quinta-feira, 27 de setembro de 2012

As boas coisas de São João del-Rei: Boutique das Ervas, natureza do mundo em cenário barroco


No mundo todo, dizem que os menores frascos guardam os melhores perfumes e os piores venenos. Em São João del-Rei não é diferente. Em uma movimentada encruzilhada do centro histórico, uma pequenina loja de artigos naturais tem temperos, chás, condimentos e especiarias do mundo inteiro: cravo da Índia, canela em grandes cascas e lascas, guaraná em pó, ginseng, anis estrelado, açafrão, curry, colorau, pimentas, hibisco, hortelã, erva doce, tâmara, damasco, castanha,  banana seca, mel da terra, pimenta do reino, sal grosso, sal marinho, tomate seco, salsa desidratada, sementes alimentícias e grãos secos os mais variados. É a Boutique das Ervas.

Quem entra lá pela primeira vez, tem a impressão de estar em um mercadinho persa. Em um entreposto do Oriente que tem alimentos secos, condimentos  e chás de todos os continentes. Um microarmazém da nova Companhia das Índias,  contemporânea entre o velho e o novo da trissecular cidade de El-Rei.

Na espontânea ordem (ou apertada desordem) de seus produtos, a Boutique das Ervas é uma poesia olfativa e visual. A displicente mistura dos aromas, somada à opulenta profusão de cores e à naturalidade seca, austera e generosa dos produtos, dispostos em prateleiras ou em grandes sacos de papel pardo, remetem aos armazéns misteriosos de antigamente, que as crianças procuravam desvendar na antiga infância.

Quase vizinha da Livraria Sebo Ponto Literário, a Boutique das Ervas, além de produtos para o corpo e para o paladar, tem também um alimento para a alma. È a visão de um azul e branco sobradão colonial, sobre o qual salta rumo ao céu a portentosa fachada da igreja do Carmo, com suas torres geometricamente angulosas, de sinos vermelhos e grimpas imponentes que vigiam os ventos, com seus galos e águias.

Um som? Cravo e canela!



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Festa das Mercês: há cem anos, a obrigação brigou com a devoção em São João del-Rei


Mais uma vez São João del-Rei está em festa. Apesar de ser uma segunda-feira útil, a cidade hoje foi acordada por uma alvorada festiva, tocada pela banda de música municipal, e já às 6 horas da manhã o sino da igreja que fica no ponto mais alto do centro histórico são-joanense tocava entusiasmado para anunciar que hoje é dia de Nossa Senhora das Mercês.

Daí então, muitas vezes de hora em hora, naquele alto se celebrou e concelebrou muitas missas, algumas comuns outras solenes, algumas com música barroca executada pela Orquestra Lira Sanjoanense (vídeo abaixo), outras com a participação do Coral dos Coroinhas de Dom Bosco e teve aquelas em que só se ouviu a voz do padre, as orações dos fieis e a voz em melodia do povo do lugar. A todas, Nossa Senhora das Mercês agradeceu, com as flores de sua grinalda, alvas e perfumadas de jasmin e laranjeira, e com os cravos brancoimaculados do farto e generoso buquê de graças que ela carrega na mão direita.

Logo depois que o sol caiu atrás da igrejinha e foi dormir do outro lado da Serra do Lenheiro, Nossa Senhora das Mercês desceu sua alta escadaria e em comprida procissão cruzou largos, cortou becos, atravessou pontes, percorreu ruas, subiu ladeiras, acompanhada por bandas de música e de tempos em tempos saudada pelo estourar de foguetes, pelo tocar de treze sinos de seis igrejas, por chuvas de pétalas que caíam das sacadas dos sobradões coloniais e pelo universo de estrelas dos fogos de artifício.

Tanta homenagem, ela merece: nunca negou conforto sobre-humano aos são-joanenses e, tal qual  sentinela bíblica, vigiou do alto de sua colina os filhos da terra que partiram para a Itália, a combater nos campos da Segunda Guerra Mundial. Finda o combate, foi à rua receber os soldados que voltaram, mas não se esqueceu dos que, tombados por canhões e metralhadoras, adormeceram para sempre nas distantes montanhas de solidão e neve. Por isto, também o Exército ostensivamente guarnece o andor da mãe - proteção e consolo.

Ainda hoje é assim a procissão de Nossa Senhora das Mercês. Fé, pompa, piedade, gratidão, glória, acontecimento, abundância, alegria, felicidade, harmonia. É sonho de Nossa Senhora e dos são-joanenses que seja assim "per secula seculorum"!

Mas não foi exatamente isso o que se viu na procissão das Mercês há pouco mais de um século. No ano de 1913, uma situação conflitante fez com que monsenhor Gustavo Coelho, pároco da Matriz do Pilar, conduzisse a procissão até um determinado ponto e, atipicamente, dali seguisse sob o pálio, com a resplandecente custódia dourada na mão e ladeado de acólitos, diretamente para a igreja das Mercês. Com isso, expressava sua autoridade e protesto aos mesários da Confraria das Mercês que já há alguns anos insistiam em  transgredir o itinerário estabelecido pela Matriz, voltando com a procissão para o Largo do Carmo.

Como era de se esperar, o fato teve ruidosa repercussão e monsenhor Gustavo, a convite da imprensa local, dois dias depois do ocorrido, se explicou publicamente nos jornais da época. Em sua defesa, ele declarou:

"Este vigário não pode fazer o que fez meu antecessor,
vigário Luiz José Dias Custódio que, em igual conflito,
munido de uma arma de fogo e da força da polícia
às suas ordens, fez valer o direito".

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/seria-hoje-em-sao-joao-del-rei-um.html

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte. 1982.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Livraria Libreto: a nova casa das letras em São João del-Rei


Na data oficial de sua chegada, a primavera brindará São João del-Rei com um novo espaço de cultura, lazer e saber. Mais precisamente com uma casa das letras, das palavras, ilustrações e fotografias. É a nova livraria da cidade - Livraria Libreto - instalada em um espaço privilegiado e pitoresco do centro histórico: atrás da igreja do Rosário.

A inauguração será na tarde do sábado, 22, às 16 horas, e promete ser um animado e espontâneo evento cultural. Realizada sob o céu aberto de São João del-Rei, terá um palco para apresentações artísticas, poéticas, literárias e performáticas da plateia. Se você puder, não perca!

Se não der para ir à inaguração, que tal achar logo um tempinho em sua agenda para conhecer a nova morada do saber em São João del-Rei?

Primavera de música e cultura no Museu Regional de São João del-Rei

Em São João del-Rei, a primavera vai chegar mais cedo. Além de flores, vai trazer também muita música, para valorizar ainda mais a rica sonoridade e a musicalidade da 'cidade onde os sinos falam'.

Isto porque o Museu Regional / IBRAM inaugura, no próximo dia 20, às 20h, a exposição A Música, o Museu e a Cidade. Antes, às 19h, recital no setecentista órgão de tubos, com o organista ítalo-brasileiro Marco Brescia. Estes eventos integram a progamação nacional do Ministério da Cultura, Primavera nos Museus.

A exposição se propõe a mostrar, por meio de partituras, instrumentos, fotografias, documentos e histórias de vida dos grandes músicos são-joanenses, das bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos e da centenária Banda de Música Theodoro de Faria, a riqueza artística daquela que é conhecida como  'Terra da Música', São João del-Rei.

Estes eventos são gratuitos e acontecerão na sede do Museu Regional de São João del-Rei, situada em belo casarão no Largo Tamandaré.

Veja, abaixo, Marco Brescia ao piano, executando Valsa da Dor, de Heitor Villa-Lobos.



Felit 2012. Em São João del-Rei, a literatura faz parte da vida. E também da morte...


Em mais um setembro São João del-Rei realizará, este ano nos dias 27, 28 e 29, o seu Festival Literário -Felit 2012. Letras, livros, versos, poemas, escrituras, sílabas, rimas, rítmos, estrofes, palavras.

Palavras? As palavras só dizem aquilo que já se sabe. Algo mais ou menos assim, me lembro, escreveu em um poema Adélia Prado.

Adélia Prado? Isto mesmo. A grande escritora brasileira, que nasceu em Divinópolis e foi universalizada pela poesia, será a homenageada da Felit 2012, que terá a graça de sua presença. Palestras, encenações, cortejos, café literário - tudo versará sobre a obra de Adélia, inclusive gastronomia.

E por falar em gastronomia, a cozinha de Minas, como tema central ou como elemento de um cenário, está presente em vários poemas do livro Poesia Reunida, lançado em 1991 pela Editora Siciliano. Com sabor de lembrança, de infância e do nunca mais, quase pode ser comida em muitos versos. Este livro, inclusive, foi um dos principais orientadores do argumento cozinha mineira: identidade, memória e territorialidade, apresentado e refletido na monografia Nem só de pão (de queijo) vive o homem, produzida por este autor em 2009 e que pode ser acessada em http://bdm.bce.unb.br/bitstream/10483/994/1/2009_AntonioEmilioCosta.pdf


Peço licença a Adélia Prado e reproduzo abaixo um poema que dedico a meu pai, Geraldo Sebastião da Costa, no Cemitério do Carmo, saudade e memória. Chama-se Leitura.

                    Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
                    As macieiras tinham maçãs temporãs,
                    a casca vermelha de escuríssimo vinho,
                    o gosto caprichado das coisas
                    fora do seu tempo desejadas.
                    Ao longo do muro eram talhas de barro.
                    Eu comia maçãs, bebia a melhor água,
                    sabendo que lá fora o mundo havia parado de calor.

                    Depois encontrei meu pai que me fez festa
                    e não estava doente e nem tinha morrido,
                    por isso ria, os lábios de novo
                    e a cara circulados de sangue,
                    caçava o que fazer para gastar sua alegria:
                    onde está meu formão, minha vara de pescar,
                    cadê minha binga, meu vidro de café?

                     Eu sempre sonho que uma coisa gera,
                     nunca nada está morto.
                     O que parece sem vida, aduba.
                     O que parece estático, espera.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Setembro floresce fé, festa, fogos e flores em São João del-Rei


O calendário das festas religiosas de São João del-Rei seguramente é o mais vasto, diversificado e intenso do Brasil. Começou a ser construído em 1703, quando no vale da Serra do Lenheiro chegaram os primeiros bandeirantes e forasteiros, trazendo como padroeira uma imagem primitiva de Nossa Senhora do Pilar. Se sofisticou e singularizou ao longo dos séculos XVIII e XIX, perpetuando-se nos séculos XX e XXI.

Neste calendário, setembro é um mês que se destaca. Somente em novenas e tríduos, somam-se 30 dias, e a eles se somam 5 tradicionais procissões: Senhor dos Montes, Bom Jesus de Matosinhos, Nossa Senhora das Mercês, São Miguel Arcanjo e Anjos Custódios.

A de Bom Jesus de Matosinhos (foto), por exemplo, acontece no dia 14, quando também se celebra a Exaltação da Santa Cruz. Sem dúvida, é realizada desde a segunda metade dos anos setecentos e tem o status de Jubileu. Outra peculiaridade é que acontece em um bairro comercialmente muito movimentado e distante do centro histórico. Dura doze dias e, seguindo a feição do Bairro de Matosinhos, tem características mais urbanas, bem diferentes daquelas tradicionais que acontecem na área colonial ou adjacente.

A igreja original de Bom Jesus de Matosinhos, de feição setecentista, foi deliberadamente demolida no começo da década de 70 e de seus adornos ninguém sabe. A não ser a artística portada de pedra sabão, que foi vendida para um afortunado paulista. Mas após incansável luta do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, com a morte do comprador, segundo o multiqualificado são-joanense Jota Dangelo, em sua coluna semanal Pelas Esquinas, publicada na Gazeta de São João del-Rei, os herdeiros concordaram em devolver a São João del-Rei aquela joia barroca.

O templo que substituiu a igreja demolida é um edifício moderno, "diferente", e generosamente pode ser classificado como, no mínimo, "cubista". Em sua fachada não há cabimento estético que justifique deixar ali a preciosa portada. Certamente o povo de São João del-Rei, a Igreja local e os órgãos de preservação, em consenso, encontrarão a alternativa ideal para que aquele pórtico integre algum acervo e fique permanentemente em exposição, inclusive como alerta para prejuízos irremediáveis que a insensibilidade e a ignorância podem causar ao bem público, no caso ao patrimônio cultural brasileiro.

Que Bom Jesus de Matosinhos ajude e que a sociedade são-joanense, na questão capitaneada pelos três setores citados, se una, se comprometa e se mobilize, com seriedade e competência, para que a portada volte logo para São João del-Rei e aqui receba a destinação e o cuidado que merece.

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Foto: reprodução de cartaz publicado site da Diocese de São João del-Rei

Nhá Chica. Refulgente estrela do Rio das Mortes. Doce candura de São João del-Rei

Não é todo verdade o dito popular de que o brasileiro deixa tudo para a última hora. Pelo menos em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, ou simplesmente Rio das Mortes - um dos cinco distritos de São João del-Rei. Lá, a notar pela movimentação que já começa, tudo o que é importante recebe atenção e planejamento; é preparado com bastante antecedência, tal qual uma festa de casamento ou um batizado.

O grande orgulho do povo simples do Rio das Mortes não são os templos barrocos, as pontes de pedra, as orquestras quase tricentenárias nem a magnífica Semana Santa de São João del-Rei, "metrópole" daquela "colônia". O que faz o coração daquela gente bater mais forte e seus olhos brilharem mais luminosamente é a lembrança de que ali nasceu a primeira santa brasileira, já beatificada para em breve começar o processo de canonização: Nhá Chica. Não só nasceu mas ali também foi batizada e viveu os dez primeiros anos de sua vida dedicada a Deus, a Nossa Senhora da Conceição e aos pobres. Por isso, a Nhá Chica do Rio das Mortes é menina, tem sua virtude na inocência e na pureza da infância, que ali foram cultivadas e mais tarde se tornaram a base e o lume de toda sua existência.

Contrariando o ditado popular, sabiamente já começaram, no distrito são-joanense do Rio das Mortes, as primeiras ações para a intensa programação comemorativa que marcará 203º aniversário de nascimento e batismo de Nhá Chica. Mas a festa só acontecerá em abril do ano que vem, ou seja, daqui a sete meses.

Pela quarta vez, será uma festa autêntica, genuína, em tudo fiel à fé, à simplicidade, à alegria pródiga, ao espírito generoso, laborativo e telúrico dos conterrâneos da santa brasileira. Isto se expressará nas mais diversas formas e linguagens: celebrações religiosas, gastronomia, artesanato, literatura, artes, música, confraternização - enfim, em tudo o que é sublime e que também serve para elevar o homem, louvar a Deus e agradecê-lo pela existência e memória de Nhá Chica.

Além dos moradores do Rio das Mortes, o projeto também tem encantado são-joanenses e não são-joanenses que, voluntariamente, se dispõem a colaborar, in loco ou à distância, com tão importante empreitada. Todos inspirados e iluminados por aquela que, por suas virtudes e por sua dedicação, foi denominada Serva de Deus e Mãe dos Pobres.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Johann Sebastian Bach visita São João del-Rei


Se fosse possível, se poderia dizer que a música, cada vez mais, faz parte do dia a dia de São João del-Rei. Mas isto não é verdade. Tão estreitos e intensos são os laços que unem a música  e a terra são-joanense que é inconcebível pensar uma sem a outra, um só instante.

No entanto, tal qual começo de namoro, no dia a dia música e cidade se encantam com brilho e frescor, sorriem, se enternecem e se embalam nos mais diferentes ritmos: sonatas, serenatas, sambas, suites, sinfonias, valsas, marchas, maxixes, chorinhos, batucadas, funks e rocks. Música clássica, rara, barroca, antiga, sacra, popular, folclórica, urbana, experimental, vanguarda - não importa. Sendo boa, de qualidade, é o que agrada.

Imagine você: no suave anoitecer de uma quase primavera, atravessar um jardim de manacás roxebranco floridos para ouvir, quase ao pé do ouvido, duas gerações de Bach. O pai, seiscentista, e três de seus muitos filhos, setecentistas. Todos unidos em sonatas para cravo e flauta, na arte e engenho da organista Elisa Freixo e do flautista Antonio Carlos Guimarães.

Para isto, basta ir, na próxima sexta-feira, dia 14 de setembro, às oito da noite, na sede da Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei. E se no sábado você quiser saber mais sobre música barroca e participar de um bate-papo com os dois instrumentistas sobre a obra de Bach, não deixe de ir, às 14 horas à sede do Museu Regional. Tudo de graça!

Mas não hesite. É verdade que a música faz parte do dia a dia, é a vida e a alma de São João del-Rei. Mas cada oportunidade é única. E pode não se repetir. Ouça, abaixo, um trecho da monumental Sonata in G Minor. Fique atento, mas não se apresse, tem uma pequena pausa aos 4 minutos, mas depois continua tão bonita quanto antes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Independência de/em São João del-Rei


Muito antes que o galo cantasse três vezes e Dom Pedro I gritasse Independência ou Morte! às margens do Ipiranga, muita água já havia corrido no Córrego do Lenheiro, sob as pontes - de três arcos e pedra - da Cadeia e do Rosário de São João del-Rei.

Em 7 de setembro de 1747 a Câmara da Vila de São João destinou 40 oitavas de ouro para as festas comemorativas de Nossa Senhora do Pilar, padroeira do local. Há 26 anos já transferido para o outro lado do córrego, mais próxima da roxa, verde e dourada Serra do Lenheiro, o templo estava em fase de adorno e douramento.

Quase 30 anos depois, em 1770, um Edital da mesma Câmara convocou os proprietários de terras nas imediações do Porto Real, proximidades do Rio das Mortes, para que se apresentassem àquele órgão do poder ´colonial. Começavam-se os esforços para a construção da capela do Senhor de Matozinhos, que facilitaria aos "atuais moradores daquela paragem assistir ao preceito dominical sem o incômodo que padecem". O mesmo Edital condenava os avarentos, que requeriam terras públicas unicamente para mais tarde vendê-las, com muitos lucros, inclusive com a valorização que veio com a edificação do novo arraial que ali se pretende construir". Quatro anos mais tarde, em maio de 1774, já estava construída a Capela de Matozinhos, deliberadamente demolida em 1970.

No século XIX, há registros de que em 1889 a colônia italiana, já presente na sociedade são-joanense, promoveu comemorações para festejar o 67º aniversário da independência do Brasil. Tão sofisticado foi o desfile comemorativo que teve até carros alegóricos e a participação das quase tricentenárias orquestras Ribeiro Bastos e Lyra Sanjoanense.

Para comemorar o primeiro centenário da independência nacional, em 7 de setembro de 1922, a cidade de São João del-Rei desenvolveu intensa programação. A festa começou pela manhã, com missa celebrada na escadaria da igreja das Mercês, quando o povo, entusiasmado, cantou, em cívicos e altos brados, o Hino da Independência. Prosseguiu com uma pomposa procissão, saída da Matriz do Pilar, e continuou com um animado desfile do batalhão do 11º Regimento Militar.

Ao entardecer, discursos no Theatro Municipal, saudações à bandeira e plantio de árvores, uma das quais foi plantada pelo menino Tancredo Neves.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, 2a edição, revista e ampliada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Joia de 271 anos exposta ao mundo - ao sol e à lua - num largo luminoso de São João del-Rei


Há exatos 271 anos, neste mesmo dia, 6 de setembro, cometeu-se o primeiro gesto de se
moldar uma das mais preciosas joias do barroco de São João del-Rei, de Minas Gerais e do Brasil. Por sua originalidade, inventividade e ineditismo, por que não uma das mais preciosas joias do barroco mundial? Estamos falando da igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei.

A primeira iniciativa para sua edificação ocorreu em 6 de setembro de 1741, quando os devotos são-joanenses do santo franciscano dirigiram-se formalmente ao vigário da Vila de São João del-Rei, em busca de licença para a construção de uma capela dedicada àquele que por seus atos e ideiais mostrou-se irmão do sol e da lua, expressão da mais pura natureza.

Tão sincero e devotado foi o pedido que a resposta, favorável, não tardou. No mês de outubro - tempo do aniversário do santo, o vigário autorizou a construção. Mas só a autorização não bastava; era preciso ter chão, já que templos não flutuam no ar. Por isso, o Capitão Antonio da Silva e Souza e outros influentes devotos, no começo do ano seguinte, requereram ao Senado da Câmara pedindo a concessão de uma sesmaria de terras "correndo pelo campo acima até entestar com a igreja velha de Nossa Senhora do Pilar", ou seja, do atual Largo de São Francisco até o alto do Bonfim, onde nos idos de 1704 havia sido construído a primitiva capela consagrada à padroeira de São João del-Rei.

Não se sabe bem se pela intercessão de São Francisco ou se pelo prestígio social, político e econômico do Capitão, a verdade é que já no dia 11 de maio de 1742 a solicitação foi atendida. Porém, para exercitar a paciência dos devotos, demorou dez anos para ser lavrado, em 25 de maio de 1752 o auto de posse de terras - 165  braças de comprimento por 28,50 braças de frente.

Para comemorar, no dia seguinte - 12 de maio de 1752 - Francisco da Costa Dias assentou a pedra fundamental da capela. Aí então, efetivamente, há 260 anos, começaram as obras que deram à eternidade uma das mais belas obras da arquitetura barroca das Américas e mundial.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Fogueiras, pólvora, crenças, aromas e temperos espantaram a morte de São João del-Rei, em 1808


Em 1808, a Vila de São João del-Rei foi assolada por uma mortífera epidemia, que subtraiu muitas vidas, quase esgotou a capacidade dos cemitérios e desolou a população.

Tão grave era a situação que, no dia 2 de setembro do ano em que D. João VI e a família real portuguesa chegaram ao Brasil, a Câmara, preocupada,  convocou "professores de cirurgia e de medicina" para identificarem a causa da tragédia e receitarem a conduta a ser tomada para afastar aquele terrível mal. Não tardou e poucos dias depois a Câmara publicou um Edital, determinando que a população adotasse várias medidas, umas quase bíblicas e outras bastante circenses - todas muito semelhantes a crendices e à conduta da medicina popular.

Segundo os "professores de cirurgia e de medicina", deveriam os são-joanenses toda noite acender fogueiras e nelas queimar diversas ervas aromáticas: rosmaninho, manjericão do campo, arnica, pinheiros, coqueiros da serra, sassafrás, entre outras. Comumente se fala que, nos tempos coloniais, muitas vezes o fogo era usado domesticamente para desodorizar e purificar ambientes.

Além desta grande e "cientificoterapêutica" defumação, deveriam também os moradores de São João del-Rei queimar pólvora em casa, jogar vinagre sobre ferro vermelho em brasa, beber ponches e vinagradas quentes, adubar e lavar verduras e legumes com bastante vinagre. Esta última recomendação sugere e leva a crer que tal epidemia tinha causa em problemas sanitários.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira - Efemérides de São João del-Rei, volume II segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.