quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


Se pela beleza, imponência e grandiosidade de suas igrejas os largos do Carmo e de São Francisco são os que, de imediato, sempre encantam, no mês de dezembro é para o Largo do Rosário, no abraço que dá à mais antiga igreja de São João del-Rei, que todos os sentidos se voltam.

O olhar, para ver o belo cenário, iluminado ou natural, coroado pela igreja do Rosário e ponteado por orgulhosos sobradões . Os ouvidos, para escutar a magia que causa arrepios a quem ouve os tencões, terentenas e floreados de Natal, assiste a novena barroca do Menino Jesus e presencia o Te Deum Laudamus cantado no crepúsculo do dia 25 de dezembro. O olfato, para aspirar o perfume das flores que enfeitam os altares e o cheiro do incenso queimado nas brasas dos turíbulos de prata trazendo o céu para o interior daquele templo, construído em 1719. O paladar, para perceber o sabor da hóstia consagrada, que no dia 25 se converte no próprio Jesus Menino, descido dos braços da virgem em visita a todos, na mesa da comunhão. O tato, para o aperto de mãos, para o abraço terno e generoso, para o afago de adoração na criança sagrada.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Presépio da Muxinga é mágico: transforma São João del-Rei em Belém da Judeia. Há 84 anos!


A  Belém da Judeia, que há 84 anos existe em São João del-Rei, na aguda ladeira que os mortos sobem rumo à "sua derradeira morada", não fica em meio ao deserto. Ergue-se à sombra da Serra do Lenheiro, em paisagem absolutamente montanhosa, montanhesa, mineira, são-joanense. É lá que, desde 1929, Jesus, em seu mistério, também nasce.

Na Belém são-joanense, pacificamente, em meio a diminutas ruas e quintais, convivem galinhas, camelos, cavalos, vacas, elefantes, burros, galos, gatos e cachorros. Nela,o  ferreiro forja o ferro que faz o serrote que os serradores usam para serrar a madeira que o marceneiro usa em seu trabalho. Nela, tal qual o milagre dos peixes, o pescador tira da água o alimento que o jacaré deseja, mas que vai para a panela da cozinheira, que antes soca temperos para uma boa muqueca, assistida pela negra, que a tudo espana.

Nela, dois galos brigam, dois meninos brincam na gangorra, Papai Noel embala uma criança no balanço, um carrossel roda, uma roda gigante gira, um atleta se exercita, um homem racha lenha para a mulher negra que fuma cachimbo e vai acender o fogo enquanto outra, com um porrete veloz, espanta um gato que assusta o passarinho na gaiola e o cachorro, enfurecido, persegue o bichano que quer roupar carne. Ao redor, testemunhas vigilantes e em ronda, camelos, carneiros, elefantes e muito mais andam em fila indiana, cercando o que não é jogo do bicho.

Na Belém são-joanense, um velho cachorro assiste, enfadado, a tudo isso, e abre a boca. Nesta Belém, os burros concordam com tudo, acenando com as cabeças orelhudas, e alguns patinhos, inocentes, indiferentes e felizes, nadam circulares em volta da sonolenta tartaruga.

Também nesta Belém, um passarinho espanta de seu ninho o patinho feio, orfabandonado e intruso. Quer alimentar, cuidadoso, apenas seus filhotes. Igual a todo lugar, nesta Belém há um homem solitário, sentado em mesa de bar, consigo mesmo, garrafa e copo. O que lhe fere o peito e faz sangrar o coração, lhe molha os olhos, o que ele bebe, e bebendo engole, ninguém sabe. Tal qual na vida, só ele! E a dor...

Mas nem tudo está perdido, pois no Presépio da Muxinga tem sempre esperança; lá o tempo todo é Natal. Pelo menos na igreja que se destaca no universo urbano de invenção e fantasia, criado à imagem e semelhança da vida doméstica na São João del-rei dos começos 1900. Se fora dela a vida pulsa, flui e escorre, em seu interior, assistidos por anjos, reis magos e pastores, Nossa Senhora e São José embalam enternecidos o sorridente Jesus na mangedoura. 

Mais mágico tudo fica quando alguém, generosamente ou interessado, joga moeda ou nota no cofre fechado - qualquer valor, tanto faz. Por alguns instantes a luz ambiente se apaga e, durante o breve eclipse, a luz elétrica da cidade imaginada se acende em postes e lampiões. Os sinos da igreja tocam, um anjo incensa e a mangedoura balança.

É o mistério do Natal de lembrança e memória eterna para são-joanenses de todos os tempos. No Presépio da Muxinga,que ainda hoje existe atrás da Matriz do Pilar, na subida para o Cemitério das Almas...

Como surgiu o Presépio da Muxinga?

Ah!, isso é conversa pra outro dia!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Natal em São João del-Rei: a "Estrela Guia" já no céu desponta!


Sempre que dezembro chega, São João del-Rei já está olhando para o céu. Lendo na pauta de estrelas a barroca novena de Nossa Senhora da Conceição. Aprendizado muito antigo, do tempo em que a santa, pousada sobre a lua crescente, esmagava a serpente verde, que ainda trazia entre os dentes  pecado vermelho e a maçã que traiu Eva e condenou Adão ao castigo do trabalho: "ganharás o pão de cada dia com o suor do teu rosto!"

Mal Nossa Senhora da Conceição recolhe-se ao seu altar na igreja de São Francisco, voltando do passeio que faz todo dia 8 de dezembro para, em gratidão, homenagear o aniversário da cidade que tanto lhe ama, São João del-Rei volta pela Rua da Prata, atravessa a Ponte do Rosário para de novo afinar seus instrumentos, preparar foguetes e fogos de artifício, lustrar pratarias, aparar velas, encomendar flores. Tudo para adorar, em novena, o sorridente Menino Jesus. Ele gosta tanto desta festa que faz questão de descer dos braços de Nossa Senhora do Rosário para ficar mais perto dos são-joanenses, que emocionados lhe beijam as mãos, os pés e a face no Te Deum do Natal do Senhor, cantado entre repiques de sino, tencões e terentenas, no anoitecer do dia 25 de dezembro.

Se no colonial centro histórico de São João del-Rei  assim que Deus é louvado na graça de seu nascimento, nos bairros do Tejuco, Senhor dos Montes, Bonfim, São Geraldo, São Dimas e outros mais, os "folieiros" enfeitam seus chapéus, esticam o couro das caixas, conferem viola e chocalho, reparam bandeiras e estandartes para que, a partir do dia 25 de dezembro,  até 6 de janeiro, as folias de reis espalhem a esperança de um mundo melhor nos lares pobres e ricos, nas praças e nos asilos, lacrimemocionando a todos, dos soldados em vigília aos bêbados dos botequins.

Na margem das Águas Férreas, boca das Gameleiras, Dona Júlia Lacerda e Senhor Geraldo Eloy, impulsionam à frente as Pastorinhas do Menino Jesus (foto antiga) como luminosas Estrelas-Guia. Por isso, é para eles, e para o folclorista Ulisses Passarelli - arauto das folias e do novo tempo que elas ainda em vão prenunciam - que o almanaque eletrônico Tencões & terentenas dedica esta Folia de Reis, na voz de Pena Branca e Xavantinho.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ainda quando vila, São João del-Rei batizou os irmãos do herói Tiradentes


Ainda hoje, aos olhos de todos, o herói Tiradentes parece um homem solitário, de história isolada, que brotou dos mineiros campos vertentes e lançou sementes de liberdade e esperança sobre montanhas e vales cobertos de ouro e diamantes.

É bem verdade que não teve madrinha, como declara seu registro de batismo, realizado a 12 de novembro de 1746 na capela de São Sebastião do Rio Abaixo e assentado na folha 151 do Livro de Batizados da então matriz da Vila de São João del-Rei, Mas na infância, teve família de numerosos irmãos.

Vários deles também receberam o sacramento do batismo na mesma capela de São Sebastião do Rio Abaixo, entre eles José da Silva Santos, no dia 5 de dezembro de 1747. Passara-se, portanto, um ano e poucos dias depois do batismo do herói sonhador da Inconfidência Mineira.

 José da Silva Santos não só foi batizado em São João del-Rei como também sepultado, no dia 11 de junho de 1833, com quase 86 anos, na igreja do Carmo desta cidade. Tinha posto de capitão.

Sobre o mesmo tema, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/11/sao-joao-del-rei-precisa-valorizar-mais.html
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II. Segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

São João del-Rei: da Guerra dos Emboabas à Guerra do Paraguai


Passados 133 anos desde que os portugueses, inflamados de ódio na Guerra dos Emboabas, incendiaram em 18 de novembro de 1709 o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, São João del-Rei cobriu-se de festa para receber por três dias, com entusiasmo e homenagens, o Barão de Caxias, heroi brasileiro da Guerra do Paraguai.

Por coincidência ou de propósito, em 1842, no dia 11 de setembro, Caxias chegou à cidade pelo mesmo lugar onde o bandeirante Tomé Portes cobrava pedágio pela travessia do caudaloso Rio das Mortes: o Porto Real da Passagem. Dali então, por todo o trajeto, de trechos em trechos era saudado por foguetes e fogos de artifício - recursos sonoros até hoje muito usados em São João del-Rei, frequentemente até várias vezes por dia. De longe a população fica sabendo que em algum lugar não muito distante alguém está comemorando alguma coisa, mas exatamente qual o motivo da alegria, não dá para saber.

Em seu percurso até o centro da cidade, Caxias passou sob vários arcos do triunfo. O primeiro deles, montado em um lugar à época chamado Tabatinga, era rico de símbolos tropicais da natureza brasileira, como frutas, flores, papagaios e até macacos. Displicentemente encostadas nas colunas do arco, duas mulheres, "vestidas"de índias, atiravam flores sobre o nobre visitante.

Na entrada da Ponte da Misericórdia, hoje soterrada nas imediações do Colégio Nossa Senhora das Dores, mais um arco decorativo, inclusive com um coreto para a música. Também enfeitado com ramos e flores, este segundo arco trazia no alto a seguinte mensagem: "Viva o excelentíssimo senhor Barão de Caxias". De lá se projetavam dois  púlpitos, de onde duas meninas jogavam flores sobre o bravo guerreiro.

No caminho, do alto de sacadas enfeitadas, atiravam flores no nobre  barão - artilharia que se completava com foguetes e de fogos de artifício. Na chegada no Largo de São Francisco, foi a vez das continências militares da tropa de São João del-Rei. Seguindo pela Rua da Prata, Caxias atravessou a Ponte do Rosário, seu amplo largo, e a Rua Direita, onde cruzou mais um arco e, de novo, enfrentou uma previsível chuva de pétalas.

Em frente à casa em que se hospedou, o herói encontrou mais um coreto, onde por duas noites houve apresentações musicais. Ainda no primeiro dia, pouco depois de um breve descanso, o homenageado esteve na Matriz do Pilar; lá assistiu um solene Te Deum Laudamos em ação de graças, com orquestra, toque de sinos e exposição do Santíssimo Sacramento. Para encerrar a noite, ainda compareceu a um baile, onde, além de dançar, recebeu das meninas uma coroa de flores, com um cartão e a seguinte mensagem: "Receba, Senhor General, este testemunho de nossa gratidão."

Depois de programação tão intensa quanto extensa, é de se esperar que Caxias tenha reservado o dia 12 para descanso, pois no dia 13 retornou para a Corte, no Rio de Janeiro.

Doze anos depois, o herói da Guerra do Paraguai voltou a São João del-Rei. Desta vez, livre de missões públicas e compromissos oficiais, desejava apenas banhar-se nas frias cachoeiras são-joanenses, o que lhe havia sido recomendado como tratamento de saúde.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

sábado, 1 de dezembro de 2012

À luz do dia, cemitério desapareceu no centro histórico de São João del-Rei


Quem disse que morto não anda? Bem, se anda ou não anda,  isso ninguém ainda não viu, mas que cemitério muda de lugar, ah, isso muda. Pelo menos em São João del-Rei. Duvida? Então veja só:

Ainda não havia acabado o século XIX. Era, mais precisamente, dia 30 de novembro de 1897, quando a Mesa Administrativa da Irmandade da Misericórdia  de São João del-Rei foi convocada para tomar ciência de um documento que trazia um pedido inusitado - o fim imediato de sepultamentos no cemitério daquela irmandade.

Como aquele campo santo ficava em frente à Santa Casa de Misericórdia, bastava atravessar a rua para que o defunto, tendo deixado a vida naquele hospital, chegasse à morada eterna. Então, se morto não incomoda a ninguém - a não ser os que tem a alma apenada - por que tornar mais longa a distância entre este e o outro mundo, levando os mortos para o "Cemitério da Fábrica", que ficava na entrada da cidade, na margem esquerda do Rio das Mortes?

O ofício que, assim como os mortos, também partira da Santa Casa de Misericórdia, ao mesmo tempo em que fazia o pedido, explicava o motivo da solicitação: é que no dia 7 de janeiro do ano seguinte, 1898, seria inaugurado o Colégio de Nossa Senhora das Dores, para acolher meninas em regime de internato. Como o prédio recém-construído ficava parede-e-meia com o Cemitério e como criança, principalmente menina, não costuma ter muita amizade com os mortos...

Diante deste argumento, a Irmandade da Misericórdia não apresentou resistência. Pelo contrário foi misteriosamente rápida em sua ação. Tanto que, segundo o grande historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra, em seu livro Efemérides de São João del-Rei, no dia 23 de dezembro de 1897, portanto menos de um mês depois do pedido, "desapareceu o antigo Cemitério da Santa Casa de Misericórdia."

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

São João del-Rei precisa valorizar mais sua história, de páginas escritas com o sangue de seus filhos

Novembro está chegando ao fim e, com ele, o mês do 266º aniversário do batismo de Joaquim José da Silva Xavier, o herói Tiradentes, na então Vila de São João del-Rei. Este ano, completou-se 220 anos de sua execução. O batismo de Tiradentes, em nossa cidade, não só por razões históricas, mas também por significado e emblemática, merece ser sempre vigorosamente lembrado, difundido e divulgado em nossa cidade, com uma programação que evidencie o justo e exato grau de sua importância para a história local, do estado de Minas Gerais e do país. Mais uma vez não o foi, apesar do empenho pessoal de alguns valorosos são-joanenses e dos esforços empreendidos por algumas instituiçõe locais.

Na Terra da Música, o batismo do herói "inflamado de esperança" não motivou a celebração de uma missa cantada, um concerto ou recital, sequer serenata ou roda de samba, apesar de a cidade orgulhar-se desta sua alcunha, conferida pela tradição musical de quase trezentos anos. Não foi enredo de nenhuma peça teatral nem tema de nenhuma exposição; não inspirou nenhum sarau, lançamento de livro, nem de cartaz ou cartão postal, não se destacou em nenhuma intervenção urbana. Desta forma, por não congregar a população em torno deste acontecimento histórico, sua lembrança continuou tão afastada do dia a dia e da realidade, tão desvinculada da herança histórica dos são-joanenses comuns, como em outras épocas. Quanto mais isso acontece menos os são-joanenses se apropriam de sua própria história e menos dela se beneficiam com a elevação da autoestima.

Por não comemorar coletivamente esta efeméride, pode-se dizer que, negativamente, nossa cidade, sem motivo, parou no tempo e menospreza fatos importantes de sua história. Vem ignorando a possibilidade de  desenvolver ações extensas e consistentes, como por exemplo o projeto 1792 / 1992 - Duzentos sonhos de liberdade, lançado em São João del-Rei há 20 anos, para marcar o bicentenário da Inconfidência Mineira. Sequer o marco inaugurado por diversas autoridades governamentais e eclesiásticas, entre elas o presidente Itamar Franco e o Cardeal Primaz Dom Lucas Moreira Neves, no dia 21 de abril de 1992,vem sendo  conservado. Já perdeu a composição superior que o coroava com grande simbolismo nativista, religioso e patriótico e agora consiste em três degraus e uma coluna de pedra, na qual está assentada uma placa lembrando o acontecimento e a data.

Este marco fica no Largo Tamandaré, exatamente em frente ao majestoso edifício onde funciona o Museu Regional, escritório do IPHAN na cidade. Por que não integrá-lo ao conjunto do Museu, restaurando-o e iluminando-o com efeito semelhante ao que faz a "Casa do Comendador" destacar-se na noite de São João del-Rei? Já seria uma ação de efeito cotidiano e permanente...
Enquanto não reverenciamos o batismo do herói Tiradentes com a amplitude e a grandiosidade que são dignos deste fato histórico, facilitando à população de São João del-Rei apropriar-se, identificar-se e orgulhar-se deste capítulo importante de sua história, lembremos então da caminhada para a força e da dignidade dos últimos atos de nosso conterrâneo maior, nosso velho irmão. Quem nos conta é o inglês Francis Burton, que a tudo testemunhou:

"O lugar escolhido para a execução era então um sítio agreste na parte oeste do Rio de Janeiro, chamado Campo dos Ciganos. Ali se enterravam  os ciganos e negros escravos recém-importados.

Seis corpos de infantaria e duas companhias de cavalaria, além dos milicianos, rodeavam o cadafalso. Grande multidão se agitava no campo, se concentrava nas faldas do morro de Santo Antônio. Um filho do Conde de Rezende, D. Luiz de Castro Benedicto, que montava um cavalo com ferraduras de prata, comandava as tropas.

Primeiramente foi entoado um Te Deum no Carmo, em honra a Sua Majestade (Dona Maria I). Enquanto se pregava o Semão da Lealdade e da Fidelidade, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, como então era costume, fazia coleta de esmolas para serem dispendidas em missas por alma do condenado.

O heróico Tiradentes, calmo e solene, foi conduzido, vestindo a túnica dos condenados, da prisão pela Rua da Cadeia (hoje Rua da Assembleia) e pela Rua do Piolho, acompanhado por dois padres e uma guarda de cem baionetas, fazendo preces até chegar ao cadafalso.

Ali deu os valores que tinha ao carrasco e após repetir com seu confessor o Credo católico, gritou: cumpri minha palavra, morro pela Liberdade!"

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Visões mágicas de São João del-Rei



Por mais que se procure São João del-Rei, nossa terra está sempre muito além e até onde menos imaginamos. Misteriosa, mais do que uma cidade ou um território, é um sentimento, uma emoção, um desejo. Quem sabe um delírio? Tão misteriosa e onírica é São João del-Rei que parece ter sido feito para ela o poema abaixo, A palavra Minas, escrito por Carlos Drummond de Andrade:

Minas não é palavra montanhosa.
É palavra abissal.
Minas é dentro e fundo.
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas.
A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem nem a si mesmos
o irrevelável segredo
chamado Minas.


Ilustração: “Paisagem de São João del Rey”, 1838.
Desenho de Vanderburch.
Gravador:  H. Lalaisse.
Gravura em metal, 1838.
09cm x 14cm - copiada do site http://www.opapeldaarte.com.br/pintores-viajantes/

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Precioso álbum de família: São João del-Rei & suas quatro filhas

Assim como a santa Nhá Chica, que nasceu no distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, as cidades de Baependi, Campanha e Três Pontas também são filhas de São João del-Rei. Isto é o que mostra uma representação setecentista do Termo da Vila de São João del-Rei, cabeça da antiga Comarca do Rio das Mortes. Desde a criação daquela Comarca, e por muitas décadas, as três cidades ficavam em território geopoliticamente pertencente à quarta vila instituída na Capitania de Minas Gerais.

Quase trezentos anos depois, novamente as quatro cidades se juntam, como contas e mistérios de um terço, no roteiro turístico-religioso dos santos Nhá Chica e Padre Vitor. Quem pesquisar vai saber que existem muitas afinidades entre os dois santos: ambos eram negros, viveram na mesma época e na mesma região e dedicaram todos os anos de suas existências à fé, à caridade e ao amor a Deus e aos semelhantes.

Tal qual o maná caiu do céu, nasceu em São João del-Rei, em Baependi, em Campanha e em Três Pontas  o desejo de, como os dois santos, darem-se as mãos para louvar e propagar a devoção a Nhá Chica e ao Padre Vítor. Mas por essa união em torno do amor divino, os santos agradecerão às quatro cidades,criando oportunidades para o desenvolvimento cultural, turístico, religioso, humano, econômico e social.

Aliás, pensando bem, se a santa e as três cidades nasceram em e de São João del-Rei, Baependi, Campanha e Três Pontas, de algum modo, são irmãs de Nhá Chica. Por isso se amam tanto!

O povo do Rio das Mortes, distrito de São João del-Rei, anda entusiasmado com essa ideia e já se mobiliza para cumprir a sua parte, desenvolvendo uma vasta programação religiosa e cultural. Cidade barroca, antigamente sede da Comarca do Rio das Mortes e hoje, sede do município, famosa internacionalmente por suas tradicionais celebrações religiosas, São João del-Rei se honra de ser o marco zero do roteiro turístico-religioso de Nhá Chica e Padre Vitor.

E com isto certamente acrescentará novos eventos ao seu rico calendário litúrgico-religioso  e cultural. Tudo indica que já a partir de abril de 2013, quando se comemorará o 203º aniversário de nascimento da santa Nhá Chica. E também os 300anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de Vila de São João del-Rei, em 1713...
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Fonte: a ilustração deste post é reprodução da representação mencionada. Foi reproduzida para este post a partir do livro Desclassificados do Ouro, de Laura de Mello e Sousa.

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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Também em São João del-Rei hão de brilhar como ouro a consciência negra e o desejo de igualdade


São João del-Rei, como em todo o Brasil, no dia 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra, homenageando o herói Zumbi dos Palmares. Oxalá nos ajude que esta data comemorativa se fortaleça a ponto de se transformar no Dia Nacional de Luta Contra a Desigualdade e a Discriminação Racial, estendendo-se as homenagens, hoje dedicadas ao herói pioneiro, para todos os brasileiros que, efetivamente, dedicaram sua vida - e até a sua morte - para as causas da igualdade e da verdadeira democracia racial, servindo de exemplo para as gerações que desde então os sucedem.

Como em todo o país, a população negra de São João del-Rei é quantitativamente muito expressiva. Mas qualitativamente, ela tem ainda maior valor. Desde os tempos coloniais, os escravos vindos da África e seus descendentes muito contribuíram e contribuem concretamente para o desenvolvimento desta nossa cidade, nos mais importantes e preciosos setores: da mineração à arquitetura barroca; dos serviços domésticos e braçais às composições musicais e à manutenção e preservação das orquestras mais antigas das Américas; das tradicionais irmandades e suas festas magníficas ao samba, ao carnaval e à congada. Das fábricas de tecido à prática do ensino superior. Enfim, da economia à arte, da mão de obra à inteligência, à cultura e ao saber.

Mas nem sempre a população são-joanense reconheceu e valorizou o importante papel desempenhado pelos negros e a verdadeira contribuição que eles deram - e dão! - para o desenvolvimento de nossa cidade. Apesar de no fim da primeira década do século XVIII - no tempo da Guerra dos Emboabas e quando sequer o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes havia sido elevado à condição de Vila - ter-se fundado aqui a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos - a primeira irmandade negra dedicada à santa protetora dos escravos criada em Minas Gerais e a terceira no Brasil; apesar de desde aquela época ser notória a participação dos negros na vida social e cultural de São João del-Rei, principalmente por meio da música, esculturas e pinturas barrocas, aqui foi grande, e por muito tempo, o sofrimento dos escravos africanos e de seus dependentes.

Laura de Mello e Souza, por exemplo, no seu livro Desclassificados do Ouro, conta que em nossa cidade, no ano de 1764, a escrava Maria Angola, alforriada e encarcerada sem motivo por muitos meses, sofrendo na prisão castigos terríveis e torturas desumanas, precisou encaminhar petição ao capitão-general pedindo que lhe "devolvessem a liberdade". A mesma autora fala do desconforto e protestos dos moradores da nossa ainda hoje tradicional e nobre Rua Direita diante do namoro e da cantoria de uma vizinha, "mulata que vivia sobre si".

O viajante Pohl, quando hospedou-se em São João del-Rei em 18...viu uma cena urbana tão brutal que registrou-a na caderneta de anotações que lhe servia como diário de campo.O que o assustou foi ver da janela de seu quarto na hospedaria a cabeça de um negro espetada em um poste e coberta de moscas. Esta era a forma encontrada pelo poder publico para provar como era severo o castigo  imposto aos escravos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

São João del-Rei está em toda parte. Até onde ninguém imagina...


São João del-Rei ainda não tem, mesmo que preliminar, um catálogo das obras fotográficas ou pictóricas que retratam sua paisagem e suas manifestações culturais. Carlos Bracher, Pancetti, Alfredo Norfini, Oscar Araripe, Tom Maia, Pedro Oswaldo Cruz, Gil Prates e muitos outros pintores e fotógrafos acharam sublime inspiração em nossas igrejas, pontes e casarios e tudo perenizaram em fotografias e pinturas que muitos de nós desconhemos ou ignoramos.

Quem advinha qual é a paisagem que serve de fundo para esta fotografia do grande compositor popular Herivelto Martins? Isso mesmo: nada mais, nada menos do que a igreja do Rosário, tendo, à esquerda, um pouco do casario de seu largo, e, à direita, a entrada da Rua Santo Antônio.

A  fotografia foi publicada pelo jornal Correio Braziliense, na edição do sábado, 17 de novembro, no caderno Diversão & Arte, como ilustração da matéria Um rei de volta ao trono, sobre a obra e o centenário de nascimento de Herivelto Martins.

Se Herivelto, ou se sua esposa Dalva de Oliveira, estiveram em São João del-Rei, não se sabe. Gal Costa o trouxe à cidade em 1973, no show Índia, quando cantou Ave Maria do Morro. Mas o certo é que, possivelmente, Herivelto Martins tinha algum encanto pela paisagem são-joanense, pois não seria sem motivo que ele tinha em sua casa o quadro que lhe serviu de moldura para a foto.

Herivelto Martins. Na matéria, "Um rei de volta ao trono". Na fotografia, mais um rei em São João del-Rei!

E então: que tal ouvir a música Cabelos Brancos, de Herivelto, em duas batidas, modernas porém diferentes? Uma levada por Paulinho Moska e outrs por Baia e Bárbara Ohana? Esta segunda é meio jazz, meio  jam session e, de quebra, funde Cabelos Brancos com Summertime, unindo num abraço musical Herivelto Martins e Guershwin. Diante disso, apure os ouvidos, aumente o som ou ponha o fone de ouvido...


terça-feira, 13 de novembro de 2012

São João del-Rei homenageia, com uma semana musical, Santa Cecília, padroeira dos músicos


 Sem dúvida, mais do que um presente, a música é uma das maiores virtudes que Deus deu a São João del-Rei. Do erudito das músicas barrocas ao popular dos sambas e das congadas, na 'Terra dos Sinos' ela está presente em todas as horas: na alegria e na tristeza,na saúde e na doença (e até na morte!)  nas procissões e no Carnaval, nos ambientes sagrados e nos bares, nos teatros,  nas praças públicas e até mesmo no meio da rua... Enfim, em São João del-Rei, a música é onipresente: está o tempo todo, em toda parte, ao mesmo tempo.

Reconhecendo este mérito, a cidade realiza anualmente, no período de 14 a 22 de novembro, a Semana da Música, sempre em homenagem a Santa Cecília  - padroeira dos músicos. É uma semana atípica, pois começa em uma quarta-feira (14) e tem 9 dias, se encerrando numa sexta-feira (22), dia consagrado à santa, cuja imagem (foto) desfruta o privilégio de ficar no nicho de um altar dourado, na Matriz do Pilar.

Como não poderia deixar de ser, é uma semana repleta de música, da qual participam dez corporações musicais são-joanenses, de bandas a orquestras sinfônica e barroca. Os eventos, todos gratuitos, em sua grande maioria acontecerão à noite. Se você estiver em São João del-Rei, não perca!...

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Nascido na Fazenda do Pombal, herói Tiradentes foi batizado em São João del-Rei. Há 266 anos atrás...

"Aos doze dias do mes de novembro de mil setecentos e quarenta e seis anos,
na capela de São Sebastião do Rio Abaixo, filial desta paróquia de São João
del-Rei - o reverendo Padre João Gonçalves Chaves, capelão da dita capela,
batizou e pôs os santos óleos a Joaquim, filho legítimo de Domingos da Silva
e Antônia da Encarnação Xavier. Foi padrinho Sebastião Ferreira Leitão
e não teve madrinha, do que fiz este assento.
O coadjutor Jerônimo da Fonseca Alves"

Esta é a transcição literal do Atestado de Batismo de Joaquim José da Silva Xavier, o herói Tiradentes, lavrado na folha 51 do Livro de Batizados de São João del-Rei, no ano de 1746. À época, este documento era considerado o registro civil.

Lembrando o nascimento do herói, em dia anterior próximo a 12/11/1746, ouça alguns versos do clássico Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, na voz de Chico Buarque. A grande poetisa pesquisou durante dez anos a Inconfidência Mineira para escrever este livro e a música faz parte da trilha do filme Os Inconfidentes

domingo, 11 de novembro de 2012

Das umbigadas, cateretês e batuques ao Samba nas Praças de São João del-Rei


A música chegou em São João del-Rei em 1717 - antes do Conde de Assumar - e desde então fixou residência na cidade. Hoje, quem tem olhos abertos e ouvidos apurados, sabe: ainda não reconhecida nem valorizada em toda sua amplitude, a sonoridade é a grande característica de São João del-Rei. Nesta sonoridade incluem-se, além da produção musical erudita e popular, o toque dos sinos, o apito da Maria Fumaça, o som da banda militar em sua marcha matinal, os concertos e apresentações ao ar livre, o apito - quase afogado e desaparecido - das fábricas de tecido.

Ninguém duvida que a música barroca é um dos mais ricos patrimônios culturais de São João del-Rei. É ela que preenche todos os espaços das festas religiosas, dando ambiência a novenas, missas, procissões, via-sacras, encomendação de almas e um sem-fim de solenidades só existentes naquela cidade. Entretanto, a música popular também faz parte da cultura são-joanense. E não é de hoje!

Estudos acadêmicos baseados em pesquisas na imprensa local no século XIX  mostram que, já naquela época São João del-Rei, em suas periferias, era palco de muitos e muito animados batuques e cateretês. Alguns até com a presença de autoridades masculinas que escandalosamente se esbaldavam nas atrevidas e irreverentes umbigadas.

A musicalidade erudita de São João del-Rei é consagrada e cada vez mais se fortalece e se perpetua, não só nas cerimônias religiosas mas também nos inúmeros concertos e recitais que continuamente se repetem como parte do dia a dia da cidade.

Os sons típicos, alguns continuam e ecoam mais fortes; outros rumam para o silêncio, dependendo do impacto positivo ou negativo que sofrem das transformações urbanas, econômicas e sociais a que, de algum modo, estão ligados.

Já a música popular local resiste, persiste e esforça-se para ampliar seu território, o que é facilitado pela espontaneidade e relativa alegria dos são-joanenses. Sambistas que, surgidos desde a metade dos anos cinquenta, por muitas décadas foram a alma do carnaval de São João del-Rei, até hoje são lembrados e reverenciados, apesar de muitos deles já estarem do outro lado, "cantando em outro terreiro".

Prova disto é o projeto Samba na(s) Praça(s), que um sábado por mês leva à noite o povo de São João del-Rei para uma praça histórica, para saudar, com cantos e palmas, grandes sambistas do lado de cá e do lado de lá da Serra do Lenheiro. Como os organizadores afirmam, eles "não deixam o samba morrer, não deixam o samba acabar!". Graças a Deus...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

São João del-Rei se subverte: como se dança, se toca!


Uma das expressões populares muito conhecidas em São João del-Rei, principalmente pelos são-joanenses mais antigos, é a frase "como se toca, se dança" - versão local da clássica "dançar conforme a música".

Mas as vezes a cultura local se subverte e muda a ordem das coisas, ora "botando a carroça na frente dos burros", ora "botando o carro na frente dos bois".

Quer saber o que isto tem a ver com o ritmo lento das marchas que as bandas de música tocam acompanhando as tradicionais procissões de São João del-Rei? Então ouça o que nos ensina o maestro são-joanense Marcelo Ramos, nesta breve entrevista ao jornalista José Mário de Araújo e transmitida nas rádios São João del-Rei e Itatiaia.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

No retrovisor, São João del-Rei



Colhido no blog Tertúlia Pão de Queijo http://www.tertuliapaodequeijo.com/2012/07/no-retrovisor-sao-joao-del-rei.html, o poema abaixo, de Ronald Clever, é delicado retrato de São João del-Rei, em palavras, imagens, emoções e sentimentos...

Os sinos de São João del-Rei não badalam em vão.
São irmãos nos acordes e, em romaria,
acordam os possíveis pecados e pesadelos
que ficaram nos vãos da Rua da Cachaça.

Um passarim marrom é fina flauta
nas palmeiras de São Francisco de Assis.

O Lenheiro escorre a memória da cidade
em seu tênue e fino fio de água.

O rei e o santo atravessam, em procissão, a ponte da Cadeia.
Bárbara, ainda bela, repousa eterna na alcova inconfidente.
"Beija-me com os beijos de sua boca". Éo mascate Salomão
cantando para a Baronesa, que do alto da sacada,
travestida em Sabá, retruca: "Beba-me com a sede de seus rios".

O sino do Rosário fia seu terço, o das Dores chora em cantochão.
E os sinos irmanados de São João del-Rei vão
acordando os homens que vêm e vão.

Ronald Claver
SJDR, 20-07-2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

De tristeza, sinos de São João del-Rei dobram "de trás pra frente, pelo avesso" no dia de Finados


No principiar de novembro, São João del-Rei volta no tempo. É tempo de Finados. Desde o entardecer do dia 1º até o entardecer do dia 2, de tempos em tempos os sinos das igrejas barrocas dobram Finados - dobre triste, é como um toque inverso, pelo avesso, de trás para frente.

Já na manhã do primeiro dia, nas ruas coloniais do centro histórico, se percebe que é véspera. Os são-joanenses mais antigos, previamente, visitam os cemitérios, vistoriando, limpando e zelando das tumbas e ossuários. Depois, transitam pelas lojas, prevenidos que são, comprando flores artificiais que no dia seguinte serão entregues aos seus mortos. Em São João del-Rei, túmulo descuidado é o mesmo que defunto esquecido, desonrado ou por gosto abandonado, intencionalmente deixado para trás.

Antigamente, no dia 2, as velhas igrejas são-joanenses montavam em seu interior uma instalação funerária, na nave do templo ou em sua capela-mor: um tapete retangular preto ou roxo de galões dourados, quatro altos castiçais com velas compridas acesas, um em cada canto e, no centro, uma "eça" - alta mesa, de madeira escura, algumas com entalhe de caveira nas quatro faces, sobre a qual, em tempos passados, se depositava o caixão com o defunto para as orações do padre, abençoando e encomendando (ou deveria ser recomendando?) a alma a um bom destino no universo sem fim da eternidade.

Também era recomendado que, a pedido do Papa, os fiéis visitassem as igrejas que tivessem estes monumentos fúnebres, entrando nove vezes pela porta principal e saindo pela porta da sacristia, e rezando para a salvação de todas as almas. Em troca, receberiam "indulgências plenárias".

Desde um tempo longínquo se celebra uma missa barroca, às vezes na capelinha do Cemitério da Matriz, às vezes na própria Matriz do Pilar, ao som dos responsórios do Ofício de Trevas da Semana Santa, executados por uma das bicentenárias orquestras locais.

Assim, ao som esparsado dos sinos que de tristeza parecem chorar, tocando pelo avesso, de trás para frente; entre velas, flores e lágrimas, ainda se esvai cada dois de novembro em São João del-Rei, na certeza  indesejada de que muitos, hoje no lado de cá, ano que vem estarão no lado de lá.

Veja, no vídeo abaixo, o registro que uma turista fez de um enterro comum em São João del-Rei. Na descrição, ela menciona o que mais lhe chamou a atenção: o respeito dos são-joanenses diante do cortejo fúnebre, inclusive do comércio, que cerra as portas quando por aquela rua vai passar um defunto. Somente respeito, ou crença e superstição? Memórias antigas podem responder porque. Mas isto é tema para os pesquisadores de São João del-Rei.

1783-1817 - Da setecentista Casa de Caridade à Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei


No jogo de víspora, tão comum nas antigas barraquinhas das festas de largo de São João del-Rei, o número trinta e três é anunciado como "a idade de Cristo". Trinta e três anos foi o tempo que se passou entre a fundação e instalação da Santa Casa de Misericórdia são-joanense e o ato que oficializou e confirmou tal fundação. Voltemos no tempo, aliás,  tempo da Inconfidência ...

As origens da Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei nos levam a 28 de dezembro de 1783, quando Manuel de Jesus Fortes requereu ao bispado da Capitania de Minas Gerais licença para a construção de uma ermida, dedicada a São João de Deus, junto à Casa de Caridade que ele havia construído na próspera Vila. Segundo pesquisas documentais do historiador Sebastião Cintra, a construção durou menos de um ano e, para a época, era um hospital qualificado, 

            "em lugar próprio, com cômodos necessários para trinta doentes, com todas as camas precisas e distinção de lugares para pessoas de um e de outro sexo ... a obra tem merecido aplauso de todo o povo ... para ela entraram enfermos aos quais até o momento não tem faltado coisa alguma."

Apesar de já estar em funcionamento há mais de três décadas, a confirmação da fundação e existência daquele hospital ocorreu no dia 31 de outubro de 1816, por uma Provisão de D. João VI. A mudança do nome, de Casa de Caridade para Santa Casa de Misericórdia, e sua oficialização ocorreu em 21 de janeiro de 1817, quando foi aprovado o "Compromisso" e prestaram juramento os primeiros "irmãos".

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira . Efemérides de São João del-Rei . Volume II, segunda edição, revista e aumentada . Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1983.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

São João del-Rei e a saúde pública no século XVIII


Nestes dias em que outubro está indo embora, em São João del-Rei os congadeiros empunham estandartes enfeitados e fazem soar mais forte suas caixas, seus guizos e suas vozes rústicas, para  homenagear Nossa Senhora do Rosário. Madrinha e protetora dos escravos, era a ela que os negros recorriam nos tempos de ferro quente, algemas e chicotes, pedindo socorro, alívio para as dores, cicatrização para as feridas, cura para doenças, luz para a alma, paz para o coração, força e esperança para lutar e acreditar que mais cedo ou mais tarde o sol haveria de trazer um novo e livre dia.

No Brasil colonial do século XVIII, escravos eram mercadoria valiosa, custavam caro e - perecíveis pela força que o trabalho pesado lhes roubava - precisavam de pelo menos algum cuidado físico para não se deteriorarem no adoecimento. Foi nesse momento histórico que em 1708  fundaram, em São Joao del-Rei, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Afirmam alguns historiadores que foi a primeira e é a mais antiga irmandade negra criada em Minas Gerais e a segunda do Brasil.

Por ação - ou não! - de Nossa Senhora do Rosário, a 22 de outubro de 1718 a Câmara da Vila de São João contratou o médico José de Macedo Correa, formado pela Universidade de Coimbra, para "curar os pobres, de graça".  Como pagamento por este trabalho, receberia anualmente uma libra do ouro mais puro.

No pedido de autorização para esta medida social, o Senado da Câmara justificou ao ouvidor geral da Comarca que naquela vila "morriam muitos escravos por não haver quem lhes conheça os achaques para os curar." E também muitos brancos pobres que, carentes de recursos, não podiam buscar tratamento na cidade do Rio de Janeiro.

Cinquenta anos depois, no dia 23 de outubro de 1769, com a mesma intenção da Câmara, a Irmandade de São Miguel e Almas de São João del-Rei contratou o cirurgião Antonio José da Silva Lapa e o boticário Amado da Cunha Barreto para tratarem dos enfermos pobres, entre eles os escravos. Era intenção daquela irmandade construir um hospital e, para isso, até conseguiu do Senado da Câmara a doação de um terreno. Entretanto, a obra não subiu além dos alicerces...

Em homenagem aos escravos do passado e aos congadeiros de nosso tempo, ouçamos  a Radiola Tribusana no canal Clementina de Jesus, Cinco Cantos de Trabalho e Cantos dos Escravos. Afine a sensibilidade e apure os ouvidos!






terça-feira, 23 de outubro de 2012

Antes que Chacrinha, São João del-Rei já sabia: "Quem não se comunica..."


Por mais que se saiba da importância e se reconheça o pioneirismo de São João del-Rei na história de Minas, a todo instante tem uma coisa nova para se descobrir. Você imaginava que São João del-Rei foi uma das quatro primeiras vilas mineiras a ter uma agência de Correios? Isto mesmo, e desde 20 de janeiro de 1798, conforme alvará editado pelo Conde de Sarzedas, então governador da Capitania.

Entretanto, mesmo existindo este "serviço público", a população continuou contando com os mercadores, mascates e tropeiros para levar recados, dar notícias e transportar correspondências, encomendas e objetos, os mais variados. As viagens dos estafetas, que eram os carteiros da época e faziam o percurso Rio / Minas - Minas / Rio eram muito espaçadas, muitas vezes não atendendo a urgência da necessidade de informação e comunicação.

A chegada dos "carteiros" à Vila de São João era quinzenal. Anunciada por ruidosos foguetes, soltados do alto do Morro da Forca, alvoroçava a população, que logo subia as ladeiras do Bonfim para buscar correspondências ou para, simplesmente, saber em primeira mão as novidades que correriam de boca em boca nas próximas duas semanas.

A atividade postal em São João del-Rei tornou-se tão expressiva que na metade do século XX, mais precisamente em 1952, ou seja, há 60 anos atrás, foram expedidas na cidade quase 760 mil correspondências e recebidas mais de 1 milhão e 300 mil. Estes números se mostram ainda mais significativos levando em conta o tamanho da população local à época e o índice de analfabetismo do país.

Também em 1952 o Correio são-joanense movimentou 329 mil objetos sem valor e 4.900 objetos de valor e emitiu um grande número de vales postais e despachos financeiros. Foi neste ano que se inaugurou a atual sede dos Correios em São João del-Rei, bastante moderna para aquela metade de século.

O século XIX ainda não havia acabado quando os telégrafos chegaram à cidade. Era 1896. Passados pouco mais de cinquenta anos, em 1952, em São João del-Rei foram expedidos mais de 43 mil telegramas e recebidos quase 45 mil, números que novamente devem ser dimensionados segundo a população local e o percentual brasileiro de analfabetos.

Já as primeiras conversas para o telefone chegar a São João del-Rei começaram em 1912, sendo oficializadas no dia 24 de dezembro. Presente de Papai Noel? A rede interurbana da Companhia Telefônica Brasileira começou a funcionar a 11 de março de 1934, mas por muito tempo os são-joanenses reclamaram da precariedade das ligações para as capitais e cidades mais distantes, que dependiam de postos intermediários.

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Fonte: VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 2ª edição. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1953.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Em São João del-Rei, onde vai a corda, vai a caçamba!...


Dizem que corda foi feita para amarrar. Isto é verdade, em parte. Corda também serve para unir, para estreitar, para ligar. Para apresentar, conhecer, ensinar e aprender.

Pelo menos é isto o que está acontecendo de hoje até sábado em São João del-Rei. Na  setecentista e barroca cidade, a 3ª Semana de Cordas do Conservatório Padre José Maria Xavier está levando música de qualidade, gratuitamente, para diversos pontos da cidade e principalmente para um público especial: jovens, alunos das escolas públicas de ensino fundamental e médio.

- Mas o que a corda tem a ver com isso?

- Ora, as músicas são todas executadas unicamente com instrumentos de corda - violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. Com esta iniciativa o Conservatório, além de apresentar os instrumentos há muito tempo mais conhecidos na execução de músicas eruditas do que nos hits do momento, aínda desperta o interesse das crianças e adolescentes para o estudo da música. Não é à toa que o Conservatório tem tantos alunos e matricular-se nos cursos de instrumentos e canto é tão desejado e concorrido.

Mas a 3ª Semana de Cordas ocupará com música outros espaços de São João del-Rei. Sua programação, variada, vai de apresentações e concertos musicais a conferências sobre educação musical na terceira idade e master class com o Quarteto de Cordas Guerra Peixe. Este grupo veio do Rio de Janeiro especialmente para participar do evento.

Pensando bem, não é sem motivo que a 'Cidade onde os sinos falam' tem orgulho quando em alto e bom tom declara seu outro condinome: 'Cidade da Música' ...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

São João del-Rei não conhece (nem reconhece!) são joão del-rei...


O patrimônio barroco de São João del-Rei é tamanho, tão grandioso e ofuscante, que enche a vista de todos. Arquitetura, escultura, música, paisagismo, urbanismo,sonoridades, tradições religiosas de três séculos, tudo isso se entrelaça de tal modo que a muitos - são-joanenses e não-são-joanenses - parece ser esta a riqueza cultural de São João del-Rei. Não é bem assim. Ela é maior ainda...

Além dos limites do perímetro histórico também acontecem manifestações culturais originais e genuínas, algumas delas existentes desde os primórdios do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, no começo do século XVIII. Entretanto ainda hoje, século XXI, conttinuam desconhecidas e, portanto, não reconhecidas pela sociedade são-joanense.

Um exemplo disto vai ver quem assistir abaixo o videodocumentário Festa do Rosário do Rio das Mortes, gravado naquele distrito são-joanense, berço de Nhá Chica, em outubro de 2005, por João Paulo Guimarães. João Paulo é fotógrafo, produtor de vídeo, documentarista e webdesign;  possui vasta produção videográfica sobre vários aspectos da cultura de São João del-Rei. Com isto, presta uma importante contribuição para conhecimento, valorização e preservação da memória são-joanense.

Clique neste link http://www.videolog.tv/video.php?id=273521 e conheça, pelo olhar de João Paulo, esta festa que acontece anualmente no mês de outubro, no Distrito do Rio das Mortes e em outros distritos são-joanenses, e também em vários bairros locais.

 A autenticidade da manifestação, a preciosidade do depoimento do festeiro e a singularidade da coreografia do congado, inclusive com um embate dos incomuns "homens vermelhos", surpreende. São João del-Rei é mais rica do que sabe. É abrir os olhos e ver...

Quando o sol marcou as horas em São João del-Rei


Para São João del-Rei, o relógio da Matriz do Pilar é tão importante quanto o é o Big Ben para Londres. Instalado no alto da torre esquerda, logo abaixo da sineira, é considerado o principal relógio púbico da cidade e assinala as horas, suas metades e quartos de modo original, bastante conhecido dos são-joanenses:

. o primeiro quarto de hora (15 minutos) é marcado com uma pancada no sino pequeno,
. meia hora (segundo quarto) é anunciada com tantas batidas quantas a da hora seguinte, também no sino pequeno,
. aos três quartos (45 minutos) ouve-se uma batida no sino grande e
. as horas são dadas no sino grande.

Foi instalado e bento no dia 13 de dezembro de 1905, mas tudo indica que, antes dele, desde o século XVIII havia um relógio do sol no adro da Matriz do Pilar, no lado oposto a um Cruzeiro da Paixão, ou da Penitência, citado por alguns autores.  Prova disso é que no dia 14 de outubro de 1845, o mestre pedreiro Cândido José da Silva recebeu da Irmandade do Santíssimo Sacramento de São João del-Rei a quantia de 67$560 pela execução de várias obras naquela igreja, entre elas o reboque de um relógio do sol.

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Fontes
. ALVARENGA, Luís de Melo. Igrejas de São João del-Rei. Editora Vozes, Petrópolis, 1963.
. CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Segunda edição revist

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

São João del-Rei se enfeita, se perfuma, canta e se encanta para saudar sua padroeira

Tem coisa que não se sabe: foram os bandeirantes paulistas que, no primeiro raiar do século XVIII, trouxeram em primitiva imagem Nossa Senhora do Pilar para São João del-Rei ou foi a Virgem de Saragoza que os chamou e conduziu para este eldorado das terras são-joanenses?

Não importa! Aqui os bandeirantes encontraram muito ouro nas betas, nas pedras que rolavam nas enxurradas, à flor da terra. Depois se foram, rumo a outros destinos e à eternidade do esquecimento. Seus nomes se apagaram no tempo, mas a santa que os guiou - ou que com eles veio, tanto faz - continua protetora, humilde, emblemática e excelsa na Matriz do Pilar de São João del-Rei.

Hoje, 12 de outubro, a cidade se enfeita por ela, se perfuma por ela, se encanta por ela, canta por ela, cobre de flores andores e altares, salpica pétalas no chão que já foi dourado de pepitas. Hoje, em São João del-Rei, logo cedo, o sol despertou ao som de uma alvorada festiva. Banda de música, sinos, foguetes - É dia de festa!

E durante todo o dia a festa acompanha todas as voltas do ponteiro do relógio da Matriz. Missas solenes, barrocas, cantadas pela Orquestra Lira Sanjoanense. Canto das Vésperas de Nossa Senhora do Pilar, na voz masculina do Coral dos Coroinhas de Dom Bosco. Silêncios, preces, orações.

À noite, banda de música, foguetes, fogos de artifícios, tapetes de flores, algodão doce, pipoca, encantada procissão.

O ouro, esgotou-se.
Os bandeirantes, se foram.
Nossa Senhora, não.
Ficou para sempre, padroeira,
nesta terra de São João...

.o0o.o0o.o0o.
Veja, abaixo,  três belos momentos do na manhã dia 12 de outubro de 2012:  Canto do Glória, pela Orquestra Lira Sanjoanense, procissão interna na Matriz ao som do hino de Nossa Senhora do Pilar  e do repique dos sinos e a saída da procissão noturna. Ao final, programação completa, da novena  ao Te Deum Laudamus, apresentada pelo pároco Geraldo Magela da Silva.





terça-feira, 9 de outubro de 2012

São João del-Rei, além do rei!



Em São João del-Rei, assim como a vida, a arte está em toda parte. Igrejas barrocas, pontes setecentistas, edifícios monumentais, jardins, sobradões imponentes, chafarizes, casarios, lampiões, largos e becos numa paisagem colonial delicada, pratarias, ourivessarias, imaginária, alfaias, tradição e religiosidade ímpares, consagrados compositores e música barroca original, da melhor qualidade. Mas engana-se quem pensa que o patrimônio cultural são-joanense é só isso. Não é!

Há muita riqueza cultural em regiões da cidade que não integram o centro histórico, nos bairros periféricos e até na área rural que, por serem fruto, dizerem respeito e serem expressão da arte, do pensamento e da vida popular, injustamente não são devidamente valorizadas nem alcançam o merecido reconhecimento.

Fora alguns poucos e dedicados pesquisadores, quem conhece bastante e é capaz de dimensionar a quantidade, a qualidade e a diversidade das tradições populares de São João del-Rei e da região? Mas apesar do anonimato e do olhar desdenhoso da cultura oficial, mesmo ofuscadas pelo brilho esplendoroso digno da corte do rei sol Dom João V, congadas, folias diversas, pastorinhas, orações em cruzeiros enfeitados e outras manifestações desta natureza sobrevivem vigorosamente nos bairros de São Geraldo, São Dimas, Senhor dos Montes, Tejuco, Bonfim, Matosinhos; nos distrito do Rio das Mortes, Caburu, Cajuru e Arcângelo e nos arredores do município. Cada vez mais legitimadas e vivificadas pelas comunidades que as mantém, a cada dia mais se firmam como patrimônio e expressão cultural e por isso, em breve, sem dúvida estarão reconhecidas e integradas ao patrimônio cultural de São João del-Rei.

Autenticidade, originalidade, seriedade, finalidade, função, fundamentação e arte não lhes faltam. Isto é o que comprova quem visita o blog Tradições Populares das Vertentes     (http://folclorevertentes.blogspot.com.br/), que diariamente divulga conhecimentos, registros fotográficos, pesquisas, comentários e informações diversas sobre o folclore e a cultura popular de São João del-Rei e região. Mais um valioso produto que o estudioso, pesquisador e folclorista Ulisses Passarelli oferece como contribuição para o amplo conhecimento e para a permanente revigoração da cultura do povo são-joanense, é uma fonte preciosa para quem tem sede de saber - e até viver -, em sua plenitude, tudo o que compõe o patrimônio cultural material e imaterial de São João del-Rei.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Medonho, triste e tenebroso foi o dia em que o sol não deveria ter nascido em São João del-Rei


Os dois últimos minutos deste 4 de outubro, dia de São Francisco - quando São João del-Rei mais uma vez celebrou com grandiosidade e emoção a lembrança da morte do santo que era irmão da humildade e da natureza - fizeram saltar da internet para este almanaque a memória de um dia que, de tão barrocamente trágico e tenebroso,  o sol parece não ter nascido na terra onde os sinos falam.

São João del-Rei, 24 de abril de 1985, de sol a sol, nas palavras e nas lentes do escritor, jornalista, ex-militante revolucionário, político fundador do Partido Verde e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Mesmo que demore ou tenha interrupções, vale a pena insistir.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

São João del-Rei, começo de outubro. Doçura, sorriso e orvalho na morte de São Francisco


Em São João del-Rei, seja de manhã, de tarde, à noite ou alta madrugada, é impossível passar diante da igreja de São Francisco e não se extasiar com tamanha beleza, imponência e grandiosidade. A visão majestosa do templo de paredes e telhado curvos, projetado por Aleijadinho na segunda metade do século XVIII, encanta até mesmo quem, íntimo daquela paisagem, cruza o belo largo cotidianamente. Seja religioso, crente ou ateu, a beleza todos adoram.

Mas quem o vê por fora não imagina que ali dentro se cultua o pai da pobreza e da humildade, o irmão dos animais, da água, do sol e da lua, que teve impressas, por ação divina, no próprio corpo, as cinco dolorosas chagas vivas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esta, aliás, é a primeira celebração anualmente ali realizada em honra ao santo: a Quinquena das Chagas de São Francisco de Assis. Tradição noturna bissecular, realizada de 12 a 17 de setembro, consta de cânticos, orações, reflexões e música barroca (Domine ad adjuvandum, Veni Sancti Spiritus, Ego Stigmata Domine Jesu e outras) compostas pelo maestro Martiniano Ribeiro Bastos e  executadas pela orquestra cujo nome homenageia o compositor.

Passados apenas sete dias da Quinquena, começa então a novena preparatória para as cerimônias que lembram a morte de São Francisco, no dia 4 de outubro. De estrutura semelhante à celebração anterior, a novena também é obra do compositor Ribeiro Bastos, executada pela mesma orquestra.

Quatro de outubro é o dia maior de São Francisco, marcado por missa solene, rasoura barroca e, ao final, canto do Te Deum Laudamus. Mas quem já assistiu conta que a cerimônia mais tocante acontece às três da tarde, quando, para marcar o trânsito, a imagem de São Francisco é deitada na pedra fria da capela mor, rodeada pelos frades e irmãos franciscanos com seus hábitos pretos, enquanto o sino toca choroso lamentando a hora em que a alma do santo se despediu do corpo para, na eternidade sem fim, juntar-se para sempre ao Senhor.

Num acalanto sublime para São Francisco, ouça, abaixo, a música Francisco, de Milton Nascimento, na voz de Mônica Salmaso. Ela é também mensageira de um abraço eternamente agradecido ao meu irmão Luiz Alberto Soldati, irmão também de São Francisco.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

As boas coisas de São João del-Rei: Boutique das Ervas, natureza do mundo em cenário barroco


No mundo todo, dizem que os menores frascos guardam os melhores perfumes e os piores venenos. Em São João del-Rei não é diferente. Em uma movimentada encruzilhada do centro histórico, uma pequenina loja de artigos naturais tem temperos, chás, condimentos e especiarias do mundo inteiro: cravo da Índia, canela em grandes cascas e lascas, guaraná em pó, ginseng, anis estrelado, açafrão, curry, colorau, pimentas, hibisco, hortelã, erva doce, tâmara, damasco, castanha,  banana seca, mel da terra, pimenta do reino, sal grosso, sal marinho, tomate seco, salsa desidratada, sementes alimentícias e grãos secos os mais variados. É a Boutique das Ervas.

Quem entra lá pela primeira vez, tem a impressão de estar em um mercadinho persa. Em um entreposto do Oriente que tem alimentos secos, condimentos  e chás de todos os continentes. Um microarmazém da nova Companhia das Índias,  contemporânea entre o velho e o novo da trissecular cidade de El-Rei.

Na espontânea ordem (ou apertada desordem) de seus produtos, a Boutique das Ervas é uma poesia olfativa e visual. A displicente mistura dos aromas, somada à opulenta profusão de cores e à naturalidade seca, austera e generosa dos produtos, dispostos em prateleiras ou em grandes sacos de papel pardo, remetem aos armazéns misteriosos de antigamente, que as crianças procuravam desvendar na antiga infância.

Quase vizinha da Livraria Sebo Ponto Literário, a Boutique das Ervas, além de produtos para o corpo e para o paladar, tem também um alimento para a alma. È a visão de um azul e branco sobradão colonial, sobre o qual salta rumo ao céu a portentosa fachada da igreja do Carmo, com suas torres geometricamente angulosas, de sinos vermelhos e grimpas imponentes que vigiam os ventos, com seus galos e águias.

Um som? Cravo e canela!



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Festa das Mercês: há cem anos, a obrigação brigou com a devoção em São João del-Rei


Mais uma vez São João del-Rei está em festa. Apesar de ser uma segunda-feira útil, a cidade hoje foi acordada por uma alvorada festiva, tocada pela banda de música municipal, e já às 6 horas da manhã o sino da igreja que fica no ponto mais alto do centro histórico são-joanense tocava entusiasmado para anunciar que hoje é dia de Nossa Senhora das Mercês.

Daí então, muitas vezes de hora em hora, naquele alto se celebrou e concelebrou muitas missas, algumas comuns outras solenes, algumas com música barroca executada pela Orquestra Lira Sanjoanense (vídeo abaixo), outras com a participação do Coral dos Coroinhas de Dom Bosco e teve aquelas em que só se ouviu a voz do padre, as orações dos fieis e a voz em melodia do povo do lugar. A todas, Nossa Senhora das Mercês agradeceu, com as flores de sua grinalda, alvas e perfumadas de jasmin e laranjeira, e com os cravos brancoimaculados do farto e generoso buquê de graças que ela carrega na mão direita.

Logo depois que o sol caiu atrás da igrejinha e foi dormir do outro lado da Serra do Lenheiro, Nossa Senhora das Mercês desceu sua alta escadaria e em comprida procissão cruzou largos, cortou becos, atravessou pontes, percorreu ruas, subiu ladeiras, acompanhada por bandas de música e de tempos em tempos saudada pelo estourar de foguetes, pelo tocar de treze sinos de seis igrejas, por chuvas de pétalas que caíam das sacadas dos sobradões coloniais e pelo universo de estrelas dos fogos de artifício.

Tanta homenagem, ela merece: nunca negou conforto sobre-humano aos são-joanenses e, tal qual  sentinela bíblica, vigiou do alto de sua colina os filhos da terra que partiram para a Itália, a combater nos campos da Segunda Guerra Mundial. Finda o combate, foi à rua receber os soldados que voltaram, mas não se esqueceu dos que, tombados por canhões e metralhadoras, adormeceram para sempre nas distantes montanhas de solidão e neve. Por isto, também o Exército ostensivamente guarnece o andor da mãe - proteção e consolo.

Ainda hoje é assim a procissão de Nossa Senhora das Mercês. Fé, pompa, piedade, gratidão, glória, acontecimento, abundância, alegria, felicidade, harmonia. É sonho de Nossa Senhora e dos são-joanenses que seja assim "per secula seculorum"!

Mas não foi exatamente isso o que se viu na procissão das Mercês há pouco mais de um século. No ano de 1913, uma situação conflitante fez com que monsenhor Gustavo Coelho, pároco da Matriz do Pilar, conduzisse a procissão até um determinado ponto e, atipicamente, dali seguisse sob o pálio, com a resplandecente custódia dourada na mão e ladeado de acólitos, diretamente para a igreja das Mercês. Com isso, expressava sua autoridade e protesto aos mesários da Confraria das Mercês que já há alguns anos insistiam em  transgredir o itinerário estabelecido pela Matriz, voltando com a procissão para o Largo do Carmo.

Como era de se esperar, o fato teve ruidosa repercussão e monsenhor Gustavo, a convite da imprensa local, dois dias depois do ocorrido, se explicou publicamente nos jornais da época. Em sua defesa, ele declarou:

"Este vigário não pode fazer o que fez meu antecessor,
vigário Luiz José Dias Custódio que, em igual conflito,
munido de uma arma de fogo e da força da polícia
às suas ordens, fez valer o direito".

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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/seria-hoje-em-sao-joao-del-rei-um.html

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte. 1982.