terça-feira, 31 de julho de 2012

Do barroco ao eletroacústico: mais música em São João del-Rei

Você acha que é possível um são-joanense  apaixonado por composições sacras mineiras dos séculos XVIII e XIX  - executadas principalmente na Semana Santa e nas muitas novenas das igrejas barrocas de São João del-Rei  - ser também amante da música eletroacústica? Pois lhe digo que sim e que isto não é adultério. E digo até o nome dele: Francisco José dos Santos Braga.

Além de se destacar como estudioso, concertista e compositor deste estilo de música contemporânea, Braga deu grande contribuição para o crescimento do número de corais em nosso país. Foram dele o projeto e os esforços para criação do Coral do Senado Federal, em Brasília, do qual fez parte, na fase inicial, como pianista. Este é mais um exemplo de que a musicalidade de São João del-Rei sempre atravessa as ondas minerais da Serra do Lenheiro e semeia claves de sol e notas musicais nos mais diversos e distantes pontos do território brasileiro.

Mas muito antes disso, nos idos de 1960, em São João del-Rei, nosso compositor  integrou o coral dos Meninos Cantores do Ginásio Santo Antônio, que tinha no repertório clássicos de Bach, Schubert,  Lasso, Mendoza y Cortes, entre outros grandes compositores eruditos e populares. A lembrança desse tempo é tão preciosa que Braga enumera de cor o nome completo de, pelo menos, vinte meninos que compunham o coral, assim como se recorda, respeitoso e agradecido, do frei Orlando Rabuske - fundador, regente e mantenedor daquele coral infanto-juvenil.

Cultura, história, patrimônio.  Estas são outras paixões da vida de Braga. Nos anos 90, muitos e grandiosos foram as ações que ele empreendeu para mostrar a cidadania são-joanense do herói Tiradentes, inclusive redigindo discursos parlamentares, depois publicados e difundidos para escolas, bibliotecas e acervos de instituições culturais. Recentemente, foi protagonista no processo de instituição do Dia da Liberdade e da Cidadania, festejado anualmente no dia 12 de novembro para comemorar o aniversário de nascimento de Joaquim José da Silva Xavier.  É participante ativo do projeto de criação do circuito religioso-cultural relativo a Nhá Chica e integra conselhos de representativas instituições culturais são-joanenses, nacionais e até de outros países.

Para felicidade de São João del-Rei, Francisco Braga voltou a residir na cidade. Assim, agora pode dedicar seu dia a dia a zelar, produzir, difundir e repercutir a cultura são-joanense. E enriquecer a todos, com sua conversa gentil e amiga, serena como o orvalho da manhã que em paz refresca campos e vertentes desta "terra querida e formosa de São João del-Rei".

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Sobre a musicalidade de São João del-Rei, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/04/o-pai-da-musica-vive-em-sao-joao-del.html

Para saber mais sobre o Coral dos Meninos Cantores Externos do Ginásio Santo Antônio, acesse http://bragamusician.blogspot.com.br/2009/12/105-anos-
da-presenca-franciscana-em-sao_9760.html

segunda-feira, 30 de julho de 2012

São João del-Rei: onde o céu abraça o chão

Onde o céu não desce ao chão, em São João del-Rei, a geografia se eleva, disposta a projetar o são-joanense ao infinito. O morro do Bonfim é um lugar assim: talvez o ponto mais elevado da cidade, mas com certeza o que mais bela visão oferece da Serra do Lenheiro, roxa e verde no seu ondular de seios, fendas, cascatas e vales.

Pequenina, a capelinha de Nosso Senhor do Bonfim fica no horizonte da linha tênue onde céu e terra, se separados, se juntam; se juntos, se separam. Tão diminuta que parece de papel, foi construída em 1769, pelo devoto José Garcia de Carvalho, nas imediações de onde semearam, na infância do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, a primitiva capela da santa padroeira, incendiada nos idos de 1709, pelos ódios e labaredas da Guerra dos Emboabas.

Delicada, bandeirante, de janelas azuis, torre e sino singelos, cercada de cheirosos manacás, a capelinha branca parece uma ovelha desgarrada, à espera do árcade e crucificado pastor. Bonfim. Seu nome chama esperança e acena adeus alentoso, no desejo inocente de apagar as letras graves que, evocando o alto patíbulo ali outrora plantado, insiste em ainda hoje manter o que está escrito na memória - Morro da Forca.

Dizem que foi por aquele alto que, em 1717, chegou o Conde de Assumar à Vila de São João del-Rei e ali mesmo recebeu saudações das mais importantes autoridades, da nobreza e do clero locais, ao som da música comandada por mestre Antônio do Carmo. Um século depois, os cientistas alemães Spix e Martius, também passando por ali, registraram em suas cadernetas de anotação a visão privilegiada que se tem do alto do Bonfim. Mais cinquenta anos e o viajante inglês Richard Burton, em 1868, confirmou a mesma impressão.

Também no século XIX, por volta desta mesma época, era no alto do Bonfim que a Sociedade Patriótica Ypiranga comemorava, todo 7 de setembro, a Independência do Brasil. A festa começava cedo, com alvorada festiva, e prosseguia por todo o dia, com toques de tambores e clarins, discursos e homenagens. Só terminava à noite, na capela, com o canto do "hino sagrado" Te Deum Laudamus.

Como já vai longe esse tempo, voltemos a 2012. Esta semana, até o anoitecer do próximo domingo, o alto do Bonfim está em festa, para homenagear Nosso Senhor. Toque de sinos, missas, bandas de música, cânticos, orações, barraquinhas, jogos inocentes, alto-falante, foguetórios, leilões, pipoca, algodão doce, víspora, pés de moleque, maçã do amor, beijo quente, quentão, quebra-queixo. As lembranças, as sortes, as alegrias e as delícias do tempo e da infância pulando dos bolsos qual azuis bolinhas de gude, girando coloridas no largo como iluminadas rodas-gigante, se esfolando ofegantes nas pedras e no cascalho.

Tudo entre o céu e o chão, em honra ao padroeiro agonizante que do alto de sua colina, há 243 anos, complascente e cordioso, vigia São João del-Rei, protegendo-a nesta guerra cotidiana de outros emboabas...

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Fonte: GAIO SOBRINHO, Antônio. Notas sobre o Bairro do Bonfim. Jornal da ASAPAcessado em http://saojoaodelreitransparente.com.br/works/view/12

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Quer passear por São João del-Rei de todos os tempos? Então, embarque nesta viagem...

São João del-Rei ainda guarda muito da face que tinha nos séculos passados. Isto é o que vai conferir quem folhear o livro São João del-Rei - Minas Gerais, editado pelo IPHAN / Programa Monumenta, em 2010. Pena que uma obra tão rica e tão importante para a memória arquitetônica local até hoje não tenha sido amplamente divulgada na cidade - fato que é muito comum no que diz respeito aos trabalhos produzidos sobre São João del-Rei e que este almanaque eletrônico gostaria muito de minimizar.

Composto por cerca de 80 fotografias e desenhos em preto e branco, em sua maioria pertencentes ao acervo do IPHAN, o livro - uma preciosa pesquisa iconográfica coordenada por Maria da Graça Soto Queiróz - traz interessantes imagens de São João del-Rei. Desde um desenho retratando a paisagem local no começo do século XIX até registros fotográficos da evolução urbana da cidade durante quase todo o século XX, passando pelos riscos artístico-arquitetônicos originais das igrejas do Carmo e de São Francisco e pela imagem de ruinas de um chafariz colonial que existiu no bairro de Matosinhos.

Muitas edificações já não existem mais, é verdade, destruídas pela inclemência do tempo ou pelo descaso e crueldade dos próprios são-joanenses. Mas muitas outras ainda existem (e serão perpetuadas, nos comprometamos!), testemunhas e sentinelas de uma época que já se passou. Mas de um modo geral a paisagem do centro histórico ainda preserva muito, e majoritariamente de forma harmônica, sua feição setecentista, oitocentista e dos anos novecentos.

Para acessar o livro e passear eletronicamente por São João del-Rei de todos os tempos, mirando suas paisagens e detalhes das suas edificações, monumentos e equipamentos urbanos, acesse o link abaixo. Você vai se surpreender e se encantar...


terça-feira, 24 de julho de 2012

São João del-Rei de ontem, de hoje, de todos os dias

Foi logo no começo dos anos setenta do século XX que a vocação turística de São João del-Rei despontou com maior força, coincidindo com a popularização do turismo como fenômeno de massa e com o novo interesse nacional pelas cidades históricas.

Paisagem singular, arquitetura colonial, música barroca, tradições religiosas raras, manifestações genuínas da cultura popular, culinária saborosa, carnaval criativo e receptividade, civilidade e cortesia. Todas estas riquezas são-joanenses apontavam para um futuro turisticamente promissor e, já navegando nestas ondas, o Grupo Financeiro Ipiranga construiu e instalou, em um dos pontos mais nobres da cidade, o Hotel Porto Real. Um empreendimento hoteleiro condizente com o que de mais moderno e confortável havia naquela época.

Uma das grandes contribuições que o Hotel Porto Real prestou para o desenvolvimento do turismo em São João del-Rei foi o lançamento e a distribuição, nos idos de 1972 / 1973, do calendário São João del-Rei de todos os dias.

A publicação, que tinha a forma de um livreto, apresentava a riqueza da arquitetura colonial de São João del-Rei, mostrando a fachada e detalhes internos e externos das mais importantes igrejas e outras edificações de valor histórico. Também contava sumariamente a história da cidade e de seus heróis, destacava os monumentos e sugeria opções de lazer nas imediações, principalmente aqueles relacionados à aventura, descanso e ecologia.

Inovadora para a época tanto no formato quanto na linguagem, impressa cuidadosamente em papel couchê, a publicação foi muito disputada. Todos queriam ter ou enviar para parentes o conjunto das imagens coloridas, muitas vezes mostrando ângulos pouco explorados da paisagem são-joanense.

De lá para cá, já se vão 40 anos. Pena que, atualmente, São João del-Rei não possua material de divulgação turística à altura daquele lançado pelo Grupo Financeiro Ipiranga em 1973...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

São João del-Rei clareou a noite em dia, no "desponsório" de Dom João VI


Importante vila colonial, em tudo participante dos mais importantes acontecimentos da metrópole Lisboa, São João del-Rei deu início, no dia 23 de julho de 1786, aos grandiosos festejos que ali comemoraram os casamentos do futuro rei D. João VI com Carlota Joaquina, filha do rei da Espanha, Carlos IV, e do infante D. Gabriel de Castela com a infanta Mariana Vitória. Naquela época, infante eram os príncipes e princesas, filhos legítimos dos reis portugueses.

Voltando à festa, houve missa solene cantada com dois coros de música, na Matriz do Pilar, procissão do Santíssimo Sacramento e Te Deum Laudamos, cantado por vinte padres, ricamente paramentados com capas de asperges e muito toque de todos os sinos. Isto foi, principalmente, para a nobreza e autoridades, assim como três óperas, "em teatro firmado para isso no meio do curro com nobre aparato" e concertos musicais no passeio público, onde foi erigido um grande obelisco de luzes "que faziam as noites tão claras quanto o dia". Ainda mais porque, como era costume naquela época, todas as casas da vila iluminaram suas fachadas.

Para distrair a plebe rude, quatro tardes de touradas e duas de cavalhadas e uma noite com monumental queima de fogos de artifício que mais pareciam coloridos cometas cortando o céu. Para produzir este espetáculo luminoso, o Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei contratou, de um arraial vizinho, o maior pirotécnico da região.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume I segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Frei Cândido sonhou São João del-Rei à frente de seu tempo


Em São João del-Rei, 17 de julho de 1907 seria uma data comum não fosse, neste dia, que Frei Cândido Vroomans reuniu-se na casa franciscana com vários operários da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Contudo, ainda assim nada haveria de extraordinário se aquele encontro tivesse finalidade religiosa, mas não foi isso o que aconteceu. O tema em pauta era social e humanista e tratou da preocupante realidade socioeconômica e cultural do trabalhador são-joanense. Já no final do século XIX a cidade tinha iniciado um processo de industrialização, abrigando algumas fábricas, inclusive a de tecidos que ainda hoje existe.

Preocupado com a situação em que, como "o operário é o homem que se dedica de todo ao  trabalho material, não lhe resta tempo, nem facilidades, nem meios, nem dinheiro para ter acesso a livros nem jornais que o ajudem a se instruir", o franciscano propôs a criação de uma entidade que trouxesse novos horizontes para os trabalhadores. Sua proposta era tão lógica e seu entusiasmo tão contagiante que 12 dias depois da primeira reunião já estava constituída a Associação Católica Operária - ACO de São João del-Rei.

A ACO tinha como lema Deus, Família e Pátria e uma de suas primeiras iniciativas foi a criação da Biblioteca da Classe Operária, com um acervo composto de livros, revistas e jornais. Em seu discurso na sessão solene de instalação da Associação Católica Operária, Frei Cândido explicitou seu pensamento:

"Cada um de nós sabe que a condição do trabalhador precisa urgentemente ser melhorada, quer a respeito da vida material, quer a respeito da vida moral. Conquanto não se possa dizer que o salário pago regularmente seja inferior ao justo, no entanto há várias causas porque muitos operários não ganham o bastante para sustentar suas famílias. Estas causas são: carestia de víveres; o estado precário do trabalhador e sua família no caso de doença, morte ou demissão; falta de instrução, de habilidade técnica, de conhecimentos profissionais, pelo que alguns estão habilitados  tão-somente para trabalhos de pouco valor".

Para Frei Cândido, a solução para estes problemas estava na criação de caixas diversas que socorressem o operário nos casos de dificuldades, entre elas desemprego, doença e invalidez. Caixas econômicas, para apoiá-los financeiramente; associações cooperativas onde eles pudessem adquirir produtos alimentícios e outros de primeira necessidade a preços mais em conta e escolas profissionalizantes que os capacitassem para novas oportunidades de emprego.

Na São João del-Rei de 105 anos atrás, Frei Cândido estava à frente de seu tempo: já conhecia - e desejava ver materializadas - responsabilidade social, inclusão cultural e qualificação profissional.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, 2ª edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O fotógrafo que viu o céu no chão de pedras das barrocas ruas de São João del-Rei

Este ano  (2012), Nossa Senhora do Carmo chegou mais cedo em São João del-Rei. Veio de véspera e, mesmo celebrada em barroca novena, apareceu inesperadamente.

Como o faz todo 16 de julho, trouxe flores, trouxe brisas, trouxe sorrisos, alento, estrelas, serenado amor. Mas para a surpresa de todos, no dia 15, tomou pela mão e levou, entre seus anjos, o fotógrafo que na terra via o céu nas ruas de São João del-Rei:  vizinho de meus pais na Rua Padre Faustino, Sebastião Machado Gomes Jacó.

Diademas de prata, espadas de prata, soberanas coroas, lívidas faces, gestos interrompidos, rechonchudos, contorcidos e levitantes querubins, buquês de grave-roxas orquídeas, montanhas de azuis hortências, sangrentos sudários, agonizantes crucificados, altivos estandartes, agudas lanças, intransponíveis escudos, espadas, sanefas, volutas, colunas, transbordantes cálices, flamejantes tochas, asas, brocados, lanternas reluzentes, sanguíneos rubis, diamantinas lágrimas. Este era o alfabeto plural com que ele várias vezes escreveu a história sagrada nas margens do Córrego e à sombra da Serra do Lenheiro.

Agora, levado céu acima pela virgem que tantas vezes capturou nas lentes e multiplicou em imagens, Jacó passeia por presépios e conversa mansamente com santos e anjos. São Miguel, Santo Antônio, São Francisco, São Sebastião, São João Batista, Menino Jesus, Mãe do Pilar, Senhora do Rosário, das Mercês, Virgem da Glória, da Conceição, Senhor do Triunfo, Bom Jesus dos Passos, Senhor Morto, Cristo Ressuscitado. Ele e eles, nas ruas coloniais de São João del-Rei, por tantas décadas, velhos companheiros. Todos, na etérea paisagem, hoje grandes amigos...

Leia também http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/festa-barroca-de-nossa-senhora-do-carmo.html

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Igreja do Carmo: brilho luminoso, estrela da manhã dos olhos de São João del-Rei - 1

16 de julho. O dia maior em que São João del-Rei realiza, com pompa grandiosa, a procissão de Nossa Senhora do Carmo, é um bom momento para se fazer um passeio histórico sobre um dos mais belos monumentos religiosos do barroco brasileiro: a igreja são-joanense de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Mal começara 1733 - portanto exatamente 20 anos após ter sido criada a Vila de São João del-Rei - e escravos, artífices e artistas, sob as riquezas e o poderio da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, já se movimentavam na construção da capela primitiva daquela padroeira. Tamanhos foram o investimento em ouro puro, empenho e a mão de obra empregada que às vésperas do natal de 1734, o padre Antônio Pereira Correa benzeu o pequeno templo. Entre a autorização para a obra, no dia 10 de dezembro de 1732, até sua inauguração, no dia 20 de dezembro de 1734, passaram-se apenas dois anos e dez dias.

Uma das mais ricas e precisas descrições do templo carmelita de São João del-Rei foi escrita pelo historiador Luís de Melo Alvarenga e publicada pela Editora Vozes, em 1963, no livro Igrejas de São João del-Rei - Minas Gerais, ilustrado pelo artista plástico J. Fortuna. São-joanense devotado, Alvarenga apresenta o templo detalhe a detalhe. Sobre a fachada, ele diz:

"A atual fachada foi iniciada em 1787, tendo como diretor de obras e seu artífice o grande mestre português Francisco de Lima Cerqueira, que na ocasião trabalhava também na construção da igreja de São Francisco de Assis. Seu conjunto [o conjunto da igreja do Carmo] talvez exceda em equilíbrio e perfeição de desenho à de São Francisco, sendo porém menos rico do que aquela em ornatos e trabalhos (Rodrigo de Mello Franco de Andrade) ..."

As torres e o frontispício da igreja do Carmo de São João del-Rei são singulares, únicos em Minas Gerais e talvez até mesmo no Brasil. Referindo-se a elas, escreveu o historiador:

"As torres, desde a base até as cúpulas sustentadas por prolongamento das pilastras e nova cimalha, são em formato octagonal, com frestas abertas nas arestas, o que é considerado raro na arquitetura colonial. As cúpulas, em forma bulbar, terminam por uma coroa armilar e cruz de metal.

O frontão tem por moldura volutas e contravolutas, que graciosamente se encontram no centro. É encimado, bem no centro, por uma cruz de acanto apoiada em uma esfera, tudo em pedra azulada. Este conjunto é considerado uma obra-prima da cidade.

No espaço  entre o frontão e a portada acha-se um óculo redondo envidraçado e duas grandes janelas, dando claridade ao coro. As janelas tem padieiras ornatas com bonitos florões que descem um pouco pelas ombreiras. Abaixo do peitoril também existem artísticos enfeites."

A descrição da igreja do Carmo, feita magistralmente por Luís de Melo Alvarenga na obra citada, é tão completa que merece ser reproduzida na íntegra. E o será, em partes, em futuros posts deste almanaque eletrônico. Enquanto isso, veja abaixo flashes da procissão de Nossa Senhora do Carmo, que todo ano se realiza no dia 16 de julho.


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Fonte: ALVARENGA, Luís de Melo. Igrejas de São João del-Rei . Editora Vozes . Petrópolis, Rio de Janeiro, 1963.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Festa barroca de Nossa Senhora do Carmo encanta São João del-Rei


Desde sábado passado, dia 7 de julho, São João del-Rei vive clima de festa muito antiga, que nos remonta aos idos de 1727. Naquela época Nossa Senhora do Carmo era cultuada em um altar da então recém-inaugurada Matriz do Pilar e sua festa, já era pomposamente celebrada todo dia 16 de julho pela Confraria do Escapulário, agremiação que precedeu e deu origem à Irmandade - e depois Ordem Terceira - de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Na cidade onde os sinos falam, a festa de Nossa Senhora do Carmo ainda hoje mantém a mesma estrutura litúrgica do século XVIII: toques de sino, novena, muitas missas, missa solene, procissão e canto do Te Deum. A bela procissão percorre várias ruas do centro histórico são-joanense e, em alguns anos, adentra o alto e imponente portão do Cemitério do Carmo, para que Nossa Senhora visite o sono de seus mortos.

Os textos da novena foram musicados nos anos setecentos e oitocentos por vários compositores mineiros e são-joanenses, entre eles Jerônimo de Souza Lobo, Padre José Maria Xavier, Manuel Dias de Oliveira e João Francisco da Matta.

Desde 1925 a música da Festa do Carmo é responsabilidade da Orquestra Ribeiro Bastos. No fim do século passado, por volta de 1980, esta tricentenária orquestra gravou, em LP, diversas peças da novena do Carmo - uma obra rara, tanto pela autenticidade do registro musical quanto por sua tiragem limitada. Para o bem de todos e felicidade geral da cultura brasileira, trinta anos depois a Orquestra Ribeiro Bastos fez nova gravação de trechos da mesma novena, agora em CD.

Novamente a tiragem é reduzida e a distribuição bastante limitada, possivelmente apenas em São João del-Rei. Quem quiser adquirir o CD deve entrar em contato com a Orquestra Ribeiro Bastos e informar-se sobre os locais de venda ou com que pessoas a joia preciosa e rara pode ser encontrada.

Veja, no vídeo abaixo, um magnífico trecho da Novena de Nossa Senhora do Carmo, executado pela Orquestra Ribeiro Bastos, sob regência da maestrina Maria Stella Neves Vale.



Leia também http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/igreja-do-carmo-brilho-luminoso-estrela.html
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Fonte: CATEDRAL DO PILAR de São João del Rei, Equipe de Liturgia. Piedosas e solenes tradições de nossa terra, volume II. SEGRAC. São João del-Rei, 1997.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

São João del-Rei: uma imagem vale mais do que muitas mil palavras



Se uma imagem vale mais do que mil palavras, São João del-Rei está muito bem na fita. Orgulho dos são-joanenses e uma das mais importantes obras do barroco mineiro e nacional, a igreja de São Francisco de Assis de nossa cidade ilustrou um anúncio do Ministério do Turismo, publicado em um dos mais importantes veículos de comunicação do país - a revista Istoé (Página 7, edição 2199).

Pena que o anúncio não dê crédito ao monumento histórico-artístico-cultural retratado, nem como "defesa publicitária". Seria uma forma de o Ministério do Turismo acertar, com um só tiro, dois alvos: veicular sua mensagem institucional e também promover importantes destinos turísticos brasileiros. Fica a sugestão...

sábado, 7 de julho de 2012

Nelson Freire & São João del-Rei: amor antigo e eterna emoção



No calendário histórico-cultural de São João del-Rei, o primeiro sábado deste mês de julho, dia 1º, certamente ficará marcado como uma data especial.

Nele, o grande pianista Nelson Freire reencontrou dois carinhosos amigos - o palco e o velho piano onde, aos cinco anos de idade, fizera seu primeiro concerto. Onde? No Teatro Municipal de São João del-Rei. De lá para cá, daquela noite fria até hoje, já se passaram mais de 60 anos...

O fato foi registrado no Jornal Nacional, em matéria que entrevista um personagem local muito querido por todos e que teve a felicidade de, também menino, assistir e aplaudir o concerto histórico realizado em 1950: o também pianista Abgar Campos Tirado.

Para ver a matéria, basta clicar neste link da TV Globo http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-nacional/v/pianista-nelson-freire-volta-ao-palco-onde-fez-seu-primeiro-concerto/2020047/

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Quatro bandas de música e muita festa no dia que a energia elétrica chegou a São João del-Rei


Nem todos sabem, mas São João del-Rei foi uma das primeiras cidades brasileiras a contar com o serviço regular de energia elétrica. A inauguração aconteceu no dia 6 dejulho do ano 1900, em cerimônia anunciada por muitos foguetes, prestigiada por autoridades de toda a região e animada por quatro bandas de música locais. Confirmando a religiosidade do povo são-joanense, coube ao vigário João Pimentel benzer as instalações da usina distribuidora e acionar a chave que pela primeira vez ligou a eletricidade.

Para se ter uma ideia do que isto representa, basta avaliar: era julho de 1883 quando a primeira cidade brasileira recebeu os serviços de energia elétrica, ou seja, apenas 17 anos antes de São João del-Rei. Por outro lado, a Praia de Botafogo, na então capital do país, Rio de Janeiro, só veio a receber iluminação elétrica provisória em setembro de 1905 - portanto mais de cinco anos depois da chegada da energia elétrica à cidade da música e dos sinos.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II. 2a edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Alexina Pinto deu Educação a São João del-Rei


Detalhe da fachada do centenário Grupo Escolar Maria Teresa


Foi num dia 4 de julho, quando em São João del-Rei muitas crianças e jovens ruidosamente festejam a chegada das férias escolares, que chegou ao mundo a revolucionária educadora são-joanense Alexina de Magalhães Pinto. Era 1870. Portanto, há 142 anos.

Desde sua juventude, ainda no século XIX, Alexina mostrou-se uma pessoa de extrema vanguarda para sua época. Aos 22 anos, viajou sozinha para a Europa, para estudar nos centros culturais do Velho Continente e lá buscar bases para revolucionar a educação infantil brasileira.

Foi isso o que fez ao voltar para o Brasil, mais precisamente para São João del-Rei: literalmente rasgou em sala de aula as velhas cartilhas, para implantar uma proposta educacional inovadora, que substituiu a palmatória por jogos de trava-lingua e os castigos por estórias e cantigas do folclore nacional. Como se isso não bastasse, mostrou às damas da sociedade são-joanense que mulher também podia andar de bicicleta, rodando pelas ruas calçadas de pedra com seu veículo de duas rodas, que ela trouxe em sua bagagem.

Como era de se esperar, esta atitude gerou muito barulho em uma sociedade conservadora, como o era, à época, São João del-Rei. Tanto que Alexina Pinto foi várias vezes agressivamente hostilizada em público, mas estas atitudes retrógradas não apagaram o brilho de seu ideal. A elas Alexina respondia escrevendo livros sobre arte popular e folclore e métodos didático-pedagógicos preparatórios para a educação que chegava com o século XX. Tão relevante foi este trabalho, que a educadora são-joanense é considerada a primeira folclorista brasileira.

Alexina Pinto morreu no Rio de Janeiro aos 51 anos, em 1921, mas sua produção e suas propostas continuam atuais. Por isso, São João del-Rei bem poderia ser mais luminosa para a memória de Alexina Pinto e aplicar seus ensinamentos em todos os segmentos da vida são-joanense. Castigos e punições são ignorante crueldade, repressão e opressão. Educação, respeito, ludicidade e alegria são os verdadeiros caminhos da transformação!