quinta-feira, 31 de maio de 2012

Corpus Christi em São João del-Rei: São Jorge, muitas oitavas de ouro e o estandarte real


Antes mesmo que maio termine, São João del-Rei já vive os ares do magno dia de Corpus Christi. Pompa, brilho, poder, simbolismo, grandiosidade e devoção contornam a Serra do Lenheiro, atravessam seculares pontes de pedra, correm ruas pés-de-moleque, largos, becos e ladeiras. Desde sempre é assim.´Era assim que mandavam "as ordens de Sua Majestade Real".

Por se tratar da mais importante festa religiosa que nos séculos XVIII e XIX era realizada sob os auspícios da Câmara da Vila de São João del-Rei, sua preparação envolvia diversos atos oficiais, documentos públicos,  propinas e doações anuais,em muitas oitavas de ouro, como as doações de 1738 e 1747: 64 oitavas. Até a música a dois coros, executada durante o cortejo sacro, e as pessoas que carregavam "as varas do pálio, sob o qual ia a custódia sagrada" eram definidas pela Câmara.

Naqueles idos, pelo simbolismo e imponência de sua iconografia, ligados à força, luta, vitória, domínio e poder, São Jorge era figura obrigatória nas procissões são-joanenses de Corpus Christi. Nas primeiras décadas do século XVIII, ele vinha "vivo", personificado em um homem portentoso, vestido a caráter como guerreiro, com armadura, capacete, capa, lança, espada e escudo. Depois, foi substituído por uma imagem de madeira maciça, montada sobre um cavalo.

Segundo o pesquisador e historiador Sebastião Cintra, em 1821, "a Cãmara determinou ao escrivão que fornecesse ao alcaide os nomes dos juizes de oficíos - ferreiros, caldeireiros, latoeiros, ferradores. carpinteiros, pedreiros e serralheiros que, avisados com antecedência, deveriam aprontar o Estado de São Jorge para a procissão de Corpus Christi. Os mestres de ofício com loja aberta ornavam e vestiam com pompa e magnificência a imagem de São Jorge, que sairia na referida procissão."

 Pendão importante a puxar o cortejo, oficializando-o também como expressão do poder estatal, era o estandarte da Câmara, que foi renovado na procissão de 1823 - a primeira a se realizar depois do Grito do Ipiranga. Conforme Termo de Vereança daquele ano, "Acordaram concorrendo o corpo da Câmara à Igreja Matriz para acompanhar a Procissão de Corpus Christi, como é de obrigação conforme as Ordens, e tendo-se abandonado o antigo estandarte, e feito novamente o estandarte em que se acham impressas as insígnias e armas deste opulento e vasto Império do Brasil, foi pelo reverendo pároco solenemente bento este mesmo estandarte, e com ele pela primeira vez acompanhou a mesma Câmara a solene procissão em forma de estilo."

Em 2012, a data religiosa católica de Corpus Christi é mundialmente comemorada no dia 7 de junho. Em São João del-Rei, a procissão, acompanhada de música a dois coros, como nos tempos coloniais, e da banda, percorrerá o mesmo antigo trajeto de ruas enfeitadas por tapetes de flores. Nas sacadas e janelas dos casarões setecentistas, colchas rendadas oscilarão ao vento frio que anuncia o inverno. Por três vezes, parará diante das mais importantes igrejas barrocas do centro histórico. Nestas pausas, após a bênção sacerdotal e o canto do coro da Orquestra Ribeiro Bastos, a Theodoro de Faria executará com grande vigor o Hino Nacional Brasileiro, que finaliza com o toque entusiasmado dos sinos.

De uns tempos para cá, não sai mais o estandarte da Câmara, mas a bandeira do Brasil em destaque se projeta nas janelas das igrejas e nos altares. Sinal de que, em São João del-Rei, Corpus Christi é uma celebração barroca-religiosa-oficial-artística-militar-nativista-pública-e-nacionalista.

Veja, no vídeo abaixo, antigo registro da saída da procissão de Corpus Christi da Matriz do Pilar de São João del-Rei.



terça-feira, 29 de maio de 2012

Retrato saudoso de São João del-Rei





                          Aqui
                          em cada ponte
                          em cada esquina
                          em cada casa
                          tem uma cruz
                          (para espantar o demônio).


                          Em cada coração
                          tem um aperto
                          tem um peso
                          tem um pesar
                          tem um sopro.


                          E na cabeça
                          uma vontade danada
                          de já ter vivido
                          e morrido
                          no tempo do ouro.

sábado, 26 de maio de 2012

Mais uma morada para o Espírito Santo em São João del-Rei


A partir de amanhã, último domingo de maio, Dia de Pentecostes, São João del-Rei revela mais uma das riquezas histórico-culturais que a tornam uma cidade tão singular: a capela do Espírito Santo e o Memorial Natividade. Sua inauguração será às nove e meia da manhã, anunciada pelos sinos de todas as barrocas  igrejas do centro histórico. Tudo começará com um breve ofício religioso na Matriz do Pilar, de onde partirá uma procissão, com as chaves que abrirão para são-joanenses, turistas, visitantes e viajantes as portas desta nova arca do tesouro.

O novo espaço de arte, fé e memória fica no ponto mais alto das ladeiras da Muxinga, ao lado dos cemitérios do Rosário e da Matriz do Pilar. O edifício que o abriga, parte é de uma casa do século XVIII, parte é uma edificação recente, construída especialmente com esta finalidade.

A história da campela do Espírito Santo, - desde sua construção, em São Vicente de Minas, passando pelos saques que a depredaram, até a inauguração do Memorial Natividade - você pode conhecer em matéria publicada no jornal Estado de Minas e disponibilizada no link abaixo. No texto, do jornalista Gustavo Werneck, você conhecerá um pouco sobre a importância do pintor Joaquim José da Natividade (1775 -1840) na pintura sacra colonial mineira e sobre todos os esforços e sentimentos que resultaram na preservação deste rico patrimônio barroco.


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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Palmeiras imperiais, ipês amarelos, lembranças e saudades de São João del-Rei


Em São João del-Rei, valorosos são-joanenses têm saudades. Saudades de si mesmos. Saudades de um tempo que passou como as nuvens de algodão doce e brancas amêndoas de coco distribuídas nas procissões da infância, quando a vida preexistia à memória.

Na mesma São João del-Rei, além de si mesmos e do tempo, alguns são-joanenses têm saudades da paisagem. Território de geografias físicas e rios de lembranças, naturalmente perseguido pelo correr dos séculos e duramente castigado pelos homens, no seu moderno desamor e embrutecimento.

Sem as palmeiras imperiais, enfileiradas, que se projetavam por detrás do Solar dos Lustosas, imaginariamente na Muxinga, o Largo do Rosário é uma santa sem diadema de prata e estrelas. Com palmeiras acanhadas e de menor imponência, o Largo de São Francisco mostra-se um rei empobrecido, a perder coroa e majestade. Tristemente invejando tão inglório destino, o Largo da Cruz abre mão de suas palmeiras, para também agonizar seu esplendor.

Em outros pontos da cidade, andam sequestrando ipês amarelos na sonolência das manhãs, na solidão das tardes e na escuridão das noites. Já se teme pelos brancos jasmins, pelos vermelhos bicos de papagaio, pelos pintados manacás, pelas múltiplas buganvílias, florada cada vez mais tímida a espreitar sobre os muros.

Em São João del-Rei, os valorosos são-joanenses têm muitas lembranças. Dia a dia, algumas vão transformando em irremediavel saudade...



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Ilustração: Reprodução de foto de página solta de revista (de bordo?) lamentavelmente não identificada.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Jubileu do Divino Espírito Santo 2012 incendeia o coração flamejante de São João del-Rei



Imperador Perpétuo do Jubileu do Divino Espírito Santo - São João del-Rei*
 
É assim desde fins do século XVIII: por ocasião do tempo de Pentecostes, o espírito de Deus, na forma de pomba branca da qual irradiam raios luminosos, pousa sobre São João del-Rei e, por dez dias,  com suas poderosas línguas de fogo, ilumina a inteligência e incendeia o coração do povo do Campo das Vertentes.

Em especial o coração do povo de Matosinhos, pois é naquele movimentado e progressista bairro são-joanense - em cujas imediações dizem ter acontecido em 1709 a sangrenta e traiçoeira Guerra dos Emboabas - que, desde o dia 17 até o dia 27 deste mês, acontecem as celebrações do Jubileu do Divino Espírito Santo.

A origem da festa certamente é anterior a 1783, pois este foi o ano em que o Papa concedeu-lhe a importância de Jubileu, título só conferido pela Igreja, na época, a festas já tradicionais e de grande  representatividade junto à população.

Segundo o historiador e folclorista Ulisses Passarelli (2004), nos séculos XVIII e XIX romeiros se deslocavam de várias regiões para, devotamente, comparecerem à festa e, a partir de 1881, até a recém-inaugurada Maria Fumaça foi posta a este serviço. Consta que, "em 1917, rodaram para Matosinhos, na ocasião da festa, 42 trens por dia, perfazendo 11.000 passagens diárias."

Paralelamente à parte religiosa, que era o Jubileu propriamente dito, aconteciam muitas atrações, como bandas de música, bailados, corrida de touros, cavalhadas, dança-dos-velhos, dança-das-fitas, foguetório e toda sorte de divertimentos públicos.

Uma peculiaridade do Jubileu do Divino Espírito Santo de São João del-Rei é que além do imperador e imperatriz escolhidos a cada ano para contribuirem financeiramente para a realização da festa, foi instituída também a figura do Imperador Perpétuo. Era Santo Antônio, eleito pelos comerciantes, que faziam doações significativas, mas espontâneas. É possível que tal eleição se deva ao fato de que, em muitos anos, o Dia de Pentecostes cai em data próxima ao dia de Santo Antônio.

Imperador Perpétuo é cargo importante. Tanto que Santo Antônio vai carregado em liteira colonial, da igreja de São Francisco até a igreja de Bom Jesus de Matosinhos, precedido de um cortejo que tem à frente o Alferes da Bandeira - um cavaleiro imponente, montado em um cavalo garboso, empunhando o estandarte vermelho do Divino Espírito Santo.

Mas contra a vontade de todos - certamenite até de Santo Antônio e do próprio Espírito Santo - houve um tempo em que a realização do Jubileu foi proibida. Entendia a Igreja, no caso representada pelo bispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes de Oliveira, que as jogatinas de roleta e jaburu, que se instalavam nas imediações do Largo de Matosinhos, maculavam a festa sagrada.

Como proibiram a festa mas deixaram os jogos e demoliram o "artístico e monumental" Pavilhão de Matosinhos, a inteligência e alíngua do povo, inspiradas pelas línguas de fogo do Espírito Santo, perceberam que tal medida teve segundas intenções, ou seja, promover e valorizar o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo. Entretanto, lá aconteciam abertamente as mesmas coisas que ao bispo pareciam condenáveis em São João del-Rei.

Ficou assim por 74 anos. Mas  o mundo dá muitas voltas e muita água do Rio das Mortes, veia aorta do coração de Matosinhos, passou debaixo da ponte. Assim, em 1998, novamente o Espírito de Deus, na forma de uma pomba branca, irradiando raios refulgentes de entusiasmo, sabedoria, inteligência e linguas de fogo voltou a pousar sobre São João del-Rei. Especialmente sobre as cabeças do padre José Raimundo da Costa e do escultor sacro Osni Paiva, inspirando-os no sonho de resgatar a antiga tradição. Para isso, eles
 arrebataram outros interessados e desde então, cada ano com mais brilho, o Jubileu do Divino Espírito Santo novamente enriquece o calendário religioso e cultural de São João del-Rei.

Mas isto já é assunto para outro dia, para outro post neste almanaque eletrônico.

* Foto: Reprodução de  http://www.santuariodematosinhos.com.br/

domingo, 20 de maio de 2012

Sem mais palavras: boa semana, São João del-Rei!




Em São João del-Rei, quando as tardes de maio vespertinamente se despedem, uma a uma, cobrindo o firmamento são-joanense com manto de azul cetim, bordado de estrelas de prata e diamantes, é sinal de que anoitece.

Mês de Maria, nos domingos, os sinos serafins, querubinicamente repicam. Ângelus então se espalham pela atmosfera, alegres e ruidosos cambalhoteiam pelas curvas dos telhados de rendilhadas beiras-seveiras, refulgem e se dissipam no brilho dos lampiões coloniais, como a dizer: Boa semana, São João del-Rei!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O samba - astro brilhante - ilumina e esquenta a noite amena de São João del-Rei

Fachada da igreja do Carmo, vista do Solar da Baronesa. 2012. Foto do autor.
São João del-Rei, terra onde os sinos falam - e também tocam "batucada" e "batucadinha" -, é também terra do Samba. Por isso, a partir das 20 horas de amanhã, no Largo do Carmo, vários sambas cariocas e são-joanenses se encontrarão para saudar Cartola e Jota D'Angelo, Paulinho da Viola e Pistilim, João Nogueira e Agostinho França, Noel Rosa e Chacal, Paulo César Pinheiro, Zé Keti e muitos outros mestres d'aquém e d'além  Serra do Lenheiro. É o projeto cultural Samba na Praça.

As apresentações serão mensais e durante as rodas de samba o Largo do Carmo - tradicional território do samba são-joanense - será dotado de mais conforto e segurança, como merecem são-joanenses e turistas. Quem sabe do projeto Samba na Praça não nasçam outras iniciativas que tornem ainda mais rico, divertido e interessante o carnaval de São João del-Rei? Saudemos a iniciativa! Brindemos e apoiemos os idealizadores e realizadores. Confiemos em seus resultados...

"Viva o samba, queremos samba, quem está pedindo é a voz do povo do país!
Viva o samba, queremos samba, esta é a melodia de um Brasil feliz..."


Siga a página do projeto no Facebook: www.facebook.com/sambanapracasjdr

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Chico Brugudum - Patrimônio popular de São João del-Rei


Por mais que o tempo passe, enfraquecendo sem dó a lembrança dos que são bem-vividos, os são-joanenses octogenários não se esquecem deste apelido nem de seu dono: Chico Brugudum.

No dia a dia pintor de paredes, Francisco das Chagas foi um dos tipos populares mais pitorescos, alegres e presentes nos acontecimentos coletivos realizados em São João del-Rei nas décadas de 1930 e 1940. No carnaval, por exemplo, Chico Brugudum era figura certa no Bloco Zero. Nos Sábados da Aleluia, comandava e animava todas as queimas de Judas.

Como os embaixadores da alegria, da espontaneidade e da irreverência também partem para o outro mundo, Francisco das Chagas, Chico Brugudum, morreu a 17 de maio de 1946. Certamente mistura-se aos ossos de outros são-joanenses iguais, em um democrático ossuário geral de algum cemitério da cidade.

Se você tiver oportunidade de, conversando com amigos e parentes idosos, saber mais sobre Chico Brugudum (e quem sabe até conseguir fotos dele!), não perca esta chance. E se quiser partilhar suas descobertas com este almanaque eletrônico, para publicação, a memória popular de São João del-Rei muito agradecerá...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Em São João del-Rei, anjos barrocos brincam de roda com seu criador: Aniceto de Souza Lopes


Há quase duzentos anos, ou melhor, há exatamente 198 anos, no dia 15 de maio, São João del-Rei perdia um de seus mais importantes artistas: o arquiteto, construtor e escultor Aniceto de Souza Lopes.

Seu nome não é lá conhecido pela maioria da população são-joanense, mas os monumentos que tiveram seu toque de mestre, muito pelo contrário, não há quem não se encante e não se orgulhe deles - as igrejas de São Francisco e de Nossa Senhora do Carmo e o pelourinho, hoje no Largo das Mercês.

Aniceto de Souza Lopes era alferes. Na igreja de São Francisco, atribui-se ao seu talento partes da escultura da magnífica fachada, como o relevo do frontão, esculpido em 1809, e a composição da qual fazem parte o Cristo Seráfico e São Francisco ajoelhado, recebendo os estigmas no Monte Alverne. Na igreja do Carmo, muitas são as obras de sua genialidade.

Já o pelourinho, esculpido em 1812, está completando este ano dois séculos. A coluna com duas bacias, sobre três degraus, que conhecemos hoje quase em frente ao Passinho da Paixão no Largo das Mercês, aliás, é apenas um fragmento do que era no tempo colonial. Originalmente, descrevem os historiadores, tinha em seu coruchéu uma escultura da deusa grega Astréa, voltada para o oriente. Na mão direita empunhava uma espada e da esquerda pendia uma balança, oscilante e sempre em desequilíbrio pela pretensão de pesar o movimento dos ventos e a gravidade do ar parado.

O pelourinho de São João del-Rei é um dos únicos cinco que sobreviveram no Brasil à abolição da escravatura, pois a esmagadora maioria foi destruída por ação e influência dos abolucionistas, imediatamente após a assinatura da Lei Áurea. É possível que tenha sido neste afã que a deusa Astréa foi derrubada do píncaro, o que danificou sua cabeça, braços e adereços. O corpo da bela escultura felizmente ainda existe, sob a guarda, dizem, do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei.

Modesta homenagem a tão qualificado e extraordinário artista, um jardim lateral da igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei, com um pequeno marco de bronze, chama o nome Aniceto de Souza Lopes. Há quem sonhe até que, em certas noites de frio e neblina, anjos barrocos brincam de roda com o alferes Aniceto, entre as hortências, manacás, quaresmeiras e ipês que florescem ali. Os sinos de São Francisco, nos domingos, pela manhã, também contam esta estória...

terça-feira, 15 de maio de 2012

O ouro branco e líquido de São João del-Rei

Rua da Cachaça ou Rua da Alegria. S.J. Del-Rei. 2011.Foto do autor
Quase tão procurada quanto o ouro, a cachaça era um produto muito valorizado nos primeiros anos da Vila de São João del-Rei. Pelos vários poderes da canjibrina, a branquinha servia para tudo - da alegria à medicina popular - e sua fabricação e comércio eram tão expressivos que requeriam regulamentação própria.

Tanto que, no dia 15 de maio de 1719, o contratador João da Silva Costa arrematou, por 760 oitavas de ouro, o contrato das aguardentes de cana. Com isso "as pessoas que venderem aguardentes da terra com licença deste contratador não serão obrigadas a tirar licença deste Senado" esclarecia o Edital do Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei, publicado naquela data.

Memorial imaginário na geografia urbana da cidade, a Rua da Cachaça é clara homenagem a este produto tão típico de nosso país. O nome, dizem alguns, compete com Rua da Alegria, numa alusão à zona de prostituição que ali existiu durante muitas décadas. Mas há registro de que, muito antes disso, a rua já tinha lá cama e fama. Consta até que um taberneiro, ali instalado, foi envolvido e interrogado nos Autos da Inconfidência Mineira, por ter recebido certa noite, em seu estabelecimento, o heroi Tiradentes que, aproveitando a plateia, fez inflamado discurso libertário propagando os ideais do movimento inconfidente. Libertas Quae Sera Tamen...

Agora sabendo disto tudo, quando num buteco pé-sujo, antes do primeiro gole, em silêncio você jogar um pouquinho pro santo, peça a ele por nossa História...

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Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/em-sao-joao-del-rei-nao-se-duvida.html

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cem anos antes que a ONU, São João del-Rei cantou solenemente o fim da escravidão

Largo do Rosário, Padre José Maria Xavier. S.J. Del-Rei . 2011 . Foto do Autor

A música. Sempre a música a marcar com grandeza e dignidade o ritmo em que bate no peito o coração do povo de São João del-Rei. Sendo assim, foi com música, da melhor qualidade, que os são-joanenses comemoraram o primeiro aniversário da libertação dos negros cativos.

Era 13 de maio de 1889. Na igreja do Rosário dos  Pretos, luminosos festejos. No largo em sua frente, a Orquestra Ribeiro Bastos apresentou um concerto solene, em que a música de notas coloridas e alegres ecoou liberdade por todos os cantos. Há um ano estava extinta a escravidão no Brasil. E também revogadas as disposições em contrário...

123 anos depois, a iniciativa se repete. Não mais no Largo do Rosário nem em São João del-Rei, mas em Nova Iorque e na sede das Nações Unidas. Ali, na noite do dia 15 de maio de 2012 acontece o concerto Honrar os Herois, Resistentes e Sobreviventes, em memória das vítimas da escravidão, em todas as formas e de todos os tempos, e do comércio transatlântico de escravos.

Há mais de cem anos, a Irmandade do Rosário são-joanense saiu na frente da ONU e a Orquestra Ribeiro Bastos se antecipou, abrindo o caminho para artistas norte-americanos, senegaleses, jamaicanos e haitianos que este ano, pela mesma causa, se apresentam em Nova Iorque. Pena que em São João del-Rei concerto tão importante quanto aquele de 1889 - e por um motivo tão nobre - não esteja mais sendo realizado. Quem sabe a partir de 13 de maio do ano que vem?

sexta-feira, 11 de maio de 2012

13 de maio – Palácio Real da Nobre Nação Benguela. Onde? Em São João del-Rei...


De um modo geral, pouco se conhece - com mais rigor e profundidade - da história dos negros em São João del-Rei. Contudo, alguns estudos mostram que, em fins do século XVIII e por quase todo o século XIX, algumas comunidades negras eram institucionalmente organizadas nesta vila, com a finalidade, inclusive, de preservar a cultura original e fortalecer a indentidade daqueles grupos, bem como prestar assistência e auxílio aos negros mais desamparados.

Foi neste contexto que surgiu a "Nobre Nação Benguela" de São João del-Rei, vinculada à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, com funções que incluíam patrocinar a celebração de missas em favor dos membros falecidos. Entretanto esta prática católica, para os africanos, tinha o sentido de culto aos ancestrais, visando principalmente proteção, união e prosperidade.

A "Nobre Nação Benguela" tinha até um "Palácio Real", formado por um conjunto de casas compradas para este fim em 30 de novembro de 1803 por dois pretos forros, com dinheiro arrecadado por meio de doações e esmolas. O palácio, para os negros, era como uma embaixada, território delimitado onde se preservava a cultura africana, rica de festas, tradições culturais e práticas que não eram bem vistas pelo poder de então. Era lugar de abastecimento cultural e a denominação 'palácio' buscava demonstrar poder, prestígio, nobreza, respeitabilidade, assim como garantir sua utilização com fins políticos e religiosos.

Os Benguelas de São João del-Rei: tráfico atlântico, religiosidade e identidades étnicas (séculos XVIII e XIX) é uma interessante produção acadêmica sobre este asunto, estudado por Sílvia Bugger e Anderson de Oliveira e publicado em janeiro de 2009 na revista Tempo, do Departamento de História da UFF.

Aproveitando o ensejo do dia 13 de maio e buscando conhecer a história dos negros em São João del-Rei, que tal saber mais sobre o Nobre Palácio Real da Nação Benguela?

Basta acessar http://www.thefreelibrary.com/Os+Benguelas+de+Sao+Joao+del+Rei%3A+trafico+atlantico,+religiosidade+e...-a0207745043 e boa leitura!...

Enquanto você não lê, ouça Thalma de Freitas e Mateus Aleluia cantando Cordeiro de Nanã




terça-feira, 8 de maio de 2012

Artistas, artífices e artesãos do século XVIII visitam São João del-Rei no século XXI



Em São João del-Rei, a arte brota da terra, desce do céu, barrocamente, no contorcimento de folhas de parreira, de figo e acanto, abraçados a flores, frutos, conchas, pássaros, anjos, arcanjos, querubins e serafins... Espelha, assim, a concepção mítico-religiosa do Paraíso, imaginariamente perdido pela humanidade mal o mundo havia sido criado. Tudo porque Adão e Eva, seduzidos pela serpente, comeram o fruto proibido do conhecimento, cometendo assim, pela primeira vez, o pecado original.

Isto é o que constatará quem visitar a exposição Mestres, artífices, oficiais e aprendizes - a escultura e a talha nos séculos XVIII e XIX, que estará aberta ao público a partir da próxima sexta-feira, dia 11 de maio, no Museu Regional, que fica no Largo Tamandaré, na margem do Córrego do Lenheiro, entre as bicentenárias pontes da Cadeia e do Rosário.

Composta por obras pertencentes ao acervo do Museu Regional de São João del-Rei - IPHAN, a exposição traz a público retábulos, colunas, volutas, pilastras, mobiliário e outras peças, esculpidas e entalhadas há quase trezentos anos, magistralmente douradas com folhas de ouro puro.

São exemplos da arte barroca e rococó, produzida pelo talento de artistas nativos setecentistas e oitocentistas que deram cor brasileira, tropical, à linguagem artística erudita européia. Pura antropofagia cultural ainda no tempo do Brasil Colônia...

A exposição pode ser visitada diariamente, das 9 às 18 horas, com entrada franca, na sede do Museu Regional. Não perca!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Conspiração Gastronômica em São João del-Rei

Largo das Mercês, Pelourinho e Passo da Paixão. SJDel-Rei. Foto do Autor


Autêntica de origem, genuína de alma, voluptosa nos ingredientes, barroca no tempero, delicada e sublime no preparo. A cozinha mineira de São João del-Rei é singular, como tudo o que é próprio da cidade.

Tutu de feijão preto, decorado com molho de tomate e cebola, linguiça fritinha enrolada em espiral, flores de ovos e folhas de salsa. Para acompanhar? Arroz branquinho e seco, couve bem fina, picada e repicada a mão, lombo suíno assado ou de panela, salada simples, de alface, tomate e limão. Frango a molho pardo ou com quiabo, diante de angu de fubá moinho d'água, macio e cremoso, mexido na hora. Vaca atolada de costela bovina e mandioca; canjiquinha de milho amarelo com costelinha de porco, maneco com jaleco, maneco sem jaleco, bambá de couve e abóbora vermelha, chouriço de sangue de porco com salsinha e pimenta, moela ao molho vermelho, torresmo, chuchu picadinho, abobrinha batida, mugango, mostarda, taioba, erva fresca, chicória, molho de ovos, farofa de salsa, gembê de mamão verde. Arroz doce, doce de leite, doce de abóbora, doce de mamão, doce de batata doce, doce de figo - em calda e cristalizado -, doce de cidra, de laranja da terra, de marmelo, goiabada cascão, pirulito de mel. Broa de milho, broinha de queijo, pão de queijo, quebra-quebra, pão estrela de coco, pão com queijo, açúcar e canela, brevidade, pé de moleque, cocada, amêndoa doce de amendoim e de coco. Queijo catiara, queijo minas, queijo prato, queijo gouda, queijo curado, queijo parmesão, queijo provolone, queijo mussarela, queijo cobocó, queijo gorgonzola. Licor de figo, licor de jabuticaba, licor capim-gordura. E a depravada branquinha. Para escrever a primeira letra dos pratos que compõem o cardápio de São João del-Rei precisa-se de muitos alfabetos.

Nas grandes cidades e naquelas de maior visibilidade turística, a culinária fake, espetacularizada, está em toda parte e custa tão ou mais caro do que do aqui custava no tempo da descoberta do ouro, quando Minas vivia a mais absoluta escassez de alimentos. Como encontrar tudo o que é autêntico, genuíno, voluptuoso, barroco e sublime não é tarefa fácil, também em São João del-Rei é preciso garimpar e faiscar - além das primeiras esquinas - para merecer localizar estes preciosos tesouros de paladar esplêndido e tão raro sabor.

Estão, quase todos, nas cozinhas das casas mais simples. Também nos botecos furtivos e nos restaurantes modestos que, desconfiadamente, se esquivam dos grandes monumentos de pedra e ouro semeados pelos mestres Aleijadinho e Francisco de Lima Cerqueira. Com certeza, são brasa dormida e chama flamejante na lembrança e na memória dos verdadeiros são-joanenses.

Dizem que São João del-Rei vai fazer parte do projeto Conspiração Gastronômica. Tomara que aconteça, pois sendo assim todos muito irão ganhar. Principalmente a divulgação da verdadeira cozinha mineira...

Para saber mais sobre este assunto, acesse
 http://bdm.bce.unb.br/bitstream/10483/994/1/2009_AntonioEmilioCosta.pdf

quinta-feira, 3 de maio de 2012

São João del-Rei no Dia de Santa Cruz

Três de Maio, Dia de Santa Cruz. Nos dias atuais, a tradição de pendurar, nesta data, cruzes enfeitadas de papel colorido repicado e flores na porta principal das casas do centro histórico de São João del-Rei aos poucos vai se apagando. Em alguns becos escondidos e nos bairros mais afastados, assim como na área rural, isso não só ainda acontece quanto faz parte - autenticamente - do calendário cultural daquela comunidade.

O desbotamento desta tradição seria apenas mais um sinal da modernidade, não representasse esse esvaecimento sinal de  grandes perdas. Perda da disposição de tornar especial o que é comum. Perda da vontade de assinalar a passagem do tempo com marcos pequenos porém significativos. Perda da capacidade ver em tudo motivo de festa. Perda da oportunidade de tornar célebre o que é rotina. Perda do entusiasmo que colore o dia a dia.

Pela religiosidade que caracteriza esta forma cultural de expressão, a Igreja bem  poderia estimular e apoiar seu resgate. Do mesmo modo, as entidades e instituições culturais ligadas ao fazer artesanal, às artes plásticas e outras linguagens visuais bem poderiam promover oficinas práticas, palestras e outros eventos de valorização do Dia de Santa Cruz.

Pensando nisto, Tencões & terentenas relembra, nos links abaixo, alguns posts que trataram deste assunto em 2011.

http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/05/dia-de-santa-cruz-pode-ter-mais-cor-em.html

http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/05/no-dia-de-santa-cruz-as-cruzes-de-sao.html


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Quilombos e neoquilombos de São João del-Rei


Quem hoje vivencia, conhece ou assiste a "afro.moreni.mineiridade" são-joanense não imagina que foi na Comarca do Rio das Mortes - cuja sede era a Vila de São João del-Rei - que na primeira metade do século XVIII surgiram e se fortaleceram dois dos maiores quilombos mineiros: o Quilombo do Ambrósio e o Quilombo Grande.

Precursor do Quilombo Grande, o Quilombo do Ambrósio chegou a ter uma população de 1.000 negros. Era um sistema comunitário, onde os quilombolas se distribuíam em grupos organizados para desempenhar diferentes funções importantes para a sobrevivência da comunidade. Os excursionistas ou exploradores assaltavam fazendas e caravanas; os campeiros e criadores criavam gado, os caçadores buscavam animais e carne nas matas e os agricultores plantavam, cuidavam das roças e produziam açúcar e farinha. Mas também destilavam aguardente, de tão boa qualidade que inspirou um ditado popular ainda hoje muito conhecido em São João del-Rei: "cachaça do quilombo é um gole e um tombo". Os alimentos, estocados em paiois, eram distribuídos igualmente entre todos, segundo a necessidade de cada um.

O Quilombo do Ambrósio era tão ameaçador para o governo da capitania que em 1746 o governador Gomes Freire de Andrada destinou 2.750 oitavas de ouro para formar uma expedição, comandada pelo capitão Antonio João de Oliveira. Sua missão era destroçar o quilombo sem matança de escravos (mercadoria valiosa), mas como a tropa encontrou forte resistência, usou armas de fogo e até granada, destruindo e incendiando tudo.  Foi imensa a mortandade.

Os  sobreviventes criaram no mesmo local um novo quilombo que, funcionando igual ao do Ambrósio, cresceu tanto que ficou conhecido como Quilombo Grande. Em 1756, isso já preocupava o governo que, após três anos de cuidadosa preparação e um volume fabuloso de recursos (dez quilos de ouro), arrecadados junto às câmaras de várias vilas, confiou a expedição exterminadora  a Bartolomeu Bueno. Homem temido e sem escrúpulos, descendente direto do cruel Anhanguera.

Descobrindo esse plano, os quilombolas tentaram se livrar do ataque se dispersando por quilombos menores. Isto tornou mais difícil e demorado o trabalho da tropa. A perseguição durou todo o ano de 1759, mas como desejavam os governantes, desta vez a destruição foi total.


Neoquilombos de São João del-Rei

Duzentos e sessenta e seis anos após a destruição do Quilombo do Ambrósio, sua lembrança, insconscientemente, continua sendo cultuada em São João del-Rei. Talvez até não seja exagero dizer que ali, modernos quilombos culturais estão sempre a se formar.Tanto que no próximo dia 5 - deste mês em que se rememora a assinatura da Lei Áurea - acontece na cidade uma celebração em homenagem aos pretos velhos.


Promovido pela sociedade Egbe Ile Omidewa Ase Igbolayo e pela Associação Afrobrasileira Casa do Tesouro, trata-se de evento respeitável, dignamente divulgado na Agenda Cultural em pé de igualdade com outros acontecimentos absolutamente diversos, entre eles a Sinfonia dos Sinos, o Festival Palco Itália e o Programa de Música Barroca. Sinal de que a luta dos quilombolas não foi em vão.


Mais informações sobre a Celebração / Homenagem aos Pretos Velhos podem ser obtidas pelos telefones (32) 3373-1619 e (32) 8809-6167.

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http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/05/13-de-maio-sao-joao-del-rei-teve.html
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Fonte: VERGUEIRO, Laura. Opulência e miséria das Minas Gerais. Editora Brasiliense. São Paulo. 1982