quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Retrato sentimental e poético de São João del-Rei




                             " Todo sino é uma saudade de bronze.
                       Toda maria-fumaça é uma saudade
                       de ferro e fogo."

Ao que se sabe, o teólogo Rubem Alves não dedicou esta construção poética a São João del-Rei. Mas ela expressa tão precisamente o sentimento são-joanense que pode ser considerada um retrato sentimental e poético de São João del-Rei.

...........................................................................
Foto: Marcinho Lima


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Novena barroca de Natal em São João del-Rei. Encantamento, magia e mistério!

O calendário festivo de São João del-Rei é tão intenso que mal termina uma "festa" e outra já está a caminho, quando não começando ou, então, já na metade. As comemorações do Natal, por exemplo, na "terra onde os sinos falam" começam no dia 16 de dezembro, com uma novena barroca, na igreja do Rosário - a mais antiga da cidade.

Nesta celebração, durante nove noites a Orquestra Lira Sanjoanense - a mais antiga das Américas - executa hinos, salmos, responsórios e ladainhas compostos no século XIX, entre eles as famosas "Matinas do Natal", que o compositor são-joanense Padre José Maria Xavier criou especialmente para a ocasião. Muito alegres, vivas e suaves, as Matinas são cantadas em latim e descrevem a história do nascimento de Cristo. Narram o chamado que o Anjo fez aos pastores, o movimento do cometa que guiou os Reis Magos do Oriente até Belém, a humildade devota dos animais que estavam na estrebaria, a harmonia infinita e brilhante dos astros no céu - enfim a felicidade que abraçou o universo naquele 25 de dezembro distante.

Quem puder, não deixe de assistir, pelo menos um dia desta novena que termina no anoitecer do dia 24. Tudo é especialmente bonito, a começar pelo caminho que leva ao frontispício da igreja. O largo do Rosário, com seus nobres casarões entremeados por casas de beiras-seveiras e curvos portais - tudo realçado por iluminação delicada parece uma paisagem riscada com vagalume sobre um pano preto. Que antiga criança são-joanense não fez isso nas noites da infância?

Por dentro, a igreja é em tudo acolhedora. Simples de adornos discretos e de cores suaves, como se concebida fosse para a novena de Natal. No trono do altar-mor, a imponente imagem colonial portuguesa da padroeira dos negros, Nossa Senhora do Rosário, nestes dias sem o Menino Jesus sentado em seu braço. Sussurram os mais velhos que ela o emprestou ao mundo, para ele ficar entre os homens no tempo de seu nascimento.

Toques de sino, encantamento das matinas, nuvens perfumadas e misteriosas de incenso, estrelas coloridas que escapam dos foguetes e estouram instantâneas nas noites de dezembro do Largo do Rosário. Que mistério é este que faz o Céu descer ao chão no centro histórico de São João del-Rei?

Veja e ouça, neste link https://www.youtube.com/watch?v=Xa6FUl7ruGw um belo, melodioso e completo movimento das Matinas de Natal do Padre José Maria Xavier.Na regência, a saudosa maestrina Maria Stella Neves Vale, durante muitas décadas a grande matriarca da música colonial em São João del-Rei.

Depois, acesse http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/12/em-sao-joao-del-rei-estrela-guia-no-ceu.html e leia sobre as Pastorinhas do Menino Jesus de São João del-Rei


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os olhos de Santa Luzia iluminam São João del-Rei, seja de noite, seja de dia



13 de dezembro - dia de Santa Luzia. A eternamente jovem, virgem e cega, que tem domínio sobre os olhos, protege a visão e guia os cegos na sua noite longa e sem estrelas. Em São João del-Rei, Santa Luzia tem bastante prestígio junto ao povo são-joanense, que chega a ter com ela, inclusive, relativa intimidade física.

Durante o ano quase inteiro, a Santa - em imagem de madeira - mora sobre uma arca grande na sacristia da modesta igreja de São Gonçalo Garcia. A ela fazem companhia flores artificiais, bilhetes, pedidos, agradecimentos e fotografias daqueles que lhe devem ou lhe pedem favor: homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e velhos. Pessoas simples, humildes de bens e ricas de esperança e fé.

Da noite da Quarta Feira de Trevas até o entardecer da Sexta Feira da Paixão, Santa Luzia vai para a entrada da igreja onde, à frente do tapa-vento, recebe os são-joanenses. Estes, por sua vez, ajoelham-se diante dela, beijam a fita roxa que pende de seus pés e passam-lhe o polegar e o indicador da mão direita sobre os olhos, pousando-os depois nos olhos de si próprios. Depois disso, com a visão clara, entram na igreja escura para ver, representada, uma cena dos milagres de Cristo.

No dia a dia, quando um cisco lhes cai no olho, incomodando visão, pedem intervenção à santa, repetindo assim:

            "Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim.
             Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim.
             Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim."


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Folias de Reis anunciam - com cor, suor, devoção e alegria - o Natal em São João del-Rei


São João del-Rei está em um momento muito feliz. Não apenas pelo calor e entusiasmo com que está comemorando os 300 anos da criação da quarta vila  de Minas Gerais, ou melhor, da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, quando o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes foi elevado à categoria de Vila, com o nome de São João del-Rei, em homenagem ao faustoso soberano português D. João V.

São João del-Rei está em um momento muito feliz porque está voltando seu olhar para si própria. Não que negue e desvalorize o mundo que existe do outro lado da Serra do Lenheiro, mas sim porque está garimpando suas próprias riquezas, se apropriando de seus tesouros culturais, reconhecendo suas origens e reforçando-as como bases de sua identidade e de sua cultura. É de posse desta história, desta memória e deste patrimônio que, a partir de então, São João del-Rei vai se apresentar para o mundo.

E recebê-lo na intimidade dos quintais da alma são-joanense, onde se cultiva e colhe música barroca, tradições religiosas, cultura popular, sabedoria, humanidade, conhecimento, respeito, folclore e erudição. Onde se cultiva e colhe a própria vida, aqui semeada - ora com zelo e delicadeza, ora com absoluta e selvagem brutalidade - nos idos de 1704.

São João del-Rei surpreende. Evolui e surpreende ainda mais. Holística, a cidade tem espaço democrático para todos - todos os conceitos, todos os modos de pensar, acreditar e agir, todos os modos de se expressar. Nos jardins de São João del-Rei floresce legitimidade e é ela que perfuma a brisa da diversidade plena que exala neste Vale do Lenheiro.

Um bom exemplo disto é o trabalho desenvolvido pelo Memorial Dom Lucas Moreira Neves, sobretudo nesta segunda semana de dezembro. No clima de Natal, aquela casa de cultura e memória está promovendo, toda noite, de hoje até sexta-feira,  em frente à sua sede, na Rua Direita, em frente à Matriz do Pilar, apresentações de dez grupos de folias diversas: embaixadas santas, moçambiques, folias de reis, folias de São Sebastião, folias do Divino, folia feminina e algumas outras, em sua maioria dos bairros de São João del-Rei mas também de duas cidades vizinhas.

Por sua alma telúrica e popular, as folias ainda não ocupam o lugar que merecem no panteão sagrado da cultura de São João del-Rei, referenciada pelas tradições barrocas, clássicas e eruditas. Mas a cada evento se tornam mais visíveis, tão conhecidas e reconhecidas que em breve as folias, congados, catupés e moçambiques figurarão entre os mais importantes elementos constituidores e de expressão do patrimônio cultural da tricentenária São João del-Rei.



Foto: Ulisses Passarelli (cortesia)


domingo, 8 de dezembro de 2013

300 anos de São João del-Rei em destaque no Terra de Minas


Minas Gerais dirigiu um olhar especial para São João del-Rei neste dia 8 de dezembro, saudando o povo são-joanense pelos 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar à  Vila de São João del-Rei.

O programa Terra de Minas, da TV Globo, produziu uma série especial sobre a cultura e as tradições locais, exibida neste domingo, que você pode conhecer clicando nos links abaixo

A barroca lembrança dos velhos quintais que ainda existem no centro da cidade
http://redeglobo.globo.com/mg/globominas/terrademinas/videos/t/edicoes/v/terra-de-minas-comemora-300-anos-de-sao-joao-del-rei-e-desvenda-os-quintais-da-cidade/3003704/

A música que desce das torres e escorre sonora pelas ruas coloniais
http://redeglobo.globo.com/mg/globominas/terrademinas/videos/t/edicoes/v/com-instrumentos-pelas-ruas-sao-joao-del-rei-transforma-os-sinos-da-igreja-em-musica/3003710/

Pinturas rupestres e história de amor proibido na Serra do Lenheiro
http://redeglobo.globo.com/mg/globominas/terrademinas/videos/t/edicoes/v/terra-de-minas-mostra-curiosidades-encontradas-por-desbravadores-em-sao-joao-del-rei/3003703/

Festa, emoção e coração nos 300 anos da Vila de São João del-Rei - Falam os são-joanenses

São João del-Rei 300 anos

Trezentos anos separam 8 de dezembro de 1713 de 8 de dezembro de 2013. Trezentos anos unem 8 de dezembro de 2013 a 8 de dezembro de 1713. À luz do sol do Campo das Vertentes e à sombra da Serra do Lenheiro, São João del-Rei está em festa, celebrando os três séculos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar da Comarca do Rio das Mortes à condição de Vila, com o nome de São João del-Rei. A quarta instituída em Minas Gerais, quando o estado ainda se chamava Capitania de São Paulo e das Minas de Ouro.

A história de São João del-Rei se mistura com a história de vida dos são-joanenses. Aliás, é difícil saber se elas se fundem, se são indissociáveis ou se são uma só. Isto é o que se percebe nos depoimentos de são-joanenses publicados hoje no blog São João del-Rei 300 anos, que você pode ler clicando neste link http://saojoaodelrei300anos.blogspot.com.br/

Parabéns, São João del-Rei, pelos seus 300 anos. Parabéns, são-joanenses, por sua história e por suas histórias!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Coração são-joanense: 300 anos de história & sentimento - Mande sua mensagem!





300 anos não são 300 dias. Por isto, os três séculos de elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar a Vila de São João del-Rei enchem de alegria e orgulho são-joanenses e não são-joanenses. Afinal, nascia ali a quarta vila do ouro instituída em Minas Gerais.

Em cada um destes 109.500 dias, construiu-se São João del-Rei e tudo o que identifica, diferencia e singulariza o povo desta cidade. Educação, sabedoria, religiosidade, humanismo, cidadania, criatividade, cultura, tradição, patrimônio, lembrança e memória. Esta é a principal riqueza da terra onde os sinos falam.

Pensando nisto - e no entusiasmo dos trezentos anos da Vila de São João del-Rei - que tal declarar à cidade seu afeto e sentimento,  encaminhando uma mensagem para o e-mail  sjdr300anos@gmail.com ? Texto, desenho, foto, poema, vídeo, música, história ou estória - vale tudo!

Se possível, informe pelo menos nome, idade e cidade, pois muitas mensagens serão publicadas no blog São João del-Rei 300 anos (saojoaodelrei300anos.blogspot.com.br)

........................................................................
Mensagens recebidas
Para ler as mensagens encaminhadas a São João del-Rei, clique nos links abaixo




   Mensagens

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Eparrêi, São João del-Rei! Valei-nos Santa Bárbara, São Jerônimo...




Em tempos passados, sempre que um raio violento estrondosamente cortava ao meio o céu de São João del-Rei, logo se ouvia aflito chamado: Santa Bárbara! São Jerônimo! Era assim que se pedia socorro quando vinha o temor das tempestades.

E logo se cobria espelhos, para que não refletissem os raios, se desligava tomadas, ninguém abria janela, pegava tesoura ou tocava em torneira. Pelo contrário, se acendia uma vela, benta no dia de Nossa Senhora das Candeias, 2 de fevereiro, e se queimava a palma levada à igreja para bênção na manhã do Domingo de Ramos. Tudo sob a invocação de Santa Bárbara.

A santa, que tem aos pés uma torre, na cintura uma espada, nas mãos um cálice e uma palma verde, na cabeça uma coroa, exerce domínio inquebrantável quando o céu se desmancha em chuva forte. Acalma raios, amansa ventos, tranquiliza o firmamento. Afasta o temor e traz paz ao coração.

Nos tempos modernos, para-raios sobre torres e telhados são a contemporânea espada de Santa Bárbara. Antenados, colhem no ar faíscas elétricas e as guardam no cálice dourado, raso e sagrado que a santa tem nas mãos.

Tanto tempo depois do tempo, em São João del-Rei Santa Bárbara vigia tudo, em nicho dourado do primeiro altar à esquerda de quem entra na Matriz do Pilar, dedicado a Nossa Senhora da Conceição. Protetora principalmente dos trabalhadores que em perigo lidam com o fogo em chamas, certamente nesta quarta-feira, 4 de dezembro, Santa Bárbara ganhará muitas visitas e buquês de flores vermelhas na terra onde os sinos falam. Na Matriz do Pilar e nas casas de umbanda e candomblé.

4 de dezembro. Dia de Santa Bárbara, na religião católica. Dia de Iansã - ou Inhansã - na religiosidade que veio da África. Para todos, brancos e negros, a rainha dos raios, a senhora das tempestades. Que não tem medo da morte e acalma as tormentas...


domingo, 1 de dezembro de 2013

Tempestade em São João del-Rei faz lembrar 1797


A última noite de novembro deste ano não desceu sobre São João del-Rei com seu manto azul escuro  bordado de estrelas. Pelo contrário. No momento em que a lua nova deveria estar pousando sobre a Serra do Lenheiro, uma nuvem pesada prenunciava um acontecimento que, ao longo de 300 anos, os são-joanenses já viram muitas vezes: uma forte tempestade que com muito ruidosos e velozes flashes de prata fez brilhar telhados e paralelepípedos.

A água, violenta, transformou o pacato fio d'água que corta ao meio a cidade em um gigante líquido e furioso, a enfrentar, com vigor, as setecentistas pontes de pedra e a resistir ao extremo os limites que o guarnecem, em São João del-Rei conhecidos como cais. Longe do mar, ali o Córrego do Lenheiro, na intimidade dos mais antigos, é informalmente chamado de praia.

Contra as forças da natureza, o homem pode muito pouco, quase nada e esta realidade é universal. Está presente o tempo todo, em toda parte do mundo. Basta olhar as notícias que volta e meia chegam dos vários continentes, informando acidentes naturais.

Mas os são-joanenses, na firmeza de sua fé inabalável, aprenderam ao longo dos séculos a esperar serenos que se passe a tormenta, a lamentar no coração pelas perdas e sofrimento, a se fortalecer para novas tempestades e a dar seguimento à vida que flui - ora serena, ora turbulenta - como um córrego corre para o rio, que corre para o mar que, na sua imensidão, não corre para lugar nenhum. Ou melhor, que corre para si mesmo.
...........................................................................
Sobre as enchentes em São João del-Rei, leia abaixo a história de uma que, no final do século XVIII, motivou a construção do monumento que é um dos mais importantes ícones da cidade - a Ponte da Cadeia.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Até na tristeza e na dor, São João del-Rei pulsa vida e cor


Vivacidade, vibração e cor. Esta é, no momento, uma das santíssimas trindades de São João del-Rei. Basta andar sem pressa e percorrer com olhar atento as praças, largos, ruas e becos do centro histórico para perceber que a cidade vive uma era de muita energia e corajosamente a proclama na cor das fachadas, dos portais, beirais e janelas.

A foto que ilustra este post mostra isso: a natureza generosa da árvore azul é uma cortina para janelas do Hospital Nossa Senhora das Mercês. Em uma delas, toalhas amarelo e laranja acenam a certeza de quem, mesmo em um leito, acredita que a vida intensamente pulsa do lado de dentro e do lado de fora, mediada pelos tons firmes dos tecidos tramados que secam ao sol.

domingo, 24 de novembro de 2013

Em São João del-Rei, tocar sino é sagrada sina





Sobre o amor "de nascença" e o encantamento dos meninos de São João del-Rei pelo ofício de dobrar sinos, o vídeo abaixo - testemunho inocente e verdadeiro - diz mais do que muitas mil palavras. Clique e confira!..


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

1713 / 2013 - São João del-Rei 300 anos - 8 de dezembro está chegando, mas a festa começa já!


A todo instante aparecem novos eventos que acontecerão para comemorar os 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, fundado por volta de 1703, à categoria de vila, com o nome de São João del-Rei. Assim nasceu a 4a vila do ouro instituída em Minas Gerais, quando este território ainda fazia parte da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro.


Participe, comemore, festeje, cuidando de seu jardim, regando as flores que saltam para a rua, pulando por cima dos muros de sua casa, mantenha limpa sua calçada, sua rua, sua praça. Toda cidade é o espelho da alma do povo que mora nela!

Lembrando o que disse o poeta Antônio Marcos Noronha

                          "Era um dia comum 
                           e virou festa.
                           A gente põe nas coisas
                           as cores que tem por dentro."


Parabéns, São João del-Rei!

Para conhecer outros eventos que já estão acontecendo na cidade, em comemoração ao terceiro século da Vila de São João del-Rei, acesse
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/11/1713-2013-contagem-regressiva-faltam-30.html

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

20 de novembro: São João del-Rei tem consciência negra



Não é verdade dizer que em São João del-Rei não existe preconceito racial. Os negros de nossa terra que aqui já sofreram - e os que ainda hoje sofrem - discriminação desmentiriam, testemunhando em contrário. O modo como foi constituída a sociedade são-joanense, nas origens do século XVIII, quando o ouro qual gabiroba era catado à mão nas encostas da Serra do Lenheiro, contribuiu para que em São João del-Rei as questões raciais fossem muito próprias.

Como em todo arraial nascido da mineração do século XVIII, a população era formada por pessoas de todos os níveis, classes e procedências, principalmente de aventureiros que, sem eira nem beira, viam no Eldorado das Alterosas a grande oportunidade de enriquecimento. Inclusive negros. Isto forjou uma sociedade mestiça e moldou um espírito coletivo favorável à diversidade, ao sincretismo, à tolerância e à miscigenação.

A verdade é que, desde aquela época, de algum modo o negro estava e está inserido na vida de São João del-Rei, muitas vezes como protagonista na escrita de nossa história. Tanto que, já em 1708, fundaram no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes a primeira Irmandade do Rosário da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. No Brasil, só havia uma irmandade de negros com esta invocação no Rio de Janeiro, que era a sede do governo português em nosso país. Deste modo surgiu a primeira irmandade são-joanense, instituída cinco anos antes da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Daí por diante, os negros continuaram demonstrando seu valor e enriquecendo a cultura, as artes e a economia de São João del-Rei. Os compositores coloniais são um ótimo exemplo, pelas obras imortais que produziram e que até hoje ouvimos nas tradicionais celebrações religiosas são-joanenses. Não só os homens negros, mas também as mulheres se destacaram, como a negra Maria Viegas que, na metade de século XVIII, formou um rico patrimônio e, inclusive, deu educação primorosa a um filho, que se tornou sacerdote. Seu testamento, recentemente restaurado e digitalizado pelo órgão local do Ministério da Cultura, prova isto.

Não apenas nas artes e como artífices os negros contribuíram para a história são-joanense. Também aqueles que trabalharam arduamente e sucumbiram pela violência e pelos horrores da escravidão deram, muitos com a vida, sua parcela para que São João del-Rei fosse e seja o que é.

Hoje, de modo geral, verifica-se grande integração e harmonia entre negros e brancos. Numa visão panorâmica, sequer se percebe, nas relações sociais e convívio, esta distinção. Mas não se pode negar que, herança de alguma ignorância do passado e por lamentável desinformação quanto aos valores que regem o tempo presente, ainda persistem, em alguns setores e em determinadas circunstâncias, preconceito de cor e discriminação racial quanto aos negros em São João del-Rei.

Mas estes, por sua vez, cada vez mais evoluem, se organizam, mergulham em busca do conhecimento profundo de suas origens etno-histórico-culturais para se fortalecerem como seres e indívíduos. Por meio da educação, da informação e da permanente atualização, buscam encontrar o caminho que lhes proporcione amplamente, a todos os descendentes dos homens negros escravizados, visibilidade social, respeito e cidadania.

A presença dos santos negros, como Santa Efigênia, São Benedito e Santo Antonio de Catingeró e Santo Elesbão, nos altares das igrejas das irmandades do Rosário e das Mercês e da Ordem Terceira do Carmo, cuja origem é predominantemente branca e abastada, mostra que isto é possível. Sem perder de vista que a santidade do negro de hoje não é abrir mão de sua identidade cultural, mas sim manter-se íntegro, capacitar-se com conhecimento e instrumentalizar-se com formação e informação para abolir, de nosso meio, toda forma de preconceito e discriminação.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A música de São João del-Rei é a afilhada preferida de Santa Cecília.



São João del-Rei é terra abençoada. Santos e anjos que moram na corte celestial habitam também a terra que tem no nome uma homenagem ao Rei Sol português, D. João V. Entre as tantas divindades que habitam o firmamento, mas que não tiram os olhos do povo são-joanense, uma, inclusive, fica mais na cidade do que no céu. É Santa Cecília!

Mas pudera: como desde 1717 a Música firmou morada em São João del-Rei, aqui a santa tem para cuidar quatro bandas de música e três orquestras, vários corais, grupos de câmera, duos, trios e quartetos, muitos maestros, sineiros e compositores, sempre em permanente atividade. Nas igrejas, nos teatros, nas praças, nas ruas, nos auditórios. E como Santa Cecília é padroeira dos músicos, não é sem motivo que ela está em toda parte...

Mas aqueles a que a santa dedica tanto olhar e zelo não lhe são ingratos. Deram-lhe lugar de honra, em um dourado altar lateral da Matriz e Pilar, e a guardam consigo, em imagem ou estampa, na sede da Orquestra Ribeiro Bastos, da Lira Sanjoanense, da Sociedade de Concertos Sinfônicos, das três bandas, no Conservatório e na casa de muitos músicos.

Este mês, desde o dia 12 - coincidentemente o mesmo do batismo de Tiradentes em São João del-Rei -  Santa Cecília está sendo festejada com concertos, sinfonias, recitais e tríduo barroco. No anoitecer da sexta-feira, 22,  ela sairá em andor enfeitado, a passear em procissão pelo centro histórico da cidade, no ritmo de marchas festivas e alegres, tocadas pelas bandas locais. É a Semana da Música - curiosamente uma semana de 9 dias, o que é possível acontecer em nossa cidade.

É deste modo - e também com orações, pedidos e agradecimentos - que os músicos de São João del-Rei alimentam, há três séculos, grande amizade com Santa Cecília. E a Santa, deles não se separa. Sempre os protege, inspira e estimula. Nunca os desampara.

Viva Santa Cecília! Viva as notas musicais de sua harpa! Viva sua harmonia...
.........................................................................
Sobre o mesmo assunto, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/04/o-pai-da-musica-vive-em-sao-joao-del.html


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Rondó do Apocalipse segundo São João del-Rei


Em São João del-Rei, passeando pela Rua Direita,
descobri que no Bazar Apocalipse
não vende passagem para o fim do mundo.
Nem para a casa do capeta.

Não vende Arca de Noé, nem costela de Adão,
nem a lira de Davi, nem lança de centurião,
nem trombeta de Jericó, nem o 'cinco' Salomão...

Vende vuvuzela, argola, agulha, arruda, arruela,
sacola, corneta, cadarço, caneca, caneta,
boneca, barbante e monte de tudo que é invenção.

Você vê a marca da besta-fera na placa pinguela?
Se não, fica esperto. É questão de tempo.
Espera...

domingo, 10 de novembro de 2013

Em São João del-Rei, herói Tiradentes encontra Tancredo Neves. Séculos XVIII e XXI se abraçam!



Há 267 anos, no dia 12 de novembro de 1746, na capela de São Sebastião do Rio Abaixo, pertencente à paróquia da Vila de São João del-Rei, foi batizado um menino, nascido na Fazenda do Pombal, então pertencente à mesma Vila. Seu nome de batismo? Joaquim José da Silva Xavier. Apelido como ele ficou mais conhecido? Tiradentes. O maior herói de Minas Gerais e o grande símbolo do sentimento brasileiro de soberania e amor à liberdade.

Sua história, todo mundo sabe: não teve madrinha, era o quarto de nove irmãos, ficou órfão de mãe aos 9 anos, tornou-se dentista - daí o apelido Tiradentes - e alferes de cavalaria. Foi o grande idealizador da Inconfidência e o único sumariamente castigado com o sacrifício da morte em forca, diante da multidão. Esquartejado, seu corpo, antes suspenso no cadafalso, novamente fora elevado, em partes, pelos caminhos onde andou.

Transformado em símbolo, Tiradentes tornou-se um ente abstrato. Uma lembrança distante na cidade onde, historicamente, em 1746, ficava a Fazenda do Pombal. É nome de uma avenida importante, no centro cidade, e estátua em outra, face a face - quem sabe em diálogo - com a de Tancredo Neves. Mas não se transformou em um mito e, por isto mesmo, não povoa muito o imaginário dos são-joanenses. De algum modo, isto é compreensível. No período colonial foi considerado traidor da Coroa Portuguesa, praticante do crime de lesa-majestade, desonrado, derrotado e fracassado. Por isso, o desfecho de sua história por muito tempo não fazia bem para a autoestima de seus conterrâneos. Muito pelo contrário...

Às vezes, percebe-se que isto está mudando. Nas últimas décadas viu-se a cidade se mobilizar pelo reconhecimento como terra natal de Tiradentes, condição que mineiramente, de forma política buscando não desagradar a ninguém, foi partilhada, ignorando-se uma divisão geopolítica histórica. O bicentenário da Inconfidência Mineira foi celebrado com grandiosidade em São João del-Rei, com eventos que tiveram grande repercussão nacional, inclusive em segmentos políticos importantes como a Presidência da República.

Este ano já se encontrou, em uma loja de souvenirs do Largo do Rosário, uma escultura de papel marchê do herói Tiradentes, executada por um artista popular, representando o mártir, certamente na hora do enforcamento. Na prateleira para venda, ela estava ao lado de outra escultura de um são-joanense famoso, até hoje muito cultuado e, mesmo morto, muito festejado: Tancredo Neves. Ao fundo, como cenário, em relevo, a delicada e pequenina capela são-joanense de Santo Antônio.

Mesmo sem ter sido intenção, nem do artista, nem da dona da loja, que dispôs as peças na prateleira, este arranjo era uma expressão plástica - uma instalação. Colocou, em um mesmo tempo histórico e em um mesmo território, dois são-joanenses que figuram importantes na história nacional. Não levou Tancredo Neves para o século XVIII, mas trouxe Tiradentes para São João del-Rei do século XXI.

Que Tiradentes, agora com 267 anos, continue entre nós, inspirando nossas atitudes cidadãs e nossos artistas, eruditos e populares, nas suas criações. Pintores, escultores, ceramistas, músicos, atores, diretores de teatro, cineastas, chefs, produtores, professores, videomakers, bordadeiras, santeiros, escritores, cantores, carnavalescos, cantadores, repentistas, artistas plásticos, designers, webartistas, multimídias e muito mais...

............................................................................
Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012_11_01_archive.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/11/sao-joao-del-rei-constroi-novo-sudario.html

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

1713 - 2013 . Contagem regressiva: faltam 30 dias para os 300 anos da Vila de São João del-Rei

Daqui a exatos 30 dias, no dia 8 de dezembro, São João del-Rei estará vivendo uma data especial: os 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à condição de Vila, com o nome de São João del-Rei.

A quarta vila instituída na Capitania de Minas Gerais homenageia, no nome, o rei sol Português, Dom João V, soberano daquela época. Sua esposa, Mariana, havia sido homenageada nomeando a primeira vila de Minas. Na Casa de Câmara e Cadeia daquela cidade existe, até hoje, em pintura, um retrato de cada um deles.

A programação comemorativa do tricentenário é longa e vasta. Além dos eventos pontuais já realizados este ano, se tornará mais intensa a partir do dia 22 de novembro, com uma jornada de educação patrimonial. Mas a partir do dia 2 de dezembro, vários eventos acontecerão todo dia, até encerrar-se no dia 6 de janeiro, com o já tradicional Encontro de Folias de Reis.

Do barroco ao popular, do erudito ao artesanal, da fé à festa, do sagrado ao profano, do acadêmico ao afetivo sentimento. Assim é a programação que comemorará os 300 anos da Vila de São João del-Rei. E mais: ela tem a cor e tom local, pois os eventos, em sua grande maioria, são produzidos por são-joanenses e têm a simplicidade que brilha nos olhos de nosso povo e salta em flor dos velhos muros de pedra e cal.

Apesar de mais condensados no centro histórico, alguns eventos chegarão também ao bairro de Matosinhos, inclusive na igreja moderna, que substituiu à colonial. Mas bem que poderiam abraçar outros braços do cruzeiro que é São João del-Rei. Chegar ao Tijuco, subir para o Senhor dos Montes e para o Bonfim.

A festa pode ser maior ainda e quem sabe esta parte ainda não revelada não venha a ser mais um grande presente neste aniversário? Bares, restaurantes, pizzarias, pubs e butecos (sim, butecos simples, esses de esquina) bem poderiam criar pratos, petiscos e drinks especiais sobre os 300 anos. E serví-los em festins, jantares e baladas temáticas.

Os 300 anos da Vila de São João del-Rei são, antes de mais nada, 300 anos de nascimento do povo são-joanense como organização reconhecida pelo Estado. Portanto, é motivo para que a festa brote também da alma do povo, que pode participar pintando fachadas, mantendo limpa a frente de suas casas, cuidando dos jardins, colocando vasos de flores nas janelas, nas paredes e nas sacadas, caprichando na .iluminação externa de Natal. Pegando espontaneamente seus instrumentos e talentos para apresentá-los no meio da rua. Sejam canto, instrumento, artesanato, doces, quitutes, poemas, estórias, folclores, flores, crenças, saberes...

Apesar dos eventos irem até 6 de janeiro de 2014, depois de 8 de dezembro de 2013, é bom ficar ligado. Aí então, inegavelmente, são outros 300!


Para conhecer a programação completa, acesse  http://www.cidadeshistoricas.art.br/images/dez05/Programacao_300_anos_SJDR.pdf

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Foto antiga mostra São João del-Rei em 1922, comemorando os 100 anos do Grito do Ipiranga


Me diga: que lugar de São João del-Rei é este? De onde foi tirada esta foto? Em que hora, dia, mês e ano? O que de tão importante estava para acontecer?

Vamos por partes, o título ajuda. Esta é a visão que antigamente se tinha da atual Avenida Presidente Tancredo Neves, na altura do Círculo Militar, a partir da Ponte da Cadeia.

Ela foi tirada na tarde do dia 7 de setembro de 1922 quando, comemorando o primeiro centenário da Independência do Brasil, o povo são-joanense esperava, em massa, com expectativa e entusiasmo, o desfile cívico do 11º Regimento.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Em São João del-Rei todo dia é Dia da Cultura. 24 horas por dia. 365 dias por ano! Há três séculos...


Desde quando Minas Gerais - ainda Capitania unida a São Paulo - no alvorecer do século XVIII, começava a construir sua identidade, arte, memória, criação, patrimônio, música, tradição, criatividade e várias formas de expressão erudita e popular fazem parte da alma de São João del-Rei. Os são-joanenses vivem isto cotidianamente, 365 dias por ano.

Por este motivo, 5 de novembro, em princípio, deveria ser uma data reluzente no calendário de São João del-Rei. Começar com uma alvorada festiva, feita pelas cinco bandas de música, continuar movimentado durante todas as horas seguintes com exposições de arte, cortejos dos grupos de congada e folias, shows e recitais nas praças públicas, apresentações de música barroca, concertos sinfônicos, até encerrar-se, tarde da noite, com uma ruidosa, harmônica e colorida queima de fogos de artifício.

Mas para os são-joanenses, nada disto é excepcional. Pelo contrário, tudo isto faz parte do dia a dia de São João del-Rei, em autêntica celebração dos feitos passados e da vida presente, na intensa programação que - cultural no sentido mais amplo e absoluto desta palavra - reúne manifestações que vão da arte e da fé até a reivindicação de mudanças político-sociais, em nome da democracia e da cidadania.

Talvez seja por este motivo que 5 de novembro, em São João del-Rei, é um dia comum. Não que precisasse ser um festival, uma maratona cultural no estilo das "viradas" que acontecem nas grandes cidades. Mas bem que poderia, como um espelho, ser uma oportunidade para o são-joanense se mirar e ver como é rica sua história, sua memória, suas artes e tradições. Enfim, sua cultura.

E ao conhecer reconhecer a singularidade e o valor deste patrimônio, aumentar ainda mais sua autoestima cidadã.
............................................................................
Na foto, capela-mor da igreja de Nossa Senhora das Mercês na manhã de 24/09/2013, durante a missa da padroeira ( http://www.youtube.com/watch?v=wgFEUklkm6E)

sábado, 2 de novembro de 2013

Finados. Junto aos veios de ouro, às raízes e às nascentes de São João del-Rei, requiescat in pace

São João del-Rei, desde sempre, tem intimidade com a morte. Cemitérios colados às casas, os vivos são vizinhos dos mortos. No século XVIII, a Procissão das Cinzas lembrava em cortejo solene e figurado, nas ruas coloniais, a finitude da vida. Desde aquela época, durante a Quaresma, no ciclo da Festa de Bom Jesus dos Passos, Encomendações de Almas, em três consecutivas sextas-feiras, percorrem encruzilhadas, cruzeiros e portões de cemitérios, a chamar os mortos e entregar-lhes músicas e orações.

São João del-Rei, a religião, a morte e as contradições. No Carnaval, uma escola de samba ensaia sua bateria no limite exato que une e separa os mortos e os vivos - o alto portão de ferro do Cemitério do Carmo. Nos desfiles, o Bloco dos Caveiras expõe debochadamente a morte, com a irreverência em estandartes, caixões, defuntos, ossos, fogo, fumaça e figuras tenebrosas. É medonho.

Na Sexta-feira da Paixão, o grande momento é a Procissão do Enterro, também chamada Procissão do Senhor Morto. A cidade também celebra, com consternação e piedade, a morte de Nossa Senhora, no dia 14 de agosto, e de São Francisco de Assis, no dia 4 de outubro.

Com tanto envolvimento com a morte - e até mesmo enlaces - no dia 2 de novembro não poderia ser diferente: nos cemitérios e igrejas barrocas se celebram missas, enquanto durante todo o dia, de tempos em tempos, os sinos tocam dobres fúnebres, no dia a dia executados para anunciar falecimentos, quando o corpo entra na igreja para a missa de corpo presente e na hora em que o caixão desce à cova.

Deste modo, o que melhor define São João del-Rei no dia de finados são estes versos do são-joanense Jota Dângelo:

                          "Tumbas e ossários
                            falam daqueles
                            que não têm mais
                            o que dizer:
                            tudo aqui tem
                            gosto de chão."




...........................................................................
Fonte: DÂNGELO, Jota. São João del-Rei. Spala Editora. Rio de Janeiro, (1986?)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Na memória de São João del-Rei, onde foram parar Todos os Santos?

Uma tradição muito antiga que já dobrou a  esquina - e há décadas não se vê mais em São João del-Rei - é a Ladainha de Todos os Santos. Apesar de o dia de Todos os Santos ser 1º de novembro, em nossa cidade a ladainha era rezada na alvorada dos três dias que antecediam o domingo em que se comemorava a Ascensão do Senhor. A recitação acontecia durante uma procissão sem andor, que saía da Matriz do Pilar ainda de madrugada, antes do nascer do sol.

Puxada pelo vigário, percorria em círculo irregular ruelas e becos do centro histórico, retornando para a mesma igreja de onde saíra. O padre, cantando, chamava alto, pelo nome, todos os santos e os devotos, em coro cantado, suplicavam também em alta voz: rogai por nós! No passado, o clamor era em latim: ora pro nobis!

Tem coisas que o tempo leva e não traz de volta. Em São João del-Rei, a Ladainha de Todos os Santos foi uma delas. Ficou em algumas lembranças. Oxalá para sempre vire memória.

Sobre o mesmo tema, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/11/novembro-de-saudades-lembrancas-e.html

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei. 230 anos de existência. 197 anos de oficialização


197 anos. Este é o tempo que se passou desde que Dom João VI, no dia 31 de outubro de 1816, assinou Provisão confirmando a fundação da Santa Casa de Misericórdia da Vila de São João del-Rei. Mas o hospital já existia desde o século XVIII, mais precisamente desde 1783, quando foi criado pelo 'irmão da Misericórdia' Manoel de Jesus Fortes, com o nome de Casa da Caridade.
 
Um documento datado da época exata em que começou a funcionar o hospital, assim o descreve:

            ficava "em lugar próprio e acomodado, no qual [o irmão Manoel] fez 
            os cômodos necessários para 30 doentes, com todas as camas precisas 
            e distinção de lugares para pessoas de um e de outro sexo. A obra tem
            merecido aplauso de todo o povo.  
   
                        Por verem que sendo principiada em janeiro do presente ano de 1783, 
            logo para ela entraram enfermos aos quais até o presente momento    
            não tem faltado coisa alguma."
..........................................................................
Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira - Efemérides de São João del-Rei, volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

Quem escreveu, com letras arabescas, os primeiros capítulos da dourada história de São João del-Rei?

A história de São João del-Rei e tão antiga - e dá tantas voltas no tempo - que muitos nomes que a escreveram estão diluídos nos séculos, esquecidos das memórias, desconhecidos do são-joanense de hoje. Um deles é o do capitão José Álvares de Oliveira.

De origem legitimamente portuguesa, Álvares de Oliveira viveu em São João del-Rei por quase cinquenta anos, aqui chegando pouco depois da descoberta do ouro na Serra do Lenheiro e da criação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar. Aqui, teve participação destacada, como capitão, na violenta Guerra dos Emboabas, que aterrorizou a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro entre 1708 e 1709. Com a instituição da Vila de São João del-Rei, em 8 de dezembro de 1713, foi eleito procurador da primeira Câmara e depois, em 1719, juiz ordinário do Senado da Câmara.

Em 30 de outubro de 1751, eleito fiscal da Real Casa de Fundição da Vila de São João del-Rei, não aceitou o cargo. Seu estado de saúde não era bom e, além do mais, a sensatez sabiamente lhe dizia que estava velho demais para desempenhar tão importante função.

Protagonista e testemunha da história são-joanense na primeira metade do século XVIII, Álvares de Oliveira escreveu A história do Distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descoberta de suas minas de ouro, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação de suas vilas. É uma obra rara e preciosa, que descreve com grande riqueza de detalhes os capítulos pioneiros da epopeia do ouro no Vale do Lenheiro. Por isso, é considerado por muitos, com absoluta justiça, o primeiro historiador de São João del-Rei.

Fica aqui, para os órgãos públicos encarregados pela  preservação e divulgação da memória nacional e para outras entidades que se dedicam à mesma causa um convite: localizar, restaurar e publicar esta obra, em versão fac-símile e atualizada. Seria um grande serviço à cultura de São João del-Rei, de Minas Gerais e de nosso país. Pena que o lançamento não possa mais ocorrer nas comemorações dos 300 anos de criação da Vila de São João del-Rei, mas no espírito de efeméride tão importante, fica lançada a ideia!
............................................................................
Fontes: 
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte. 1982.

GUIMARÃES, Geraldo. São João del-Rei, século XVIII - História Sumária.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Finados dias, de lembranças, dores, ausências e de saudades, em São João del-Rei

Novembro ainda se avizinha, mas já se sente um suspiro fundo no peito colonial de São João del-Rei. Um sopro no coração, barroco, de saudade. O décimo primeiro mês do ano traz consigo, como estandarte, o vazio deixado por aqueles que já se foram. A lembrança daqueles que não mais existem. Traz no ar o que Adélia Prado escreveu: "a ausência a ocupar todos os meus cômodos".

Nos dias que antecedem Finados, os são-joanenses já acorrem, preventivamente, aos cemitérios. Lavam e enceram os túmulos, espanam os crucifixos, avivam os nomes das placas, tiram fora as desbotadas flores de plástico. Vazias, as floreiras novamente serão enfeitadas com ramos da flor saudade na manhã do dia 2 de novembro, enquanto os sinos, de todas as torres, choram Exéquias.

Outubro de 2013. Em São João del-Rei ainda é assim...

domingo, 27 de outubro de 2013

São João del-Rei, setembro de 1993. Relembrar, para não esquecer! E cada vez mais aprender...


Há 20 anos, São João del-Rei foi manchete nos principais jornais impressos do país. Nos telejornais, não foi diferente: o nome da cidade era repetido várias vezes por dia. E não era por um fato glorioso ou um acontecimento à altura dos são-joanenses. Pelo contrário. O motivo de tamanho alvoroço  era  uma questão preocupante para o patrimônio arquitetônico-urbanístico do país, que colocava de um lado o poder público local e de outro o poder público federal.

Do que se tratava? Do asfaltamento da Rua Santo Antônio - uma das mais antigas e bonitas do centro histórico colonial, famosa por suas casas tortas e por ser endereço das sedes das duas orquestras mais antigas das Américas - a Lira Sanjoanense e a Ribeiro Bastos - e da centenária Banda de Música Theodoro de Faria.Temia-se que a rua, que fora trilha de entrada dos bandeirantes no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, em 1703, 290 anos depois servisse de caminho para o asfalto chegar definitivamente às ruas, becos, praças e largos da cidade que este ano completa três séculos de elevação a Vila.

A "demanda e a peleja" entre diferentes esferas legais e governamentais foram grandes e colocaram, de um lado, o prefeito municipal, Nivaldo José de Andrade, e, do outro, várias instâncias dos governos federal e estadual, bem como diversas entidades representativas da sociedade brasileira. Para se dar ideia da importância dos acontecimentos, pela defesa do patrimônio cultural,  estavam, entre outros, o Presidente da República, Itamar Franco, o Procurador Geral da República, Aristides Junqueira, o Ministro da Cultura, Jerônimo Moscardo, o Governador de Minas Gerais, Hélio Garcia, o Cardeal Primaz do Brasil, Dom Lucas Moreira Neves, os deputados Aécio Neves, Paulo Delgado e Antônio Fuzatto, o delegado da Polícia Federal, Egberto Azevedo, e todas as instituições públicas e privadas relacionadas à preservação da memória nacional.

Felizmente o asfaltamento não chegou ao percurso da rua onde a arquitetura é homogênea e, apesar de - à época - depreciar a imagem da cidade como conjunto histórico original e preservado, abriu ainda mais os olhos da sociedade são-joanense para o valor que tem o patrimônio cultural de São João del-Rei. E também para o dever - e direito! - que a cidade tem de preservá-lo. Além disso, deixou claro, para proprietários de imóveis de valor histórico e para gestores públicos, a responsabilidade de serem zelosos, cautelosos, informados e orientados tecnicamente em relação a tudo o que se refere ao patrimônio, à cultura, à história e à memória de São João del-Rei. Pois, mesmo sendo bens locais, dizem respeito, e portanto pertencem, ao povo brasileiro.

Para acompanhar, passo a passo, o enredo e desfecho desta história, basta acessar principalmente os arquivos do Jornal do Brasil, Jornal de Brasília, Folha de São Paulo, O Globo, Estado de Minas, O Estado de São Paulo e Correio Braziliense, no período de 21 a 30 de setembro de 1993.

Eis algumas manchetes:
. Itamar manda PF embargar obra em São João Del-Rey (CB, 24/09)
. Asfalto Selvagem (JB, 26/09)
. PF para obra em São João Del-Rey / Policiais cumpriram ordem direta de Itamar, mas o prefeito garante que está certo (JB,25/09)
. Itamar manda PF parar obra de prefeito de S. João Del Rey (JB, 24/09)
.Prefeito agride centro histórico ((JBr, 21/09)
. Prefeito desafia a Justiça (JB, 26/09)
. Ministro é encarregado de embargar asfaltamento (CB,23/09)
. PF não para asfalto em São João del Rey / Intervenção da Polícia Federal ordenada por Itamar visava interromper obra em rua do centro histórico (FSP, 25/09)


sábado, 26 de outubro de 2013

Corações negros de São João del-Rei teluricamente batem como tambor por Nossa Senhora do Rosário


Pela intensidade e fervor das manifestações religiosas que há mais de trezentos anos são realizadas em São João del-Rei - antes pelos escravos e, depois, por seus descendentes - logo depois que começa a primavera, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, pode-se dizer que outubro é o sagrado mês negro desta terra. Afinal, desde 1708 Nossa Senhora do terço é madrinha do povo que veio da África e há três séculos vive ao longo e em torno da Serra do Lenheiro.

Caixas, tambores, vozes, bandeiras, rosários, fitas, flores, espelhos, olhares - tudo ressoa, pulsa, vibra, brilha, tremula nos grupos de congada de São João del-Rei e arredores. Homens, mulheres, crianças, idosos, unindo ontem e hoje, dois tempos, neste mês se juntam em grupos e ternos para praticar uma devoção muito antiga, iniciada em 1208.Foi naquele distante ano que Nossa Senhora do Rosário apareceu a São Domingos de Gusmão e lhe entregou um terço de 150 contas. Isto, exatamente 500 anos de ser criada a Irmandade de Rosário dos Homens Pretos de São João del-Rei.

Passaram-se séculos e a tradição dos congados continua, tão autêntica, original, independente e pura como era antigamente. A mesma energia impulsiona o corpo, a mesma emoção arrepia a pele, a mesma emoção faz bater o coração dos congadeiros. Isto é o que mostra o DVD Esse rosário é meu, que colheu depoimentos de congadeiros de várias cidades do Campo das Vertentes, capitaneadas por São João del-Rei.

O DVD é um documentário precioso e foi lançado no mês de maio - também mês de Maria - no conjunto das atividades do Encontro dos Congadeiros das Vertentes, que deu origem ao site http://congadeironasvertentes.com/projeto/os-congadeiros-contam-que/ e merece ser visitado.

Amanhã, quando no entardecer do último domingo do mês de outubro, Nossa Senhora do Rosário sair de sua trissecular igreja e percorrer ternamente as ruas coloniais de São João del-Rei, que como sempre seja generosa com seu olhar para este povo que vive à sombra da Serra do Lenheiro. Principalmente para os negros, pretos, pardos, mulatos, criolos e morenos tão longo foi o caminho que percorreram para chegar até aqui e tão longe ainda se encontram de chegar ao lugar que merecem.

Assista, no link abaixo, na íntegra, o vídeo Esse Rosário é meu

http://congadeironasvertentes.com/documentario-esse-rosario-e-meu/

...........................................................................
Sobre o mesmo assunto, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/05/congadeiros-colorem-o-ceu-o-chao-e-o.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/10/em-sao-joao-del-rei-no-mes-de-outubro.html


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco do Salto, veiazinha de um coração colonial

O Beco do Salto é como uma veiazinha estreita e acanhada, na aurícula mais colonial do coração histórico de São João del-Rei. Unindo a Rua Santa Teresa à Rua Santo Elias e desaguando em esquina da casa mais antiga da cidade, tem por vizinhos próximos, quase porta a porta, uma grande pedreira com uma mina de ouro, a igreja e o Cemitério do Carmo, o Chafariz da Municipalidade, o Largo da Cruz, o Largo do Carmo e a Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei.

Tão grande e por tanto tempo foram sua timidez e autoabandono que suas casas quase se autoarruinaram. Hoje, com restaurações, estão novamente reforçando sua face de outros tempos. A memória nacional ganha com isto.

Personagens famosos, verdadeiramente importantes na cultura musical de São João del-Rei, moradores de um pequenino sobrado no Beco do Salto, foram o violinista Geraldo Ivon da Silva, o Geraldo Patusca, e sua primeira esposa, Maria José, a Maricota - ambos músicos da Orquestra Lira Sanjoanense. Ali, sob estampas de São Miguel Arcanjo, atacando o demônio, e Santa Cecília, dedilhando sua harpa, Patusca dava aulas de música. Na orquestra mais antiga das Américas, por mais de sessenta anos, foi o primeiro violino, tendo ao lado Maricota, que o acompanhava com arco e viola.

O Beco do Salto é das vielas mais curtas e estreitas existentes em São João del-Rei. De esquina a esquina, tem apenas seis casas de não mais que uma porta e uma janela. Daí pensar-se que seu nome não deriva da conhecida parte destacada da sola dos sapatos, mas sim dos poucos passos que se precisa dar para atravessá-lo de ponta a ponta. É um pulo!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Saúde pública e serviço social nas primeiras décadas da Vila de São João del-Rei



A elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de Vila, em 8 de dezembro de 1713, deu a São João del-Rei, não somente um novo status sócio-geopolítico-administrativo na Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Possibilitou e favoreceu a implantação pioneira de alguns serviços públicos essenciais que, como sementes do respeito ao direito de cidadania, proporcionavam melhores condições de vida aos que habitavam nas cercanias da Serra do Lenheiro.

Um destes serviços foi a saúde. Consta que em 22 de outubro de 1718, portanto há 295 anos, a Câmara contratou o médico português José de Macedo Correa, formado pela Universidade de Coimbra, para "curar os pobres de graça". Por este trabalho ele receberia, anualmente, 1 libra de ouro. Foi, assim, Dr. Macedo o primeiro médico que se instalou na Vila de São João del-Rei.

Para esta contratação, a Câmara tinha um bom argumento: "estavam morrendo muitos escravos, por não haver quem lhes conheça os achaques para os curar, e mesmo muitos brancos se veem precisados a retirar-se para a Cidade do Rio de Janeiro, para se curar".

Com a mesma intenção, no dia seguinte, agora no ano de 1769, a Irmandade de São Miguel e Almas contratou o cirurgião José da Silva Lapa e o boticário Amado da Cunha Barreto "para prestarem assistência gratuita aos enfermos pobres". Comprometida com causas sociais, a Irmandade das Almas chegou a construir o alicerce, em terreno doado pelo Senado da Câmara, daquele que seria o primeiro hospital da Vila de São João del-Rei.
..........................................................................
Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

sábado, 19 de outubro de 2013

Em São João del-Rei, no mês de outubro, salve Nossa Senhora do Rosário!

Em São João del-Rei, antes que em qualquer outro lugar de Minas

                     "Bendito, louvado seja ô ganga,
                       o rosário de Maria!
                       No mundo, já era noite, ô ganga.
                       Lá no céu, parece dia...

Foi por meio de nossa cidade que a Senhora do Rosário desceu nas terras mineiras. Antes que surgisse o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, ela ainda não havia chegado nas regiões onde o ouro brilhava qual as estrelas. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São João del-Rei é a mais antiga de Minas Gerais. A segunda mais velha do Brasil. Como não se orgulhar disso? Como não ser grato à Senhora do Rosário por esta preferência pelos são-joanenses, a quem, desde a madrugada do século XVIII, oferece o Menino Jesus e o rosário da salvação? Como não se rejubilar por esta distinção?

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Negros de São João del-Rei foi fundada em 1708, quando fervia na região a sangrenta Guerra dos Emboabas. Nenhuma vila tinha sido instituída na Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Isto mostra que os negros africanos fixados naquela região, posicionando-se além da condição de escravos, estavam organizados a ponto de criar uma entidade de representação legítima, reconhecida pela Igreja colonial. Tanto que instituíram uma irmandade - o que era alheio à sua cultura - antes mesmo que os negros dos demais arraiais mineiros e que os brancos do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes fundassem a Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Como outubro é o mês do Rosário, São João del-Rei celebra com muita devoção e entusiasmo Nossa Senhora que tem esta invocação. Sobretudo nas periferias e distritos do município, as congadas tocam caixas e entoam cantos muito antigos, que bem lembram o tempo da escravidão. Vestidos de branco, com saiotes ou não, e com chapéus enfeitados de flores, fitas e espelhos, os congadeiros, em sua maioria homens, realizam cerimônias plenas de fé, respeito, magia, mandingas e encantamentos. Por meio da congada eles voltam à mãe-África e reafirmam, teluricamente, suas origens e identidades.

No centro histórico, as celebrações têm cunho barroco. Missas, reza do terço, toque de sinos, música de orquestra colonial, procissão, queima de fogos e canto do Te Deum Laudamos. Este ano, a Irmandade do Rosário homenageia Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva - Padre Paiva, como atende e é querido por todos.

Em 2013 comemorando 60 anos de sacerdócio, Padre Paiva é um dos baluartes da tradicionalidade das celebrações de São João del-Rei. A ele, os são-joanenses devem, além da preservação dos ritos barrocos das festas religiosas, entre outras ações e posicionamentos, a criação do Museu de Arte Sacra e o resgate, a recuperação e a restauração dos altares e teto que motivaram a construção da capela do Divino Espírito Santo.

Por tudo isso, que Nossa Senhora do Rosário conceda ao hoje octogenário Padre Paiva um ano de vida em cada conta do terço que ela e o Menino Jesus, generosamente, oferecem aos são-joanenses, faça sol, faça lua ou faça chuva. O terço tem mais de150 contas...

Em louvor a Nossa Senhora do Rosário e em homenagem a Padre Paiva, clique no link abaixo e ouça um tencão  e um floreado,tocados magistralmente nos sinos da Igreja do Rosário de São João del-Rei e gravado por Helvécio Benigno.





terça-feira, 15 de outubro de 2013

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco do Capitão do Mato do sagrado ao pecado, perdição


Entre os velhos becos da colonial São João del-Rei, um era o mais desgraçado. Caminho da maldade e do pecado, era o Beco do Capitão do Mato.

Numa ponta, imaculada, a pureza e a bondade. Torre branca, muitas portas, tudo para a capela do Santíssimo Sacramento, em eterna adoração, na igreja do Carmo. Na outra, pura obscuridade: mulheres de vida livre, serenatas, rufiões, risadas, bandidos, gemidos, pervertidos, miseráveis, jogatinas, cachaçadas. No caminho de pedra e poucos passos, entre virtude e desgraça, morava a crueldade do solitário capataz que a alma ao diabo, em troca de ouro, entregara.

O tempo passou. Adeus Margarida Tomba-homem. Adeus Helena dos Cachos. Adeus Índia Paraguaia. Adeus escravidão. Adeus capitão do mato...

Estreito e simpático, entre a igreja do Carmo e a Rua da Cachaça, o Beco do Capitão do Mato é hoje uma rota inocente, de pedra calçada. Tanto que, na voz do povo, tem nome infantil: Beco da escadinha, Beco do Carmo. Visto da parte mais alta, parece um minúsculo teatro de arena, abrindo para um cenário barroco de casinhas singelas, com portais coloridos, onduladas beiras-seveiras, pingentes lambrequins, sanefas rendilhadas.

Suas casas têm cruz de papel repicado na porta. Sente-se, nele, coloridos vasos floridos que não há. Ouve-se, nele, música suave que ninguém toca ou canta. Do pecado, nem mais sinal nem lembrança. Hoje, quando ninguém está vendo, é atalho de anjos dourados que, apressados, cortam as ruas rumo aos altares do Carmo.
...........................................................................
Fonte: GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura - FAPEC São João del-Rei / Fundação Mariana Resende Costa. Contagem, 1994.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco Sujo tem flores de cidadania e civilidade

Por mais belos e delicados que pudessem ser, antigamente, em São João del-Rei, becos não eram locais nobres. Eram como atalhos, vielas que não alcançaram a condição de rua, tamanhas sua estreiteza, pequena extensão e desprezada importância. Gente de bem não morava em beco.

Na velha São João del-Rei, também não costumavam ser caminhos por onde passava quem queria ou podia ser visto. Muito pelo contrário, estes trajetos traziam em sua reputação algo de clandestino, escuso, suspeito, condenável. No discurso popular "campear nos becos", não era coisa de gente direita, decente, bem-intencionada. Mas os becos sempre foram locais poéticos, singulares, autênticos caminhos que levavam  sorrateiramente a seu destino quem, por pressa, vergonha, acanhamento ou atitude duvidosa, não desejava ser interrompido ou reconhecido.

À noite eram (e ainda hoje são) caminhos arriscados. Ninguém nunca sabe o quê nem quem pode encontrar em uma curva fechada e estreita, em um ângulo agudo, por sua sinuosidade às vezes mal iluminado. Por isso, neles podiam estar espreitando a má surpresa, o azar, a emboscada e o perigo. Cruz Credo! Creio em Deus Padre...

Mesmo com a urbanização, muitos becos sobreviveram ao progresso e mantiveram o traçado irregular e espontâneo dos tempos coloniais. Este da foto, por exemplo, é o Beco Sujo - tão antigo e central quanto sem nome mais pomposo. Faz uma ponte entre a Rua Padre Faustino e a Praça Dr. Antônio Viegas, no centro, passando pelo Morro Manuel José. Sua travessia era perigosa porque contornava o precipício de uma beta de ouro, fechada e não mais ativa.

Hoje não merece mais o nome que tem. A civilização e a urbanidade livraram-lhe do castigo de ser uma latrina a céu aberto. E a moradora Dinha - da Carmélia e do Machadinho - adotou-o como entrada de sua casa. E, alegre, cantarola ao varrê-lo toda manhã, quando também joga água em sua areia para não formar poeira. Até construiu uns degraus que lhe deram solenidade. Tão limpinho e bonito está que parece Dinha ter plantado neste jardim de sua casa flores de cidadania e civilidade. Um jardim imaginário que perfuma quem por ali passa...

domingo, 13 de outubro de 2013

Tapetes de flores de São João del-Rei: arte-manifesto lembra que "os sonhos não envelhecem"

Areia, serragem, sementes, flores. Gestos delicados, contornos cuidadosos, concentração, cordialidades, sorrisos. Cores. Muitas cores, escorrendo entre os dedos a formar símbolos sagrados, paisagens celestiais, querubins, cálices, pietás, sudários, estrelas, rocalhas, volutas, rendilhados. É deste modo que o céu desce ao chão em forma de tapete processional e se alastra nas ruas de pedra durante as festas religiosas de São João del-Rei.

Mas como tudo na cidade, esta história já vem de um bom tempo. E o tempo passa a favor de São João del-Rei.  Este ano, quando se completam 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes a Vila de São João del-Rei, completaram-se, no mês de abril, 30 anos da re-criação dos tapetes de serragem e flores como expressão artística, arte-manifesto em favor da preservação e valorização turístico-cultural da quarta vila do ouro instituída em Minas Gerais.

Tudo começou em 1983 numa conversa de jovens que começou em uma exposição de arte e artesanato mineiro e se prolongou entre cervejas numa mesa de bar. "Nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar", naquela época cantava Milton Nascimento. Mas muita coisa às vezes se renova a partir de uma conversa de amigos na mesa de um bar.

Foi isto o que aconteceu: fruto de uma conversa apaixonada, traçaram-se novos rumos para os tapetes de flores e serragem que até então decoravam o trajeto barroco por onde passavam andores enfeitados, anjos e personagens bíblicos das procissões são-joanenses.

O sonho foi tão iluminado que já atravessou três décadas e hoje constitui uma das mais belas e peculiares expressões artísticas coletivas de São João del-Rei. Cumpre funções múltiplas e quer em beleza, esplendor, originalidade, proposta estético-social, democracia, participatividade e tantas outras, torna São João del-Rei uma cidade singular no conjunto das demais cidades históricas brasileiras.

A história completa desta nova forma de expressão da arte coletiva de São João del-Rei você pode ler no artigo "Vistos assim, do alto, mais parecem o céu no chão...", publicado nos seguintes links:

          http://saojoaodelreitransparente.com.br/works/view/61

         http://www.gazetadesaojoaodelrei.com.br/site/2013/10/especial-300-anos-vistos-assim-do-alto-mais-parecem-o-ceu-no-chao/


A foto, do arquivo de Rita Hilário, mostra o grupo de amigos, jovens bandeirantes desta empreitada, em 1984, segundo ano em que os tapetes de rua ganharam novo conceito e finalidade. Na Semana Santa daquele ano foram confeccionados dois tapetes figurativos, em dias alternados: a Rua Santo Antônio e o Arcanjo em detalhe.



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Crianças: a Arca da Memória de São João del-Rei

Quando se fala na preservação da memória e perpetuação da cultura de São João del-Rei, não se pode esquecer de um segmento muito importante: as crianças. São elas que, por gerações, levarão acesa na lembrança a chama da história do que nos legaram nossos antepassados. Que perpetuarão séculos afora, com amor, zelo e compromisso, as crenças, esperanças, tradições, sabedorias e saberes aqui construídos e cultivados há mais de três séculos. O dia 12 de outubro - Dia da Criança - é bom para se lembrar disto.

Pensando assim, é preciso cada vez mais inserir a criança no universo cultural de São João del-Rei. Nas tradições barrocas, como as procissões e outras festas religiosas. Nas expressões populares, como congada, folia de reis, carnaval, artesanato. Em todas as artes, sejam música, teatro, literatura, dança ou artes plásticas. Na gastronomia...

Na vanguarda de outras cidades, São João del-Rei já desenvolve algumas ações neste sentido. Em relação aos tapetes processionais, isto já é feito toda Semana Santa pela ONG Atitude Cultural, que também inclui as crianças no Carnaval de Antigamente. Sabe-se, ainda, que alguns museus desenvolvem ações de educação patrimonial, promovendo visitas guiadas de turmas de escolas públicas a estes espaços de memória e a áreas do centro histórico local. Mas São João del-Rei precisa - e pode! - fazer mais.

Qual são-joanense, quando criança, não se encantou com o toque dos sinos? Não despertou do sono matinal para atender ao apelo convidativo que vinha do apito da maria fumaça? Não viu brotar água na boca diante da nuvem de algodão doce que surgia na bacia que rodava na carrocinha e do cheiro inigualável do beijo quente que misturava coco,afeto e açúcar queimado? Não desejou tanto ganhar cartucho ou carregar turíbulo de incenso em brasa e naveta de prata nas procissões? Desde cedo, na identidade são-joanense, cultura, memória, patrimônio e tradições, mais do que as linhas da mão, são nossas próprias impressões digitais.

Hoje, nota-se pequena participação infantil protagonista nas manifestações culturais de São João del-Rei, sejam nas barrocas, como meninas (e também meninos) vestidos de anjo nas procissões ou meninos (e também meninas) tomando parte em irmandades, seja nas populares, meninos e meninas, nos grupos de congada e folias de reis. Mas este quadro pode mudar. Basta que os adultos tomem a iniciativa e façam sua parte,  incentivando e facilitando para que seus filhos, sobrinhos e netos comecem a enriquecer sua história pessoal fazendo parte de tradições tão importantes e únicas, como as de São João del-Rei. E que neste sentido tenham apoio de irmandades, grupos de congada e folia, corporações musicais e outras entidades envolvidas.

Lembrança temporã - Empreendimento precioso, merecedor de todo reconhecimento, foi a criação do grupo Pastorinhas do Menino Jesus, por dona Júlia há mais de 30 anos. Reunindo crianças da Ponte das Águas Férreas, no bairro Tejuco, as pastorinhas alegraram o ciclo do Natal de muitos são-joanenses. Tomara que voltem em 2013!

Veja, numa reportagem da TV Campos de Minas, a participação de crianças no Congado do distrito são-joanense de Rio das Mortes
.........................................................................
Foto: Anjinhos na procissão do Senhor dos Passos - 1999. Cortesia Ulisses Passarelli