terça-feira, 30 de setembro de 2014

São Miguel Arcanjo: um luminoso corpo celeste em São João del-Rei


Divindade que é, São Miguel Arcanjo não tem corpo. É espírito, um dos mais elevados das Potestades. Quando Deus criou a luz e, em seguida, o universo, com seus astros, planetas e cometas, São Miguel há muito já existia.

Mas em São João del-Rei, desde séculos passados até hoje, muitos artistas se dedicam a dar ao Anjo Maior forma humana. E, com isto, existe na cidade um sem-número de representações de São Miguel, nas mais diversas técnicas, formas e materiais - madeira, cerâmica, ferro, pinturas, bordados, pedra sabão, cobre, papel, palha, aninhagem. Todas aladas, a maioria com a balança na mão esquerda, várias com espada flamejante, algumas com escudo e lança, tendo o demônio, assustado e temeroso, a seus pés.

Na ilustração deste post, a representação do arcanjo São Miguel - obra em cerâmica, criada pelo saudoso artista plástico são-joanense Marcos Mazzoni, em 1992 (acervo do autor).

São Miguel Arcanjo. Há 300 anos Príncipe da Milícia Celeste protege São João del-Rei


Faz mais de 300 anos que São Miguel Arcanjo chegou a São João del-Rei, ainda Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Aqui, ele viu o ouro brotar da terra e, por cobiça humana, facões e espadas crisparem seus metais, acendendo no ar raios e relâmpagos. Arcabuzes lançarem pólvora e estouro de trovão e até o Córrego do Lenheiro correr tinto de sangue na Guerra dos Emboabas. Há quem diga que, sinal de sua força e poder, ele escapou das chamas que incendiaram a primitiva capela de Nossa Senhora do Pilar, no Morro da Forca, saindo a salvo na companhia de seu vizinho, o guerreiro e mártir São Sebastião.

Vencidas as chamas e abrandado o calor das pedras em brasa, em 1716 São Miguel criou seu exército humano na recém-criada Vila de São João del-Rei: a Irmandade de São Miguel e Almas. Desde então, toda segunda-feira é saudado com uma missa vespertina e no mês de setembro festejado com muita oração e especial louvor. Depois de um tríduo noturno, de leituras e cânticos barrocos, na quarta noite,  dia 29, São Miguel sai sobre andor em revista às ruas, largos, ladeiras, vielas e becos do centro histórico de São João del-Rei, dobrando esquinas, cruzando encruzilhadas, rondando cantos e recantos, para certificar-se de que em toda parte brilha a luz eterna e espantar para longe, de onde for preciso, o príncipe das trevas e das enganadoras artimanhas, que põem a perder as almas.

São Miguel é muito querido dos autênticos são-joanenses, que em respeito ao seu nome não lhe invocam em quase momento algum. Os antigos, na sua fé inabalável, acreditavam que, se chamado, não era impossível comparecer  em imediato socorro. Por isso, como escudo contra o Inimigo, tinham dele em casa imagem ou estampa e, sempre ao alcance da mão, ou como patuá no pescoço, a Oração de São Miguel, muito forte para afastar a presença maligna e resgatar a paz de Deus.

Para os são-joanenses, São Miguel Arcanjo tudo pode. Na Matriz do Pilar, seu altar fica do lado direito do arco-cruzeiro e honraria igual só tem Nossa Senhora da Boa Morte, no lado esquerdo. Se por um lado cabe a ele manter preso Satanás no Inferno, o que faz em São João del-Rei tendo à mão direita a Cruz de Cristo e o estandarte vermelho da Santíssima Trindade, por outro, na porta do Céu, ele pesa as virtudes e vícios humanos na balança que tem à mão esquerda, para conferir, segundo aqueles méritos, qual será o destino das almas que, ao deixar o corpo e a Terra, ali chegam.



Post Scriptum - A presença de São Miguel na vida do povo de São João del-Rei é tão representativa e democrática como expressão de fé e religiosidade que no alto da antiga Rua São Miguel, arredores da igreja das Mercês, há incontáveis décadas funciona o Centro Espírita Kardecista São Miguel Arcanjo. A autêntica cultura são-joanense é verdadeira quanto à pratica de seus princípios humanistas e ecumenicamente evoluída quanto ao respeito à diversidade religiosa.





quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Festa de Nossa Senhora das Mercês: a sagração da primavera em São João del-Rei*

Em São João del-Rei, todo ano é assim: a primavera só chega no dia 24 de setembro, no buquê de flores brancas que Nossa Senhora das Mercês carrega na mão direita. Seus pés pisam nuvens de flores que brotam dos altares e se espalham por toda a igreja, singela e graciosa, incrustada em uma rocha que dá início à subida da Serra do Lenheiro. Entrada para o caminho por onde no século XVIII subiam homens escravos, desciam negros livres, transitavam cativos mulatos, atrevidos criolos, astutos morenos e gentes de toda laia - clandestinos, foragidos, ladrões, proscritos, ciganos, bandidos, degredados - todos a faiscar ouro nas betas, a garimpar no ribeirão e a catá-lo entre raízes do capim agreste. Alguns, dizem, escondiam o ouro na carapinha...

Todo ano, no anoitecer do dia 24 de setembro, Nossa Senhora das Mercês leva a primavera a passear pelas ruas, largos e becos coloniais de São João del-Rei. Entre as flores de seu buquê e de seu andor, carrega graças, mercês, milagres e favores, que o tempo todo e durante todo o ano distribui ao povo são-joanense. Tudo brota de uma fonte inesgotável e eterna, que nunca seca nem se acaba. Antes, se renova em cada primavera. Dizem que a nascente desta fonte é seu coração...

As marchas tocadas pelas bandas dão cadência ao ritmo de seu caminhar, entre nuvens de incenso, inocentes anjinhos infantis, autoridades dignas, senhores respeitáveis, homens devotos, mulheres contritas, esperançosas e agradecidas, patriarcas e matriarcas que todos são da tradição e da fé. E também o povo, sem distinção de idade, escolariedade, classe nem de cor. Dizem que parece o Céu, aquela que no conjunto das expressões culturais setecentistas é a mais barroca cidade de Minas Gerais...

A libertadora dos cativos e protetora dos que com suor , ousadia e sangue conquistaram a liberdade ou foram pela intercessão dela alforriados, é generosa e também acolhe os descendentes dos inclementes nobres e dos cruéis feitores. Deles e daqueles tempos, tamanha desumanidade e brutalidade têm símbolo no pelourinho de pedra, fincado no jardim em frente ao terceiro Passinho da Paixão.

De tempos em tempos, de espaços em espaços, os sinos marcam o compasso, ora mais lento, ora mais vivo, ora exultante. De pontos em pontos fogos de artifício enchem o céu de mais cometas e estrelas, enquanto que das sacadas dos casarões chovem pétalas e preces. Viva Nossa Senhora das Mercês! Viva... Viva nossa mãe celestial! Viva...

De volta à sua esplanada, o andor vira-se para o hospital e a santa mira, piedosa e complascente, todos os doentes. Anima alguns, conforta outros e promete amparo, na hora tenebrosa, àqueles que já estão a caminho do Céu, onde em breve se encontrarão com ela.

Depois, dá meia-volta e, de frente para os são-joanenses, sobe de costas, lentamente e pesarosa por se despedir, os 33 degraus de sua imponente escadaria. Entra em sua igreja, mas deixa em cumplicidade e gratidão a primavera, num fértil e serenado buquê de flores e de favores, para o povo de São João del-Rei.

* Para a são-joanense, jornalista e escritora, Kaká Freitas




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Sobre a Festa ds Mercês, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/seria-hoje-em-sao-joao-del-rei-um.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/09/festa-das-merces-ha-cem-anos-obrigacao.html

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Lua nova de setembro: semicírculo de prata brilhante no céu de São João del-Rei


A lua nova de setembro, em São João del-Rei, que acontece nesta época do ano, mostra uma paisagem celeste singular. Ainda mais quando acontece de estar alinhada com alguns planetas, brilhantes e bem visíveis a olho nu logo depois do anoitecer.

É como se fosse um semicírculo de prata, meia aliança, incompleto aro, pontuado por dois ou três diamantes.

Tão belos são esta lua e este luzeiro que inspiraram aos são-joanenses a seguinte saudação religiosa popular:

                           "Deus vos salve Lua Nova,
                             Lua de São Clemente.
                            Quando voltares de novo
                             trazes dinheiro* pra gente..." 

* O objeto do pedido pode variar de acordo com a necessidade: dinheiro, saúde, fartura, alegria, esperança...



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Informante: Carmen Trindade da Costa


domingo, 14 de setembro de 2014

Setembro, em São João del-Rei, é tempo do Bom Jesus, da Cruz e do Perdão

Dia da Exaltação à Santa Cruz, 14 de setembro é festejado em São João del-Rei com três celebrações distintas e simultâneas. A mais movimentada, sem dúvida, acontece no bairro de Matosinhos, como ponto máximo do Jubileu do Senhor Bom Jesus, padroeiro daquela freguesia. Realizada desde o século XVIII, a festa tem importância regional e para ela, até décadas passadas, vinham romarias dos povoados e cidades próximas.

Mas o Bairro de Matosinhos cresceu, é muito movimentado, e do tempo antigo, além da fé, da devoção, do entusiasmo e da imagem do Crucificado, quase nada restou. A velha igreja singela e barroca deu lugar a um templo moderno e a procissão crepuscular, que avança noite a dentro, chegou até a ser motorizada, adequada ao ritmo intenso e próprio daquela comunidade.

Mas pelo bem da memória dos velhos e dos novos tempos, o andor voltou a ser carregado no ombro pelos homens da Irmandade do Bom Jesus, ao som de marchas tocadas pela banda local. Lembranças antigas, nas barraquinhas do adro e da praça da igreja, ainda se come a alegria, a doçura, a saudade e o sabor de outros tempos, assim como no Largo ainda acontece o leilão de gado, como prenda para a Paróquia de Bom Jesus de Matosinhos.

No centro histórico, à noite, na Matriz do Pilar, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos exalta a Santa Cruz,  numa solenidade antiga, austera e respeitosa, perfumada de muito incenso, orações e música barroca de compositores locais, como Adoramus te, Popule Meus (vídeo), Miserere e Stabat Mater. A cerimônia se repete no dia 15, dedicada a Nossa Senhora das Dores.

Também no dia 14, depois que o sol se põe atrás da Serra do Lenheiro, na igreja das Mercês, lá no alto, quase já na subida da montanha que abraça a cidade, Bom Jesus do Perdão recebe a contrição e a fé dos fiéis. A Orquestra Lira Sanjoanense, a orquestra barroca mais antiga das Américas, torna mais denso o clima religioso, entoando músicas coloniais. É assim há muito tempo: flores, incenso, cânticos, arrependimentos, súplicas, adoração.

Tudo às vésperas do dia em que começa a graciosa Novena de Nossa Senhora das Mercês, protetora do povo de São João del-Rei. Generosa e pródiga, aos são-joanenses ela não nega bênçãos nem favores e eles agradecem com glórias e veneração.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Patrimônio de valor inestimável são as lembranças e as memórias humanas de São João del-Rei

São João del-Rei tem muita história viva. Não apenas aquelas que se repetem anualmente nas tradições que revivem, no relembrar, fatos e tempos passados. São João del-Rei tem muita história que vive, dorme, sonha, tece, planta e cultiva saudades dos tempos idos e esperanças naqueles que estão por vir.

Os octogenários e nonagenários de São João del-Rei têm a história brilhando nos olhos, correndo nas veias, batendo no peito, E zelam dela mantendo-a acesa e pulsante na memória pessoal, inclusive como escudo protetor contra o mal de Alzeimer, a depressão e depreciação social que o envelhecimento tenta lhes impor.

Lembranças de antigas paisagens, de nomes originais das ruas, brincadeiras de infância, métodos escolares, modinhas, benzeções, propriedade terapêutica das ervas, simpatias, lendas, mandingas, chás miraculosos, orações fortes, cantigas, efemérides, temperos, crenças, saberes e sabores. Tudo isto é deles rico patrimônio sentimental, afetivo e cultural, mas muito pouco identificado, inventariado e registrado em algum suporte ou compêndio. Deste modo, é patrimônio volátil, que evapora um pouco mais toda vez que um sino dobra exéquias, anunciando uma triste partida para o reino do eterno sem-fim.

Como herança e no desejo de perpetuar-se, eles tentam transmitir esta bagagem para algum filho, mas é impossível apreendê-la, introjetá-la, incorporá-la e vivenciá-la, por ser subjetiva e existir tão grande distância entre os dois tempos. É como se o herdeiro recebesse por dote a responsabilidade de cuidar e repassar o que eram, ou foram, memórias recolhidas pela existência de quem lhes as legou.

Riqueza preciosa, estas memórias merecem e precisam ser valorizadas como importante patrimônio coletivo de São João del-Rei. Tanto quanto o patrimônio construído e os bens imateriais, pois falam da vida que os contextualiza e humaniza. E por isto devem receber das instituições culturais públicas e privadas, do meio acadêmico, da comunidade e até do são-joanense mais comum toda atenção e também ações concretas que garantam sua efetiva perpetuidade.

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Na foto, a são-joanense Carmen Trindade da Costa, no quintal onde zela de orquídeas e das memórias do que vive ao longo de seus 86 anos.


sábado, 6 de setembro de 2014

V Semana Cultural Dom Lucas Moreira Neves: música de domingo a domingo em S. João del-Rei


Se Dom Lucas Moreira Neves do outro mundo viesse a São João del-Rei esta semana, certamente sorriria grande felicidade.Traria também seus irmãos, Dona Stella e Zé Maria, para partilhar com eles tamanha alegria. É que de domingo a domingo, ou seja, de 7 a 14 de setembro, acontece na terra onde os sinos falam a V Semana Cultural Dom Lucas Moreira Neves.

Promovida pelo Memorial Dom Lucas Moreira Neves, este ano ela tem na música seu eixo principal. Afinal, a música sempre foi paixão, virtude e dom da família de Dom Lucas desde seu pai, Telêmaco Neves, e é uma das faces divinas da alma de São João del-Rei.

A semana se abrirá no domingo, dia 7, às 20 horas na igreja do Carmo, com um encontro de Ave Marias: um recital lírico com as mais belas composições dedicadas a Nossa Senhora, executadas por um conjunto de sopranos, barítono, flauta e espineta. Na segunda feira, tem missa cantada na Matriz do Pilar e, nos dias seguintes, à noite, no Memorial, uma programação musical variada: Coral de Trombones, Modinhas Imperiais, Música Popular e, no sábado, a montagem da peça Capital Federal, de Arthur Azevedo.

A programação se encerra no domingo, 14, novamente às 20 horas na igreja do Carmo, com um recital especialmente oportuno: o Encontro de Verônicas. Neste evento, a acontecer exatamente no dia em que se homeageia o Senhor Bom Jesus de Matosinhos, cantoras que já foram Verônicas nas procissões de Sexta Feira Santa em São João del-Rei, Ouro Preto, Serro e São Paulo cantarão o lamento que entoam várias vezes quando abrem o sudário e expõem a face ensanguentada de Jesus:

"O vos omnes qui transitis per viam. atendite et videt se est dolor sicut dolor meus..."


A semana cultural termina no domingo, mas as homenagens a Dom Lucas Moreira Neves não. Na terça feira, 16, às 18h30 na capelinha de Santo Antonio, mais uma missa em memória do cardeal são-joanense. Aliás, foi na Rua Santo Antonio, a mais musical da cidade, construída no caminho dos bandeirantes que entravam no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar no começo do século XVIII, que Dom Lucas, ainda o menino Luiz, brincando na infância, viu brotar e crescer sua missão religiosa. 


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O que se ver e fazer em São João del-Rei? Só não sabe quem não vem cá...


Uma cidade misteriosa, que não mostra, à primeira vista, suas belezas. São João del-Rei é assim. Não é uma cidade óbvia, espetacularizada, estereotipada nem folclorizada. Tal qual num namoro mineiro, é preciso calma e serenidade para conhecer os encantos daquela que - por manter vivas e organicamente integradas suas visões, memórias e tradições dos longínquos tempos do ouro - pode ser considerada a mais barroca cidade de Minas Gerais.

De imediato, quem chega ao centro histórico não percebe isto. A diversidade evolutiva da arquitetura, que mistura os séculos XVIII, XIX e XX, às vezes intriga e desconcerta o visitante quanto ao tempo em que ele está. Como é possível ali três séculos trançarem seus estilos estéticos sem, na maioria dos casos, perder sua autêntica harmonia? E a monumentalidade delicada dos templos, a mostrar que Deus mora aqui e é vizinho dos são-joanenses?

A cada hora do dia, conjugada com a estação do ano, a paisagem são-joanense muda tão fortemente sua face, que as igrejas, largos e becos não parecem aqueles que se vira antes. Novamente a cidade desafia e surpreende o visitante, agora em relação ao espaço.

De repente sinos dobram e repicam (em São João del- Rei os sinos são muitos e tocam o tempo todo). Em compasso parecido, uma banda toca (São João del-Rei tem quatro bandas musicais, todas muito atuantes). As orquestras tocam e cantam melodias setecentistas (a cidade possui as duas orquestras barrocas mais antigas das Américas, uma orquestra sinfônica e várias orquestras de câmara).

Das igrejas iluminadas saem procissões que revivem tradição iniciada no século XVIII (o calendário litúrgico da cidade, com seus diversos ofícios, novenas, rasouras e procissões, pode se dizer, ocupa todos os dias do ano). Nos largos, no coreto, nas praças públicas, nas igrejas, nos teatros - a música está em toda parte, com suas notas e pausas passeando entre o passado, o presente e a eternidade. Como é que pode ser tão autêntica, genuína, barroca e musical cidade?



E agora, já sabe o que ver e fazer em São João del-Rei? Para conhecer mais, leia outras matérias deste Almanaque Eletrônico, entre elas:

. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/08/ninguem-duvida-em-sao-joao-del-rei-os.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/07/novena-de-nossa-senhora-do-carmo.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/05/em-sao-joao-del-rei-dizem-que-os.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/04/forcas-confusoes-e-alvorocos-de-sao.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/03/festa-de-passos-sao-joao-del-rei-alem.html

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Salve São João del-Rei. Salve setembro. Salve tudo o que aqui faz a vida ficar melhor e mais bonita!


Mal setembro anuncia sua primeira alvorada e em São João del-Rei a primavera se antecipa, florescendo pétalas de fé. De toda parte exala aroma doce de orvalhada flor de laranjeira, de inocentes manacás umedecidos de sereno e brisa, de jasmins mansinhos e repicados como se fossem vegetais estrelas de papel. Nem precisa ser noite. O amanhecer ou o entardecer já bastam.

O nono mês do ano é suavemente santo à sombra da Serra do Lenheiro. Faltam-lhe horas, dias e noites para tamanha devoção. Senhor do Monte, Bom Jesus de Matosinhos, São Francisco em chagas, Nossa Senhora das Mercês, São Miguel Arcanjo, Anjo da Guarda. Setembro precisaria ter 40 dias para caber, dia a dia, toda a são-joanense liturgia. Ser trinta por cento maior.

Os sinos não param. A orquestra canta continuamente. Aqui e ali, foguetes estouram sua alegria e fogos de artifício riscam o céu. Anjos infantis dobram esquinas, em meio a brancas nuvens de incenso e de algodão doce. As bandas tocam marchas alegres, enquanto nas barraquinhas se reencontra a infância em biscoitos fritos, pés-de-moleque, bolo de coco, quebra-queixo, pirulito de mel, guaranás, suco de vermelha groselha, empadas de capa grossa, pasteis, coxinha de galinha.

Vozes roucas gritam leilões de prendas doadas, anunciam rodadas de jogos de argola, de víspora, de roleta com avião que  voa sobre o nome de várias cidades e pousa sobre aquele, de sorte e felizardo, que vai levar o prêmio. Em uma bacia cheia de areia, se pescam peixinhos de lata, coloridas lembranças de um tempo distante ainda presente, já meio reticente, na memória do povo deste meu lugar.

Que bom que até hoje é assim. Salve São João del-Rei. Salve setembro. Salve tudo o que aqui faz a vida ficar melhor e mais bonita. E que pulsa vivo no coração são-joanense! Como esta Abertura Solene da Marcha das Mercês, executada pela bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense. Ouve só...