sexta-feira, 29 de abril de 2011

Com Nhá Chica, novo circuito turístico-religioso poderá começar em São João del-Rei


Antes mesmo de ser beatificada, Nhá Chica já parece voltar seus olhos benignos e misericordiosos para São João del-Rei. E, também, disposta a abrir caminhos para a felicidade de seus conterrâneos, principalmente daqueles que vivem no distrito Rio das Mortes. Isto porque a Diocese de Campanha, há dez anos empenhada no projeto "Caminho de Nhá Chica e do Padre Vitor", viu agora ser aprovada e oficializada a criação de um trajeto turístico relacionado à vida e à obra religiosa dos dois "Servos de Deus".

O mais novo circuito turístico-religioso brasileiro, como não poderia deixar de ser, começa em São João del-Rei, mais precisamente no Rio das Mortes, onde Nhá Chica nasceu e passou a infância; segue para Baependi, onde viveu da adolescência até sua morte; continua em Campanha, terra natal de Padre Vitor, e termina em Três Pontas, cidade onde o sacerdote exerceu seu ministério e faleceu.

Elaborado profissionalmente por uma especialista em patrimônio cultural, o projeto "Caminho de Nhá Chica e do Padre Vitor" parece consistente em seus conceitos, fundamentado em seus objetivos e contextualizado com o momento social, econômico e político do turismo do país. Contempla as novas diretrizes do Plano Nacional de Turismo 2011 - 2014, vislumbra as possibilidades do turismo como atividade geradora de emprego, renda e desenvolvimento, bem como leva em conta o vasto potencial e recursos turísticos da região cortada pelo Caminho.

Entretanto, não se configura como iniciativa centralizadora nem assistencialista, pois delega às próprias comunidades iniciativas e responsabilidades pelas ações a serem implementadas, mantidas e aperfeiçoadas. Mais do que no lucro e no aspecto financeiro do empreendimento, diz centrar-se na dignificação do homem, na prática colaborativa e na valorização da cultura local, para proporcionar ao "caminhante" - seja ele romeiro, peregrino ou turista - uma "experiência interior profunda".

Que Nhá Chica nos ilumine, dê confiança e ânimo, cidadãos e instituições são-joanenses, para aderir com entusiasmo a este projeto, e dele participar ativamente, buscando o desenvolvimento local e a propagação e difusão do nome da Serva de Deus e de sua terra natal.

...............................................................................................................
Fonte: http://www.diocesedacampanha.org.br/component/content/article/39-pagina-inicial/715-caminho-de-nha-chica-e-pe-victor-um-novo-circuito-turistico-religioso.html

Ilustração: Anjo Guia ensina o caminho do Céu a São Tiago de Compostela - Detalhe do forro da nave da Matriz do Pilar de São João del-Rei (Reprodução de parte de antigo programa da Semana Santa)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pai da Música é "patusca"* e vive em São João del-Rei


A arte eterniza, desafia o tempo. Ainda mais a Música, que é etérea - puro sentimento. São João del-Rei sabe isso de cor e tem como prova incontestável o violinista Geraldo Ivon da Silva, o popular Geraldo Patusca.

Às vésperas de completar, em 10 de julho próximo (1911), o seu 95º aniversário, Geraldo Patusca tem de música muito mais do que muita gente bem vivida tem de idadeMais de oitenta anos (exatamente  80 anos, 7 meses e 15 dias) dedicados  a tocar violino na Orquestra Lira Sanjoanense e na Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei. Assim, este são-joanense mulato, místico, religioso e cortês, sempre vestido de terno azul marinho, deve ser um dos músicos mais velhos de Minas Gerais.

Sobre o começo da carreira musical de Geraldo Patusca, quando o violinista completou o seu 80º aniversário, em 1996, o historiador Sebastião de Oliveira Cintra escreveu: " Foi a 15 de setembro de 1930, data do início da Novena de Nossa Senhora das Mercês, que Geraldo Ivon - olhos fitos na Virgem e atento ao maestro Fernando de Souza Caldas - atuou pela primeira vez em público."

 A história deste violinista é extraordinária. Dividia seu tempo entre exercer o impecável ofício de alfaiate, ensinar música e tocar violino na Lira e na Sinfônica. Quando completou 80 anos, mesmo já tendo sido exímio afinador de pianos e professor de Música do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, de São João del-Rei, formou-se no Centro de Ensino SupletivoComo sempre, destacou-se e foi homenageado por seu empenho e entusiasmo, conforme registrou Sebastião Cintra.

Devoto de Nossa Senhora das Mercês e de São Miguel Arcanjo, Geraldo Patusca enviuvou-se duas vezes e não teve filhos. Mas familiares testemunham que, na perda da segunda criança, recém-nascida, ele confortou a primeira esposa, Maria José, dizendo: Maricota, daqui pra frente nossos filhos serão a Música! Era Quinta-feira Santa e naquela noite, no Lava-pés, tocou como ninguém o Solo ao Pregador. Poucos meses depois, aliviada a tristeza, cumprindo o que prometera, ensinou à "patroa" as artes e os segredos da viola. A partir de então, além de cúmplices na vida, tornaram-se também parceiros na música...

Os 95 anos de idade não diminuem de Geraldo Patusca a vitalidade e o interesse. Volta e meia ele é visto aos domingos, na missa das dez, na igreja das Mercês. Nas ruas do centro histórico, também é comum encontrá-lo cumprimentando entusiasmado os conhecidos e mandando recado para os incontáveis afilhados de batismo: " Cumpadre, leve minhas recomendações para fulano; comadre, dê lembranças a sicrano". Isto, para mim, quer dizer: cumpadre, recomendo que fulano seja feliz; comadre, peça a sicrano que não se esqueça de mim...

*patusca - denominação utilizada para designar pessoas antigamente nascidas em Dores de Campos, cidade vizinha a São João del-Rei.
..............................................................................................................
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Justa homenagem ao querido professor de violino Geraldo Ivon da Silva. Jornal Tribuna Sanjoanense / Edição Especial - 23 de julho de 1996, página 3.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

São João del-Rei, terra de todos os santos. Inclusive, oficialmente, terra natal de Nhá Chica


No próximo sábado, 30 de abril, toda a população do distrito são-joanense Rio das Mortes estará vivendo um dia que ficará para sempre na memória local. As 19 horas será lavrado o registro civil tardio de Francisca de Paula de Jesus, a popular Nhá Chica, 201 anos depois de seu nascimento e batismo.

Nascida em São João del-Rei, antes que terminasse a infância, não vivida devido sua condição escrava, a menina Chica mudou-se para Baependi. Lá, com o passar dos anos, tornou-se Nhá Chica - exemplo de elevada religiosidade e de dedicação ao próximo que lhe valeram as denominações "Mãe dos Pobres e Serva de Deus". Sua trajetória de vida humilde e dedicada aos necessitados foi tão grandiosa que atualmente Nhá Chica está em processo de beatificação e canonização no Vaticano.

O registro civil tardio de Francisca de Paula de Jesus - Nhá Chica inegavelmente é um fato memorável, mas será que esgota o que ainda se pode fazer e conhecer sobre Nhá Chica em São João del-Rei? É possível que não. Pelo contrário, é oportunidade para que a intelectualidade são-joanense e as instituições culturais locais, unidas ou isoladamente, desenvolvam estudos que revelem como era a Vila do Rio das Mortes nas primeiras décadas dos anos oitocentos, quando ali nasceu e viveu Nhá Chica, identificar o local preciso de seu nascimento, tentar localizar personagens locais que viveram naquele tempo e a relação que mantiveram com a mãe e avó da menina "Serva de Deus". E até registros materiais e fotografias antigas que retratem, mesmo que em tempo posterior, aquele ambiente.

..........................................................................................................
   * Serviço *  
Para saber mais o que Tencões & terentenas já publicou sobre Nhá Chica, acesse:
* http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/nha-chica-do-rio-das-mortes-caminho-do.html

 * http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/02/nha-chica-enfim-sera-cidada-de-sao-joao.html

Colaboração: Dr. Wainer Ávila

terça-feira, 26 de abril de 2011

São João del-Rei, onde nascem todos os santos. Tende piedade de nós!


A religiosidade barroca faz parte do ar de São João del-Rei, constitui a alma são-joanense. Não apenas quando se reza ofícios, faz novenas e acompanha procissões, mas também ocupa o dia a dia, inclusive como profissão. Imagine que um levantamento simples, feito há 5 meses, identificou 8 santeiros em São João del-Rei. Estes artistas sacralizam pedaços da madeira, ao esculpir neles cristos, madonas, mártires, virgens, santos e anjos, que depois muitas vezes vão para altares e oratórios, tornando-se objetos de devoção e culto.

Tão grande produção artístico-religiosa não fica apenas nas igrejas locais e com colecionadores de São João del-Rei. Muitas peças são produzidas por encomenda, seguem para outros estados e até para outros países, contam, orgulhosos, os santeiros. A arte sacra são-joanense encanta pela sua qualidade, originalidade e fidelidade às técnicas coloniais do ofício, em alguns casos cultivado em família e passado de pai para filho, tanto na escultura quanto na encarnação, douramento e vestimenta.

A criação, recriação e escultura de imagens sacras é hoje, reconhecidamente, uma das mais expressivas produções de arte material na cidade. Tanto que, volta e meia são destaque na mídia nacional, em jornais impressos e em programas de televisão. Afinal, mesmo nas mais famosas cidades históricas nascidas no ciclo do ouro não se encontra quantidade tão expressiva de santeiros nem produção de tamanha qualidade.

A ficção literária diz que Aleijadinho, quando certa vez indagado por que povoava Minas com tantos anjos e santos, irreverentemente respondeu: "eu recrio o paraíso, trago o céu para a terra. Faço tantos santos para afastar os demônios!" Naquele tempo, vivia-se ambição desmesurada de poder e riquezas em uma sociedade pouco evoluída e sem escrúpulos, selvagem diante das exigências da Coroa e de uma lei parcial, tolerante para os abastados e severamente cruel para os "pé-rapados que lambiam embira".

Independentemente das mudanças históricas, econômicas e sociais - como a arte tem o poder mágico de perceber e interpretar as angústias do presente e até de antecipar o que se viverá no futuro -, o certo é que os santeiros de São João del-Rei são visionários. Como agentes do bem, se adiantam criando defensores para os males que já nos afligem hoje e tendem a aumentar,ameaçando nosso amanhã. Santos de São João del-Rei, tende piedade de nós!

Veja nos links abaixo matérias sobre os santeiros de São João del-Rei veiculadas nos seguintes canais:

Correio Braziliense (Brasília)  http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/turismo/2010/12/22/interna_turismo,228846/producao-de-obras-sacras-norteia-roteiro-em-sao-joao-del-rei.shtml

Terra de Minas (TV Globo Minas)
http://g1.globo.com/videos/terra-de-minas/v/conheca-o-trabalho-de-um-escultor-de-sao-joao-del-rei/1469295/#/edições/20110326/page/1


A poesia se debruça nas janelas dos becos de São João del-Rei


Sedutora, São João del-Rei é cidade recatada

Não expõe despudoradamente sua beleza de casas em ruas de discreto desalinho
Igrejas brancas, redondas e soltas passeiam nos largos, que nem pombas
Sua beleza, esconde-a, em cores suaves, furtivamente, atrás de esquinas, 
por entre-becos. Beco da Romeira. Beco do Salto. Beco do Cotovelo. Beco da Escadinha. 
Beco do Rosário. Beco da Matriz. Beco da Muxinga. Beco do Bispo. Beco do Teatro. 
Beco Estreito. O soturno e tenebroso - hoje rebatizado - Beco do Capitão do Mato.
No alto de um morro, sobre uma beta de ouro, Beco Sujo.

Entre portas cerradas, janelas encostadas, o olhar entreaberto tudo vê
O segredo é secreto; todo mundo sabe e ninguém conta, pra ninguém. 
Na cidade suspensa, de tão leve desenho, as sacadas de ferro, sem peso,  
flutuam no vento, arabescos de ar. Terra de sonho só quer iludir, encantar, enganar.

Pra depois, desmanchar o devaneio, lá isso tem: apito de trem, apito de fábrica, 
ouço sino a dobrar, ecos de banda de música, foguetório a o céu estrelar
Tudo de uma janela. Azul. Entreaberta, num entre-beco bucólico, com olhos semicerrados...


Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

       Janela (Adélia Prado)

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira
à-toa pintada, janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora,
monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta       

             (...)

Ô janela com tramela,
brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.

.........................................................................................................
PRADO, Adélia. Janela, in Poesia Reunida. Edições Siciliano. São Paulo: 1991.

Ilustração: Duas sacadas do Solar dos Viegas, em São João del-Rei. (Foto do autor)


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pausas são-joanenses: celebrar é preciso porque a vida não basta!...

São João del-Rei é terra sempre em festa. Assim como o movimento de nosso planeta em torno do Sol demarca o tempo de cada estação, as comemorações pontuam o calendário são-joanense, como um ponteiro a indicar quando e o que se deve viver - e celebrar - para dar mais sentido à existência. Como disse o poeta Ferreira Gullar, "a arte existe porque a vida é pouco..."

Cumpridos o Carnaval, a Quaresma e a Semana Santa, a cidade em breve começa a se preparar para novos ciclos comemorativos, sejam eles de finalidade religiosa, cívica, social ou simplesmente para festejar.

Como pausa, na lembrança do ciclo mais recente, um poema de Adélia Prado:

Ovos da Páscoa

O ovo não cabe em si,
túrgido de promessa,
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil
guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.

....................................................................................................
PRADO, Adélia - Ovos da Páscoa, in Poesia Reunida. Edições Siciliano. São Paulo: 1991.
Ilustração: entardecer no jardim do Pelourinho / Largo da Câmara, tendo ao fundo o solar do Barão de Itambé, uma capela-passo e a igreja das Mercês. (Foto do autor).

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Semana Santa de São João del-Rei - Procissão do Senhor Morto revive de Adão e Eva a Jesus Cristo

Seria possível juntar, na escadaria da igreja das Mercês de São João del-Rei, milênios de história,  colocando em sequência cronológica Adão e Eva, Abraão, Moisés, Davi, Salomão, Judith, os profetas, a Fé, a Esperança, a Caridade, Samaritana, os apóstolos, a guarda romana da época de Cristo, José de Arimatéia, Nicodemos e muitos outras virtudes e personagens bíblicos? Na Procissão do Senhor Morto, ou Procissão do Enterro do Senhor, de São João del-Rei, sim.

Não só eles se concentram ao pé de Jesus crucificado entre dois ladrões, no cenário que reproduz o calvário, quanto desfilam pelas ruas estreitas, curvas e comprida e cumpridas da velha cidade, no ritmo da Marcha da Paixão e ao som de matracas, parando sete vezes para ouvir Verônica cantar seu lamento e mostrar, para todos, estampada em seu sudário, a face ensanguentada de Cristo.

A Procissão do Senhor Morto é o ponto alto das celebrações da Semana Santa em São João del-Rei. Sua encenação é tão barroca, de simbolismos tão perfeitos, que ao vê-la, a impressão que se tem é que o Velho Testamento foi vivificado e temporariamente virou realidade nas ruas de São João del-Rei.

Os vídeos abaixo, copiados do Youtube, mostram alguns aspectos da Sexta Feira Santa em São João del-Rei.








Sexta Feira da Paixão - o dia maior da Semana Santa de São João del-Rei


Quem puder, não perca. Reserve todo o dia da próxima sexta-feira (22 de abril) para acompanhar as cerimônias religiosas que serão realizadas na Matriz do Pilar de São João del-Rei. Será uma imersão no século XVIII, transitando por um universo de religiosidade, fé, arte, emoção e cultura.

As celebrações começam com o Ofício de Trevas, a partir das 8h30. Muito semelhante ao realizado na noite da Quarta Feira de Trevas, consiste no canto orações, salmos e leituras e responsórios, em ritmos musicais que alternam canto gregoriano, música barroca e um ritmo próprio, só existente em São João del-Rei. O Ofício de Trevas dura mais de duas horas e o relógio é um grande castiçal triangular de 15 velas, que gradativamente vão sendo apagadas uma a uma, à medida que a cerimônia vai se completando, até que, atingida a total escuridão, a Orquestra Ribeiro Bastos canta o Christus factus est, o bispo reza o Pai Nosso e o público presente bate com força os pés no chão.

Pouco depois do meio-dia, começa o Sermão das Sete Palavras, no qual  o sacerdote celebrante discorre sobre as sete últimas palavras ditas por Jesus na cruz e a orquestra executa, para cada uma, um moteto sacro e uma composição barroca relativa ao que o padre dirá. O Sermão das Sete Palavras é feito com a igreja às escuras, o que aumenta ainda mais a concentração dos fiéis e o tom dramático da pregação, geralmente cheia de interjeições e exemplos, que vão do Velho Testamento até os dias atuais.

Findo o Sermão das Sete Palavras, imediatamente começa a Liturgia da Palavra, cujo ponto alto é o Canto do Evangelho, feito teatralmente por três padres, com a participação da Orquestra Ribeiro Bastos. O final deste canto é enternecedor, narrando a descida do corpo de Jesus da cruz, seu embalsamento e sepultamento.

Sensibilizado pela Liturgia da Palavra, os fiéis participam da Adoração da Cruz - um momento de grande sentimento e emoção, que é marcado, inclusive, por uma versão especial do Canto da Verônica, quando a personagem, à frente do altar, canta seu lamento e abre o Sudário, mostrando para todos a estampa da face ensanguentada de Jesus. Nesta hora, entra na capela-mor um grande crucificado coberto de roxo, é posto no chão e por diversas vezes levantado ao alto para que uma parte do seu corpo seja descoberto. Primeiro o rosto, depois o braço direito, em seguida o esquerdo, finalmente o corpo e os pés.

A cada um destes quatro atos os padres entoam uma antífona e a orquestra responde Venite Adoremus, chamando o povo à adoração. Então a cruz percorre deitada toda a igreja, para que os fiéis respeitosamente lhe beijem e toquem. É um momento de grande comoção, no qual a emoção corrente transforma a imagem do crucificado em um corpo sem vida, objeto de grande amor humano, não sendo difícil para os fiéis, por suas próprias dores e aflições, ver-se no lugar do crucificado e vivenciar não só a paixão e a compaixão, mas também a auto-compaixão. O sentimento é tão forte que sente-se frio nesta hora e  profunda solidão na alma. Os únicos sons que se ouve são moedas caindo nas salvas (bandejas) de prata e as músicas barrocas cantadas pela Orquestra, compostas no século XVIII porconsagrados autores de São João del-Rei e da região. Em geral, lamentos que falam do sofrimento de Cristo, das dores de Nossa Senhora, da traição de Judas.

Encerrando a programação da tarde no interior da Matriz do Pilar, é distribuída a comunhão, enquanto a Orquestra Ribeiro Bastos executa as peças finais compostas para as cerimônias internas da Sexta-Feira da Paixão. Nesta hora, o entardecer já está adiantado. Os últimos raios de sol escapam por cima da Serra do Lenheiro, o Calvário já está montado na escadaria das igreja das Mercês e a grande lua cheia desponta do lado direito da igreja de São Francisco.

Ouça, abaixo, neste vídeo copiado do Youtube, uma peça musical executada durante o Sermão das Sete Palavras em São João del-Rei na Semana Santa de 2010.


Neste segundo vídeo, veja em apresentação de fotos diversos aspectos da Semana Santa são-joanense, do Ofício de Trevas à Procissão do Enterro, inclusive os belos tapetes artístico-processionais, feitos com areia, serragem, sementes e flores.

........................................................................................................
Ilustração: Cristo sostenido por dos angeles, de Francisco Ribalta. Reprodução de material de divulgação da exposição Esplendores de Espanha / 2000

Magias, segredos, encantamentos e mistérios na Semana Santa de São João del-Rei

Período marcado pela religiosidade, a Quaresma e a Semana Santa de São João del-Rei, antigamente, eram um tempo cercado por mistérios indecifráveis.Uma atmosfera de restrições, temores, crenças e superstições predominava entre as pessoas mais simples, por acreditarem que nesta época as relações mágicas entre os universos do Bem e do Mal estavam desequilibradas, afetando os homens, a natureza, enfim a ordem universal.

Era comum ouvir dizer que na Quaresma o Diabo estava solto na terra, tentando Jesus e perturbando os homens, provocando o acontecimento de coisas sobrenaturais. Por isso se rezava mais e com mais fervor, se fazia sacrifícios e se impunham diversas restrições. Fantasmas, assombrações, o Inimigo, tudo frequentava livremente o mundo dos vivos, pondo à prova a fé e a fidelidade humana a Deus. Tornando mais fértil a imaginação e a criatividade, facilitava o surgimento de muitas lendas e de um sem fim de crendices, que tornaram-se simpatias e se difundiram amplamente, sendo praticadas principalmente pelos mais crédulos, pessoas místicas e no meio rural.

Com o passar do tempo, a urbanização, a modernização dos costumes, a mudança de valores, a disseminação da informação, a democratização do processo educacional, o crescimento das religiões evangélicas, a evolução socioeconômico-cultural e o avanço científico alteraram substancialmente a forma como o homem vê o mundo e interpreta a realidade. Assim, exceto para os que ainda hoje se mantêm muito fervorosos, a Quaresma tornou-se um tempo extremamente comum. O universo fantástico que ela representava, totalmente desconhecido dos mais jovens, hoje nada mais é do que uma saudosa lembrança para os mais vividos. Ficou no passado, trocado pelo progresso e pelo desenvolvimento...

Entretanto, por mais que estejamos convencidos disso, a realidade nos leva a fazer uma pergunta: por que, neste período que se encerra na Sexta Feira da Paixão, mais claramente vemos mostras de crenças e práticas mágicas nos cruzeiros, esquinas e encruzilhadas da  religiosa São João del-Rei?

.......................................................................................................
Ilustração: Cristo na coluna (acervo do Museu de Arte Sacra de São João del-Rei) / reprodução da capa de antigo folder do MAS

Semana Santa 2011 - Pange Lingua! Um hino da Quinta Feira Santa em São João del-Rei

Um dia de espírito mais leve, mas com celebrações que acontecem de manhã, de tarde e de noite. Assim é a Quinta Feira Santa em São João del-Rei. Há em tudo um certo ar de alegria religiosa, principalmene na Missa da Consagração dos Santos Óleos e na primeira parte da Missa da Ceia do Senhor, diferentemente dos atos litúrgicos que são realizados na Quarta Feira de Trevas, na Sexta Feira da Paixão e na manhã do Sábado de Aleluia. Todos eles são marcados pelo sentimento mais contrito de arrependimento, sofrimento e dor.

A Missa dos Santos Óleos, celebrada solenemente pelo bispo no período da manhã, tem a participação de todos os padres da Diocese de São João del-Rei e, em grandes vasos de prata, consagra os óleos que serão utilizados durante todo o ano para ministrar os sacramentos do Batismo, Crisma e Unção dos Enfermos.

À tarde, a Missa da Ceia do Senhor é sempre uma obra musical do tempo da Colônia ou do Império, em geral de compositores da região. Ao Glória, todos os sinos da Matriz do Pilar dobram festivamente e, em seguida, ficam mudos até que, novamente no Glória da Missa da Aleluia, anunciam a Ressurreição do Senhor. A partir da leitura do Evangelho, quando se narra a última ceia de Cristo - momento em que Jesus anunciou aos discípulos a traição de Judas e instituiu a Eucaristia -, a missa começa a ganhar ares melancólicos, preparando emocionalmente os fiéis para as solenidades que se sucederão.

Complementando, em sequência, esta missa, num ato litúrgico barroco único no país, o Santíssimo Sacramento sai em procissão dentro da própria igreja, guarnecido pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, até a capela, onde fica em adoração permanente até o momento da comunhão da Sexta Feira Santa. Durante o percurso, a Orquestra Ribeiro Bastos, dividida em dois coros, canta o Pange Língua (vídeos abaixo) - um moteto sacro setecentista, que dá ao ritual uma atmosfera de grande elevação, quase sobrehumana.

Entrar na Capela do Santíssimo Sacramento de São João del-Rei na Quinta Feira Santa é como entrar no Céu em dia de festa, tamanha a beleza do lugar. Pequena, com acesso externo pelo lado esquerdo Matriz doPilar e interno pela nave principal, neste dia é completamente enfeitada com cortinas de renda e  flores delicadas, desde a porta até o altar, onde a beleza é tão estonteante, que quase nos constrange ou desconcerta. Orquídeas, antúrios, e muitas outras flores delicadas se juntam a cascatas de samanbaias. Anjos dourados guarnecem o ambiente, carregando candelabros com altas velas e em posição de adoração. A tudo isso se junta o perfume do incenso e o som das orações, feitas em voz alta, em coro, pelos adoradores, dia e noite, transformando aquele ambiente em um espaço sem igual, impossível de ser descrito.



Na Semana Santa de São João del-Rei, sinos já chamam para o Ofício Noturno de Trevas

Em São João del-Rei, várias vezes no dia de hoje, os sinos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz do Pilar dobram vigorosamente, anunciando que é Quarta Feira de Trevas e chamando a população são-joanense para o Ofício barroco que será realizado à noite, com cânticos, orações e salmos que confortam pela passagem do sofrimento e morte de Cristo.

Ofício de Trevas marca Semana Santa de São João del-Rei


Nesta quarta feira, dia 20, a partir das 19 horas, a Matriz do Pilar de São João del-Rei estará lotada. Pessoas de todas as idades, são-joanenses, visitantes e turistas, todos em silêncio, acompanhando por duas horas o Ofício de Trevas. A tradição tem mais de duzentos anos e São João del-Rei faz questão de mantê-la, sendo a única cidade do Brasil e do mundo, a preservá-la, quase do mesmo jeito como era realizada no período colonial.

Musicalmente, o Ofício de Trevas é uma cerimônia muito sofisticada e rica. Os cantos gregorianos fazem lembrar a oração dos monges nos conventos nos tempos medievais; os responsórios barrocos revelam o requinte e o esplendor do tempo do ouro e a música peculiar, só executada nestes ofícios, cheia de curvas e espirais, alegoricamente bem pode ser considerada a face "rococó" da sonoridade de São João del-Rei.

O Ofício de Trevas é uma liturgia densa, dramática. Todo cantado, reúne leituras, lamentações, comentários, salmos, orações e responsórios, dispostos em duas partes sequenciais - Matinas e Laudes. À medida que a cerimônia vai transcorrendo, as luzes da igreja, tanto os lustres quanto as velas, vão sendo apagadas até que, alcançada a escuridão, os fiéis batem com força os pés no chão, para lembrar a morte e a ressureição de Jesus.

Por encantar a todos que o assistem, é grande o número de vídeos postados no Youtube para divulgar vários cantos e responsórios do Ofício de Trevas. Sem dúvida, os são-joanenses e turistas que os postam estão prestando importante serviço de ampliar mundialmente a divulgação do patrimônio cultural de São João del-Rei.  Ao mesmo tempo, estão colaborando com pessoas que se interessam por temas relacionados à música e à religiosidade barroca no Brasil durante o período colonial, inclusive contribuindo para o desenvolvimento de estudos científicas e produções culturais sobre o tema.

Veja, nos vídeos abaixo, diferentes momentos dos Ofícios de Trevas de São João del-Rei.





segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lembranças do Bicentenário da Inconfidência Mineira em São João del-Rei



Em 1992, o projeto 200 Sonhos de Liberdade, desenvolvido em São João del-Rei para comemorar os duzentos anos da Inconfidência Mineira, incluiu, em sua programação, um evento destinado a - já naquela época - chamar a atenção nacional para a importância de um patrimônio imaterial são-joanense muito singular: o toque dos sinos.

Assim, ao meio dia de 21 de abril de 1992, todos os sinos das igrejas do centro histórico de São João del-Rei dobraram em exéquias ao herói Tiradentes. Na ocasião, uma solenidade cívica (foto acima) homenageou Tiradentes e Tancredo Neves, no adro da igreja de São Francisco de Assis, com participação de personalidades importantes da vida brasileira, entre elas o então vice-presidente Itamar Franco, Dona Risoleta Neves, o cardeal Dom Lucas Moreira Neves e o governador Eduardo Azeredo.

.............................................................
Sobre o mesmo tema, leia também
Foto: Acervo do autor

Na Semana Santa de São João del-Rei, Ofícios de Trevas confortam Jesus e os fiéis

Daqui a duas noites, na próxima quarta-feira, dia 20, São João del-Rei está vivendo uma das mais tradicionais, conhecidas e esperadas cerimônias de sua Semana Santa: o Ofício de Trevas.

Singular e ímpar em todo o mundo, foi composto pelo compositor são-joanense Padre José Maria Xavier e é executado na cidade há mais de duzentos anos, na Quarta Feira Santa, na Sexta Feira da Paixão e no Sábado de Aleluia. O Ofício de Trevas dura aproximadamente duas horas, é todo cantado e sua parte musical mistura responsórios barrocos, canto gregoriano e música própria esta celebração.

Composto de duas partes - Matinas e Laudes - o Ofício de Trevas entoa orações, leituras e cantos que rememoram e refletem sobre a Paixão de Cristo, as lamentações do Profeta Jeremias, vários Salmos,  e leituras de texto de doutores da Igreja, como Santo Agostinho. Na tradição local, sugere-se que aquelas orações  expressam os sentimentos que animaram e confortaram Jesus durante os últimos dias de sua vida.

Justificando o nome, uma das características do Ofício de Trevas é que, à medida que a cerimônia vai transcorrendo, as luzes e velas da Matriz do Pilar vão se apagando, até a igreja ficar totalmente às escuras. Nesta hora, as pessoas batem os pés no chão com força, fazendo um ruído que popularmente simboliza o tremor que sacudiu a terra no momento da morte de Jesus. Na verdade, liturgicamente significa a ressurreição do Senhor.

No vídeo abaixo, copiado do Youtube, um belo momento do Ofício de Trevas cantado no Sábado Santo de 2007 em São João del-Rei.

domingo, 17 de abril de 2011

Contrição barroca extremada na Semana Santa de São João del-Rei


Para vivenciar um pouco a densidade trágica extremada e a força barroca da Missa de Ramos celebrada em São João del-Rei nesta manhã, conheça - em latim e em português - o texto de dois cantos sacros tradicionais (composição do são-joanense Padre José Maria Xavier?) executados pela Orquestra Ribeiro Bastos:

(Durante a subida do bispo e celebrantes ao altar)
 
Domine, ne longe fácias auxilium tuum a me
Ad defensiónem meam aspice / libera me de ore leónis
et a córnibus unicórnium humilitátem mean.

(Senhor, não retireis de mim o vosso auxílio
vinde em meu socorro / livrai-me da boca do leão
e salvai minha pobre vida dos chifres dos unicórnios.)
...................................
(Durante o Ofertório)
 
Impropérium exspectávit dor meum, et misériam:
et sustinui qui simul mecum contristarétur, ent non fuit:
consolátem me quaesívit, et non invéni:
et dedérunt in éscam mean fel, et in siti mea potavérunt.

(O opróbrio e as humilhações me dilaceram o coração:
esperei que alguém se compadecesse de mim e não houve ninguém:
procurei quem me consolasse e não encontrei:
deram-me fel a comer e vinagre para matar a sede)
.............................................................................
Imagem: Cristo na coluna, altar lateral da igreja do Carmo de São João del-Rei. Foto do autor



Semana Santa 2011 - É Domingo de Ramos em São João del-Rei

Hoje, o domingo começa diferente em São João del-Rei. É Domingo de Ramos, que abre a Semana Maior. Daqui a pouco, por volta das 8 horas, os sinos da igreja do Rosário, do alto de suas torres, dobram supremos sobre os das demais igrejas, repetindo secularmente um toque barroco que só é feito neste dia do calendário litúrgico: o domingo que lembra a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém.

Entrada triunfante? Para quem muito se envolve com a Semana Santa de São João del-Rei, não é bem assim. O Domingo de Ramos tem em seu ar, em sua temperatura, em sua luz, uma densidade de angústia e um clima de infortúnio. É dia de festa, de glória, mas não tem alegria.

Lembrando Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Marques, em tudo se respira a predestinada Paixão, o prenúncio da morte de Cristo. O toque dos sinos, a expressão da face da imagem do Senhor do Triunfo, as antífonas, os ofícios, o canto do Evangelho segundo São Mateus - em tudo há o torpor e a emoção de uma dor que é irrecusável. Pater mi, se possibile est, transeat a mi calix iste; veruntament non sicut ego volo, sed sicut tu, (Pai, se possível, afasta-me este cálice, mas que não se faça a minha vontade e sim a Sua) teria dito Jesus no Monte das Oliveiras quando o Anjo lhe trouxe para beber o cálice da amargura.

Descendo de volta do Getsêmani para São João del-Rei - do ano 33 d.C. para 2011 - no Largo do Rosário os sinos tocam pungentes e compassados. Dentro da igreja o bispo benze os ramos, o coro da Orquestra Ribeiro Bastos entoa  motetos barrocos e a procissão sai, langorosa, rumo à Matriz do Pilar. As pessoas, em alas, carregam palmas. No andor enfeitado, Senhor do Triunfo, com seu manto vermelho e também carregando uma palma, estaticamente acena para o povo. Saudando-o logo na entrada, a orquestra canta em latim salmos que pedem misericórdia, complascência, proteção e amparo. Em seguida começa a missa cantada, composta no século XVIII, de Evangelho longo e cantado teatralmente alternando orquestra e três padres, em latim. A cerimônia consterna, sobretudo quando relata quando os soldados lançaram sortes sobre a túnica de Jesus, o último suspiro de Jesus, seu embalsamamento, sepultamento e lacre do túmulo com uma pesada pedra.

Quando vai cair a noite, Senhor do Triunfo novamente sai em procissão, por um percurso mais longo do centro histórico de São João del-Rei. De tempos em tempos o coro da Orquestra canta motetos de louvor; os sinos tocam festivos, mas o cortejo, grave, anda depressa, até entrar outra vez na Matriz do Pilar. A partir de então, até o Sábado de Aleluia, só o sofrimento de Jesus...


Veja, nos vídeos abaixo, copiados do Youtube, dois momentos diferentes do Domingo de Ramos em São João del-Rei, marcados pelos toques dos sinos: o primeiro, durante a bênção dos ramos; o segundo, na "chamada" do meio-dia.



.........................................................................................................
   *   Serviço  *  
9h30 - Igreja do Rosário - Bênção de Ramos e saída da Procissão para a Matriz do Pilar
10h - Matriz do Pilar -Missa de Ramos (ouça no link http://www.radiosaojoaodelrei.am.br/)
18h - Matriz do Pilar - Procissão de Ramos


sábado, 16 de abril de 2011

A Semana Santa de São João del-Rei pelo mundo afora. Tão longe, tão perto ...

É comum pensar que pouco registro existe da riqueza cultural viva de São João del-Rei. Que poucos são os trabalhos que documentam as tradições religiosas, nos aspectos estéticos, artísticos, sociológicos e antropológicos. Isto é engano, felizmente!...

Navegando na internet, é fácil encontrar grande número de documentários, audiovisuais, apresentações, clips e imagens estáticas e em movimento, com e sem som, registrando procissões, ofícios, toques de sinos, vias sacras, novenas e um sem-fim de manifestações e rituais são-joanenses. Tudo produção autônoma, ou como se dizia antigamente, "produção independente".

Entretanto, por estarem dispersas devido à falta de uma instituição que as catalogue e divulgue, é que se tem a falsa idéia de que é inexpressiva a produção documental visual da cultura material e imaterial de São João del-Rei. Apesar de já existirem alguns esforços autônomos neste sentido (registre-se o trabalho da Atitude Cultural e mesmo deste almanaque eletrônico Tencões & terentenas), é grande a necessidade de que alguma instituição pública se encarregue oficialmente desta tarefa, criando e alimentando um catálogo eletrônico, disponível pela internet.

Um exemplo? Acessem http://www.artificestudio.com.br/blog/?p=570 e conheçam um documentário fotográfico precioso de uma Via Sacra Solene, realizada em março deste ano, em São João del-Rei. Mesmo lançado ao mundo pela internet, nem sempre é facilmente encontrado por quem deseja rever, conhecer ou estudar o patrimônio cultural de São João del-Rei.
....................................................................................................
Crédito da foto: reprodução de imagem do documentário Quaresma 2011 - Via Sacra Solene, produzido por Artífice Studio (Regina Ávila e Alisson Macedo), divulgado no endereço eletrônico acima em 19/03/2011

Semana Santa em São João del-Rei: tempo de acender chamas, reavivar brasas, iluminar amizades....

É tradição dos são-joanenses passar a Semana Santa em São João del-Rei. Rever a família, reencontrar os amigos, mas, principalmente, beber na fonte das tradições da Semana Santa para reavivar referências culturais que norteiam o seu pensar, sentir e viver.

Quando retornam à cidade, nesta época, é sensação dos são-joanenses que o tempo não passou. Que ninguém envelheceu. A paisagem da infância re-encontrada, vivificada no ambiente sacro das procissões, faz crer que somos todos meninos, senhores daquelas ruas, daqueles largos, mas também dos becos. Cúmplices dos mesmos sonhos, heróis das mesmas esperanças, devotos da mesma utopia..

Quem mora em São João del-rei, vive a Semana Santa. Quem volta à cidade, revive-a. Isto muito contribui para que a Semana Santa de São João del-Rei não perca sua autenticidade de cultura viva, mas, ao contrário, preserva-a dos riscos de tornar-se cultura-espetáculo, representação para turistas, ou, no ditado popular, "para inglês ver". Em São João del-Rei, o patrimônio cultural é vivo, faz parte da vida.


Os cidadãos são-joanenses que vivem na terra natal sabem disso e, participando de tudo, mantêm acesa a brasa da memória. Os que vêm de fora para fazer parte das celebrações certamente se enriquecem mais quando, sabiamente, buscam nesta oportunidade reavivar e fortalecer a chama que aquece e ilumina sua identidade cultural. Visibilidade é só consequência...

............................................................
Enquanto aguardamos os amigos que iremos encontrar, ouçamos

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Você quer ver como era a Semana Santa de São João del-Rei há mais de cinquenta anos?


São João del-Rei é fiel a seu passado e, há trezentos anos guarda, com zelo e gozo, suas tradições religiosas. Se na paisagem urbana do centro histórico houve algumas perdas e descaracterizações, em contrapartida a cultura viva permaneceu quase inalterada. Isto é raro, pois, grosso modo, cultura imaterial é patrimônio frágil, fácil de ir se transformando de geração em geração, até afastar-se completamente de sua origem para tornar-se irreconhecível e ser extinto, desaparecer.

Desde o século XVIII até nossos dias, a cultura são-joanense é passada de pai para fílho mas - especialmente nos últimos anos - vem sendo transmitida dos "mayores" para os mais jovens, independentemente de laços familiares e por amor à tradição. Nas irmandades, nas orquestras, nas torres dos sinos é assim. Deste modo, mesmo originária do período colonial, a cultura de São João del-Rei continua viva, atualizada, contemporânea.

Há muito tempo o Brasil tem esta consciência em relação à nossa cidade. O filme Relíquia de um Passado Presente ( vídeo abaixo, copiado do Youtube). Pertencente ao acervo do Arquivo Nacional, é um documento valioso, gravado em 1957 (estava terminando a construção do Edifício São João?), que registra a Semana Santa de 53 anos atrás, em especial as liturgias da Quinta Feira Santa (Missa Solene, Traslado para a Capela do Santíssimo Sacramento e Lava-Pés), da Sexta Feira da Paixão (Ofício de Trevas, Adoração da Cruz, Descendimento do Senhor Morto e Procissão do Enterro, com figurados e Verônica) e do Domingo da Ressurreição. Pena que não possui som, provavelmente por não ter sido concluída a montagem.

Na Semana Santa de São João del-Rei, hoje tem Procissão das Lágrimas

No anoitecer desta sexta-feira, 15 de abril, o espírito de São João del-Rei, religiosamente, se perturbará, em silêncio, para dentro da própria alma. Será a noite da Soledade de Nossa Senhora, quando acontecerá a Procissão das Lágrimas, nome hoje em desuso, mas muito adequado para o que se rememora: a volta da mãe de Jesus do Monte Calvário para casa, relembrando todo o sofrimento do filho e vivendo, resignada e na plenitude, a própria dor.

O andor de Nossa Senhora das Dores que circulará as ruas do centro histórico de São João del-Rei nesta noite é absolutamente austero, quase árido. Apenas arnica - planta medicinal usada em infusão no alcool para aliviar dores musculares, entorses e contusões - discretamente se espalha sobre a madeira, desprovida de sanefas roxas e galões dourados.

Nossa Senhora vai envolta apenas de solidão e dor, parando contemplativa nas cinco capelas-passo da Paixão. Em cada uma, a Orquestra Ribeiro Bastos canta  motetos saudosos, vários deles inspirados nas lamentações do profeta Jeremias. O mistério é tamanho que, quem se compenetrar, terá a impressão que o canto não quer transpassar o silêncio nem se espalhar pela noite. Muito envolvimento, respeito e fé. As celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Setenário das Dores e a Semana Santa de São João del-Rei tem estas coisas.

Antes de recolher-se por mais um ano na catedral basílica de Nossa Senhora do Pilar (vídeo abaixo), Senhora das Dores pára diante do grande oratório da Piedade e, como a mirar-se a si própria em espelho imaginário, contempla a outra imagem, que está no alto do altar, ao pé da cruz, com Cristo morto em seu colo. Esta, portuguesa, veio para São João del-Rei no século XVIII.

Até alguns anos atrás, somente na sexta feira da Soledade o Passinho da Piedade era aberto. Agora, ele fica aberto para contemplação de fiéis e turistas também na Quinta Feira Santa e na Sexta Feira da Paixão. Mas não é a mesma coisa, pois nestes dois dias o oratório é como um belo e grande retrato na parede da paisagem do Largo do Rosário. Não tem a função de espaço sagrado que desempenha na Procissão das Lágrimas.



......................................................................................................
  *  Serviço  * 
15 de abril - Às 19h, na Matriz do Pilar, missa com participação da Orquestra Ribeiro Bastos e, em seguida, Procissão das Lágrimas, pelas ruas do centro histórico.

Ilustração: imagem portuguesa de Nossa Senhora da Piedade, exposta no passinho do Largo do Rosário. Reprodução editada (detalhe) de foto contida em antigo folder do Museu de Arte Sacra de São João del -Rei

  * Para ler mais sobre este tema acesse    

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Inconfidência Mineira: São João del-Rei tem sonhos de liberdade. Ressuscita-os!


São João del-Rei tem orgulho de ser berço da Inconfidência Mineira. Em 1746, na então Vila de São João del-Rei, nasceu e foi batizado o herói Tiradentes. Também aqui nasceu e foi batizada, na matriz  do Pilar, Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, assim como nesta cidade, à época, viveram alguns inconfidentes.

Em 1992, quando nacionalmente se comemorava o Bicentenário da Inconfidência Mineira, para homenagear a memória do herói Tiradentes, São João del-Rei desenvolveu o projeto 1792 - 1992: 200 sonhos de Liberdade, declarando a gratidão da terra natal ao filho ilustre  e materializando este reconhecimento com um marco de pedra, assentado no Largo Tamandaré, em frente ao Museu Regional. Realizada às 10 horas da manhã do dia 21 de abril daquele ano, a solenidade foi prestigiada por importantes autoridades civis, militares e eclesiásticas, entre elas o cardeal Primaz do Brasil, Dom Lucas Moreira Neves; o então vice-presidente da República, Itamar Franco; o procurador geral da República, Aristides Junqueira; o ministro Severo Gomes; o governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo; o hoje senador Aécio Neves e muitos outros políticos, assim como também intelectuais e artistas.

O tempo é cruel para todos; não poupa nem os monumentos. Assim, por pouca conservação, o marco de pedra que tem a missão de perenizar a passagem do Bicentenário da Inconfidência Mineira em São João del-Rei perdeu sua parte superior, que era uma pirâmide triangular, sustentada por três esferas. Hoje, resta apenas a coluna quadrangular da alta base, sobre poucos degraus. Uma pena...

Agora, que foi instituído o Dia da Liberdade, a ser comemorado todo 12 de novembro - data do batismo de Tiradentes - promover a restauração do marco, reconstituindo-lhe o elemento superior, seria um modo das instituições públicas e privadas são-joanenses demonstrarem seu  amor e seu compromisso com os ideais libertários e com a memória do mártir Joaquim José da Silva Xavier.

.....................................................................................................
Fotos: Inauração do maro alusivo às comemorações do Bicentenário da Inconfidência Mineira em São João del-Rei (acervo do autor)