quinta-feira, 30 de julho de 2015

Salve a coroa do "Rei do Mundo" em São João del-Rei! Atotô, Obaluaiê!


Agosto, em São João del-Rei era um mês de grande apreensão. Céu de tempo revolto, de neblina ainda pela manhã, de nuvens em agitado movimento, o vento correndo frio e raivoso, varrendo em redemoinho folhas no chão, sacudindo com força as roupas nos varais, espalhando viroses...

Para muitos, agosto é mês de cachorro “zangado”, como se dizia antigamente dos cães contaminados pela raiva. Em uma era em que tudo era tranquilo e o mundo girava devagar, o oitavo mês do ano era também temido pela quantidade de acidentes que aconteciam naquele período, marcado pelo dia de São Bartolomeu, festejado em 24 de agosto. São Bartolomeu é  “santo bravo”; tão bravo que na noite de São Bartolomeu, no ano de 1572, praticou-se canibalismo nas cidades francesas de Lyon e Auxerre,  inclusive com venda de gordura, fígado e coração humanos. As vísceras eram assadas em braseiros, no meio das praças, conta Frei Beto, citando Jean de Léry. O sincretismo religioso afrobrasileiro associou São Bartolomeu ao orixá Oxumaré, a cobra do arco-íris, filho dos orixás Obaluaiê e Nanã.

Antes do dia de São Bartolomeu, também em agosto, o dia 16 é consagrado a São Roque, quando o sincretismo afrobrasileiro celebra Obaluaiê  ou Omulu – orixá da terra, que emerge do chão e domina várias doenças, entre elas a “peste bexiguenta”. Era assim que, antigamente, conheciam a varíola, temida pela capacidade de marcar a pele e até de matar, pela precariedade dos recursos de saúde daquele tempo. Coberto com um capuz comprido de finas fitas de palha da Costa que, soltas, lhe escondem todo o corpo, o constrangimento  e a vergonha pelas chagas e cicatrizes, em sua dança Obaluaiê manca, pula e gira, espalhando como em redemoinho a peste para os inimigos. Aos devotos ele cura, assim como os cachorros, lambendo, curaram as muitas chagas de São Roque.

A crença em Obaluaiê é tão grande que em agosto os terreiros realizam o Olubajé - um ritual, com cânticos sagrados, toques como o Opanijé (Deus que dança), comidas rituais africanas, chuva de pipoca, simbolizando a peste bexiguenta, cujas pústulas estouram como pipoca, e outros mistérios que só quem conhece Obaluaiê sabe.

Pelo umbigo negro desta terra vertente, desde o tempo do ouro os terreiros tradicionais de São João del-Rei  celebram o Olubajé, ou Tabuleiro de Obaluaiê ou de Omulu, nome que em yorubá, segundo alguns significa "Rei do Mundo" e para outros quer dizer "Fogo que vem da Terra". Sua saudação é Atotô.

A Associação Cultural Casa do Tesouro / Egbe Ile Onidewa Ase Igbolayo (Rua Vicente Cantelmo, 875, Bairro Guarda-Mor), por exemplo, abrirá os trabalhos do mês de agosto realizando, às 15 horas do dia primeiro, o Tabuleiro de Omulu.

Atotô, meu pai!, Atotô Obaluaê! Atotô Omulu! saúdarão os devotos daquela divindade africana, que atravessou o Oceano Atlântico trazida para o Brasil nos porões dos navios negreiros no século XVI. Poucas décadas depois, o "Rei do Mundo" chegou a São João del-Rei com os primeiros negros africanos, no raiar do século XVIII, mal surgira o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes.

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

Clique abaixo e conheça o toque do Opanijé.

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