segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Santa Clara, clareai minha São João del-Rei!


São João del-Rei é um lugar onde o viver feliz requer, dia e noite, céu aberto. Suas ruas estreitas e sinuosas, seus becos, jardins e largos são palcos públicos onde desde sempre tudo acontece, para todos. O entusiasmo, a vitalidade e a alegria dos são-joanenses precisam de céu limpo para se materializar como procissões, desfiles de carnaval, cortejos, concertos, serenatas, cinema,teatro, recitais e retretas - tudo ao ar livre.

Antigamente, nos tempos românticos que duraram até os anos setenta, era comum as pessoas ficarem nas janelas ou sentadas na calçada ou soleira da porta de suas casas, olhando o tempo e a vida passar. Algumas vezes por dia iam dar uma volta na rua, para comprar a verdura e a carne do almoço, encontrar com os conhecidos, ler o Jornal do Poste, saber quem morreu ou se internou e mandar lembrança para os amigos.

Tudo a céu aberto. Podiam até levar sombrinha ou guarda-chuva, tanto se prevenindo de algum aguaceiro quanto se protegendo do sol forte. Dor de cabeça? Melhor evitar!...

Nesse costume e dependência meteorológica, a devoção e o culto a duas santas eram fundamentais: Santa Bárbara, a brava guerreira, protetora contra os raios e os temporais, e a suave Santa Clara, amiga de São Francisco, a quem cabia deixar o céu sempre claro. Era missão das mulheres, à época sempre em casa, dialogar com as duas santas, na busca dos divinos favores.

O céu escureceu de repente, ventou forte, relampiou raio nervoso, estrondou trovão - antes mesmo que a chuva caísse, já logo, aflitas, elas chamavam: Santa Bárbara, São Jerônimo! E então se cobria espelhos, tirava o rádio da tomada, acendia uma vela para a Santa e queimava a palma seca, benta no Domingo de Ramos. A partir de então, não se chegava na porta ou janela nem se tocava em faca, tesoura, torneira ou seja lá o que fosse de metal, até que a tempestade abrandasse.

Já com a meiga e doce Santa Clara, a conversa era outra. Conversa feminina, misto de confidências, cumplicidade e ameaça. Acreditando as mulheres e as meninas que a Santa franciscana também gostava de festa, faziam para ela uma pequena saia rodada, que guardavam na gaveta, junto de outras roupas. Porém, se chovesse ou nem isso, se apenas o céu nublasse, sinalizando água a caminho, lavavam logo a sainha e a penduravam alto no varal, como sinal e advertência a Santa Clara. Se ela Clara quisesse mesmo ir à festa, que mandasse logo o sol para secar...

E não é que às vezes dava certo? Vinha o sol e a chuva parava. Mas por medida de segurança, a saia ficava no varal. Minha mãe, ainda hoje, faz isto!...

Texto: Antonio Emilio da Costa
Informante: Carmen Trindade da Costa, 88 anos

Foto do YouTube: Dorival Caymmi, na janela azul, em tudo igual à foto de meu pai,  Geraldo Sebastião da Costa, na janela de sua casa, a quem eu saúdo, há cinco anos do lado de lá, com esta música

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Irmandade dos Passos homenageia, com um belo monumento, os irmãos finados


Entre os vários territórios de lembrança, cultura e memória de São João del-Rei, os cemitérios estão em toda parte, sempre à vista, lembrando a todos que o tempo é breve e a existência passageira. É isto o que dizem seus portões, dísticos, símbolos e iconografias.
Este ano, o Cemitério da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, ou Cemitério dos Passos, como é chamado na intimidade, ganhou um novo monumento: um Cristo carregando a cruz, sobre uma base de mármore, onde estão em baixo relevo os estigmas da Paixão, que é o escudo-brasão da Irmandade, e o nome daquele campo santo.
O Cemitério dos Passos, aliás, tem o mais antigo monumento funerário do Cemitério da Matriz do Pilar, que fica no alto da Muxinga e é dividido em cinco partes, cada uma pertencente às irmandades do Santíssimo Sacramento, Senhor dos Passos, São Miguel e Almas, Nossa Senhora da Boa Morte e Santo Antônio. Trata-se de uma sepultura erigida no começo do século XX, em mármore branco, com belos relevos e uma comovente mensagem de lágrimas, do filho Rogério de Mattos para a mãe, Prudenciana de Mattos, falecida em 8 de março de 1914. Tem na cabeceira uma cruz muito artística, enfeitada com folhas tristes e flores chorosas. Servindo como base e apoio, uma pedreira, com uma rosa sonolenta - tudo em mármore branco, marcado pelo tempo centenário.
A Irmandade dos Passos, fundada há mais de três séculos, precisamente em 1734, é uma das mais antigas de São João del-Rei e responsável pela mais longa e tradicional celebração da Semana Santa são-joanense: a Celebração dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário. Popularmente conhecida como 'Festa de Passos', ela dura cerca de 40 dias, quando acontecem três Vias Sacras Solenes, duas procissões de depósito, duas rasouras, a Procissão do Encontro, o Setenário das Dores e a Procissão da Soledade de Nossa Senhora, ou das Lágrimas, como a chamavam antigamente.
Além de promover todas estas solenidades e de encarregar-se da missa noturna de todas as sextas-feiras, a Irmandade também é responsável pela preservação dos cinco grandes oratórios, que são os Passinhos da Paixão, e da capela-passo de Nossa Senhora da Piedade.

Muito zelosa, competente e dedicada no cumprimento de sua missão, a Irmandade estendeu seus cuidados até o cemitério onde estão sepultados os irmãos, e a primeira realização que prova isto foi a inauguração do monumento ao Senhor dos Passos, no dia 2 de novembro deste ano, em homenagem aos Finados. Certamente a sepultura secular de mármore branco de dona Prudenciana, por seu valor como patrimônio estético, artístico e histórico, também merecerá a atenção e o zelo da Irmandade dos Passos.
Texto e fotos 2, 3 e 4: Antonio Emilio da Costa
Foto 1 - Anthony Claret Moura Neri



sábado, 8 de outubro de 2016

Ah! Estes doces e inocentes mistérios de São João del-Rei...


Em São João del-Rei, os santos são amigos. Gostam de se encontrar, de conversar e matar a saudade, nem que para isso seja preciso se desculpar com o bispo, desobedecer o pároco, contrariar as irmandades e até mesmo a vontade do povo, como às vezes acontece.

Quando resolvem colocar debaixo do braço auréolas e santidades, para sair do sério, basta apenas a oportunidade de uma procissão. Nestes dias, esperam somente o cortejo atravessar um largo e dobrar duas ou três esquinas para rapidamente recolherem do céu as estrelas e jogarem das nuvens um bom pé-d'água. Pode ser até que ele passe depois de alguns minutos, mas até que isto aconteça, o  povaréu já se dispersou. As irmandades encurtaram o caminho e os ilustres carregadores do andor, de lanternas e do pálio protetor da autoridade eclesiástica tomaram o rumo da igreja mais próxima, onde o santo - que estava a passear em procissão pelo centro histórico, ao som da banda e dos sinos - passará a noite.

Lá, ele se juntará a outros santos e anjos, que esperam apenas o sacristão fechar as portas e apagar a luz das velas para tagarelarem noite inteira e colocar em dia verso e prosa, para avivar e aquecer tão velhas amizades. Relembram das santidades que moram em outros templos; falam de penitências, sofrimentos, torturas, suplícios e martírios; riem dos apuros que tantas vezes passaram, quando viviam na Terra e ainda não tinham ganhado asas para o Céu. Confidenciam sortilégios da humanidade que lhes tiram o sono e confabulam planos para enganar o Mal, desviar seus caminhos, levando-o para bem longe de qualquer ser vivente. É isto o que Deus e os homens deles esperam.

Assim, de uma hora para outra, São Francisco desvia o trajeto e sobe a escadaria da igreja de São Gonçalo. São Sebastião para na igreja do Carmo. Nossa Senhora da Glória e a Santíssima Trindade entram às pressas no Hospital das Mercês. Nossa Senhora das Dores suspende a capa de céu noturno, tira o diadema de prata e estrelas e fica na igreja do Rosário. Senhor dos Passos resolve transferir o encontro com sua mãe no Largo das Mercês para o dia seguinte, segunda-feira e, como desculpa, faz chover à tardinha, no quarto domingo da Quaresma. Tudo para visitar o santo amigo e conversar com ele a noite inteira...

Depois do choro pela frustração da roupa nova molhada e de uma noite mágica escorrida em enxurrada pelos bueiros de pedra rumo ao Córrego do Lenheiro, era assim que as crianças de antigamente, quando chegavam de volta em casa, justificavam umas para as outras a chuva que pôs fim à procissão. E logo em seguida ficavam felizes de novo, sabendo que no dia seguinte a festa continuaria, a partir da igreja onde o santo parou.

Informante: Carmen Trindade da Costa, SJDR, 88 anos
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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nossas Senhoras de São João del-Rei. A doce e suave matrona Conceição


Continuando nas "Breves invocações / de quem nada merece / a quem oferece tudo", do folheto Exposição Mariana, produzido pela Paróquia do Pilar de São João del-Rei, na Semana Santa de 1995, aproveitando que hoje é dia de São Francisco, assim clamou o poeta Jota Dângelo à Nossa Senhora da Conceição, a quem muito recorria o santo de Assis:

Nossa Senhora da Conceição

Que eu não precise, Senhora,
invocar-te em oração.
Que tudo o que eu diga e faça
seja a minha invocação.
Senhora, Senhora minha,
Senhora da Conceição.

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Imagem recolhida da internet (https://www.youtube.com/watch?v=e3D6FdUofX4)

sábado, 1 de outubro de 2016

Nossa Senhora do Rosário: com terço de contas e rosas, a grande Matriarca de São João del-Rei


Se Nossa Senhora do Pilar, vinda com os brancos, bandeirantes, desaforados e opressores, é a padroeira de São João del-Rei, Nossa Senhora do Rosário, que veio com os negros - com os cativos, com os escravos, com os libertos e com os livres - é a matriarca desta terra.

Sua corte na cidade começou oficialmente em 1708, quando a territorialidade são-joanense não passava de um arraial. A Irmandade do Rosário de São João del-Rei, uma das três mais antigas do Brasil e a pioneira de Minas Gerais, talvez seja a primeira instituição de direito civil, privado e religioso constituída na Comarca do Rio das Mortes. Documentos e datas não mentem. O orgulho dos irmãos do Rosário também não.

Sua igreja foi das primeiras edificadas no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, numa situação geográfica que  ostenta sua expressão e seu significado na sociedade daquela época dourada e colonial. Também festejada no mês de outubro, porém durante todos os trinta e um dias, é aquela a quem se chama em silêncio, nas horas de mais profundo recolhimento. Às vezes nem é preciso chamá-la: pressentindo o sofrimento, ela se antecipa em socorrer, anunciando a chegada de seu amor na forma de uma brisa misteriosa e docemente perfumada de rosas suaves.

O séquito de Nossa Senhora do Rosário é formado por reis congadeiros, marujos, catupés, caboclinhos, guerreiros, todos roucamente ruidosos no rufar de suas caixas e nos cantos guturais, que venceram noites, chibatas e oceanos; transporam a Serra do Lenheiro e pulsam eternamente no coração de cada negro são-joanense.

Conversando com Nossa Senhora do Rosário, Jota Dangelo disse:

Nas contas do teu rosário,
contou-se dores de escravos.
Curou-se chagas de açoite,
com a invocação do teu nome.
Luz que findou a noite,
consolo dos que têm fome.
Rainha dos congadeiros,
quer dizer, dos brasileiros,
pois nas raças, misturados,
não somos brancos nem negros.
Todos nós somos só pardos!

Texto: Antonio Emilio da Costa / Foto: Danilo Gallo






sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Nossas Senhoras de São João del-Rei - No Pilar, desde sempre, a Padroeira


Por mais que às vezes deseje estar em silêncio e sozinho, o são-joanense traz sempre alguém consigo, que o acompanha e com quem conversa. Homem ou mulher, criança ou velho, rico ou pobre, nas piores tristezas ou nas mais felizes horas, mudos ou ruidosos, sempre exclamam: Nossa Senhora! Por economia ou discreção, pode ser apenas Nossa! e, dependendo do susto ou do aperto, se resume a uma sílaba: Nó! Tão poucas letras, tamanha é a pressa, a infinita surpresa, o desmedido susto,o sufocante aperto, a desmesurada aflição.

Aliás, Nossa Senhora é madrinha de São João del-Rei. Em seu pilar, veio para cá nos oratórios dos bandeirantes portugueses, no comecinho dos anos setecentos. Viu o arraial transformar-se em vila e teve que proteger o povo das furiosas chamas paulistas e emboabas. Dizem que salvou até as imagens de São Sebastião e São Miguel Arcanjo que, antes na incendiada capela do Morro da Forca, agora habitam a Matriz do Pilar.

O tempo todo Nossa Senhora é festejada em São João del-Rei, todo mês, senão toda semana, tantas são as suas missões e invocações. Sobre isto, o multi-intelectual são-joanense Jota Dangelo, em 1995, escreveu dezenove versos, divulgados na "visitação" de Quinta-Feira Santa do ano de 1995 na igreja do Rosário, quando foram expostas muitas das mais belas imagens de Nossa Senhora veneradas a "terra onde os sinos falam" - a mais barroca cidade de Minas Gerais.

Nesta e nas próximas postagens apresentamos, com satisfação, as preces e os clamores poéticos de Jota Dangelo. Comecemos pela padroeira de São João del-Rei, festejada no dia 12 de outubro.

Nossa Senhora do Pilar
Minha santa padroeira
desta terra de emboabas.
Pilar da fé dos primeiros
que chegaram nestas plagas.
Derrama graças e bênçãos,
cicatriza nossas chagas,
que a cidade anda a deriva,
a mercê de muitas pragas.
Desperta o vale que, inerte,
adormece ao pé da Serra.
Ilumina a consciência
do povo de minha terra!

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa