segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

São João del-Rei: do barro ao barroco

A versatilidade e a criatividade dos artistas são-joanenses mostram como o universo mítico-cultural de São João del-Rei é generoso para quem se expressa por meio da arte. Esta é a conclusão a que chega quem conhece  a produção do artista Marcos Mazzoni, nascido em 1932 e reconhecido nacional e internacionalmente por suas obras em museus brasileiros e europeus. Marcos Mazzoni, tempos atrás, participou da Bienal Internacional de São Paulo e do Salão de Arte Internacional de Bruxelas, na Bélgica.

Em nossa cidade, uma exposição individual temática sobre a Inconfidência Mineira integrou a programação do projeto 1792 – 1992: 200 sonhos de liberdade, alusiva ao bicentenário do sacrifício de Tiradentes. Nela, entre 15 de abril e 15 de maio de 1992, no Museu Regional, Mazzoni expôs esculturas em cerâmica, pinturas, instalações, símbolos e objetos, reverenciando um dos mais importantes movimentos libertários do país. Na ocasião, ele confessou que sua linguagem escultórica se inspirava nos “blocos de cabeções”, próprios do carnaval são-joanense de sua infância.

O envolvimento do artista com a Inconfidência Mineira era tamanho que rendeu-lhe a alcunha de “inconfidente contemporâneo” e até a casa onde residiu, em Belo Horizonte, era a representação da Arcádia: símbolos mineiros, setecentistas, inconfidentes espalhavam-se pelos muros, revestiam paredes e apareciam entalhados até no assoalho e no teto.

Recentemente a casa de Marcos Mazzoni foi tema do programa Terra de Minas, que você pode assistir no link http://g1.globo.com/videos/terra-de-minas/v/terra-de-minas-visita-uma-casa-em-bh-onde-ha-muitas-obras-de-arte/1411415/

Fonte: folder da exposição 1792 – 1992: 200 sonhos de liberdade

sábado, 29 de janeiro de 2011

São João del-Rei "sobre importâncias"


Daqui a alguns dez minutos será domingo. Dia que nos lembra o descanso de Deus, depois de criar céu, terra e tudo que neles há. Antigamente, o domingo era marcado por missa, almoço em família, guaraná, tutu, macarronada com queijo ralado, frango ao molho, visita aos parentes, passeio na avenida. Quem, entre os antigos, nunca foi, tempos atrás, em passeio ao alto do Cristo, soltar papagaios coloridos, chupar laranja e espiar a cidade, na lerdeza dominical e azul das três da tarde?

Hoje, para muitos, tempos  duros e desiguais, mesmo em São João del-Rei há quem não descanse nunca. Para muitos, mesmo em São João del-Rei, o trabalho não tem pausa. Nem aos domingos. Há até quem nem perceba que é dia de folga, Dia do Senhor. Mas no fundo do peito, há em todos um sentimento dormente, pulsando como um sonho de fim e recomeço. Como um desejo de paz, poesia e música. Para todos vão, abaixo, um poema e uma canção, com cheiro de domingo...

Sobre importâncias* (Manoel de Barros)

Um fotógrafo-artista me disse certa vez:
veja que pingo de sol no couro de um lagarto é
para nós mais importante do que o sol inteiro
no corpo do mar. Falou mais: que a importância
de uma coisa não se mede com fita métrica nem
com balanças nem com barômetros etc. Que a
importância de uma coisa há de ser medida
pelo encantamento que a coisa produza em nós.
Assim, um passarinho nas mãos de uma criança
é mais importante para ela do que a Cordilheira
dos Andes. Que um osso é mais importante para
o cachorro do que uma pedra de diamante. E
um dente de macaco da era terciária é mais
importante para os arqueólogos do que a
Torre Eiffel. (veja que só um dente de macaco!)
Que uma boneca de trapos que abre e fecha os
olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais
importante para ela do que o Empire State
Building. Que o cu de uma formiga  é mais
importante para o poeta do que uma Usina Nuclear.
Sem precisar medir o anus da formiga. Que o canto
das águas e das rãs nas pedras é mais
importante para os músicos do que os ruídos
dos motores de fórmula 1. Há um desagero em mim
de aceitar essas medidas. Porém, não sei se isso é
um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma
ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim
por tais julgamentos,vão encontrar que eu gosto
mais de conversar  sobre restos de comida
com as moscas do que com os homens doutos.

* in Memórias Inventadas - As infâncias de Manoel de Barros

Para completar, acesse  e ouça A dança dos meninos.


Bom domingo para todos!

Guardar São João del-Rei. Inclusive no coração, mas aos olhos do mundo!

A ntes de ser cidade, São João del-Rei é sentimento. Como tal, mesmo antes do tempo, sempre existiu, abissal para quem a sabe. Mui preciosa, nela, em arcas, cofres, baús e silêncios, tudo se promete guardar:  tradições coloniais, patrimônios culturais,  memórias, conhecimentos, informações, saberes. Guardar lembranças, sonhos, esperanças, tristezas, segredos, mágoas, mistérios, prazeres ...

Mas o que é guardar? Até que ponto o retirar do dia a dia, da vista de todos, e ocultar até de si mesmo, com equivocado zelo, protege e garante perpetuidade?

Refletindo sobre isso, o poeta Antonio Cicero, irmão da cantora Marina Lima e parceiro musical de grandes artistas, como por exemplo do mineiro João Bosco, assim escreveu no poema

 Guardar

" Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre fechado não se guarda nada.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la,
mirá-la por admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la,
isto é, fazer vigília por ela,
isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro,
do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se publica,
por isso se declama e se declara um poema:
para que ele, por sua vez, guarde o que guarda,
guarde o que quer que guarde um poema.
Por isso o lance do poema:
por guardar-se o que se quer guardar. "

Então, guardemos São João del-Rei. Também no coração!

Transcrito do caderno IDÉIAS da Folha de São Paulo,edição de 02/jan/1987, pag B-12

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Rua da Música em São João del-Rei

Em São João del-Rei, a música mora na Rua Santo Antônio. Lá, misturada a jasmins brancos, ela salta de velhos muros, pra conversar com o solitário sino, que dia e noite vive debruçado na mais alta janela da igrejinha do santo milagroso, que ajeita casamentos e ajuda a encontrar coisas perdidas. Duvida?

Da bucólica, estreita e sinuosa Rua Santo Antônio, a música sai, ora trágica e lastimosa, ora lépida e fagueira, ora exultante e primaveril, para ofícios, novenas, missas, Te Deums, retretas, concertos; sobe ao coro de igrejas, acompanha procissões, se detém nas praças e largos, exibe-se em teatros, coreto e auditórios. Imagine: vai até a cemitérios...

Bem depois que a clave de sol se põe atrás da Rua do Ouro, na Serra do Lenheiro, violinos, flautas, clarinetes, trompas, tímpanos e tubas dormem, na sede das orquestras Lira Sanjoanense,  Ribeiro Bastos e da Banda Teodoro de Faria. À luz da lua de prata, as notas sonham na pauta, ressonando Glória in excelsis Deo. Na Rua Santo Antonio...

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Este texto foi inspirado na obra Rua Santo Antônio, generosamente encaminhada a este almanaque, como colaboração, pelo pintor Oscar Araripe, que dispensa comentários porque a própria trajetória de artista renomado, no Brasil e no exterior, fala por si. Com sua pintura e com os projetos da Fundação que leva seu nome, Oscar Araripe reconhecidamente tem prestado valiosos serviços à cultura de nossa região.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

São João del-Rei tem 'mania de rebordar o passado'

Muitos e belos textos falam sobre São João del-Rei, mas em sua maioria essas obras são manifestações espontâneas e, por isso, estão dispersas. Como não vieram a público, acabam pouco conhecidas dos são-joanenses, o que é uma pena.

O texto abaixo é um precioso exemplo. Escrito pelo então estudante de Publicidade e Propaganda  na UNIPAC Barbacena e integrante do grupo teatral "Ponto de Partida", Marcos Faria de Oliveira, mais do que uma belíssima homenagem, é verdadeira declaração de amor a Minas Gerais e a São João del-Rei. Digna de aplausos.

Como são-joanense, agradeço ao autor: Valeu, Marcos, obrigado!

Minas e suas vozes

"Entre ferrovias e sinos de verdades incontestáveis, sobressai entre montanhas e vilarejos um ponto chamado Minas, que nas Gerais absorve em seu cotidiano palavras escondidas nas varandas das casas. Entre nomes curtos de pessoas e mundos, a qualquer segundo, as ferraduras de um cavalo pode tirar sua atenção daquela história que seu avô contou ou que está aqui, em Minas mesmo. Essas histórias trazem, ao sabor do café forte e do pão de queijo do forno, coisas que até Deus duvida.


Quando nossos olhos miram em Minas, basta apontar o dedo que aparece naquele pontinho do mapa a cidade de São João del-Rei, nome dado em homenagem a Dom João V, rei de Portugal. E ali, naquele povoado guardado por Deus, descobriu-se pedras de amarelo-ouro, com grandes valias guardadas em sua dureza, que fez dela, de arraial a cidade.


Minas esconde, esconde sempre uma boa lembrança ou nomes de força em seus nacos de história. Há quem diga que o Rio das Mortes, em suas águas de barro e margens já esquecidas, cobre, com sua fundura, algumas riquezas e algumas almas. Porém não se sabe ao certo; por isso torna-se segredo de lendas e casos.


Temos razão apenas em algo: Minas tem mania de diferente, mania de bordar o passado, reinventar o momento e criar linhas, linhas de trem, pesadas em rodas de ferro da maria-fumaça cortando as Gerais. E nessas estações salpicadas de reminiscências, ouve-se de bocas curiosas o caso do senhor de chapéu coco que olhou para um poste e disse  por que não um jornal para todos? E nessa sandice os postes se tornaram jornal, mesmo com as dúvidas de quem duvidava, e permanece até hoje com o mesmo título "O Jornal do Poste". Este, sobrevive de letra em letra há não sei quanto tempo, porém muitos o sabem, até no exterior. 


Em traços de cores e muitas ideias, soube-se que a cultura de Minas é muito forte, coisa nossa. E plantando sementes de arte no chão que, árido, perde a esperança, Minas continua e a cultura mineira é cultura de acolher nos braços e cantar de peito aberto em qualquer espaço, pintado, descascado, pouco.


E perdendo horas a fio, assim fico imaginando, nesse mundo de coisas interioranas, imaginando que às vezes os sinos falam, que São João del-Rei é santo, que a maria-fumaça troca de cor quando o sol se esconde e que o Rio das Mortes é feito mesmo de vida.


Não tem jeito, aqui tudo muda sempre, agrade ou não. O que importa é viver, nessas Minas Gerais."

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As minas del rei São João


São João del-Rei já desfilou no sambódromo do Rio de Janeiro, como destaque no carnaval carioca. Isso mesmo, em 2006 nossa cidade foi o tema levado para a Marquês de Sapucaí pela Escola de Samba União da Ilha do Governador, com o enredo As minas del rei São João, do carnavalesco Jack Vasconcelos.

O samba conta a história de uma pessoa que, tendo visitado São João del-Rei, se apaixonou pela terra e, de tanto encanto, resolveu declarar esse fascínio para o universo do samba. A letra passeia da descoberta do ouro à construção da Nova República; da Inconfidência Mineira às Diretas Já, sem deixar de lado a tradição barroca, as manifestações de cultura popular, a culto à arte, as crenças, crendices e lendas que constituem a peculiar cultura são-joanense. Confira a letra do samba-enredo*:

Reluz no teu olhar axul, vermelho e branco
Que me faz sonhar. O ouro seduziu
O aventureiro insulano que partiu
Eh! Eh! Minas Gerais
Seu Eldorado tem magia e muito mais
O Quinto é dos infernos
O povo se cansou do imposto que pagou
No esplendor da fé, Barroco é devoção
Os sinos falam ao coração
Se olho comprido traz má sorte? Eu sei lá!
Seu padre, se a moça é solteira? Dá azar! (bis)
Virar mula-sem-cabeça eu quero ver
Essas beatas, credo em cruz, é bom benzer

Pisei no chão da liberdade
Berço da Inconfidência do meu país
Segui os passos da Independência
Nova República ... Povo feliz!
Nos olhos livres da artista
Refletem a arte e a brasilidade
Dessa gente jovial
Por São João del-Rei eu me apaixonei
E dei as cores do meu carnaval.

Alegria! É a Ilha! A cantar
Vem na Maria Fumaça (bis)
Vem que eu vou te levar

Conheça a sinopse do enredo As minas del rei São João, acessando http://www.apoteose.com/uniaodailha/sinopse2006.htm

* Autoria do samba-enredo - Maurício Maia, Ricardo Grassano, Carlinhos Fuzil, Niva, Muca, Alberto Varjão, Carlinhos Danoninho, Adilson Cobra Criada, Bebeto do Arrastão e Pinto.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Guardiões do Patrimônio de São João del-Rei

Em São João del-Rei, a cultura anda pelas ruas, tão natural e despretensiosa que até correria o risco de não ser reconhecida e, distraída, se perder, entre becos e esquinas.

Mas a cultura de São João del-Rei tem guardiões, que cuidam dela como quem  protege um filho, contempla a namorada, se esquece nos braços da amante, acaricia uma lembrança ou uma saudade. Quem são estes guardiões que, com zelo devocional, mantêm viva a cultura são-joanense, revigorando-a a cada dia, preservando-a do tempo e eternizando-a, com a maior singeleza e simplicidade?

São os Guardiões do Patrimônio: pessoas que se dedicam a fazer o que sabem, mas sabem tão bem e fazem tão bem que esse saber e esse fazer viraram o próprio ser. Assim, os Guardiões do Patrimônio são o próprio patrimônio, por fundirem no ser o saber e o fazer.

Quer conhecer alguns destes guardiões da cultura de São João del-Rei? Kátia Lombardi generosamente nos apresenta no projeto, Guardiões do Patrimônio, que fala por si, em português e inglês, no link http://www.guardioesdopatrimonio.com.br/resolution_detect.php?width=1024&height=768

Não deixe de acessar!

domingo, 23 de janeiro de 2011

São João del muitas faces

No conjunto das cidades históricas mineiras, cada vez mais São João del-Rei é reconhecida pelas suas particularidades, que vão além do paisagismo urbano colonial  e da arquitetura monumental das igrejas, pontes e outros monumentos. São João del-Rei se constitui de um dinamismo cultural espontâneo, que faz parte e ao mesmo tempo é produto do dia  a dia dos são-joaneses.

Peculiaridades da cultura local - exatamente aquelas que dão vida e singularizam nosso patrimônio material - como a música barroca, as tradições religiosas, as manifestações populares e folclóricas, a linguagem dos sinos e, mais recentemente, o turismo de aventura, estão se tornando tão destacadas quanto os fatos históricos comumente registrados na arquitetura, no urbanismo e no paisagismo das cidades setecentistas.

Em São João del-Rei, a cultura é produto natural do viver, é resultado do cotidiano, e isso garante à cidade personalidade muito própria e de certo modo até lhe protege da espetacularização e da pasteurização. Apesar da força globalizante e uniformizadora, própria do mundo atual.

Revistas de bordo de companhias aéreas e publicações de clubes de turismo, periodicamente, estão valorizando este aspecto de nossa cidade e um bom exemplo é a matéria publicada na Revista Brasil (impressa e eletrônica), que você pode ler clicando no link http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/35/onde-os-sinos-falam

São João del-Rei, herdeira de Minas


De novo é domingo. Dia do Senhor, mas também de descanso e generosidades, que vão da mesa farta e demorada do almoço à cordialidade sincera posta sobre a mesa na forma de arroz doce, goiabada cascão, doce de leite, de abóbora, de mamão verde, compotas de figos e de pêssegos em calda. Coisas de Minas.

Aliás, sobre este nosso Estado, Adélia Prado escreveu:

"Minas,
tantas há por aqui, subterrâneas ou à flor da pele,
que bem achado foi apelidá-las Gerais.
Minas Gerais, quase meio triste em seu muito silêncio,
veza de melancolia, macambuzeira, mofina,
quase alegre de ipês no seu agosto amarelo.
Tão contida chora o alegre, tão contida canta o triste,
dança como alforriada, o sapateado é sério,
pedindo sempre licença, tirando sempre o chapéu,
cheios de curva os casos, os entre parêntesis finórios
contam pecados barrocos e santidades extáticas
se rindo pra dentro, mais esperta do que sobrou
do resto do mundo.
Que boa fatalidade ser herdeiro de Minas,
ter por riqueza seus bois, poeira, cerrados,
oratórios, rezas, violas prazerosamente tristes,
seu luto aliviado de quaresmeiras,
tudo o que é lamentoso e bonito
e gasta tempo pra se fazer, doces, namoros, olhares,
promessa de festa no corpo e eternidade na alma,
montanhas, luares, amanheceres sobre picos
com muita e densa neblina, frios.
Estou inventando Minas?
Certamente, mas tudo é mesmo inventado.
E isto é Minas também."

Pra completar, faça um passeio sonoro por Minas, ouvindo Milton Nascimento em gravação feita para a TV Coreana


Bom domingo!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Mário de Andrade fotografa São João del-Rei

O modernista Mário de Andrade,  visitando as cidades históricas de Minas com outros intelectuais e artistas, como desdobramento da Semana de Arte Moderna de 1922 -especialmente buscando conhecer a identidade nacional - esteve em São João del-Rei e encantou-se com a paisagem urbana, com os monumentos e com as igrejas são-joanenses.


Contemplando nossa igreja de São Francisco de Assis (na reprodução, detalhe da portada) ele escreveu:

"As igrejas do Aleijadinho não se acomodam
com o apelativo de "belo". (...)
São muito lindas, são bonitas como o quê.
São dum sublime pequenino, dum equilíbrio,
duma pureza tão bem arranjadinha e sossegada,
que são feitas para querer bem ou para acarinhar,
que nem canções nordestinas."

Fonte: SANTANNA, Afonso Romando de in Barroco, alma do Brasil. Comunicação Máxima, RJ, 1997.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Agora, já é São João del-Rei Momo!

Passado o Dia de São Sebastião, definitivamente encerrou-se o ciclo do Natal. Daqui pra frente, quem assume o comando é Rei Momo e, então, todas as energias de São João del-Rei começam a se mobilizar para o Carnaval, que este ano, tardiamente, será em março.

Já no embalo da folia, Tencões e terentenas lembra um samba-enredo que deveria ser o segundo hino de São João del-Rei. Ser ensinado e aprendido nas escolas e estar na ponta da língua de todo são-joanense. Estamos falando de “Heróis da Liberdade”, composto por Mano Décio da Viola e  Silas de Oliveira para a Escola de Samba Império Serrano em 1969. Vivendo um dos períodos mais cruéis da ditadura Militar brasileira, o povo sofria todo tipo de censura, torturas e desaparecimentos.

Mais do que rememoração  e homenagem musical a capítulos importantíssimos da História nacional, com destaque para a Inconfidência Mineira, é um tributo aos movimentos libertários de nosso pais. Por isso, especialmente para nós, são-joanenses, é tanto um incentivo quanto uma grande lição.

Para você decorar, a letra de Heróis da Liberdade é:

Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia.
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia o fim da tirania.
Lá em Vila Rica
Junto ao largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria, com sabedoria
Deu sua decisão.
Com flores e alegria
Veio a abolição
A independência laureando
O seu brasão.
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou.
Essa brisa que a juventude afaga
Essa chama
Que o ódio não apaga pelo universo
É a evolução em sua legítima razão.

Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade.
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade.

Ô, ô, ô, ô ... Liberdade senhor

Veja o desfile da Império Serrano cantando este samba-enredo no último carnaval da década de 60, acessando http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=MwhSL7JNODU

São João del-Rei em festa: é dia de São Sebastião!


Hoje, 20 de janeiro, é dia de São Sebastião. Conforme dissemos na postagem Em São João, viva São Sebastião! (10/jan), é uma festa importante no calendário religioso de São João del-Rei. Em tempos passados deve ter sido ainda mais imponente, considerando a riqueza litúrgica que conseguiu chegar até nossos dias: toques de sino especiais, novena com composição barroca própria e requintada procissão, com foguetório e banda de música. Tão forte é o " guerreiro protetor contra a fome, a peste e a guerra" que volta e meia se vê pessoas descalças, pagando promessas, e crianças vestidas como o santo, geralmente agradecendo recuperação da saúde.

Se você estiver em São João e puder, dê uma espiada na procissão, que geralmente faz o percurso Matriz do Pilar, igreja das Mercês, Largo da Cruz, igreja do Carmo, Matriz do Pilar. São particularidades o ritmo apressado, o acompanhamento da Folia de São Sebastião e a predominância da cor vermelha, nas flores que enfeitam o andor (foto do autor) e, às vezes, na roupa de muitas pessoas que acompanham a procissão vespertina, no entardecer. Para não perder a caminhada, se informe sobre o horário ligando para a Casa Paroquial da Matriz do Pilar.

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Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/em-sao-joao-viva-sao-sebastiao.html

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Com quantas letras se escreve São João del-Rei?

São João del-Rei é amiga das letras, mas podemos dizer que esta amizade andou fragilizada em um tempo recente, quando a cidade ficou sem ter, sequer, uma livraria. Felizmente, permaneceu vivo – e continua até hoje! – o sebo Ponto Literário, que funciona na Rua Sebastião Sette, no meio do caminho entre o “calçadão” e a igreja do Carmo.

Desde o nome de duplo sentido, muito apropriado, até seu conteúdo, o Ponto Literário é um espaço interessante, onde se encontra um acervo considerável, que vai de HQs a obras de grandes autores, revistas antigas, coleções, romances e títulos diversos. Também no Ponto Literário é possível passear pela música popular brasileira, nos vinis antigos e CDs usados que estão à venda.

Para deleite dos leitores e estudantes, desde dezembro a cidade conta com uma livraria, no Centro Cultural da Orquestra Popular Livre. Instalada no Solar da Baronesa, com entrada pela Rua Getúlio Vargas, 242, a livraria funciona de quinta a domingo, a partir das 19 horas; tem mais de 300 títulos variados, com destaque para literatura, poesia e artes em geral. Também possui uma seção de livros usados e outros artigos como CDs, DVDs, fotografias, cartões postais, cartazes e afins. Mas este acervo aumentará em breve, assim como o horário de funcionamento, que deve ser ampliado.

De tão nova, a livraria da OPL ainda não tem nem nome, mas, como quem tem padrinho não morre pagão, seu batismo acontecerá e será solene. Com certeza!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Um hospício em São João del-Rei?


Isso mesmo. São João del-Rei foi uma das três primeiras vilas mineiras a ter o Hospício da Terra Santa, instalado em 1740. Mas que hospício era esse e a quem se destinava?

Bem, os Hospícios da Terra Santa eram residências temporárias dos frades da Ordem de São Francisco de Assis, que se dedicavam a pedir esmolas para a conservação dos Lugares Santos, em Jerusalém. Conta a História que, depois das Cruzadas, São Francisco foi ao Oriente e conseguiu, do sultão do Egito, autorização para os franciscanos cuidarem dos santuários cristãos, com exclusividade para o Santo Sepulcro, o Monte Sião e Belém.

Como em Minas Colonial era proibido o estabelecimento de conventos, os “frades de cordão” conseguiram permissão para o instituir hospícios, que se diferenciavam dos conventos por serem residências temporárias para frades esmoleres se hospedarem e descansarem nos trajetos de suas viagens pelo sertão. Nos hospícios, apenas os empregados eram permanentes.

Outra diferença em relação aos conventos é que nos hospícios a capela ficava na área interna, sem ligação para a  rua e com acesso permitido apenas aos frades visitantes. Nela, não se celebrava missa pública nem se administrava sacramentos. Entretanto, nos hospícios, a vida para os frades era mais livres, pois estavam desobrigados da disciplina rígida imposta nos conventos.

Uma pergunta:
Será que existe alguma relação entre o trabalho dos frades esmoleres, que se hospedavam nos Hospícios da Terra Santa, e a exclamação “Para a cera do Santo Sepulcro!”, que se ouve nas igrejas são-joanenses, ao som de matracas, nas visitações noturnas de Quinta-Feira Santa e diurnas de Sexta-Feira da Paixão?
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Fonte: BARBOSA, W.A. - Dicionário da Terra e da Gente de Minas.Secretaria da Cultura / Arquivo Público Mineiro. Belo Horizonte, 1985.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

São João del-Rei e Pitangui – Juntos vamos mais longe!



Quando os objetivos são grandiosos, toda parceria é benéfica e traz bons frutos. Quem ganha com isso é sempre a sociedade. Certamente é pensando assim que o blog  http://daquidepitangui.blogspot.com/ tem incentivado e apoiado a divulgação deste Tenções & terentenas – Direto de São João del-Rei desde o momento inicial de sua criação.

Tencões & terentenas agradece este apoio valioso, que nos faz sentir compadres na afinidade e no zelo por nosso afilhado comum: a cultura e a memória de Pitangui e de São João del-Rei; lapidadas pedras preciosas do brilhante tesouro de Minas Gerais.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Passeio sonoro por São João del-Rei, numa manhã de domingo

Em São João del-Rei, quem mora nas imediações do centro histórico e acordou cedo, certamente desde as 8 e meia foi presenteado com um concerto espontâneo dos muitos sinos são-joanenses, tocando sequencialmente em chamada para as missas dominicais.

Para quem mora mais longe ou, se deliciando nas baladas, bares e festas, preferiu ficar na cama entre amores e cobertores, aí vão algumas notas dos sinos locais, na matéria que noticiou o registro desse bem cultural como patrimônio imaterial.

http://www.youtube.com/watch?v=pOvU4jI6BOk&feature=related

Para uns e para outros, bom domingo!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nhá Chica - "Serva de Deus": do Rio das Mortes à Corte Celestial

A Rede Globo noticiou, na noite desta sexta-feira, que o Papa Bento XVI anunciou hoje o reconhecimento das "virtudes heróicas" de Nhá Chica, encurtando o caminho para o processo de beatificação da são-joanense denominada 'Serva de Deus'.

Fé, crenças e questões religiosas à parte, o que a beatificação de Nhá Chica representará em termos de autovisão, repercussão, visibilidade externa positiva e elevação da auto-estima dos são-joanenses?

Na internet já circulam vídeos que procuram construir fortes vínculos entre a santidade de Nhá Chica e algumas cidades onde ela viveu -  ligação que, com certeza, renderá bons dividendos turísticos. Existe, em São João del-Rei, mais especialmente no distrito do Rio das Mortes, algum movimento para valorização e visibilização da naturalidade de Nhá Chica?

Diante de tão grandes apertos e das angústias atuais, tomara que logo possamos contar com mais esta aliada celestial e, o mais breve possível, em preces e ladainhas, pedir: Nhá Chica, rogai por nós!

Veja matéria veiculada na Rede Globo (Jornal Nacional e jornais da Globo News) acessando http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/01/papa-bento-xvi-marca-para-1-de-maio-beatificacao-de-joao-paulo-ii.html

Contagem regressiva para os 300 anos da Vila de São João del-Rei

Se existem variações locais quanto à divulgação do ano que é considerado início da formação do Arraial Novo do Rio das Mortes, célula mater de São João del-Rei, documentos coloniais não deixam dúvidas quanto ao ano em que se deu sua elevação à categoria de vila: 1713*.

Sendo assim, daqui a dois anos o fato estará completando 300 anos. É uma idade memorável, principalmente considerando que o surgimento da grande maioria das cidades brasileiras se deu a partir da segunda metade do século XIX e de grande parte do século XX.

Um marco tão importante de nossa história não pode passar em branco e é provável que tanto o poder público são-joanense quanto o universo cultural da cidade já estejam empenhados – e até adiantados – em preparar e fazer acontecer uma programação específica para comemorar o feito. Afinal, todos sabemos, o tempo corre rápido, como fogo morro acima e água morro abaixo...

Mas como a história é patrimônio coletivo e, portanto, produto da ação e propriedade de todos (incluindo, além do poder público, da sociedade civil organizada e da intelectualidade, as comunidades e os cidadãos comuns), preparar as comemorações e celebrar os 300 anos da elevação do Arraial Novo do Rio das Mortes à categoria de Vila, com o nome Vila de São João del-Rei, é responsabilidade de todos. Do mesmo modo, a programação deve ser acessível, contemplar e beneficiar igualmente a todos, levando a todos cidadania, conhecimento, informação, cultura e lazer.

Em futuras postagens, volta e meia tocaremos neste assunto, com sugestões de realizações e atividades que se mostrem oportunas, condizentes e adequadas para comemorar tão importante fato histórico.

* Fonte: Viegas, Augusto - Notícia de São João del-Rei, pag 24
Ilustração: reprodução de imagem publicada no livro Barroco, alma do Brasil

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Berimbaus, tamborins, sinos e violinos de São João del-Rei


Quando, nos anos 90, residiu em São João del-Rei para pesquisar, estudar e analisar alguns aspectos da cultura e particularidades do viver em nossa terra, o saudoso antropólogo Micênio Santos, entre outras constatações, comparações e considerações, em relação à sonoridade são-joanense, chegou à seguinte conclusão:

"O berimbau está para os baianos,
 assim como o tamborim para os cariocas
e os sinos - e os violinos - para os são-joanenses."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura (2)


Na postagem de ontem, falamos sobre os prejuízos que as chuvas têm causado às cidades brasileiras, fato que hoje foi o tema central de todos os noticiários do dia, principalmente pela tragédia das inundações e deslizamentos que vitimaram habitantes de São Paulo (capital e interior) e da região serrana do Rio de Janeiro, especialmente de Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis.

Pensando em São João del-Rei, falamos sobre a importância de a população são-joanense colaborar, não jogando lixo nas ruas e nem acumulando em áreas impróprias, para que, não sendo arrastados pelas enxurradas, não entupam bueiros, bocas de lobo nem canais de escoamento das águas pluviais. E também não obstruam nem dificultem o fluxo dos córregos e rios.

Cada um fazendo a sua parte, lembramos como pode ser simples e eficaz a colaboração dos comerciantes,  mantendo limpos a porta, a calçada e o entorno de suas lojas.

Neste sentido, vale a pena acessar o link abaixo e assistir a uma reportagem que fala sobre esse problema na capital Belo Horizonte, mas que se repete do mesmo jeito em muitas outras cidades, grandes e pequenas. Afinal, parafraseando Titãs, "lixo é lixo em toda parte!"

http://w3.ufsm.br/dga/index.php?option=com_content&view=article&id=112:lixo-jagado-nas-ruas-agrava-problema-das-enchente-em-belo-hoizonte&catid=36:enchente&Itemid=85

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura

Irmãs de São João del-Rei, as cidades coloniais de Goiás (antiga Goiás Velho), no estado de Goiás, e São Luiz do Paraitinga, no estado de São Paulo, nos últimos anos foram fortemente castigadas pelas chuvas. Em todas duas, foram grandes os prejuízos causados ao patrimônio arquitetônico, documental  e museológico situado nos centros históricos e imediações, com as águas inundando edificações seculares, levando pontes, derrubando casarões e igrejas.

Este ano, o volume da água das chuvas já elevaram os níveis dos rios Vermelho (GO) e Paraitinga (SP), invadindo casas e alarmando a população das duas cidades.

Felizmente, na região central de São João del-Rei, não temos história semelhante. A larga margem mantida ao longo do Córrego do Lenheiro, no centro da cidade, foi urbanisticamente calculada, planejada e construída levando em conta o aumento do volume do córrego durante as cheias. Com isso, muito raramente, a correnteza ultrapassou as muretas, que para nós são o "cais".

Entretanto, bastam pancadas mais fortes para vermos incômodos alagamentos ao longo da Avenida Tancredo Neves, no Largo Tamandaré e em outras ruas centrais ou dos bairros. Como muitas vezes a causa visível é o acúmulo de sacos plásticos, embalagens metálicas, latas de alumínio, copos descartáveis e garrafas pet, arrastados pelas enxurradas e retidos na grade dos bueiros, não é tão difícil minimizar o problema. Depende apenas de uma boa limpeza urbana, que em grande parte pode ter a colaboração dos próprios comerciantes, mantendo limpas as portas e calçadas de suas lojas, principalmente se perto delas houver algum bueiro ou boca de lobo. A população também precisa se tornar consciente e ajudar, não jogando lixo nas ruas. Nem mesmo um palito de picolé, uma lata de refrigerante, um saquinho de pipoca, sequer um papel de bala.

Que a cidade carece de lixeiras públicas e de melhor serviço de limpeza urbana, ah, isso carece. Mas também carece da sensibilização dos são-joanenses quanto às suas responsabilidades em relação ao problema, sem esquecer da educação cidadã de crianças e jovens.

Às vezes, pequenas atitudes positivas e o espírito de coletividade fazem toda a diferença.

Você duvida?

Então acesse http://www.youtube.com/watch?v=87nmrDa9o8w&feature=related e testemunhe um triste momento da história de São Luiz do Paraitinga, em 03/01/2010. Depois, acesse  http://www.youtube.com/watch?v=G_oOvjQ_wb0 e veja que este momento já é quase passado, fruto da comunhão de esforços que impulsionou tão magnífica reconstrução em menos de um ano.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Em São João del-Rei, a cultura e a música de braços abertos para a vida


Como é bom ver que, a cada dia, São João del-Rei mais se consolida como pólo de arte e cultura. Não da arte apenas como espetáculo, mas principalmente da cultura como elaboração do modo de ver, registrar e viver o mundo pelos são-joanenses, para depois revê-lo, reinventá-lo e revivê-lo, com mais viço e vigor.

Prova disso é a recente inauguração do Centro Cultural da Orquestra Popular Livre. Instalado em um espaço nobre - o Solar da Baronesa, perto da Rua da Cachaça e em frente à igreja do Carmo -, o Centro Cultural nasceu dos ideais e da persistência de músicos empreendedores. Quem ganha com isso são são-joanenses e turistas, pois o espaço de criação e aperfeiçoamento oferece cursos de música, lutheria, oficinas, livraria, biblioteca, exposições e, advinhem!, até um café.

Isso mesmo, o Baronesa Café. Vista privilegiada, refinada música ao vivo, papos interessantes, petiscos saborosos, drinks tentadores. Ali, a cultura, a música e a vida estão de braços abertos pra quem chegar!

A Orquestra Popular Livre já tem oito anos de história, seis dos quais como Instituição de Utilidade Pública Municipal. Pode parecer pouco, mas é muito, considerando como é grande o número de instituições, inclusive culturais, que não conseguem passar do terceiro ano de existência...

Ilustração: reprodução, em detalhe, de imagem publicada em SJDR: a região, a cidade, o patrimônio de história e arte. Fundação João Pinheiro, 1993 - Doação: Toado de Castro.

Em São João del-Rei, desde já, viva São Sebastião!

São João del-Rei começa amanhã, dia 11, a festejar São Sebastião. A expressão que a festa tem no calendário litúrgico da cidade leva a crer que,  em outros tempos, o “fiel escudo protetor contra a fome, a peste e a guerra” era muito importante na região, pois deu nome, inclusive, a um distrito da cidade -São Sebastião da Vitória.

Me lembro que antigamente tinha até barraquinha e leilão.

Ainda hoje, nos nove dias que antecedem 20 de janeiro, na Matriz do Pilar, tem toque de sino próprio, ao meio-dia e à hora do Ângelus, em homenagem ao mártir. Ao anoitecer, depois da missa, novena completa, com orquestra e pregação sobre a vida do santo. Seria interessante se, nessas palavras, o pregador contextualizasse o culto a São Sebastião na história de São João del-Rei, falando sobre sua origem, que seguramente vai remontar ao século 18.

Há dois anos, depois de algum tempo, tive oportunidade de ver novamente a procissão de São Sebastião. Curta, rápida e breve, tinha aspecto marcial. Banda de música. Foguetório. Entre as alas das irmandades, o grupo da Folia de São Sebastião, com mudo instrumental, mas estandarte. Curioso que, à entrada da procissão, talvez por portar instrumentos musicais profanos, o grupo ficou do lado de fora da Matriz, no adro, perto da porta esquerda, em respeitoso silêncio.

Também me chamou atenção a quantidade de pessoas vestidas de vermelho, que é a cor do santo. Intenção, coincidência ou intuição?

Clique no vídeo abaixo e veja um flash de alguns participantes de um grupo de Folia de São Sebastião, de São João del-Rei, em passagem pela cidade de São Brás do Suaçuí.

sábado, 8 de janeiro de 2011

São João del-Rei & Carlos Dummond de Andrade

O grande poeta Carlos Drummond de Andrade assim percebeu São João del-Rei e registrou no poema Lanterna Antiga, publicado em seu primeiro livro Alguma Poesia, lançado em 1930:

        "Quem foi que apitou?
          Deixa dormir o Aleijadinho, coitadinho.
          Almas antigas que nem casas.
         Melancolia das legendas.


               As ruas cheias de mulas-sem-cabeça
                correndo para o Rio das Mortes
                  e a cidade paralítica
                     no sol
                       espiando a sombra dos emboabas
                          no encantamento das alfaias.


             Sinos começam a dobrar.
             E todo me envolve
             uma sensação fina e grossa."

Vale notar que, para o poeta, uma das características mais marcantes de nossa terra é a sonoridade - sinal de vida - evidência de ação, dinâmica e movimento - marca de outrora e do presente.

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Ilustração: Caminho de telhados rumo à igreja do Carmo (foto do autor)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Cônsul da Rússia visita São João del-Rei

Com o apoio do czar russo Alexandre I e de autoridades brasileiras, o Cônsul Geral da Rússia na Cidade do Rio de Janeiro, Georg Heinrich von Langsdorff, veio a São João del-Rei, chefiando uma expedição científica composta por zoólogo, botânico, astrônomo e pelos artistas (desenhistas) Joham Moritz Rugendas, Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence.

A visita a nossa cidade, que começou com a chegada a São João del-Rei no dia 6 de junho de 1824, durou quase dois meses e rendeu importantes estudos naturalistas, paisagísticos, humanos e sociais. Parte dos originais desses registros, que atualmente pertencem ao Arquivo e ao Museu de Antropologia e Etnografia da Academia de Ciências de São Petersburgo, esteve novamente no Brasil de fevereiro a setembro do ano passado, em exposição montada no Centro Cultural Banco do Brasil, nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Pena que sequer reproduções de partes da exposição foram levadas às cidades por onde a Expedição Langsdorff passou... Para compensar, acesse http://www.youtube.com/watch?v=YiQ7wf5FJNY e passeie um pouco pela exposição montada no Centro Cultural do Banco do Brasil - Rio de Janeiro.

De qualquer lugar do mundo a São João, com apenas um clique


De qualquer lugar do mundo você  pode passear pelas ruas de São João del-Rei, apreciar detalhes das casas, monumentos e igrejas, pelos mais variados ângulos, atravessar as pontes e parar nos largos e jardins, tudo sem sair da frente de seu computador. Isto porque, desde setembro do ano passado, São João del-Rei é uma das poucas cidades brasileiras agraciadas com esse serviço, prestado pelo Google Street View.

Basta acessar http://maps.google.com/, seguir as instruções informadas e mover o mouse para se deslocar, na paisagem, na direção e no ângulo que desejar. Assim você passeará pelo Largo de São Francisco, atravessará a Ponte do Rosário, caminhará pela Rua Santo Antônio, Largo do Rosário, Largo das Mercês (foto do autor), descerá o Beco do Cotovelo até o Passinho do Largo da Cruz e Largo do Carmo. Ou, se preferir, irá da capela do Bonfim até a igreja do Senhor dos Montes, do Tejuco a Matozinhos, passando pelo Largo Tamandaré, Prefeitura, Teatro e Estação, ou percorrerá as encostas da Serra do Lenheiro e os trilhos da Maria Fumaça. Só com o movimento das mãos...

Sem dúvida, o serviço é um privilégio, que contemplou capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte e cidades históricas como Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Diamantina e Tiradentes. E,não sem motivos, nossa São João del-Rei foi uma das beneficiadas!

Acesse, viaje e confira!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Folias del reis

6 de janeiro. Dia de Reis. Em São João del-Rei, a presença das folias de Reis a cada ano mais se fortalece e a data ganha cada vez mais destaque no calendário religioso-cultural da cidade, pela da ação da Atitude Cultural, do folclorista Ulisses Passarelli e, principalmente, de muitos capitães quase anônimos, que põem às ruas seus grupos. Imitando os três reis magos, eles louvam Deus recém-nascido, numa lição de fé e humildade.

Neste contexto, por sua singeleza e peculiaridade, merece luz especial As Pastorinhas do Meninos Jesus, grupo infantil das Águas Férreas - Tejuco, criado e chefiado por D. Júlia Maria Lacerda. A conheci há três anos e, na ocasião, em entrevistas, recolhi informações para produção de um livreto que contasse a trajetória da agremiação. O livro foi começado; a história inicial já está escrita e agora  falta apenas colher depoimentos e testemunhos para finalizá-lo com caráter documental.

O surgimento das Pastorinhas do Menino Jesus é bastante interessante. A manifestação sociorreligiosa-cultural nasceu da solidariedade de Dona Júlia para com uma família das Gameleiras, que teve sua casa destruída por uma tempestade, poucos dias antes do Natal de 1978. Assim, a primeira apresentação - fruto da fé – uniu a grandeza do espírito solidário com a riqueza da criatividade, mais força mobilizadora e a coragem do improviso.

O resultado não poderia ser outro: satisfação para quem promove e participa das Pastorinhas, conforto espiritual para quem as recebe em visita, emoção para quem assiste e até ajuda financeira para obras sociais.

Com tamanho poder de encantamento, mesmo neste mundo globalizado cada vez mais individualista,  competitivo e tecnológico, as Pastorinhas do Menino Jesus já caminham para a quarta década de existência. Passa o tempo, mas elas continuam sensibilizando, evangelizando, despertando nos corações o brilho da Estrela Guia, mensageira da Esperança e do Amor Divino...

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Post Scriptum
Veja, no link abaixo, um grupo de Folia de Reisde caracterização mais moderna e urbana, se apresentando à entrada de um sobradão, em São João del-Rei, nas imediações do Mercado Municipal, área já considerada centro histórico. 

É um vídeo curto, mas muito interessante por mostrar como as manifestações culturais de origem rural, no inevitável contato com a cultura de massas, típica do meio urbano moderno, certamente para abrir portas e facilitar sua aceitação, muitas vezes se deixam influenciar, adotando uma estética mais espetacular e contemporânea, porém preservam firme, inabalável e inalterada sua essência. Mas aí é discussão pra outra hora...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

El-Rey Midas Gerais?


Para alguns, a complementação do nome deste blog tem uma incorreção: Midas Gerais?

Incorreção, que nada! A construção D’El-Rey - Midas Gerais foi intencional, unindo em uma única ideia três elementos. Uma parte do nome de São João del-Rei, o mito do Rei Midas e o Estado de Minas Gerais.

Racismos e preconceitos à parte, querem escrever o novo samba do crioulo doido? O que o pé tem a ver com as calças? Tudo e mais um pouco. Ouro, minha gente, ouro!... Midas, conta a lenda, era aquele rei que, tendo levado a Dionísio o sátiro e mestre Sileno, então perdido em meio a orgias e bebedeiras, recebeu como prêmio do deus grego a satisfação de um desejo. Ambicioso e avarento por mais poder e riqueza, Midas não pediu pouco. Queria transformar em ouro tudo o que tocasse. Assim se fez. Só que o encanto (ou feitiço) quase virou contra o feiticeiro, pois por pouco o rei não morreu de fome, impossibilitado de tocar na comida. Vem daí, no sentido positivo, a expressão ‘toque de Midas’...

Em outra lenda, por ter feito um julgamento interesseiro e equivocado, num concurso de música, Midas foi castigado por Apolo com grandes orelhas de burro. Envergonhado, teve que andar muitos anos com a cabeça coberta por um chapéu. O castigo foi tão forte que até o vento, soprando entre os caniços, cantava: o Rei Midas tem orelhas de burro!

Mitos, parábolas, fábulas e lendas não surgiram por acaso e cumprem função educativa. Por isso, aprendamos com elas. Antes de fazermos nossas escolhas e nossos julgamentos, miremos nos exemplos do Rei Midas...

Democratizar mais a cultura de São João del-Rei

Por mais que existam canais para divulgar a riqueza cultural de São João del-Rei, nunca é demais criar novos meios que possibilitem divulgar e difundir o olhar com que vê e o sentimento com que o são-joanense vive o mundo. Foi com este objetivo que este blog nasceu logo nos primeiros dias de 2011, trazendo no nome - Tencões & Terentenas - uma alusão a dois dos mais belos toques de sinos de nossa terra.

Ao homenagear os sineiros, que há dois séculos guardam na memória e reproduzem com o coração os signos sonoros de uma linguagem que está entre as características mais fortes e originais desta setecentista cidade, o blog homenageia também todos aqueles que, ao longo de três séculos vêm criando, produzindo, zelando e democratizando a rica produção histórico-artístico-cultural de São João del-Rei, eternizando-a evolutivamente rumo a um tempo e a um mundo melhores.

Acesse-o com frequência. Recomende-o a seus amigos. Comente. Encaminhe sugestões, idéias, indique textos que possam ser partilhados. Este blog será tão mais vivo e atual quanto mais intensa for sua participação!