sexta-feira, 28 de abril de 2017

São João del-Rei de todos os tempos, de todos os estilos, sem preconceito...


Andar pelo centro histórico de São João del-Rei, prestando atenção nos detalhes de sua arquitetura, é uma viagem no tempo, rica de linhas e estilos - um prato cheio para dar asas à imaginação. Além das torres, telhados, frontispícios, pináculos, portadas, colunas, cornijas, coruchéus, cimalhas, rocalhas, ombreiras, aldabras e tudo o mais que é tipico da arquitetura colonial, a cidade possui exemplares  preciosos de outros estilos arquitetônicos característicos a séculos seguintes ao período setecentista, também muito ricos em suas figuras, linhas e curvas.

Isto, aliás, é o que particulariza São João del-Rei em relação a outras cidades históricas mineiras, tornando-a arquitetonicamente mais plural, diversificada e rica, como um relógio que marca a passagem do tempo, por meio de suas construções.

Figuras de animais, letras , flores, plantas, flechas, setas, estrelas, corações, enfeitam diversas construções do centro histórico e de outras áreas antigas um pouco mais afastadas, com as finalidades mais diversas. Para os céticos, sua finalidade é apenas decorativa, algumas vezes informando, por meio de rebuscadas letras iniciais, quem foi o primeiro dono daquela casa, mas não falta quem diga que muitos destes estuques têm outros significados.

Estes, acreditam que alguns enfeites podem ter, até mesmo, a função de amuletos. Os animais, por exemplo, podem ser indicativos de força e poder, protegendo aquela família contra inveja, mau-olhado e outros malefícios. Flechas cruzadas e rosto de índio também têm a mesma finalidade. Do mesmo modo, folhas e flores podem significar prosperidade, vitória e o desejo de viver feliz em meio à fartura e à generosidade do universo.

Hoje raras e dispersas em áreas populares e menos nobres, algumas residências possuem na frente, montada por quatro ladrilhos, a imagem de um santo católico, informando claramente que ele é a principal devoção, o santo protetor do dono da casa.

A diversidade é tamanha que, na lateral direita de quem sobe a escadaria da igreja das Mercês, tem até uma casa que a varanda é guarnecida pelas colunas do Palácio da Alvorada. É só andar, olhando atentamente em volta, para ver!

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

quinta-feira, 27 de abril de 2017

As linhas da mão e a fibra real do coração de São João del-Rei


Cidade colonial, barroca, as linhas de São João del-Rei, em sua maioria, são curvas. Curvas telhas, curvas torres, curvas beira-seveiras, curvas pontes, curvas conchas, rocalhas e volutas, curvas barroquices, como a curva lua crescente de prata que firma o pé de Nossa Senhora da Assunção, em sua subida ao céu no dia 15 de agosto. Diferentes destas, tem também a linha do trem, paralela e reta, que agora só leva à vizinha Tiradentes...

Mas além destas, tem muitas outras linhas, que desenham o passado no presente, mostrando às vezes o que, a olho nu, no corre-corre da rotina, muitas vezes não se vê: as tramas do pau-a-pique das velhas paredes, os detalhes das aldabras e dos gradis de ferro batido, a harmonia secular das pedras pé-de-moleque, as nervuras e formatos das pétalas e das folhas de nossas plantas devocionais e da medicina popular. Tudo isso tem fibra, e esta fibra é real.

Isso mesmo: Fibra Real é o nome de um projeto são-joanense muito interessante. Discreto como os mineiros, em especial os são-joanenses, ele traz à vista detalhes preciosos e hoje quase desconhecidos, da cultura de São João del-Rei, na capa de cadernos de anotação, agendas, cartões, moleskines, sacolas ecobags - tudo com estampa no formato das tramas, dos veios, das veias e das linhas que falamos acima. Tudo com papel artesanal de fibra de bananeira e no mais puro algodão. Eles bem que podiam fazer camisetas, almofadas, copos, canecas e outros trecos...

Cabaças, antigamente tão comuns no dia a dia das esfumaçadas e cobiçadas cozinhas de São João del-Rei, hoje são matéria prima para as produções do grupo de artesãs e artesãos, e viram luminárias, abajures, pendentes, móbiles, objetos de decoração e até bonecas, morenas e sedutoras.

E por falar em bonecas, a turma do projeto Fibra Real é muito hábil em criar com elas bonecos tríplices, de pano, lã, cordão, malha e contas, que contam as quase esquecidas lendas de São João del-Rei: a mulher que seduziu um padre e virou mula-sem-cabeça, o defunto que o diabo carregou para o nunca mais, a velha bisbilhoteira que se encontrou com a morte e não conseguiu escapar de sua foice, e tudo o mais que é fantástico e, décadas atrás, tirava o sono das crianças e deixava arisco muito adulto. Se acredita, então ganha vida, existe!

Ah, como encontrar esse povo de Fibra Real? No Largo do Rosário, entre a Catedral do Pilar e o Museu de Arte Sacra, onde eles mostram o que fazem, oferecendo para que todos levem para casa, na forma de seus produtos, um pedaço da cultura de São João del-Rei.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Ilustração: capa do folder do projeto



terça-feira, 25 de abril de 2017

Missa do Aleluia. Um dos mais belos ritos da Semana Santa de São João del-Rei


Depois do esplendor, do encantamento e da intensidade maravilhosamente sensorial e dramática que são a Festa de Passos – desde as Vias Sacras até o Setenário das Dores, passando pelas rasouras e procissões do Encontro – e a Semana Santa de São João del-Rei – desde o Ofício de Ramos, até os ofícios de Trevas, o Canto da Paixão, Adoração da Cruz, descendimento e Procissão do Senhor Morto – é praticamente impossível imaginar que, complementando as celebrações da Paixão de Cristo, ainda possa haver algo uno, e de tamanha beleza, que seja capaz de exaltar de prazer todos os sentidos, da visão ao olfato, da audição ao tato. Mas existe. É a Missa do Aleluia!

Diferentemente de outras ocasiões, em uma das três portas principais da matriz do Pilar, há velas a venda, que as pessoas tranquilamente compram e conservam apagadas. Nas 20 horas que neste dia o relógio não bate, o ritual começa em absoluto silêncio, do lado de fora, do lado esquerdo de quem sobe o adro da igreja, então guarnecido por dentro pelos irmãos do Santíssimo Sacramento. Ali se acende o fogo sagrado, o oficiante  marca o grande círio pascal, que acende, e adentra afastando a penumbra do templo, de tempos em tempos quebrando também o silêncio, com um longo e pausado anúncio em voz alta: lumen Christi!, que o povo responde quase no mesmo tom: deo gratias! O cortejo de sacerdotes vem logo atrás e, com suas velas acesas, reparte o fogo e a luz com os fiéis, que também compartilham entre si a chama e o calor. Além do cheiro das velas e do incenso, há muita expectativa e certeza no ar.

Já no altar-mor, começa o rito de orações e cânticos. Leituras firmes contam a história de um Deus seguro em seus atos, determinado contra os que o desobedecem. Em muito diferente do cordeiro complacente, imolado na véspera e arrastado em procissão pelas ruas tortas, escuras e centenárias de São João del-Rei. Entre leituras e antífonas, pouco a pouco vão se acendendo as velas do altar-mor, antes totalmente despido de enfeites e agora, quase magicamente enfeitado de flores que vão surgindo suavemente entre os altos castiçais de prata.

É a hora do Glória, quando todas as luzes da Matriz do Pilar se acendem, todos os sinos das igrejas do centro histórico dobram e repicam, foguetes estouram no céu e a Orquestra Ribeiro Bastos canta o exultantemente. A cortina branca e vaporosa do altar-mor se abre e, à medida em que a densa nuvem de incenso vai dissipando, aparecem, entre flores brancas e velas acesas, Jesus subindo ao céu, com a mão direita erguida, deixando ver uma a chaga, ainda viva e exposta, e na mão direita um pequeno estandarte branco, que tem ao centro uma cruz dourada - sinal da fé vitoriosa. E também a Virgem do Pilar, tendo no braço esquerdo o menino Jesus. Os dois ostentam soberana majestade, com a coroa feita com o melhor e mais puro ouro da Serra do Lenheiro, colhido e doado pelos garimpeiros de São João del-Rei.

Ao longo da missa, as surpresas não param. Na capela-mor, um recém-nascido e um adulto pagão são batizados e, na nave da igreja, os fiéis acendem novamente uns aos outros suas velas, renunciando a Satanás e renovando as promessas do batismo.

Tudo é festa, tudo é alegria, Aleluia! As notas musicais que a Orquestra toca e canta durante todo o rito dançam felizes entre as pessoas e evoluem em espirais em volta dos anjos dourados, no mais sublime e circular entusiasmo, Ouve-se então o canto das Matinas da Ressurreição, compostas no século XIX pelo padre José Maria Xavier, especialmente para a noite do Sábado Santo.

Completam-se, então, exatas três horas de celebração do Aleluia, quando novamente os sinos dos Passos e do Santíssimo Sacramento dobram vigorosos e felizes durante quase 15 minutos. Termina, assim, a solenidade que festeja a saída de Cristo do sepulcro, vencendo a morte e as trevas, per saecula saeculorum...

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Marcos Luan (colhida na internet)

terça-feira, 11 de abril de 2017

A Paixão de Cristo, os mistérios, encantos e a magia da antiga Semana Santa de São João del-Rei


Antigamente em São João del-Rei, além da fé e da devoção, muitos outros sentimentos ocupavam os corações são-joanenses durante a Quaresma e a Semana Santa. Desde a piedade e a penitência, passando pelo jejum e abstinência voluntária de carne, até a restrição do lazer.

Os bailes, por exemplo, eram suspensos nos clubes e salões locais e só voltavam a acontecer após a meia noite do Sábado Santo, ou melhor, do primeiro minuto do Domingo de Páscoa. Era o famoso Baile da Aleluia.

O Domingo de Ramos era um contexto especial e uma ambiência religiosa singular. Começava com o som longo e espaçado dos sinos e a bênção das palmas, na igreja do Rosário, ao fim do que, na Matriz do Pilar se assistia a missa que, segundo os antigos, tinha o Evangelho mais demorado do ano. Teatralizado e cantado, narrava a história de Cristo,  da prisão no Horto das Oliveiras até o último suspiro, no Monte Calvário. As palmas bentas, acreditava-se, tinham poderes mágicos de proteção da casa que a guardava. Bastava queimá-las para acalmar o céu furioso das tempestades, a ira de Deus na forma de raios e trovões.

Quando chegava a Sexta-feira Santa, a cidade mergulhava-se no mais profundo silêncio. As pessoas falavam baixo, andavam devagar, não varriam a casa, sequer passavam perto de bebida alcoólica. Rádio ligado? Só na Rádio São João, na transmissão do Sermão das Sete Palavras e da Adoração da Cruz. Não se fazia jejum absoluto, mas as pessoas eram discretas ao saciar a fome, com comidas simples da qual fazia parte o bacalhau.

Sexta-Feira da Paixão era um dia de poderes e mistérios, quando a turba da morte de Jesus fragilizava a fronteira dos diversos mundos. Permitia o livre trânsito de incontroladas energias e até o contato com o além,  numa ordem avessa aos limites que cotidianamente existiam entre o Bem e o Mal. Por isso, era dia de se colher ervas medicinais na serra e nos campos, antes do nascer do sol, de cortar as unhas e jogar na água corrente, de procurar um respeitado benzedor para tirar quebranto e mau olhado, fechar o corpo e fazer simpatias, principalmente para recuperar a saúde e a prosperidade.
Pelo mesmo motivo de desamparo da Ordem, as mandingas e feitiços realizados na Sexta-Feira Santa eram tidos como eficazes e infalíveis, gerando absoluto temor. Descobrir e quebrar feitiço feito neste dia era coisa difícil, quase impossível, pela perturbação do emaranhado em que o universo, com a Lei enfraquecida de tristeza pela morte de Cristo, naquele momento se encontrava. Só medo, nenhuma esperança.

Esse clima místico perdurava Sábado Santo afora, só ia se dissipando quando o sol do meio dia fazia a curva para se esconder atrás da Serra do Lenheiro. Vinha a noite e a alegria explodia no dobrar festivo dos sinos da Matriz e nos foguetes que anunciavam o Aleluia. Cristo ressuscitou, já se podia de novo rir, beber, dançar...


E tudo terminava no fim da tarde de domingo, com a queima do Judas, enforcado, pendurado em uma árvore de embaúba, fincada na beira da praia, perto da Ponte do Rosário, na Rua do Ouro, no Tijuco, no Alto das Mercês, no Senhor dos Montes, no Bonfim, no Lava-pés, em Matosinhos. Sem coelhinho nem ovo de páscoa. Mas com muita felicidade!

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Tapetes de flores, areia e serragem trazem o Céu para o chão na Semana Santa de São João del-Rei



Já faz mais de três décadas que as ruas de São João Del-Rei, durante a Semana Santa, apresentam um novo atrativo que encanta sanjoanenses e turistas: os delicados tapetes decorativos. Especialmente aos sanjoanenses, essa expressão cultural atrai duplamente, pois além de admirá-la, eles podem participar de sua produção e, assim, ser protagonistas de uma ação criativa que demora oito, dez horas para ser realizada, mas é muito efêmera. Em quinze, vinte minutos, o céu no chão se desfaz sob o caminhar de anjos, virgens, virtudes, reis, profetas, heróis, apóstolos, guarda romana- personagens do Velho Testamento que, voltando no tempo, vêm à frente do Senhor Morto na procissão do Enterro de Sexta-Feira da Paixão.
Enfeitar ruas para procissões é tradição em diversos países católicos e forrar as ruas com folhas e flores também é comum em países da Península Ibérica e da América Central. Nas velhas cidades brasileiras, essa manifestação evoluiu para a confecção de tapetes de areia, flores e serragem, ilustrados com a iconografia de símbolos religiosos. Em São João del Rei, os tapetes são tão criativos, minuciosos e delicados que é impossível não considerá-los sofisticadas obras de arte. Extremamente breves, passageiros, mas obras de arte.
Os tapetes do Largo de São Francisco são os mais elaborados, tanto na concepção quanto na execução, e também os mais extensos. Inseridos na programação do projeto Atitude Cultural, antes nas programações do NAC-Núcleo de Assessoria Cultural, na verdade são arte-manifesto porque, além de encantarem pela beleza, procuram chamar a atenção para os valores culturais sanjoanenses e para a necessidade de preservá-los. Em 2008, esses tapetes se estenderam pela Rua da Prata, possivelmente somando 300 metros de extensão. Se estenderam pela Rua Balbino da Cunha e, a continuar se alastrando com tamanho entusiasmo, não se sabe até onde deverão chegar. Demonstrando o espírito comunitário da atividade, mais de 200 pessoas, espontaneamente, participam da criação e confecção, algumas apenas por alguns instantes, outras desde os riscos iniciais até o fim da execução.
A idéia é tão contagiante e vitoriosa que, em 2008, o Largo do Rosário também ganhou um belo e extenso tapete, resultado de um trabalho de inserção social de crianças das comunidades mais afastadas do centro histórico, realizado pela Oficina Artes da Terra.
Já o tapete do largo frontal da igreja do Carmo, tradicional e austero, lembra que em tempos passados, à meia-noite, a Procissão do Enterro saía daquele lugar e ostenta sempre, em cores e traços econômicos, a imagem da face de Cristo impressa no Santo Sudário, são realizados pelo Grupo Arte de Rua.

Na Colônia do Marçal, um grupo de adolescentes já se responsabilizam pela arte, através da Associação Tapetes de Rua. Desta forma, a paisagem dos principais largos por onde passa a Procissão do Senhor Morto são, na Sexta-Feira da Paixão, suporte para essa expressão artística, à exceção o Largo das Mercês, até então não adotado por nenhum grupo disposto a lhe reverenciar com a atividade comunitária e manifestação cultural. Quem sabe se, nos próximos anos, alguns sanjoanenses se dispõem a tomar essa iniciativa e outros se propõem a “estender” tapetes em mais trechos do percurso da Procissão do Enterro, tão especial para o povo de nossa terra.
Onde tudo deve ter começado ...
Revirando documentos históricos, vemos que não é de hoje que o povo de São João del-Rei tem gosto especial por produzir expressões artísticas passageiras, criadas especialmente para fatos importantes. As Exéquias de Dom João V, por exemplo, realizadas em dezembro de 1750 não tiveram, no Brasil, celebração tão expressiva quanto as celebradas na Matriz do Pilar, registradas em publicação do século XVIII que noticiou a Portugal as homenagens prestadas ao monarca defunto na Vila de São João. Entre essas homenagens, um mausoléu temporário no centro da nave da igreja.
Daquela época à metade do século XX, os tapetes de rua repetiam iconografias simples, utilizando flores, folhas, areia branca e serragem, nas procissões festivas, como Ressurreição, Corpus Christi e homenagens a Nossa Senhora. Principalmente flores vermelhas, amarelas e de outras cores fortes, como bico de papagaio, alegria bunganvília, fogo de mulher velha e monsenhor. As janelas das casas térreas e dos sobrados emolduravam o quadro bucólico, com toalhas rendadas e vasos de flores. Na rasoura de Nossa Senhora das Dores, em derredor da igreja do Carmo, manjericão, crista de galo e folhas de coqueirinho roxo apelavam para a memória olfativa e visual, pelo aroma e pela cor.
Os sinais de modernidade dos anos cinqüenta e sessenta marcaram São João del Rei, com arroubos de verticalização urbana, linhas retas e pilotis e pelo abandono a algumas tradições culturais. Sobretudo aquelas voluntárias e espontâneas, como os tapetes de procissão e outras manifestações que nos anos setenta do século XX já estavam inexpressivas.
Uma das ações visando despertar para essa perda foi a realização de várias edições da Exposição de Arte e Artesanato Edmundo Dantés Palhares. Visionariamente à frente desse projeto, Ângela Cordeiro, Maurício Popó, Jaime Vieira, Francisco Vieira, Miguel Bezamat e várias outras pessoas se dispunham tanto a identificar o que havia de mais significativo em termos de arte e artesanato na região quanto a viabilizar formas para que essa produção fosse exposta e comercializada na Semana Santa, para sanjoanenses e para turistas, já que é a época em que a cidade recebe o maior contingente de visitantes.
Santa Ceia no Cantinho da Canja
Tal qual nos tapetes do Largo de São Francisco, as exposições eram ponto de encontro onde os sanjoanenses - residentes e exilados - reconheciam a riqueza cultural de São João del Rei e discutiam fatos recentes que valorizavam ou degradavam o patrimônio e a memória da cidade. Em 1983 não foi diferente. Na Quinta-feira Santa, 31 de março, após o Lava-pés, conversávamos Ângela, Popó, Jaime, Rita Hilário, Mauro Marques e eu na casa mais antiga, onde estava montada a exposição de arte e artesanato, sobre o assunto acima, quando me veio a idéia de se recriar a tradição dos tapetes de rua, transformando-a em arte-manifesto. Minha proposta era começarmos naquele ano mesmo, reproduzindo em um grande tapete de areia e serragem, no Sábado de Aleluia, na Rua Santa Teresa, em frente à exposição, a capela do Bonfim. A idéia era ousada, pois não se tinha preparado qualquer material nem equipe, mas aos poucos outras pessoas foram se juntando na conversa e a proposta contagiou.
De lá fomos para o Cantinho da Canja, onde planejamos detalhadamente a operação, que deveria começar pedindo aos moradores da Rua Santa Teresa e arredores que, na Sexta-feira da Paixão, juntassem borra de café para tal produção. Quase clareava o dia quando “os trabalhos foram encerrados”.
Manhã de Sábado Santo, 2 abril de 1983. Na rua Santa Teresa, um grupo grande de crianças e jovens movimenta-se na ação criadora do primeiro tapete de rua da nova era. Os moradores participam ativamente, trazendo materiais que possam ser úteis na produção; ajudam no tingimento de areia e serragem e no preenchimento das cores; entusiasmam os criadores; se encantam com paisagem  que vai se revelando sobre o chão de pedra. O Jornal Hoje noticiou o falecimento de Clara Nunes. 4 da tarde. No balcão de madeira da casa mais antiga, pessoas se revezam para ver, do alto: o céu no chão!
Nos anos seguintes, o tapete itinerou: na Rua Getúlio Vargas, a igrejinha de Santo Antônio; no Largo do Rosário, o Cordeiro de Deus sobre o Livro dos Sete Selos (bela criação de Carlos Magno inspirado no medalhão do frontispício da Matriz do Pilar); em frente à Prefeitura, o Descendimento da Cruz; em frente ao Solar da Baronesa, o Anjo São Miguel.
Assim foi o início da história da nova era dos tapetes de rua de São João del Rei. O resultado de uma idéia solitária, que foi encampada por todos e se materializou na nova forma de expressão artística sanjoanense, que hoje, inclusive, é motivo de orgulho e já faz parte do calendário turístico e cultural da cidade.
A ação se expandiu, inclusive para outras partes de São João del-Rei. A comunidade do Senhor dos Montes também confecciona tapetes singelos - mas não menos belos ou importantes -, tornando ainda mais bucólicos os caminhos íngremes e crepusculares por onde passam, no primeiro domingo de todo setembro, os andores de seus santos padroeiros. E na Sexta Feira da Paixão, estampa cenas bíblicas no largo da bicentenária igrejinha, em frente ao Cruzeiro da Penitência.
Nos bairros da Colônia e do Tijuco, em festas religiosas especiais, também se pode admirar belos tapetes de rua, algumas vezes até usando materiais alternativos, como por exemplo tampas de garrafa pet, de água mineral e outras.
É a tradição viva, sempre se renovando, tornando mais felizes os dias humanos...

terça-feira, 4 de abril de 2017

Passo a passo da tradicional Festa de Passos de São João del-Rei


As celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário, ou simplesmente a Festa de Passos, realizadas em São João del-Rei tem particularidades marcantes que as diferem completamente daquelas que são realizadas em outras cidades históricas mineiras.

Elas começam na primeira sexta-feira da Quaresma, com uma Via Sacra solene que se repete nas duas sextas-feiras seguintes. É um cortejo que se abre com um irmão dos Passos carregando erguida uma cruz de madeira preta, com o lençol banco na forma de um M, e se encerra com outro, carregando suspenso, em seu madeiro, um bicentenário crucificado.

Estas Vias Sacras param nas capelas-passos, onde a Orquestra Ribeiro Bastos canta motetos barrocos que, mesmo sendo muito antigos e em latim, são muito familiares aos são-joanenses. E para finalizar, canta o tradicional Senhor Deus, Misericórdia, que ecoa profundo e torna-se um lamento ainda mais pungente diante do silêncio da pequena multidão.

No quarto fim de semana da Quaresma é o ponto mais festivo das celebrações. Na sexta-feira, a imagem de Nossa Senhora das Dores é levada, coberta por um velário, para a igreja de Nossa Senhora do Carmo. No sábado, é a vez da imagem do Senhor dos Passos, que segue, também velada, para a igreja de São Francisco. Seguindo um costume que vem desde o século XVIII, os andores são enfeitados com manjericão branco e roxo e galhos de rosmaninho são desfolhados sobre o piso das igrejas, perfumando-as com um aroma seco de antiga saudade.

No domingo, acontecem pela manhã duas rasouras, quando os andores dão uma pequena volta em torno das duas igrejas, de onde, no final da tarde saem as duas procissões que se encontrarão para formar uma única. Neste dia, os andores costumam ser enfeitados com hortências azuis e roxas e o andor do Senhor dos Passos para diante das capelas-passos da Rua da Prata e do Largo do Rosário. À medida em que a procissão das igrejas, os sinos dobram em grande velocidade.

As imagens se encontram no Largo das Mercês, quando um orador sacro faz um demorado sermão, que geralmente funde fatos da vida de Cristo com situações do mundo moderno. É um discurso  enfático e tocante, que busca comover a multidão e apontar a ela novo caminho, sempre terminando com o chamado a Cristo e a Nossa Senhora para que se encontrem e sigam adiante, Cristo à frente e sua mãe atrás. Por mais que qualquer são-joanense, do mais simples ao mais erudito, conheça de cor aquele enredo e seja capaz de fazer magistralmente aquele discurso e convocação, todos prestam absoluta atenção, inclusive para depois elogiar ou criticar as palavras do sacerdote orador.

A procissão termina na Matriz do Pilar, onde as imagens são postas frente a frente no vestíbulo e  o altar-mor, aberto em cena do Calvário,  ambienta as palavras do padre convidado para fazer o Sermão que tem o mesmo nome do monte onde o Senhor foi crucificado.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Santa Clara, clareai minha São João del-Rei!


São João del-Rei é um lugar onde o viver feliz requer, dia e noite, céu aberto. Suas ruas estreitas e sinuosas, seus becos, jardins e largos são palcos públicos onde desde sempre tudo acontece, para todos. O entusiasmo, a vitalidade e a alegria dos são-joanenses precisam de céu limpo para se materializar como procissões, desfiles de carnaval, cortejos, concertos, serenatas, cinema,teatro, recitais e retretas - tudo ao ar livre.

Antigamente, nos tempos românticos que duraram até os anos setenta, era comum as pessoas ficarem nas janelas ou sentadas na calçada ou soleira da porta de suas casas, olhando o tempo e a vida passar. Algumas vezes por dia iam dar uma volta na rua, para comprar a verdura e a carne do almoço, encontrar com os conhecidos, ler o Jornal do Poste, saber quem morreu ou se internou e mandar lembrança para os amigos.

Tudo a céu aberto. Podiam até levar sombrinha ou guarda-chuva, tanto se prevenindo de algum aguaceiro quanto se protegendo do sol forte. Dor de cabeça? Melhor evitar!...

Nesse costume e dependência meteorológica, a devoção e o culto a duas santas eram fundamentais: Santa Bárbara, a brava guerreira, protetora contra os raios e os temporais, e a suave Santa Clara, amiga de São Francisco, a quem cabia deixar o céu sempre claro. Era missão das mulheres, à época sempre em casa, dialogar com as duas santas, na busca dos divinos favores.

O céu escureceu de repente, ventou forte, relampiou raio nervoso, estrondou trovão - antes mesmo que a chuva caísse, já logo, aflitas, elas chamavam: Santa Bárbara, São Jerônimo! E então se cobria espelhos, tirava o rádio da tomada, acendia uma vela para a Santa e queimava a palma seca, benta no Domingo de Ramos. A partir de então, não se chegava na porta ou janela nem se tocava em faca, tesoura, torneira ou seja lá o que fosse de metal, até que a tempestade abrandasse.

Já com a meiga e doce Santa Clara, a conversa era outra. Conversa feminina, misto de confidências, cumplicidade e ameaça. Acreditando as mulheres e as meninas que a Santa franciscana também gostava de festa, faziam para ela uma pequena saia rodada, que guardavam na gaveta, junto de outras roupas. Porém, se chovesse ou nem isso, se apenas o céu nublasse, sinalizando água a caminho, lavavam logo a sainha e a penduravam alto no varal, como sinal e advertência a Santa Clara. Se ela Clara quisesse mesmo ir à festa, que mandasse logo o sol para secar...

E não é que às vezes dava certo? Vinha o sol e a chuva parava. Mas por medida de segurança, a saia ficava no varal. Minha mãe, ainda hoje, faz isto!...

Texto: Antonio Emilio da Costa
Informante: Carmen Trindade da Costa, 88 anos

Foto do YouTube: Dorival Caymmi, na janela azul, em tudo igual à foto de meu pai,  Geraldo Sebastião da Costa, na janela de sua casa, a quem eu saúdo, há cinco anos do lado de lá, com esta música