quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


Se pela beleza, imponência e grandiosidade de suas igrejas os largos do Carmo e de São Francisco são os que, de imediato, sempre encantam, no mês de dezembro é para o Largo do Rosário, no abraço que dá à mais antiga igreja de São João del-Rei, que todos os sentidos se voltam.

O olhar, para ver o belo cenário, iluminado ou natural, coroado pela igreja do Rosário e ponteado por orgulhosos sobradões . Os ouvidos, para escutar a magia que causa arrepios a quem ouve os tencões, terentenas e floreados de Natal, assiste a novena barroca do Menino Jesus e presencia o Te Deum Laudamus cantado no crepúsculo do dia 25 de dezembro. O olfato, para aspirar o perfume das flores que enfeitam os altares e o cheiro do incenso queimado nas brasas dos turíbulos de prata trazendo o céu para o interior daquele templo, construído em 1719. O paladar, para perceber o sabor da hóstia consagrada, que no dia 25 se converte no próprio Jesus Menino, descido dos braços da virgem em visita a todos, na mesa da comunhão. O tato, para o aperto de mãos, para o abraço terno e generoso, para o afago de adoração na criança sagrada.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Presépio da Muxinga é mágico: transforma São João del-Rei em Belém da Judeia. Há 84 anos!


A  Belém da Judeia, que há 84 anos existe em São João del-Rei, na aguda ladeira que os mortos sobem rumo à "sua derradeira morada", não fica em meio ao deserto. Ergue-se à sombra da Serra do Lenheiro, em paisagem absolutamente montanhosa, montanhesa, mineira, são-joanense. É lá que, desde 1929, Jesus, em seu mistério, também nasce.

Na Belém são-joanense, pacificamente, em meio a diminutas ruas e quintais, convivem galinhas, camelos, cavalos, vacas, elefantes, burros, galos, gatos e cachorros. Nela,o  ferreiro forja o ferro que faz o serrote que os serradores usam para serrar a madeira que o marceneiro usa em seu trabalho. Nela, tal qual o milagre dos peixes, o pescador tira da água o alimento que o jacaré deseja, mas que vai para a panela da cozinheira, que antes soca temperos para uma boa muqueca, assistida pela negra, que a tudo espana.

Nela, dois galos brigam, dois meninos brincam na gangorra, Papai Noel embala uma criança no balanço, um carrossel roda, uma roda gigante gira, um atleta se exercita, um homem racha lenha para a mulher negra que fuma cachimbo e vai acender o fogo enquanto outra, com um porrete veloz, espanta um gato que assusta o passarinho na gaiola e o cachorro, enfurecido, persegue o bichano que quer roupar carne. Ao redor, testemunhas vigilantes e em ronda, camelos, carneiros, elefantes e muito mais andam em fila indiana, cercando o que não é jogo do bicho.

Na Belém são-joanense, um velho cachorro assiste, enfadado, a tudo isso, e abre a boca. Nesta Belém, os burros concordam com tudo, acenando com as cabeças orelhudas, e alguns patinhos, inocentes, indiferentes e felizes, nadam circulares em volta da sonolenta tartaruga.

Também nesta Belém, um passarinho espanta de seu ninho o patinho feio, orfabandonado e intruso. Quer alimentar, cuidadoso, apenas seus filhotes. Igual a todo lugar, nesta Belém há um homem solitário, sentado em mesa de bar, consigo mesmo, garrafa e copo. O que lhe fere o peito e faz sangrar o coração, lhe molha os olhos, o que ele bebe, e bebendo engole, ninguém sabe. Tal qual na vida, só ele! E a dor...

Mas nem tudo está perdido, pois no Presépio da Muxinga tem sempre esperança; lá o tempo todo é Natal. Pelo menos na igreja que se destaca no universo urbano de invenção e fantasia, criado à imagem e semelhança da vida doméstica na São João del-rei dos começos 1900. Se fora dela a vida pulsa, flui e escorre, em seu interior, assistidos por anjos, reis magos e pastores, Nossa Senhora e São José embalam enternecidos o sorridente Jesus na mangedoura. 

Mais mágico tudo fica quando alguém, generosamente ou interessado, joga moeda ou nota no cofre fechado - qualquer valor, tanto faz. Por alguns instantes a luz ambiente se apaga e, durante o breve eclipse, a luz elétrica da cidade imaginada se acende em postes e lampiões. Os sinos da igreja tocam, um anjo incensa e a mangedoura balança.

É o mistério do Natal de lembrança e memória eterna para são-joanenses de todos os tempos. No Presépio da Muxinga,que ainda hoje existe atrás da Matriz do Pilar, na subida para o Cemitério das Almas...

Como surgiu o Presépio da Muxinga?

Ah!, isso é conversa pra outro dia!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Natal em São João del-Rei: a "Estrela Guia" já no céu desponta!


Sempre que dezembro chega, São João del-Rei já está olhando para o céu. Lendo na pauta de estrelas a barroca novena de Nossa Senhora da Conceição. Aprendizado muito antigo, do tempo em que a santa, pousada sobre a lua crescente, esmagava a serpente verde, que ainda trazia entre os dentes  pecado vermelho e a maçã que traiu Eva e condenou Adão ao castigo do trabalho: "ganharás o pão de cada dia com o suor do teu rosto!"

Mal Nossa Senhora da Conceição recolhe-se ao seu altar na igreja de São Francisco, voltando do passeio que faz todo dia 8 de dezembro para, em gratidão, homenagear o aniversário da cidade que tanto lhe ama, São João del-Rei volta pela Rua da Prata, atravessa a Ponte do Rosário para de novo afinar seus instrumentos, preparar foguetes e fogos de artifício, lustrar pratarias, aparar velas, encomendar flores. Tudo para adorar, em novena, o sorridente Menino Jesus. Ele gosta tanto desta festa que faz questão de descer dos braços de Nossa Senhora do Rosário para ficar mais perto dos são-joanenses, que emocionados lhe beijam as mãos, os pés e a face no Te Deum do Natal do Senhor, cantado entre repiques de sino, tencões e terentenas, no anoitecer do dia 25 de dezembro.

Se no colonial centro histórico de São João del-Rei  assim que Deus é louvado na graça de seu nascimento, nos bairros do Tejuco, Senhor dos Montes, Bonfim, São Geraldo, São Dimas e outros mais, os "folieiros" enfeitam seus chapéus, esticam o couro das caixas, conferem viola e chocalho, reparam bandeiras e estandartes para que, a partir do dia 25 de dezembro,  até 6 de janeiro, as folias de reis espalhem a esperança de um mundo melhor nos lares pobres e ricos, nas praças e nos asilos, lacrimemocionando a todos, dos soldados em vigília aos bêbados dos botequins.

Na margem das Águas Férreas, boca das Gameleiras, Dona Júlia Lacerda e Senhor Geraldo Eloy, impulsionam à frente as Pastorinhas do Menino Jesus (foto antiga) como luminosas Estrelas-Guia. Por isso, é para eles, e para o folclorista Ulisses Passarelli - arauto das folias e do novo tempo que elas ainda em vão prenunciam - que o almanaque eletrônico Tencões & terentenas dedica esta Folia de Reis, na voz de Pena Branca e Xavantinho.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ainda quando vila, São João del-Rei batizou os irmãos do herói Tiradentes


Ainda hoje, aos olhos de todos, o herói Tiradentes parece um homem solitário, de história isolada, que brotou dos mineiros campos vertentes e lançou sementes de liberdade e esperança sobre montanhas e vales cobertos de ouro e diamantes.

É bem verdade que não teve madrinha, como declara seu registro de batismo, realizado a 12 de novembro de 1746 na capela de São Sebastião do Rio Abaixo e assentado na folha 151 do Livro de Batizados da então matriz da Vila de São João del-Rei, Mas na infância, teve família de numerosos irmãos.

Vários deles também receberam o sacramento do batismo na mesma capela de São Sebastião do Rio Abaixo, entre eles José da Silva Santos, no dia 5 de dezembro de 1747. Passara-se, portanto, um ano e poucos dias depois do batismo do herói sonhador da Inconfidência Mineira.

 José da Silva Santos não só foi batizado em São João del-Rei como também sepultado, no dia 11 de junho de 1833, com quase 86 anos, na igreja do Carmo desta cidade. Tinha posto de capitão.

Sobre o mesmo tema, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/11/sao-joao-del-rei-precisa-valorizar-mais.html
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II. Segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

São João del-Rei: da Guerra dos Emboabas à Guerra do Paraguai


Passados 133 anos desde que os portugueses, inflamados de ódio na Guerra dos Emboabas, incendiaram em 18 de novembro de 1709 o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, São João del-Rei cobriu-se de festa para receber por três dias, com entusiasmo e homenagens, o Barão de Caxias, heroi brasileiro da Guerra do Paraguai.

Por coincidência ou de propósito, em 1842, no dia 11 de setembro, Caxias chegou à cidade pelo mesmo lugar onde o bandeirante Tomé Portes cobrava pedágio pela travessia do caudaloso Rio das Mortes: o Porto Real da Passagem. Dali então, por todo o trajeto, de trechos em trechos era saudado por foguetes e fogos de artifício - recursos sonoros até hoje muito usados em São João del-Rei, frequentemente até várias vezes por dia. De longe a população fica sabendo que em algum lugar não muito distante alguém está comemorando alguma coisa, mas exatamente qual o motivo da alegria, não dá para saber.

Em seu percurso até o centro da cidade, Caxias passou sob vários arcos do triunfo. O primeiro deles, montado em um lugar à época chamado Tabatinga, era rico de símbolos tropicais da natureza brasileira, como frutas, flores, papagaios e até macacos. Displicentemente encostadas nas colunas do arco, duas mulheres, "vestidas"de índias, atiravam flores sobre o nobre visitante.

Na entrada da Ponte da Misericórdia, hoje soterrada nas imediações do Colégio Nossa Senhora das Dores, mais um arco decorativo, inclusive com um coreto para a música. Também enfeitado com ramos e flores, este segundo arco trazia no alto a seguinte mensagem: "Viva o excelentíssimo senhor Barão de Caxias". De lá se projetavam dois  púlpitos, de onde duas meninas jogavam flores sobre o bravo guerreiro.

No caminho, do alto de sacadas enfeitadas, atiravam flores no nobre  barão - artilharia que se completava com foguetes e de fogos de artifício. Na chegada no Largo de São Francisco, foi a vez das continências militares da tropa de São João del-Rei. Seguindo pela Rua da Prata, Caxias atravessou a Ponte do Rosário, seu amplo largo, e a Rua Direita, onde cruzou mais um arco e, de novo, enfrentou uma previsível chuva de pétalas.

Em frente à casa em que se hospedou, o herói encontrou mais um coreto, onde por duas noites houve apresentações musicais. Ainda no primeiro dia, pouco depois de um breve descanso, o homenageado esteve na Matriz do Pilar; lá assistiu um solene Te Deum Laudamos em ação de graças, com orquestra, toque de sinos e exposição do Santíssimo Sacramento. Para encerrar a noite, ainda compareceu a um baile, onde, além de dançar, recebeu das meninas uma coroa de flores, com um cartão e a seguinte mensagem: "Receba, Senhor General, este testemunho de nossa gratidão."

Depois de programação tão intensa quanto extensa, é de se esperar que Caxias tenha reservado o dia 12 para descanso, pois no dia 13 retornou para a Corte, no Rio de Janeiro.

Doze anos depois, o herói da Guerra do Paraguai voltou a São João del-Rei. Desta vez, livre de missões públicas e compromissos oficiais, desejava apenas banhar-se nas frias cachoeiras são-joanenses, o que lhe havia sido recomendado como tratamento de saúde.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

sábado, 1 de dezembro de 2012

À luz do dia, cemitério desapareceu no centro histórico de São João del-Rei


Quem disse que morto não anda? Bem, se anda ou não anda,  isso ninguém ainda não viu, mas que cemitério muda de lugar, ah, isso muda. Pelo menos em São João del-Rei. Duvida? Então veja só:

Ainda não havia acabado o século XIX. Era, mais precisamente, dia 30 de novembro de 1897, quando a Mesa Administrativa da Irmandade da Misericórdia  de São João del-Rei foi convocada para tomar ciência de um documento que trazia um pedido inusitado - o fim imediato de sepultamentos no cemitério daquela irmandade.

Como aquele campo santo ficava em frente à Santa Casa de Misericórdia, bastava atravessar a rua para que o defunto, tendo deixado a vida naquele hospital, chegasse à morada eterna. Então, se morto não incomoda a ninguém - a não ser os que tem a alma apenada - por que tornar mais longa a distância entre este e o outro mundo, levando os mortos para o "Cemitério da Fábrica", que ficava na entrada da cidade, na margem esquerda do Rio das Mortes?

O ofício que, assim como os mortos, também partira da Santa Casa de Misericórdia, ao mesmo tempo em que fazia o pedido, explicava o motivo da solicitação: é que no dia 7 de janeiro do ano seguinte, 1898, seria inaugurado o Colégio de Nossa Senhora das Dores, para acolher meninas em regime de internato. Como o prédio recém-construído ficava parede-e-meia com o Cemitério e como criança, principalmente menina, não costuma ter muita amizade com os mortos...

Diante deste argumento, a Irmandade da Misericórdia não apresentou resistência. Pelo contrário foi misteriosamente rápida em sua ação. Tanto que, segundo o grande historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra, em seu livro Efemérides de São João del-Rei, no dia 23 de dezembro de 1897, portanto menos de um mês depois do pedido, "desapareceu o antigo Cemitério da Santa Casa de Misericórdia."