sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Assim como os modernistas, tropicalistas também passaram por São João del-Rei. E deixaram compromissos e saudades!

São-joanenses menores de 55 anos certamente não se lembram, mas a dois de outubro de 1973 o Teatro Municipal de São João del -Rei  foi palco de um dos mais importantes  shows  do movimento tropicalista. Naquele dia, o antológico Índia, de Gal Costa, passou pela cidade.
O espetáculo foi um marco na trajetória da música popular brasileira. O repertório resgatava Cascatinha e Inhana, Dalva Oliveira, Lupicínio Rodrigues, Adoniran Barbosa, Geraldo Pereira e Luiz Gonzaga, mesclando-os com  os vanguardistas Wali Salomão e Jards Macalé, com os exilados Caetano Veloso e Gilberto Gil – todos em volta do até então desconhecido Luiz Melodia.
Desde aquele tempo musa e ícone, Gal Costa mostrou-se impacto, ruptura, re-ligação, sensualidade, inesperado e surpresa. O avesso do óbvio. Vasta e volumosa cabeleira, enfeitada por um cravo e uma rosa. Branco e vermelha.  O  vermelho da rosa tingia de vermelho o batom, que  escorria para o vermelho do vestido, generoso no decote e nas múltiplas e infinitas fendas, que deixavam, desde a raiz, coxas à mostra, costas desnudas, pés descalços. Censura 18 anos, rapazes tímidos, diante do encantamento aliciante e sedutor, também ficavam vermelhos, perdiam o ar.

Suspiros e silêncio, quando no tamborete, com violão, marcava tempos e compassos com o movimento horizontal dos joelhos. Da Maior Importância, Presente Cotidiano, Trem das Onze, Desafinado, Ave Maria do Morro, Volta, Vapor Barato. Hipnose absoluta na plateia quando, elétrica, corria e girava por entre os músicos no palco, Dê um Rolê, Milho Verde, Baby, Assum Preto, Passarinho, Como Dois e Dois, Divino Maravilhoso, Falsa Baiana, Meu nome é Gal. Fatal.
Não ficou, na cidade, registro nenhum da passagem de Gal Costa por São João del-Rei. Foto, cartaz, ingresso, contrato, nota fiscal, autógrafo... Se existe alguma coisa, é segredo valioso, guardado a sete chaves, pois ninguém o conhece e nem nisso se fala. Quem tiver, ou souber, seja generoso, os apresente.

Mas quem assistiu ao show India no Teatro Municipal são-joanense, naquele distante dois de outubro, tem na memória, inapagável, a magia transgressora e poética de uma proposta artística antropo-auto-fágica, que buscava no ontem musical do país força para enfrentar e sobreviver à repressão absoluta  e homicida dos anos de chumbo. Ao resgatar, reler, decodificar, recodificar e ressignificar os patriarcas musicais, os tropicalistas, inspirados nos modernistas, sabiam estar abrindo trilhas para um futuro de dignidade e democracia.
De uns e de outros, São João del-Rei foi testemunha.  Agora, que venham – ou brotem daqui mesmo! - pós-modernistas e neo-tropicalistas!

Enquanto eles não chegam, vejamos os vídeos com a tela no tamanho máximo e o som no mais alto volume. Barato Total!



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

São João del-Rei na balança de São Miguel Arcanjo


Desde a madrugada - e será assim durante todo o dia, até a noite desta quinta-feira, 29 de setembro - o sino das Almas está dobrando repetidas vezes em São João del-Rei. E não é anunciando a morte nem chamando para enterro de nenhum "irmão". É porque hoje é dia de São Miguel Arcanjo.

Faz tempo que o "Príncipe das Potestades" chegou e se estabeleceu em São João del-Rei, com a missão de 'combater e afastar o  Espírito das Trevas, mantendo-o no limite de seus domínios'. Prova disso é que, recém-criada, a Vila de São João del-Rei ainda tinha cheiro de arraial quando, em 2 de junho de 1716, ali foi fundada a Irmandade de São Miguel e Almas, com finalidades religiosas e sociais.

Cabia à Irmandade das Almas prestar assistência religiosa aos presos da Cadeia Pública situada no Largo do Rosário (atual Museu de Arte Sacra), celebrando missas, realizando ofícios e ministrando sacramentos na capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade, ali em frente. Também chamava para si a responsabilidade de cuidar da saúde dos pobres e necessitados - os excluídos da sociedade colonial - e para isso contratava médicos  e boticários.

A imagem barroca de São Miguel Arcanjo é das mais antigas existentes na cidade, pois já existia na primitiva matriz. É uma das raras existentes em Minas em que o arcanjo tem em uma das mãos uma balança de dois pratos, onde pesa, entre chamas, duas criaturas humanas em postura de temor e oração. Como representam o espírito dos mortos, a imagem é também conhecida como São Miguel e Almas.

Entre todas as irmandades são-joanenses, a de São Miguel foi a que mais imóveis possuiu nos séculos XVIII e XIX. Tinha também patrimônio financeiro muito significativo, o que possibilitou contratar o artista Manoel Vitor de Jesus para decorar, com pinturas, sua sacristia e consistório, sendo célebre, entre outras representações, a iconografia em que três almas do Purgatório suplicam a intervenção favorável do arcanjo.

Não se surpreenda hoje se, andando pelas ruas do centro histórico de São João del-Rei, você sentir cheiro forte de incenso queimado em brasas vindo do fundo das lojas, escapando das janelas das casas, atravessando as esquinas. São são-joanenses pedindo proteção. Saudando as almas e clamando por São Miguel. Pedindo clemência e generosidade quando, chegada a hora, estiverem na balança que decidirá seu destino na eternidade. E também, no presente, vigor ao anjo no empunhar da espada de fogo contra "maleficios, embustes, armadilhas e ciladas do demônio..."
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Quem é muito são-joanense sabe: pelas quatro pancadas do relógio no sino pequeno da Matriz do Pilar, eram três e meia da manhã quendo este toque de sinos começou.  


Fonte e foto: CAMPOS, Adalgisa Arantes. São Miguel, as Almas do Purgatório e as balanças: iconografia e veneração na Época Moderna. http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos07/campos01.htm

terça-feira, 27 de setembro de 2011

São-joanense, "ama com fé e orgulho a terra em que nasceste": São João del-Rei


Os são-joanenses amam profundamente São João del-Rei. Não com um amor  ostensivo, declaratório, espetaculoso, mas com um sentimento sincero, discreto e verdadeiro, mistura de respeito, zelo e admiração. Amor devocional.

É com fervor que muitos vivem para manter, promover e preservar - de todas as maneiras - as tradições culturais bicentenárias, especialmente aquelas ligadas à religião. Isto porque o espírito são-joanense, acima de tudo, é altruista, religioso e devotado.

O amor dos são-joanenses por São João del-Rei é generoso. Tão mais generoso se torna quanto mais surgem e se popularizam as novas tecnologias, usadas para divulgar planetariamente, via internet, as manifestações culturais desta terra. Com isso, hoje é grande e cada vez mais crescente o volume de documentos, estudos, artigos, fotos e vídeos sobre a história, a cultura, a arte e o dia a dia de São João del-Rei disponíveis na web. São João del-Rei existe positivamente e é presença destacada no universo virtual.

Qualquer pessoa que se dispõe a fazer isto sem dúvida presta um importante serviço à cidade e à humanidade, mas também a seus antepassados, a si e a seus descendentes. Desfronteiriza, desterritorializa e eterniza a cultura e a memória de todos viveram ou vivem à sombra da Serra do Lenheiro ou às margens do Córrego que nasce lá e por isso tem o mesmo nome.

A todas estas pessoas, reconhecida, São João del-Rei muito agradece!

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Um exemplo? O vídeo abaixo. Gravado no dia 25 deste mês e publicado no Youtube no dia seguinte, mostra ao mundo a devoção exaltada de São João del-Rei a uma de suas madrinhas: Nossa Senhora das Mercês.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Em São João del-Rei acontecem coisas que até Deus duvida. E que nem mesmo o Diabo acredita....

Detalhe do portão do Cemitério da Ordem Terceira do Carmo de São João del-Rei

O que é realidade? O que é fantasia? O que é delírio? O que é verdade? O que é imaginação? Em São João del-Rei, tem hora que ninguém sabe. Só depende do ponto de vista.

Tem história verdadeira que mais parece lenda, que bem podia ser estória. Mas há quem jure que é verdade, que aconteceu mesmo...

Como o caso do bêbado que, tempos atrás, voltando para casa ao entardecer, viu o portão do Cemitério do Carmo aberto. Desorientado e mal das pernas, resolveu entrar. Lugar fresquinho, silencioso, bonito, florido, cheio de anjos, ninguém por perto. Tantos labirintos estreitos, com tantos retratos e escritos, fizeram a cabeça rodar. Deitou num canto, pegou no sono.

Sem enterro naquela tarde, o coveiro - que pra esquecer a monotonia também dera muitas voltas no 'butiquim'  da esquina - deu voltas com a chave no artístico e pesado portão, desincumbido da última ronda vespertina. Escurecia, o sino batia, melhor ir pra casa.

Madrugada dissipando, já sóbrio, acordou o homem com o grito do padeiro. Esperançoso, correu até o portão de ferro batido. Trancado. Com fome, no ainda nebuloso escuro, estendeu a mão e gritou:

- Ô padeiro, me dá um pão!

Foi balaio pro alto, pão pra todo lado.

- Alguém viu o padeiro?

Dizem questá correndo até hoje, e agora também procurando a própria voz...

Em São João del-Rei, juram que aconteceu. No Cemitério do Carmo...

domingo, 25 de setembro de 2011

Fé e festa no reino sem fim de São João del-Rei


Como pode caber tanta cultura e religiosidade no calendário mensal de São João del-Rei? Este mês, mal acabou ontem a Festa de Nossa Senhora das Mercês, do lado de lá do Córrego do Lenheiro começou hoje a novena barroca de São Francisco de Assis. Será assim, toda noite, até o dia 3 de outubro - véspera da data de morte e procissão do santo que recebeu no corpo as chagas vivas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amanhã, do lado de cá do mesmo Lenheiro, começa o Tríduo a São Miguel - arcanjo combativo, arqui-inimigo do Inimigo. Como é ele o Príncipe da Milícia Celeste, dia e noite à porta do Céu com sua balança de prata e espada de fogo - a julgar as almas que partem da Terra e decidir-lhes o Paraíso,  Purgatório ou  Inferno -, não custa nada, mineiramente, lhe fazer uma mesura. Quem sabe ele não alivia a barra de quem o acompanhar na procissão apressada que percorrerá as ruas mais antigas da cidade, no anoitecer da proxima quinta-feira, dia 29 de setembro?

Enquanto isso, é sino dobrando de lá, sino dobrando de cá, orquestra tocando aqui, orquestra tocando acolá, tudo ao mesmo tempo, na mesma hora. Nestes dias, São João del-Rei é uma partitura, viva e sem pausas.

Veja, no vídeo abaixo, a saída da procissão de São Miguel Arcanjo da Matriz do Pilar de São João del-Rei.


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sábado, 24 de setembro de 2011

Irmandade das Mercês de São João del-Rei: zelar da alma, sem esquecer do corpo nem da liberdade!

Seria hoje em São João del-Rei um sábado comum, não fosse 24 de setembro - dia de Nossa Senhora das Mercês. Dia de grande festa, que começou antes mesmo do sol nascer: alvorada festiva às 5 horas da manhã, com banda de música,  toque de sinos, foguetório. Mais tarde, missa barroca cantada pela setecentista Orquestra Lira Sanjoanense, que terminou perto de meio-dia. As celebrações continuam durante toda a tarde, até encerrar-se noite adentro, com grande e grandiosa procissão,na qual Nossa Senhora das Mercês, em andor enfeitado de cravos brancos, percorre lentamente e é saudada nas mais importantes ruas do centro histórico. Aqui, há quase trezentos anos é assim, pois tudo começou quando, em 1740, foi criada a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos da Vila de São João del-Rei.

Tratava-se de uma instituição democrática que, além dos pretos crioulos e negros escravos, também acolhia homens brancos - afinal, na sociedade mineradora do século XVIII, era grande o número de brancos que, aventureiros sem sucesso, viviam à margem de tudo e na mais profunda miséria. A Irmandade das Mercês desde sua origem tinha uma visão abrangente do que é a felicidade humana, entendida aí nas dimensões espiritual, humana e material. Por isso, além de zelar da vida espiritual dos "irmãos" e garantir-lhes sepultamento digno, também reunia fundos para alforriar escravos e assistir socialmente os que estivessem sofrendo privações e necessidades.

No mesmo ano da fundação da irmandade se iniciaram os esforços para a construção da primitiva capela de Nossa Senhora das Mercês, já mencionada, em 1751, na "História da Vila de São João del-Rei", escrita pelo sargento-mor José Álvares Maciel, como uma edificação arrendondada, semelhante à Rotunda de Roma.  Não se conhece vestígios desta construção nem desenhos ou esboços que permitam visualizar o edifício religioso que Maciel relatara.

O Compromisso (estatuto) da Irmandade, elaborado em 1765, foi aprovado em 1806 por Dom João, então Príncipe Regente de Portugal e mais tarde Rei Dom João VI. Crescendo em importância institucional tanto na estrutura hierárquica da Igreja quanto na sociedade são-joanense, em 1841 a Irmandade foi elevada à condição de Confraria e, em 1885, à categoria de Arquiconfraria - hoje das mais importantes e respeitadas no ambiente religioso e social de São João del-Rei.

Muito graciosa e construida no alto de uma colina, a igreja de Nossa Senhora das Mercês se destaca na paisagem do centro histórico de São João del-Rei. Primitivamente construída por volta de 1740, foi amplamente reformada em 1808 e, depois, em 1877, quando teve a fachada desenhada pelo célebre pintor do teto das igrejas são-joanenses, Venâncio José do Espírito Santo. Os altares são obra esculpida pelo artista e famoso compositor barroco oitocentista Luiz Batista Lopes. Sua inauguração foi momento tão importante que inspirou o compositor são-joanense, Padre José Maria Xavier, na obra Vésperas Solenes de Nossa Senhora das Mercês.

Hoje, Irmandade, igreja e festa de Nossa Senhora das Mercês são jóias preciosas no tesouro da memória afetiva, sentimental, cultural e espiritual de São João del-Rei. Tesouro que cada vez mais, mais que ouro, é valioso e reluzente...

Veja, abaixo, dois momentos da procissão de Nossa Senhora das Mercês. No primeiro, o andor - logo após enfeitado - é levado para dentro da igreja e, no segundo, a chegada da procissão.



Leia mais sobre a Festa das Mercês em São João del-Rei acessando
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/09/sao-joao-del-rei-em-estado-de-graca-e.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/09/setembro-primavera-da-religiosidade-em.html
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Fonte: http://nossasenhoradasmerces24.blogspot.com/p/breve-historico-da-veneravel.html

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma Primavera de Música a, mineiramente, florescer em São João del-Rei

Beleza interior: o jardim da porta para dentro do quintal de Dona Carmen

A mineirice de São João del-Rei surpreende até os próprios são-joanenses. Que outra cidade, tão discretamente organiza e, na chegada da Primavera, quase sem falar com ninguém, realiza dezesseis eventos musicais em apenas oito dias? Enche de melodia, harmonia, surpresa e encantamento os mais diversos espaços: café, coreto, jardim, teatro, auditório, museu - e não se vangloria? Quem souber, que o diga!

Dezesseis eventos. Isto mesmo; de hoje até o dia 30 deste mês São João del-Rei vive uma programação cultural intensa, focada principalmente na música e nas flores. Coisa para todos os gostos, sem distinção. Jantar requintado, harmonizado com vinhos selecionados, ao som de um recital instrumental brasileiro de saxes, flautas, clarinete e violão, em um café da serpenteante e poética Rua Santo Antônio. Montagem de uma ópera em praça pública. Maratona de piano, com apresentações, lançamento de CD, palestra, recitais e audições de piano, cravo e órgão barroco no coreto da avenida (em frente à estação da Maria Fumaça), no Teatro Municipal, no auditório do Conservatório de Música Padre José Maria Xavier e no Museu Regional. E também uma apresentação do famoso Trio Amadeus no Largo São Francisco, integrando a cidade no projeto Música no Museu.

Da música para as flores, quem estiver na cidade poderá participar, ainda, da oficina Dia de Campo, que tratará de um tema muito adequado para a estação que chegou ontem: produção sustentável de flores de corte - estrelícias, antúrios, rosas, copo-de-leite, girassol e flores tropicais.

Ninguém falou, mas pode ter mais música ainda. Quem sabe, andando descompromissadamente pela cidade, você não se surpreenda com o chamado do som de um violão, de uma flauta, de um acordeon, de uma voz melodiosa, do que nem imagina? São João del-Rei é assim mesmo. Uma cidade mineiramente recatada, discreta, cheia de modéstia e pudor. Nem sempre se vê o que faz, por mostrar pouco do seu real valor. Vive no reino da música, mesmo quando - às vezes - entre pausas, reticências e silêncios...

Conheça, neste vídeo, o Trio Amadeus interpretando Habanera, da ópera Carmen, de Bizet.

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/09/sagracao-da-primavera-em-sao-joao-del.html

Para conhecer a programação completa dos eventos de São João del-Rei, acesse http://saojoaodelreitransparente.com.br/events

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A sagração da Primavera em São João del-Rei

Dentro de algumas horas, a Primavera chega a São João del-Rei, para enfeitar ainda mais a festa de Nossa Senhora das Mercês. Simbolicamente,  espalhará guirlandas pelos jardins, coroará de jasmins, bugarins, manacás a alegria e a esperança. Devolverá perfumes à brisa e ao orvalho, florirá manhãs serenas,  tardes calmas e noites mansas, boas para se abrir janelas, colocar cadeiras na calçada, passear pelos largos saudando  amigos e vagalumes.

São João del-Rei bem podia entusiasmar-se mais com a chegada da Primavera. Celebrá-la com festivais autônomos e independentes que reunissem descompromissadamente em praças públicas todas as artes. A vida ficaria tão melhor assim...
Mais do que nenhuma outra, a Primavera é a mais delicada e são-joanense das estações. Por isso, celebremos sua chegada, ouvindo abaixo dois movimentos de "A Primavera", parte da obra "As Quatro Estações". Quando Vivaldi a compôs vivia-se o século XVIII  e São João del-Rei - ainda arraial ou vila - contemplava a alvorada da própria existência.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.

O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por pouco, dez anos depois não foi construída ali a cadeia pública edificada no Largo do Rosário, em frente à capela da Piedade.

Mal-afamada até os idos de 1980, a Rua da Cachaça, hoje denominada Marechal Bitencourt, ao que parece, desde o século XVIII esteve na boca do povo. Tanto que foi citada até nos Autos da Devassa - documento constituído por depoimentos de pessoas que tiveram envolvimento direto com a Inconfidência Mineira. Consta que o português Manoel Moreira ali residia e tinha taberna, conforme declarou e está registrado nos inquéritos relativos à condenação do movimento libertário encabeçado por Tiradentes. Diante deste fato, teria o grande herói são-joanense frequentado tal taberna, difundindo ali - com  inflamante entusiasmo - seus ideais de liberdade, e por isso o taberneiro acabara comprometido?

Com a decadência e fim da zona de prostituição que ali funcionava, a Rua da Cachaça por muito tempo foi desvalorizada e quase acabou em ruínas. Porém, especialmente na última década, tem sido revalorizada como cenário histórico e se tornado objeto de restauração e revitalização, instalando-se ali importantes instituições culturais e turísticas, como o Centro de Referência Musical José Maria Neves, a sede da Orquestra Popular Livre, o Centro Cultural Feminino, o escritório da Trilha dos Inconfidentes e até uma pousada. Mas ainda tem casarões a se reformar, ideais para abrigar cafés, livrarias, restaurantes típicos, lojas de artesanato e tudo o que junta, no mesmo balaio, cultura, saber, lazer e prazer.
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Ilustração: Rua da Cachaça, rumo ao solar da Baronesa (foto do autor)

Fonte: CINTRA, Sebastião. Revista do IHGSJDR. Vol. VI, pags. 5 a 25. ZAS Gráfica e Editora. Juiz de Fora. 1988.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Estava à toa na vida São João del-Rei me chamou pra ver a banda passar...



São João del-Rei, desde o nome, é cidade sonora, musical. Sem dúvida, este atributo muito se deve à existência ativa das bandas de música que - volta e meia - estão a percorrer as ruas ou a se apresentar nos largos, nas praças, nos teatros, nos adros das igrejas, enfim em toda parte, dando ritmo a tudo: procissões, festas populares, concertos, atos oficiais, solenidades cívicas e até, bem de manhãzinha, à marcha dos soldados do batalhão. Houve um tempo em que as bandas faziam parte até de cortejos fúnebres, mas hoje isso não é mais comum.

Qual são-joanense não sente o coração bater mais forte ao ouvir, entre dobres de sinos, a Marcha dos Passos, quando a procissão sai da Matriz ou atravessa a Ponte da Cadeia? Quem, nascido aqui ou visitante, não se entristece com a Melodia Fúnebre, tocada no adro da igreja de São Francisco, na manhã de domingo em que o Senhor dos Passos  sai em razoura para contornr o jardim que tem formato de lira? Não sente o peito apertado quando escuta a Marcha da Paixão, entre matracas, na Sexta-Feira Santa? E também não volta à infância  quando a banda toca, com notas vivas de muita cor, as marchas da Boa Morte, das Mercês e de todas as Nossas Senhoras?

Tão importante é a presença da banda na alma de São João del-Rei que o maestro são-joanense Marcelo Ramos gravou recentemente, juntamente com a Companhia dos Inconfidentes, o CD Marchas Mineiras para banda, que reúne as cinco marchas citadas e muitas outras que quase cotidianamente são ouvidas na cidade. Como trabalho de pesquisa, resgatou até o Hino do Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae (com "e" mesmo!), agremiação criada em São João del-Rei por volta de 1930 e que desfilou no Carnaval durante muitas décadas.

O disco é uma preciosidade. Custa apenas R$ 10,00 + envio postal, se comprado pelos telefones (32) 3371-2289 e 8866-0349. Em algumas (e especiais) ocasiões, deveria ser pedido como carteira de identidade, passaporte e crachá dos são-joanenses. E até apresentado como senha para acessos vips, privativos, secretos e misteriosos...

Conheça, no vídeo abaixo, algumas faixas do CD e a foto dos compositores das marchas.


Saiba mais sobre este importante trabalho de resgate da memória musical de São João del-Rei e como adquirir do disco acessando http://www.movimento.com/2011/09/lancamento-do-cd-%E2%80%9Cmarchas-mineiras-para-banda%E2%80%9D/.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

São João del-Rei amanheceu em estado de graça para a festa de Nossa Senhora das Mercês!

Uma igrejinha colonial alegre, singela e delicada, junto ao cruzeiro e ao cemitério, um pouco acima do Passinho da Paixão, mais alta do que todas as monumentais igrejas barrocas do centro histórico de São João del-Rei. Tão mais alta que a ela se chega subindo uma larga e elegante escadaria. Atrás dela, como proteção, a Serra do Lenheiro é uma muralha abissal e a seus pés derrama-se a cidade brotada em 1703. Assim pode ser descrita a igreja de Nossa Senhora das Mercês.

A partir do entardecer de hoje ela estará ainda mais iluminada, mais visível de todos os pontos da cidade, para avisar, aos são-joanenses, que a Festa de Nossa Senhora das Mercês está começando. E que durante os próximos dez dias vai movimentar aquela colina e o seu grande largo - que é quase uma esplanada - com música barroca, novena, barraquinhas, foguetórios, banda de música, coloridos fogos de artifício e todos os encantamentos que deixam São João del-Rei em estado de graça.

Por dentro, a igreja parece um recorte do céu. Tem altar-mor azul claro e dourado e, nele Nossa Senhora das Mercês, com sua coroa de prata e grinalda de flor de laranjeira, equilibradas sobre o rosto pendido como para um terno abraço. Para isso, os braços estão abertos, tendo em uma das mãos, como presente para os são-joanenses, um buquê de cravos, graças, mercês e favores. Em nichos laterais, São Pedro Nolasco e São Raimundo Nonato, como escudeiros, tudo assistem. Pouco mais abaixo, na linha do arco-cruzeiro, dois altares laterais lembram, em cenas da flagelação de Cristo e do Calvário, que a igrejinha das Mercês é templo do amor de Deus em favor dos homens.

Com suas missas, novenas barrocas, terços, leilões, procissões, música e divertimento, a festa das Mercês acontece há séculos em São João del-Rei. Outrora, além da importância religiosa, desfrutava também de muito prestígio social, sendo marca importante na contagem do tempo pelos são-joanenses. Era ocasião de se mostrar, ver e ser visto. Na modernidade de nossos dias, muita coisa mudou, mas a festa continua firme, hoje não só como expressão de fé e religiosidade, mas também como manifestação cultural que é patrimônio da "terra da música, onde os sinos falam".
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

No Museu Regional de São João del-Rei, a Primavera da Memória vai começar mais cedo!


15 de setembro, Museu Regional de São João del-Rei, pouco depois que o sino do Santíssimo Sacramento da Matriz do Pilar saudar o Ângelus. Celulares desligados. Silêncio no ambiente. Luz suave. Este é clima em que a Primavera vai chegar, trazida pelos sopros de um instrumento setecentista. Melhor dizendo, do único órgão de tubos colonial de origem civil existente no país e construído na região do Campo das Vertentes, com madeiras nobres brasileiras. O concertista será Wolfgang Zerer.

Depois do concerto, em outra sala, ali pertinho, oratórios são-joanenses dos séculos XVIII e XIX estarão expostos no museu - templo de tempo, lembrança, saudade e memória. Neste mês de setembro, templo da Primavera...

Se você estiver em São João del-Rei, não perca!
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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/04/o-pai-da-musica-vive-em-sao-joao-del.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/08/recital-de-orgao-setecentista-vivifica.html

Em São João del-Rei, per saecula saeculorum, é cotidiana a Exaltação à Santa Cruz


Cruzeiro do Pau D'Angá, centro de São João del-Rei. (foto do autor)

Desde a época em que o Império Romano dominava o mundo, hoje, 14 de setembro, é um dia especial para os católicos: o Dia da Exaltação da Santa Cruz. Para São João del-Rei, é mais especial ainda, pois na cidade a data coincide com o dia consagrado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

Já nos distantes idos de 1704, quando surgiu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, as cruzes são presença marcante na paisagem urbana e cultural de São João del-Rei. Ostensivas, suportando os estigmas da Paixão, estão em toda parte. Nos altos, nas praças, nas esquinas, nas montanhas, nas paredes, nas encruzilhadas. Atualmente, numa soma precipitada, a vista enxerga nove, no centro histórico e imediações. Não se sabe de outra cidade histórica brasileira que tenha, concentrados,  tantos e tão simbolicamente completos cruzeiros.

Diferentemente do dia 3 de maio, igualmente dedicado à Santa Cruz, no dia 14 de setembro não é tradição enfeitar pequenas cruzes de madeira e colocar nas portas principais das casas. Também na modernidade, não é mais costume, neste dia, realizar nenhuma cerimônia nos cruzeiros. Mas a Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, como parte de sua programação anual, realiza sempre, na semana deste dia, na Matriz do Pilar uma delicada e emocionante homenagem ao "lenho sagrado", ao som de motetos barrocos executados pela bissecular Orquestra Ribeiro Bastos.

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Sobre os Cruzeiros e as comemorações do Dia de Santa Cruz em São João del-Rei, Tencões & terentenas já publicou:

+ http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/no-dia-de-santa-cruz-as-cruzes-de-sao.html
+ http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/dia-de-santa-cruz-pode-ter-mais-cor-em.html

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/09/sao-joanense-ama-com-fe-e-orgulho-terra.html

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

São João del-Rei, salva-te a ti (e de ti!) mesma...


Na próxima quarta-feira, dia 14 de setembro, a população do bairro de Matosinhos, em São João del-Rei, estará comemorando uma festa religiosa muito importante: o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

A devoção ao Senhor de Matosinhos em São João del-Rei é muito antiga, pois a cidade ainda era uma vila quando, em 1771, no dia 6 de setembro, foi autorizada a construção da igreja. Da autorização ao começo da construção passaram-se menos de dois anos, pois o padre Dr. Matais Antônio Salgado, em 6 de maio de 1773, doou o patrimônio que viabilizou a empreitada(1).

Desde o início, as homenagens ao crucificado de Matosinhos de São João del-Rei atraíam grande multidão. Numerosas romarias, de 5 a 13 de setembro, para ali deslocavam-se das mais diversas localidades e pelos mais diferentes meios, para pagar promessas, agradecer graças, renovar a fé e pedir proteção. A simplicidade, sinceridade e espontaneidade conferiam à "festa" caráter despojado e popular, bastante diferente das celebrações pomposas, promovidas pelas irmandades da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar.

Três séculos se passaram, Matosinhos se urbanizou, ganhou ares industriais e hoje é um dos bairros mais movimentados de São João del-Rei. Mas a festa do padroeiro não se intimidou com o desenvolvimento. Ao contrário, também ela se adequou aos novos tempos, acompanhando o modo de vida do povo daquele lugar, sem, contudo, desvirtuar-se ou perder-se de seu espírito original. Continua viva. Este ano, por exemplo, na abertura teve até um passeio ciclístico na manhã do dia 4, com centenas de bicicletas enfeitadas com fitas e balões vermelhos e amarelos - cores locais do Bom Jesus.

A igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, construída no século XVIII, não teve a mesma sorte da festa. Por iniciativa e empenho do pároco Jacinto Lovato, foi demolida em 1970, apesar de São João del-Rei já ter sido tombada como patrimônio histórico em 1938 e já haver no Brasil, na década de setenta, consciência e responsabilização do poder  público pela preservação da memória nacional. Hoje em seu lugar existe, edificada, uma igreja grande, moderna. O que um padre generoso, por amor e fé, construiu outro, ambicioso - por ignorância e prepotência - destruiu.

A demolição da igreja original daquele Bom Jesus cristalizou-se como  lembrança dolorosa na memória de São João del-Rei. Chaga viva no coração de Matosinhos. Lágrima amarga na face da imagem crucificada e atônita de Nosso Senhor.

(1) www.ograndematosinhos.com.br/bom_jesus.htm
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Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/menos-de-cem-anos.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/sao-joao-del-rei-em-festa-salve-o.html

sábado, 10 de setembro de 2011

Modinha azul e amorosa para São João del-Rei

Capelinha do Senhor do Bonfim de São João del-Rei (foto do autor)

Que tal, no embalo desta cantiga, percorrer palmo a palmo as ruas, os becos, os largos;
atravessar as pontes, as praças, jardins e travessas; subir e descer as tantas escadarias de
São João del-Rei?

Por que não acariciar com os olhos seus santos, seus monumentos - altas torres, portais,
sacadas, telhados, encantamentos; nâo trazer corpo adentro seus cheiros de jasmim,
de alecrim, de incenso, rosmaninho, manacá e manjericão? O que impede  pulsar o coração
no festivo dobrar de seus sinos, dos violinos, das matracas, dos apitos e dos foguetórios?


Fazendo assim, você vai ver que em São João del-Rei quase sempre as nuvens são de
algodão doce. E que não há mais pepitas de ouro - só de hoje, feitas de açúcar, amendoim

e coco, mexidas à mão em fogo alto, com dedais de ferro em tachos de cobre. Mas pordemais preciosas...
Esta música, de Flávia Ventura, é um exemplo do extraordinário trabalho da
"Cambada Mineira" (www.cambadamineira.com.br)
 

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Se você gostou, leia / ouça também

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Na festa dos 300 anos da Vila de São João del-Rei haverá de florir a Primavera da Legalidade

Em 2013, portanto daqui a dois anos, São João del-Rei comemorará os trezentos anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de vila. É uma oportunidade sem igual para se unir, em um único esforço, o espírito celebrativo com realizações que a um só tempo valorizem o patrimônio cultural são-joanense e ofereçam à população equipamentos culturais e urbanos que proporcionem mais informação, conhecimento, lazer e qualidade de vida.

O Chafariz da Legalidade, em 2013, completará 180 anos. Sem dúvida, é um monumento que bem merece ser contemplado nas comemorações do tricentenário. Fica em uma praça agradável, estrategicamente localizada, formando um conjunto harmônico com o edifício do Grupo Escolar Maria Teresa, em uma área hoje plenamente descaracterizada. Certamente, dos monumentos oitocentistas são-joanenses, é um dos mais vulneráveis e expostos a ações insanas, como a que o danificou há alguns anos.

O almanaque eletrônico Tencões & terentenas declaradamente é um dos defensores do Chafariz da Legalidade e, volta e meia procura chamar a atenção de todos para o destaque e a proteção que o monumento precisa - e merece! - receber. Chegou até a divulgar a proposta de transformar aquela praça em um pequeno bosque / orquidário protegido, próprio para atividades culturais e para deleite principalmente dos idosos e das crianças.

Orquídeas do jardim de D. Carmen. São João del-Rei

Veja, nas imagens abaixo, o relativo abandono em que se encontra o Chafariz da Legalidade (a porta lateral, em péssimas condições, está dia e noite sempre aberta) e exemplo da flora que poderia emoldurar tão significativo monumento, que ostenta, no frontispício, o ano em que foi erigido: 1833. Bastaria responsabilidade dos órgãos públicos, comprometimento das instituições / entidades culturais, sensibilidade dos intelectuais e mobilização da comunidade para a causa!


Orquídeas em profusão no jardim de D. Carmen. São João del-Rei

São João del-Rei muito lamenta a demolição da igreja de Matosinhos
e a descaracterização de vários imóveis de valor histórico.
Não é hora de olhar adiante e,  contemporaneamente, 
garantir a perpetuidade do que ainda existe,
a exemplo do Chafariz da Legalidade?
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Sobre o Chafariz da Legalidade, leia também:
* http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/07/sao-joao-del-rei-nos-seus-300-anos.html
* http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/02/legalidade-nos-300-anos-de-sao-joao-del.html

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Doce São João del-Rei na "Terra de Minas"


Tachos de cobre. Panelas de ferro, de pedra, de alumínio batido. Colheres de pau. Antes, fumaça na chaminé, lenha estralando, fogo alto, brasas vermelhas no fogão. Hoje, as chamas de qualquer fogão a gás.

Sempre açúcar. E também cravo, canela, erva-doce, aniz estrelado, folha de laranjeira, raspas de limão.

Da sábia e antiga alquimia que mistura temperatura, tempero, tempo, paciência, calma e calor surgem arroz doce, doce de abóbora, de banana, de batata doce, de cidra, de coco cremoso, de figo cristalizado e em calda, de goiaba, de laranja da terra, de leite, de mamão, de marmelo, de pêssego, queijadinha. Algodão doce, amêndoas de amendoim e de coco, cocada, pé de moleque, quebra queixo...

A gastronomia de sobremesas em São João del-Rei é muito farta, quase infinita. Prova isso Câmara Cascudo, em um de seus livros sobre cozinha brasileira. Lembra o grande folclorista e estudioso da cultura popular que certo visitante europeu registrou nos seus diários de campo que, ao hospedar-se em nossa cidade no século XIX, teve à sua disposição, após o jantar, uma mesa de 29 compotas de diferentes doces de frutas da região.

Hoje a vida está menos doce; normalmente não se tem mais tanta fartura. Mas São João del-Rei ainda produz delícias de lembrança e açúcar, a exemplo das receitas abaixo, divulgadas em vídeos no Programa Terra de Minas, nos links abaixo



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Sobre as boas coisas de São João del-Rei, leia também:
 

Em São João del-Rei, ecos da Missa da Assunção



O repertório da música barroca produzida em São João del-Rei, executado nas celebrações religiosas tradicionais, realizadas na cidade desde o século XVIII, é tão rico e variado que sempre surpreende por sua qualidade musical e sofisticação estética.

Veja, por exemplo, este Salmo Responsarial, vigorosamente executado pela Orquestra Lira Sanjoanense como parte da Missa da Assunção de Nossa Senhora, celebrada na Matriz do Pilar na manhã do dia 15 de agosto passado:


domingo, 4 de setembro de 2011

São João del-Rei olha para o alto e contempla o Senhor dos Montes (anotações)



      Anotações para um poema indagativo e inconcluso

Em São João del-Rei, neste primeiro domingo de setembro, a tarde insiste em não cair.
E nem pode. Como resistir ao burburinho da praça - algodão doce, pipoca, criança,
cachorro ... Como fugir do contato com aquela gente feliz, sacudida, que veste roupa
quarada e enxugada ao sol; como negar aos apelos do sino humilde, que toca frágil
como um cordeirinho perdido; como virar as costas para a igrejinha bicentenária e
modesta, pontilhada de luzes, eternizada pelo momento ímpar? A noite apressa-se,
interessada, mas a tarde resiste e ignora a ordem natural. É dia do Senhor dos Montes!

De repente, cometas de pólvora cortam o céu ainda azul, deixando o rastro prateado,
para explodir onde a vista alcança. A banda toca uma marcha gloriosa, notas robustas
saindo das tubas, das trompas, dos trombones, dos tambores. Foguetes  velozes pontuam
o universo sonoro com exclamações, vírgulas, ponto e vírgulas, interrogações, reticências...

A cruz paroquial aparece na porta da igreja, ladeada por duas fileiras de "irmâos".
No auto-falante ouve-se muitos vivas ao Senhor Bom Jesus dos Montes.
O Céu desce ao chão.

Alegre, procissão ganha as ruas. Nossa Senhora das Dores, pequenina, vem na frente,
carregada em andor por quatro moças. Anjos morenos e maduros, esculpidos em carne
e osso pelo sobe-e-desce ladeira, entre a panela de pedra no fogo, a bacia de roupa
no quintal e a tela da TV. Outras quatro carregam lanternas. Neste dia de festa haverá
trevas a clarear?

Sobre os ombros de quatro homens, Nossa Senhora da Piedade levita, com o corpo
de Cristo defunto a seus pés. Seu olhar é um brilho reto, infinito, a desnudar e
abrandar desejos, intenções e pensamentos, sem atenção nenhuma para o Cruzeiro
do Sul nem para as orquídeas que lhe espalharam pelo caminho.

Deitado na cruz, recostada entre muitas flores, vem mais atrás, antes do pálio,
o Senhor Bom Jesus. Vitorioso - apesar do sangue na face, dos cravos e da coroa
de espinhos - não se vanglorianem padece de qualquer sofrimento. Pelo contrário,
segue cordioso, misericordioso, entusiasmado e decidido por ladeiras íngremes,
ruelas curvas, de casas simples, enfeitadas com flores, bandeirinhas, balões,
quadros de santo e imagens na janela, velas acesas, desenhos de serragem colorida
no chão. No embalo de seu povo, platônica paixão, Senhor dos Montes,
em amor recíproco, hoje e sempre, é só paciência, esperança, bondade e perdão.


Leia também
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Fotoparticipação: Andrea, do blog  http://meucantinhodeleituraeescrita.blogspot.com/
                               Valeu, Andrea, obrigado!

sábado, 3 de setembro de 2011

Big Ben? São João del-Rei tem! Também...


Austera e imponente fachada da Matriz do Pilar de São João del-Rei (foto do autor) 

Se Londres tem o Big Ben, São João del-Rei tem o relógio da torre esquerda da Matriz do Pilar, em cuja face fica o sino da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Para os são-joanenses, sem dúvida, o relógio da Matriz do Pilar é mais importante do que seu irmão inglês, instalado na Torre de St Stephen,  Palácio de Westminster.

O relógio da Matriz do Pilar é um dos símbolos visuais e sonoros mais fortes de São João del-Rei. Com seus ponteiros e batidas, ora no sino grande, ora no sino pequeno, dia e noite, de quinze em quinze minutos, lembra aos são-joanenses que todos vivemos, em cada minuto, toda a eternidade. Que a eternidade, assim como  Deus, sempre existiu e sempre existirá, mas o homem não. Que depois de morto, dele só restará a lembrança de seus atos, de seus feitos, de suas produções, de suas obras, numa recordação que construirá a memória de sua existência. Somente pela memória, depois de morto,  o homem  continuará - para sempre, por séculos, décadas ou apenas por poucos anos - no mundo dos vivos.

A diferença de idade entre os dois relógios também não é tão grande: enquanto o inglês foi instalado em 1859, o relógio da Matriz do Pilar de São João del-Rei veio da Holanda e subiu para a torre em 1905. Mas o que são 46 anos (menos de meio século!) quando se está falando em eternidade?

Sempre pontual e na hora certa, sem adiantar nem atrasar, o relógio da Matriz do Pilar não pára nunca. Apenas na Sexta-feira da Paixão, em tristeza e respeito pela morte do Senhor, ele marca as horas em silêncio. Abafado pela amargura, neste dia não anuncia - nem no sino grande, nem no sino pequeno - a passagem do tempo...

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/08/matriz-do-pilar-de-sao-joao-del-rei.html
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Fonte: ALVARENGA, Luís de Melo. Catedral Basília de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei. Gráfica Sociedade Propagadora Esdeva.1971.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Libertas São João del-Rei: Êxodus na noite desta sexta-feira!

Largo Tamandaré de São João del-Rei - imediações da Livraria Libertas


Quem hoje, no cair da noite, estiver em São João del-Rei, não deve perder: a partir das 18h30, até às 21 horas, estará acontecendo na Livraria Libertas o lançamento do livro Êxodus, da escritora Flávia Neves.

Será a primeira promoção desta simpática e singela livraria / biblioteca de bolso, situada no Largo Tamandaré, calçada esquerda, na metade do caminho de quem desce da Ponte do Rosário para o Museu Regional. Fica quase na esquina com o Beco da Romeira.

A Livraria Libertas tem um acervo pequeno, mas muito seleto. sobre Arte, Literatura, História, Direito, Humanidades e Afins. Há livros novos e usados, alguns para venda e outros para consulta no local. Tem também algumas obras sobre a história de São João del-Rei e DVDs sobre a arte e as manifestações culturais são-joanenses.

Que o lançamento de hoje impulsione e intensifique a atuação cultural da Livraria Libertas, para oferecer ainda mais opções aos são-joanenses ansiosos de uma programação que alie prazer, lazer, saber, informação e conhecimento. Sua presença e apoio são incentivos importantes para isso...

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Leia mais sobre a Livraria Libertas acessando
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/sao-joao-del-rei-tem-livraria.html

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Setembro. Desabrocha a primavera da religiosidade em São João del-Rei.

Jardim do Largo das Mercês de São João del-Rei (foto do autor)

Em São João del-Rei, setembro é um mês que deveria ter mais dias, tamanha a intensidade e a frequência  das festas religiosas realizadas na cidade. Isto mostra como é determinante a presença das seculares tradições católicas na formação e manutenção da cultura são-joanense e o importante papel que a religião desempenhou (e ainda desempenha) no dia a dia de São João del-Rei.

Logo no primeiro domingo, este ano dia 4, acontece a procissão de Nosso Senhor Bom Jesus dos Montes. Mal acaba e começam logo as celebrações em homenagem a Bom Jesus de Matosinhos, que duram dez dias e movimentam o bairro em cujas imediações aconteceu, em 1709, o sangrento combate da Guerra dos Emboabas. Na sequência, vem a Festa das Mercês - que também dura 10 dias -, seguida pela Festa de São Miguel. Mais curta, dura apenas quatro dias e é realizada há coisa de trezentos anos.

Mas em São João del-Rei as festas religiosas do mês de setembro não são apenas expressão de fé. Elas têm, também, significado social, no sentido de que, em torno da religiosidade, criam um universo no qual gravitam vários elementos do cotidiano. As festas religiosas, por exemplo, pontuam o calendário civil, auxiliando os são-joanenses na construção de uma cronologia pessoal. Também estabelecem um ambiente social de visibilidade - onde as pessoas mostram, vêem e são vistas - facilitando aproximações e relacionamentos e, por consequência, cooperação e solidariedade.

Incialmente a grande urbanização e industrialização e atualmente a virtualização, cada vez mais crescente nos dias atuais, de modo geral enfraqueceram o significado, o papel e a relevância das festas religiosas. Entretanto, em São João del-Rei elas resistem e se perpetuam - muitas vezes até se fortalecendo - pelo fato de que realmente fazem parte da vida das pessoas. É quando o passado, afetivamente, lhes visita e é realimentado.

Sobre temas afins, leia também
 http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/08/senhor-dos-montes-olhai-bondoso-para.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/em-sao-joao-viva-sao-sebastiao.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/07/sao-joao-del-rei-rende-gracas-ao-senhor.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/sao-joao-del-rei-em-festa-salve-o.html