quinta-feira, 26 de junho de 2014

O doce e Sagrado Coração de São João del-Rei



Certamente foi pensando em São João del-Rei que Herivelto Martins compôs a célebre modinha Ave Maria do Morro, pois o povo são-joanense passa, quase os 365 dias do ano, "pertinho do céu". Festeja, na terra onde os sinos falam, com entusiasmo e devoção, tudo o que alegra os anjos no céu.

Junho, por exemplo, do lado de dentro das muralhas da Serra do Lenheiro, é o mês do Coração de Jesus, em honra do que acontecem, na Matriz do Pilar, há quase duzentos anos, missas, pregações, meditações e bênção diária do Santíssimo Sacramento. As cerimônias são musicadas com obras de vários compositores barrocos são-joanenses, entre eles o Padre José Maria Xavier, João Feliciano de Souza, Luiz Batista Lopes e Carlos dos Passos Andrade.

A imagem do Coração Santo que sobe ao altar-mor nesta época veio da França em maio de 1881, e o Apostolado são-joanense da Oração, responsável por difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, este ano está completando 120 anos. Na segunda sexta-feira depois da solenidade de Corpus Christi - portanto amanhã - o Apostolado acolhe novos membros e promove Hora Santa Solene às 15 horas, momento em que o sino da Irmandade dos Passos tradicionalmente dobra em memória da morte de Cristo.

No último domingo de junho, mantendo a tradição e encerrando as homenagens anuais, uma procissão luminosa percorre as ruas estreitas do centro histórico. Nela, vão em andores enfeitados os dois santos deste mês: São João Batista, com o Cordeiro de Deus, e Jesus, tendo à mão o seu Sagrado Coração. O cortejo reúne onze irmandades religiosas, confrarias,  arquiconfrarias e ordens terceiras de São João del-Rei e segue seu ritmo ao som de uma marcha alegre, tocada pela Banda Theodoro de Faria, e dos dobres e repiques festivos dos sinos são-joanenses.



.......................................................................
Fonte: Paróquia do PilarPiedosas e solenes tradições de nossa terra - 2º Volume

terça-feira, 24 de junho de 2014

São João Batista é padrinho de São João del-Rei e deu à cidade afilhada suas notas musicais




São João Batista é o padrinho de São João del-Rei. Desde que, em 1713, o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila, tendo no nome um chamado ao santo das águas batismais, primo de Jesus Cristo, nascido no dia em que o sol menos tempo brilha no céu, 24 de junho.

Mas o santo das águas do Rio Jordão é também o santo do fogo. Em seu louvor se acendem fogueiras que, com suas grandes labaredas, tornam quente e brilhante a noite maior e mais fria do ano. Fogueiras douradas como o astro-rei, e como o Rei Sol Português, Dom João V, a quem foi dedicada a Vila de São João del-Rei.

Para agradar à vila afilhada, São João Batista deu a São João del-Rei, para brincar, as notas musicais, tiradas todas das primeiras sílabas das palavras de seu hino sacro. E desde então, São João, vila e depois cidade, não se separou mais da musicalidade ou, indo mais longe, da sonoridade. Em São João del-Rei, música e sons estão, o tempo todo, em toda parte...

São João del-Rei venera, com fervor, seu padrinho São João Batista. Tem dele imagem grande, adulto, no batístério da Matriz do Pilar, e imagem de São João menino, sorridente e vivaz, em nicho lateral do altar-mor da mesma igreja. E um outro monumento, a céu aberto, São João Batista descendo do Largo das Mercês, em dúvida se segue em frente, para adorar Agnus Dei na capela do Santíssimo Sacramento, ou se dobra à direita, e sobe a Ladeira da Muxinga. Neste jardim, o santo que há mais de dois mil anos se alimentava de mel e gafanhotos está pensativo e, ombro mais leve, tem o cordeiro de Deus deitado a seus pés...

Ouça, abaixo, o hino do qual, por volta de mil anos, foram tiradas as notas musicais, marcadas na pauta da ilustração.




segunda-feira, 23 de junho de 2014

Encontro de Verônicas de São João del-Rei. Resgatar, revelar, projetar e eternizar


São João del-Rei vive a olhar para dentro do peito e, mirando a própria alma, a trazê-la em essência sempre para a superfície. Resgatar, revelar, renovar, reinventar, projetar e eternizar, mantendo-a assim viva e pulsante.

Isto foi o que mais uma vez se percebeu recentemente, no I Encontro de Verônicas que homenageou a maestrina Maria Stella Neves Valle. Em tudo singular, Verônica é um dos mais importantes ícones da religiosidade e da tradição barroca de São João del-Rei. Sua existência dura poucas horas de uma noite tenebrosa quando, na Sexta Feira da Paixão, ela canta por sete vezes uma lamentação milenar, enquanto mostra um sudário alvo, estampado em vermelho com a face ensanguentada de Cristo.

Rio frio de vento e silêncio transpassa os largos, esquinas e encruzilhadas onde ela canta. Ninguém fala palavra, criança não chora, mal se respira ou suspira. Prende-se, ou perde-se, o ar. Coberta de preto até a cabeça, nem mãos à mostra, encobertas por luvas também pretas, Verônica personifica a própria noite. É a memória antes da lembrança. Não há são-joanense que não a conheça, que não venha de longe nem se esprema em multidão para vê-la e ouví-la. Que não a respeite quase como a Senhora das Dores e o Senhor Morto.

No encontro que este ano aconteceu pela primeira vez, Verônica saiu da Sexta Feira  da Paixão para uma quinta-feira de junho. Se multiplicou em várias. Cantou o mesmo lamento na criação de vários compositores barrocos. Eram as mulheres que já foram Verônica nas Semanas Santas de São João del-Rei. Para vê-las, o sobradão do Memorial Dom Lucas Moreira Neves e a rua em frente à escadaria e adro da Matriz do Pilar estavam tão cheios de gente que lembrava mesmo aquele território na noite de Sexta Feira da Paixão.

O folclorista Ulisses  Passarelli - um dos maiores estudiosos e conhecedores modernos da cultura popular de São João del-Rei e da região - assim descreveu o Encontro:

"Com pontualidade britânica, às oito em ponto Padre Ramiro abriu o Primeiro Encontro de Verônicas, com casa cheia e rua abarrotada de gente. O povo apinhou nas janelas porque não cabia mais no lado de dentro do Memorial.

Evento criterioso, levou de viva voz muita informação histórica sobre a origen das verônicas, significados, multiplicidade musical sobre a mesma letra do canto. Ouviu-se vozes belíssimas em interpretações impecáveis, ambientadas no casarão colonial, com cheiro de rosmaninho e manjericão que um anjinho de procissão distribuía aos que ali estavam.

Todas as verônicas, vestidas a rigor, cantavam do alto da escada, enquanto vagarosamente abriam a toalha alva para expor a face ensanguentada do Divino Mestre.

Evento único. Inusitado. Notável. Que venha o segundo. O terceiro. O quarto..."


terça-feira, 17 de junho de 2014

Maria Stella Neves Valle. Brilhante e sonora estrela no céu de São João del-Rei


Quanto mais um povo reconhece como valores culturais não apenas obras, tradições e monumentos, mas  também as pessoas que construíram e constroem seu patrimônio, mais se apropria de sua própria história, mais revigora sua identidade e mais fortalece sua auto-estima. Isto é o que vemos cada vez mais em São João del-Rei.

Neste 17 de junho, por exemplo, a cidade - por meio do Memorial Dom Lucas Moreira Neves - dá início a uma programação cultural em homenagem à maestrina Maria Stella Neves Valle que, se viva, hoje estaria completando 86 anos. Há um ano Dona Stella nos deixou, mas continua viva em cada nota musical que salta dos instrumentos e das gargantas da barroca Orquestra Ribeiro Bastos, que regeu por quase quarenta anos.

Missas cantadas, palestras, programas educativos, lançamento de vídeos, recitais - tudo acontecerá durante a I Semana Cultural Maestrina Maria Stella Neves Valle, para aumentar ainda mais o acesso, o conhecimento e o gosto dos são-joanenses pela música colonial mineira, da qual São João del-Rei é a maior expoente. Como se vê, mais do que um evento laudatório, esta I Semana Cultural, assim como todos os eventos realizados pelo Memorial Dom Lucas, tem inegável caráter de utilidade pública e promoção cultural.

A Verônica da Procissão do Senhor Morto é um dos mais emblemáticos signos das tricentenárias tradições religiosas de São João del-Rei. Dona Stella desde sempre zelou deste personagem, ensaiando as cantoras que, nas Sextas Feiras da Paixão, vivem esta mulher bíblica. Ela mesma, na distante  Semana Santa de1950, foi Verônica, emprestando sua voz à setecentista composição de Manoel Dias de Oliveira, "O vos omnes / qui transitis per viam / atendite et videte / se est dolor / sicut dolor meum". Por isto, nada melhor para homenageá-la do que o I Encontro de Verônicas que, na programação, reunirá, na noite de 21 de junho, Verônicas de São João del-Rei, Ouro Preto, Serro, São Paulo e de várias outras tradicionais cidades brasileiras. Não se tem notícia de outro encontro semelhante realizado no Brasil ou em outra parte do mundo.

Veja, abaixo, uma foto de Dona Stella como Verônica na Semana Santa de 1950* (Museu da Pessoa) e um vídeo recente de uma Verônica na Semana Santa de São João del-Rei.

* À esquerda seu pai, o maestro Telêmaco Neves.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Novo sino do Carmo ameniza efeitos do tempo no patrimônio sonoro de São João del-Rei


Dizem que o mineiro trabalha em silêncio. Se isto é verdade, o são-joanense, então... Mesmo e até quando trabalha para fazer barulho! É assim sempre que um novo sino vai ser batizado e subir à torre de uma barroca igreja de São João del-Rei: intenção, dedicação, ação, emoção em palavras certas, no tom exato. Pura e silenciosa melodia.

Mal o domingo amanhece e tudo o que no centro histórico de São João se ouve é um melodioso e vivaz concerto de sinos. Anunciando as celebrações matutinas, em horas esparsas, as torres das igrejas de São Gonçalo, São Francisco, Bonfim, Rosário, Matriz do Pilar, Mercês e Carmo dobram seus sinos, anunciando que aquele é o Dia do Senhor. E que por isso, em instantes, naquela igreja começará uma missa.

Mas no próximo domingo, 22 de junho, a partir das 8 horas, além de chamar para a missa costumeira, os sinos da igreja do Carmo dobrarão ainda mais alegres e festivos, por um motivo maior: a bênção e batismo do sino São João da Cruz e sua subida à torre esquerda e angulosa daquele templo que é considerado um dos seis mais belos projetos religiosos do mestre Aleijadinho. O novo sino ocupará o lugar antes preenchido pelo sino São João Batista que, depois de 98 anos de ininterrupta função, apresentou rachadura em sua bacia, desafinando sua sonoridade. Assim, domingo será mais um dia de louvor e festa em São João del-Rei.

As igrejas, as orquestras, a música barroca, a Semana Santa, o Carnaval, a Festa de Passos, as procissões, as Pastorinhas, folias e congadas, os jubileus, as Encomendações de Almas, o Largo de São Francisco, do Rosário, das Mercês, os chafarizes, as pontes da Cadeia e do Rosário, os tapetes de rua, o teatro, o artesanato, a gastronomia. Patrimônios singulares de São João del-Rei, tesouros de valor inestimável, que vêm vencendo séculos com o desejo de se eternizar.

Nesta trajetória, não se pode enganar nem esquecer: o povo são-joanense é, antes de tudo, a principal riqueza de São João del-Rei. É ele que, desde aqui a descoberta do ouro, no raiar do século XVIII, constrói, sustenta e mantém esta cultura sem igual, que é única em Minas Gerais, no Brasil e no mundo. É ele que a preserva como uma graça divina. Que a guarda no coração, a vivifica no dia a dia e tem para com ela um compromisso de perpetuidade, para que ela vença o tempo no passar dos séculos. Como uma tocha olímpica, sempre transmitida da geração atual para a geração vindoura, rumo à eternidade.


O jovem Eduardo Valim é o Prior da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e dedica sua vida a zelar desta organização, que possui inestimável patrimônio material e imaterial em São João del-Rei. Nesta função, foi responsável pelos esforços que viabilizaram e tornaram realidade a conquista que os são-joanenses festejarão na manhã do próximo domingo: o batismo, bênção e elevação à torre do sino São João da Cruz. Com a modéstia sincera dos cidadãos valorosos, em poucas frases ele nos resume esta história:

"O sino que vamos suspender é uma réplica do nosso sino antigo, de nome João Batista, fundido em 1913 e doado por um irmão da nossa Ordem Terceira, chamado João Batista Viegas. Ficava na torre direita da igreja (do lado do Cemitério), mas apresentou distorção no som em novembro de 2011, quando dobrava pela solenidade dos defuntos. Após análise, constatamos que a dissonância era resultado de uma rachadura.

Descido o sino, colocamos em seu lugar o sino São Simão Stock, que a Ordem Terceira conseguiu comprar no ano passado. Deste modo, a torre esquerda ficou praticamente um ano sem o seu sino grande.

O processo de obtenção do novo sino começou com os contatos que mantive com a Marinha, que prometeu a fundição. O professor André Dangelo foi parceiro na composição do dossiê e encaminhamentos ao IPHAN, que aprovou nossa proposta.

O novo sino é uma réplica do sino antigo, que serviu como molde e foi fundido no Rio de Janeiro, pelo Arsenal de Guerra da Marinha. Pesa 550 quilos e também é afinado em Fá. Como possui a mesma liga, o som deve ser muito semelhante ao do sino centenário. Provavelmente se chamará São João da Cruz, que é um dos mais importantes santos carmelitas. O corpo está sendo montado com a ajuda do técnico do IPHAN, José Trindade.

O sino João Batista, de 101 anos, é patrimônio da Ordem Terceira do Carmo e continuará exposto na igreja do Carmo, até que se escolha um local definitivo para sua exposição. Quem sabe um futuro museu próprio da Ordem Terceira do Carmo?"


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Casa do Tesouro diversifica os mosaicos do rico caleidoscópio cultural de São João del-Rei


A cultura de São João del-Rei é diversa, múltipla, plural e complementar.Vem de muitas matrizes, de sucessivas épocas históricas, de origens variadas. É uma cultura de matizes diferentes, porém convergentes em uma única direção: a valorização do homem, sua dignificação, elevação e felicidade. Por isto é tão rica. Ela acredita no paraíso, certa de que ele existe e de que grande parte dele pode ser vivida em São João del-Rei, e no presente. Talvez por se lembrar do que ensinou o Padre Antônio Vieira, no distante século XVI,  1694, quando em um sermão disse: "cada um sonha como vive".

Na verdade, São João del-Rei é um caleidoscópio cultural, onde algumas peças ocupam o centro e maior espaço e outras, menores, se movem nas pontas. Todas integradas. A cada movimento de todas ou de somente uma delas, novo mosaico se forma e se transforma, sem nunca se repetir.

Neste panorama de avançado, evoluído e ecumênico respeito, a Associação Afrobrasileira Casa do Tesouro - Egbe Ile Omidewa Igbolayo - foi reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Museus como um Ponto de Cultura. A instituição religiosa de matriz africana e origem Ketu, sediada no alto do bairro Guarda-Mor (Rua Vicente Cantelmo, 875), realiza intensa programação destinada a promover, fortalecer e difundir  manifestações culturais populares, principalmente de aquelas que chegaram em São João del-Rei trazidas pelos escravos.

Palestras, oficinas, experimentações, dança, mitologia dos orixás, capoeira, culinária, percussão, coreografias, teatro - todos estes recursos são utilizados para transmitir, a quem quiser, informações e conhecimento sobre a cultura afrobrasileira.

Por sua origem genuína e proposta nobre, a Casa do Tesouro é respeitada e admirada por vários segmentos da autêntica cultura são-joanense e cada vez ganha mais espaço neste evoluído universo humanitário. Isto mostra como o povo de São João del-Rei está sintonizado com esta era colaborativa, de convívio pacífico e respeito mútuo, que vê na diversidade a fonte da riqueza e da felicidade, saudada nesta cantiga iorubá.

domingo, 8 de junho de 2014

Cultura é o maná que alimenta de felicidade a alma de São João del-Rei


Existe algum dia em que, culturalmente, em São João del-Rei nada acontece? É muito difícil... A cidade tem, nas manifestações culturais mais diversas, o maná que a alimenta de sol a sol. Faça sol ou faça chuva.

Diferentemente do Velho Testamento, em São João del-Rei o maná não cai do Céu para alimentar os homens. Ele brota dos corações. Escorre das mãos são-joanenses para  se espalhar sobre a terra, para se volatilizar pelos ares, na forma de festa e arte - cultura, da mais pura. Maná que nutre as almas.

Música, folguedos, procissões, cortejos, novenas, rodas de samba, congadas, representações, teatro, folias. Tudo o que dá cor ao mundo, torna vibrante a mais monótona rotina, faz viva, quente e brilhante até a hora mais fria e morta do dia.

Terminaram nesta noite as duas "festas" do Divino Espírito Santo, mas a trezena de Santo Antônio continua, até o dia 13, enchendo de vida a rua mais poética e musical da cidade. Nela, moram duas setecentistas orquestras barrocas e uma banda mais do que centenária.

O são-joanense é um povo de alma rica, que o tempo todo pode ser feliz. Mas nem todo mundo sabe disto. E por isto nem sempre o é...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O divino e barroco Espírito Santo de São João del-Rei

Vermelho vivo e vibrante, amarelo dourado e brilhante. Estas, neste fim de semana, são as cores de São João del-Rei. É que a cidade festeja, no seu máximo esplendor, o Divino Espírito Santo - terceira pessoa da Santíssima Trindade.

Durante o dia, o coração do centro histórico pulsa em taquicardia, ao som de sinos, toques de caixa, tropéus de cavalos, sanfonas, percussões e cantos de congadas e de folias. Dali partem cavalgadas e coloniais cortejos de imperadores e festeiros, rumo à igreja de Bom Jesus de Matosinhos, onde a festa tem alma popular.

À noite, cenário sereno, das torres imponentes se ouvem dos sinos dobres e repiques. Do coro, o canto do coral dos Coroinhas de Dom Bosco, em novena e vigília. Nos altos, foguetes e as piruetas  prateadas dos fogos de artifício. No pequeno largo, em frente aos portões e muros dos cemitérios, a banda tocando alegres marchas de procissão. É o espírito barroco de São João del-Rei.

Espírito barroco e alma popular, fundidos em um só sentimento pelo calor das línguas de fogo do Divino Espírito que tudo criou, vivifica e renova. Iluminados, aquecidos, inspirados, fortalecidos e eternizados, como recompensa dos Céus pelo clamor cantado que aqui se faz em todas as novenas: "Veni, veni, veni Sanct Spíritu".




segunda-feira, 2 de junho de 2014

Meio Ambiente é o novo verde, brilhante e sonhado Eldorado de São João del-Rei


Encontrar o verde Eldorado, colher do chão esmeraldas. Esta era a febre dos bandeirantes que, na aurora  do século XVIII, atravessaram serras, venceram abismos, estancaram rios, domesticaram a natureza, subverteram dia e noite para chegar ao coração do território que mais tarde viria a ser Minas Gerais. Na forma de douradas pepitas, as sementes de São João del-Rei brotaram naquele tempo, nas encostas da Serra do Lenheiro, em meio a capim e a quartzo. Floreceram entre barroco e arte. Medo, ousadia, pavor, cultura e castigo. Fé, trabalho, traição, tradição e paciência. Sofrimento, sentimento, temperança, lembrança, sensatez e desvario. Bravura, crueldade, covardia, memória, iluminismo e humanidades.

Também em São João del-Rei, nestes 300 anos, o desenvolvimento custou o domínio, a escravidão, a exploração e a expropriação da natureza. Do solo, o ouro. Do solo, a água. Do solo, as matas. Das matas, os animais. Dos animais, a carne. Da carne, a alma. Do homem, o homem. Sonho exploratório de bandeirante, alucinadamente perseguido a ferro e fogo.

Na São João del-Rei de hoje, os tempos são outros. O bandeirante moderno traça novos rumos e novas rotas, quer fazer o caminho de volta para que o amanhã não seja, definitivamente, a perda do paraíso. No Eldorado de agora, o que vale não é mais o verde de esmeraldas, mas o das matas; não mais diamantes, mas águas cristalinas. Céu limpo, ar puro, rio vivo, animais livres. Este é o grande tesouro.

É sob a luz deste pensamento que São João del-Rei começou, no dia 1º de junho, a VII Semana do Meio Ambiente, que em 2014 tem abrangência regional, envolvendo outras cidades banhadas pelo Rio das Mortes. Aliás, o lema do evento é O Rio das Mortes quer viver. Como a própria mensagem diz, é um clamor pela despoluição e tratamento daquele histórico curso d'água e mais atenção para com a sustentabilidade ambiental de toda a região.

Na programação, caminhadas, palestras, educação ambiental, canoagem, feira ecológica lançamento do Fórum Regional do Meio Ambiente e implantação da coleta seletiva de lixo na sede da Prefeitura Municipal de São João del-Rei. Além disto, unindo infância e futuro, um acontecimento especial promoverá o plantio de uma muda de ipê para cada criança que comparecer aos eventos de educação ambiental ou participar de qualquer atividade lúdico-recreativa da VII Semana do Meio Ambiente.