e ritos oriundos do século 18, instituídos para relembrar a Paixão de Cristo, são tão marcantes que, na verdade, quase instituem uma outra era.  Um tempo marcado pela emoção, pela religiosidade, pelo inconsciente e individual e coletivo resgate histórico-ancestral, pela crença, pela fé, pela esperança, pela beleza estética que leva os são-joanenses, imaginariamente, para um outro mundo, que muito parece ser o espelho do Paraíso. Com suas cores, seus perfumes, suas flores, sua música, seus silêncios. Com Deu...

Inconfidência dos escravos: Reis foram presos na Quaresma de São João del-Rei.

Da história colonial de São João del-Rei, especialmente de alguns capítulos, pouco se fala. A bem da verdade, deles nada se fala, principalmente quando não exaltam fatos grandiosos, vangloriam feitos gloriosos, louvam atos destemidos e corajosos daqueles que, por razões que aqui não vem ao caso, foram consagrados como heróis. Assim como em quase toda parte, também aqui a história dos oprimidos não consta dos livros de História. Uma pena. Mas vamos adiante... Desde os anos setecentos, a Quinta-Feira Santa sempre sensibilizou e mobilizou fortemente a população de São João del-Rei. Principalmente as cerimônias da Última Ceia do Senhor e do Lava-pés, além da visitação às igrejas, que retratam primorosamente e com grande criatividade as cenas bíblicas que contam os milagres, sermões e outras passagens da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vem daquela época o costume, ainda hoje muito vivo, de na noite de Quinta-Feira Santa visitar uma a uma as belas igrejas barrocas e capelas do...

Depois do Coronavirus, quem construirá a nova São João del-Rei?

Uma longa pausa, que já durou um mês e, certamente, ainda vai durar vários, ninguém sabe quantos. É assim que vai vivendo São João del-Rei onde, nestes tempos temerários do novo coronavírus 19, aqui como acolá reinam o isolamento social e, em consequência, o adormecimento cultural. A cidade que é viva e festiva o ano inteiro, especialmente no bimestre março-abril - quando acontecem algumas das festas mais importantes e representativas de seu calendário turístico-religioso-cultural, que são a Quaresma / Festa de Passos e a Semana Santa - em 2020 viu esse tempo passar em branco, em silêncio e inerte. Sem as cores, as flores, a música, os odores, os movimentos e encenações dos ofícios e procissões. Consciente, cautelosa, cuidadosa e amorosa, a população são-joanense atendeu volitivamente o solidário chamado e ficou em casa. Guardou para depois a magia e o encantamento que há 300 anos viveria naqueles dias. Apesar do desejo de que tanto este medo quanto este perigo passem logo, aind...

Quem arrancou estas páginas do calendário de São João del-Rei?

Em 2020, arrancaram páginas importantes no calendário de São João del-Rei. Este é o sentimento que ficou no peito dos são-joanenses, na segunda-feira que sucedeu o Domingo de Páscoa, na "terra onde os sinos falam ". - O quê aconteceu? - Por causa do isolamento social preventivo ao novo Coronavírus 19, as igrejas ficaram fechadas em grande parte da Quaresma e por toda a Semana Santa. Assim não tiveram procissões nas ruas nem Ofícios de Trevas na Matriz do Pilar, assim como as celebrações internas foram realizadas a portas fechadas, com reduzidíssimo número de pessoas essenciais às funções litúrgicas. Tudo transmitido primorosamente pelo rádio e pelas mídias sociais, porém com orfandade da expectativa, do envolvimento, da memória, do vivenciar e do sentimento. - Mas e a história do calendário? Por que isso aconteceu? - Porque que o povo desta São João, surgida nos primeiros anos do século XVIII, ainda conserva vivas muitas referências culturais trazidas de quando o ou...

Semana Santa de São João del-Rei vence o novo coronavírus 19

O tempo muda, fica diferente em São João del-Rei quando chega a Semana Santa. A cidade se recorta e descola do universo, emerge para um espaço próprio de tempo e lugar. Nesses dias o são-joanense transita entre quatro eixos - o pessoal, enquanto indivíduo; o religioso, enquanto ser; o coletivo, enquanto elemento integrado a uma comunidade, e o de memória, esta, afetiva, sentimental e até mesmo ontológica. Finda a Quaresma, as primeiras manifestações da Semana Santa propriamente dita são muito profundas e enigmáticas em São João del-Rei. A cerimônia da benção dos ramos, na igreja do Rosário, o toque angustioso e demorado dos sinos daquela igreja, a procissão que sai até a Matriz do Pilar, onde acontece o Ofício de Ramos com a leitura teatralizada do Evangelho - tudo traz em si uma expectativa do obscurecer da glória, da alegria e da vida, vive-se ali a antecipação emocional do sofrimento e do apagar-se. O cordeiro sabe de seu destino e, entre resoluto e resignado, caminha para o sa...

"Toque da Penitência"*. Sinos de São João del-Rei - da gripe espanhola ao coronavírus 19

Mundialmente muito falada nos últimos dias, a palavra "corona", há quase 300 anos é bastante conhecida dos são-joanenses. Mais do que simplesmente conhecida, ela é repetida contritamente 7 vezes na noite de Sexta-feira da Paixão, em um dos momentos mais representativos da religiosidade e da cultura do povo de São João del-Rei: a Procissão do Senhor Morto, também conhecida como Procissão do Enterro do Senhor. Aliás, a palavra "corona" é cantada duas vezes na última parte do lamento da Verônica, que naquela noite emudece e tira o ar dos são-joanenses na escadaria da igreja das Merces, precedendo a Marcha da Paixão, que a Banda Theodoro de Faria toca, dando emoção e ritmo ao início da monumental Procissão do Enterro. E, depois, nas vezes que a Verônica mostra o sudário e canta no Largo do Rosário, em frente à casa onde nasceu Bárbara Heliodora (cruzamento da Rua da Prata com o Largo São Francisco), em frente à antiga Delegacia de Polícia, na encruzilhada dos Quat...

Todo Ano Novo que começa é tempo dos reis de São João del-Rei!

Mal o ano começou e São João del-Rei, no imaginário do povo deste lugar, já está se avançando cinquenta, sessenta dias no tempo, vislumbrando os dois primeiros grandes marcos de seu calendário: o Carnaval e a Semana Santa. A cultura de nossa cidade é construída a partir de festas, ora religiosas, ora profanas, que se interligam, se sucedem, se complementam e dialogam, mostrando que o viver local é uma caminhada involuntária por um percurso fantástico e mágico, que transcorre entre a finitude e a eternidade. Quer realidade mais barroca do que esta, própria desta terra de el-rei? No dia 6 de janeiro - dia dos Santos Reis -, o Menino Jesus, Rei dos Reis, sentado em seu trono, sai em uma pequena rasoura, pelos arredores da tricentenária igreja do Rosário, ao som dos sinos e da Banda de Música, reluzente em sua pueril majestade. Alguns dias passam... Súdito deste rei, soldado de Cristo, a partir do dia 11 de janeiro, a cidade rende homenagens a São Sebastião, com novena, tencões e te...

Festa de Passos de São João del-Rei.Tempo de Eternidade!

Por mais que já se tenha visto 15, 30, 40, 50, 60 vezes, ou tantos anos mais já se tenha vivido, a emoção que sentimos diante de cada cerimônia da Festa de Passos de São João del-Rei é sempre a mesma: pura enlevação e absoluto encantamento! Como se fosse a primeira vez... Desde cada Via Sacra solene, em que a cruz com o lençol branco, penitencial, e o crucifixo sagrado percorrem nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma o mesmo trajeto nas ruas de pedra do centro histórico  há quase 300 anos, parando na igreja de São Francisco e em cada um dos 5 passinhos, delicadamente enfeitados, ao som dos motetos do grande compositor são-joanense Ribeiro Bastos, até as procissões de depósitos, quando as imagens da Senhora das Dores e do Senhor dos Passos saem misteriosamente veladas até as igrejas do Carmo e de São Francisco, ao som das bandas e dos sinos. As duas rasouras, na manhã do domingo, e a Procissão do Encontro, no fim da tarde,  e também até o tocante Setenário das Do...

A Paixão segundo São João (del-Rei)

Quem anda com o coração aberto em São João del-Rei colhe e recolhe imagens vivas de puro sentimento. Oportunidades de rever a vida e entender que a existência humana é breve e passa. Dela, restará viva apenas alguma lembrança, por algum tempo. Este poema é um retrato, tirado no entardecer de hoje (19/07), na Rua das Flores. Fará parte do livro A Paixão segundo São João (del-Rei) , quando ele vier a ser publicado. XIV Estação - Procissão das Lágrimas Está doendo demais! , gritava a mulher negra aos prantos, amparada por dois homens negros, silenciosos. Dos olhos dela desciam rios caudalosos, ladeira abaixo, pelo beco, até a encruzilhada onde às vezes se encontram o Espírito Santo, Nossa Senhora do Rosário e Santo Antônio. A tarde fugia, o sino tocou Ângelus, mas nada adiantou. Nenhum dos três veio trazer alento, obedientes ao que, no Velho Testamento, pregou o profeta Jeremias: "Grande como o mar é tua dor. Quem poderá te consolar?" A tarde caiu mais um pouc...

Missa do Aleluia. Um dos mais belos ritos da Semana Santa de São João del-Rei

Depois do esplendor, do encantamento e da intensidade maravilhosamente sensorial e dramática que são a Festa de Passos – desde as Vias Sacras até o Setenário das Dores, passando pelas rasouras e procissões do Encontro – e a Semana Santa de São João del-Rei – desde o Ofício de Ramos, até os ofícios de Trevas, o Canto da Paixão, Adoração da Cruz, descendimento e Procissão do Senhor Morto – é praticamente impossível imaginar que, complementando as celebrações da Paixão de Cristo, ainda possa haver algo uno, e de tamanha beleza, que seja capaz de exaltar de prazer todos os sentidos, da visão ao olfato, da audição ao tato. Mas existe. É a Missa do Aleluia! Diferentemente de outras ocasiões, em uma das três portas principais da matriz do Pilar, há velas a venda, que as pessoas tranquilamente compram e conservam apagadas. Nas 20 horas que neste dia o relógio não bate, o ritual começa em absoluto silêncio, do lado de fora, do lado esquerdo de quem sobe o adro da igreja, então guarnecido ...

A Paixão de Cristo, os mistérios, encantos e a magia da antiga Semana Santa de São João del-Rei

Antigamente em São João del-Rei, além da fé e da devoção, muitos outros sentimentos ocupavam os corações são-joanenses durante a Quaresma e a Semana Santa. Desde a piedade e a penitência, passando pelo jejum e abstinência voluntária de carne, até a restrição do lazer. Os bailes, por exemplo, eram suspensos nos clubes e salões locais e só voltavam a acontecer após a meia noite do Sábado Santo, ou melhor, do primeiro minuto do Domingo de Páscoa. Era o famoso Baile da Aleluia. O Domingo de Ramos era um contexto especial e uma ambiência religiosa singular. Começava com o som longo e espaçado dos sinos e a bênção das palmas, na igreja do Rosário, ao fim do que, na Matriz do Pilar se assistia a missa que, segundo os antigos, tinha o Evangelho mais demorado do ano. Teatralizado e cantado, narrava a história de Cristo,  da prisão no Horto das Oliveiras até o último suspiro, no Monte Calvário. As palmas bentas, acreditava-se, tinham poderes mágicos de proteção da casa que a guar...

Tapetes de flores, areia e serragem trazem o Céu para o chão na Semana Santa de São João del-Rei

Já faz mais de três décadas que as ruas de São João Del-Rei, durante a Semana Santa, apresentam um novo atrativo que encanta sanjoanenses e turistas: os delicados tapetes decorativos. Especialmente aos sanjoanenses, essa expressão cultural atrai duplamente, pois além de admirá-la, eles podem participar de sua produção e, assim, ser protagonistas de uma ação criativa que demora oito, dez horas para ser realizada, mas é muito efêmera. Em quinze, vinte minutos, o céu no chão se desfaz sob o caminhar de anjos, virgens, virtudes, reis, profetas, heróis, apóstolos, guarda romana- personagens do Velho Testamento que, voltando no tempo, vêm à frente do Senhor Morto na procissão do Enterro de Sexta-Feira da Paixão. Enfeitar ruas para procissões é tradição em diversos países católicos e forrar as ruas com folhas e flores também é comum em países da Península Ibérica e da América Central. Nas velhas cidades brasileiras, essa manifestação evoluiu para a confecção de tapetes de areia, fl...

Passo a passo da tradicional Festa de Passos de São João del-Rei

As celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário, ou simplesmente a Festa de Passos, realizadas em São João del-Rei tem particularidades marcantes que as diferem completamente daquelas que são realizadas em outras cidades históricas mineiras. Elas começam na primeira sexta-feira da Quaresma, com uma Via Sacra solene que se repete nas duas sextas-feiras seguintes. É um cortejo que se abre com um irmão dos Passos carregando erguida uma cruz de madeira preta, com o lençol banco na forma de um M, e se encerra com outro, carregando suspenso, em seu madeiro, um bicentenário crucificado. Estas Vias Sacras param nas capelas-passos, onde a Orquestra Ribeiro Bastos canta motetos barrocos que, mesmo sendo muito antigos e em latim, são muito familiares aos são-joanenses. E para finalizar, canta o tradicional Senhor Deus, Misericórdia, que ecoa profundo e torna-se um lamento ainda mais pungente diante do silêncio da pequena multidão. No quarto fim de semana da Q...

Nossas Senhoras de São João del-Rei - No Pilar, desde sempre, a Padroeira

Por mais que às vezes deseje estar em silêncio e sozinho, o são-joanense traz sempre alguém consigo, que o acompanha e com quem conversa. Homem ou mulher, criança ou velho, rico ou pobre, nas piores tristezas ou nas mais felizes horas, mudos ou ruidosos, sempre exclamam: Nossa Senhora! Por economia ou discreção, pode ser apenas Nossa! e, dependendo do susto ou do aperto, se resume a uma sílaba: Nó! Tão poucas letras, tamanha é a pressa, a infinita surpresa, o desmedido susto,o sufocante aperto, a desmesurada aflição. Aliás, Nossa Senhora é madrinha de São João del-Rei. Em seu pilar, veio para cá nos oratórios dos bandeirantes portugueses, no comecinho dos anos setecentos. Viu o arraial transformar-se em vila e teve que proteger o povo das furiosas chamas paulistas e emboabas. Dizem que salvou até as imagens de São Sebastião e São Miguel Arcanjo que, antes na incendiada capela do Morro da Forca, agora habitam a Matriz do Pilar. O tempo todo Nossa Senhora é festejada em São João d...

Quanto encanto na Festa de Passos de São João del-Rei

Nesta sexta-feira, que é a quarta da Quaresma, começa em São João del-Rei uma era muito profunda, quase ancestral, que, porém, dura não mais do que três dias: a Sexta-Feira das Dores, o Sábado de Passos e o Domingo do Encontro. Os são-joanenses nativos ou adotivos, sabem de cor do que se trata, mas muita gente que é de outros lugares certamente não reconhecem em seu universo o sentido que tem aqui o quarto final de semana depois do Carnaval. Em São João del-Rei vive-se nestes dias, com grande liturgia, sentimentos e sensações, uma das mais emocionantes cenas da Paixão de Cristo. O Encontro de Jesus  coroado de espinhos, e todo machucado,carregando uma grande cruz nas costas, com sua mãe serenamente desolada, cujo coração foi transpassado por quatro espadas de prata. Tudo remonta ao século XVIII. Das imagens e andores, ora enfeitados com manjericão, ora com hortências e orquídeas, até a rosmaninha cheirosa espalhada pelo chão das igrejas barrocas. Do incenso que enfum...

Procissão das Lágrimas. Tradição ímpar da Quaresma em São João del-Rei

Às nove da noite da sexta quinta-feira da Quaresma, o sino dos Passos fez dobres incomuns. Incomuns não fosse para informar à população são-joanense que naquele momento estava se encerrando a celebração do último dia do Setenário das Dores. E também para lembrar que o dia seguinte (sexta sexta-feira da Quaresma), em São João del-Rei é Sexta Feira das Lágrimas, ou da Soledade. E que haverá procissão, de Nossa Senhora das Dores, realizada pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. Mal o sino tocou o último dobre e na Matriz do Pilar - fechadas todas as portas - logo as irmãs e os irmãos dos Passos iniciaram providências e preparativos para a nobre e austera procissão da noite seguinte. A imagem, descida do Calvário montado no altar-mor pelos homens que a levam nos braços para a nave central, é arrumada no andor - as mulheres conferindo com desmedido zelo o vestido roxo, a capa cor da noite, as joias, espadas e o diadema de estrelas. E aos poucos,  mas c...

Quaresma de histórias, memórias, lembranças, quebrantos e encantos em São João del-Rei

Hoje pouco menos, antigamente a Quaresma era um tempo mágico em São João del-Rei. Dias e noites de grande temor, recato e recolhimento, marcados por longos jejuns e principalmente pela abstinência de carne, de todo tipo, nem que fosse apenas na Quarta Feira de Cinzas, em todas as sextas-feiras, na Quarta Feira de Trevas e na Sexta Feira da Paixão. Tempo de silêncio profundo. Os clubes dançantes interrompiam os habituais bailes de todo sábado e as pessoas continham as gargalhadas, evitando até ouvir a velha e nostálgica Rádio São João del-Rei  em volume mais alto. Pode parecer exagero, mas há uns trinta, quarenta anos atrás, era desse jeito, assim! Se por um lado era um tempo nebuloso e de obscuridade, pelo sofrimento, paixão e morte de Jesus Cristo, por outro era um tempo marcado por certa desordem, como tentação provocada pelo Espírito do Mal. Ocorrências misteriosas, comportamentos inexplicáveis, ameaças ocultas, destemperos, acontecimentos insuspeitáveis, muitos deles env...